-excerto-

Alice Yasmim, uma judoca cega de 7 anos
índice
Ninguém sabe realmente quando e onde as artes marciais começaram (BERNARDES,
2007). Guerreiro (2003) acredita que as manifestações de luta foram uma
constante na vida do
ser humano desde o período antes de Cristo, tendo a sua origem na defesa da vida
e integridade
física frente a situações que fizessem perigar a sobrevivência do homem.
Bernardes (2007) acrescenta que através do comércio e da migração, as formas de
combate se espalharam-se por todo o oriente ainda no período antes de Cristo. E,
desde então,
desenvolveram-se uma variedade de sistemas de artes marciais que foram
precursores das artes
marciais modernas, havendo evidências de que uma das mais antigas delas tenha
sido o jiu-jitsu.
Este mesmo autor acrescenta que o jiu-jitsu tinha vários estilos ensinados e foi
durante
muito tempo a luta mais praticada no Japão. Esta arte era tratada como uma das
jóias mais
preciosas do Oriente, sendo considerado um crime ensiná-la a pessoas de outras
nacionalidades.
No entanto, no ensino do Jiu-jitsu não existia uma atitude metodológica bem
definida.
Cada mestre do Jiu-jitsu ensinava as técnicas de forma diferente, sem passar aos
alunos uma
única forma (correta) de execução (VIEIRA; SOUZA JÚNIOR, 2006).
Além disso,
nesta arte havia um caráter muito violento e desrespeitoso com seu próprio
praticante. Muitos mestres ganharam a vida colocando as lutas em exibição
pública e ainda
cobravam ingresso para as pessoas assistirem, como se de shows se tratasse
(GUERREIRO,
2003). Crianças, por exemplo, aprendiam desde tenra idade golpes estritamente
traumáticos,
sendo que a escola que os ensinava não era responsabilizada por alguma lesão
severa que
porventura algum aluno pudesse sofrer.
Sendo assim, o Jiu-jitsu, a par da
disciplina e moral públicas, a partir da segunda metade
do século XIX, começou a entrar em declive e perder sua popularidade. As pessoas
não queriam
praticar uma arte que pusesse em causa a sua própria saúde (BERNARDES, 2007).
Foi neste momento que Jigoro Kano, um jovem japonês que não possuía muitos
atributos
físicos que pudesse se sobressair aos outros, medindo apenas 1,50 metro e
pesando apenas 50
quilos, passou a repensar de maneira muito inteligente os ensinamentos que havia
aprendido na
arte do jiu-jitsu. Preocupado com a falta de ética e moral do jiu-jitsu e com a
inexistência de
princípios pedagógicos e científicos, passou a estudá-lo de forma sistemática
para que pudesse
adquirir conhecimentos que pudessem não só ajudá-lo em sua defesa pessoal, mas
que pudesse
ajudar o homem a desenvolver-se integralmente, trazendo verdadeiros benefícios à
sua vida e
fazendo-o viver mais racionalmente (ARAÚJO, 2005).
Kano desejava criar um
esporte completo, desafiante e competitivo (VIEIRA; SOUZA
JÚNIOR, 2006). Tentou, portanto, contemplar não somente as práticas físicas, mas
também, e de
acordo com o seu ideal, uma educação moral e intelectual (GUERREIRO, 2003).
Adequou primeiramente uma vestimenta especial de treino (o Judogi), pois não
havia um
traje específico para a prática do Jiu-jitsu (BERNARDES, 2007), sendo
desenvolvido para que
pudesse ajudar na preensão durante as pegadas no treinamento de judô (GUERREIRO,
2003).
Estipulou a cor branca, representando a pureza de espírito, tendo o objetivo de
atrair boas
vibrações e energias (ARAÚJO, 2005).
Ao novo desporto, desejoso de evitar os
perigos do combate, definiu regras para um
combate educativo (ARAÚJO, 2005). Selecionou então, as técnicas do jiu-jitsu que
melhor se
adequavam a seus ideais e excluiu as mais prejudiciais e lesivas à sua prática
por leigos, pois
afirmava que os judocas deveriam conscientizar-se que para haver a luta
precisava-se do outro
companheiro, o que denota responsabilidade em respeitar o limite e a integridade
física de seu
oponente (ARAÚJO, 2005).
Neste contexto, também foi aperfeiçoada a forma de
cair, que era primitivamente muito
traumatizante (GUERREIRO, 2003). E adicionou o cumprimento (Rei), como uma forma
de
demonstrar humildade e respeito ao seu semelhante e ao local de treino (dojo),
sendo utilizado até
os dias de hoje quando se entra no Dojo, no início ou encerramento de algum
treinamento com
um companheiro e para cumprimentar os professores, faixas pretas e colegas
(ARAÚJO, 2005).
Dojo é um termo de proveniência budista que traz consigo a
corrente filosófica que tem
grande influência na arte ―zen‖ (ARAÚJO, 2005). Conforme Sugai (2000), Zen
significa
meditação que se refere a um grau de consciência elevado, um estado de ser
íntegro, da
transcendência e elevação do espírito, num estado tranqüilo e desperto.
Assim sendo, dojo é o termo designado ao local onde se estuda o judô, de modo
que uma
vez que se encontra nele, deve-se respeitar e praticar também os princípios da
arte ―zen‖
(ARAÚJO, 2005). Criou por fim, novas técnicas e para dar suporte à elas
estudou: a anatomia, a fisiologia, a
psicologia, a filosofia e a biomecânica (BERNARDES, 2007).
Jigoro Kano
percebeu, além disso, que a arte que estava a criar necessitava de um
princípio universal, de onde basearia as técnicas que estava a criar (VIEIRA;
SOUZA JÚNIOR,
2006). Os princípios que elegeu para o desporto que sistematizou, sintetizou-os
em duas
expressões: Seiryoku Zenyou - O máximo de eficácia, com um mínimo de esforço. O
melhor uso
da energia. Jita Kyouei - Prosperidade e benefícios mútuos (CATT, 2006). Estes
princípios que
têm muito de sua origem na filosofia taoísta, trazem consigo a idéia de ceder
para poder vencer,
procurando não resistir, mas utilizar a força do adversário a seu próprio favor,
por exemplo,
puxando quando se é empurrado ou empurrando quando se é puxado (ARAÚJO, 2005).
Dessa
forma, a maioria dos movimentos é feita com menos força para obter a vitória
sobre o oponente
sem causar lesões (VIEIRA; SOUZA JÚNIOR, 2006).
Kano pensou ainda, que a sua
nova arte marcial deveria ter outro nome, pois a sua prática
era diferente do Jiu-jitsu. Tendo em conta a sua essência, a não resistência e o
aproveitamento da
força do oponente, chamou a esta nova arte ―Judô‖. Sendo assim em 1882 surge um
novo
conceito de arte, o ―Judô‖, palavra japonesa composta por duas partes: JU -
Suave, Flexível, fácil,
e DO - caminho, via, meio; portanto podemos dizer que o Judô é o ―caminho da
suavidade‖, a
―via da não resistência‖ (SUAREZ, 2002).
Portanto, o judô como é praticado nos
dias atuais é baseado no antigo jiu-jitsu japonês. As
técnicas do jiu-jitsu, re-examinadas, refinadas, sistematizadas e unidas a um
ideal proposto por
Jigoro Kano, tornaram-se as técnicas do judô (VIEIRA; SOUZA JÚNIOR, 2006).
