João Fernandes & Maria João Fernandes
![Aveugle et son chien - Isaak van Ostade - óleo sobre madeira, séc. 17 [Louvre]](https://www.deficienciavisual.pt/Quadros/Aveugle%20et%20son%20chien-Isaak%20van%20Ostade-oleo%20sb%20madeira-Louvre-s17.jpg)
Homem cego com o seu cão - Isaak van Ostade
- óleo sobre madeira, séc. 17 -
Introdução
Em primeiro lugar, gostaríamos de referir que este trabalho se baseia
na nossa experiência pessoal. Esta abordagem e possível, uma vez que
somos ambos cegos tardios, e a nossa evolução no que diz respeito à
mobilidade foi e é muito semelhante. Em segundo lugar, como já deixámos
antever, gostaríamos de fazer esta abordagem sob a perspectiva de um
cego tardio, que como sabem terá uma maneira diferente de lidar com
alguns problemas que advêm da cegueira. Como é óbvio, não pretendemos
afirmar com isto a vantagem ou desvantagem de nascer cego, ou de se
tornar cego numa fase adolescente ou mesmo adulta. Ambas as situações,
se encaradas pelo lado mais prático e pondo de parte as emoções e
paixões que por vezes somos levados a misturar nas análises que fazemos,
têm prós e contras. É portanto, baseados nestes pressupostos que nos
propomos analisar a mobilidade antes e depois da utilização do cão-guia.
Achámos no entanto conveniente, fazer uma análise do que foi o nosso
processo de chegada a um mundo até então perfeitamente desconhecido.
Julgamos que assim teremos mais facilidade em nos fazermos compreender,
embora saibamos que a maior parte das pessoas aqui presentes têm grande
conhecimento destes processos, pois a sua vida profissional foi sempre
desenvolvida em torno da reabilitação da cegueira.
A perda de funções básicas.
Pegando no que afirmámos na introdução, gostaríamos de referir que em
relação aos cegos de nascença, a aprendizagem de técnicas específicas,
como a mobilidade ou a leitura do braille, é levada a cabo numa
perspectiva de tomar conhecimento do mundo através dos outros sentidos:
a audição, o tacto, o olfacto e o paladar. O indivíduo é estimulado a
utilizá-los de uma forma natural, criando assim uma série de imagens
auditivas, tácteis, olfactivas e gustativas. É natural que esta
percepção do mundo possa parecer um pouco estranha aos normovisuais mais
afastados da nossa realidade, uma vez que eles utilizam a visão para
confirmar todas as informações que lhes são transmitidas por outras
formas de percepção. No caso do cego tardio, existem vários problemas
para além da perda pura e simples da visão. As suas actividades mais
básicas como por exemplo comer, O vestir, ler e andar ficaram sem o seu
instrumento mais precioso, a visão. O sentido que lhes dava segurança,
que lhes permitia estar em contacto permanente com o mundo, já não
existe, dando-lhes essa falta uma insegurança enorme, e que no princípio
não sabem como ultrapassar, situação que lhes vai acrescentar uma série
de perdas, muito para além da perda pura e simples da visão. Estas
perdas, como lhes chama Thomas Carrol, devem ser reconhecidas e depois
ultrapassadas com a reabilitação, que deverá cobrir todas as áreas que
permitam ao cego restabelecer a sua vida e a sua auto-estima.
Disciplinas como o Braille, as Actividades da Vida Diária, a Informática
e a Locomoção são essenciais a uma vida plena e integrada. Para cumprir
estes objectivos devem trabalhar os técnicos de reabilitação, que na
nossa opinião, deveriam contar com a ajuda de pessoas deficientes
visuais que já tivessem passado por processos semelhantes, pois a sua
experiência é muito válida para aqueles que chegam ao mundo da cegueira,
sem qualquer esperança de retomarem uma vida plena e activa. De todas as
áreas referidas acima, vamos debruçarmo-nos, como é óbvio, sobre a
mobilidade. Esta não pode ser apenas encarada sob um ponto de vista
prático, que tenha exclusivamente a ver com a técnica mais ou menos
perfeita, que cada um desenvolve. Não podemos nem devemos esquecermo-nos
que para além da impossibilidade para realizar tarefas, o cego tardio
tem uma carga psicológica extremamente negativa. O mundo de certa forma
acabou para ele. Alguém que tem o conhecimento do que o rodeia
dependente da visão, e que se vê de repente privado dela, deve ser
também ajudado a ultrapassar os traumas que uma situação destas provoca.
