trailer do filme «Mademoiselle Paradis» | Licht [2017]
«Harmony" is an absorbing but peculiar tale about a gifted 18th-century Austrian pianist whose hysterical blindness is temporarily cured through unorthodox treatment.
Julian Barnes bases his narrative on an actual case — Franz Mesmer's treatment of
Maria Theresia von Paradis».
Eles tiveram um bom jantar no 261 da Landstrasse e agora passavam, ansiosos, à
sala de música. Os amigos mais íntimos de M. tiveram a sorte de ouvir Gluck,
Haydn e o jovem prodígio Mozart tocarem para eles algumas vezes; mas eles
igualmente se contentavam em ouvir seu anfitrião sentado atrás do violoncelo e
fazendo sinal para um deles acompanhá-lo. Desta vez, porém, a tampa do klavier
estava fechada e não se via o violoncelo em lugar algum. O que viram foi uma
caixa oblonga de jacarandá sobre pernas em forma de liras parelhas; em uma ponta
havia uma roda e embaixo um pedal. M. levantou a tampa arqueada da engenhoca,
revelando três dúzias de taças de vidro semiesféricas ligadas a um eixo central
e parcialmente submersas numa tina de água. Ele se sentou em frente ao
instrumento e abriu uma gaveta estreita nos dois lados do instrumento. Uma
continha uma tigela rasa de água, a outra um prato com giz bem fino.
— Se me permitem uma sugestão — disse M., olhando para os convidados a sua
volta. — Aqueles que ainda não ouviram o instrumento da sra. Davies devem tentar
experimentar ouvi-lo com os olhos fechados. M. era um homem alto, robusto e
vestia um jaquetão azul com botões de latão chatos; seus traços fortes e queixo
papudo eram de um suábio fleumático, e se o porte e a voz não denotassem
claramente que pertencia à pequena nobreza, ele poderia ser confundido com um
fazendeiro próspero. Mas foram os seus modos, educados porém persuasivos, que
impeliram alguns que já o tinham ouvido tocar a também fechar os olhos.
M. mergulhou a ponta dos dedos na água, sacudiu-os para secá-los e esfregou-os
no giz. Pressionou o pedal com o pé direito e o eixo de pinos de latão brilhante
começou a girar. Ele encostou os dedos nas taças em rotação e ouviu-se um som
agudo numa cadência animada. Sabia-se que o instrumento custara cinquenta
ducados de ouro, e os céticos entre os convidados presentes se perguntavam por
que seu anfitrião havia pago tanto para reproduzir o lamento de um gato no cio.
Mas à medida que os convidados se acostumaram ao som, eles começaram a mudar de
ideia. Uma melodia clara era perceptível: talvez uma composição do próprio M.,
talvez uma homenagem, ou mesmo uma apropriação indébita de Gluck. Nunca tinham
ouvido algo parecido, e o fato de não conseguirem ver o método utilizado para
produzir tal som acentuava ainda mais sua estranheza. Eles não sabiam o que
esperar e, assim, guiados apenas pela razão e pelo sentimento, se perguntavam se
tais sons estranhos não seriam algo de sobrenatural.
Quando M. parou de tocar por alguns instantes para passar uma esponjinha nas
taças de vidro, um de seus convidados, sem abrir os olhos, observou:
— É a música das esferas.
M. sorriu.
— A música busca a harmonia — M. replicou. — Assim como o corpo humano busca a
harmonia. — Era uma resposta e ao mesmo tempo não era; em vez de liderar, ele
preferia deixar que os outros, em sua presença, achassem o seu próprio caminho.
A música das esferas era ouvida quando todos os planetas se movimentavam em
concerto no céu. A música da Terra era ouvida quando todos os instrumentos de
uma orquestra tocavam juntos. A música do corpo humano era ouvida quando ele
também se encontrava em harmonia, os órgãos em paz, o sangue fluindo livremente
e os nervos alinhados em seus verdadeiros e devidos caminhos.
O encontro entre M. e Maria Theresia von P. se deu na cidade imperial de V.
entre o inverno de 177— e o verão do ano seguinte. Tais pequenas omissões de
detalhes eram um maneirismo literário rotineiro na época, mas também admitiam
judiciosamente a parcialidade de nosso conhecimento. Qualquer filósofo que
afirmasse que seu campo de conhecimento era completo, e que uma síntese da
verdade final e harmoniosa era oferecida ao leitor, teria sido denunciado como
charlatão. Da mesma forma, os filósofos do coração humano que contam suas
histórias teriam sido — e seriam — prudentes o suficiente para não fazerem tais
alegações.
Sabemos, por exemplo, que M. e Maria Theresia von P. já haviam se conhecido doze
anos antes, porém não sabemos se ela se recordava do fato. Sabemos que era filha
de Rosalia Maria von P., esta por sua vez filha de Thomas Cajetan Levasori della
Motta, mestre de dança da corte imperial; e que Rosalia Maria havia se casado
com o secretário imperial e conselheiro da corte Joseph Anton von P. na igreja
de Stefanskirche em 9 de novembro de 175 —. Mas não sabemos o que a mistura de
sangues tão distintos acarretou, e se esta foi de algum modo a causa da
catástrofe que se abateu sobre Maria Theresia.
Sabemos também que ela foi batizada em 15 de maio de 175—, e que aprendeu a pôr
os dedos em um teclado quase ao mesmo tempo em que aprendeu a pôr os pés no
chão. A saúde da criança era normal, segundo o relato do pai, até a manhã de 9
de dezembro de 176—, quando ela acordou cega, aos 3 anos e meio de idade. O que
foi considerado um caso típico de amaurose: a saber, não havia nenhuma falha
detectável no organismo em si, mas a perda de visão foi total. Aqueles
convocados para examiná-la atribuíram a causa a um fluido com repercussões, ou a
algum susto que a menina tivera durante a noite. Nem os pais nem os criados,
porém, puderam atestar algum acontecimento dessa natureza.
Dado que a criança era estimada e bem-nascida, ela não foi negligenciada. Seu
talento musical foi encorajado, e ela atraiu a atenção e o apoio da própria
imperatriz. Uma pensão de duzentos ducados de ouro foi concedida aos pais de
Maria Theresia von P., além do custeio de sua educação. Ela aprendeu a tocar
cravo e pianoforte com Kozeluch, e canto sob a orientação de Righini. Aos 14
anos, ela encomendou um concerto de órgão de Salieri; aos 16 era um adorno nos
salões e sociedades de concerto.
Para alguns que ficavam boquiabertos ao ouvir a filha do secretário imperial
tocar, a cegueira reforçava o apelo. No entanto, os pais da menina não queriam
que ela fosse tratada como o equivalente social de uma curiosidade de circo.
