Secretariado Nacional para a Reabilitação e
Integração das Pessoas com Deficiência

Um raio de sol no quarto da mulher cega -
Anna Ancher, 1885
-
Tem sido preocupação
do Secretariado Nacional para a Reabilitação e Integração das Pessoas com
Deficiência proceder à divulgação de orientações que facilitem o relacionamento de
todos os cidadãos com as pessoas portadoras de deficiências.
Com esta finalidade,
surge assim, a
reedição deste
opúsculo,
apresentando
sugestões concretas
para melhor lidar
com as pessoas
cegas, numa
tentativa de
minimizar situações
que se inserem no
quotidiano de todos
nós.
I
– COMO LIDAR COM UM
CEGO NO DIA-A-DIA
Frequentemente, as
pessoas sem
deficiência
interrogam-se sobre
a maneira mais
correcta de lidar
com cegos. A
primeira ideia a
reter é que os cegos
são pessoas
vulgares. As suas
virtudes, aptidões e
defeitos são
coincidentes com as
das outras pessoas.
É incorrecto pensar
à partida que o cego
é um super dotado ou
pelo contrário um
atrasado mental.
Na verdade, a
maioria dos cegos
são pessoas de
aptidões médias, o
que significa que se
enquadram no padrão
normal do cidadão
comum. Assim sendo,
quando estiver a
lidar com uma pessoa
cega trate-a como
trataria qualquer
cidadão comum.
Fale-lhe
directamente e não
por interposta
pessoa; empregue um
tom de voz natural e
não pense que ele
tem algum grau de
surdez. No seu
contacto com cegos
não substitua as
palavras «veja»,
«olhe» por
expressões como
«oiça», «apalpe»,
«verifique».Também não se coíba
de utilizar as
palavras cego e
cegueira.A
maioria dos cegos
frequentaram escolas
e têm, em termos de
educação e cultura,
o mínimo
indispensável para
aceitar, sem se
deixarem
traumatizar, o uso
das expressões
anteriormente
indicadas.É
conveniente dar-se a
conhecer quando se
dirige a uma pessoa
cega ou quando entra
em qualquer
compartimento onde
se encontra um cego.
Se não souber o seu
nome ou por qualquer
circunstância não se
recordar no momento,
toque no seu braço,
levemente, para que
assim saiba qua a
conversa é com ele.
Depois de ter
conversado com um
cego é preciso
informá-lo de que se
vai retirar.
Torna-se
extremamente
desagradável para um
cego continuar a
falar para uma
pessoa que já não se
encontra perto dele.
II
– EXPRESSÕES A
EVITAR
Evite expressões de
piedade porque os
cegos, como as
outras pessoas,
geralmente
ressentem-se disso;
também é de evitar
quaisquer
considerações
sentimentais acerca
da cegueira ou
referências a ela
como um tormento;
não só irrita
aqueles que já se
adaptaram à sua
deficiência como,
por outro lado,
deprime e aflige
aqueles que estão a
caminho dela.Evite também
expressões de
espanto quando algum
cego executar uma
das muitas tarefas
usuais da vida; é
preciso lembrar-se
de que, o que é
muitas vezes
atribuído ao chamado
sexto sentido, não é
mais de que uma
simples utilização
de bom senso.
III
– FORA DE CASA
Quando conduzir uma
pessoa cega não
procure com os seus
movimentos erguê-la.
Muitos cegos
preferem agarrar o
braço do guia, mas
isso nem sempre
acontece. Por este
motivo convém
perguntar à pessoa
cega qual a sua
preferência.Quando está a subir
para um autocarro ou
uma escada, coloque
a mão do cego no
corrimão, se ele
estiver à sua
procura. A ajuda
desejada varia de
acordo com as
pessoas. Ajude só na
medida em que for
necessário.Quando chega junto a
degraus, o cego
geralmente gosta de
ser informado se
eles se encaminham
em sentido
ascendente ou
descendente. Nestes
momentos nunca se
deve dizer ao cego
quantos degraus vai
subir ou descer
porque um erro de
cálculo pode
ocasionar acidentes
graves; seja muito
escrupuloso quando
estiver a indicar o
caminho a um cego.
Tenha muito cuidado
em não se enganar
indicando que o
caminho é para a
esquerda, quando
efectivamente é para
a direita, ou
vice-versa. Um erro
desta natureza, que
facilmente ocorre,
poderá causar
grandes percalços
ou, em certas
circunstâncias, até
acidentes.Deve-se sempre tomar
cautela ao fechar a
porta de um veículo,
quando nele se
transporta um cego.
Quando se abrir a
porta de um veículo,
dever-se-á ser
cuidadoso em
verificar se não vem
a passar junto ao
mesmo uma pessoa
cega, que poderá
esbarrar nela.
Quando estiver a
conduzir uma
bicicleta, moto ou
qualquer outro
veículo, tome
precauções
redobradas quando
vir alguém munido de
uma bengala.O
cego precisa, regra
geral, de ajuda para
atravessar uma
estrada ou uma rua.
Quando o atravessar
tente seguir a
direito sempre que
possível. Quando vir
algum cego parado
junto à borda de um
passeio na atitude
de atravessar a rua
não lhe faça
perguntas inúteis
como por exemplo
«quer atravessar
para o outro lado?»
Pergunte antes:
«precisa de ajuda?».
Também não se deve
gritar de longe para
um cego com a
intenção de
alertá-lo para
qualquer obstáculo.
