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 Sobre a Deficiência Visual

Arte, Educação e Inclusão: Orientações para Áudio-Descrição em Museus

Francisco Lima, Paulo Vieira, Ediles Rodrigues & Simone Passos
 

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 exposição “Brasileiro, Brasileiros” realizada pelo Museu Afro Brasil (2004)

 

Resumo: Este artigo ressalta a importância do emprego da áudio-descrição das imagens nos ambientes de aprendizagem e lazer para pessoas com deficiência visual, fazendo a assertiva de que a áudio-descrição, tecnicamente produzida (inclusive despida de barreiras atitudinais) e adequadamente oferecida leva à inclusão cultural a pessoa com deficiência visual, pelo acesso aos conteúdos ofertados nos museus, mostra de artes e outros. Oferece orientações de como se proceder ao fazer áudio-descrição, de como se portar perante o público com deficiência e em que bases o áudio-descritor deve estear-se para produzir descrições de imagens estáticas como as pinturas encontradas nos museus. Conclui que terá sido feita uma obra prima quando a sociedade pintar um mundo em que todos sejam respeitados e que ninguém dele seja deixado de fora ou dele, excluído.


Introdução

O acesso à arte não pode ficar dissociado do processo de desenvolvimento e conscientização dos sujeitos cognoscentes, pois lhes traz informações que ampliam o saber acerca de sua própria identidade e inserção no mundo da história, ainda que enquanto história ela, a arte, vinha sendo excludente, fato contra qual os sujeitos com deficiência vêm agora lutar para transformar.

A arte é, sem sombra de dúvida, cultura, educação, lazer e via de socialização humana. Por conseguinte, tal possibilidade humanizante não pode continuar a ser negada à pessoa humana com deficiência visual num mundo que se queira justo e inclusivo.

Um meio de minimizar a exclusão cultural a que as pessoas com deficiência têm sido submetidas está na oferta de um recurso tradutório, da imagem em palavras, conhecido como áudio-descrição. Esse recurso não só é de direito constitucional da pessoa com deficiência visual, uma vez que a todos é devido o direito à informação, à educação e ao lazer, quanto é viável, empregando recursos econômicos razoáveis na forma da lei.


A Relevância da Arte no Cenário Educacional

Conforme se pode conferir, os Parâmetros Curriculares Nacionais do ensino fundamental afirmam que o exercício da cidadania se dá pelo acesso de todos a todas as riquezas culturais apresentadas na vida social. Este acesso às riquezas culturais, na maioria das vezes, se dá por meio das instituições de ensino. Segundo se lê nesse documento, este recurso cultural vai desde o domínio da língua falada e escrita, reflexão matemática, percepção de mundo, explicações científicas até à capacidade de compreender obras de artes e mensagens estéticas.


A arte como educação:

A arte está presente na vida do homem desde o início da história da humanidade. Porém, o valor científico e cultural atribuído a esta área é recente, tendo acontecido no século XX (junto com as transformações educacionais ocorridas na época), quando se passou a preocupar com o processo de aprendizagem do aluno.

Foi assim que, inicialmente, a arte foi compreendida como manifestação espontânea e auto-expressiva do sujeito, o que trouxe contribuições significativas para formação de um indivíduo valorizado em sua plenitude. Isso se deu mais visivelmente com a reflexão, iniciada na década de 60, pois, com ela, a arte volta a ganhar reconhecimento como construtora do desenvolvimento cognitivo e intelectual do cidadão. Atualmente, tem-se desenvolvido pesquisas sobre o ensino da arte, resgatando a arte crítica e reflexiva; buscando compreender o modo de aprender dos artistas; analisando os conteúdos a serem ensinados e visando a conhecer o processo de aprendizagem dos alunos quando da relação com essa área de conhecimento.


Arte enquanto conhecimento:

A arte comunga com as áreas científicas, técnicas e filosóficas quanto ao caráter de criação e inovação, ambas significam a representação das diversidades culturais que permeiam raças e povos.

Assim como cada frase ganha sentido no conjunto do texto, realizando o todo da forma literária, na arte, cada elemento visual, musical, dramático ou de movimento tem seu lugar e se relaciona com os demais daquela forma artística específica. E, como cada elemento artístico “relaciona-se com os demais”, entende-se que quando não se tem acesso a ele, seja qual for a razão, há prejuízos na compreensão do todo de determinada construção criativa; daí o esforço de restauradores que empenham-se em recuperar o que os séculos fizeram esvair, para que se possa ter de volta, por pesquisa e esmerado trabalho, a íntegra do que nos legou um dado artista, ou grupo deles. A preocupação em garantir a todos o acesso à totalidade do que nos comunica uma dada obra de arte, prova de seu valor, também deve ser assegurado ao indivíduo com deficiência visual, pois se hoje são investidas grandes quantias financeiras para que muitos cidadãos, graças ao trabalho de restauração, não percam o acesso ao testemunho histórico presente numa dada forma de arte, não seria razoável permitir que vários outros, por questão de deficiência, permaneçam alheios ao que lhes pode comunicar uma vasta quantidade de obras artísticas.

