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 SOBRE A DEFICIÊNCIA VISUAL

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Lucas Tchata, o professor dos deficientes visuais do Cuando Cubango

DW.COM | 11.01.2022
Autoria Adolfo Guerra (Menongue)

Na província angolana do Cuando Cubango, um professor dedica-se a ensinar braile e outros conteúdos aos deficientes visuais em Menongue. Lucas Tchata perdeu a visão em 1984, mas não desistiu dos estudos.

Segundo o censo geral da população e habitação realizado em 2014, Angola tem mais de 650.000 portadores de deficiência, o que representa 2,5% da população. Destes, 58.921 são deficientes visuais.

Ver vídeo aqui: https://www.dw.com/pt-002/lucas-tchata-o-professor-dos-deficientes-visuais-do-cuando-cubango/av-60276873

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MJA | 16.Jan.2022


Instituição chinesa sem fins lucrativos usa tecnologia de conversão de texto em fala para expandir o acesso a audiolivros para deficientes visuais

Microsoft


Na China, produzir audiolivros exige muito tempo e dinheiro, por isso, as pessoas com deficiência visual acabam carecendo de textos necessários, seja para educação, trabalho ou diversão. Por esse motivo, a instituição sem fins lucrativos Hongdandan Visually Impaired Service Center usou o Custom Neural Voice, uma nova funcionalidade de conversão de texto em fala dos Serviços Cognitivos do Microsoft Azure, e a plataforma Audio Content Creation para criar rapidamente audiolivros de alta qualidade com o uso de IA. [...]

Criação mais rápida de audiolivros
Um audiolivro convencional, que é lido por um voluntário ou locutor, pode levar semanas, ou até meses, para ser produzido. A Hongdandan queria acelerar o processo e aproveitar que a IA pode fazer exatamente isso.

A plataforma Audio Content Creation disponibiliza vozes previamente produzidas com o uso de IA. Usando a tecnologia TTS, essas vozes leem qualquer texto com muito mais naturalidade do que as tecnologias anteriores. A Microsoft oferece mais de 140 vozes neurais pré-produzidas em mais de 60 idiomas para clientes que desejam adicionar rapidamente funcionalidades de leitura ou dar voz a um chatbot. Essa tecnologia de conversão de texto em fala neural (NTTS) é capaz de converter texto em um audiolivro digital em questão de minutos.

Voluntários da Hongdandan e da Microsoft foram treinados para usar a plataforma Audio Content Creation, que não exige programação ou experiência técnica. Os voluntários podem ouvir gravações para sintonizar a pronúncia, o tom e muito mais, para personalizá-las conforme o estilo e o significado dos livros.

Personalização da experiência do audiolivro
A Hongdandan deu um passo além com a criação de duas vozes personalizadas e marcadas para os audiolivros que produz. Dong doou a própria voz para um deles. “Fiquei impressionada com a clareza com que ele captura as características da minha voz”, surpreende-se ela.

O processo é simples e leva uma fração do tempo que outros programas de TTS exigem. Primeiro, Dong gravou a leitura de quase 500 frases. Em seguida, o Custom Neural Voice usou esses dados da fala para treinar a voz sintética “Lina”, que soa natural, como se uma pessoa real estivesse falando. Quando o modelo de voz sintética é treinado e disponibilizado para converter texto em fala, os usuários conseguem ajustar ainda mais o áudio de várias maneiras, como entonação, volume e pronúncia.

Com esse processo simples, sem uso de código, os usuários não precisam de uma extensa tecnologia nem conhecimento de ciências da computação. Eles conseguem criar rapidamente vozes realistas e humanas com apenas um décimo dos dados que as tecnologias anteriores exigiam. “Ficamos surpresos com a rapidez com que a Microsoft conseguiu reproduzir a voz de Lina de forma tão natural com seus dados de fala e nos permitiu criar audiolivros educacionais com muito mais rapidez”, Zeng relata.
 

texto integral aqui: https://news.microsoft.com/pt-br/instituicao-chinesa-sem-fins-lucrativos-usa-tecnologia-de-conversao-de-texto-em-fala-para-expandir-o-acesso-a-audiolivros-para-deficientes-visuais/ (18 maio , 2021)

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MJA | 6.Jan.2022


4 de Janeiro é o Dia Mundial do Braille


A resolução seguinte, pela qual fica proclamado o Dia Mundial do Braille - 04 de Janeiro -, foi aprovada em Novembro de 2000 na V Assembleia Geral da União Mundial de Cegos realizada em Melbourne, na Austrália.

  • CONSIDERANDO QUE: o braille tem se revelado um meio eficaz de comunicação para os cegos, os surdo-cegos e para os deficientes visuais desde 1929, ano em que foi inventado em Paris (França) por Louis Braille;

  • CONSIDERANDO QUE: o braille é equivalente às letras comuns impressas;

  • CONSIDERANDO QUE: o braille é um sistema de leitura e escrita eficaz para os cegos, os surdocegos e os deficientes visuais;

  • CONSIDERANDO QUE: o braille é um elemento básico para a alfabetização, a independência e a consecução de um emprego;

  • CONSIDERANDO QUE: o braille significa para os cegos, os surdocegos e os deficientes visuais a possibilidade de usufruir de liberdade intelectual, segurança pessoal e igualdade de oportunidades;

  • CONSIDERANDO QUE: saber ler e escrever em braille é essencial para o desenvolvimento pessoal no meio social e económico,


A V Assembléia Geral da União Mundial de Cegos, celebrada na cidade de Melbourne, Austrália determina:

CONSIDERANDO QUE: a União Mundial de Cegos vem promovendo a alfabetização em braille em todo o mundo como direito humano fundamental para todos os cegos, os surdocegos e os deficientes visuais;

CONSIDERANDO QUE: a União Mundial de Cegos apoia firmemente a alfabetização em braille como ferramenta para garantir que as pessoas cegas, surdocegas e deficientes visuais tenham acesso à igualdade e à liberdade universais e a convicção de que podem tomar parte no futuro vibrante do mundo, no campo social, político e econômico.


QUE o dia 04 de Janeiro, data de nascimento de Louis Braille, seja declarado como Dia Mundial do Braille.

AINDA se resolve que a União Mundial de Cegos exorte a Organização das Nações Unidas a aprovar e declarar o dia 04 de Janeiro como "Dia Mundial do Braille". (nota: O que veio a acontecer em 2018)

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MJA | 4.Jan.2022


 

Bombeiros de Viana - em parceria com a Íris Inclusiva - lançam manual de primeiros socorros em braille

Fernando André Silva |O Minho | 03/01/2022


Já existe um manual de primeiros socorros em braille que pretende proporcionar às pessoas cegas e com baixa visão conhecimentos e competências básicos na área da atuação de primeira linha em situações de emergência. Foi lançado pelos Bombeiros Voluntários de Viana do Castelo em parceria com a Associação Íris Inclusiva e tem o apoio da Câmara local.

Em comunicado, a Íris Inclusiva salienta que o livro está escrito com grafia dupla (em braille e a negro), para que as pessoas sem dificuldades visuais também o possam ler.

“O seu conteúdo releva da partilha de necessidades e experiências ao longo de vários momentos formativos de encontro entre profissionais e pessoas cegas e com baixa visão e seus familiares, resultando numa síntese simples, clara e acessível, que pode ser utilizada por qualquer cidadão”, salienta a associação.

Explica a Íris Inclusiva que o braille é uma ferramenta essencial no contexto da educação, liberdade de expressão e opinião, bem como de acesso à informação e comunicação escrita.

“A Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência reconhece a importância fulcral deste sistema de comunicação para a inclusão social das pessoas cegas, para a plena realização dos seus direitos e para o exercício completo da cidadania”, finaliza o comunicado.
 

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MJA | 3.Jan.2022


 

Fundação Dorina Nowill para Cegos reforça a importância do Sistema Braille na vida de pessoas cegas ou com baixa visão

Jornal Dia-a-Dia | Daniel Suzumura | 3 de janeiro de 2022


Celebrado anualmente em 04 de janeiro, o Dia Mundial do Braille reforça a importância da alfabetização de pessoas cegas ou com baixa visão. O Sistema Braille nasceu na França, em 1825 e a linguagem foi criada por Louis Braille que perdeu a visão aos três anos de idade. Anos após o ocorrido, ele desenvolveu um alfabeto que possibilita a escrita e leitura, através da combinação de 1 a 6 pontos entre si.

Até hoje, o Sistema Braille é a única forma de alfabetização de crianças cegas ou com baixa visão, pois incentiva o contato direto com textos escritos, além de acionar a mesma área do córtex cerebral que é utilizada com a leitura visual. Por se tratar de uma forma universal de escrita, também pode ser adaptado a diversos alfabetos do mundo – recentemente, ganhou escrita Guarani, no Paraguai.

Nos últimos anos a tecnologia vem se sobrepondo a essa linguagem – os recursos digitais, ao mesmo tempo que ajudam na educação e profissionalização de pessoas com deficiência visual, se tornam um risco para extinção do Sistema Braille, pois promovem outras formas de leitura.