Só é admissível tal
hipótese quando o
objecto que
eventualmente possa
impedir o caminho do
cego não seja
detectável pela
bengala; por
exemplo, um toldo
colocado a baixa
altura.
IV –
O CONVIDADO CEGO
Quando convidar um cego
para tomar uma refeição
em sua casa, na altura
da mesma deve deixá-lo
cortar os alimentos, a
menos que ele dê sinais
de precisar de ajuda.
Quando lhe servir, por
exemplo, vinho, chá ou
café não convém encher
completamente os copos
ou chávenas porque é
difícil para o cego
conseguir equilibrá-los.
Com um convidado cego,
adequadamente ajustado à
sua cegueira, não é de
ficar preocupado por
causa dos móveis e
decorações de casa.
Basta indicar-lhe o
caminho a seguir dentro
da mesma, e a posição
relativa dos diferentes
objectos. A percepção
dos cegos é extremamente
rápida, o que lhes
permite, depois de
conhecerem o local,
deslocarem-se com toda a
facilidade. Não empurre
o cego para a cadeira ou
sofá; basta pôr a mão
dele nas costas ou no
braço dos referidos
móveis.Quando oferecer um
cigarro a um cego
coloque também um
cinzeiro junto a ele,
indicando o seu local.
É
sempre necessário, em
locais frequentados por
cegos, evitar deixar
portas entreabertas, bem
como, ao modificar a
disposição dos móveis, o
cego deverá ser avisado
de tais alterações
atempadamente.
V
– O CEGO E A FAMÍLIA
É
no domicílio que o cego
se sente mais
independente. Aí ele
desloca-se à vontade,
sabendo correctamente
onde está e encontrando
os objectos que pretende
com a maior facilidade.
Não se deve modificar o
posicionamento dos
objectos sem prévio
conhecimento do cego,
nem deixar,
inadvertidamente,
qualquer objecto que
possa impedir a livre
circulação do cego, o
que poderá originar
acidentes.Os
familiares de um cego
deverão deixá-lo actuar
livremente em casa, só
lhe prestando ajuda
quando solicitada. Não
se deve nunca dizer a
uma pessoa com
deficiência que ela é
incapaz de fazer
qualquer coisa. Este tem
a consciência perfeita
do que é capaz e pedirá
ajuda quando entender
ser caso disso.Deve-se evitar a
superprotecção bem como
poupar trabalho aos
cegos, pois tal gerará
sentimentos de
dependência bem como um
egoísmo excessivo.
Dever-se-á tomar cautela
na cozinha em não deixar
objectos cortantes bem
como utensílios muito
aquecidos sobre o fogão,
a bancada, a mesa, etc.,
porque tal poderá causar
graves acidentes à
pessoa cega. Também não
convém deixar utensílios
gordurosos em locais
onde o cego se possa
encostar, o que
implicará ficar com as
roupas sujas dando uma
má imagem do seu asseio.
O
cego deverá ser chamado
pelos familiares a
participar, dentro das
suas possibilidades, nos
trabalhos domésticos e
não excluí-lo de toda a
ajuda só pelo simples
facto de não ver. O cego
é antes de mais uma
pessoa e gosta de sentir
que pode ser útil e por
tal motivo dever-se-á
sempre pedir a sua
colaboração. Por
exemplo: estando a
família sentada à mesa
verifica-se que falta um
copo; o cego pode
perfeitamente ir ao
local exacto e trazer o
referido utensílio para
a mesa.Pelo que foi dito, é
essencial que uma
família em que um dos
seus membros é
deficiente visual, tenha
todos os objectos do lar
devidamente arrumados em
local adequado e fixo,
pois este é um passo
fundamental para a
independência dos cegos
no seu domicílio.
VI
– O CEGO E A ESCOLA
O
professor terá que estar
devidamente preparado
para acolher entre os
seus alunos uma pessoa
cega. Deverá ter para
com este um
comportamento o mais
natural possível; isto
significa que não deverá
superproteger o cego ou,
pelo contrário,
marginalizá-lo.O
papel do professor
assume primordial
relevância no que
respeita à
sensibilização que este
deverá desenvolver junto
das demais crianças.
Deverá chamar-lhes a
atenção para o facto de
que o companheiro cego é
uma criança normal com
certas diferenças e
limitações,
consequentemente as
crianças deverão tratá-lo
de igual para igual,
fazendo os possíveis
para o integrar nas suas
brincadeiras.É
conveniente alertar as
crianças para que
determinado tipo de
palavras ditas
causticamente ao cego
podem ser extremamente
traumatizantes e
produzir efeitos
psicologicamente
negativos que,
reflexivamente, poderão
implicar fenómenos
condicionantes,
deformando a sua vida
futura.O
professor também deverá
aconselhar aos seus
alunos determinadas
regras de actuação para
com os cegos, a fim
daqueles adquirirem
determinado tipo de
comportamento nos seus
hábitos diários que lhes
facilitará, ao longo da
sua vida, um
relacionamento mais
adequado às necessidades
sentidas pelos cegos.
Se
se incutir determinado
tipo de normas no
comportamento normal das
crianças vulgares, é
evidente que,
futuramente, as pessoas
estarão muito mais
qualificadas para actuar
ajustadamente quando se
lhes depara a
necessidade de ajudar
uma pessoa cega.
ϟ
Como Ajudar Um Cego
Colecção: Folhetos
SNR, n.º 4
Edição: Secretariado
Nacional para a
Reabilitação e
Integração das
Pessoas com
Deficiência
Local e Data de
Edição: Lisboa, 2005
6.Ag.2012
publicado
por
MJA
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