Portanto, se investimos em restauração devemos investir também em acessibilidade, pois ambos os esforços visam igualmente a assegurar o contato do indivíduo com a informação.


Áudio-Descrição: Uma Fusão Perfeita entre Arte e Linguagem

A importância e a relação da linguagem e da arte na formação do sujeito crítico e participativo são claras e notórias, assim como de todas as outras áreas do conhecimento que não podem ser negadas às pessoas com deficiência visual. Portanto, o recurso áudio-descritivo precisa ser valorizado e aproveitado para que a existência destas pessoas seja cada vez mais produtiva e significativa enquanto cidadãos.

A audiodescrição é um recurso de tecnologia assistiva que permite a inclusão de pessoas com deficiência visual, junto ao público de produtos audiovisuais. O recurso consiste na tradução de imagens em palavras. É, portanto, também definido como um modo de tradução audiovisual intersemiótico, onde o signo visual é transposto para o signo verbal. Essa transposição caracteriza-se pela descrição objetiva de imagens que, paralelamente e em conjunto com as falas originais, permite a compreensão integral da narrativa audiovisual. Como o próprio nome diz, um conteúdo audiovisual é formado pelo som e pela imagem, que se completam. A audiodescrição vem então preencher uma lacuna para o público com deficiência visual.

Alhures, ao escrevermos a respeito da áudio-descrição, assim nos expressamos:

Uma técnica de tradução visual surge na década de 1980 e vem se mostrando eficaz na comunicação dos elementos visuais às pessoas com deficiência visual, já sendo a sua utilização prevista em lei no Brasil. Trata-se da áudio-descrição, serviço de tecnologia assistiva que consiste na identificação e elocução de elementos visuais essenciais à compreensão e apreciação das imagens presentes nas obras teatrais, cinematográficas, televisivas, literárias, jornalísticas, científicas, artístico-culturais, entre outras, destinada principalmente às pessoas com deficiência visual, com dislexia, pessoas analfabetas, ou que não saibam o idioma em que um filme ou programa está sendo exibido.

O foco da áudio-descrição é oferecer ferramentas para tornar o mundo das imagens acessível àqueles que não as vêem, tornando tais imagens significativas, portanto, igualmente relevantes para as pessoas com deficiência visual, tanto quanto para os indivíduos que enxergam. Na áudio-descrição, as imagens falam aos sujeitos que não as vêem (com a mesma magnitude e beleza), agora, por meio da voz ou da escrita do áudio-descritor. A áudio-descrição faz parte do campo da tradução visual e é produzida segundo diretrizes técnicas pré-estabelecidas, dentre as quais a da oferta de narração dos elementos visualmente observados, nos intervalos/pausas entre as falas dos personagens, nas imagens contidas em livros e em legendas descritivas.

O propósito da Áudio-Descrição é propiciar às pessoas com deficiência visual, cegas ou com baixa visão, um quadro mais completo do que está sendo mostrado, viabilizando-as a participar de uma dada apresentação com a qualidade permitida a uma pessoa sem deficiência visual.

Utilizando-se técnicas de áudio-descrição de imagens estáticas, é possível aplicar o recurso no ambiente dos museus onde podem ser encontradas esculturas, pinturas e demais obras de arte para a apreciação de todos. Para a aplicação da áudio-descrição nesses ambientes será necessária a aplicação das técnicas de áudio-descrição de imagens estáticas. Este artigo propõe-se também a colaborar na divulgação de orientações que auxiliem os áudio-descritores na feitura da descrição de elementos visuais encontrados nos museus.

Para que se empreendam áudio-descrições que sejam, não apenas padronizadas, mas também fiéis ao conteúdo da obra algumas diretrizes de caráter geral têm sido aceitas pelo público com deficiência como sendo razoáveis na comunicação dos elementos essenciais à sua compreensão.

Expandindo as orientações de que na áudio-descrição se deve atentar para o que descrever e o como descrever, elencamos aqui as técnicas de descrição usadas na elaboração de descrições de imagens em museus, retiradas do site do Instituto Português de Museus.


