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 Sobre a Deficiência Visual


A Cegueira de Camilo

António Trabulo

Camilo Castelo Branco

 

Camilo Castelo Branco sofreu de neuro-sífilis. Para além de problemas locomotores e de diplopia, desenvolveu atrofia óptica bilateral que o acabaria por levar à cegueira e ao suicídio. Foi observado por alguns dos melhores oftalmologistas do seu tempo, como Manuel Lopes Santiago, Augusto Sebastião Guerra, Pedro Adriano Van Der Laan, Gama Pinto e outros.

Terá sido o próprio sofrimento que o inclinou a escrever sobre um cego (O cego de Landim, em Novelas do Minho) e sobre um oftalmologista ('O Olho de Vidro', romance baseado na vida do médico setecentista Brás Luís de Lima, autor de Portugal Médico).
 

Camilo, Ana Plácido e um dos filhos
 

Existem diversas obras sobre a cegueira de Camilo. 'Camilo e os médicos', de Maximiano Lemos, e 'A cegueira de Camilo', de Gomes Costa Filho, serão as mais conhecidas. No entanto, o próprio escritor foi registando por escrito a evolução da sua doença.

 

Imagem relacionada
Camilo em 7-Março-1882  (União – Photographia da Casa Real, Porto)
 

O mal de olhos de Camilo Castelo Branco manifestou-se em 1865, ou mesmo antes.

Em 28 de Abril de 1866, Camilo confessou, em carta a José Barbosa e Silva:

Foi muito grave o prognóstico da minha doença de olhos; mas hoje está averiguado que é efeito de venéreo inveterado. Sofro há 4 meses uma diplopia (visão dupla). É horrível para quem não tem outra distracção além da leitura. Tarde será o meu restabelecimento.

Em 6 de Junho de 1878, escreveu ao visconde de Ouguela:

Tenho de volta de mim catorze luzes para ver o que escrevo. Desde que o Sol se esconde estou cego. O pior é que escrevo com um dos olhos fechados para não ver tudo em duplicado.
 

CAMILO A ESCREVER
 

Apontou, a 7 de Fevereiro de 1886:

Os jornais tratam da minha saúde fantasiosamente, como os médicos. A minha enfermidade, ataxia locomotora, não é das que retrocedem, nem sequer estacionam. Hoje ainda me sustento de pé, com dificuldade; amanhã não poderei falar das pernas senão como retórica e luxo de anatomia. A visão segue as perturbações medulares. Tenho cegueiras completas quando passo de um quarto luminoso para outro mal alumiado. O que eu vejo bem é a morte a aproximar-se, e saúdo-a risonhamente, porque a vida do meu filho Jorge também está por pouco.


Voltou a queixar-se, a 22 de Novembro de 1886:

Os incuráveis padecimentos que se vão ampliando todos os dias levam-me ao suicídio – único remédio que lhes posso dar. Rodeado de infelicidades de espécie moral, sendo a primeira a insânia de meu filho Jorge e a segunda os desatinos de meu filho Nuno, nada tenho a que me ampare nas consolações da família. A mãe destes dois desgraçados não promete longa vida; e, se eu pudesse arrastar a minha existência até ver Ana Plácido morta, infalivelmente me suicidaria.

Escreveu, a 13 de Março de 1988:

Aqui esteve quatro horas o Dr. Gama Pinto, uma cara inteligentíssima revelando um excelente coração. Conheceu rapidamente o meu deplorável estado, e fez-me um bom discurso para me dar paciência e resignação com a cegueira.
Caíram todos os meus castelos no ar quando o médico, em vez de combater a minha cegueira, tratou de me armar de paciência para tolerá-la. Fez-se na minha alma uma noite escura, que nunca mais terá aurora.

Lamentou-se, a 22 de Junho de 1888:

Cada dia, pior. A agudeza da vista central, que ainda tinha em Lisboa, desapareceu. Suspendi tudo que era remédio. Endoideço, porque vou cegar inteiramente.

A 27 de Novembro de 1888, começava a desesperar:

Não dou um passo sem que me conduzam, não conheço ninguém, apenas distingo vultos ao aproximarem-se.

Ainda escreveu, a 29 de Agosto de 1889:

Atormentam-me os frenesins tabéticos que me não deixam sossegar de noite, e muito pouco de dia. Minha mulher acompanha-me neste calvário e verga ao peso da cruz enorme.
 

