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Objetivo: verificar conhecimento e opinião de profissionais da área da saúde e da educação acerca
da intervenção fonoaudiológica com portadores de deficiência visual.
Método: realizou-se estudo descritivo com profissionais da área da saúde e educação que atuam no Centro de Estudos e Pesquisa em Reabilitação “Prof. Dr. Gabriel O. S.
Porto” (Cepre) na habilitação/reabilitação de portadores de deficiência visual. Utilizou-se um questionário auto-aplicável, desenvolvido após estudo exploratório e teste-prévio.
Resultados: a amostra foi composta por 21 profissionais da área da saúde
e educação. A média de idade foi de 42.5 anos; 95,2 % são do sexo feminino. Em relação às características
profissionais as categorias de Serviço Social e Terapia Ocupacional predominaram com 33,3% cada, seguida de Psicologia 19,0%. Os principais atendimentos realizados pela
Fonoaudiologia conhecidos pelos profissionais que participaram do estudo, referem-se a aspectos de motricidade
oral e alterações de fala e linguagem (38,0% em ambos). Em relação à inserção da Fonoaudiologia no processo de estimulação e/ou reabilitação os profissionais apontaram
como sendo o desenvolvimento global (38,0%) o principal aspecto em que a Fonoaudiologia poderia contribuir.
Conclusão: percebe-se que há conhecimento da atividade fonoaudiológica por parte dos profissionais que atuam na habilitação/reabilitação de portadores de deficiência
visual, porém este ainda é restrito. Sugere-se o desenvolvimento de outros estudos sobre a intervenção da Fonoaudiologia na deficiência visual a fim de fornecer subsídios
teóricos para sua atuação.
Introdução
A Fonoaudiologia é a ciência que estuda os distúrbios da comunicação humana, ou seja, as alterações de fala, linguagem, voz, audição, órgãos fonoarticulatórios e funções
neurovegetativas (mastigação, sucção, deglutição e respiração). A atuação do profissional da área pode ser feita em escolas, hospitais, clínicas particulares, centros de
saúde, indústrias, instituições, teatros, televisão, empresas de aparelhos auditivos, etc. 1
Esta ciência busca prevenir a ocorrência dos distúrbios mencionados
anteriormente, diagnosticar e tratar de indivíduos portadores dos mesmos, minimizando as sequelas de tais distúrbios, promovendo a integração da forma mais eficiente
possível à sociedade. 1
Na reabilitação de pessoas com deficiência visual, vários profissionais estão envolvidos. Com as descrições apresentadas acima, o
fonoaudiólogo mostra que também poderá contribuir para este processo, visto que é um profissional que trabalha com diversas áreas, visando à integralidade das mesmas.
Adota-se como conceito de deficiência visual a presença de cegueira ou baixa visão. Segundo World Health Organization 2 é considerado portador de cegueira o indivíduo
com acuidade visual desde 3/60 (0,05), no olho de melhor visão e melhor correção óptica possível, até a ausência de percepção de luz, ou correspondente perda de campo
visual no olho de melhor visão com melhor correção possível.2 A baixa visão corresponde a um comprometimento de seu funcionamento visual mesmo após tratamento e/ou
correção de erros refracionais comuns e apresenta uma acuidade visual inferior a 6/18 até a percepção de luz ou num campo visual
inferior à 10 graus do seu ponto de fixação mas que utiliza ou é potencialmente capaz de utilizar a visão para o planejamento e execução de uma tarefa. 2
O primeiro
ano de vida é crítico para o desenvolvimento das funções visuais e a privação de estímulos visuais durante esse
período pode provocar alterações anatômicas e funcionais irreversíveis. 3
A visão desempenha papel fundamental nos primeiros anos de vida, pois é um estímulo motivador para a comunicação e a
realização das ações. Considerando que, nesses anos o relacionamento com o mundo exterior é feito em grande parte por meio da
visão, qualquer anormalidade nos olhos ou em sua função pode levar à dificuldades no aprendizado e no relacionamento social,
além de uma diminuição no rendimento das atividades físicas e intelectuais 3.