Após sua fundamentação, Jigoro Kano passou então a dedicar sua vida a trabalhar
para a
expansão do judô, primeiramente no Japão e depois em todo o mundo (BERNARDES,
2007).
Um dos primeiros e mais importantes acontecimentos para a expansão do Judô dá-se
por
volta dos anos de 1885 e 1886, quando os primeiros discípulos de Kano participam
num torneio
aberto a todas as escolas de jiu-jitsu e obtêm uma vitória retumbante. Se, por
um lado, este
acontecimento determinou a expansão da nova arte, o ―Judô‖, por outro fez com
que o inverso
sucedesse com o antigo jiu-jitsu (GUERREIRO, 2003; VIEIRA; SOUZA JÚNIOR, 2006).
Para difundir ainda mais o desporto, Kano iniciou em 1889, com seus discípulos
uma
série de apresentações e palestras em outros países, de modo que, na década de
1930 o Judô já era
conhecido em quase todas as nações do mundo (BERNARDES, 2007).
No Brasil, um
dos precursores do Judô foi um dos discípulos de Kano, o japonês Eisei
Maeda, conhecido por Conde Koma, o qual realizou demonstrações em São Paulo, Rio
Grande
do Sul e Rio de Janeiro, por volta de 1925. Já muito famoso e após ter difundido
o judô em várias
partes do Brasil, radicou-se no Pará, local onde fundou uma academia, até hoje
existente. Em
1954, no Rio de Janeiro, houve então, a realização do I Campeonato Brasileiro de
Judô.
(VIEIRA; SOUZA JÚNIOR, 2006). O primeiro campeonato mundial aconteceria em
Tóquio,
dois anos depois, em 1956 (ARAÚJO, 2005).
Em 1962 foi criada a Federação
Internacional de Judô, que passou a ser o órgão
regulamentador do judô no mundo. Em 1964, a modalidade foi introduzida como um
desporto
olímpico, nos Jogos Olímpicos de Tóquio (VIEIRA; SOUZA JÚNIOR, 2006).
Assim,
em 1969, foi fundada a Confederação Brasileira de Judô, cuja sede encontra-se no
Rio de Janeiro (ARAÚJO, 2005). Atualmente a federação internacional de judô é a
segunda maior em numero de
participantes e tem 187 países filiados (MATSUMOTO; KONNO, 2005). O judô é o
segundo
esporte mais popular do mundo, estando atrás apenas do futebol. É praticado por
homem,
mulheres, crianças e idosos, independente de idade ou sexo (CATT, 2006). No
Brasil, é também um dos esportes mais desenvolvidos. A qualidade técnica do
judô, aqui representada atualmente, está entre as melhores do mundo (VIEIRA;
SOUZA JÚNIOR, 2006).
Conforme já explorado anteriormente, a ausência de visão, aliada ao não
conhecimento da
organização dos objetos e pessoas no ambiente, dificultam o deslocamento,
ocasionando por
vezes, tombos, esbarros, entre outros acidentes, que podem resultar em
frustrações que retardam a
confiança em conquistar o espaço (VIEIRA; SOUZA JÚNIOR, 2006).
A ansiedade aliada à insegurança e ao medo de cair e se machucar ao andar na rua
atrapalham os movimentos, agindo diretamente no tônus muscular do indivíduo com
deficiência
visual, levando a tensão muscular e interferindo na postura e no equilíbrio das
pessoas que têm
problema de visão (VIEIRA; SOUZA JÚNIOR, 2006). Assim, muitas vezes, a pessoa
com
deficiência visual interrompe uma atividade ou a impedem de participar dela pelo
medo de se
machucar com uma queda (INTERNATIONAL BLIND SPORTS FEDERATION, 2010).
Sabe-se que não existe um esporte como o judô, em que seja ensinado um método
eficaz
de como cair sem se machucar. Por exemplo, quando jogamos futebol, não é
estudada a queda,
ela apenas acontece. No entanto, no judô, estuda-se teoricamente e praticamente
a melhor
maneira de absorver com o corpo os efeitos no terreno, a fim de evitar danos
físicos
(INTERNATIONAL BLIND SPORTS FEDERATION, 2010). No judô, a posição e forma de
cair (com a batida do braço no solo) são ensinadas baseadas no estudo da física
e da anatomia
humana, buscando a melhor forma de amortecer a queda, evitando lesões. O ensino
da posição e
forma de cair baseia-se tanto pela aplicação da 3º Lei de Newton (ação e reação),
quanto baseada
no princípio físico de que quanto maior a superfície de contato com o solo,
maior a distribuição
da força de pressão, devido ao maior número de pontos, que ajudarão no
amortecimento da queda
(SILVA; PELLEGRINI, 2007).
Assim, através dos rolamentos (ukemis), batidas e quedas, o deficiente visual
promove a
descontração muscular, ampliando suas possibilidades espaço-temporais e
dificilmente o fator
―medo de cair‖ interferirá no cotidiano deste novo judoca (VIEIRA; SOUZA JÚNIOR,
2006).
O aprendizado de amortecimento de queda é uma forma eficaz de proteger o
organismo
em qualquer situação repentina de queda e em desafios cotidianos que comumente
os deficientes
visuais se defrontam (INTERNATIONAL BLIND SPORTS FEDERATION, 2010).
Além disso, o judô é um desporto que por suas características intrínsecas
possibilita que
os deficientes visuais pratiquem-o sem necessidade de adaptações de materiais ou
grande tipo de
ajudas específicas (CASTERLENAS; PÉREZ, 2002).
Normalmente, na prática cotidiana do Judô, o judoca não olha para o seu
adversário,
durante um treinamento ou competição. A visão, neste caso, não tem um papel
muito importante:
a sensibilidade transmitida pela forma de segurar o judogui (percepção
tátil-cinestésica) é
suficiente na luta do judô, e permitirá uma compreensão adequada do movimento do
adversário e
verificação do momento oportuno de efetuar o ataque, o contra-ataque ou uma
mudança dinâmica 52
de posição (PERRIN et al, 2002). Por este motivo, o judô para cegos é uma
modalidade
Paraolímpica desde 1988, em Seul (CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE DESPORTOS PARA
CEGOS, 2010).
Outra prova de que o judô não necessita de tantas aferências visuais é que
embora a IBSA
(International Blind Sports Federation – entidade organizadora dos campeonatos
internacionais
de esportes para cegos) divida os deficientes visuais em três classes que vão de
cego total aos
atletas que têm alguma acuidade visual (até 6/60) para divisão nos esportes, no
judô todos
disputam juntos, sendo divididos apenas por categorias de peso (COMITÊ
PARAOLÍMPICO
BRASILEIRO, 2010).
Na competição, também são poucas as regras que mudam em relação à competição
olímpica de judô (RODRIGUEZ, 2006). Os judocas lutam entre si com as mesmas
regras de
competição da Federação Internacional de Judô-IJF, com apenas duas modificações:
a luta é
interrompida quando os oponentes perdem o contato das mãos no judogui do
adversário e não há
punições para quem sai da área de combate (GROSSO et al., 2007).
No entanto, vale considerar o judô mais do que como um desporto paraolímpico
para
cegos ou como a única arte marcial nas Paraolimpíadas (RUFFONI; LASSANCE, 2007),
mas
como uma atividade pedagógica desportiva que irá complementar um processo de
orientação e
mobilidade a partir do sucesso na diminuição das defasagens psicomotoras,
podendo ser
considerado fator de promoção e exploração das possibilidades sociais, afetivas,
culturais e
motoras e interferindo diretamente no processo de reabilitação do deficiente
visual e de sua
inclusão na sociedade (VIEIRA; SOUZA JÚNIOR, 2006).