Ana Plácido
Ana Plácido


A 21 de Maio de 1890, Camilo escreve ao oftalmologista Edmundo de Magalhães Machado, de Aveiro, rogando-lhe que o salve da cegueira.

Illmo. e Exmo.
Sr., Sou o cadáver representante de um nome que teve alguma reputação gloriosa neste país durante 40 anos de trabalho. Chamo-me Camilo Castelo Branco e estou cego. Ainda há quinze dias podia ver cingir-se a um dedo das minhas mãos uma flâmula escarlate. Depois, sobreveio uma forte oftalmia que me alastrou as córneas de tarjas sanguíneas. Há poucas horas ouvi ler no Comércio do Porto o nome de V. Exa. Senti na alma uma extraordinária vibração de esperança. Poderá V. Exa. salvar-me? Se eu pudesse, se uma quase paralisia me não tivesse acorrentado a uma cadeira, iria procurá-lo. Não posso. Mas poderá V. Exa. dizer-me o que devo esperar desta irrupção sanguínea nuns olhos em que não havia até há pouco uma gota de sangue?

Digne-se V. Exa. perdoar à infelicidade estas perguntas feitas tão sem cerimónia.
 

A 1 de Junho desse ano, o Dr. Magalhães Machado visita o escritor em Seide. Depois de lhe examinar os olhos condenados, o médico com alguma diplomacia, recomenda-lhe o descanso numas termas e depois, mais tarde, talvez se poderia falar num eventual tratamento. Quando Ana Plácido acompanhava o médico até à porta, eram três horas e um quarto da tarde, sentado na sua cadeira de balanço, desenganado e completamente desalentado, Camilo Castelo Branco disparou um tiro de revólver na têmpora direita para se suicidar.

Mesmo assim, sobreviveu em coma agonizante até às cinco da tarde. A 3 de Junho, às seis da tarde, o seu cadáver chegava de comboio ao Porto e no dia seguinte, conforme a seu pedido, foi sepultado perpetuamente no jazigo de um amigo, João António de Freitas Fortuna, no cemitério da Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Lapa. Tinha 65 anos.


REFERÊNCIAS | Além do meu livro 'Eu, Camilo', este artigo apoiou-se em 'Camilo Castelo Branco – Memórias fotobiográficas', de Viale Moutinho, e no 'Dicionário de Camilo Castelo Branco', de Alexandre Cabral.  ANTÓNIO TRABULO
 

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A CAMARA ARDENTE — O MORTO.

«A vasta sala, despida de sanefas e de espelhos, com o cadaver sobre um panno, ao meio, tinha uma solemnidade lugubre que a assemelhava a um templo vasio: o choro da esposa e o crepitar das luzes eram os unicos sons que interrompiam a funebre quietação do aposento.

No seu fato escuro — pardessus usado, frak e calça preta da mesma fazenda, costume que vestia quando se suicidou — tons roxeados a cercar-lhe as narinas e os olhos, o seu perfil macerado, fortemente vincado de rugas, o farto bigode cahindo-lhe lasso, na bocca esse extranho rictus que parece dar ao cadaver um riso de mofa, — o supremo escarneo da morte á vida. Lá estava elle sereno como um adormecido, os pés salientes, a cabelleira negra e comprida, as mãos finas cruzadas sobre o peito, o morto, mal illuminado pelo clarão de duas velas, parecia seguir com os olhos mal cerrados a dôr da viscondessa que aos pés do seu ultimo leito, abysmada na oração, velava sósinha.»  Correio da Manhã (1890)
 


Casa-Museu Camilo Castelo Branco em S. Miguel de Seide


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  • A CEGUEIRA DE CAMILO   Δ
    por António Trabulo
    in blog 'Historinhas da Medicina'
    fonte do texto: http://historinhasdamedicina
     
  • artigo do Correio da Manhã (1890) in 'As Cinzas de Camillo' do Visconde de Vila Moura (Projecto Gutenberg)  Δ

  • vídeo de 4 min sobre a Casa-Museu Camilo Castelo Branco (MaisPortugal.Com)  Δ

  • fotografias recolhidas em múltiplos sites
     


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6.Mar.2017
Publicado por MJA