“Mais do que nunca precisamos abraçar os recursos tecnológicos voltados à acessibilidade e utilizar essas ferramentas. No entanto, não podemos deixar de lado o Sistema Braille, que há quase 200 anos vem contribuindo para o aprendizado das pessoas cegas ou com baixa visão. É necessário entender que este método ainda é a forma mais importante de autonomia que as pessoas com deficiência visual podem ter”, comenta Regina Oliveira, Coordenadora de Editorial e Revisão da Fundação Dorina Nowill para Cegos.

Fredric K. Schroeder, vice-presidente da Federação Nacional dos Cegos dos EUA, vem alertando para o fato de que cerca de 90% das crianças cegas americanas já estão crescendo sem aprender a ler e escrever. Para ele, isso acontece justamente porque elas estão optando por recursos digitais em detrimento ao Braille, preferindo uma leitura passiva e não estimulante – um fenômeno que muitos chamam de desbraillização.

Se essa realidade não for mudada, em breve todas as crianças que nascerem cegas ou que perderem a visão na primeira infância, serão consideradas analfabetas funcionais. Por isso, o papel da sociedade é importante, pois, ao incentivar a alfabetização em Braille, o aluno passa a ter autonomia, e vai aprender ortografia e toda a simbologia das diferentes áreas do conhecimento (português, matemática, física etc.).

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MJA | 3.Jan.2022


 

Pianista cego Ignasi Cambra acusa TAP de discriminação

DN/Lusa | 01 Janeiro 2022


Companhia aérea, que não o deixou embarcar com o cão-guia, diz estar a rever as práticas.

O pianista espanhol Ignasi Cambra, cego, acusou a TAP de o ter "discriminado completamente" no dia 30 de dezembro, ao não deixá-lo embarcar com o seu cão-guia, e a companhia aérea lamentou o sucedido, garantindo estar a rever procedimentos.

Através das redes sociais, Ignasi Cambra disse que ficou "preso" durante algumas horas no aeroporto de El Prat -- Barcelona: "[A TAP] recusou deixar-me viajar com o meu cão-guia".

O músico adiantou que reservou o voo na quarta-feira (dia 29) à noite e tentou enviar o formulário necessário para o website para dizer que estava a viajar com um animal de assistência, mas o envio "não funcionou".

"Por isso, fui ao balcão, como faço sempre numa situação como esta, e eles simplesmente recusaram-se a levar-me com o meu cão, porque dizem que eu não os informei com mais de 48 horas de antecedência", referiu.

Perante o sucedido, o pianista deixou uma questão: "Como é suposto eu avisá-los com 48 horas de antecedência quando reservei o voo na noite anterior? Isto significa que, como cego que viaja com um cão-guia, não estou autorizado a reservar um voo de última hora como todos os outros?"

O músico sublinhou que tentou contactar o pessoal da companhia aérea portuguesa por telefone, durante uma hora, "sem sucesso". Finalmente, como "favor", explicou, foi-lhe permitido embarcar noutro avião, mas acabou por só chegar a Portugal ao meio-dia de sexta-feira.

Ignasi Cambra questionou, em tom irónico, se deve agradecer à companhia por fazer "uma exceção à sua regra".

A Lusa contactou a TAP, que, num comentário por escrito, "lamenta o ocorrido e o transtorno causado por esta situação", e garante que "está a rever os procedimentos no sentido de agilizar o processo de futuro".

Porém, salienta que para assegurar o melhor serviço possível no transporte de animais, e alertar todos os envolvidos, "é necessário reservar o serviço com antecedência".

Não tendo sido possível neste caso, "a TAP diligenciou para que o passageiro e o cão-guia fossem acomodados o mais rapidamente possível, no voo imediatamente seguinte, tendo assim embarcado algumas horas depois do originalmente previsto", concluiu.
 

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MJA | 2.Jan.2022


 

Argentina: uma Biblioteca Digital para todos

ONU Brasil


Por meio de financiamento da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), e em colaboração com editoras argentinas, a Tiflolibros/Tiflonexos Asoc Civil, uma biblioteca digital para cegos, produziu 800 livros didáticos em espanhol.

As obras são para pessoas com deficiência visual ou com incapacidade de leitura de material impresso. O acesso a estes livros foi facilitado pelo Tratado de Marrakech – cujo nome oficial é Tratado de Marrakech para facilitar o acesso a obras publicadas às pessoas cegas, com deficiência visual ou com outras dificuldades para acessar texto impresso, adotado em junho de 2013. A Argentina foi um dos Estados que adotou a convenção internacional.

Saiba mais em: www.tiflolibros.com.ar

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MJA | 2.Jan.2022


 

Trabalhar no escuro, brilhar na vida: a integração de pessoas com deficiência visual no mercado laboral

Sic Notícias | Filipa Traqueia | 23.12.2021


A cegueira tem peso na hora procurar trabalho. E não pelos melhores motivos: o estigma e o desconhecimento sobre a deficiência fecham muitas portas a quem quer uma oportunidade para integrar o mercado de trabalho e ser autónomo. Qual será o futuro de um jovem estudante cego quando terminar o curso? Dos que fizeram da resiliência o lema de vida e que conseguiram vencer no mundo do trabalho, aos casos de quem luta diariamente por uma oportunidade de voltar a mostrar as suas capacidades.

Entrar no mundo do trabalho é um objetivo per se. É um passo da vida que está associado à independência e à autonomia, mas o caminho até ao emprego de sonho nem sempre é fácil. O desemprego assombra os sonhos de quem acaba os estudos. Tomás Delfim tem 19 anos e está no segundo ano do curso de Jornalismo da Escola Superior de Comunicação Social (ESCS), em Lisboa. Deseja fazer rádio ou jornalismo de investigação, mas está certo que a sua integração no mundo do trabalho vai ser mais difícil do que o normal. Por uma razão: é cego.

“Tendo em conta a realidade do país e a minha, tenho um bocado de receio de como será. Olhando para a minha deficiência e para as deficiências no geral, acaba por haver um estigma por parte dos empregadores. Acho que isso acaba sempre por atrapalhar na hora de me chamarem para alguma vaga.”

Nas mesas de estudo colocadas nos corredores da ESCS, Tomás alterna o sonho com a realidade. O jornalismo chegou à sua vida “muito repentinamente”, depois de ter ponderado uma carreira como psicólogo. A paixão é traduzida no som das letras que o tablet de Tomás vai emitindo, como se estivesse a ditar o texto do novo artigo que está a fazer para a revista estudantil ESCS Magazine, ou o guião do novo episódio do seu podcast “Ponto de Vista”.

Ao lado estão a bengala e a mochila. O símbolo do Sporting denuncia o gosto de Tomás pelo desporto, conta que joga golbol, desde os sete anos, na equipa de Alvalade e que integra também a seleção nacional. Talvez, no futuro, o jovem venha a ter a oportunidade de singrar nos meios de comunicação social e de ter uma rubrica semanal de rádio, como José Carlos Costa. Aos 65 anos é comentador desportivo na rádio Granada.FM e correspondente do jornal espanhol “Mundo Deportivo”. Cego de nascença, habituou-se a transformar os sons das várias modalidades em imagens e soma já 40 anos de carreira ligados à informação desportiva. Lembra que já fez muita coisa, incluindo comentário em jogos ao vivo.

Nos últimos 18 anos, os domingos são especiais: a sala de estar da sua casa transforma-se numa autêntica redação, com o rádio a relatar, em espanhol, o jogo entre o Real Sociedad e o Valência e o som metálico da pauta de braille a acompanhar o cravar nas folhas de todas as informações que compõem o seu programa de 20 minutos. Em cima da mesa estão vários telemóveis e um gravador. Um deles toca: é um amigo que tem mais resultados desportivos para lhe dizer.

“É um trabalho exaustivo que requer muita força de vontade e muita alegria”, partilha com um sorriso.

Durante a semana, José Carlos é telefonista de profissão e vai todos os dias do Ribatejo para a sede do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, em Lisboa. São já 46 os anos de serviço e começa a contar os meses para a reforma. Mas não do desporto, porque tem uma “dívida” para pagar. Foi esta atividade que lhe deu razões para ultrapassar as adversidades, nomeadamente os mais de dois anos em que esteve sem trabalho, à espera de colocação, e o atropelamento de que foi vítima.

“Em 1984, o serviço de Estudos do Ambiente foi extinto e eu fui mandado para casa à espera de colocação durante dois anos e meio. Foi a minha atividade desportiva que me salvou, que me fez não entrar em depressão”, conta, lembrando que se sentia como “um parasita da sociedade”.

Na sua mesa de escritório improvisado, no canto da sala, o comentador desportivo vai apontando, à mão, os resultados das várias modalidades: futebol (nacional e das ligas espanhola, francesa, italiana, alemã e inglesa), futsal, voleibol, andebol, basquetebol e hóquei em patins. Da direita para a esquerda, vai pontuando as sucessivas páginas com informação invisível aos olhos e interpretada pela ponta dos dedos. “Sinto que estou a fazer um serviço de utilidade pública”, diz, enquanto aponta mais um resultado nas folhas reutilizadas que usa para escrever o guião do programa. Escreve tudo à mão porque tem medo de perder a informação.