Desde o início, eles buscavam continuamente a cura. O professor Stoerk, médico
da corte e diretor da Faculdade de Medicina, a atendia regularmente, e o
professor Barth, célebre por suas operações de catarata, também era consultado.
Tentou-se uma sucessão de curas, mas como todas fracassaram em aliviar a doença
da menina, ela se tornou propensa à irritação e melancolia, e era acometida por
ataques que faziam com que seus globos oculares se projetassem para fora das
órbitas. Talvez fosse possível prever que a confluência de música e medicina
provocaria o segundo encontro entre M. e Maria Theresia.
M. nasceu em Iznang, no Lago Constança, em 173—. Filho de um guarda-caça
episcopal, estudou teologia em Dillingen e Ingolstadt e depois fez doutorado em
filosofia. Chegou em V. e tornou-se doutor em direito antes de voltar sua
atenção para a medicina. Todavia, tal peripécia intelectual não indicava
inconstância, e menos ainda a alma de um diletante. Indicava que M. buscava,
assim como o Doutor Fausto, dominar todas as formas de conhecimento humano; e,
como muitos antes dele, seu propósito — ou sonho — era encontrar uma chave
universal que lhe permitisse alcançar a compreensão final do que ligava o céu à
terra, o espírito ao corpo, todas as coisas umas às outras.
No verão de 177—, um estrangeiro distinto e sua mulher visitavam a cidade
imperial. A senhora adoeceu e o marido — como se isso fosse um procedimento
médico comum — instruiu Maximilian Hell, astrônomo (e membro da Sociedade de
Jesus), a criar um ímã que pudesse ser aplicado à região afetada. Hell, que era
amigo de M., o manteve informado da incumbência; e, quando a doença da senhora
foi dada como curada, M. correu ao seu leito para se informar sobre o
procedimento. Logo depois, ele começaria suas próprias experiências. Encomendou
a construção de numerosos ímãs de diferentes tamanhos: uns para serem aplicados
à barriga, outros ao coração, outros ainda à garganta. Para sua surpresa, e
gratidão de seus pacientes, M. descobriu que curas além da perícia de um médico
podiam às vezes ser realizadas; os casos de Fräulein Oesterlin e do matemático
professor Bauer foram, especialmente, levados em conta.
Caso M. fosse um charlatão de parque de diversões, e seus pacientes, camponeses
crédulos aglomerados em uma barraca fedorenta, tão ávidos para serem aliviados
de suas economias como de suas dores, a sociedade não lhe teria dado atenção.
Mas M. era um homem da ciência, de grande curiosidade e imodéstia não muito
evidente, que não alegava saber mais do que podia explicar.
— Funciona — comentara o professor Bauer, quando sua respiração melhorou e ele
pôde erguer seus braços além da posição horizontal.
— Mas como funciona?
— Eu ainda não entendi — respondera M. — Quando os ímãs eram empregados no
passado, explicava-se que eles atraíam as doenças da mesma forma como atraíam
partículas de ferro. Mas não podemos sustentar este argumento hoje. Não vivemos
mais na época de Paracelso. A razão guia o nosso pensamento, e deve ser
aplicada, mais ainda quando lidamos com fenômenos que espreitam sob a pele das
coisas.
— Desde que você não proponha me dissecar para descobrir — respondeu o professor
Bauer.
Naqueles primeiros meses, a cura magnética era uma questão tanto de investigação
científica quanto de prática médica. M. fez experimentos com o posicionamento e
o número de ímãs aplicados ao paciente. Ele próprio costumava carregar um ímã em
uma bolsa de couro em volta do pescoço para aumentar sua influência, e usava um
bastão, ou varinha, para indicar o curso de realinhamento que buscava nos
nervos, no sangue, nos órgãos. Magnetizava piscinas de água e fazia os pacientes
mergulhar as mãos, os pés e às vezes o corpo inteiro no líquido. Magnetizava as
xícaras e os copos em que bebiam. Magnetizava suas roupas, roupas de cama,
espelhos. Magnetizava instrumentos musicais para que uma dupla harmonia
resultasse do seu toque. Magnetizava gatos, cães e árvores. Construiu um baquet,
uma tina de carvalho contendo duas fileiras de garrafas cheias de água imantada.
Bastões de aço que emergiam de buracos na tampa eram encostados em partes
afligidas do corpo. Os pacientes eram por vezes encorajados a juntar as mãos e
formar um círculo em volta do baquet, já que M. supunha que o fluxo magnético
aumentava de força ao passar por vários corpos simultaneamente.
— É claro que me lembro da gnädige Fräulein da minha época de estudante de
medicina, quando às vezes me permitiam acompanhar o professor Stoerk. — Agora o
próprio M. fazia parte do corpo docente, e a menina era quase uma mulher:
rechonchuda, com a boca virada para baixo e o nariz empinado. — E, embora eu
consiga me lembrar da descrição da sua doença naquela época, gostaria não
obstante de lhe fazer perguntas que temo já tenha respondido muitas vezes.
— É claro.
— Não há nenhuma possibilidade de que a Fräulein fosse cega de nascimento?
M. percebeu a mãe impaciente para responder, mas se contendo.
— Nenhuma — disse o marido. — Ela via tão bem quanto os irmãos e as irmãs.
— E ela não ficou doente antes de ficar cega?
— Não, ela sempre teve uma saúde de ferro.
— E ela sofreu algum tipo de choque na época de seu infortúnio, ou pouco antes?
— Não. Quer dizer, não que nós ou qualquer outra pessoa tivéssemos observado.
— E depois?
Dessa vez a mãe respondeu. — A vida dela sempre foi protegida contra choques da
maneira que conseguimos. Eu arrancaria meus próprios olhos se achasse que isso
devolveria a visão a Maria Theresia.
M. olhava para a jovem, que não reagia. Era provável que ela já tivesse ouvido
essa solução improvável.
— Então, a doença dela é constante?
— A cegueira sim — disse outra vez o pai. — Mas há períodos em que seus olhos se
movem convulsivamente e sem cessar. E os globos oculares, como o senhor pode
ver, são saltados, como se tentassem escapar das órbitas.
— Você tem consciência desses períodos, Fräulein?
— Claro. Sinto como se houvesse uma água correndo lentamente e enchendo a minha
cabeça, como se fosse desmaiar.
— E depois disso ela sofre do fígado e do baço. Eles passam a funcionar mal.
M. aquiesceu. Precisaria estar presente quando ela tivesse uma dessas crises,
para conjeturar sobre suas causas e observar seu progresso. Perguntava-se qual
seria a melhor forma de fazê-lo.