Técnicas de Descrição de Imagem para Sítios Web de Museus


Descrição

Desenvolver a qualidade das descrições visuais é uma tarefa morosa que deve ser feita  cuidadosamente por pessoas que escrevam bem e que tenham conhecimentos na área da edição.

Na altura da criação do Virtual Museum Tour, não havia instruções disponíveis. Com a a preparação de aproximadamente 100 descrições visuais, foi desenvolvido um processo padrão. Este processo está resumido nas seis recomendações que se seguem e que poderão ser aplicadas noutros projectos da Web que envolvam imagens de obras de arte.


Recomendação UM: Seja Objectivo

A única função de uma descrição visual é descrever o aspecto de uma obra de arte.  Resumindo, deverá simplesmente responder à questão, “Como é o objecto?”. As descrições devem evitar quaisquer interpretações analíticas ou emotivas. Por outras palavras, não devem suscitar perguntas como, “O que quer dizer?” ou “O que é que acha?”. As descrições ajudam os visitantes a visualizar um objecto, e portanto fornecem um contexto para outras informações sobre outra obra que possam encontrar, tal como o historial antecedente, o estilo do artista ou o comentário dos críticos .  Ao combinar esta informação concreta com uma descrição objectiva, os visitantes da Web ficam suficientemente informados para fazer uma análise pessoal ou conseguir ter a sua própria reacção emotiva.

No caso de personagens retratadas, num quadro ou noutra obra de arte , a objectividade  também deve ser aplicada.  Apesar de ser conveniente descrever a sua aparência, vestuário e acções, as descrições visuais não devem esforçar-se por explicar as suas motivações ou sentimentos, mesmo que estes estejam implícitos nos gestos ou no contexto. Se as emoções das personagens são óbvias na obra de arte, então serão provavelmente também notórios na descrição visual.

Neste exemplo, a descrição foi escrita sem referências à emoção, apesar do estado de espírito  implícito na pintura estar perceptível.
 

Figura: William Adolphe Bouguereau (1825-1905) Francês, THE SONG OF THE NIGTINGALE, 1895, pintura a óleo em tela, 55 x 35 polegadas, Oferta do Senhor Robert Badenhop, 1954.12
Figura: William Adolphe Bouguereau (1825-1905) Francês,
THE SONG OF THE NIGTINGALE, 1895, pintura a óleo em tela, 55 x 35 polegadas, Oferta de Robert Badenhop, 1954.12

 
“...O corpo da rapariga está voltado para o seu lado esquerdo, enquanto que a cabeça e o olhar estão virados para o seu lado direito. Parte do cabelo castanho está puxado para trás até meio das costas. Tem sobrancelhas fartas, olhos escuros e faces avermelhadas. A boca é pequena e os lábios estão fechados. Os braços estão estendidos e as mãos com os dedos entrelaçados repousam nos seus joelhos...”


Finalmente, e porque o gosto artístico varia consoante a pessoa, as descrições visuais não devem conter juízos de valor sobre a qualidade da obra de arte, nem da habilidade do artista que o criou.


Recomendação DOIS: Seja Breve

Apesar da duração das descrições visuais variar consoante a peça de arte que está a ser descrita, devem ser tão concisas quanto possível. Nalgumas montagens, as descrições visuais são apresentadas como nas gravações áudio lidas por um narrador. Outras vezes, são fornecidas em texto que os próprios visitantes têm de ler. Em qualquer dos casos, dado que as descrições extremamente longas se tornam cansativas, estas devem ser limitadas de 250 a 300 palavras. Dependendo do contexto, as descrições visuais devem ser acompanhadas por um catálogo com informação sobre a obra de arte (tal como o nome do artista e data de nascimento e de morte, o título, os materiais utilizados e as dimensões). Estas informações não serão incluídas na contagem total das palavras.

Para uma economia de palavras mais eficaz, exclua frases redundantes como “de forma rectangular” ou “de cor azul”. Em vez disso, utilize simplesmente “rectangular” ou “azul”. Do mesmo modo, evite afirmações óbvias tais como “ela usa um colar ao pescoço” ou “luvas nas mãos”.


Recomendação TRÊS: Seja Descritivo

As descrições visuais devem utilizar vocabulário amplo de terminologia viva para descrever as múltiplas características dos objectos de arte.

Alguns termos comuns estão categorizados em baixo.

As formas podem ser descritas como quadradas, cuboides, rectangulares, lisas, direitas, circulares, esféricas, cilíndricas, curvilíneas, arredondadas, triangulares, cónicas, piramidais, angulares, irregulares, denticulares, inclinadas, diagonais, horizontais e verticais. Estas palavras podem ser utilizadas não só para identificar a forma global do objecto, mas também para descrever os desenhos geométricos do seu interior. Evite palavras que impliquem acção excepto se realmente o objecto se move; por exemplo, “curvado” é preferível a “curvando”. Também não se devem usar termos coloquiais como “contorcimento” ou “ziguezague”.