Às 21:00 o telefone volta a tocar: é hora de ir para o ar. No saco de plástico as folhas escritas estão já alinhadas e chega a hora de começar.

“Olá, muito boa noite Carlos Costa. Boa noite a todos os ouvintes da Granada.FM. Saudações desportivas para todos. Vamos então iniciar o nosso périplo pelo futebol distrital, começando com a Associação de Futebol do Algarve, que teve a sua sexta jornada.”

Mas no futuro do jovem Tomás poderá também estar um lado mais negro que atinge uma grande parte da população com deficiência visual: não conseguir trabalho. Hugo Manuel, de 43 anos, conhece bem essa realidade. Seguiu um percurso académico “igual ao de muitas pessoas” da sua geração, como faz questão de reforçar. Estudou jornalismo na ESCS e teve “o privilégio de ainda exercer durante algum tempo essa profissão”.

“É uma profissão que está um bocadinho vedada – como muitas outras neste país – a quem não vê e tive de arrepiar caminho por outras áreas.”

Criou uma empresa, que fechou devido à crise do subprime. Trabalhou na área comercial, mas, “depois de passar algum tempo por aquele trabalho fantástico que é o desemprego”, decidiu arregaçar as mangas e fazer um curso de massagista na Associação Promotora de Emprego de Deficientes Visuais (APEDV), em Lisboa. E o arregaçar das mangas foi literal, porque para fazer as massagens não pode ter nada nas mãos, nem mesmo a aliança. Depois do estágio e de ter visto o contrato de trabalho terminar, está de volta à APEDV à procura de mais uma oportunidade.

“Não sei se existe estigma. Eu acho que essencialmente existe muito não saber como: não saber como integrar, como lidar, como agir, como adaptar o posto de trabalho, não saber uma série de coisas.”

Hugo reconhece que a falta de oportunidades no mercado do trabalho atinge muitas pessoas, mas lembra que “as pessoas cegas, infelizmente, são muitas vezes desvalorizadas e desconsideradas naquilo que podem e sabem fazer”.

A taxa de desemprego em Portugal atinge 6,1% da população, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), referentes ao terceiro trimestre de 2021. Entre as pessoas com deficiência visual, o valor será cerca de dez vezes superior, segundo um estudo realizado pela Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO) em 2012. A pandemia veio tornar o problema maior.

O “NÃO” DO DESCONHECIMENTO E DO ESTIGMA
Façamos um exercício: pense no seu trabalho e nas tarefas que executa diariamente. Acha que uma pessoa com deficiência visual conseguiria desempenhar essas funções? A primeira resposta a esta pergunta costuma ser “não”. A falta de conhecimento sobre os métodos de adaptação de postos de trabalho e a autonomia que uma pessoa cega tem no local de trabalho são um dos principais entraves à contratação. Este “não” é também a resposta que muitos cegos ouvem quando tentam procurar emprego.

“Quando enviava currículos era fantástico, geralmente era chamado para ir às entrevistas. Depois, quando chegava aos locais… Chegou a acontecer dizerem: ‘não, deve ser engano. Não tínhamos nenhuma entrevista marcada.’ Noutros casos diziam ‘o seu currículo é fantástico, mas, como não vê, não podemos dar-lhe esta vaga, como deve compreender’. Arranjavam uma série de barreiras para vedar o acesso ao mercado de trabalho”, conta Hugo.

A experiência é transversal: em alguma fase da vida, todas as pessoas com deficiência visual se confrontaram com este “não” que vai matando o sonho de uma carreira profissional. A partilha dos bons exemplos tem, para Graça Hidalgo, coordenadora pedagógica da APEDV, poder para mudar mentalidades. E lembra uma história que se passou quando estava a fazer telefonemas para encontrar um estágio para um formando do curso de massagista técnico auxiliar de fisioterapia. Após várias chamadas para clínicas, a responsável recebeu uma resposta que a marcou:

“Cego? Massagista? Só se for para ligar e desligar equipamentos”, disse a voz do outro lado do telefone.

“Pode fazer um bocadinho mais e eu garanto-lhe que, se quiser aceitar o desafio, vai ficar surpreendida”, respondeu Graça Hidalgo.

A coordenadora não se deixou ficar pela resposta inicial e conseguiu convencer a empresa a acolher o jovem durante o estágio. “Fez [o trabalho] de tal modo bem ou mal que havia doentes que só queriam o Leandro. Depois do estágio, ele foi contratado e penso que hoje ainda lá trabalha”, conta com orgulho.

Também Rodrigo Santos, presidente da ACAPO, defende que os casos de sucesso são o caminho para superar preconceitos que existem em diversas profissões. E realça que a inclusão de uma pessoa com deficiência visual num contexto empresarial “acaba por proporcionar uma mudança bastante positiva de mentalidade, transversal a toda a organização”.

Um estudo realizado pela associação há vários anos indicava que havia duas profissões primordiais entre as pessoas com deficiência visual: ou eram professores (se tivessem qualificações académicas de nível superior) ou eram telefonistas. Mas, atualmente, as novas tecnologias tornaram mais fácil a adaptação dos postos de trabalho e abriu-se um novo leque de possibilidades.

“A primeira barreira é sempre pensar que a pessoa, porque não vê, não consegue fazer determinadas coisas ou precisa de uma adaptação qualquer do posto de trabalho. E que essa adaptação não é razoável”, explica o presidente da ACAPO. “É preciso não encararmos as pessoas com deficiência como pessoas com uma limitação, mas percebermos que essa limitação só decorre porque o contexto onde estão não é inclusivo.”


FORMAÇÕES PROFISSIONAIS COMO UMA PORTA PARA O MUNDO DO TRABALHO

A ACAPO e a APEDV são duas das três associações em Lisboa que oferecem formações profissionais direcionadas a pessoas com deficiência visual em situação de desemprego. A ACAPO tem cursos nas áreas de atendimento ao público, secretariado e de trabalho administrativo, enquanto a APEDV disponibiliza formações de tecnologias da informação e comunicação, massagista técnico auxiliar de fisioterapia e artesanato. Mas nem sempre estes cursos abrem a porta para um posto de trabalho.

Isabel Veras, de 54 anos, já conhece bem as formações profissionais que estão disponíveis, já frequentou umas quantas. Nasceu com baixa visão e ficou cega depois de ter sido atropelada quando ia a caminho do trabalho. Na altura era embaladora numa empresa de plásticos, na zona centro, onde trabalhou durante nove anos.

Quando deixou o trabalho, ficou reformada da área das embalagens, uma situação que só descobriu quando tentava candidatar-se a um novo trabalho no mesmo setor. Depois disso, foi administrativa numa instituição de desenvolvimento e formação profissional, em Miranda do Corvo, onde era residente.

O sonho de poder ser independente e ter uma casa própria levou-a a deixar a instituição em 2008. Conseguiu cumpri-lo, mas, desde então, luta por voltar a ter um trabalho. Já perdeu a conta às formações e estágios que fez. Recorda alguns com carinho, mas mesmo fazendo um bom trabalho, no final, volta tudo ao início.

“Eu não quero mais formações, eu estou cansada das formações. Estou mesmo cansada. Porque nós criamos muitas expectativas e depois não se vê nada. Chegamos ao fim e é um estágio que acabou, pronto”, lamenta .

Tem procurado trabalho em várias áreas. Conta com a ajuda de Daniela Proença, assistente pessoal do Centro de Apoio à Vida Independente, que acompanha Isabel aos sítios onde vai deixar o currículo. Prefere entregar presencialmente, porque diz que as tecnologias não são fáceis de usar. A música dos vários rádios que tem espalhados pela casa acompanha esta busca por um emprego.

As formações que existem atualmente têm uma componente teórica e um estágio, que pretende tornar mais fácil a integração dos formandos no mercado do trabalho. São financiados pelo IEFP e incluem uma bolsa no valor de 168 euros, à qual acrescem os subsídios de transporte e de alimentação e o seguro de acidentes pessoais.

No entanto, Vítor Graça, presidente da Associação Promotora do Ensino de Cegos (APEC) – uma das primeiras escolas destinadas a pessoas com deficiência visual no país –, considera que os moldes em que se fazem as formações não responde à procura do mercado de trabalho.

“O mundo do trabalho está mais exigente, há mais competição. E, infelizmente, a maior parte das pessoas com deficiência visual não está devidamente preparada para várias áreas. Se não está preparada, não podemos pedir aos empresários que, só por ser deficiente, o coloque naquele posto de trabalho”, afirma. “De todas as formações, se calhar a única em que é ainda possível empregar algumas pessoas é a de massagista. Todas as outras têm pouca.”

A associação, que em tempos se destinava a ensinar as crianças com deficiência visual a ler e escrever, oferece agora formações “à medida”, com base nas necessidades do trabalhador.

“Nós entendemos que a formação deveria ser ao contrário, ou seja, quem devia ditar as regras do mercado não são as associações, mas sim as empresas”, acrescenta Vítor Graça, sublinhando que é também necessário tornar as formações mais inclusivas para pessoas com deficiência visual.

Segundo dados disponibilizados pela ACAPO, dos 750 apoios prestados ao emprego nos últimos cinco anos, foram conseguidas 80 integrações profissionais. A maioria aconteceu no âmbito de medidas de apoio ao emprego. Apenas 28 foram contratos de trabalho.