— Posso fazer uma pergunta ao doutor? — Maria Theresia erguera levemente a
cabeça na direção dos pais.
— É claro, minha filha.
— O seu procedimento é doloroso?
— Nenhuma dor que eu mesmo inflija. Embora normalmente os pacientes precisem ser
levados a um certo… extremo antes de a harmonia ser restaurada.
— O que quero saber é se seus ímãs causam choques elétricos.
— Não, isso eu posso lhe prometer.
— Mas, se o senhor não causa dor, como pode curar? Todos sabem que não se pode
extrair um dente sem dor, não se pode consertar um membro sem dor, não se pode
curar a loucura sem dor. Um médico causa dor, isso todo mundo sabe. E eu também
sei.
Desde bem pequena, os melhores médicos haviam lhe aplicado os métodos mais
eficazes. Ela passara por vesicação, cauterização e aplicação de sanguessugas.
Durante dois meses a cabeça de Maria Theresia foi envolvida em um gesso
destinado a provocar supuração e extrair o veneno de seus olhos. Ela havia
tomado inúmeros purgativos e diuréticos. E, mais recentemente, haviam recorrido
à eletricidade, e no decorrer de um ano cerca de três mil choques foram
administrados em seus olhos, às vezes uma centena em um único tratamento.
— O senhor tem realmente certeza de que esse magnetismo não me causará dor?
— Tenho certeza.
— Então, como pode me curar?
M. ficou contente de vislumbrar o cérebro atrás dos olhos que não viam. Uma
paciente passiva, meramente à espera de um médico onipotente que agisse sobre
ela, era algo entediante; ele preferia aqueles, como aquela jovem, que exibiam
impetuosidade por trás das boas maneiras.
— Permita-me explicar. Desde que a senhorita ficou cega, suportou muita dor nas
mãos dos melhores médicos da cidade.
— É verdade.
— E, contudo, ainda não está curada?
— Não.
— Então talvez a dor não seja a única saída para a cura.
Nos dois anos em que praticara a magnetoterapia, M. havia ponderado
constantemente a questão de como e por que ela poderia funcionar. Uma década
antes, em sua tese de doutorado, De planetarum influxu, ele havia proposto que
os planetas influenciavam as ações humanas e o corpo, por meio de um gás ou
líquido invisível, no qual todos os corpos estavam imersos, e que por falta de
melhor termo ele chamava de gravitas universalis. Ocasionalmente, o homem podia
vislumbrar a conexão maior e se sentir capaz de entender a harmonia universal
que jaz além de toda discordância local. No momento presente, o ferro magnético
chegava à Terra na forma e no corpo de um meteoro caído do céu. Uma vez aqui,
exibia sua propriedade singular, o poder de realinhar. Não era possível,
portanto, supor que o magnetismo era a grande força universal que unia a
harmonia estelar? E, nesse caso, não seria sensato esperar que no mundo sublunar
fosse possível aplacar certas desarmonias corpóreas?
Era evidente que o magnetismo não podia curar qualquer falha corporal. Ele se
mostrara bastante eficaz em casos de dor de estômago, gota, insônia, problemas
de audição, distúrbios hepáticos e menstruais, espasmos e até paralisia. Não
podia curar um osso quebrado, nem retardo mental, nem sífilis. Mas em problemas
do sistema nervoso, podia com frequência efetuar uma melhora surpreendente. De
novo, não podia vencer um paciente atolado em ceticismo ou descrença, nem alguém
cujo pessimismo ou melancolia minassem a possibilidade de um retorno à saúde.
Devia haver uma disposição para admitir e acolher os efeitos do procedimento.
Com esse objetivo, M. buscou criar, em seu consultório no número 261 da
Landstrasse, uma atmosfera propícia a essa aceitação. Cortinas pesadas
eliminavam a luz do sol e o ruído externo; sua equipe estava proibida de
realizar movimentos repentinos; havia calma e luz de velas. Música suave podia
ser ouvida de outra sala; às vezes, o próprio M. tocava a harmônica de vidro da
sra. Davies, lembrando aos corpos e às mentes a harmonia universal que ele
estava, naquela pequena parte do mundo, procurando restaurar.
M. começou o tratamento em 20 de janeiro de 177—. Um exame externo confirmou que
os olhos de Maria Theresia exibiam uma malformação grave: estavam bastante fora
do alinhamento normal, exageradamente inchados e saltados. Internamente, a moça
parecia estar numa tensão em que fases esporádicas de histeria podiam levar a
uma perturbação mental crônica. Dado que ela sofrera quatorze anos de esperança
frustrada, e quatorze anos de cegueira incessante, essa não era uma reação
inesperada de um corpo e uma mente jovens. M. começou, então, a enfatizar
novamente como o seu procedimento era diferente de todos os outros, como não se
tratava de impor novamente a ordem por meio de uma violência externa, mas sim
por meio de uma colaboração entre o médico e seu paciente, com o objetivo de
restabelecer o alinhamento natural do corpo. M. falava em termos gerais; sabia
por experiência própria que o fato de o paciente ser constantemente informado
sobre o que deveria esperar não ajudava. Ele não falava da crise que esperava
provocar, nem previa a extensão da cura que visualizava. Mesmo para os pais da
jovem, só expressava a ambição humilde de aliviar a grave extrusão ocular.
Explicou cuidadosamente suas primeiras ações, para que não causassem surpresa.
Então se voltou aos pontos de sensibilidade na cabeça de Maria Theresia. Pôs as
mãos, em concha, em volta das orelhas da moça; deu batidinhas no crânio, da base
do pescoço à fronte; tocou com os polegares as maçãs do rosto, logo abaixo dos
olhos, e fez movimentos circulares em volta das órbitas afetadas. Então,
gentilmente, encostou sua varinha, ou bastão, sobre cada uma das sobrancelhas.
Ao fazê-lo, encorajou em voz baixa Maria Theresia a relatar qualquer mudança ou
movimento que experimentasse dentro de si. Em seguida, pôs um ímã em cada uma
das têmporas. De imediato, sentiu uma sensação repentina de calor nas maçãs da
jovem, que ela confirmou; mas também observou uma vermelhidão na pele e um
tremor nos membros. Ela então descreveu uma energia concentrada na base de seu
pescoço que lhe compelia a cabeça para trás e para cima. Conforme esses
movimentos ocorriam, M. notou que os espasmos em seus olhos eram mais marcados e
às vezes convulsivos. Quando essa breve crise chegou ao fim, a vermelhidão nas
maçãs refluiu, a cabeça retomou a posição normal, o tremor cessou e pareceu a M.
que os olhos estavam mais bem-alinhados, e também menos inchados.