A locomoção talvez seja a parte mais difícil, uma vez que a bengala é o
assumir da cegueira. Esta é finalmente reconhecida pelo deficiente
perante ele e perante a sociedade. Uma vez que o Homem é, como se
costuma dizer, um animal social, toda a nossa actuação advém de
determinados comportamentos sociais, que estamos constantemente a exibir
ao resto do grupo a que pertencemos, precisando, por este motivo, de uma
forma inconsciente, da aprovação destes pela sociedade. É normal que o
indivíduo quando cega tente esconder esse facto da comunidade. Todas as
actividades específicas (Braille, AVD, etc.), excepto a Mobilidade, são
desenvolvidas dentro de casa, não há uma demonstração clara e pública do
deficiente tardio à sociedade que o rodeia, da sua nova realidade, que
no entender dele o coloca numa situação muito pouco vantajosa, muitas
vezes de vergonha por algo de que ele não tem culpa. Estes problemas
devem, portanto, ser trabalhados, antes do cego partir à descoberta do
mundo com uma bengala na mão. Depois de ultrapassada esta barreira,
podemos dizer que estamos finalmente em paz com nós próprios e com o
mundo, que como é lógico não tem culpa do que nos aconteceu. Aliás, só
nesta altura o cego tardio está em condições de enfrentar os desafios
que lhe vão ser colocados. Podemos afirmar que a sua reestruturação
psicológica está finalmente concluída.
A mobilidade com a bengala.
Vamos passar agora à aprendizagem propriamente dita. Como já foi
referido, a mobilidade é uma técnica específica imprescindível para quem
pretende levar uma vida independente. É gratificante podermo-nos
deslocar sem precisarmos constantemente da ajuda de alguém. A
dependência tira-nos principalmente duas coisas: a auto-estima e a
privacidade. Quem não tenta andar sozinho não se sente bem, porque está
constantemente a ter de pedir ajuda a terceiros, o que por outro lado
lhe tira a privacidade. Esta pessoa tem de estar sempre sujeita a que
outros saibam o que ele faz e como faz. Por outro lado, é certo que pelo
facto de sermos cegos a nossa privacidade é constantemente invadida, em
coisas muito simples como o ler da correspondência por exemplo. Isto
significa que devemos ser independentes em áreas onde a autonomia é
possível. A nossa primeira experiência de locomoção como cegos, ocorreu
na Fundação Sain em Lisboa, um centro de reabilitação de cegos adultos.