Na APEDV, os números não são o mais importante: “Basta conseguirmos mudar a vida de uma pessoa para a taxa de sucesso já ser boa”, afirma Graça Hidalgo. A coordenadora pedagógica da associação sublinha que a formação profissional para pessoas com deficiência visual “não pode ser medida só em resultados”.

“Há pessoa que têm muitas limitações e nós temos consciência que jamais vão conseguir um trabalho em que alguém os aceite e ainda lhes pague um salário. Mas essas pessoas também precisam de viver, também precisam de conviver, também precisam de aprender coisas novas. Também temos esse lado da história, não podem ser só números”, explica.

UM PERCURSO DESMOTIVANTE E A IMPORTÂNCIA DA RESILIÊNCIA

A desmotivação começa a notar-se no discurso de Isabel que só pede uma oportunidade para provar que é capaz. Mesmo assim, não desiste do seu sonho de poder ser novamente telefonista ou rececionista numa empresa. Também Hugo sublinha que vai “continuar a lutar” por um trabalho, mesmo tendo colocado de lado a possibilidade de voltar aos media, a área que estudou. O percurso pode ser longo e durar vários anos. A resiliência é o principal aliado de quem só quer ser útil.

António Pinão é psicólogo na APEDV, desde 1988, e reconhece que existe “uma desmotivação muito grande em relação à procura de formação com interesse em que se traduza num posto de trabalho”. Considera que há pessoas que se acomodam aos subsídios que recebem e que “lhes bastam para subsistir”.

“Nós temos autênticos profissionais da formação. Não quer dizer que sejam todos, mas há casos de pessoas que estão mais interessadas em ir passando por estes contextos formativos de instituição em instituição do que propriamente dirigirem o seu interesse para a obtenção de um posto de trabalho. Também sabemos que a dificuldade de arranjar trabalho desmobiliza e desmotiva. Que motivação é que eu tenho para fazer uma formação numa determinada área quando sei que depois de fazer formação ficarei à espera?”, questiona o psicólogo.

A palavra resiliência é também a que Graça Hidalgo usa para se referir à luta das pessoas com deficiência visual por um emprego.

“Quando temos uma pessoa qualificada, às vezes com mais do que um curso superior, com vontade de trabalhar e depois não consegue colocação no mercado de trabalho, não consegue ser subsistente – ganhar para pagar a sua casa, pagar a sua alimentação, pagar os seus gostos – isso é desconcertante, é desmotivador. Mas há uma coisa chamada resiliência que cada um de nós tem e acaba por conseguir superar.”

OS APOIOS DISPONÍVEIS PELO IEFP

Os estágios de inserção são uma das medidas de apoio que o IEFP tem para facilitar a transição de pessoas com deficiência e incapacidade para o regime de trabalho. Existe ainda a possibilidade de realizar contratos emprego-inserção – que incluem a realização de atividades socialmente úteis no âmbito de projetos promovidos por entidades coletivas públicas ou provadas sem fins lucrativos –, emprego protegido e emprego apoiado em mercado aberto. Nesta última vertente, o estado compromete-se a compensar a redução de produtividade que a pessoa com deficiência possa ter, quando comparado com um trabalhador sem deficiência.

Graça Hidalgo considera que os apoios “são simpáticos”, mas gostaria de ter “um miminho mais simpático” para oferecer às empresas quando tenta encontrar trabalho para os formandos da associação. Defende que esses apoios poderiam ser importantes “para quebrar o primeiro gelo” e critica a “burocracia” que está subjacente às candidaturas.

“É isso que mata qualquer vontade. Eu já tive empregadores que, de facto, recorreram aos incentivos da contratação e nós, que não temos financiamento nenhum para isso, acabamos por ajudar. Eu faço os projetos, ajudo a ir aos sítios certos, algumas palavras certas… Porque é tudo muito burocrático”.

Rodrigo Santo considera que os apoios não são “suficientes” para responder ao dinamismo do mercado de trabalho e defende que deveria haver uma “rede de apoios públicos mais focada no apoio especializado em função da própria deficiência no contexto de trabalho”. Esse apoio poderia permitir aos empregadores recorrer a um plano de financiamento de forma ocasional e esporádica para responder a alterações da função ou adaptar a formação às necessidades do trabalhador.

Sobre a implementação de quotas para pessoas com deficiência nas empresas públicas e privadas, o presidente da ACAPO considera que estas medidas trazem vantagens e desvantagens: se por um lado pode servir como forma de propagar bons exemplos e mudar mentalidades, por outro pode levar os empregadores a olharem para as pessoas com deficiência visual como "um nicho que fica bem ter ou que temos de ter para cumprir a legislação", o que "acaba por resultar num grande prejuízo para a vida profissional das pessoas com deficiência".

O IEFP tem também um programa de adaptação de postos de trabalhos e eliminação de barreiras arquitetónicas que permite financiar a compra de equipamentos adaptados ou eliminar obstáculos físicos que possam impedir o acesso da pessoa com deficiência. Este apoio pode ser pedido pelas empresas quando o trabalhador com deficiência tem um contrato com duração inicial mínima de um ano, um contrato sem termo ou é incluído nos quadros da empresa.

O QUE É PRECISO PARA ADAPTAR UM POSTO DE TRABALHO?

A secretária onde Patrícia Soares, de 30 anos, costuma trabalhar é praticamente igual à dos restantes funcionários da empresa. Tem um computador e uns fones, mas com uma linha de braille – que possibilita ler o que está escrito no ecrã. Enquanto escreve um e-mail no seu portátil, nada parece diferente, só quando desliga os fones é que se ouve uma voz rápida e mecânica.

“É um mito dizer que adaptar um posto de trabalho fica muito caro ou é muito complexo. Muitas vezes nem é preciso quase adaptação nenhuma. No meu caso pedimos [ao IEFP] apenas um OCR [um programa informático que converte imagens e ficheiros PDF em texto] e uma linha braille. Basicamente foi isso. De resto, a empresa atribuiu-me um computador – como atribuiu a qualquer outro trabalhador – onde instalámos um screen reader [leitor de ecrã], que também é completamente gratuito.”

Por baixo da secretária de Patrícia, está uma almofada que foi oferecida pela empresa. Era o posto de repouso da cadela-guia Orleans, que, entretanto, se reformou. Enquanto conta a sua chegada à empresa, a técnica de recrutamento destaca, por várias vezes, a receção e o apoio que sentiu.

“Houve uma abertura muito grande em adaptar as minhas necessidades à função, à realidade da empresa”, conta, indicando, como exemplo, que as salas e o elevador passaram a ser etiquetados com braille. “Isso permitiu-me não depender de ninguém. E não foram tomadas medidas só para a minha condição”, acrescenta.

Agora é Patrícia quem faz as perguntas para escolher o melhor candidato a integrar a empresa. Quando está a conduzir as entrevistas, é o tom de voz que lhe chama logo a atenção e através do qual consegue identificar a motivação da pessoa. Há uns anos, Patrícia estava do outro lado da mesa: depois de terminar o mestrado em psicologia social de organizações, começou a procurar um estágio profissional para poder integrar a Ordem dos Psicólogos, mas as perguntas que os recrutadores mais colocavam era sobre a sua deficiência.

“O que avaliavam era a minha deficiência, não as minhas competências”, explica, indicando como principal problema a falta de informação que “leva a que exista discriminação e preconceito no recrutamento”. “Não raras vezes, por ignorância, estamos a perder talento”, remata.

O TRABALHO COMO PARTE DA INTEGRAÇÃO NA SOCIEDADE

Para Patrícia, a possibilidade de trabalhar traz realização pessoal e abre possibilidade à concretização de projetos pessoais, como viajar, estudar ou evoluir na carreira. José Carlos Costa destaca a importância de estar com as pessoas e conviver. Vítor Graça reforça a ideia que “um emprego, para uma pessoa com deficiência, tem sempre um peso muito importante”.

“Todos os filhos têm, normalmente, orgulho nos pais. Se um pai ou uma mãe está em casa todos os dias, não se reveem naquele pai. É importante as pessoas terem emprego. É cego, sim, mas luta, vence para os filhos, é um exemplo. Para não falar do amor próprio que a pessoa passa a ter.”

Fernando Madaleno, de 58 anos, vê o trabalho como uma forma de se sentir integrado na sociedade. Há 30 anos, terminou o curso de fisioterapia no Hospital Curry Cabral. Na altura foi o único da sua turma a não conseguir encontrar um trabalho, mas encontrou quem lhe desse a mão. Depois de várias cartas – na altura ainda não havia e-mails – de candidatura rejeitadas, Salvino Ferreira, que era formador no curso, achou que o talento de Fernando não podia ser desperdiçado, por isso, quando decidiu abrir uma clínica, contratou-o logo. Uma parceria que se mantém ainda hoje.

Depois de ter sido contratado para a clínica, “a vida começou logo a dar certo”: casou-se e teve dois filhos que são já adultos e trabalham. Mesmo passadas várias décadas, não se cansa de agradecer a oportunidade que lhe foi dada: “O principal é alguém acreditar em nós”.