Ele repetia o procedimento a cada dia no mesmo horário, e a cada dia a breve
crise resultava em uma melhora evidente, até que, ao fim do quarto dia, os olhos
haviam retornado ao alinhamento normal e não se observava nenhuma extrusão. O
olho esquerdo parecia menor que o direito, mas, com a continuação do tratamento,
os tamanhos dos dois começaram a se equilibrar. Os pais da jovem ficaram
impressionados: M. cumprira a sua promessa, e a filha do casal não apresentava
mais a deformidade que podia alarmar aqueles que a viam tocar. Mas M. já estava
preocupado com a condição interna da paciente, que ele julgava estar caminhando
para a crise necessária. Enquanto ele seguia com seus procedimentos diários, ela
relatou a presença de dores fortes no occipício, que penetravam em toda a
cabeça. A dor então seguia o nervo óptico, produzindo alfinetadas constantes ao
se deslocar e se multiplicar ao longo da retina. Esses sintomas eram
acompanhados de solavancos nervosos da cabeça.
Há muitos anos, Maria Theresia havia perdido o olfato, e seu nariz não produzia
muco. Agora, repentinamente, houve uma dilatação visível das vias nasais, e uma
descarga forçada de matéria viscosa verde. Logo depois, para maior
constrangimento da paciente, houve descargas adicionais, dessa vez na forma de
uma diarreia copiosa. As dores nos olhos continuavam, e ela relatou uma sensação
de vertigem. M. reconheceu que ela estava em um momento de máxima
vulnerabilidade. Uma crise nunca era uma ocorrência neutra: podia ser benigna ou
maligna — não em sua natureza, mas em suas consequências, que acarretavam
progresso ou retrocesso. Assim, ele propôs aos pais da jovem que ela residisse
por um curto período no 261 da Landstrasse. Seria cuidada pela esposa de M.,
embora pudesse levar sua própria criada, se necessário. Já havia duas pacientes
jovens instaladas na casa, portanto não era preciso se preocupar com questões de
decoro. Esse novo plano foi rapidamente acordado.
No segundo dia de Maria Theresia na casa, e ainda na presença do pai, M. tocou-a
no rosto e no crânio como antes e depois pôs a paciente diante do espelho.
Pegando a sua varinha, ele apontou para o reflexo de Maria Theresia. Então,
quando removeu a varinha, a cabeça da jovem se virou ligeiramente, como se
seguisse os movimentos da varinha no espelho. M. sentiu que Herr von P. estava
prestes a expressar o seu assombro, e o silenciou com um gesto.
— Você percebe que está movendo a cabeça?
— Sim, percebo.
— Há algum motivo que lhe faça mover a cabeça?
— É como se eu estivesse seguindo alguma coisa.
— O que está seguindo? É um ruído?
— Não, não é um ruído.
— Um odor?
— Eu ainda não sinto nenhum cheiro. Estou só… seguindo. É só isso o que posso
dizer.
— É o suficiente.
M. assegurou a Herr von P. que sua casa estaria sempre aberta a ele e à esposa,
mas que previa que nos dias seguintes o progresso seria lento. Na verdade,
julgava que a cura da jovem seria mais provável se ele pudesse tratá-la sem a
presença de um pai que lhe parecia dominador e uma mãe que, talvez em razão de
seu sangue italiano, parecia propensa à histeria. Era possível que a cegueira de
Maria Theresia fosse causada por atrofia do nervo óptico, e neste caso não havia
nada que o magnetismo, nem qualquer outro procedimento, pudesse fazer por ela.
Mas M. duvidava disso. As convulsões que testemunharam, e os sintomas relatados,
falavam todos de um distúrbio de todo o sistema nervoso causado por algum choque
poderoso. Na ausência de qualquer testemunha na época, ou da lembrança da
paciente, era impossível determinar que tipo de choque ela teve. Isso não
perturbava indevidamente M.: ele estava tratando do efeito, não da causa. De
fato, talvez fosse uma felicidade a Fräulein não se lembrar da natureza precisa
do acontecimento precipitante.
Nos dois anos anteriores, ficara cada vez mais aparente para M. que, ao levar o
paciente ao ponto necessário de crise, o toque da mão humana tinha importância
central e animadora. A princípio, o toque de M. no momento do magnetismo tinha
um efeito relaxante, ou no máximo empático. Se, por exemplo, fossem postos ímãs
em cada um dos lados da orelha, parecia um gesto natural tocar essa orelha de
uma maneira que confirmasse o realinhamento que era buscado. Mas M. não pudera
deixar de observar que, quando todas as condições favoráveis para a cura haviam
sido criadas, com um círculo de pacientes em volta do baquet à luz suave de
velas, costumava ocorrer que, quando ele, como músico, tirava os dedos da
harmônica de vidro rotante e depois, como médico, os punha na parte afetada do
corpo, o paciente podia ser levado instantaneamente à crise. M. por vezes ficava
inclinado a ponderar o quanto era efeito do magnetismo e o quanto, do próprio
magnetizador. Maria Theresia não era informada de tais considerações mais
gerais, era apenas solicitada a se juntar a outros pacientes em volta da tina de
carvalho.
— Seu tratamento causa dor.
— Não. O que causa dor é que agora você está começando a ver. Quando olha no
espelho, vê a varinha que estou segurando e vira a cabeça para segui-la. Você
mesma diz que vê um vulto se mexendo.
— Mas você está me tratando. E eu sinto dor.
— A dor é positiva, é sinal de que você está respondendo à crise. A dor mostra
que seu nervo óptico e sua retina, por tanto tempo fora de uso, estão se
tornando novamente ativos.
— Outros médicos me disseram que a dor que infligiam era necessária e benéfica.
O senhor também é doutor em filosofia?
— Sou.
— Os filósofos podem inventar motivos para qualquer coisa.
M. não se ofendeu, na verdade ficou contente com essa atitude.
Era tamanha a suscetibilidade da menina à luz que ele teve de vendar-lhe os
olhos com uma bandagem tripla, que era aplicada durante o período em que ela não
estivesse se submetendo ao tratamento. Ele começou apresentando-a, a certa
distância, a objetos do mesmo tipo que eram brancos ou pretos. Ela percebeu os
objetos pretos sem aflição, mas se retraía diante dos objetos brancos, relatando
que a dor que estes produziam em seus olhos era como de uma escova macia
esfregando a retina; eles também provocavam uma sensação de tontura. Então M.
removeu todos os objetos brancos.