A ausência da visão limita a motivação espontânea para os deslocamentos gerando atrasos nas aquisições de habilidades
manuais, posturais e de movimentos. Atrasos significativos decorrem da manipulação e da exploração precária de objetos, geradas
pela dificuldade de integrar as informações captadas pelos outros sentidos. A limitação na experimentação ativa compromete a descoberta do mundo e, em consequência, a aquisição de
conhecimentos. 4
Crianças com baixa visão possuem necessidades especiais relacionadas ao uso de sua visão residual. Ela pode restringir, por
exemplo, a experiência de vida da criança, a sua velocidade de trabalho, o desenvolvimento motor, a orientação e mobilidade e a
capacidade de realizar atividades práticas. Pode também afetar sua educação assim como o desenvolvimento social e emocional.
Existe um consenso de que muitas crianças têm condições de aprender e frequentar escolas comuns alternando a obtenção de informações
tanto de forma visual como de forma tátil. Crianças com baixa visão não necessitam e não deveriam ser educadas como se
fossem totalmente cegas. Portanto, é grande a necessidades de se incentivar o uso eficiente da baixa visão através de um programa de estimulação da visão residual.
2
O som desempenha importante papel na estimulação e na relação das crianças cegas como o meio externo. O bebê aprende
gradualmente a reconhecer os diferentes significados dos barulhos produzidos pela sua mãe e passa a reagir para estes sons com
mudanças no comportamento e respostas vocais dele próprio. 5
A audição constitui uma as principais áreas da Fonoaudiologia. Deste modo, o atendimento fonoaudiológico de pessoas com
deficiência visual deve incluir estimulação e treino de sons, para fins de orientação, mobilidade e proteção. Para a aquisição da linguagem, sabe-se o quão importante é a criança estar exposta a visão. A criança vidente observa as
atividades que a mãe realiza e estabelece a relação entre os objetos. Frequentemente, essas ações são acompanhadas pela linguagem
oral, gestual, expressões faciais, contato de olho, sorriso, entonação. 4
Estudos realizados com mães de crianças cegas demonstram que essas mães, quando comparadas com mães de bebês
videntes, têm uma tendência a falar menos com seus bebês. Este fato poderia explicar o comportamento passivo, geralmente
observado em bebês cegos e o aparecimento tardio de vocalizações para o início dos contatos. É por meio da linguagem que, muitas
vezes, o cego aprende o mundo. 6
A Fonoaudiologia compreende que as ações que para os videntes são de aprendizado “natural”, como levar um talher à boca,
manter o posicionamento da cabeça direcionado a quem dirige a fala, interagir com uma pessoa por meio de gestos, dar ênfase ao conteúdo do contexto de fala, manter um
diálogo com pessoas desconhecidas; para as pessoas com deficiência visual é um aprendizado não muito simples.
Visando uma melhora nas condições de hábitos orais e de comunicação, a Fonoaudiologia pode e deve
ser inserida dentro de um processo de habilitação/reabilitação de portadores de deficiência visual.
Os profissionais que atuam na reabilitação e educação de indivíduos deficientes visuais necessitam deter conhecimentos sobre
as limitações destes, bem como sobre o sistema de ensino e reabilitação vigentes. 8
Reconhece-se no mundo todo, a necessidade de identificar indivíduos com afecções oculares. O dimensionamento de
aspectos dessa problemática, por meio da investigação científica, provê base concreta para o planejamento de ações curativas e
preventivas relacionadas à saúde ocular. 9 O processo de reabilitação visa auxiliar portadores de deficiência visual em atividades
rotineiras, nas quais agora encontra dificuldade em realizar. Este processo deve favorecer a expressão de sentimentos, a
espontaneidade, o conhecimento das potencialidades e limitações e o desenvolvimento e aprimoramento de habilidades. As atividades
desenvolvidas podem ser expressivas, pedagógicas, lúdicas, de automanutenção e profissionalizantes.9
Sabe-se que hoje em dia, a proposta reabilitacional visa à integração de diferentes áreas na intervenção terapêutica, saindo de
uma visão fragmentária para uma concepção unitária do ser humano.
A interdisciplinaridade representa o grau mais avançado de relação entre disciplinas, considerando-se o critério de real
entrosamento entre elas. Nesse caso, seriam estabelecidas relações menos verticais entre diferentes disciplinas, que passariam,
também, a compartilhar uma mesma plataforma de trabalho, operando sob conceitos em comum e esforçando-se para decodificar o
seu jargão para os novos colegas, 10 que no caso deste estudo compreende o processo de reabilitação.
