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 Sobre a Deficiência Visual

A Propedêutica da Leitura e da Escrita na Criança Cega

Ana Raquel Domingues

Blind kid in Vietnam - foto de Tiet Ho

Rapaz cego no Vietnam - fotografia de Tiet Ho

 

A CEGUEIRA NUM MUNDO DE VISÃO
1- Um mundo predominantemente visual
2- Perceção sem visão
3- Perceção visual Vs Perceção háptica
DESENVOLVIMENTO E A APRENDIZAGEM NA CRIANÇA CEGA
1- Desenvolvimento cognitivo e motor
2- Questões de aprendizagem
MODELOS DE INTERVENÇÃO NA CRIANÇA CEGA
1- Estimulação e Intervenção Precoce
2- Escola Inclusiva: Diversidade(s) e Diferença(s)
3- A propedêutica da leitura e da escrita no jardim-de-infância
4- A aprendizagem da leitura e da escrita no 1.º Ciclo
5- Leitura a tinta Vs Leitura braille

RESUMO  |  O presente estudo revela-se pertinente pois analisa e procura compreender o caminho seguido pelas crianças cegas, no que respeita à aprendizagem da leitura e da escrita braille. O seu objetivo é perceber de que forma é trabalhado o desenvolvimento tátil-cinestésico e a perceção háptica na educação pré-escolar, por forma a munir os alunos cegos de ferramentas idênticas à dos normovisuais no que respeita aos pré-requisitos para a aquisição da leitura e da escrita. Para tal, levamos a cabo uma revisão teórica, baseada em autores como Ochaita e Rosa (1993, 1995), Piaget (1952, 1975), Rodrigues (2001, 2003, 2006, 2013) e Sim-sim (1998), que nos permitiu aprofundar os conhecimentos sobre a temática em estudo.
Realizamos um estudo qualitativo, recorrendo, como método de recolha de dados, a entrevistas a sete docentes que têm na turma crianças cegas e que lecionam numa escola de referência do Porto. As questões de investigação pretendiam saber quais os recursos e práticas disponíveis e indispensáveis para o desenvolvimento tátil-cinestésico que permitam à criança cega uma propedêutica de leitura e escrita proficiente; de que forma o trabalho desenvolvido num contexto de jardim-de-infância e de 1.º Ciclo, com ênfase na perceção háptica, promove a propedêutica e futura aprendizagem da leitura e da escrita numa criança cega e quais as oportunidades de sucesso que os alunos cegos têm face aos alunos normo-visuais.
Concluímos que os docentes estão conscientes da importância do desenvolvimento tátil-cinestésico e da perceção háptica nas crianças cegas, bem como da forma como este influencia a propedêutica da leitura e da escrita.
Porém, deparam-se com muitas limitações na sua atuação devido, mormente, à falta de formação nesta área, à ausência ou escassez de recursos, à pouca eficácia do trabalho a pares e ao número insuficiente de horas de apoio a estas crianças. Assim, consideramos que são prementes alterações e adaptações a realizar dentro e fora da sala de aula, para promover o sucesso da aprendizagem da leitura e da escrita nos alunos cegos.


A CEGUEIRA NUM MUNDO DE VISÃO

Introdução

Desde que nasce, o ser humano está mergulhado num universo eminentemente visual, com abundantes apelos, cada vez mais valorizados e explorados. A maior parte da nossa informação é recebida pela visão, através da televisão, dos outdoors, das montras, dos jornais e das revistas, entre outros. Vivemos imersos num mundo de cores e sombras. Este mundo em que vivemos e o modo como se organiza a sociedade estão pensados para serem experienciados e vividos pelos normovisuais. Assim, não basta fechar os olhos para imaginar o mundo visto por um cego e sentir as suas reais dificuldades.

Perante esta realidade, decorrente da falta de visão, no segundo capítulo abordamos a forma como os cegos se posicionam neste mundo e como conseguem ter a perceção da realidade que os rodeia, recorrendo ao desenvolvimento da perceção háptica, bem como de experiências alternativas que promovam as capacidades de adaptação à sociedade. O sistema háptico inclui toda a superfície e extremidades do corpo humano. Segundo Gibson (1983, p.99) o tato é um sentido essencial e com ele “we can explore things with the eyes but not alter the environment; however we can both explore and alter the environment with the hands.”.

1- Um mundo predominantemente visual

O mundo dos normovisuais pode ser um pouco perturbador para a pessoa cega, e até mesmo suscitar-lhe complexos, sentimentos de inferioridade, exclusão e solidão.