A International Blind Sports Federation (2010) fala que a prática do judô é uma
atividade
que estimula o desenvolvimento global do indivíduo, obrigando um treinamento de
toda a
musculatura corporal, a qual aumenta a força e a elasticidade, assegurando uma
melhora da
resistência física geral, o domínio da respiração e o aumento do tempo de reação
dos seus
praticantes.53
Especificamente na prática pelos deficientes visuais, Ruffoni e Lassance (2007)
observaram que após um ano de prática de judô, há maior independência, maior
disposição,
melhor poder de concentração, maior orientação espacial e noção de lateralidade.
Segundo a Confederação Brasileira de Desportos para Cegos – CBDC (2010), o judô
também dá ao atleta um grande aperfeiçoamento do equilíbrio estático e dinâmico,
fundamentais
no cotidiano dos deficientes visuais.
Assim, em relação às principais características desenvolvidas através da prática
sistemática do Judô que podem beneficiar os deficientes visuais, podemos citar:
consciência do
próprio corpo; organização do esquema corporal; domínio do equilíbrio;
orientação de tempo e
espaço; mobilidade segura; exploração das possibilidades corporais; resistência
aeróbia e
anaeróbia, potência muscular, flexibilidade, eficiência nas coordenações globais
e segmentadas
(VIEIRA; SOUZA JÚNIOR, 2006).
Os benefícios psicológicos decorrentes da prática do judô também são grandes. Os
aspectos filosóficos e educacionais são, sem dúvida, de grande valia para a
grande aceitação deste
esporte. A agressividade diminui, assim como a ansiedade. Já a auto-estima,
atenção e relações
interpessoais aumentam (MATSUMOTO; KONNO, 2005).
Em relação à aquisição de qualidades comportamentais, Vieira (2005) em seu
estudo
verificou que o judô diminui a ansiedade de adolescentes cegos, indivíduos estes
que estão mais
expostos a situações geradoras de ansiedade. Observaram também que os alunos de
locomoção
falha geralmente demonstravam mais medo que aqueles que apresentavam maior
independência
na locomoção. Assim sendo, o efeito da diminuição na ansiedade de adolescentes
cegos interferia
diretamente para a melhora da orientação e mobilidade destes.
Por tudo isso, compreendemos o Judô como uma importante ferramenta de atuação no
trabalho com indivíduos em condição de deficiência visual (ARAÚJO, 2005), sendo
adequado
utilizar uma arte marcial em um programa de atividades motoras adaptadas por
proporcionarem
ricas experiências motoras e, além disso, possuírem em sua maioria, como
componentes de seu
programa, sistemas filosóficos os quais regem a vida do praticante tanto dentro
da prática, como
em sua vida em sociedade (ALMEIDA; SILVA, 2009).
Considerando que algumas precauções devem ser tomadas na atenção a criança com
deficiência visual (CRAFT; LIEBERMAN, 2004), algumas medidas básicas foram
adotadas para
a execução do presente protocolo de treinamento.
A ambientação, realizada na primeira aula do protocolo de treinamento utilizado
neste
estudo, constitui segundo Conde, Sobrinho e Senatore (2006), o reconhecimento (conceituação
e
mapa mental) das áreas, implementos e materiais a serem utilizados pelo aluno
deficiente visual
em aulas que ele participará. É essencial que esse processo aconteça antes da
aula em si, para que
o deficiente visual se familiarize com a área e possa evitar acidentes no
decorrer das atividades.
Outro fator a ser considerado é que como as possibilidades da criança com
deficiência
visual aprender por mera imitação (através da observação) é muito diminuída ou
nula, os
professores precisam conduzir fisicamente as crianças ao longo do movimento, em
vez de
mostrá-lo a elas (CRAFT; LIEBERMAN, 2004). A ajuda cinestésica, tocando no aluno
com
deficiência visual e deixando que ele o toque e perceba seu movimento somado ao
comando e
feedback verbal é, muitas vezes, suficiente para proporcionar o aprendizado da
criança deficiente
visual (CONDE; SOBRINHO; SENATORE, 2006).
Desta maneira, a criança com deficiência visual acaba por necessitar receber
diretamente
uma quantidade de informações muito maior do que a ensinada para as outras
crianças, devendo
estas informações serem repetidas diversas vezes para melhor assimilação.
Também, além do
comando é necessário o feedback verbal, pois a criança nem sempre sabe como está
se saindo
(CRAFT; LIEBERMAN, 2004).
Assim sendo, é importante evitar ambientes profundamente ricos em estímulos
sonoros,
para evitar distrações e proporcionar um ambiente mais adequado ao aprendizado
da criança com
deficiência visual (CONDE; SOBRINHO; SENATORE, 2006).
Outro aspecto a ser discutido para elaboração de um protocolo de treinamento é a
questão
do alongamento e do aquecimento. Vários estudos dizem que o alongamento evita
lesão ou
melhora a performance . No entanto, não o analisam isoladamente. Em geral, o
avaliam seguido
de um aquecimento, fato este que mascara qualquer suposto efeito do alongamento
como fator
que previne lesões. Não há um único estudo na literatura que demonstre que o
alongamento tenha
algum tipo de propriedade benéfica para evitar lesões (BORBOLLA NETO, 2007).
O aquecimento, sim, tem sua eficácia comprovada por causar diversas mudanças no
organismo, como aumento na temperatura muscular e maior recrutamento
neuromuscular, fatores
estes que são considerados fundamentais para a melhora na performance e
diminuição na
ocorrência de lesões (BISHOP, 2003).
Para Borbolla Neto (2007), o alongamento praticado no pré-exercício pode, de
forma
contrária, ser inclusive prejudicial na produção de força pelo músculo, não
sendo útil, portanto,
para integrar um protocolo de aquecimento, tendo apenas seu efeito relaxante
comprovado e
podendo, portanto, integrar a parte final de um protocolo de treinamento,
permitindo o
relaxamento muscular e o retorno à amplitude normal de movimento articular.
Neste sentido, no presente protocolo utilizaremos o aquecimento na parte inicial
do
treinamento e o alongamento na parte final.
No Brasil, a atenção dada ao judô tem sido apresentada unicamente em função do
interesse do esporte de alto rendimento, em que serve para fabricar vencedores
nas competições,
tendo em vista os interesses capitalistas e não tendo nenhum significado
educacional maior 56
(ARAÚJO, 2005). Por este motivo, segundo Freitas (2005), os professores, em sua
maioria são
preocupados apenas com o aspecto competitivo dos praticantes, o que para as
crianças acaba
sendo apresentado como uma aula ―chata‖, ―monótona‖ e fadigante.
No entanto, nem todo aluno quer ser atleta. E na tarefa de formar alunos
críticos, criativos
e conscientizadores do mundo global, o ensino do esporte de forma educacional é
fundamental.
Neste contexto, a ludicidade vem facilitar a aprendizagem para fins educativos
(ARAÚJO, 2005).
Para este mesmo autor, o lúdico apresenta dois elementos importantes que o
caracterizam
e podem ajudar na atenção à criança no judô: o prazer e o esforço espontâneo
(ARAÚJO, 2005).