O melhor uso da baixa visão envolve a adaptação de instrumentos de apoio tais como recursos especiais (ópticos ou não
ópticos). A maioria dos recursos ópticos é composta por lentes que aumentam a imagem (lupa, telelupa, óculos comum). Já os não
ópticos são recursos simples que tem a finalidade de aumentar a resolução visual, como canetas hidrográficas de ponta grossa,
iluminação variável, material com impressão ampliada e microcomputadores. Além disso, profissionais foram e estão sendo treinados para ensinarem deficientes visuais a utilizarem esses recursos durante a
reabilitação.
A sociedade arca com prejuízos em decorrência da falta de atenção com a saúde visual, representados pela diminuição de
produtividade, da sua força de trabalho e o elevado custo de ações de reabilitação. Acrescem-se a isto, consequências psicológicas,
sociais e econômicas para o deficiente visual devido às restrições ocupacionais, diminuição da renda, perda de “status”, de autoestima,
de auto-confiança. Desse modo, a qualidade de vida é afetada, como tem sido observado especialmente em países em desenvolvimento.
Este estudo teve por objetivo
verificar conhecimento e opinião de profissionais da área da saúde e da educação acerca da intervenção fonoaudiológica de portadores de deficiência visual.
Materiais e Métodos
A amostra deste estudo foi constituída por profissionais da área da saúde
e educação (assistentes sociais, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, psicólogos, pedagogos) que atuam no Centro de Estudos e Pesquisa em Reabilitação
“Prof. Dr. Gabriel O. S. Porto” (Cepre) na habilitação/reabilitação de portadores de deficiência visual e que assinaram o Termo de
Consentimento Livre Esclarecido. Foram excluídos da pesquisa profissionais que não atuavam no Centro de Estudos e Pesquisa em
Reabilitação “Prof. Dr. Gabriel O. S. Porto” (Cepre) e/ou na habilitação/reabilitação de pessoas com deficiência visual, além dos
profissionais que participaram do estudo exploratório e do teste prévio.
As variáveis deste estudo referiram-se à profissionais da área da saúde e educação que atuassem na habilitação/reabilitação de
portadores de deficiência visual. Optou-se por agrupá-las desta forma:
Características pessoais e profissionais [Sexo, Idade, Ocupação, Categoria Profissional, tempo de atuação na habilitação/
reabilitação de portadores de deficiência visual, tipo de Instituição em que atua (Organizações Não Governamentais, Instituição de
Ensino Superior, Instituição Governamental), faixa etária com a qual atua, vínculo com a instituição (profissional, estagiário,
aprimorando, docente, atuação ou não com equipe interdisciplinar].
Aspectos referentes à percepção de profissionais acerca da intervenção fonoaudiológica na
habilitação/reabilitação de pessoas com deficiência visual (Conhecimento acerca da intervenção fonoaudiológica na habilitação/
reabilitação de pessoas com deficiência visual, opinião acerca da intervenção fonoaudiológica na habilitação/reabilitação de pessoas
com deficiência visual).
Foi realizado estudo exploratório para a elaboração de instrumento de medida. Primeiramente foram realizadas entrevistas
abertas, em que foram abordados temas sobre o conhecimento e opinião dos profissionais acerca da intervenção fonoaudiológica na
habilitação/reabilitação de portadores de deficiência visual. As entrevistas foram realizadas no Cepre devido a viabilidade de acesso
da amostra.
Com finalidade de aperfeiçoar a forma do instrumento, foi realizado o pré-teste que intrega-se gradualmente às etapas do
estudo exploratório. O estudo exploratório constitui prova necessária para assegurar confiança e validade dos dados a serem obtidos
na pesquisa. 13
Neste estudo, o pré-teste foi realizado aplicando-se o questionário estruturado a profissionais que atuam na habilitação/
reabilitação de portadores de deficiência visual do Cepre. O pré-teste, também foi realizado no Cepre devido a viabilidade de acesso
à amostra.
O questionário foi desenvolvido baseado nos objetivos e nas variáveis apresentadas no projeto, que foram apresentadas
anteriormente. A coleta de dados foi realizada por meio de questionário auto-aplicável com profissionais que aceitaram participar da
pesquisa. As entrevistas foram realizadas individualmente, respeitando-se o local de atuação do profissional no serviço.
Antes de iniciar a aplicação do questionário com cada profissional foram explicados os objetivos da pesquisa, assim como
foram assegurados o anonimato e a confidencialidade das informações, por meio de assinatura de um termo de consentimento livre
e esclarecido.