“Se o meu exemplo servisse para outros como exemplo… Mas é preciso que alguém acredite, é preciso que alguém dê a oportunidade, aquele primeiro passo. Se não, a pessoa anda aí a bater a todas as portas e todas se fecham.”

Salvino Ferreira tem baixa visão, o que faz com que esteja mais atento às dificuldades dos trabalhadores com deficiência visual. Desde que assumiu o papel de massagista, Fernando tem vindo a aperfeiçoar o seu trabalho e a sua confiança. Agora, são os pacientes que pedem para ser tratados por ele.

A sala de fisioterapia está cheia. Dois doentes estão deitados nas macas, enquanto outros dois se preparam para o tratamento. Fernando vai caminhando velozmente de um lado para o outro, com confiança, fazendo exercícios específicos às lesões de cada um dos pacientes. Enquanto faz as massagens, diz algumas piadas, fazendo rir os doentes que trata.

“Não me vejo com dificuldades de maior, talvez porque o senhor Salvino e a respetiva direção nunca me criaram obstáculos nenhuns, pelo contrário”, explica. “Não me atrapalho com qualquer coisa ou qualquer pessoa. Fui ganhando confiança na maneira de me relacionar com as pessoas. Não fico tímido, confio muito em mim e no meu trabalho. Isso dá-me de tal maneira confiança que sou capaz de passar dias sem me lembrar desta característica.”

É, de facto, uma característica, não uma limitação. E a mentalidade começa a mudar em Portugal: em 2015 foi criada a secretaria de Estado dedicada à inclusão de pessoas com deficiência, que é tutelada por Ana Sofia Antunes. Além da novidade da tutela, o cargo é assumido pela primeira governante cega no país.

“O facto de termos uma secretária de Estado que é, ela própria, uma pessoa com deficiência, mostrou a quem ainda não tinha visto que a deficiência não é uma limitação nem um impedimento”, afirma Rodrigo Santos, sublinhando que Ana Sofia Antunes “mostrou que as pessoas com deficiência também são capazes de assumir com sucesso cargos de responsabilidade, mesmo que essa responsabilidade seja grande.”
 

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MJA | 1.Jan.2022


 

ϟ Ana Sofia Antunes: "Eu também vivi situações de estigma e discriminação no acesso ao emprego, eu superei-as"

Filipa Traqueia

Sic Notícias | 23.12.2021


A secretária de Estado da Inclusão de Pessoa com Deficiência sublinha que o estigma em contratar pessoas com alguma incapacidade ainda é bem real. Fala dos apoios que existem para as empresas e dos projetos que ficaram na gaveta com a queda do Governo. Em entrevista à SIC Notícias, conta ainda os percurso que fez nos últimos seis anos pela igualdade de oportunidades e lembra ainda o seu próprio percurso.

SIC Notícias: É a primeira pessoa com deficiência visual a assumir um cargo no Governo. Considera que o mundo de trabalho está, atualmente, mais inclusivo para pessoas com deficiência?

Ana Sofia Antunes: Não é uma realidade específica dos últimos dois ou três anos, acho que é uma realidade que podemos fazer retroagir aos últimos 20 anos. Temos uma postura diferente em relação à inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho. E não estou a circunscrever a pessoas com deficiência visual. Houve alguns instrumentos que foram fundamentais no incentivo a essa maior abertura, nomeadamente no que diz respeito à administração pública. A legislação aprovada em 2001 relativa às quotas para pessoas com deficiência no setor público foi muito importante porque permitiu que um conjunto de pessoas acedessem a contratos de trabalho em funções públicas. Nós conseguimos comprovar que existem presentemente na administração pública 18 mil pessoas com deficiência a trabalhar. Outro setor que se foi progressivamente abrindo e aceitando integrar pessoas com deficiência foi também o setor social e solidário. Nós regulamentámos recentemente uma norma que já estava aprovada desde o ano 2004 mas que, na prática, era como se não existisse porque não estavam definidos os termos em que devia ser aplicada: a criação de quotas no setor privado. Acreditamos que este vai ser mais um mecanismo que vai permitir que o mercado de trabalho se abra ainda mais à contratação destes cidadãos. Não quer isto dizer que, apenas agora, as empresas vão começar a contratar pessoas com deficiência, é muito injusto dizê-lo. Nós temos bons exemplos de contratação de pessoas com deficiência no nosso setor empresarial, seja de entre grandes empresas, seja a nível local e em empresas mais pequenas. É inquestionável dizermos que já avançámos bastante em relação à contratação de pessoas com deficiência. Temos caminho para andar – certamente que temos – e acreditamos que os mecanismos e os apoios que vamos criando incentivem mais empresas a recrutar pessoas com deficiência.

SIC Notícias: Além das quotas, que outros mecanismos estão em vigor na contratação de pessoas com deficiência?

Ana Sofia Antunes: Temos vários tipos de medidas. Medidas genéricas que, quando aplicadas a pessoas com deficiência, sofrem majorações. E depois temos um segundo lote de medidas que são específicas para pessoas com deficiência. Os estágios para pessoas com deficiência e os contratos de emprego apoiado para pessoas com deficiência são duas medidas que têm tido um papel muito importante. Permitem, acima de tudo, quebrar do gelo e propiciar uma primeira experiência entre quem procura trabalho e a empresa ou entidade que está disposta a dar essa oportunidade. Estas medidas têm uma vigência temporária e a ideia é que, depois destas primeiras experiências, a pessoa possa ser colocada em mercado do trabalho em termos regulares, como qualquer outra pessoa. Temos também o contrato de emprego apoiado em mercado aberto, que é uma figura pensada especificamente para pessoas com deficiência intelectual que, sabemos existir uma maior dificuldade na sua inclusão no mercado. Esta medida não está só a ser aplicada a pessoas com deficiência intelectual. Através da avaliação da funcionalidade do trabalhador com deficiência, comparativamente com um colega de trabalho a exercer as mesmas funções sem deficiência, é determinada a percentagem da remuneração do trabalhador que é comparticipada pelo Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP). Imaginemos que a pessoa é avaliada com o grau de funcionalidade de 80%, o IEFP comparticipará 20% da remuneração dessa pessoa sendo a entidade empregadora responsável apenas por 80%. Há ainda uma outra medida que tem tido também bastante adesão – e que achamos que é importante e gostaria de ver alargada, se possível – que é a isenção parcial da Taxa Social Única (TSU), que as empresas pagam à Segurança Social pelo trabalhador com deficiência. Nesses casos a TSU só é devida em 50%, o restante é automaticamente assumido e internalizado como custo próprio da Segurança Social.

SIC Notícias: Considera que estas medidas que estão em vigor são suficientes para quebrar o estigma que ainda existe na hora de contratar pessoas com deficiência?

Ana Sofia Antunes: Eu não sei se as medidas, em si, são o que quebra o estigma. As medidas são no fundo um incentivo adicional para que a empresa considere a hipótese de contratar uma pessoa com deficiência e não cinja o seu leque de opções apenas a trabalhadores sem deficiências ou de incapacidade. É um estímulo. A questão do estigma, eu penso que só se combate com o exemplo e com a experiência. A empresa quando contrata, geralmente tem dúvidas. As medidas que possamos dar de apoio funcionam como um incentivo mas não creio que sejam o fator X que determina se contratam ou não. As empresas que contratam, inicialmente, fazem-no numa lógica de experiência, querem ver como vai correr. O que sabemos dos empresários é que maioritariamente corre bem, que veem nestes trabalhadores pessoas dedicadas, que valorizam a oportunidade que estão a ter e que vestem a camisola da empresa e, daí para a frente, são incluídos pela empresa, pela direção da empresa, pela comunidade geral de trabalhadores, como um elemento da casa. Eu acho que o estigma, acima de tudo, se quebra é com o exemplo e com a inserção. Quem contrata um trabalhador com deficiência fica muito mais apto a voltar a fazê-lo sem grandes dúvidas nem hesitações.

SIC Notícias: Considera que para as novas gerações, que estão no ensino superior, esta realidade já está melhor?

Ana Sofia Antunes: Considero que está melhor, que foram dados passos significativos. Hoje em dia a tecnologia também é uma realidade que já ninguém questiona, o que não acontecia há 20 anos. Temos muitos passos para dar? Temos de certeza. Não sei até que ponto vamos conseguir chegar um dia a uma fase em que podemos dizer que já não temos mais passos para dar. Acho que temos que continuar sempre a tentar apoiar o mais possível aqueles que estão, neste momento, a sentir dificuldades, com os mecanismos que consigamos arranjar para os ajudar – sejam incentivos às empresas para os contratar, sejam novas medidas de apoio. Como a figura do “mediador”. A pessoa com deficiência desgasta-se muito quando tem que fazer esta procura sozinha e, às vezes, acaba por desistir. Porque levar com muitas portas na cara e com muitos “nãos”, ao fim de um tempo, desgasta e faz com que a pessoa perca confiança, se resigne, pense que não é para ela e que nunca vai conseguir. Acho o “mediador” é uma figura que seria muito importante que conseguíssemos implementar como forma de, não apenas ajudar a pessoa com deficiência a ter alguém a quem possa recorrer para ajudar neste processo, mas também haver alguém que possa intermediar na procura de possíveis vagas, colocações em empresas ou entidades empregadoras. E que, depois, possa também apoiar na adaptação do posto de trabalho, possa estar disponível e trazer tranquilidade ao empregador, uma vez que tem, nos primeiros tempos, alguém a quem pode telefonar quando as dúvidas surgem, que pode ajudar neste processo de superar as barreiras que forem surgindo, até se verificar um processo de inclusão bem sucedido.