É de referir, que nessa altura só existiam dois, esta Fundação e o
Centro de Nossa Senhora dos Anjos, ambos em Lisboa. Achamos que neste
sector específico o Estado nunca cumpriu muito bem a sua função, nem o
faz actualmente. O primeiro contacto com a bengala é muito doloroso,
mais a mais se tivermos em conta que no nosso caso, e uma vez que ainda
tínhamos um resíduo visual bastante razoável, éramos vendados para não
podermos utilizar a visão que nos restava. Esta prática é discutível,
uma vez que se o cego ainda tem um resíduo visual, deve ser encorajado a
utilizá-lo no seu dia-a-dia. Uma vez que esta situação era
constrangedora, a equipa técnica decidiu que no meu caso as aulas de
locomoção seriam dadas de noite, pelo facto de a retinite pigmentar se
caracterizar em primeiro lugar pela cegueira nocturna. Voltando ao
princípio, começámos por pequenas deslocações sem bengala e depois com
ela no terraço da Fundação Sain. Aí os técnicos avaliaram a nossa
coordenação e orientação. Depois passámos à rua. Aqui as coisas eram bem
mais difíceis. Para além de não dominarmos a técnica, lutávamos com o
problema psicológico já referido. Na mobilidade com a bengala é
utilizada uma técnica que consiste em varrer o espaço à nossa frente,
descrevendo um semi-círculo que cobre um espaço compreendido entre os
dois ombros daquele que executa a chamada técnica de Hubbard. Esta,
apesar de bastante eficiente, e que é usada pela maioria dos cegos em
todo o mundo, não cobre no entanto algumas situações, que referiremos
mais tarde. Voltando à nossa reabilitação, depois de aprendidos os
movimentos da tal técnica, saímos para a rua. Este primeiro contacto,
como já foi referido é bastante complicado, e começámos a nossa
reaprendizagem daquilo que nos rodeia. O que antes antecipávamos com a
visão, desviando-nos atempadamente, agora tinha de ser tocado com a
bengala. Depois de localizado o obstáculo, teríamos de nos desviar dele.
Esta parte também era muito complicada; deveríamos ir pela direita ou
pela esquerda? – decisão que o professor deixava ao nosso critério. Aqui
tínhamos presente outro factor desestabilizador, a solicitude das
pessoas que passavam e que sem querer atrapalhavam mais do que ajudavam.
No entanto, e apesar de todos estes problemas, lá continuávamos na nossa
odisseia. Neste período, também aprendíamos algo que para nós era
bastante confuso; a utilização dos outros sentidos, sem a possibilidade
de confirmar as informações com a visão. Como é sabido, o Homem tem dois
sentidos para a chamada comunicação à distância: a visão e a audição.
Quando somos privados de um temos de, como é óbvio aprender a usar
apenas o outro. Este processo é naturalmente complicado, seja qual for a
perda. Neste processo, nunca é demais referi-lo, o cego vê-se privado do
sentido que à partida é utilizado para confirmar as informações que nos
chegam através dos outros. Se pensarmos um pouco no assunto, chegamos
facilmente à conclusão, que todos nós temos por exemplo, tendência para
olhar quando ouvimos um ruído. Os cegos tardios também o fazem, e no
entanto não podem fazer essa confirmação. Continuando com a locomoção, e
para além da técnica de Hubbard, o cego recente aprende a ouvir o
trânsito, a reconhecer determinados sítios pelo cheiro, por exemplo, uma
sapataria ou uma confeitaria. Á medida que o processo avança, a destreza
também evolui. É claro que os casos não são todos iguais, os ritmos de
aprendizagem são sempre diferentes e têm a ver com diversos factores de
destreza e coordenação bem como de capacidade psicológica para resistir
a tudo o que envolve a reabilitação. Tínhamos dito que depois da
aprendizagem da técnica fomos para a rua pôr em prática o que tínhamos
aprendido. Com uma bengala é necessário tocar todos os obstáculos que se
nos deparam, não há antecipação. Depois de tocado o obstáculo, e de
decidido o caminho a seguir, continuamos até ao próximo impedimento, e
assim vamos andando. Não queremos que esta descrição dê a imagem e que o
cego caminha numa luta constante com tudo o que lhe aparece no caminho,
mas a verdade é que todas as características do percurso são
identificadas com o tacto, o contacto da bengala com aquilo que nos
barra o caminho e também das outras informações que nos chegam
constantemente através dos outros sentidos. Ao fim de muitas horas de
treino, o professor considera o aluno pronto e este vai para casa. Aqui
acontece, na nossa opinião, a primeira grande falha em todo este
processo. O cego reabilitado deveria ser acompanhado pelo professor de
locomoção até ao seu meio, para fazer o reconhecimento de alguns
percursos mais utilizados. A presença do professor de locomoção, para
além de o ajudar no aspecto técnico, viria com toda a certeza aumentar a
sua confiança e a ajudá-lo a enfrentar a sua comunidade agora que a sua
realidade é diferente. Infelizmente este procedimento não é usual,
principalmente para os cegos que não são da cidade onde está implantado
o centro de reabilitação. Na nossa opinião, este apoio é essencial.