As variáveis foram categorizadas a fim de suprir os objetivos da pesquisa. Para a apresentação dos resultados, foram
apresentadas tabelas de distribuição de frequência, os dados foram agrupados em classes de modo a fornecer valores absolutos e percentagem,
não tendo sido utilizados outros testes estatísticos.
O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, CAAE
0209.0.146.000-06.
Resultados
A amostra deste estudo foi composta por 21 profissionais da área da saúde e educação. A distribuição por sexo apresentou-se consideravelmente maior no sexo feminino. Em relação às características profissionais
a categoria de terapeuta ocupacional foi a que mais apareceu (33,3%), seguida de assistente social 19% (Tabela 1). A maioria da amostra respondeu que o tipo de vínculo que possui com a instituição é o de docente (57,1%) (Tabela 1). Os profissionais da amostra relataram que atuam com pessoas com deficiência visual entre 6 meses e 10 anos.
Tabela 1
Características profissionais
|
|
N = 21
|
Características Profissionais
|
ƒ
|
%
|
Categoria Profissional
|
|
|
Terapia Ocupacional Serviço Social
Pedagogia Psicologia Pedagogia Especializada em DV
Fisioterapia Fonoaudiologia
|
7
4
3
3
2
1
1
|
33,3 19,0 14,2 14,2
9,5
4,8
4,8
|
TOTAL
|
21
|
100,0
|
Tipo de vínculo com a Instituição
|
|
|
Docente Aprimorando Estagiário Profissional
|
12
4
4
1
|
57,1
19,0
19,0
4,8
|
TOTAL
|
21
|
100,0
|
Em relação à existência de atendimento fonoaudiológico na equipe de atuação, a maioria referiu que há fonoaudiólogos
compondo a equipe interdisciplinar na habilitação/reabilitação de portadores de deficiência visual. Em relação ao tipo de
atendimento desenvolvido pelo fonoaudiólogo, 72,7% dos profissionais referiam que o fonoaudiólogo realiza avaliação e atendimentos
regulares (Tabela 2).
Tabela 2
Existência e tipo de trabalho
fonoaudiológico na equipe de atuação
|
|
N = 21
|
Existência
|
ƒ
|
%
|
Sim Não TOTAL
|
12
9
21
|
57,1 42,8
100,0
|
|
|
N = 12
|
Tipo
|
ƒ
|
%
|
Avaliação e atendimento fonoaudiológico Estimulação Teste da orelhinha TOTAL
|
8
2
2 12
|
66,6 16,7 16,7 100,0
|
As principais atividades realizadas pela fonoaudiologia conhecidas por estes profissionais que responderam ao questionário referiram-se a aspectos de
motricidade oral e alterações de fala e linguagem (38% em ambos) (Tabela 3).
Os profissionais responderam como sendo a fala e linguagem (52,3%) seguidos de
motricidade oral (33,3%), os aspectos que conheciam, referentes a atuação da Fonoaudiologia, que poderiam auxiliar portadores de deficiência visual. Destaca-se também a
proporção de profissionais que relataram não conhecer os aspectos em que a Fonoaudiologia poderia auxiliar estas pessoas (33,3%).
Tabela 3
Conhecimento do funcionamento do trabalho realizado
pela Fonoaudiologia durante a estimulação e/ou reabilitação
|
|
N = 21
|
Conhecimento (Respostas múltiplas)
|
ƒ
|
%
|
Aspectos de motricidade oral Alterações no processo de aquisição de linguagem e fala Avaliação e Intervenção fonoaudiológica Orientações à família Diagnóstico de perda auditiva Expressões faciais Não conhece
TOTAL
|
8 8 4 4 4 2 5
35
|
38,0 38,0 19,0 19,0 19,0 9,6 23,8
100,0
|
Em relação à percepção de melhoras ao final da estimulação e/ou reabilitação, os profissionais apontaram uma melhora
global no processo (28,5%), seguido do desenvolvimento linguístico (19,0%). Destaca-se também a proporção de profissionais que
relataram não saber se ocorreram melhoras ou não no aspecto fonoaudiológico ao final da estimulação (38,0%) (Tabela 4).
