Manuela Micaelo

Rapariga cega
lê numa Biblioteca
Especificidade da leitura na população escolar
com limitações visuais acentuadas
A leitura integra uma forte componente visual exigindo não só uma
acuidade visual capaz de discriminar pormenores e um campo visual com extensão
suficiente para abranger uma determinada extensão do texto, como também a
capacidade de realizar movimentos oculares rápidos e eficazes. São esses
movimentos que permitem fixar um dado ponto da palavra para que um determinado
fragmento do texto possa ser descodificado, saltando depois para o próximo ponto
de fixação. A precisão destes movimentos implica a correcta selecção do alvo da
fixação, a capacidade de manter a fixação nesse alvo durante o tempo necessário
para processar a informação e uma adequada planificação da amplitude a imprimir
ao movimento, de modo a que todo o texto seja percorrido.
Para os alunos com baixa visão, ou porque a informação é recebida de forma
fragmentada e distorcida, ou porque o campo visual é muito reduzido ou ainda
porque existem dificuldades na fixação ou no controlo dos movimentos oculares, a
leitura converte-se numa actividade morosa e cansativa.
Estes alunos podem ter dificuldade: (i) em seguir a linha no texto, saltando
palavras; (ii) em efectuar a mudança de linha na leitura de um texto, saltando
linhas; (iii) em localizar determinada palavra ou informação no texto: (iv) em
identificar letras ou palavras graficamente semelhantes; (v) em localizar
informação numa tabela ou num gráfico; (vi) em identificar pormenores ou ver
globalmente uma imagem.
Nos alunos cegos, devido a limitações inerentes à recepção da informação através
do tacto, a leitura processa-se também de forma bastante lenta. Com efeito, a
área mais sensível da polpa do dedo permite abranger apenas um símbolo da grafia
Braille de cada vez. A unidade perceptiva corresponde, pois, a um símbolo e não
um fragmento do texto como na leitura visual.
Também ao nível da compreensão de leitura os alunos cegos ou com graves
limitações visuais apresentam, normalmente, níveis de desempenho inferiores aos
dos seus pares, decorrentes de um menor domínio linguístico, particularmente
evidente no campo lexical, mas também semântico-sintáctico
O facto de muitos conceitos serem baseados em informação dependente de
experiências visuais, tem como consequência um repertório lexical menos extenso
e com um nível de elaboração dos conceitos menos aprofundado. Os conceitos são
construídos de forma parcelar, baseados em informações provenientes dos
restantes sentidos e em descrições verbais, muitas vezes subjectivas e
imprecisas.
O menor domínio semântico-sintáctico incide essencialmente em estruturas
frásicas pouco frequentes na linguagem oral, e por isso de difícil apreensão por
pessoas com uma reduzida prática de leitura, como normalmente acontece com os
alunos cegos ou com baixa visão.
A reduzida prática de leitura, devido à dificuldade de acesso a materiais
escritos, em formatos adaptados contribui para que ao longo da escolaridade se
vá ampliando o hiato que os separa dos seus pares normovisuais, tanto no que se
refere à velocidade como à compreensão de leitura.
Os alunos com graves limitações visuais podem, contudo, atingir níveis de
literacia idênticos aos dos seus pares desde que lhes sejam garantidas condições
de acesso a uma prática continuada de leitura.
Orientações gerais
Os alunos cegos e com baixa visão são
motivados, para desenvolver o gosto e o prazer pela leitura, exactamente da
mesma forma que os seus pares. Devem, por isso, participar com os seus colegas
nas actividades de leitura orientada na sala de aula, dispondo de um exemplar do
livro trabalhado (em braille, impresso ampliado, áudio ou CD-Rom) para que
possam seguir a história, participar nas discussões de grupo e nas restantes
actividades desenvolvidas em torno da obra que está a ser explorada.
Para além do acesso à obra que está a ser lida, é importante que se criem
condições, no âmbito da organização e gestão da sala de aula, que facilitem a
plena participação destes alunos.