O tamanho pode ser descrito como pequeno, minúsculo, baixo, miniatura, grande, alto, monumental, grosso, delgado, estreito, largo, em tamanho natural, de dimensões exactas, em grande escala e em pequena escala. As dimensões dos objectos, fornecidas no catálogo, informarão os visitantes do seu tamanho real.

A textura pode ser descrita como lisa, acetinada, grossa, granulada, áspera, usada, desbotada, coçada, gretada, rota, ondulada, canelada, padronizada, listrada, às pintas e picotada.

A cor pode ser descrita como intensa, nítida, brilhante, clara, escura, apagada, pálida, desmaiada, sólida ou mesclada. Não há necessidade em evitar referenciar cores, no pressuposto que não tem sentido para os visitantes cegos. Em primeiro lugar, as descrições serão usadas por pessoas sem dificuldades visuais. Segundo, muitas das pessoas que agora são cegas já viram e conseguem recordar cores. Terceiro, por vezes as cores têm um significado simbólico nas obras de arte (apesar de frases interpretativas como “warm gold” ou “red angry” não deverem ser utilizadas).

A composição (ou a disposição dos elementos numa obra) pode ser descrita como em baixo, em cima, acima, abaixo, paralelo, perpendicular, em primeiro plano (ou em plano de fundo) e à esquerda (ou à direita).  Quando se faz referência a posições relativas, descrever os objectos da perspectiva do observador, excepto quando se refere à esquerda ou à direita de uma personagem pintada numa obra.

A técnica artística pode ser descrita como realista, abstracta, não natural, simplificada, detalhada, precisa, imprecisa, mal definida, borrada, salpicada, pincelada ou marcada.


Recomendação QUATRO : Seja Lógico.

As descrições visuais devem descrever objectos segundo uma sequência lógica de modo a que haja uma boa compreensão.

As descrições devem começar por uma apreciação genérica do objecto e daquilo que retrata.  De acordo com o tipo de objecto em questão, pode ser conveniente mencionar no início a sua cor e textura da superfície e, eventualmente, a sua construção.  A seguir à referência genérica deverá ser descrito, com detalhe, as várias partes do objecto, segundo uma determinada ordem, como por exemplo da esquerda para a direita ou de cima para baixo. Depois da descrição de uma determinada parte da obra deverá ser explícita a transição para identificar a próxima área descrita, bem como a sua relação espacial com a sua antecedente.  Se alguma parte for demasiadamente complexa será melhor descrever cada elemento separadamente, usando, eventualmente uma sequência numerada.

No exemplo que se segue, a localização dos objectos num quadro estão descritos fazendo a relação com outros elementos, dando ao leitor uma compreensão da composição global do trabalho.
 

Figura – Stuart Davis (1894-1964) Americano, PAISAGEM COM MÁQUINA PARTIDA”, 1935, Guache sobre papel, 15 ¼ x 22 1/8 polegadas, doação de Virginia Rike Haswell, 1977.39
Figura – Stuart Davis (1894-1964) Americano, PAISAGEM COM MÁQUINA PARTIDA”, 1935,
Guache sobre papel, 15 ¼ x 22 1/8 polegadas, doação de Virginia Rike Haswell, 1977.39
 

“... à esquerda do celeiro está uma área de pinceladas de linhas cruzadas a negro que parecem uma sombra.   Por baixo do celeiro do está uma máquina encarnada e cinzenta colocada desastradamente ao seu lado.  As rodas grandes e o motor aparentam uma peça de maquinaria agrícola.  À direita da máquina estão dois ramos de árvore angulosos e castanhos que surgem do fundo do quadro.  Entre os ramos surgem disseminadas várias cenas menores ...”

Esculturas ou outros trabalhos tri-dimensionais, dependendo do seu design, precisam de ser descritos sob vários ângulos de visão.  Deverá ser usada uma sequência lógica como se o observador estivesse a rodar em torno do objecto.

Na descrição, ao usar palavras tais como adjectivos, será melhor colocá-las após a palavra que qualificam, de modo a que o observador saiba a caracterização do objecto em si.  Por exemplo, usar “os seus dedos são grandes e finos” em vez de “ele tem dedos grandes e finos”.