Além disso, sabe-se que a disciplina deve existir nas aulas de judô, mas não de
uma forma
tirana e castradora (GROSSO, 2005). Os ensinamentos deixados por Jigoro Kano
mantêm como
sua ―magia‖ o seu perfil filosófico e educacional, que faz com que o judô
mantenha em sua
prática um equilíbrio entre a ―tradição e a modernidade‖, podendo isto ser feito
de forma atrelada
ao ensino lúdico (ARAÚJO, 2005).
O lúdico tem sua origem na palavra latina "ludus" que, do ponto de vista
etimológico,
quer dizer ―jogar‖, ―brincar‖ (GRILO et al., 2002) e está diretamente ligado a
motivação em
participar em qualquer atividade (SPIGOLON, 2006).
Sabe-se que toda criança gosta de brincar e jogar. A criança deficiente não é
diferente
(CONDE; SOBRINHO; SENATORE, 2006). Diferentes autores consideram que o lúdico,
através
das brincadeiras e jogos, é um importante fator no desenvolvimento global da
criança,
contribuindo na constituição social, motora, afetiva e cognitiva da criança (HUEARA,
et. al.,
2006).
Na diferenciação entre um e outro, podemos dizer que o jogo é uma brincadeira
que
envolve certas regras e a brincadeira, um jogo sem regras (ALMEIDA; SHIGUNOV,
2000).
Os jogos de regras se desenvolvem na fase dos seis aos doze anos (LORENZINI,
2002) e
são atividades motivacionais fundamentais para a socialização do indivíduo
(OLIVEIRA FILHO,
et a., 2006). Porém, os jogos são muito mais do que um instrumento motivacional
no ensino
(DIAS, 2006). É na interação com os pares durante o jogar que a criança tem as
primeiras 57
experiências com outros valores, como a responsabilidade; além de aprender a
importância da
negociação, da conquista, de conviver com regras e a resolver conflitos (CORDAZZO,
et al.
2007).
Desta maneira, todo esporte que tem sua atenção voltada à criança, deve ser
integrado ao
lúdico com o intuito de obter motivação e esforço espontâneo para a realização
das tarefas. E, no
judô, existem atividades lúdicas diretamente relacionadas à aquisição de
habilidades específicas
que ajudarão na performance no esporte e que podem estar sendo atreladas a sua
prática e ensino
para crianças (ARAÚJO, 2005).
Por todos estes motivos, algumas atividades lúdicas específicas comumente
utilizadas no
ensino de judô para crianças, foram selecionadas e utilizadas no presente
protocolo de
treinamento.
O termo ―equilíbrio‖ é oriundo do latim ―aequilibriu‖ e, em seu sentido literal,
significa
―Estado de um corpo solicitado por duas ou mais forças que se anulam entre si‖(MOSQUERA,
2000). É a capacidade de neutralizar forças que poderiam perturbar o estado de
um corpo, o qual
requer coordenação e controle (BERNARDES, 2007).
Equilíbrio é o sentido básico para manter o domínio do corpo, dando sustentação
através
da gravidade, forças internas, fatores internos e externos (MOSQUERA, 2000).
Freqüentemente é
definido como equilíbrio estático ou dinâmico. O equilíbrio estático é
habilidade de o corpo
manter-se em certa posição estacionária, o equilíbrio dinâmico é a habilidade do
indivíduo
manter-se na mesma posição, quando em movimentos de um ponto a outro (GALLAHUE;
OZMUN, 2003).
O equilíbrio é essencial para a manutenção da postura ortostática e para
execução da
marcha (CAMPOS, 2003). As manifestações dos distúrbios do equilíbrio corporal
podem levar o
indivíduo à redução de sua autonomia social, uma vez que acabam por reduzir as
suas AVD‘s, 58
pela predisposição a quedas e lesões, trazendo sofrimento, imobilidade corporal,
medo de cair
novamente e altos custos com o tratamento de saúde (RUWER; ROSSI; SIMON, 2005).
Ele é base para todo movimento e é influenciado por estímulos visuais, táteis,
cinéticos e
vestibulares (GALLAHUE; OZMUN, 2003). Portanto, a manutenção do equilíbrio
depende da
integridade anatômica e funcional do aparelho vestibular, dos sistemas visual,
proprioceptivo,
musculoesquelético e centros nervosos (WIENER-VACHER, 2008). Essa atividade é um
processo complexo que envolve os esforços coordenados de mecanismos aferentes
(visual,
vestibular e somatossensorial ou proprioceptivo) e mecanismos eferentes (força
muscular e
flexibilidade articular) (FREITAS; CANÇADO; GORZONI, 2006).
Tratando mais especificamente da postura do corpo, seja aquela ideal em posição
bípede
ou aquela mantida em situações de desportos, entende-se que o controle postural
é algo bastante
complexo e que depende da interação de diversos sistemas orgânicos (BERNARDES,
2007).
Quando estudamos postura corporal automaticamente estamos estudando o sistema de
equilíbrio corporal postural, porque entendemos existir uma relação de
dependência entre ambos
(BANKOFF et al., 2002).
Para que o equilíbrio postural seja alcançado pelo sistema de controle postural,
são
necessárias a percepção (integração das informações sensoriais para analisar a
posição e o
movimento do corpo no espaço) e a ação (capacidade de produzir forças para
controlar os
sistemas de posicionamento do corpo). Dessa forma, o controle postural exige uma
interação
contínua entre o sistema musculoesquelético e o neural (SUMWAY-COOK; WOOLACOTT,
2003).
A postura corporal é uma resposta neuromecânica que se relaciona com a
manutenção do
equilíbrio, e um sistema está em equilíbrio mecânico quando o somatório das
forças que agem
sobre o sistema é igual zero ([F=0). Entretanto, este sistema tem estabilidade
somente se após 59
uma perturbação ele retorna a sua posição de equilíbrio, lembrando que quando se
fica numa
posição em pé ereta, o corpo oscila para frente e para trás. A atividade
muscular que evita que se
perca o equilíbrio e se caia, representa a atividade de controle automático da
postura (ENOKA,
2000).
A manutenção do equilíbrio postural é um complexo mecanismo de controle,
alimentados
por um fluxo de impulsos neurológicos provenientes dos sistemas proprioceptivo,
vestibular e
óculomotor (MARRELLO; TEODOROSKI, 2004), cujas informações são processadas pelo
sistema nervoso central e retornam pelas vias eferentes para manter o controle
do equilíbrio
corporal pela contração dos músculos antigravitacionários (BARAÚNA et al.,
2004).
O equilíbrio pode ser definido como o processo pelo qual o SNC gera os padrões
de
atividade muscular necessários para regular a relação entre centro de massa e
base de sustentação
(FREITAS; CANÇADO; GORZONI, 2006). Assim, a queda ou a perda do equilíbrio pode
ser
definida pelo movimento do centro da massa para fora dos limites da base de
apoio (LEONARDI
et. al., 2009).
A estabilidade do corpo está relacionada, mais especificamente, à projeção do
centro de
massa na base de sustentação. O Centro de gravidade (CG) é o ponto por onde
passa o suporte do
vetor resultante do somatório das forças peso do corpo. É um ponto virtual, e é
equivalente ao
centro de massa (CM) de um corpo, local onde a massa deste corpo se supõe
concentrada. A base
de sustentação delimita a área que suporta o restante do corpo em qualquer
posição.
(BERNARDES, 2007).
O equilíbrio postural refere-se ao alinhamento dos segmentos articulares
necessitados para
manter o centro de gravidade dentro dos limites máximos da estabilidade (MARRELLO;
TEODOROSKI, 2004). O equilíbrio consiste, assim, na manutenção do centro de
gravidade
dentro da área da superfície de apoio (LEONARDI et. al., 2009).