Tabela 4
Percepções de melhoras ao final da estimulação
e/ou reabilitação no aspecto fonoaudiológico
|
|
N = 21
|
Percepções (Respostas múltiplas)
|
ƒ
|
%
|
Melhora global
Desenvolvimento lingüístico
Alterações de motricidade oral
Relação com a família
Problemas auditivos
Expressão facial
Não sabe
TOTAL
|
6 4 3 2 1 1 8
25
|
28,5 19,0 14,2 9,5 4,8 4,8 38,0 100,0
|
A maioria opinou como sendo muito importante (47,6%) a intervenção fonoaudiológica a portadores de deficiência visual
(Tabela 5).
Tabela 5
Opinião acerca da importância da intervenção
fonoaudiológica com portadores de deficiência visual
|
|
N = 21
|
Opinião (Respostas múltiplas)
|
ƒ
|
%
|
Muito importante Importante Nada importante Não sabe/ Não conhece
TOTAL
|
10 7 -- 4
21
|
47,6 33,4 -- 19,0
100,0
|
Em relação à inserção da Fonoaudiologia no processo de estimulação e/ou reabilitação os profissionais destacaram como sendo o desenvolvimento global
(38%) o principal aspecto em que a Fonoaudiologia poderia auxiliar.
Em relação à Fonoaudiologia como sendo um auxiliar no aprimoramento/desenvolvimento de outros
aspectos do processo de
estimulação e/ou reabilitação, os profissionais opinaram como a melhora na leitura e escrita o principal auxílio (33,3%), seguido da
melhora da comunicação (23,8%) (Tabela 6).
Tabela 6
Opinião acerca de como a Fonoaudiologia pode auxiliar
no aprimoramento/desenvolvimento de outros aspectos
do processo de
estimulação e/ou reabilitação
|
|
N = 21
|
Opinião (Respostas múltiplas)
|
ƒ
|
%
|
Melhora da leitura e da escrita Melhora da comunicação Melhora da fala Orientação à família Postura Estimulação do resíduo visual Atividade lúdica Qualidade de vida Inserção social Estimulação Percepção auditiva Melhora da auto-estima Expressões faciais Não sabe
TOTAL
|
7 5 4 3 2 2 2 2 2 1 1 1 1 3
36
|
33,3 23,8 19,0 14,2 9,5 9,5 9,5 9,5 9,5 4,8 4,8 4,8 4,8 14,2
100,0
|
Discussão
A investigação foi realizada por meio de “survey”. O “survey” constitui modalidade de pesquisa frequentemente empregada
no setor da saúde. Trata-se de um tipo de investigação científica em que se estuda a realidade de forma como se apresenta, sem
o propósito de estabelecer relação causal entre as variáveis 13.
A maior parte dos sujeitos que respondeu ao questionário é formada por profissionais de diferentes categorias da área da
saúde. Percebe-se então que a interdisciplinaridade está cada vez mais presente dentro das Instituições. A interdisciplinaridade
assume grande importância na medida em que identifica e nomeia uma mediação possível entre saberes e competências e garante a
convivência criativa com as diferenças. Além da função de mediador, o conceito de interdisciplinaridade vem apontar a
insuficiência dos diversos campos disciplinares, abrindo caminhos e legitimando o tráfego de sujeitos concretos e de conceitos e
métodos entre as diferentes áreas do conhecimento 10.
Quando questionados sobre sua ocupação, a maioria dos profissionais respondeu como sendo docentes (61,9%). Isto se deve
ao fato de que o Cepre está inserido em uma Instituição de Ensino Superior ; e a maioria de seus profissionais serem docentes de
curso de graduação e especialização, além de atuarem diretamente na assistência de pessoas com deficiência visual.
Neste trabalho encontramos um predomínio de profissionais que atuam com deficiência visual há uma década (57,9%). No
Brasil, a reabilitação visual de pessoas com baixa visão surgiu em 1974, com a criação das primeiras clínicas de treinamento de
visão subnormal 15. Mostra-se assim que os profissionais que atuam na habilitação/reabilitação da deficiência visual estão atuando há
um período relativamente próximo ao início da reabilitação de deficientes visuais no Brasil.
Quando questionados sobre a existência de atividades fonoaudiológicas na sua equipe de atuação, a maioria dos profissionais
respondeu positivamente (57,1%). E quando questionados quanto ao tipo de intervenção, a resposta mais frequente foi a de que havia
avaliação e atendimento fonoaudiológico (72,7%). Este dado aponta que em certos lugares a Fonoaudiologia está sendo inserida
no processo de habilitação e/ ou reabilitação de pessoas com deficiência visual. Porém esta inserção ainda é pequena, visto que mesmo
dentro do Cepre, onde há uma equipe interdisciplinar atuando na reabilitação de pessoas com deficiência visual, apenas um fonoaudiólogo atua diretamente e, alguns outros
profissionais, inseridos no serviço, referiram desconhecer a atuação da Fonoaudiologia na deficiência visual. Pode-se associar este fato à escassez de literatura
disponível em relação essa temática, como já foi explicitado anteriormente.