Recomendação CINCO : Seja Rigoroso

Uma vez que as descrições fazem parte de uma experiência de um saber global das artes, deverão ser concretas e consistentes com outras fontes de informação referentes à a peça de arte em questão.  Poderá ser necessário recorrer a investigação já realizada para identificar correctamente imagens históricas, personalidades, localizações geográficas, tipos de vestuário, género  de animais, elementos arquitectónicos, etc..  No entanto, as descrições deverão evitar terminologia hermética (própria das artes) ou terminologia especializada que não seja familiar à maioria dos visitantes.  Por exemplo, termos sobre estilos como sejam “abstracto”  e “realista” serão facilmente compreensíveis o que já não acontece com “Geometric Abstractionist” e “French Academic”.

Recomenda-se vivamente que o autor da descrição observe o objecto real ao fazer as notas iniciais, porque a cor e outros detalhes só assim poderão ser vistos com rigor.  Quando essas notas sobre a descrição com base na peça ao vivo estiverem apuradas, poder-se-ão usar slides ou fotografias para referência ao aspecto e composição dos objectos.


Recomendação SEIS : Diversos

Dado que os visitantes podem ter acesso, numa visita virtual, a peças de arte sem qualquer tipo de sequência, os autores das descrições visuais não deverão partir do princípio que os leitores vão seguir uma determinada ordem no visionamento.

Referências a outras peças de arte não deverão ser feitas através de descrição visual, nem a trabalhos do mesmo autor ou outros trabalhos que façam parte do mesmo Museu ou Galeria.

A fim de facilitar os visitantes da página Web que usam software de leitura de écrã, os números deverão ser escritos (“século dezanove” em vez de “século XIX”  ou “dois e meio” em vez de “2 ½”) .

Ao descrever a vestimenta de personagens de um trabalho, pode minimizar-se a monotonia usando vários sinónimos como  “tem vestido” ou “está usando”.

Quando as descrições visuais estiverem escritas e editadas, deverão ser revistas por vários revisores (incluindo pessoas com deficiência visual) para recolher sugestões.  Como teste final, as descrições deverão ser comparadas pessoalmente por uma pessoa da equipa com as peças ao vivo do Museu ou galeria a que pertencem.

Na linha de oferecer diretrizes para uma boa áudio-descrição, ao treinar áudio-descritores, Snyder (2010) costuma ensinar os seguintes fundamentos :

  1. Observação – a capacidade de ver o mundo de uma forma diferente, percebendo aquilo que num primeiro olhar costuma nos escapar;
  2. Edição – Seleccionar o que vai ser descrito para que o essencial seja separado do que não é relevante;
  3. Linguagem – Utilização de um vocabulário rico para traduzir diferentes ações dentro de uma mesma categoria; sabendo, todavia ajustá-lo ao universo vocabular do cliente do serviço;
  4. Habilidades vocais – A entonação correta com as pausas bem marcadas na produção de sentidos.


No artigo intitulado "Áudio-descrição: orientações para uma prática sem barreiras atitudinais" Francisco Lima, Lívia Guedes & Marcelo Guedes apresentam:


Algumas dicas para o áudio-descritor

◊  Evite sobrepor a áudio-descrição às falas dos personagens ou efeitos sonoros importantes para a compreensão do produto. Lembre-se de que assim como os espectadores sem deficiência, os
espectadores com deficiência, usuários do serviço de áudio-descrição, devem ter acesso a todas as informações provenientes do material originalmente apresentado, como a trilha sonora e os diálogos, e que a áudio-descrição deverá ser adicionada a esses elementos fundamentais. Assim, as pessoas que buscarem o serviço de áudio-descrição terão acesso a todas as informações do filme, peça ou exibição, podendo compartilhar de suas impressões com os demais espectadores com e sem deficiência.
 
◊  Evite classificar desordenamente um conteúdo visual (filme, curta-metragem, peça teatral, desenho animado etc.) como pertencente a um determinado género específico. Basear-se numa classificação errónea, poderá levar-lhe a fazer a áudio-descrição de um determinado conteúdo visual, adotando uma impostação de voz ou entonação caricata e equivocada. Lembre-se de que o facto de um conteúdo visual adotar linguagens como a animação, a computação gráfica ou elementos cénicos que aparentem ser destinados, por exemplo, a um público infantil, não significa que ele seja realmente destinado a esse público. O trabalho do áudio-descritor deve refletir a atenção de que as ferramentas e linguagens visuais utilizadas nos produtos culturais e artísticos nem sempre são destinadas a um mesmo público, a exemplo do cinema de animação, que produz filmes para todos os gêneros e para todos os públicos, por exemplo, das mais diversas faixas etárias.
 