Existem vários fatores que influenciam a estabilidade dos corpos, entre estes
podemos
destacar os seguintes: projeção do centro de gravidade, distância do centro de
massa até ao solo,
inércia, tamanho da base de sustentação, força de atrito, e além destes também
existem fatores
neuromusculares e fisiológicos que devem ser levados em consideração (BERNARDES,
2007).60
Um dos princípios biomecânicos que influenciam a estabilidade do corpo é a base
de
apoio, que na postura ereta é representada pela área compreendidas entre os
calcanhares e os pés
(RAMOS, 2003). Os limites de estabilidade do corpo delimitam uma área sobre a
qual os
movimentos do CM devem ser realizados para assegurar a condição de equilíbrio. (SHUMWAYCOOK;
WOOLLACOTT, 2003).
Existem dois principais fatores correlacionados à BA que influenciam a
estabilidade do
corpo: tamanho da área e a distância relativa entre CM e BA.
Quanto maior for esta área, maiores são os limites de estabilidade do sujeito e
maior é a
área disponível para o sujeito controlar seu centro de massa para manter a
estabilidade. Dessa
maneira, é de se esperar que qualquer redução nesta área afetará o equilíbrio
(RAMOS, 2003).
Assim, o tamanho da base de sustentação interfere na estabilidade do corpo.
Quanto maior
for o seu polígono de sustentação, maior será a capacidade do indivíduo em
resistir à ação de
forças desestabilizadoras. Uma área aumentada dificulta a saída da projeção do
centro de massa
para fora dos limites da base. Isto quando a projeção do centro de gravidade do
indivíduo se faz
no centro da sua base de suporte (BERNARDES, 2007).
O artifício de se ampliar a base de sustentação para garantir maior estabilidade
é freqüente
no desporto. Nas ações defensivas das lutas, em geral, o lutador aumenta a sua
base para
dificultar a sua queda pelo oponente. Já em posições de ataque, o mesmo pode
acontecer
justamente para que o lutador em vantagem mantenha a sua estabilidade numa
determinada
posição (FRANCHINI, 2001).
A estabilidade do objeto é mais garantida se a projeção do centro de gravidade
se faz no
centro geométrico da sua base de sustentação. Isto quer dizer que, quando a
projeção do centro de
massa do indivíduo se afasta do centro geométrico de seu polígono de suporte, o
corpo em
questão fica mais vulnerável à instabilidade (BERNARDES, 2007).
A altura da localização do centro de massa em relação aos limites da sua base de
sustentação interfere também na estabilidade de um corpo. Quanto mais baixa é a
sua posição,
mais estável estará o corpo (BERNARDES, 2007).61
A postura quadrúpede é estável porque a BA, limitada ao redor dos quatro apoios,
é
grande e o CM do animal localiza-se próximo ao solo em relação às dimensões da
BA. Na
postura bípede, entretanto, além da altura do CG em relação a BA ser grande,
suas dimensões são
pequenas restringindo a área de deslocamento do CM (RAMOS, 2003).
Para manter o CM dentro dos limites da base de apoio, sabendo que o corpo está
constantemente sujeito a forças, o sistema de controle postural procura alcançar
um estado de
equilíbrio entre as forças externas (gravitacionais, inerciais, de atrito e de
reação) que são
produzidas pelo ambiente e as forças internas, produzidas pelas contrações
musculares (torques
articulares). Como resultado deste processo, o corpo exerce força sobre a
superfície de apoio para
mover ou manter o CM em uma região de estabilidade, a resultante vertical desta
força é
chamada centro de pressão (CP). O CP representa todo o resultado das ações do
sistema de
controle postural e da força da gravidade na manutenção do equilíbrio postural.
A medida do CP
durante a postura ereta tem sido por décadas a principal ferramenta biomecânica
para o
entendimento do equilíbrio postural (RAMOS, 2003).
Pode-se verificar que a postura e o equilíbrio envolvem tanto a capacidade de se
recuperar
da instabilidade como a habilidade de antecipar e mover-se de forma que o ajude
a evitar a
instabilidade. A conservação da estabilidade é um processo dinâmico, que envolve
o
estabelecimento de equilíbrio entre as forças de estabilização e
desestabilização (LEONARDI et.
al., 2009).
Um problema que o sistema de controle postural tem que resolver, durante a
manutenção
de uma posição corporal, é que as forças atuando nos segmentos corporais não são
constantes.
Uma consequência da variação destas forças é que, mesmo em uma posição estática,
como por
exemplo a manutenção da posição ereta, o corpo nunca está totalmente imóvel (BARELA,
2000).
A posição do centro de massa oscila de um lado para o outro e para frente e para
trás.
Estas oscilações são decorrentes da dificuldade em manter os muitos segmentos
corporais
alinhados entre si sobre uma base de suporte restrita, utilizando um sistema
muscular esquelético
que produz forças que variam ao longo do tempo (BARELA, 2000).62
Segundo Shumway-Cook e Woollacott (2003), muitos estudos têm mostrado que a
eficácia do sistema de controle postural estaria diretamente associada à
amplitude de
deslocamento do CP: grandes amplitudes de movimento indicariam uma baixa
qualidade do
controle do equilíbrio, sendo que um ―bom‖ controle seria representado por
pequenas amplitudes
de deslocamento do CP (RAMOS, 2003).
Estudos descrevem que, mesmo em uma posição estática, a manutenção da posição
ereta,
o corpo nunca está totalmente imóvel, o corpo humano como sendo um pêndulo
invertido
suspenso sobre uma base e que oscila constantemente tendo um equilíbrio
quase-estático instável
devido ao controle do equilíbrio e da postura (BANDY; SANDERS, 2003).
Também relatam, que a chamada ―postura estática‖ tem mostrado ser impossível,
pois
sempre existe uma oscilação, que traduz uma situação dinâmica com indispensáveis
e contínuos
ajustes da posição destinados a manter o equilíbrio (BANKOFF et al., 2004).
A maioria dos autores, especificamente os estudiosos das áreas de neuro-anatomia,
neurofisiologia e neuro-biomecânica referem-se muito claramente em seus estudos
sobre
equilíbrio e manutenção do equilíbrio corporal postural, à importância dos
sistemas
proprioceptivos e o meio ambiente para a manutenção do equilíbrio corporal
postural
(BANKOFF; BEKEDORF, 2007).
O termo propriocepção é utilizado para nomear a capacidade em reconhecer a
localização
espacial do corpo, sua posição e orientação, a força exercida pelos músculos e a
posição de cada
parte do corpo em relação às demais, sem a necessidade de utilizar a visão (BEAR;
CONNORS;
PARADISO, 2002).
A propriocepção descreve a consciência da postura, do movimento, e das mudanças
no
equilíbrio, assim como o conhecimento da posição, do peso e da resistência dos
objetos em
relação ao corpo (ANDREWS; HARRELSON; WILK, 2000).63
Segundo Bear, Connors e Paradiso (2002), cada informação neural originada de
articulações, músculos, tendões e tecidos profundos contribuem para a
propriocepção, a qual
informa como o corpo posiciona-se e se move no espaço, mas essa função só é
exercida devido
ao envolvimento de uma importante classe de receptores, fornecedores das
informações acerca de
forças mecânicas originárias do próprio corpo. Estes receptores são denominados
proprioceptores.