Aspectos a ter em atenção:
-
colocar os livros da biblioteca da sala de aula num local
que facilite a sua localização e acesso;
-
assegurar-se de que os alunos dispõem dos materiais e ajudas técnicas
necessárias para trabalharem o mais independentemente possível;
-
na distribuição dos alunos na sala de aula ter em consideração o espaço
necessário para os alunos que utilizam equipamentos electrónicos,
informáticos, mesas de plano inclinado ou candeeiros de tarefa,
assegurando-se que não fiquem isolados dos restantes alunos;
-
sempre que correrem alterações disposição dos espaços de trabalho
alertar o aluno para essas modificações;
-
posicionar os alunos com baixa visão no local da sala de aula que lhes
proporciona uma maior qualidade de visão, evitando lugares em frente a
fontes de luz (natural ou artificial);
-
evitar os reflexos da luz no livro e na superfície de trabalho;
-
sempre que as actividades envolvem algum tempo de leitura individual,
estar atento a sinais de fadiga, tais como olhos lacrimejantes, vermelhos
ou dores de cabeça, permitindo ao aluno que faça uma pausa;
-
sempre que as actividades impliquem leitura individual, dar ao aluno o
tempo necessário para que o possa fazer;
-
colocar os alunos cegos num local que lhes permita ouvir bem;
-
solicitar a estes alunos, tal como aos outros, a leitura de excertos dos
livros em voz alta (por vezes estes alunos lêem muito devagar e com elevado
número de incorrecções, nestes casos o excerto a ler em voz alta deverá ser
previamente treinado, para que o aluno se sinta confiante ao expor-se
perante os colegas);
-
dar aos alunos informações verbais, e informações provenientes de
diferentes fontes sensoriais, que lhes permitam compreender informações
visuais relevantes.
Jardim de Infância e início do 1º CEB
A visão constitui um canal privilegiado de acesso ao mundo, sendo a base de uma
parte significativa das aprendizagens humanas. Através da visão as crianças
desenvolvem-se e aprendem naturalmente, sem que tenham que ser ensinadas,
unicamente pelo facto de observarem, explorarem e interagirem com o mundo que as
rodeia. É o que acontece, por exemplo, com a aquisição de conhecimentos precoces
sobre a leitura. Vivendo numa sociedade em que a informação escrita está
presente em toda a parte, a criança tem frequentemente oportunidade de observar
o adulto a ler e de se envolver em experiências de leitura e escrita,
manipulando livros, ouvindo ler e conversando sobre o escrito. Desta forma, sem
que seja ensinada, aprende por si só as finalidades e características
figurativas da linguagem escrita, bem como a sua relação com a linguagem oral.
No caso das crianças cegas ou com graves limitações visuais, a informação visual
é inexistente ou recebida de forma fragmentada e distorcida, o que limita a
interacção com o ambiente e a extensão e variedade das experiências de leitura e
escrita, comprometendo as aprendizagens acidentais.
Só a criação de situações de deliberada exposição a contextos e experiências
concretas e significativas no âmbito da literacia, por parte dos pais e
educadores, poderá proporcionar a estas crianças a aquisição de comportamentos
emergentes de leitura.
Sempre que são lidas histórias a crianças com graves limitações visuais pode
haver necessidade de:
-
explicar clara e objectivamente palavras e conceitos que
as restantes crianças apreendem através da visualização das ilustrações;
-
combinar a informação verbal com informação proveniente de outros
sentidos, promovendo assim a combinação de informação proveniente de várias
fontes de forma a que o cérebro consiga formar um todo;
-
explorar as imagens visuais ou em relevo ajudando a criança a
conferir-lhes sentido;
-
incentivar as crianças cegas a tocarem os caracteres e as palavras
escritas em braille, bem como a seguirem a linha com o dedo;
-
planificar as actividade de forma estruturada para que a criança
adquira conceitos básicos sobre a leitura:
A construção de “caixas de livros", contendo cada caixa
objectos relativos a uma determinada história, sempre que possível objectos
reais, poderá estimular o interesse da criança em ouvir a história e a
compreensão de conceitos que a mesma integra, bem como a interacção entre o
adulto e a criança. À medida que se vai contando a história, no momento em que
determinada personagem surge na história ou é feita referência a dum dado
objecto, estes vão sendo retirados da caixa.
Quando se constróem livros adaptados em braille, cada linha de texto em braille
deve ter em cima a linha de texto impresso a negro correspondente, para quando
os adultos, educadores e pais, lêem histórias à criança possam partilhar o mesmo
livro.
Para as crianças cegas ou com baixa visão, tal como para todas as outras, o
ingrediente mágico para despertar o prazer pela leitura é a motivação. E esta só
se consegue se a criança ouvir ler histórias adequadas aos seus interesses e se
for desafiada e capaz de manipular e explorar os livros.
Dar-lhes a oportunidade, desde as primeiras idades, de viverem experiências
gratificantes de literacia; quando construírem conceitos básicos sobre a leitura
e a escrita e de desenvolverem o desejo de ler é dar-lhes a possibilidade de se
tornarem futuros leitores.
Envolvimento das famílias
O trabalho com as famílias assume ainda maior importância no caso das crianças
com graves problemas visuais.
Para muitos dos pais, preocupados com os problemas visuais dos seus filhos, a
literacia não constitui uma prioridade no âmbito do desenvolvimento dos seus
filhos.