◊  Evite a utilização desnecessária de termos técnicos, de palavreado rebuscado e/ou de expressões tendenciosas e ambíguas que dificultem a compreensão do público assistente. Lembre-se de que a áudio-descrição deve ser construída a partir de uma linguagem clara, simples, objetiva e acessível para que a compreensão do conteúdo assistido não seja prejudicada e que, ao invés de promover comunicação, se construa novas barreiras comunicacionais através da escolha da linguagem.
 
◊  Evite aproveitar todas as pausas entre os diálogos ou cada momento de silêncio para fazer áudio-descrição. Lembre-se de que haverá momentos em que o silêncio será utilizado de forma intencional, como um elemento importante para o entendimento da trama, e que os usuários do serviço de áudio-descrição também devem ter a oportunidade de conhecer e compreender as intenções geradas a partir da escolha de recursos como esse.
 
◊  Evite basear a áudio-descrição em juízos de valor pessoais ou moralismos. Lembre-se de que, ao prestar um serviço de áudio-descrição, o profissional deve abster-se de qualquer condicionamento íntimo a respeito do conteúdo assistido. Ao aceitar um trabalho de áudio-descrição, é mais aconselhável que o profissional considere previamente a natureza do conteúdo a ser áudio-descrito, evitando aqueles que possivelmente lhes gerariam desconforto.


Das experiências com teatro e cinema, aproveitamos um conjunto de diretrizes, técnicas para a elaboração de áudio-descrições que possam traduzir uma determinada obra de arte, colaborando definitivamente na sua compreensão por parte de uma vasta gama de cidadãos com deficiência.

A seguir, compilamos mais algumas dessas orientações bastante úteis e aplicáveis ao se empreender a áudio-descrição em museus e mostras de Arte. São elas:

₪ O total de áudio-descrição para uma dada mostra de objetos e imagens triviais deve ter a duração de duas vezes a quantidade de tempo que um visitante vidente típico pode passar explorando o trabalho. Por outro lado, a áudio-descrição de uma casa de época de grande importância histórica ou uma mostra que contenha artefatos de uma época ou cultura que não sejam familiares à maioria dos visitantes iria provavelmente durar, ao todo, três ou quatro vezes a quantidade de tempo que um vidente típico poderia passar visitando a exposição.

₪ O áudio-descritor que acompanhe um grupo de alunos em determinada mostra artística ou histórica não necessita passar tempo em demasia alongando-se em detalhes de objetos de importância trivial. Poderá o descritor estender-se um pouco mais em seu trabalho tanto quanto maior destaque merecer o conteúdo que está sendo exibido. Um referencial fornecido é quanto tempo em média o visitante vidente passa em contato com um dado objeto na mostra.

Na sua série Museum of the Mind, Robert Sutter empreende a descrição de imagens de pinturas veiculadas através do rádio. Como nesta descrição da pintura a seguir:
 

Painting:  Max Schmitt In a Single SKull, 1871
Thomas Eakins. Max Schimitt num Barco Solitário, 1871


Nessa pintura, uma luz avermelhada se difunde na cena de outono e nos diz que cai à tardinha. O baixo ângulo do sol da tarde faz as encrespações sobre a água da embarcação que se desloca levemente, grandes no primeiro plano, contrastarem com a superfície espelhada do rio. Umas poucas árvores cobertas de cores do outono sobressaem-se de uma projeção de terra à margem esquerda do rio no fluxo por trás do barco de Schimitt e lançam os seus reflexos numa simetria perfeita sobre o espelho da superfície quieta do rio.

Detalhes que seguramente não são percebidos num primeiro olhar, nos são trazidos pela percepção do áudio-descritor, a exemplo do que ele expressa ao usar os termos encrespações, projeção, simetria. Contudo, a descrição acima é formal, veiculada por rádio o que requereu fazer uso de um registro lingüístico igualmente mais formal.

No exemplo abaixo, retirando da Revista Brasileira de Tradução Visual, podemos aquilatar a leveza da áudio-descrição, de sua clareza lingüística e da acessibilidade que dá à arte da fotografia.
 