A seguir, ele a apresentou às cores intermediárias. Maria Theresia conseguiu
distingui-las, embora fosse incapaz de descrever que aparência tinham, exceto a
cor preta, que era, disse ela, a imagem de sua cegueira anterior. Quando ele
atribuía nomes às cores, ela frequentemente não era capaz de utilizar o nome
correto da próxima vez que uma cor lhe era apresentada. Também não era capaz de
calcular a distância entre ela e os objetos, imaginando que estivessem todos ao
alcance da mão, e assim estendia as mãos para pegar objetos a vinte metros de
distância. Nesses primeiros dias, ocorria também que a impressão de um objeto
deixada em sua retina durava até um minuto. Ela era, portanto, obrigada a cobrir
os olhos com as mãos até a impressão desaparecer, senão a imagem se confundiria
com o próximo objeto que lhe era apresentado. Além disso, como os músculos do
olho estiveram tanto tempo sem uso, ela não tinha a prática de deslocar o olhar,
buscando objetos, focalizando-os e dando sua posição.
A exaltação que M. e os pais da jovem sentiram quando ela começou a perceber a
luz e as formas tampouco era partilhada pela paciente. O que surgia em sua vida
não era, como ela esperava, um panorama do mundo que lhe fora por tanto tempo
escondido, e por tanto tempo descrito por outros; e menos ainda havia um
entendimento desse mundo. Em vez disso, uma grande confusão estava agora
empilhada sobre a confusão já existente — um estado exacerbado pelas dores
oculares e sensações de vertigem. A melancolia, que era o reverso de sua alegria
natural, ficou bastante evidente nesse momento.
Ao perceber isso, M. decidiu reduzir o ritmo do tratamento; e também tornar o
momento de lazer e repouso o mais agradável possível. Ele estimulou a intimidade
com as duas outras jovens que viviam na casa: Fräulein Ossine, a filha de 18
anos de um oficial do exército, que sofria de tísica purulenta e melancolia
nervosa; e Zwelferine, de 19 anos, cega desde os 2 anos de idade e que M. havia
encontrado em um orfanato e estava tratando por conta própria. Cada uma delas
tinha algo em comum com as outras: Maria Theresia e Fräulein Ossine eram de boa
família e pensionistas imperiais; Maria Theresia e Zwelferine eram cegas;
Zwelferien e Fräulein Ossine eram dadas a vomitar sangue com certa
periodicidade.
Essa companhia foi uma distração útil; mas M. acreditava que Maria Theresia
precisava também, por várias horas, de uma rotina tranquila e familiar. Passou,
portanto, a passar um bom tempo com ela, falando de assuntos distantes de sua
preocupação imediata e lendo para ela livros de sua biblioteca. Às vezes tocavam
músicas juntos, ela com bandagem nos olhos ao klavier, ele ao violoncelo.
Ele também usou esse tempo para conhecê-la melhor, avaliar sua sinceridade,
memória e temperamento. Notou que, mesmo quando animada, ela nunca era
obstinada; não exibia nem a arrogância do pai nem a voluntariedade da mãe.
Ele perguntava, por exemplo:
— O que você gostaria de fazer esta tarde?
Ela respondia:
— O que o senhor propõe?
Ou ele perguntava:
— O que você gostaria de tocar?
E ela respondia:
— O que o senhor gostaria que eu tocasse?
Quando essas cortesias terminavam, ele descobria que ela possuía opiniões
claras, alcançadas pelo uso da razão. Mas concluiu também que, superando a
obediência normal das crianças, Maria Theresia estava acostumada a fazer o que
lhe era instruído: pelos pais, professores, médicos. Ela tocava maravilhosamente
e tinha uma ótima memória, e M. achava que ela só se sentia de fato livre quando
estava sentada em frente ao teclado, imersa em uma peça que conhecia, e se
permitia ser brincalhona, expressiva, atenciosa. Ele se deu conta, ao observar o
perfil, os olhos cobertos por bandagens e a postura firme e ereta da jovem, que
o seu tratamento não era desprovido de riscos. Era possível que seu talento, e o
evidente prazer que ela sentia por ele, pudessem estar vinculados à sua cegueira
de um modo que ela não conseguia entender plenamente? E então, ao acompanhar o
movimento das mãos em sua maneira treinada e fácil, por vezes fortes e
flexíveis, por vezes vagarosas como samambaias sopradas pela brisa, ele se
perguntou se a primeira visão de um teclado poderia afetá-la. Será que as teclas
brancas a deixariam confusa, as pretas a lembrariam de sua cegueira?
Eles continuaram a trabalhar diariamente. Até então, Maria Theresia havia sido
apresentada a uma mera sequência de objetos estáticos: a preocupação de M. fora
estabelecer e acostumá-la ao formato, cor, lugar, distância. Agora ele decidiu
apresentar o conceito de movimento, e com ele a realidade de um rosto humano.
Embora ela estivesse acostumada à voz de M., ele se mantivera até aquele momento
fora das linhas de sua percepção. Delicadamente, ele retirou as bandagens,
pedindo a ela que cobrisse imediatamente os olhos com as mãos. Em seguida
virou-se para encará-la, colocando-se a uma distância de poucos metros. Dizendo
a ela que afastasse as mãos, começou a virar lentamente a cabeça de um perfil
para seu oposto.
Ela riu. Depois pôs as mãos que havia tirado dos olhos sobre a boca. A
empolgação de M. como médico superou sua vaidade como homem ao provocar em Maria
Theresia tal reação. Então, ela tirou as mãos da boca e as pôs sobre os olhos, e
depois de alguns segundos as soltou e olhou, novamente, para ele. Ela riu de
novo.
— O que é isso? — ela perguntou, apontando.
— Isto?
— Sim, isso. — Ela ria consigo de uma maneira que, em outras circunstâncias, ele
julgaria descortês.
— É um nariz.
— Ele é ridículo.
— A senhorita é a única pessoa cruel o suficiente para fazer uma observação
dessas — disse ele, fingindo-se de ofendido. — Outros o acharam aceitável, até
agradável.
— Os narizes são todos… assim?
— Há diferenças, mas encantadora Fräulein, devo preveni-la de que este não é de
modo algum fora do comum, no que diz respeito a narizes.
— Então terei muitos motivos para rir. Vou falar à Zwelferine sobre os narizes.
Ele decidiu fazer uma nova experiência, Maria Theresia sempre gostara da
presença, e do afeto, do cão da casa, um animal grande, amistoso e dócil de uma
raça incerta. M. foi até a porta cortinada, abriu-a e soltou um leve assobio.
Vinte segundos depois, Maria Theresia dizia:
— Ah, um cão é uma visão muito mais agradável do que um homem.
— Infelizmente, a senhorita não é a única a pensar assim.