Segundo Purves et al. (2005), proprioceptores significam ―receptores para si
próprios‖. O
principal objetivo dos proprioceptores é o fornecimento contínuo e detalhado
acerca da posição
dos membros e de outras partes do corpo no espaço.
Os proprioceptores transmitem a sensibilidade cinética, postural, barestesia,
dor profunda
e vibratória. Fornecem informações ao sistema nervoso central e medula sobre a
posição e os
movimentos das articulações, estado de tensão de músculos e tendões, possuindo
papel ligado ao
controle da postura e locomoção (DUTTON, 2006).
Segundo Dutton (2006), a propriocepção é considerada uma variação especializada
da
modalidade sensorial da percepção, que inclui sensação da posição estática das
articulações
(sensibilidade da posição articular), sensações de movimento das articulações
(sensibilidade
cinestésica ou cinestesia), de velocidade dos movimentos e de força da contração
muscular.
Ao descrever a sensibilidade articular, os termos propriocepção e cinestesia,
são, com
frequência, erroneamente usados como sinônimos. A propriocepção descreve a
consciência da
postura, do movimento, e das mudanças no equilíbrio. Entretanto, cinestesia
refere-se à
capacidade de controlar e realizar movimentos, sendo um importante componente da
propriocepção (ANDREWS; HARRELSON; WILK, 2000).
Segundo Cohen e Abdalla (2005), a propriocepção é responsável por dois aspectos
de
sensação da posição o corpo, uma estática e outra dinâmica. A sensação estática
proporciona
orientação consciente de uma parte do corpo em relação à outra, enquanto a
sensação dinâmica
informa o sistema neuromuscular a quantidade e direção do movimento. Portanto, a
propriocepção é um processo neuromuscular complexo que envolve sensações
aferentes e 64
eferentes, permitindo ao corpo manter estabilidade e orientação durante as
atividades estáticas e
dinâmicas.
Os fatores neuromusculares, fisiológicos e psicológicos fazem parte ou afetam o
sistema
sensorial, sistema que é responsável pelo controle postural e fornece
informações acerca das
posições relativas dos segmentos do corpo, bem como da magnitude das forças
aplicadas sobre o
mesmo. Estes sistemas atuam de forma complexa, integrada e diferenciada, para
cada perturbação
sobre o corpo humano (DUARTE, 2001).
O sistema somatosensorial é uma das principais fontes de informação para o
controle
postural, incluindo a proprioceptividade e a exterioceptividade. Destes sistemas
fazem parte os
fusos neuromusculares (com grande sensibilidade do estiramento passivo do
músculo) e os
receptores cutâneos (bastante heterogéneos, diferenciando-se em mecanoreceptores
que são
sensíveis à dor e em receptores articulares, que se localizam na cápsula
articular e que são
sensíveis à pressão e tensão capsular) (GUYTON; HALL, 2002).
As informações somatossensoriais provém de receptores de toque e de posição
localizados na pele (mecanoreceptores), nos músculos (fusos musculares e órgãos
tendinosos de
Golgi), tendões, ligamentos, articulações e órgãos internos. Estes receptores
são sensíveis a
deformações mecânicas na superfície do corpo, estimulando a sensação de toque, e
a distorções
físicas como alongamento e flexão, fornecendo a posição do corpo no espaço, a
direção e a
intensidade do movimento (RAMOS, 2003).
Para Guyton e Hall (2002), os receptores profundos localizam-se em músculos e
tendões e
articulações. Incluem os receptores musculares e articulares. Estão relacionados
primariamente
com a postura, senso de posição, propriocepção, tônus muscular, velocidade e
direção de
movimento. Os mesmos referem que os receptores sensoriais profundos abrangem
fusos
musculares, órgãos tendinosos de Golgi, terminações nervosas livres, corpúsculos
de Pacini e
receptores articulares.
O sistema somatossensorial fornece ao Sistema Nervoso Central (SNC) informações
sobre
a posição e movimento do corpo, em referência às superfícies de apoio e, além
disso, fornece 65
dados sobre a inter-relação de diferentes segmentos do corpo (SHUMWAY-COOK;
WOOLLACOTT, 2003).
Segundo Cohen e Abdalla (2005), a informação sobre o grau de alteração mecânica
das
estruturas articulares é projetada a centros de processamento no cérebro pela
inervação aferente
da articulação. O estado de tecidos articulares é enviado em código de impulso
neural a muitos
níveis do Sistema Nervoso Central, de forma que possam ser avaliadas informações
relativas às
condições estáticas e dinâmicas, equilíbrio e desequilíbrio, relação biomecânica
de esforço e
atenuação.
As informações são transmitidas pelas vias aferentes, enquanto o SNC obtém as
respostas
motoras eferentes (controle neuromuscular), essencial na mediação da
propriocepção (DUTTON,
2006).
As sensações são mediadas pelo sistema espinotalâmico ântero-lateral, ou pelo
sistema da
coluna dorsal-lemnisco medial(fig.8). Assim sendo, O'Sullivan e Schmitz (2004)
relata que a
informação sensorial somática entra na medula espinal através das raízes
dorsais. Os sinais
sensoriais são então levados para os centros superiores através das vias
ascendentes o Sistema
Espinotalâmico Antero-lateral e o Sistema da Coluna Dorsal Lemnisco Medial.
A mais importante via consciente parece ser a que envia ao cerebelo, região
talâmica e
cortical, o impulso proveniente de estímulos proprioceptivos vestibulares e de
sensibilidade
profunda (BAKOFF; BEKEDORF, 2007).
O cerebelo é a parte do encéfalo responsável pela manutenção do equilíbrio e
postura
corporal, controle do tônus muscular e dos movimentos voluntários, bem como pela
aprendizagem motora (RIBEIRO, 2009).
A ação muscular esquelética é importante para a manutenção do equilíbrio porque
fornece
o trofismo necessário, executando uma função contrátil tônica antigravitacional
(GUYTON;
HALL, 2002). A regulação do tônus muscular através do corpo para a manutenção da
postura e
realização de movimentos é função do sistema proprioceptivo (FIGUEIRA, 2000).66
De acordo com Laughton et al., (2003), a fraqueza dos grupos musculares
envolvidos no
controle postural prejudica a habilidade do indivíduo de corrigir as oscilações
do centro de massa
para prevenir quedas. Assim, estes indivíduos acabam mantendo a ativação destes
músculos
como tentativa de fornecer mais estabilidade ao corpo.
A organização do movimento está a cargo das áreas corticais de associação,
gânglios da
base e cerebelo e a execução do movimento depende do córtex motor, das vias
descendentes e do
arquicerebelo (RIBEIRO, 2009).
A manutenção do equilíbrio e da postura se faz basicamente pelo arquicerebelo e
pela
zona medial (vérmis), promovendo a contração dos músculos axiais e proximais dos
membros
mantendo o equilíbrio e a postura normal. Esta influência é transmitida aos
neurônios motores
pelos tractos vestíbulo-espinhal e retículo-espinhal (MACHADO, 2003).
Portanto, mesmo um comportamento cotidiano como a manutenção da posição ereta,
ao
contrário do que parece, é uma tarefa complexa que envolve um intricado
relacionamento entre
informação sensorial e atividade motora (BARELA, 2000).
O sistema visual fornece informações sobre a localização e a distância de
objetos no
ambiente, o tipo de superfície onde se dará o movimento e a posição das partes
corporais uma em
relação à outra, e ao ambiente (RIBEIRO, 2009).