Revista Brasileira de Tradução Visual - capa


Fotografia em preto e branco nas dimensões 15 cm x 21 cm e formato retrato, onde se vêem, em primeiro plano, duas figuras humanas - um homem e uma mulher - em um flagrante de carnaval. No segundo plano, mais ao longe, há pessoas desfocadas, em frente a uma construção de tijolos aparentes, com duas janelas. Vê-se, em parte, o lado esquerdo de uma mulher jovem, de rosto arredondado, de olhos escuros, a qual fita um ponto à esquerda além da foto. Ela usa chapéu de tonalidade clara e aba circular com laço de fita sobre a copa. A mulher tem a pele morena e traja uma fantasia carnavalesca com mangas volumosas, formadas em parte por tecido e em parte por lantejoulas circulares e brilhantes. Seus lábios, em um suave sorriso, deixam-lhe à mostra os dentes. Ela abraça um rapaz por trás, recostando-lhe a face direita no braço esquerdo, pouco abaixo do ombro. O homem é jovem, tem rosto alongado, cabelos curtos e crespos e a pele morena. Está com a face voltada para o rosto da mulher que o abraça. Os lábios do homem são grossos e estão levemente abertos. Ele traja uma camisa clara com desenhos de coqueiros no lado inferior esquerdo e usa um cordão escuro com pingente. Na mão direita, segura um pano à altura do abdômen.


A áudio-descrição pode, de facto deve estar presente em todas as imagens. Um exemplo cotidiano em que a falta de acessibilidade comunicacional pode ser percebida está no uso de logotipos sem descrição; no entanto, basta que se faça uma vez a áudio-descrição para que a acessibilidade esteja presente em toda apresentação em que se fizer uso de uma dada marca ou logotipo, semelhantemente ao que se dará com um filme áudio-descrito onde se poderá fazer quantas cópias forem necessárias. O trabalho será um, o custo será baixo e a acessibilidade será de muitos; por vezes, de dezenas de milhares. Como exemplo da áudio descrição aplicada a logotipos , tomemos a descrição do logotipo da Universidade Federal de Pernambuco elaborada por LIMA e VIEIRA (2008):
 

logotipo da Universidade Federal de Pernambuco
logotipo da UF de Pernambuco
 

Numa moldura trapezóide de base curva, cuja linha de cima revela a extremidade superior de três tochas flamejantes, encontra-se a silhueta estilizada de um leão de perfil. Rugindo, ele ergue verticalmente uma tocha acesa. Tangenciando a parte inferior da moldura há uma fita ondulada, trazendo a epígrafe "VIRTUS IMPAVIDA". Na parte inferior da fita, percebem-se as extremidades das tochas.


Barreiras atitudinais na áudio-descrição

O recurso áudio-descritivo possibilita a todos a apreciação das imagens na televisão, no cinema, no teatro, em museus. Permite maior socialização a todos dos conteúdos presentes nas diversas formas de expressões culturais.

Pessoas com alguma deficiência seja visual, auditiva, intelectual ou mesmo física, enfrentam barreiras para sua inserção social, muitas vezes, chegando a situações de marginalização ou mesmo de desconsideração total de sua existência. E esta realidade tão cruel e desrespeitosa, com pessoas tão capazes quanto qualquer outra, se dá, principalmente, pelos obstáculos criados, ou mesmo não dizimados pelo próprio homem. Na esfera da inclusão cultural, por exemplo, as barreiras atitudinais podem ser vistas na falta de acessibilidade física aos ambientes como cinemas, teatros ou museus; na falta de acessibilidade comunicacional nos produtos desses ambientes e na falta de acessibilidade programática, tecnológica e metodológica para o atendimento de pessoas com deficiência.

De outra maneira posta, as barreiras atitudinais impedem o acesso das pessoas com deficiência a diversas instâncias da convivência social, isto é, elas fazem oposição ao conceito de acessibilidade atitudinal definido por Sassaki (2007) nos seguintes termos: “Sem preconceitos, estigmas, estereótipo e discriminações, como resultado de programas e práticas de sensibilização e de conscientização das pessoas em geral e da convivência na diversidade humana.”

As barreiras sociais podem manifestar-se em diversas etapas do processo de feitura da áudio-descrição das imagens presentes no mundo das artes como Lima et al discorre no artigo intitulado "Áudio-descrição: orientações para uma prática sem barreiras atitudinais":
 

  • Barreira Atitudinal de Generalização: acreditar que pelo fato de uma determinada pessoa com deficiência preferir determinado tipo de áudio-descrição, todas as outras pessoas com a mesma deficiência irão desejá-lo igualmente.
     
  • Barreira Atitudinal de Ignorância: está arraigada no desconhecimento do áudio-descritor a respeito das características do público alvo.
     
  • Barreira Atitudinal de Medo: deixar de utilizar durante as descrições palavras como “cegueira” ou “surdez” por medo de ofender um grupo de espectadores com deficiência.
     
  • Barreira Atitudinal de Rejeição: recusar-se a interagir com os usuários do serviço de áudio-descrição e seus acompanhantes, adotando comportamentos hesitantes diante da possibilidade de ter o seu trabalho avaliado ou de se ter um contato mais aproximado com esse público.
     