Seguiu-se um período em que a melhora de sua visão causou mais alegria, embora
sua falta de jeito e seus erros perante um mundo recém-descoberto a deixassem
profundamente melancólica. Certa noite, M. a levou para fora de casa, ao jardim
escuro, e sugeriu que ela inclinasse a cabeça para trás. O céu resplandecia. M.
se pegou por um instante pensando: outra vez preto e branco, se bem que
felizmente muito mais preto do que branco. Mas a reação de Maria Theresia
afastou a sua ansiedade. Ela ficou lá parada, atônita, com a cabeça para trás,
boquiaberta, virando de tempos em tempos, apontando, sem dizer nada. Ignorou a
oferta de M. de identificar as constelações; não queria que as palavras
interferissem em sua sensação de deslumbre, e continuou a olhar até sentir dor
no pescoço. Dessa noite em diante, qualquer tipo de fenômeno visual era
automaticamente comparado a um céu estrelado — e considerado deficiente.
Embora todas as manhãs M. continuasse o tratamento exatamente do mesmo modo,
agora o fazia com um tipo de concentração dissimulada. No íntimo, debatia-se
entre duas linhas de raciocínio, e duas partes de sua formação intelectual. O
doutor em filosofia argumentava que o elemento universal subjacente a tudo fora
certamente desnudado na forma de magnetismo. O doutor em medicina argumentava
que o magnetismo tinha menos relação com o progresso da paciente do que o poder
do toque, e que mesmo a imposição das mãos era meramente emblemática, assim como
a aplicação dos magnetos e da varinha. O que de fato acontecia era uma
colaboração entre o médico e sua paciente, de modo que a presença e a autoridade
de M. permitiam que a paciente se curasse. Ele não mencionou esta segunda
explicação a ninguém, muito menos à paciente.
Os pais de Maria Theresia ficaram tão assombrados com a melhora da filha quanto
ela ficara com o céu estrelado. Quando a notícia se espalhou, os amigos e
pessoas que torciam pela melhora de Maria Theresia começaram a aparecer no 261
da Landstrasse, para presenciar o milagre. Transeuntes frequentemente paravam à
porta da casa, esperando vislumbrar a famosa paciente, enquanto a cada dia
chegavam solicitações de visitas de seu médico a leitos de enfermos por toda a
cidade. A princípio M. ficou feliz de permitir que Maria Theresia demonstrasse
sua capacidade de distinguir cores e formas, mesmo que parte de sua nomeação
ainda fosse precária. Mas essas demonstrações cansavam-na de modo palpável, e
ele restringiu severamente o número de visitas. A repentina decisão teve o
efeito de aumentar os boatos de milagre e as suspeitas alimentadas por alguns
colegas da Faculdade de Medicina. O caso começava também a intranquilizar a
Igreja, já que o entendimento popular era de que bastava M. tocar a parte
afligida de uma pessoa doente e o doente se curava. Para muitos membros do
clero, o fato de que alguém que não fosse Jesus Cristo pudesse realizar uma cura
utilizando as suas mãos era uma blasfêmia.
M. estava ciente dos boatos, mas contava com o apoio do professor Stoerk, que
fora ao 261 da Landstrasse e ficara oficialmente impressionado com o efeito da
nova cura. Que importava, então, se outros membros do corpo docente cochichavam
contra ele, ou até sugeriam a calúnia de que a recém-descoberta capacidade de
sua paciente para nomear as cores e objetos seria o resultado de um treinamento
rigoroso? Em todas as profissões havia pessoas conservadoras, invejosas e
burras. A longo prazo, uma vez que os métodos de M. fossem entendidos, e o
número de curas aumentasse, os homens de razão seriam obrigados a admitir e
adotar os poderes curativos do magnetismo.
Certo dia, quando o estado de espírito de Maria Theresia estava bastante
tranquilo, M. convidou seus pais para visitá-la naquela tarde. Então, propôs à
sua paciente que fosse até o seu instrumento, desacompanhada e sem bandagens.
Ela concordou com entusiasmo, e os quatro seguiram para a sala de música. Havia
cadeiras postas para Herr von P. e sua esposa, enquanto M. sentou-se num banco
perto do teclado para melhor observar as mãos, os olhos e a condição moral de
Maria Theresia. Ela respirou fundo várias vezes e, após um pausa quase
imperceptível, ouviram-se as primeiras notas de uma sonata de Haydn.
Foi um desastre. A menina poderia se passar por uma novata e a sonata, uma peça
que ela nunca tocara. O dedilhado era absurdo, os ritmos errados; toda graça,
espírito e ternura desapareceram da música. Quando o primeiro movimento terminou
num tropeço confuso, houve silêncio; M. sentira a troca de olhares entre os
pais. Então, de súbito, a mesma música recomeçou, agora com confiança,
brilhante, perfeita. Ele olhou para os pais, mas eles só tinham olhos para a
filha. Virando-se para o teclado, M. percebeu a causa da repentina excelência: a
menina estava com os olhos bem fechados e com o queixo erguido bem acima do
teclado.
Quando Maria Theresia chegou ao fim do movimento, abriu os olhos, olhou para
baixo e recomeçou. O resultado, mais uma vez, foi desastroso e dessa vez M.
pensou saber a razão: ela seguia o movimento das mãos, como que enfeitiçada. E
parecia que o próprio ato de observar destruía sua habilidade. Fascinada pelos
próprios dedos, e pelo modo como eles se deslocavam pelo teclado, ela era
incapaz de controlá-los plenamente. Ele observou a desobediência de seus dedos
até o fim do movimento, depois se levantou e correu até a porta. Instalou-se o
silêncio.
Por fim, M. disse:
— Isto era de se esperar.
Herr von P., vermelho de raiva, replicou:
— É uma catástrofe.
— Levará tempo. A cada dia haverá uma melhora.
— É uma catástrofe. Se essa notícia se espalhar, será o fim de sua carreira.
M., imprudentemente, perguntou:
— Vocês prefeririam que sua filha pudesse ver, ou pudesse tocar?
Encolerizado, Herr von P., que estava sentado ao lado da esposa, levantou-se:
— Não me recordo de o senhor nos oferecer tal escolha quando nós a trouxemos
para vê-lo.
Depois que eles se retiraram, M. encontrou a garota em um estado deplorável.
Procurou tranquilizá-la, dizendo-lhe que não estava surpreso que a visão de seus
dedos desconcertasse o seu desempenho.
— Se não era nenhuma surpresa, por que não me avisou?
Ele a lembrou de que sua visão vinha melhorando quase diariamente. E, portanto,
era inevitável que seu desempenho também melhorasse, uma vez que ela se
acostumasse à presença dos dedos sobre as teclas.
— É por isso que toquei a peça uma terceira vez. E foi ainda pior do que a
primeira.