O sistema visual também fornece informações sobre a direção vertical, a posição
e o
movimento da cabeça em relação aos objetos circunjacentes e orienta a cabeça a
manter uma
posição correta além de informar acerca do movimento dos objetos circundantes,
oferecendo
assim, orientação da velocidade do movimento (LENT, 2001).
Segundo Lord e Menz (2000) a visão desempenha um papel importante na
estabilização
da postura, por fornecer continuamente ao sistema nervoso informação atualizada
a respeito da
posição e dos segmentos do corpo em relação a eles mesmos e ao ambiente.67
A visão contribui para um aperfeiçoamento do controle postural, assegurado
inicialmente
pelos sistemas somatoriosensorial e vestibular (RIBEIRO, 2009).
O sistema visual é importante para manutenção do equilíbrio corporal postural.
(BANKOFF et al., 2004). Segundo Silva, Ribeiro e Rabelo (2008), o equilíbrio é
um mecanismo
de grande importância, pois uma criança com a visão normal consegue desenvolver
seus
mecanismos sensoriais, já a criança com deficiência visual é afetada
mecanicamente devido à
falta de estímulos.
Segundo Santos (2001), ocorrem frequentemente em crianças com deficiência visual
defasagens como: esquema/imagem corporal, reações de equilíbrio estático e
dinâmico, postura,
mobilidade, marcha, expressão corporal, expressão facial, coordenação/habilidade
motora, tônus
muscular, condicionamento físico, organização têmporo-espacial, lateralidade,
sensibilidades,
reações de endireitamento, adaptação ao meio, a relação consigo e com o outro,
apresentando
ainda atrasos no desenvolvimento social, afetivo, cognitivo e psicomotor.
Um dos aspectos referentes às alterações motoras em crianças com deficiência
visual que
podem, portanto, estar relacionados a alterações do equilíbrio é a presença de
hipotonia muscular
generalizada nestas crianças (LEVTZION-KORACH et al., 2000).
Para Prechtl et al. (2001), a alteração se deve principalmente à calibração que
o sistema
visual deixa de exercer sobre o sistema proprioceptivo e vestibular.
Para Guyton e Hall (2002), o equilíbrio estático depende, basicamente, do bom
funcionamento do sistema vestibular. Contudo vários estudos verificaram
diferença importante
nos índices de estabilidade obtidos pela criança cega e pela vidente e, além
disso, verifica-se em
geral também que a criança vidente ao realizar as provas de equilíbrio apresenta
desempenho
inferior quando realizam com olhos fechados (RIBEIRO, 2009). Portanto, a
literatura em geral
apóia a hipótese que sustenta que a visão é fundamental para a calibração dos
outros sentidos
(PASCUAL-LEONE et al., 2005).
A deficiência visual afeta mecanicamente a marcha, devido à perda de dados
sensoriais
necessários para distribuir temporalmente os passos, empobrecendo o equilíbrio e
provocando
uma deficiência nos reflexos de proteção (MOSQUERA, 2000). Vários relatos na
literatura 68
apontam para um risco aumentado de quedas de indivíduos cegos nas diversas
condições
ambientais (LEGOOD; SCUFFHAM; CRYER, 2002).
Os deficientes visuais sem a informação visual podem tornar-se mais instáveis,
apresentando maior dificuldade em manter-se na postura em pé e a ausência da
experiência visual
diminui as repostas de regulação automática da postura (NAKATA; YABE, 2001).
Visto que o sistema visual oferece referências pobres ou nulas aos deficientes
visuais
congênitos, o desenvolvimento do equilíbrio nesses indivíduos passa a depender
dos outros 2
sistemas (somato-sensorial e vestibular) (FIGUEIREDO; IWABE, 2007).
O desenvolvimento do equilíbrio através da atividade física se faz necessário
para o
deficiente visual desde a infância, devido suas limitações físicas, motora,
psicológicas, afetivas,
postural e dificuldades na lateralidade, consciência corporal e no equilíbrio.
Por isso se faz
necessário a estimulação desde a infância até a idade adulta, para uma maior
auto-independência
do deficiente visual (SILVA; RIBEIRO; RABELO, 2008).
Tribastone (2001) relata a importância da superação de limites em treinamento,
fechando
os olhos normalmente ou os vendando. Isso porque o ser humano se julga normal,
ou seja,
quando ele possui um sistema de visão normal, ele confia quase que 100% no seu
sistema de
equilíbrio e manutenção de equilíbrio corporal postural, sobre os olhos ou sobre
o sistema de
visão, utilizando muito pouco do sistema vestíbulo coclear. Para isso, ele
sugere a realização de
qualquer tarefa com os olhos vendados para superação dos limites.
O sistema vestibular tem um papel importante na manutenção do equilíbrio, com
interação com o sistema nervoso central, através das fibras nervosas aferentes
que provém das
cristas ampulares ou das máculas otolíticas, que atingem a cavidade craniana
pelo meato acústico
interno, onde se encontram os corpos celulares bipolares formando o gânglio de
Scarpa (ou 69
gânglio Vestibular), são essas fibras que vão formar a porção vestibular do
oitavo par de nervos
craniano (BAKOFF; BEKEDORF, 2007).
O sistema vestibular é constituído por uma estrutura óssea dentro da qual se
encontra um
sistema de tubos membranosos cheios de líquido, cujo movimento – provocado por
movimentos
da cabeça – estimula células ciliadas que enviam impulsos nervosos ao cérebro ou
diretamente a
centros que controlam o movimento dos olhos ou os músculos que mantêm o corpo
numa posição
de equilíbrio. Para além do líquido, na sácula e no utrículo encontram-se
otólitos (sensíveis à
posição da cabeça e à aceleração linear) corpos rígidos cujo movimento estimula
igualmente os
nervos que controlam a postura do animal (BERNE; LEVY; ESBÉRARD, 2000).
O sistema vestibular é formado pelos três canais semicirculares (sensíveis à
rotação da
cabeça) que se juntam numa região central chamado o vestíbulo. Este recebe e
integra os sinais
de informações proprioceptivas e visuais transmitindo-as para o controle motor
que se utiliza dos
músculos oculares e da medula espinhal (RIBEIRO, 2009).
O sistema vestibular, que se localiza no ouvido interno, possibilita a percepção
do
movimento, especialmente em relação à posição da cabeça. Por sua vez, o sistema
visual recolhe
a informação sobre a localização do corpo em relação ao meio envolvente,
enquanto que o
sistema somatosensorial recebe o feedback sobre a posição do corpo (CARTER;
KANNUS;
KHAN, 2001). Estes sistemas enviam informações para o sistema nervoso central,
que
possibilitam ajustes posturais, ao integrarem esta informação e ao gerarem,
através da ação
muscular, toques articulares, controlando amplitudes articulares (SHUMWAY-COOK;
WOOLLACOTT, 2003).
O controle motor dá uma resposta através de dois reflexos que são responsáveis
para
manter o controle postural: o reflexo vestíbulo-ocular é responsável pelo
controle da estabilidade
ocular e a orientação da cabeça à medida que se movimenta; e o reflexo
vestíbulo-espinhal
influencia os músculos esqueléticos do pescoço, tronco e membros e gera um
movimento
compensatório do corpo mantendo o controlo cefálico e postural (RIBEIRO, 2009).
Os reflexos de endireitamento utilizados para a manutenção de postura também
influenciam na manutenção do equilíbrio (RIBEIRO, 2009). Estes reflexos de
endireitamento e 70
labirínticos, os que atuam sobre a cabeça, pescoço, corpo, e os ópticos estão
situados na parte
ventral do mesencéfalo, situado em frente ao terceiro par de nervos cranianos.