SIC Notícias: Esse projeto dos mediadores já foi aprovado?

Ana Sofia Antunes: Ainda não foi aprovado. Era algo que tínhamos planeado para 2022. Com os acontecimentos políticos mais recentes, não sei o que sucederá. Neste momento está previsto na nossa estratégia nacional para inclusão de pessoas com deficiência. Espero que quem venha a assumir esta pasta concorde comigo no que respeita à utilidade desta figura e a venha a implementar.

SIC Notícias: Durante o seu percurso profissional encontrou algumas situações de estigma ou dificuldade devido à sua deficiência?

Ana Sofia Antunes: Sim. Eu gostaria muito de conhecer uma pessoa com deficiência que consiga dizer já nos dias de hoje que tudo no seu percurso profissional foi perfeitamente tranquilo e que nunca sentiu nenhum tipo de diferenciação. Era bom que assim fosse, mas não creio que essa pessoa exista ainda. Acho que vai existir daqui a uns anos. Eu já fiz muita coisa, faz parte do meu espírito insatisfeito e que tem sempre necessidade de descobrir coisas novas. Mas, quando terminei o curso de direito – e tendo terminado com uma das maiores médias do curso – eu não consegui colocação. Isto em direito funciona muito assim: os melhores alunos acabam o ano contratados e com estágios garantidos. Isso comigo não aconteceu. E não era certamente porque eu era mais ignorante que os outros, porque as minhas notas demonstravam o contrário. Isso aconteceu porque eu não via e havia uma grande desconfiança sobre aquilo que eu seria ou não capaz de fazer num contexto profissional, principalmente num contexto do exercício de advocacia. Aquela ideia do advogado que vive mergulhado em calhamaços, códigos enormes com imensas páginas, muito papel e dossiers de processo gigantes afastava muito e causava muito receio e muito desconhecimento sobre como é que uma pessoa cega iria lidar com essa realidade e como ia conseguir ler, estudar e trabalhar os processos. Acho que mais grave do que esse desconhecimento era não haver a tentativa de se procurar perceber como é que essa dificuldade poderia ser superada. Não haver sequer essa curiosidade, essa tentativa de aproximação, de tentar perceber se esta aluna que teve uma avaliação tão positiva na frequência do curso, que conseguiu fazê-lo, não terá também estratégias de adaptação para o fazer agora no exercício da profissão? Mas perante o desconhecimento, a opção era o não. Esse percurso, essa fase da minha vida marcou-me bastante, foi uma fase difícil.

Agora também não posso deixar de dizer, porque é verdade – eu sei que há muita gente que não gosta de me ouvir dizer isto, mas eu não vou deixar de o dizer: eu sou por natureza uma pessoa extremamente resiliente e quando mais me dizem que não, mais eu digo que sim. Portanto, também sei que essa característica minha me ajudou a continuar, a ir mais à frente, a não desistir e a saber transformar as dificuldades em vantagens, nas coisas boas que fui alcançando. Sim, eu também vivi situações de estigma e de discriminação no acesso ao emprego, eu superei-as, consegui arranjar o meu estágio, consegui concluir o estágio, exercer advocacia, estive na Ordem [dos Advogados]. Ao fim de algum tempo percebi que queria fazer outras coisas – e já fiz muitas coisas. Não acho, de todo, que termos consciência das dificuldades e deixarmo-nos ficar paralisados por elas pode ser, de alguma forma, uma coisa boa. Não é, não pode ser.

SIC Notícias: O seu exemplo, como secretária de Estado, pode também ser visto pelas empresas como um incentivo à contratação de pessoas com deficiência?

Ana Sofia Antunes: Eu não gosto muito de ser exemplo. Acho que ninguém gosta. O elemento adicional que se verifica no meu caso, e se calhar não se verifica tanto noutra situação, prende-se com a visibilidade que o cargo trouxe. Se isso me permite chegar a mais pessoas que, por alguma razão, não confiam muito nas suas próprias capacidades, têm receios, têm medos e puder ser um elemento que as ajude a acreditar, a agarrar oportunidades e a irem mais além, fantástico. Se isso também puder ser útil para as empresas encararem as pessoas com deficiência como trabalhadores como os outros – apenas com o elemento adicional de precisarem de algumas adaptações nos seus postos de trabalho para poderem exercer as suas funções com condições –, muito bem. Mas acho que essencialmente é pela visibilidade adicional que o cargo pode trazer à temática.

SIC Notícias: Como foi a adaptação do Ministérios do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social? Foram necessárias muitas alterações?

Ana Sofia Antunes: Não. As alterações mais recentes no edifício foi muito depois da minha chegada. Estou certa que uma pessoa com deficiência visual não carece de praticamente nenhuma adaptação para trabalhar num edifício. A principais adaptações que uma pessoa com deficiência visual precisa para exercer as suas funções são tecnológicas: ter computador, ter acesso à rede e, acima de tudo, num contexto empresarial ou de uma entidade pública contar com ferramentas que sejam acessíveis. Isso é que muitas vezes não é fácil. Eu ainda continuo a ter bastantes limitações, nem tudo foi resolvido em seis anos. Se as coisas não são preparadas de raiz para serem acessíveis e usadas por todos, quando se tenta corrigir o que já nasceu mal feito são sempre soluções de contingência, que resolvem uma parte do problema mas não o todo. Mas também tenho a consciência de que outras deficiências há que exigem maior adaptação do posto de trabalho do que a deficiência visual. Nós, no decurso desta mandato, fizemos uma série de adaptações a pensar em tornar o edifício acessível a todos, mormente a pessoas com deficiências motoras ou dificuldades de mobilidade. Instalámos rampa no acesso principal ao edifício porque entendemos que não era adequado que as pessoas com mobilidade reduzida tivessem de entrar pela porta das traseiras porque era a única porta acessível. A porta principal está também a ser adaptada para ter dispositivos de abertura automática e permitir à pessoa com deficiência entrar de forma autónoma, o balcão de atendimento foi rebaixado para a pessoa com deficiência motora poder contactar visualmente com a pessoa que está na receção, mudámos os elevadores, colocamos braille nos botões e voz que diz os andares. É um conjunto de adaptações pensadas para a plena acessibilidade ao edifício por parte de pessoas com limitações motoras.

SIC Notícias: Essas alterações também estão a ser feitas ao nível geral da Administração Interna?

Ana Sofia Antunes: Nós criámos, no ano passado, um programa que tem por objetivo promover a eliminação de barreiras arquitetónicas em edifícios da administração pública que tenham atendimento ao público. O que é que previa? Que se pudessem instalar rampas, adquirir meios mecânicos de ascensão – por exemplo, elevadores em edifícios que não tinham ou plataformas elevatórias para suprir desníveis de alguns degraus –, rebaixamento de balcões de atendimento, instalação sanitárias acessíveis, um conjunto de adaptações que vão desde o momento em que a pessoa com deficiência chega ao local até estar na presença do funcionário que o vai atender, podendo fazê-lo de forma autónoma, independente, sem necessidade de assistência de terceiros. Essa linha contou com o valor global de 10 milhões de euros. Desse valor, recebemos candidaturas no montante de 8,6 milhões e, até à data, temos cerca de quatro milhões já executados. Ao todo vão ser intervencionados 481 edifícios que têm atendimento ao público, estando divididos entre serviços da Segurança Social, centros de emprego, centros de saúde, museus que pertencem à administração central, serviços de finanças, universidades, politécnicos, etc.

SIC Notícias: Considera que a sua experiência pessoal e o seu percurso até ao Ministério do Trabalho, da Solidariedade e da Segurança Social traz também uma forma de pensar e uma perspetiva diferente sobre estes assuntos?

Ana Sofia Antunes: Creio que sim. Eu defendo que uma pasta como esta faz sentido que se faça um esforço para que seja assumida por uma pessoa com deficiência. Não é uma obrigação que assim seja, mas podemos dizer que existe uma sensibilidade especial para as questões com as quais trabalhamos e que sabemos que, de alguma forma, muitas delas já nos afetaram um dia no nosso percurso. Agora também é preciso não esquecer que a deficiência é uma realidade muito ampla, muito dispersa. E dizer que uma pessoa com deficiência – no meu caso – visual compreende tudo aquilo que são as necessidades dos diferentes tipos de deficiências que existem. Não. Isso é uma experiência que vem com os anos. Quando aqui cheguei – já disse isso publicamente e reconheço – sabia muito pouco sobre uma realidade que hoje em dia é muito presente no nosso dia a dia e com a qual temos de lidar muito perto, que é o autismo. No entanto, fui estudar, conhecer pessoas e procurar mais conhecimento sobre essa matéria. Outras áreas há em que, não tendo a pretensão de saber tudo, acho que consigo pôr-me no lugar e perceber o que está em causa e o que pode fazer sentido. Quem está nestas funções tem que sair do seu próprio corpo, da sua própria realidade para se colocar numa posição transversal e pensar num conjunto de situações muito diferentes. E, muitas vezes, em matéria de acessibilidades, aquilo que é bom para uma pessoa com uma determinada deficiência é mau para outro tipo de deficiência. Há coisas que são importantes para as pessoas cegas e que depois são muito atrapalhadoras para quem anda numa cadeira de rodas e vice versa.