M. não questionou o argumento. Sabia, por experiência própria, que em questões
de arte os nervos cumpriam um papel vital. Se alguém tocasse mal, o ânimo
esmaecia; se o intérprete estivesse desanimado, tocaria pior — e assim
sucessivamente, num declínio gradativo. Em vez disso, M. apontou para a melhora
geral no estado de Maria Theresia. Tampouco isso a satisfez.
— Em minha escuridão, a música era o meu único consolo. Ser tirada da escuridão
e perder a capacidade de tocar seriam uma injustiça cruel.
— Isso não acontecerá. Não é uma escolha. Por favor, confie em mim e isso não se
sucederá.
Olhou para ela, e acompanhou o progresso da paciente, e o desaparecimento de um
franzir do cenho. Por fim, ela respondeu:
— Fora a questão da dor, o senhor sempre foi digno de confiança. Tudo o que
disse que poderia acontecer aconteceu. Portanto, confio no senhor.
***
Nos dias que se seguiram, M. ficou sabendo que a sua recusa em dar ouvidos à
opinião alheia fora uma atitude ingênua. Ele recebeu uma proposta de alguns
membros da Faculdade de Medicina explicitando que só endossariam a prática de
cura pelo magnetismo se M. pudesse reproduzir seus efeitos com um novo paciente,
à plena luz e na presença de seis examinadores docentes — condições que, M.
sabia, destruiriam a eficácia do tratamento. Línguas ferinas perguntavam se no
futuro todos os médicos usariam varinhas de condão. De uma maneira ainda mais
perigosa, alguns questionavam a sensatez moral de tal procedimento. Será que
conferia mais status e respeito à profissão se um deles levasse moças para sua
casa, as enclausurasse atrás das cortinas e depois repousasse suas mãos sobre as
mãos das jovens, em meio a jarras de água imantada e o lamento de uma harmônica
de vidro?
Em 29 de abril de 177—, Frau von P. foi recebida no estúdio de M. Estava
visivelmente agitada e não quis se sentar.
— Vim para levar a minha filha embora.
— É desejo dela cessar o tratamento?
— Desejo dela, meu senhor… que observação impertinente. Os desejos dela são
subordinados ao desejo dos pais.
M. olhou calmamente.
— Então vou buscá-la.
— Não. Chame uma criada. Não quero que o senhor a instrua de como responder.
— Muito bem. — Ele tocou a campainha e Maria Theresia foi trazida; olhava
ansiosa para a mãe e para o médico.
— Sua mãe quer que você interrompa o tratamento e volte para casa.
— Qual é a sua opinião?
— Minha opinião é de que se é esse o seu desejo, não posso me opor.
— Não foi o que perguntei. Estava pedindo a sua opinião médica.
M. olhou para a mãe.
— Minha opinião médica é que a senhorita ainda se encontra em um estágio
precário. Acredito que seja possível curá-la completamente. Também é possível
que qualquer ganho obtido, uma vez perdido, nunca mais possa ser recuperado.
— Foi bem claro. Então escolho ficar. Quero ficar.
A mãe começou, instantaneamente, a bater os pés e gritar, de um jeito que M.
jamais vira nada igual na cidade imperial de V. Era uma explosão muito além da
expressão natural do sangue italiano de Frau von P., e poderia até ter sido
cômica, não fosse pelo fato de o frenesi nervoso ter provocado um espasmo de
convulsão na filha.
— Minha senhora, por favor, controle-se — disse M. em voz baixa.
Mas isso a enraiveceu ainda mais, e, com duas fontes de provocação a sua frente,
ela continuou a denunciar a insolência, teimosia e ingratidão da filha. Quando
M. segurou o seu antebraço, Frau von P. voltou-se para Maria Theresia, agarrou-a
e a jogou de cabeça contra a parede mais próxima. Acima dos gritos das mulheres,
M. chamou seus criados, que contiveram a megera no momento em que ela estava
prestes a atacar o próprio M. De repente, outra voz se juntou ao tumulto.
— Devolva a minha filha! Resista e morrerá!
A porta se abriu violentamente e Herr von P. apareceu, uma figura emoldurada com
a espada em punho. Arremessando-se para dentro do escritório, ele ameaçava
cortar em pedaços qualquer um que se opusesse a ele.
— Então terá que me cortar em pedaços, senhor — respondeu M. com firmeza.
Herr von P. hesitou, sem saber se atacava o médico, resgatava a filha ou
consolava a esposa. Incapaz de decidir, passou a repetir as ameaças. A filha
chorava, a mãe berrava, o médico tentava argumentar racionalmente, o pai
ameaçava violentamente destruir e matar o médico. M. permaneceu suficientemente
sereno, refletindo que o jovem Mozart teria, de bom grado, musicado aquele
quarteto operístico.
Por fim, o pai foi pacificado e depois desarmado. Partiu proferindo maldições, e
parecendo esquecer a esposa, que ficou alguns instantes olhando de M. para a
filha, e depois saiu. Imediatamente, e pelo resto do dia, M. procurou acalmar
Maria Theresia. Ao fazê-lo, chegou à conclusão de que sua suspeita inicial se
confirmara: a cegueira de Maria Theresia fora, sem dúvida, uma reação histérica
ao comportamento igualmente histérico de um dos pais, ou de ambos. Que uma
criança com sensibilidade artística, em face de tal crise emocional, pudesse
instintivamente se fechar para o mundo parecia razoável, até inevitável. E os
pais frenéticos, que já eram os responsáveis pela condição da jovem, estavam
agora agravando-a.
O que poderia ter causado tal explosão repentina e destrutiva? Era, certamente,
mais do que uma mera afronta decorrente da vontade parental. M. tentou,
portanto, imaginar o ocorrido do ponto de vista dos pais. Uma criança fica cega,
todas as curas conhecidas falham, até que, mais de doze anos depois, um novo
médico com um novo procedimento começa a fazê-la enxergar novamente. O
prognóstico é otimista, e os pais são finalmente recompensados por seu amor,
sensatez e coragem médica. Mas então a jovem toca, e o mundo deles é virado de
cabeça para baixo. Antes, eles eram encarregados de uma virtuose cega; agora, a
visão a tornara medíocre. Se ela continuasse a tocar assim, sua carreira estaria
acabada. Mas, mesmo supondo que ela redescobrisse toda a sua habilidade
anterior, agora careceria da originalidade de ser cega. Seria simplesmente uma
pianista como as outras. E não haveria motivo para a imperatriz manter sua
pensão. Duzentos ducados de ouro haviam feito diferença em suas vidas. E agora,
sem a pensão, eles encomendariam obras de compositores importantes?