Observa-se que proporção acentuada dos entrevistados (66,6%) revelaram conhecimento sobre intervenção
fonoaudiológica junto aos deficientes visuais. No entanto, as autoras tiveram dificuldade em categorizar as respostas, por não haver
domínio da nomenclatura apropriada. Como exemplo, alguns profissionais citaram como posicionamento de língua e alimentação,
alguns dos aspectos trabalhados pela Fonoaudiologia. Estes dois aspectos se enquadram na área de motricidade oral, mas não foram
assim apontados por parte dos profissionais que responderam ao questionário. Em relação à alimentação, o profissional que atua
junto à pessoa com deficiência visual, deve verificar a iluminação do ambiente, a possibilidade de os utensílios oferecerem
contrastes entre si, os copos e xícaras em relação aos líquidos e o alimento em relação ao prato. A Fonoaudiologia junto com a
terapia ocupacional pode auxiliar o paciente na melhor forma para ele se alimentar. A Fonoaudiologia indicaria os melhores
alimentos, melhor posição para a realização da refeição, e a melhor utilização dos músculos da mastigação e deglutição com o
intuito de coordenar a dinâmica da alimentação.
Os principais conhecimentos relacionados as atividades realizadas pela Fonoaudiologia durante a estimulação e/ou
reabilitação foram referentes às alterações de motricidade oral (38%) e no processo de aquisição de linguagem e fala (38%). O
diagnóstico tardio da deficiência visual priva a criança de receber a estimulação necessária ao seu desenvolvimento. Por outro lado,
as crianças com baixa visão que recebem intervenção precoce têm maiores possibilidades de desenvolver seu resíduo visual. A
intervenção precoce melhora a qualidade de vida da criança com baixa visão. Deste modo, tão logo seja feito diagnóstico, os pais
devem ser orientados sobre a importância da intervenção precoce para o desenvolvimento da criança. 4
Sabe-se da importância de projetos de triagem visual em crianças, sejam elas normais ou com múltiplas deficiências, uma vez
que seu tratamento e acompanhamento deve ser o mais precoce possível, dentro do período da plasticidade visual, favorecendo a reabilitação
visual, o que estimula o desenvolvimento global da criança 16.
Com relação ao conhecimento de quais aspectos em que a Fonoaudiologia poderia auxiliar pessoas
com deficiência visual, a maioria dos profissionais apontou a fala e a linguagem (52,3%), seguida pela motricidade oral (33,0%). A
linguagem e a fala atuam como controladoras do ego sobre os afetos e impulsos, aumentando a possibilidade de distinção entre
desejos e fantasias de um lado e a realidade do outro. No cego, além de desempenharem estas funções, a linguagem e a fala são
usadas também como substitutos de “coisas” que não vê: descobre usos da fala para se orientar, para catalogar características que
diferenciam as pessoas, para descobrir alguma marca pela qual um objeto possa ser reconhecido 14.
O dado citado acima aponta a Fonoaudiologia como ciência auxiliadora de portadores de deficiência visual na melhora de seu
desempenho de fala e linguagem visando uma comunicação mais efetiva.
Apesar de um número diversificado de exemplos apontados pelos profissionais, alguns ainda não conhecem os aspectos em
que a Fonoaudiologia poderia auxiliar as pessoas com deficiência visual, mesmo estando inseridos em Centro onde há um curso de
Graduação em Fonoaudiologia. Este dado poderia sugerir que o profissional não procura por este conhecimento ou não sente
necessidade do mesmo durante o processo de reabilitação no qual atua. Sem base teórica, o profissional não consegue perceber em
que a Fonoaudiologia poderia levar seus conhecimentos e aprimorar a estimulação/reabilitação de pessoas com deficiência visual.
A melhora global dos pacientes (28,5%) ressalta-se na questão sobre as percepções de melhoras ao final da estimulação e/ou
reabilitação no aspecto fonoaudiológico. A Fonoaudiologia, como uma ciência recente, carece de estudos que possam produzir conhecimentos
técnicos e científicos capazes de expandir seu domínio de atuação em saúde pública 17.