Sabemos o quanto
esses reflexos contribuem para proporcionar uma postura corporal ereta e de
equilíbrio, e
também, sabemos o quanto eles são importantes (DI GRAZIA; BANKOFF; ZAMAI 2005).
A informação proprioceptiva mais importante, necessária à manutenção do
equilíbrio, é a
proveniente dos receptores articulares do pescoço, pois quando a cabeça é
inclinada em
determinada direção, pela torção do pescoço, fazem com que o sistema vestibular
dê ao indivíduo
uma sensação de desequilíbrio. Isto se deve ao fato de eles transmitirem sinais
exatamente
opostos aos sinais transmitidos pelo sistema vestibular. No entanto, quando todo
o corpo se
desvia em uma determinada direção, os impulsos provenientes do sistema
vestibular não são
opostos aos que se originam nos proprioceptores do pescoço, permitindo que nessa
situação a
pessoa tenha uma percepção de uma alteração de equilíbrio de todo o corpo (GUYTON;
HALL,
2002).
As sensações proprioceptivas, originadas dos órgãos locomotores, não são
suficientes para
permitir reconhecer a posição e a orientação do corpo no espaço, se está na
vertical ou na
horizontal. Essa noção só será permitida pela percepção da cabeça no espaço,
graças às sensações
labirínticas reforçadas pela visão. Sensações táteis contribuem para tal fato
(RODRIGUES,
2007).
Em virtude da pouca movimentação de cabeça é que a criança com perda visual
apresenta
baixa reação vestibular, mostrando-se tensa e insegura nos movimentos do corpo.
Isso prejudica a
formação de reações de equilíbrio e os primeiros deslocamentos no espaço
(RIBEIRO;
NORONHA FILHO; SILVEIRA, 2005).
O balanceio do corpo ativa o ouvido interno. As crianças cegas necessitam de
maior
ativação do órgão do equilíbrio que as crianças com visão normal em decorrência
da sua baixa
atividade motora. Como a criança cega tem dificuldade de controlar a sua
postura, gerada pela
ausência de informações visuais, ela depende muito do órgão de equilíbrio para
adquirir a
capacidade de marcha (RODRIGUES, 2007).
As sensações exteroceptivas são importantes na manutenção do equilíbrio, por
exemplo,
as sensações de pressão das plantas dos pés podem expressar: se o seu peso está
distribuído de
maneira igual entre os dois pés e se seu peso está mais para frente ou para trás
em seus pés.
Existe uma relação reflexa de sensibilidade, com a velocidade do olho durante os
movimentos de
condução das passadas na locomoção humana, estão diretamente ligadas também com
a
manutenção da postura corporal, onde informações provenientes de captores
sensitivos externos,
como os situados no pé são importantes para a manutenção do sistema
tônico-postural
(BAKOFF; BEKEDORF, 2007).
Os captores que intervêm prioritariamente no ajustamento postural estático e
dinâmico
são, principalmente, o pé e o olho. Captores principais do sistema postural,
eles associam
exterocepção e propriocepção. São ao mesmo tempo receptores sensitivos internos
e externos
(BRICOT, 2001).
As informações vindas de diferentes captores sensitivos serão integrados no
computador
central que é composto por núcleos vestibulares, gânglios da base, cerebelo,
sistema reticulado e
colículo (BRICOT, 2001).
A partir do momento em que um ou vários receptores localizados nos músculos,
pele e
articulações estiverem desregulados, aparecerá em desequilíbrio tônico postural
e com ele seu
cortejo de forças contrárias anormais (BRICOT, 2001).
De acordo com Umphred (2004), freqüentemente, os profissionais consideram o
estímulo
sensorial como sendo uma simples graduação contínua. A situação real não é tão
elementar. Ela
deve ser considerada como no mínimo um fenômeno tridimensional e possivelmente
quadridimensional, que ocorre com extrema rapidez no SNC. Os sistemas sensoriais
múltiplos
são ativados, simultaneamente, pela maioria dos estímulos terapêuticos. A
modificação do
estímulo é determinada pelo terapeuta e graduada de acordo com a resposta.
Do ponto de vista clínico, a separação entre os processos de equilíbrio
sensoriais e
motores significa que um indivíduo pode apresentar um equilíbrio deficiente por
duas razões: a 72
posição do centro de gravidade em relação a base do suporte não está sendo
percebida com
precisão; os movimentos automáticos necessários para levar o centro de gravidade
não está sendo
sincronizados ou coordenados de maneira eficiente (GANANÇA; PERRACINI; GANANÇA,
2002).
Nem sempre uma grande estabilidade é desejada, principalmente quando se trata
dos
desportos, uma vez que em muitas situações, os atletas tendem a ficar menos
estáveis, afim de
vencer mais facilmente a inércia e efetuar um ataque, como é o caso do Judô
(BERNARDES,
2007).
O objetivo principal no combate de judô é desequilibrar o oponente, fazendo-o
cair
(GUERREIRO, 2003). Desta forma, tanto no treino quanto na competição de judô,
judocas estão
constantemente sujeitos aos movimentos imprevisíveis de seu adversário, que
tenta desestabilizá-
lo (PERRIN, et al., 2002).
Todas as técnicas do Judô são edificadas sobre um princípio fundamental - o
Kuzushi
(desequilíbrio) - consistindo no rompimento da sua posição de equilíbrio
estático / estável,
através da utilização de um esforço mínimo para efetuar a projeção de um
adversário ao solo,
(GUERREIRO, 2003).
Conseguir desequilibrar o adversário é regra fundamental na primeira fase das
técnicas de
projecção (NOWOISKY, 2005). O desequilíbrio serve para fazer com que seja
deslocado o
centro de massa do adversário, para fora da sua base se sustentação, para desta
forma ficar mais
fácil de ser vencida a sua inércia (BERNARDES, 2007).
Se o seu centro de massa está fora da base de sustentação, este indivíduo
encontra-se em
desequilíbrio. Esta verdade universal também é de aplicação no judô (GUERREIRO,
2003).
No Judô, o SNC age controlando a posição do centro de gravidade do corpo, em
relação
aos seus pés e organiza padrões posturais nesta tarefa de equilíbrio (PERRIN et
al., 2002).73
O treinamento do judô realça a faculdade de usar informações proprioceptivas e
somestésicas, utilizando a estimulação de mecanorreceptores musculares,
articulares e cutâneos,
o que melhora a capacidade postural dos desportistas (PERRIN et al., 2002).
De fato, a melhora do controle postural concomitante ao treino de Judô parece
ser a
conseqüência de um melhor domínio das estratégias de controle do equilíbrio,
especialmente,
aqueles baseados em entradas somatossensitivas. Assim, indivíduos cegos também
podem
alcançar um alto nível no judô (PERRIN et al., 2002).
ϟ
excerto de:
O EFEITO DA MOTRICIDADE DO JUDÔ NO EQUILÍBRIO DE CRIANÇAS COM DEFICIÊNCIA VISUAL
ANA CAROLINA PEREIRA NUNES PINTO
& JOSIANE DE OLIVEIRA LIMA E LIMA
Trabalho de Conclusão de Curso
apresentado ao curso de Fisioterapia do
Centro de Ciências Biológicas e da
Saúde da Universidade da Amazônia
para obtenção do grau em Fisioterapia.
Orientador: Prof. Said Kalume Kalif.
Δ
25.Mai.2015
publicado
por
MJA
|