M. entendia esse dilema, mas ele não podia ser sua preocupação primária. Ele era
médico, não empresário musical. Em todo caso, estava convencido de que, quando
Maria Theresia se acostumasse à visão de suas mãos em um teclado, quando a
observação cessasse de alterar o seu desempenho, sua habilidade não só
retornaria, mas se desenvolveria e melhoraria. Pois como a cegueira poderia ser
uma vantagem? Além disso, a jovem escolhera desafiar abertamente os pais e
continuar o tratamento. Como ele poderia frustrar-lhe as esperanças? Mesmo que
isto significasse distribuir porretes aos seus criados, ele defenderia o direito
de Maria Theresia de viver sob o seu teto.
Mas não eram somente os pais frenéticos que ameaçavam a casa. A opinião na corte
e na sociedade agora se voltava contra o médico que trancava uma jovem e se
recusava a devolvê-la aos pais. Que a própria jovem também se recusasse não
ajudava a situação de M.: aos olhos de uns, isso simplesmente confirmava que era
um mágico, um feiticeiro cujo poder hipnótico talvez não curasse, mas com
certeza escravizava. Falha moral e falha médica associadas, dando origem a
escândalos. Surgiu na cidade imperial um tal miasma de insinuações que o
professor Stoerk foi forçado a entrar em ação. Retirando seu endosso anterior às
atividades de M., ele escreveu, em 2 de maio de 177—, exigindo que M. cessasse
sua “impostura” e devolvesse a jovem.
Mais uma vez, M. se recusou. Maria Theresia von P., ele respondeu, estava
sofrendo de convulsões e delírios. Um médico da corte foi enviado para
examiná-la e relatou a Stoerk que, em sua opinião, a paciente não tinha
condições de voltar para casa. Assim temporariamente remido, M. passou as
semanas seguintes devotado inteiramente ao caso de Maria Theresia. Com palavras,
com magnetismo, com a imposição das mãos, e com a crença da paciente nele, em
nove dias conseguiu controlar a histeria nervosa da jovem. Melhor ainda, ficou
evidente que a percepção dela era agora mais aguda do que em qualquer momento
anterior, o que sugeria que as vias que ligavam os olhos ao cérebro haviam se
fortalecido. Ele ainda não perguntava se ela queria tocar; nem ela sugeria tal
coisa.
M. sabia que não seria possível manter Maria Theresia von P. em sua casa até que
a jovem estivesse totalmente curada, mas não queria abrir mão dela antes que
tivesse adquirido robustez suficiente para impedir que o mundo a prejudicasse.
Após cinco semanas de assédio, chegou-se a um acordo. M. devolveria a jovem ao
cuidado dos pais, e estes permitiriam que M. continuasse a tratar da jovem como
e quando fosse necessário. Com esse tratado de paz firmado, em 8 de junho de
177— Maria Theresia foi entregue aos pais.
Essa foi a última vez que M. a viu. Os von P. renegaram prontamente sua palavra,
mantendo a filha sob estrita custódia e proibindo qualquer contato com M. Não
sabemos o que foi dito, ou feito, naquela casa, só podemos saber de suas
consequências previsíveis. Maria Theresia von P. recaiu de imediato na cegueira,
uma condição da qual não emergiria nos quarenta e seis anos que lhe restavam de
vida.
Não temos relato da angústia de Maria Theresia, de seu sofrimento moral e
reflexão mental. Podemos presumir que ela desistira de toda esperança de cura, e
também de escapar dos pais; sabemos que ela retomou a carreira, primeiro como
pianista e cantora, depois como compositora, e por fim como professora. Aprendeu
a usar uma tábua de composição inventada especialmente para ela pelo amanuense e
libretista Johann Riedinger; também possuía uma máquina de impressão manual para
sua correspondência. Sua fama se espalhou por toda a Europa; ela sabia de cor os
concertos e os tocava em Praga, Londres e Berlim.
Quanto a M., ele foi expulso da cidade imperial de V. pela Faculdade de Medicina
e pelo Comitê da Moralidade, uma combinação que garantiu que ele fosse lembrado
como meio charlatão, meio sedutor. Retirou-se primeiro para a Suíça e depois se
estabeleceu em Paris. Em 178—, sete anos depois de se virem pela última vez,
Maria Theresia foi se apresentar na capital francesa. Nas Tuileires, diante de
Luís XVI e Maria Antonieta, tocou o concerto que Mozart escrevera para ela. M. e
Maria Theresia nunca mais se viram; nem sabemos se algum deles desejaria tal
encontro. Maria Theresia viveu na escuridão, útil e celebrada, até morrer, em
182—.
M. morrera nove anos antes, aos 81 anos, com sua capacidade intelectual e
entusiasmo musical incólumes. Moribundo no leito em Meersburg, às margens do
Lago Constança, ele mandou chamar seu jovem amigo F., um seminarista, para que
tocasse, para ele, a harmônica de vidro que o acompanhara em suas viagens desde
que deixara o nº 261 da Landstrasse. Segundo um relato, as angústias de sua
morte foram aliviadas pela audição, uma última vez, da música das esferas.
Segundo outro, o jovem seminarista se atrasou, e M. morreu antes que F. pudesse
tocar com seus dedos cobertos de giz o vidro rotante.
FIM
Pulso | 3.ª coletânea de Contos do vencedor
do Man Booker Prize de 2011, Julian Barnes.
Publicado originalmente em 2011, "Pulso" apresenta 14 contos, divididos em duas
partes: relatos que tratam de problemas sensíveis e cotidianos que ocorrem entre
casais de classe média, grupos de amigos, divorciados e comerciantes. Aborda,
ainda, como uma tela de fundo a importância dos sentidos para nós seres humanos,
e o equilíbrio destes como uma metáfora da sabedoria natural implícita à nossa
espécie. Em especial, nos cinco últimos contos - O retratista, Cumplicidade,
Harmonia, Carcassone e Pulso -, onde
encontraremos a mesma drama cotidiana com reflexões transcendentais. Aqui, abusa
mais do humor, que salpicou ao longo dos demais contos, o que, de alguma
maneira, faz reconhecer Julian Barnes
como um dos mestres europeus da Literatura
contemporânea. Os contos de "Pulso" – divertidos, ousados, inventivos,
iconoclastas, originais – comprovam que Julian Barnes é hoje um escritor com
perfeito domínio de seu ofício, capaz de compor um livro com histórias curtas
que, sutilmente ligadas entre si, possui invejável unidade de temas e
tratamentos. - por Cadorno Teles
ϟ
Harmonia
conto | texto integral in Pulso
Julian Barnes
título original PULSE (2011)
tradução de Christina Baum
Rio de Janeiro: Rocco Digital, 2013.