Para outros, o facto de a criança não ver ou ver muito pouco, fá-los considerar
não ser importante ler histórias aos filhos nem incentivá-los a explorar os
livros.
A ausência de informação relativamente a instituições que podem facultar livros
adaptados, bem como ao conhecimento do modo como podem eles próprios, em alguns
casos, adaptar as obras existentes no mercado, constitui outro dos factores que
contribui para que muitos dos pais destas crianças não leiam histórias aos
filhos, limitando-se a contar-lhes histórias. Actividade importante, mas que não
substitui a leitura.
Orientações para o trabalho com as famílias:
-
Explique aos pais a importância de lerem livros aos
filhos;
-
Partilhe com os pais as indicações relativas à adaptação de livros e aos
aspectos a ter em consideração durante a leitura de histórias;
-
Incentive os pais e ler em voz alta para os filhos e a interagir com
eles, ajudando-os a explorar e compreender as imagens, texturas ou objectos
referentes a cada história.
Escolas do 1º e 2º CEB
Dispondo de livros em formatos adaptados
e/ou das ajudas técnicas e ergonómicas necessárias, os alunos cegos e com baixa
visão podem, e devem, participar plenamente nas actividades de leitura orientada
na sala de aula desenvolvidas em grande grupo.
Os momentos de trabalho independente ou em pequenos grupos, no âmbito de uma
gestão flexível do currículo, permitem responder a diferentes interesses,
capacidades e necessidades dos alunos.
Relativamente aos alunos com graves limitações visuais podem ser utilizados
para, sempre que necessário, serem trabalhadas competências específicas exigindo
em algumas situações a presença do docente de educação especial. O trabalho de
suporte do docente de educação especial poderá também desenvolver-se fora da
sala de aula, trabalhando com o aluno a aquisição de determinados conhecimentos
ou competências, por exemplo conceitos abordados na história que irá ser lida na
sala de aula.
Os alunos cegos ou com baixa visão apresentam normalmente uma reduzida
velocidade de leitura e níveis de compreensão de leitura inferiores aos dos seus
pares etários.
Estratégias para aumentar a velocidade de leitura:
-
leitura a pares: o aluno faz equipa com um
colega bom leitor lendo os dois simultaneamente, um deles em voz alta
(primeiro o colega) e o outro em voz baixa;
-
leitura em eco: o aluno lê ao mesmo tempo que o
professor, que vai controlando o ritmo de forma a aumentar a velocidade
de leitura e a confiança do aluno;
-
leitura em coro: os alunos lêem todos ao mesmo tempo
com o professor; os alunos com uma menor velocidade de leitura tentam
aumentá-la para acompanhar a turma.
Estratégias para melhorar a compreensão de leitura:
-
de preparação da leitura (discussão sobre o tópico
com base em conhecimentos prévios e antecipação do conteúdo a partir do
título ou da ilustração da capa);
-
de controlo da compreensão (utilização de pistas
contextuais – visuais, fonológicas, semânticas e sintácticas;
identificação de ideias-chave, elaboração de sínteses do texto já lido,
realização de inferências, articulação da informação com conhecimentos
prévios).
Publicações recomendadas
Ladeira, F.; Queirós, S. (2002). Compreender a Baixa
Visão. Lisboa: ME/DEB [Publicação destinada a pais e a todos os profissionais da educação, saúde e
segurança social que trabalham com crianças e jovens com problemas de baixa
visão.]
Sim-Sim, I. (org.) (2005). Necessidades Educativas
Especiais: Dificuldades da Criança ou da Escola?. Lisboa: Texto Editores [Obra que tem como objectivo ajudar os professores na busca de uma melhor
actuação pedagógica com todas as crianças, aborda questões como a avaliação, a
indisciplina e a diferenciação pedagógica, exemplificando como se diferencia a
actuação pedagógica com alunos com necessidades educativas especiais. Um dos
capítulos centra-se nos alunos com baixa visão.]
Sim-Sim, I. (org.). (2006). Ler e Ensinar a Ler. Lisboa:
Edições ASA [Obra destinada a docentes, futuros professores e investigadores na área do
ensino/aprendizagem da leitura, pretende exemplificar uma sequência de
aprendizagem da leitura, através do relato de cinco estudos desenvolvidos com
população portuguesa, desde a educação pré-escolar até ao 9º ano de
escolaridade, mostrando, ao mesmo tempo, como ensinar a ler e a aprender a ler
se podem tornar mais eficazes, transformando-se em actividades prazerosas. Um
dos estudos diz respeito a alunos com baixa visão.]
ϟ
Δ
12.Set.08
publicado
por
MJA
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