Vamos agora apresentar alguns casos práticos, onde a mobilidade com a
bengala pode ser mais problemática. As referências para quem anda com
uma bengala são como já dissemos diversas. Para além do toque da bengala
nos possíveis obstáculos, existem uma infinidade de outras referências
que cada um cria e utiliza de acordo com as suas possibilidades. Algumas
dessas marcas são por exemplo irregularidades no piso, o barulho do
tráfego numa determinada direcção, um poste, um sinal de trânsito, o
barulho da bengala ao tocar no chão, etc. Como vimos estas referências
podem ser imensas, e isto é algo que o cego aprende com a sua prática
diária. Por este motivo será sempre positivo o contacto que o recém
reabilitado possa ter com a experiência de alguém que já passou pelo
mesmo processo. Sendo a visão um sentido de comunicação à distância, é
relativamente complicado substitui-la por outros sentidos na detecção de
eventuais obstáculos. É evidente que podemos usar a audição para por
exemplo ouvir os carros, mas como é óbvio, não nos serve para saber se
está um carro em cima do passeio. Nesta situação temos de tocá-lo com a
bengala, procurando depois um percurso alternativo. Numa situação deste
tipo, a simples utilização da bengala torna complicada a ultrapassagem
do obstáculo. Se o referido veículo for um pesado de carga, a bengala
passa facilmente por baixo da caixa de carga sem a detectar, e muito
provavelmente batemos com a cara na referida caixa. Se considerarmos um
local de obras, há uma certa dificuldade em detectar um buraco no chão,
mesmo porque é prática em Portugal sinalizar mal este tipo de trabalhos,
sejam eles devidos a obras no pavimento ou a à retirada de tampas de
saneamento, de tampas de acesso aos cabos telefónicos, etc. Nestes casos
a bengala não é totalmente fiável, mesmo porque depois de ganharmos uma
certa confiança, e principalmente nos percursos que conhecemos melhor,
não fazemos a técnica como a aprendemos. Este facto pode ser benéfico
nalgumas situações, mesmo porque se o que interessa é andar com uma
certa destreza, cada um de nós tem determinadas particularidades, que
normalmente transpõe para as suas actividades. Noutras ocasiões, isto
pode ser bastante prejudicial. Continuando com as situações que se nos
deparam diariamente, gostaríamos agora de focar a passagem de ruas. Ao
atravessarmos uma rua temos várias hipóteses: a rua é conhecida e por
isso sabemos determinar o fluxo de trânsito o que nos permite atravessar
em segurança, a rua tem uma passadeira mas nós não sabemos exactamente
onde fica e temos de pedir ajuda a alguém, a rua tem semáforos sonoros e
nós sabemos quando podemos atravessar, etc. Nestes casos, o mais
prudente será pedir ajuda a alguém, mesmo porque alguns automobilistas
não têm um sentido cívico muito apurado e portanto não é totalmente
seguro alguém nas nossas condições atravessar uma rua sozinho.
Poderíamos citar muitas outras situações como por exemplo: a detecção de
uma caixa Multi-banco, o procurar uma porta, o seguir um percurso
alternativo sem ajuda, quando se nos depara um grande obstáculo não
habitual, etc. O facto, é que com a bengala, e por muita destreza que
tenhamos, põem-se frequentemente a necessidade de solicitar a ajuda de
alguém. Por outro lado, precisamos muitas vezes de descrever
trajectórias maiores e perfeitamente escusadas para tocarmos uma
referência com a bengala. Achamos que a mobilidade com a bengala é
necessária, relativamente segura, mas que existe outra forma de
mobilidade mais prática e mais segura, o cão-guia.