SIC Notícias: Uma das situações que me foi relatada durante o contacto com instituições e pessoas em situação de formação é a questão burocrática associada aos processos e a demora nas respostas do IEFP, o que, por vezes, leva as empresas a desistir da contratação. Existe alguma proposta para agilizar os mecanismos?

Ana Sofia Antunes: Eu sei e tenho relatos que quando as empresas recorrem à figura do contrato de emprego apoiado em mercado aberto, como existe esta exigência de uma avaliação da funcionalidade da pessoa com deficiência, em alguns centros de emprego o processo é demorado. E de facto não pode ser. Quando nós convencemos uma empresa a dar uma oportunidade, temos de ter a resposta na hora. Se passam três meses, quatro, seis meses, a empresa pode repensar e achar que já não faz sentido. Não, a coisa tem de ser muito rápida. O IEFP diz que isso não está a acontecer, mas eu acredito que esteja a acontecer em alguns pontos do país. No que diz respeito aos produtos de apoio para adaptação dos postos de trabalhos, não tenho reporte de atrasos. Até porque a verba no IEFP está cabimentada e é mais ou menos certa de ano para ano. Não tenho relatos de grandes atrasos na atribuição de produtos de apoio pelo IEFP. Os relatos de maiores atrasos nessa matéria vêm precisamente da Segurança Social.

SIC Notícias: Qual a percentagem de pessoas com deficiência que estão atualmente em situação de desemprego em Portugal? E dessa qual a parte com deficiência visual?

Ana Sofia Antunes: Eu sei quantas pessoas com deficiência em geral estão neste momento no desemprego. Não tenho esses dados em termos percentuais, mas em termos unitários. Nós sabemos, de mês a mês, quantos inscritos temos nos centros de emprego à procura de emprego como pessoas com deficiência. Nós não temos boa informação estatística sobre deficiência. Os Censos têm muitas limitações e mesmo os que foram mais recentemente aplicados, uma vez mais, não foram ao encontro do que nós defendemos porque não se focam na questão da deficiência tout cour. Querendo ser tão abrangentes e apanhar tantas situações, acabam por não nos dar informação fidedigna. O que é questionado não é a caracterização da pessoa enquanto pessoa com deficiência, mas enquanto pessoa com algum tipo de incapacidade ou limitação. Isso dá-nos um espetro muito maior de pessoas. A mim não me interessa saber quantas pessoas temos em Portugal que dizem ter dificuldades em ver, porque os meus pais têm 70 anos e os dois têm dificuldades em ver, mas nenhum tem deficiência visual. São coisas diferentes. Este nível de apuramento na informação que nós lutámos por ter nos Censos 2021 acabou, uma vez mais, por não acontecer e perdemos uma excelente oportunidade de conseguirmos ter dados exatos sobre a caracterização social e económica das pessoas com deficiência em Portugal.

SIC Notícias: E a falha dessa informação, que peso tem nas medidas para promover a inclusão?

Ana Sofia Antunes: Tem todo. Se tenho informação mais fidedigna consigo chegar mais rapidamente a cálculos sobre o custo da implementação de uma determinada medida. Se estamos a trabalhar uma medida, um dos dados fundamentais é demonstrar quanto é que ela custa. Se nós não temos informação precisa, obviamente que estamos a trabalhar por extrapolação e muitas vezes até extrapolação para cima, que é para tentarmos ser cautelosos. E isso não ajuda a tentarmos defender algumas medidas.

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MJA | 30.Dez.2021


 

ϟ "No mar não tenho obstáculos, ao contrário da rua. Sou só eu, a prancha e a água"

André Cruz Martins

Diário de Notícias | 15 Dezembro 2021


Marta Paço, a recém-consagrada campeã mundial de surf adaptado, falou com o DN sobre o seu feito e explicou como é que, sendo cega, consegue realizar manobras tão perfeitas dentro de água.


São 16 anos já com muito para contar. Marta Paço nasceu cega, mas isso não a impediu de praticar desporto de alta competição. Depois de ter experimentado o goalball, desporto coletivo com bola praticado por atletas que possuem deficiência visual, aos 12 anos apaixonou-se perdidamente pelo surf. Dois anos depois já se tinha sagrado campeã europeia em surf adaptado e no passado sábado conseguiu o título de campeã mundial, na categoria destinada a competidores com deficiências visuais, no ISA World Parasurfing Championship, que se realizou em Pismo Beach, Califórnia, EUA. Natural de Viana do Castelo, Marta contou ao DN os pormenores da prova, o amor pelo surf e porque o mar é o seu lugar preferido e símbolo de liberdade. Quer ser exemplo e inspirar outras pessoas com deficiência, porque o impossível...

Já tinha sido campeã europeia em 2019. Pode-se assim dizer que o título mundial que agora conquistou não a surpreendeu?
Sim, é verdade que fui campeã europeia em 2019, mas mesmo assim é sempre uma surpresa alcançar um feito desta dimensão, até porque já passaram dois anos do título europeu.

O que recorda da prova? A partir de que momento começou a acreditar que podia ser campeã do mundo?
Havia dois hits em que as duas melhores ondas contavam, independentemente de serem feitas no primeiro ou no segundo hit. O meu primeiro hit foi muito bom, o que me permitiu ter alguma segurança para enfrentar o segundo, pois já tinha duas notas muito altas. O segundo hit foi decisivo para eu perceber que havia algumas hipóteses de poder acontecer. No segundo hit tentei melhorar ainda mais, para ficar com uma segurança a 100%. E felizmente tudo correu conforme o planeado.


Como foram as comemorações em Pismo Beach?
Comemorámos aqui na praia, sobretudo com o meu treinador e com a minha equipa, mas também com as pessoas que estavam na praia. Mas estou desejosa de comemorar em Portugal com a minha família e amigos. Eles estão em Portugal [Marta tinha prevista chegada ao Aeroporto Francisco Sá Carneiro ao início da madrugada desta quarta-feira].

Chegaram-lhe muitas mensagens de felicitações? Quer destacar alguém em especial?
Tenho recebido milhares de mensagens e já falei com o ministro da Educação [Tiago Brandão Rodrigues], que foi das primeiras pessoas a felicitarem-me.

O Presidente da República também lhe deu os parabéns?
Não, ainda não me disse nada.

Como é que o surf entrou na sua vida?
Tudo começou há quatro anos, quando Viana do Castelo recebeu um meeting europeu de surf adaptado, que envolvia atletas de Espanha, França, Itália e Portugal. Fui convidada a experimentar o surf e fiquei logo completamente apaixonada. Desde então nunca mais parei.

A adaptação foi fácil? Como é que uma pessoa cega consegue realizar manobras de surf tão perfeitas?
É difícil ter um termo de comparação, pois eu sempre fui cega. Mas sempre tive uma grande ligação com o mar, pois várias pessoas da minha família são pescadores e o mar nunca foi um grande obstáculo para mim. Nunca tive medo do mar e sempre estive à vontade lá. Isso contribuiu para que a minha adaptação ao surf fosse natural.

O seu treinador Tiago Prieto acompanha-a sempre ao mar quando vai surfar. Qual costuma ser a vossa estratégia?
Sim, ele vai sempre comigo desde o primeiro dia. Damo-nos muito bem e confio nele a 100%. Quando o meu treinador avista uma onda que lhe parece boa para eu surfar, avisa-me para eu começar a remar. A partir do momento em que estou na onda, fico por minha conta. Ele ajuda-me apenas no início a entrar na onda.

É no mar que se sente melhor e mais livre?
Sem dúvida. No mar não tenho obstáculos, ao contrário da rua e em todo o lado. Sou só eu, a prancha e a água.

E tem alguns hóbis?
Gosto muito de andar de skate, de sair com os meus amigos... enfim, o normal para uma pessoa de 16 anos.

Antes do surf praticou alguma outra modalidade?
Sim, pratiquei goalball, um desporto voltado para as pessoas cegas e fiz também um pouco de equitação. Também experimentei outras modalidades. O desporto foi uma parte fundamental no meu crescimento.

Quais são os seus grandes objetivos a curto prazo no surf e um sonho que deseja concretizar a longo prazo?
A curto prazo gostava de continuar a melhorar o meu surf, para conseguir ver até onde consigo chegar e desenvolver técnicas com o meu treinador e com as pessoas que trabalham comigo, de modo a melhorar o meu surf e ajudar outras pessoas cegas que queiram praticar a modalidade.

Como é a sua relação com os colegas da escola? Eles costumam acompanhar as suas provas?
Seguem muito as minhas provas e são os meus grandes motivadores. Durante o Mundial enviaram-me mensagens todos os dias e foram falando comigo. São super importantes para mim e se não fossem eles eu não estaria tão pronta para enfrentar um Mundial.