Faz-se relevante que a Fonoaudiologia acompanhe as mudanças teórico-metodológicas do campo da Saúde Pública/Coletiva
e, pautando-se por elas, participe do processo de implantação de uma política de saúde nacional, definindo seu papel e lugar junto à
Promoção da Saúde da população de maneira reflexiva, consciente, responsável e atuante 18. Dentre elas, pode-se citar a atuação
Fonoaudiológica na deficiência visual.
Por não conhecerem totalmente as áreas de atuação da Fonoaudiologia e nem todos os seus aspectos, 38,0% dos profissionais
não sabiam responder a esta questão, e relataram como sendo uma melhora global sua percepção em relação ao aspecto fonoau 17
Medicina (Ribeirão Preto) 2010;43(1):11-19 Monteiro MMB, Montilha RCI. Fonoaudiologia e Deficiência Visual http://www.fmrp.usp.br/revista
diológico. Isto sugere que os outros profissionais que atuam em reabilitação de pessoas com deficiência visual não possuem
conhecimento a respeito da Fonoaudiologia. Observa-se que são raros os trabalhos na literatura que abordem essa temática. Sugerese
o desenvolvimento de outros estudos sobre a intervenção da Fonoaudiologia na deficiência visual a fim de fornecer subsídios
teóricos para sua atuação, além da sua inserção nos processos de habilitação/reabilitação em deficiência visual.
Este dado sugere que esta pode ser uma nova área em que o fonoaudiólogo poderá se inserir, trazendo seus conceitos para
auxiliar no aprimoramento do processo de reabilitação de portadores deficiência visual.
A respeito da opinião da importância da intervenção fonoaudiológica em portadores de deficiência visual, a maioria dos
profissionais consideram a Fonoaudiologia muito importante na habilitação/reabilitação de pessoas com deficiência visual (47,6%).
Mesmo sabendo que o trabalho integrado da Fonoaudiologia na estimulação/reabilitação de pessoas com deficiência visual é
importante para uma visão integral do paciente, os profissionais que atuam em equipe de reabilitação geralmente só solicitam
intervenção fonoaudiológica quando há queixa por parte do paciente ou da família ou se na opinião deles o aspecto no qual os
pacientes apresentam alterações diz respeito à Fonoaudiologia.
A melhora da leitura e da escrita (33,0%), seguida da melhora da comunicação (23,8%) foram apontados como os principais
aspectos de como a Fonoaudiologia pode auxiliar no aprimoramento/desenvolvimento de outros aspectos do processo de
estimulação e/ou reabilitação. A comunicação escrita através da leitura e da escrita propriamente dita, reflete 56,0% e 52,0%,
respectivamente, das limitações segundo a opinião de portadores de deficiência visual do estudo. Dado que ressalva a importância
de atuação fonoaudiológica para a melhora da comunicação e independência de pessoas com deficiência visual.
Conclusão
Percebe-se que há conhecimento do
trabalho fonoaudiológico por parte de profissionais de área da saúde e educação que atuam na habilitação/reabilitação de pessoas com deficiência visual, porém este ainda é restrito.
A maioria dos profissionais refere que são nos aspectos de motricidade oral e alterações de fala e linguagem os trabalhos da Fonoaudiologia conhecidos junto a deficientes
visuais. Opinaram como sendo a melhora na leitura e escrita e a melhora da comunicação as principais contribuições da
Fonoaudiologia no aprimoramento/desenvolvimento de aspectos do processo de habilitação e/ou reabilitação de deficientes visuais.
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Fonoaudiologia e Deficiência Visual:
percepções de profissionais de equipe interdisciplinar
autoras:
Mayla Monteiro:
Fonoaudióloga; Mestranda do Programa “Saúde, Interdisciplinaridade e Reabilitação” do Centro de Estudos e Pesquisa em Reabilitação “Prof. Dr. Gabriel O. S. Porto” –
Faculdade de Ciências Médicas – UNICAMP - email: mamyrina@fcm.unicamp.br &
Rita Montilha: Docente do Curso de Fonoaudiologia - UNICAMP e do Centro de Estudos e Pesquisa em Reabilitação “Prof. Dr. Gabriel O. S. Porto”
– Faculdade de Ciências Médicas – UNICAMP
Publicação: Medicina (Ribeirão Preto) 2010; 43(1):11-19
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5.Abr.2013
publicado
por
MJA
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