A mobilidade com o cão-guia.
A passagem para este novo processo de locomoção é um pouco estranha.
Quando estamos habituados a realizar um determinado tipo de técnica
durante muitos anos, pode parecer complicado começarmos a confiar a
nossa marcha a um cão. Portanto, diríamos, em primeiro lugar, que deve
existir uma predisposição para efectuar esta mudança. Se o cego não está
decidido a confiar plenamente no cão, não deverá tentar esta passagem,
até a sua confiança ser quase absoluta. É natural que este acreditar nas
capacidades do cão não surja imediatamente, mas isso será ultrapassado
com o tempo, assim haja vontade. O primeiro problema que se põe, na
nossa opinião, é o facto do cão não necessitar, como é lógico, de tocar
os obstáculos antes de os ultrapassar. Como dizia o lema de uma escola
americana, onde o nosso saudoso companheiro Carlos Sobral foi buscar o
seu cão, num processo destes trata-se de substituir uma bengala por dois
olhos. O sentido de comunicação à distância que nos foi retirado é-nos
de certa maneira devolvido. O cão-guia antecipa as dificuldades, e
ultrapassa-as. Este talvez seja o facto que nos causa mais confusão.
Durante o treino, ouvimos muitas vezes o educador dizer em determinadas
situações, que nós não tínhamos a noção do que o cão acabava de fazer e
apressava-se a descrever-nos a natureza dos obstáculos que tínhamos
acabado de ultrapassar. Como é óbvio, inicialmente, ficávamos um pouco
surpreendidos, pois quando nos candidatámos, não tínhamos a noção exacta
daquilo que poderíamos esperar do trabalho com o cão-guia. Se
concentrarmos a nossa análise no facto deste antecipar tudo aquilo que
nos pode atrapalhar o caminho. Achamos que é necessário aprender a
contar com este novo tipo de informação, mesmo porque muitos percursos
que estávamos habituados a seguir serão ligeiramente alterados. Depois
de uma primeira semana um pouco atribulada, pois a nossa coordenação com
o cão-guia nem sempre é a melhor nesta fase, começamos a constatar que a
nossa vida vai mudar muito. Ao avaliarmos este processo pelo lado
prático, temos de admitir que a utilização deste novo meio de locomoção
vem mudar os nossos procedimentos habituais em muitos aspectos: na
segurança, na rapidez, na confiança e na socialização. Em relação ao
primeiro aspecto, podemos dizer, reportando-nos à afirmação que fizemos
no início deste capítulo, que o cão-guia, pelo facto de antecipar os
obstáculos, traz maior segurança ao cego. Em segundo lugar, e sendo
talvez uma consequência da tal antecipação, efectuamos os percursos com
mais rapidez, uma vez que não precisamos de estar preocupados em
detectar tudo através do toque da bengala. Por tudo isto, a nossa
confiança aumenta e passamos a ter um desempenho melhor em todas as
outras actividades, uma vez que eliminámos em grande parte um problema
do nosso dia-a-dia. Deve-se ainda acrescentar, que o facto de possuirmos
o cão vem contribuir para a nossa socialização, pois muitas pessoas
querem falar connosco sobre o cão. Passamos agora a falar de alguns
casos específicos, que já abordámos atrás quando falámos da locomoção
com a bengala. Em relação aos carros em cima do passeio, podemos dizer
que o cão-guia resolve satisfatoriamente este problema, uma vez que
encontra a melhor alternativa para ultrapassar esta dificuldade,
escolhendo um percurso alternativo. Se em vez do carro estivermos
perante um camião de carga, não corremos o risco de bater com a cara,
pois o cão-guia mais uma vez escolhe o melhor percurso, permitindo-nos
continuar o nosso caminho em segurança. Ao tentarmos atravessar uma rua,
não precisamos de nos preocupar com a detecção das passadeiras, pois com
uma ordem nossa: - «busca linhas», o cão localiza a referida passadeira,
colocando-nos na posição certa para atravessar a rua. Em relação às
