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 Sobre a Deficiência Visual

Funções de um Celular para Pessoas Cegas

- algumas exclusivas, outras, não -


Joyce Guerra Jobis
 

ícones que representam cegueira: bengala, cão-guia, óculos escuros

 

Funções:

  • Ler rótulos de alimentos;
  • Encontrar coisas caídas pelo chão;
  • Ler códigos QR;
  • Checar data de validade de produtos (tem que ter pacieeeeenciiiiia! e nem sempre rola);
  • Ter uma ideia do que trata aquele envelope estranho na caixa de correio;
  • Saber o que está fotografando;
  • Saber se a fotografia ficou boa ou não, quantas pessoas foram fotografadas, qualidade da luz, etc;
  • Garantir que você não fez um carnaval na cara antes de sair de casa;
  • Whatsapp;
  • Usar a tela para escrever em braille, para aumentar a produtividade e fazer inclusão de verdade;
  • Ouvir o seu livro favorito enquanto... escova os dentes / toma banho / tenta dormir / tenta não dormir;
  • Praticar meditação guiada;
  • Praticar meditação não guiada;
  • Colocar um livro de receitas para fácil consulta e fácil inserção de novas receitas;
  • Usar o timer para não queimar essa mesma receita;
  • Lembretes de localização - para uma pessoa esquecida como eu, é indispensável;
  • Para saber em que rua está e para que rua está indo;
  • GPS, traçar rotas;
  • Para saber o que tem ao seu redor, muitas vezes, literalmente, na sua cara, só que, como você não enxerga, dificilmente saberia sem um olho amigo, o que nem sempre está disponível;
  • Ler matéria da escola / faculdade;
  • Fazer pesquisas no Google;
  • Certificar-se de que suas roupas estão combinando (alguns têm mais dificuldade com isso que outras pessoas);
  • Saber se está pondo na sua máquina de lavar roupa amaciador ou desinfetante;
  • Ler os botões da sua máquina (nem sempre rola, mas é possível), etc, etc, etc...

 

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Aí você menciona para uma pessoa supostamente ligada à questão da deficiência visual que o celular é um item indispensável de acessibilidade, ela te dá um risinho sarcástico e diz: de lazer, né?

O problema não é você não saber; é você achar que sabe e não querer aprender.

Não dá, eu disse. Não dá... Para você saber sobre deficiência - sem ouvir e conviver com o próprio deficiente.

Se eu digo que o celular é um item de acessibilidade indispensável, minha palavra tem peso. Porque eu sou cega 24 horas por dia e empenho a minha vida na busca de soluções de acessibilidade e qualidade de vida, afinal, simplesmente não tenho outra escolha. Não é o meu trabalho; é a minha existência. Eu sou obrigada a isso.

Esse pessoal formado em curso de pós graduação semanal, que sai achando que manja tudo de deficientes, tendo tido basicamente aula teórica, é complicado, porque confunde titulação com vida prática. Se eles tivessem de conhecimento e humildade o que têm de arrogância, certamente a inclusão não seria um sonho, mas uma realidade consolidada.

O problema é que, muitas vezes, são pessoas com esse conhecimento pífio que orientam familiares de portadores de deficiência.
 

 

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7.Abr.2016
publicado por MJA