Como tem sido a relação com o Surf Clube de Viana, o clube que representa?
O Surf Clube de Viana é como se fosse uma família para mim. Alguns dos seus elementos estiveram nos Estados Unidos a apoiarem-me. Foi super importante ter as pessoas amigas e com quem convivo todos os dias à minha volta. Eles são a parte mais importante da minha carreira, pois é lá que treino e que passo grande parte do dia.

Como é o seu dia-a-dia? Quantas horas, em média, dedica ao surf?
Estudo na Escola Secundária de Monserrate, em Viana do Castelo e por vezes, nos intervalos, costumo ir à Praia Norte, que é lá muito perto. Este ano tenho um horário de escola muito bom, pois tenho aulas das 08.30 às 13.30. Da parte da tarde, consigo ir surfar todos os dias e dedicar-me a outras atividades, nomeadamente aulas de Inglês e de Piano.

A família tem-na apoiado muito nesta carreira desportiva?
Quando comecei a surfar houve algum receio da parte deles, mas hoje em dia são fãs incondicionais e se as provas são em Portugal apoiam-me sempre ao vivo. Claro que lhes deve ter custado um bocadinho não estarem a apoiar-me na Califórnia, mas fomos comunicando sempre. Eles são as pessoas que estão comigo no dia-a-dia, que me levam aos treinos e me vão buscar aos treinos. Muitas vezes alteram os planos para me acompanharem na minha rotina.

Sente que é um grande exemplo para as pessoas que nascem com alguma dificuldade física, pois demonstra que é possível tornear esses problemas e alcançar grandes feitos?
Acho que sou um grande exemplo, mas tenho noção de que isso acarreta muitas responsabilidades. Tenho recebido muitas mensagens de pessoas com e sem deficiência, dizendo-me que se sentiram motivadas para concretizar projetos e realizar sonhos que achavam impossíveis de concretizar. Obviamente que é um motivo de grande orgulho, apesar da grande responsabilidade que sinto.

E vida fora do surf. Que objetivos tem para os próximos anos?
Gostava de estudar Relações Internacionais, mas prefiro decidir as coisas no momento. Gosto de deixar as coisas acontecerem.

Como antevê agora o regresso à "normalidade" em Portugal?
​​​​​​​Vai ser muito bom. Espero ter algum tempo para estar e conviver com as pessoas de que gosto e voltar a Viana do Castelo, a minha cidade.

dnot@dn.pt

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MJA | 29.Dez.2021



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Cartaz 3 de Dezembro de 2021

Instituto Nacional de Reabilitação
 

O Prémio Cartaz 3 de Dezembro, distingue o trabalho gráfico que, através de um cartaz, sensibilize e mobilize a opinião pública para o reconhecimento dos direitos das Pessoas com Deficiência, celebrado, todos os anos, no dia 3 de dezembro, Dia Internacional das Pessoas com Deficiência.

O 1.º Prémio, no valor de 3.000 euros, é atribuído pelo INR em parceria com o El Corte Inglés, Grandes Armazéns, S.A. Os vencedores deste Prémio, bem como as Menções Honrosas, recebem também uma peça de arte oferecida pelo CENCAL - Centro de Formação Profissional para a Indústria Cerâmica.

O vencedor do Prémio Grafe Publicidade Lda, desenvolveu o cartaz A DIFERENÇA TEM MUITAS FORMAS, A IGUALDADE É UNIVERSAL. Sobre fundo azul-claro, vinte círculos alinhados ao centro do cartaz, em quatro colunas, de cinco círculos. Da esquerda para a direita, há cinco círculos preenchidos com padrões distintos entre si que representam, cada um, tipos de deficiência. A maneira como estes estão dispostos foi inspirada nas palavras “Dia 3” escritas no sistema braille.

Texto: no último terço do cartaz, por baixo dos círculos, da esquerda para a direita, escrito a branco: “A diferença tem muitas formas, a igualdade é universal”. Abaixo, em cor diferente, bem maior e num tipo de letra mais irregular e menos rígida: “3 de dezembro”, abaixo e, menor, “Dia Internacional das Pessoas com Deficiência”. No canto inferior direito: QrCode com link para descrição áudio do cartaz. Veja aqui o cartaz:


Cartaz 3 de Dezembro - 2021
 

A 1ª menção honrosa, Beatriz Costa, utiliza o cartaz com o tema "Vida que nos Convida". Este cartaz apresenta uma realidade que, embora ainda não exista na maior parte de Portugal, deve (a meu ver) ser uma visão na qual possamos acreditar e trabalhar para a tornar real. Uma sociedade que permita celebrar e conviver; em que a norma não seja impeditiva, mas realmente inclusiva; em que pessoas com diversos tipos de corpos e mentes possam habitar e viver em comunidade. Espero quem veja este cartaz se sinta convidado a sonhar este modo de vida e movido a tentar concretizá-lo.

A 2ª menção honrosa, da CERCI Lisboa, utilizou o tema "O Normal é Ser Diferente!!!". Cartaz comemorativo do Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, com apontamentos de aguarela, numa composição onde TODOS têm lugar e existe um lugar para TODOS!
 

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MJA | 3.Dez.2021


 

ϟ Universidade de Coimbra inaugura biblioteca inclusiva para pessoas com dificuldades visuais e neuromotoras

Notícias de Coimbra | 2 de Dezembro de 2021


A Universidade de Coimbra (UC) vai inaugurar amanhã (sexta-feira, 3), pelas 11h00, uma biblioteca inclusiva para pessoas com dificuldades visuais e neuromotoras. O conjunto de equipamentos e soluções tecnológicas, cedido pela Fundação Altice e que visam a inclusão de estudantes com necessidades educativas específicas, está instalado na Biblioteca Geral da UC.

Inaugurada em pleno Dia Internacional das Pessoas com Deficiência (3 de dezembro), esta sala inclusiva, pioneira nas bibliotecas das instituições de ensino superior nacionais, oferece várias soluções para pessoas cegas ou com baixa visão (como lupas digitais portáteis, softwares de ampliação, contraste de cores e voz sintetizada e leitores de ecrã que convertem o texto em voz). E também contém várias ferramentas para pessoas com limitações neuromotoras (como uma câmara eyetracker, que permite operar um computador através do movimento dos olhos, e um software que possibilita aceder ao computador de forma indireta, como alternativa à interação teclado/rato, comunicar através da voz sintetizada do equipamento e controlar outros aparelhos).

“Esta é mais uma ação no sentido da promoção da equidade e da garantia da igualdade de oportunidades, marca d’água da matriz identitária da Universidade de Coimbra. Esperamos que os novos equipamentos possam contribuir para o sucesso da carreira académica dos estudantes que deles necessitem”, afirma o Reitor da UC, Amílcar Falcão

“A Fundação Altice tem no seu ADN a tecnologia com grande enfoque na área da acessibilidade digital, pelo que este espaço na Biblioteca Geral é uma iniciativa de enorme relevo na promoção da Inclusão de estudantes com necessidades educativas específicas. O desenvolvimento de projetos de inclusão digital e de investigação de novas soluções inclusivas, é um trabalho com continuidade por duas instituições que partilham os mesmos valores”, refere, por sua vez, a Diretora da Fundação Altice, Ana Estelita.

Os equipamentos da biblioteca inclusiva vão ser inaugurados pelas 11h00, no espaço multimédia da Sala de Leitura da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (BGUC), numa sessão – de acesso restrito, mas aberto à comunicação social – com as intervenções do Diretor da BGUC, João Gouveia Monteiro, e da Diretora da Fundação Altice, Ana Estelita.

À inauguração, segue-se – a partir das 11h30 – a conferência “UC 4 All”, com a intervenções do estudante Bernardo Alexandre Lopes, Presidente da Pró-Secção de Boccia da Associação Académica de Coimbra, e de Maria de Belém Roseira, Conselheira da Fundação Altice e antiga Ministra da Saúde e Ministra para a Igualdade. A palestra – aberta a toda a comunidade – decorre na Sala de São Pedro da BGUC, com abertura a cargo da Vice-Reitora da UC para os Assuntos Académicos e Atratividade de estudantes pré-graduados, Cristina Albuquerque, e encerramento pelo Reitor da UC, Amílcar Falcão.

A partir das 15h00, a Sala de São Pedro da BGUC recebe outra iniciativa associada ao Dia Internacional das Pessoas com Deficiência: a mesa-redonda “À conversa… sobre Recrutamento e Inclusividade”, com a participação de representantes do Instituto do Emprego e Formação Profissional, da Critical Software, do El Corte Inglés, da Randstad e do Santander, sob moderação da Vice-Reitora Cristina Albuquerque. Este debate, particularmente dirigido a estudantes com necessidades específicas, encerra a programação dos “Dias da Empregabilidade” da Universidade de Coimbra, um evento único e diferenciador focado nas saídas profissionais e na preparação do futuro da comunidade estudantil, que está a decorrer desde 22 de novembro, incluindo workshops, palestras motivacionais, job talks e espaços de networking com entidades empregadoras.
 

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MJA | 2.Dez.2021



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