  • Barreira Atitudinal de Propagação da deficiência: relacionar uma deficiência com uma outra, julgando, por exemplo, que uma pessoa com deficiência visual precisa de mais explicações de uma cena por não poder compreendê-la satisfatoriamente; ou falar mais alto para ela pelo simples fato de ser cega.
     
  • Barreira Atitudinal de Inferioridade: basicamente é subestimar a capacidade da pessoa com deficiência.
     
  • Barreira Atitudinal de Comparação: comparar os espectadores com deficiência com aqueles que não têm deficiência, julgando que os primeiros têm como única motivação para ir ao cinema, teatro etc., a oferta de áudio-descrição.
     
  • Barreira Atitudinal de Piedade: leva a um tratamento infantilizante para com espectadores com deficiência visual.
     
  • Barreira Atitudinal de Adoração do Herói: não encarar como natural o fato de uma pessoa com deficiência poder assistir a um filme no cinema ou ir ao teatro, encarando isso como espetacular o fato em si e não o evento artístico. Deve-se lembrar aqui que o espetáculo continua sendo o espetáculo e não a pessoa com deficiência que o está assistindo.
     
  • Barreira Atitudinal de Baixa Expectativa: crer que pessoas com deficiência visual não se interessam por eventos artísticos.
     
  • Barreira Atitudinal de Compensação: diz respeito a qualquer tipo de exagero na descrição visando compensar a deficiência visual.
     
  • Barreira Atitudinal de Exaltação do modelo: usar a imagem do espectador com deficiência, usuário do serviço de áudio-descrição, como modelo de persistência, coragem e superação diante dos demais espectadores.
     
  • Barreira Atitudinal de Negação: considerar os espectadores com deficiência da mesma forma que os demais espectadores, não levando em consideração as necessidades reais e específicas advindas de sua deficiência.
     
  • Barreira Atitudinal de Substantivação da deficiência: denominar uma pessoa com base em uma de suas características, o “cego”; “o surdo”; etc.
     
  • Barreira Atitudinal de Segregação: obrigar as pessoas com deficiência, usuárias do serviço de áudio-descrição, a ocupar determinados assentos no auditório, agindo de modo a segregá-las, não lhes permitindo a tomada de decisão sobre onde desejam sentar-se.
     
  • Barreira Atitudinal de Adjetivação: adotar adjetivos para designar as pessoas com deficiência, atribuindo-lhes classificações pejorativas como “lentas”, “distraídas”, “desmemoriadas” etc.


Conclusão

A arte, via de inclusão social nas mais diversas vertentes, precisa estar disponível a todos, em todas suas formas.

O museu, casa do conhecimento, da educação e do lazer, é morada da cultura, da arte e da mais verdadeira forma de registro do conhecimento humano. Não pode, assim, estar inacessível às pessoas com deficiência, nem por ser fisicamente inacessível, menos ainda, por estar inacessível por barreiras comunicacionais ou por barreiras atitudinais de seus curadores, de seus monitores e demais operadores do sistema.

Logo, propiciar meios com os quais as pessoas com deficiência possam desfrutar do que oferece o museu é meta que devemos perseguir, mormente derrubando as barreiras atitudinais, grandes responsáveis por toda sorte de obstáculo à inclusão dessas pessoas no seio social, cultural, educacional e de lazer.

Afastando as barreiras atitudinais no processo tradutório da oferta do serviço, a áudio-descrição nos museus, teatros, cinema irá possibilitar a interação do indivíduo com o conteúdo e o mundo a sua volta, pois lhe garantirá o acesso ao mundo da arte, traduzido com palavras que, por si só eliciam imagens na mente de quem as ouvem.

Destarte, a reflexão a respeito dessas barreiras é pertinente para remoção de entraves à construção de uma sociedade justa, que não desperdice tantos potenciais individuais com base em crenças equivocadas historicamente construídas e baseadas em puro preconceito.

Quando, então isso se der, teremos construído a maior das artes, a arte das artes, a primeira arte:

Uma sociedade humana em que basta ser humano para dela fazer parte, desfrutar, ser respeitado e respeitar. A pintura estará feita; a escultura finalizada a obra prima será a mãe de todas as obras, será o sol que ilumina, esquenta e faz viver a vida.


Bibliografia

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'Arte, Educação e Inclusão: Orientações para Áudio-Descrição em Museus'
autores: Francisco José de Lima, Paulo André de Melo Vieira, Ediles Revorêdo Rodrigues & Simone São Marcos Passos

 

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18.Out.2012
publicado por MJA