caixas multi-banco, fomos surpreendidos com a facilidade com que o
cão-guia nos dá a indicação da sua colocação exacta, depois da ordem: -
«busca a máquina».Finalmente, terminando os exemplos práticos, as obras
com os respectivos buracos e andaimes deixam de ser um problema, são
sempre escolhidos os percursos alternativos mais adequados. Podemos
afirmar que os obstáculos desaparecem na sua quase totalidade. É óbvio,
que a utilização do cão-guia não está isenta de problemas,
principalmente porque a sociedade não está habituada a este novo meio de
locomoção. No princípio estávamos talvez um pouco inibidos, mas isto é
algo que se ultrapassa perfeitamente, visto que as vantagens são enormes
e dão-nos força para lidarmos com todas as contrariedades que nos
surgem, ma maior parte das vezes por ignorância de algumas pessoas. Por
este motivo, e saindo um pouco do tema, achamos que todas as acções de
sensibilização da sociedade são muito úteis e estamos certos que todos
os utilizadores estarão na disposição de ajudar a equipa da escola
nestas iniciativas. Retomando um aspecto que já foi referido quando
falámos da mobilidade com a bengala, que dizia respeito ao
acompanhamento feito pelo técnico ao candidato quando este volta para
casa, é de salientar o efeito positivo que esta prática tem
principalmente na adaptação da dupla ao meio onde vai evoluir. Sem esta
fase do treino seria impossível saber quais são as dificuldades reais
que a dupla vai enfrentar. Felizmente, aqui não foi seguida a prática
dos centros de reabilitação que ensinam mobilidade. Não seria correcto
acabar de falar sobre a locomoção com o auxílio do cão-guia, sem referir
o nosso caso pessoal. A Duska foi-nos entregue em Julho de 2000 e tem a
particularidade de poder conduzir duas pessoas em simultâneo, ou cada um
de nós separadamente. Quando fizemos a candidatura, pusemos a hipótese
do mesmo cão ter a capacidade de se adaptar a duas pessoas, uma vez que
seria para nós muito difícil ter dois cães. Nessa altura ainda não
tínhamos a noção do trabalho que um cão-guia podia fazer. Durante a
longa espera que tivemos de suportar, que nos pareceu ainda mais longa
pelo facto de estarmos ansiosos pela chegada do nosso cão, foi-nos dito
várias vezes que estavam à espera que aparecesse um cão com
características para guiar e receber ordens de duas pessoas. Por fim a
notícia que tanto aguardávamos chegou, e a partir daí podemos afirmar
que todas as nossas expectativas foram largamente excedidas, a nossa
vida mudou muito e seguramente para melhor.
Conclusão
Não queríamos acabar, sem referir o trabalho, na nossa opinião
excelente, que a equipa da escola tem vindo a realizar, com poucos
recursos e enfrentando enormes dificuldades. Este trabalho pode parecer
desnecessário, acreditamos que algumas pessoas até possam questionar a
necessidade real de o cego ter um cão-guia, se tivermos em conta o seu
custo elevado, mas pode-se afirmar com toda a propriedade, que a
utilização de um cão-guia vem dar ao cego uma independência enorme, e
que quando falamos de deficiência não devemos apenas contabilizar os
custos desta ou daquela prática, o que interessa em todas as soluções
que são apresentadas para resolver determinados problemas dos
deficientes é a medida em que essas soluções contribuem para a
independência e para o reforço da auto-estima de cada um de nós. Por
tudo o que nos proporcionaram com a entrega da Duska e pela amizade que
fomos construindo com todos, queremos deixar aqui o nosso agradecimento
público a toda a equipa da escola.
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Mudança de Comportamentos Motores no Utilizador de Cão-Guia
Autores: João Fernandes e Maria João Fernandes
Fonte:
Clube Português de Utilizadores de Cão-Guia
Δ
22-Jun-2008
publicado
por
MJA
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