Segundo Bruner (1966), é preciso que a pessoa cega construa um modelo do mundo a partir de pedaços de informações pouco consistentes, não relacionadas entre si e que, geralmente, não consegue verificar. De acordo com o MEC (2006), se a criança se torna deficiente visual após os cinco anos de idade, ela já desenvolveu quase todo seu potencial visual e poderá conservar imagens e memória visual. Já as crianças que nascem cegas ou perdem a visão muito cedo terão necessidades de aprendizagem diferentes das outras crianças. A informação de que dispõe não é a mesma de que dispõe as crianças normovisuais, assim a sua construção da realidade será necessariamente diferente. Pode assemelhar-se a uma colcha de retalhos, onde o cego se orienta costurando pequenos pedaços de mundo, captados com todos os outros sentidos.

A criança cega de nascença, para conseguir integrar as suas experiências sensoriais, tem uma grande dependência dos outros e da sua linguagem. Uma vez que a criança sozinha não pode construir um modelo do mundo, necessita recorrer à ajuda de um mediador que a ajude a dar forma à realidade. Assim, para além de receberem informações de forma diferente e de terem diferentes estruturas cognitivas, levanta-se outra questão quanto à construção da realidade: a linguagem dos normovisuais. A criança cega vivencia o mundo através do tato, do olfato, do paladar e da audição, mas, ao mesmo tempo, o mundo está-lhe a ser explicado numa linguagem que poderá não corresponder à sua experiência sensorial, pois é através da linguagem dos normovisuais que os cegos conhecem, aprendem e manipulam, mentalmente, a realidade que os rodeia. Exemplificamos o referido anteriormente, pensando no caso de um prédio. A noção que uma criança cega tem de um prédio é sobre a sua textura (áspera, estriada), maleabilidade (dura), som (trânsito, pessoas a caminhar e a conversar), e olfato (argamassa, madeira). Para um normovisual, a experiência do mesmo edifício é visual, focalizada simultaneamente no tamanho, no formato e na cor. Qualquer tentativa do normovisual no sentido de explicar o edifício ao cego dará, inevitavelmente, maior relevância às características aparentes aos normovisuais, mas sem significado para a criança cega. Logo, existe má correspondência entre o que a criança cega entende do edifício (como sendo áspero, duro, rodeado do ruído do trânsito e dos peões, e tendo um cheiro característico) e a descrição do normovisual: grande, retangular e amarelo. Este problema é uma questão fundamental que se dá entre a perceção do mundo por parte dos normovisuais e dos cegos, e implica que a criança cega se envolva num permanente processo de busca de soluções para os seus problemas. “O sentido da visão proporciona ao ser humano um mundo atraente que lhe proporciona informações suficientes do ambiente, assim como verificação constante e instantânea, o que não acontece com a criança cega”. (Martín & Bueno, 2003, p.99).

O próprio ambiente é não só menos atraente para a criança cega, como menos controlável, o que leva a que se retraia. Pode mesmo ser muito perigoso, pois tem ruídos imprevisíveis e obstáculos desconhecidos. A criança normovisual tem mais facilidade em se movimentar, mas a criança cega precisa planear bem os seus movimentos, usando a memória, a concentração e informações sensoriais. Simultaneamente, tem de aprender a lidar com o ambiente que vai mudando, como relata Tereza de Souza (2009) in Revista Babel, USP:

"não vejo o mundo, mas sei como ele é. Tudo para mim é único. Os cegos podem ter a mesma deficiência, mas não são iguais, eles reagem de forma diferente. Vivo num mundo onde todos veem. Tudo o que eu errar, os outros dirão que é devido à cegueira. Pela necessidade, tenho que me adaptar. Se eu não me enquadrar, os outros me enquadram. É um processo contínuo, minimalista e penoso. Qualquer mudança na disposição dos móveis torna o ambiente desconhecido. Eu não penso para fazer, ajo por condicionamento. Você pode desviar de um sofá, eu não. Para saber que ele está ali, preciso esbarrar nele. Mas se bato uma vez, não esqueço.".

Idealmente, este mundo predominantemente visual necessita deixar de ser integrador para passar a ser inclusivo. Deve ser ele próprio a modificar-se para que as pessoas cegas se sintam membros plenos de uma sociedade para todos. É necessária tolerância e mudança de mentalidades para que se encare a necessidade que os cegos têm de usar os seus próprios recursos na sua interpretação do mundo, em vez de se submeterem constantemente aos padrões ditados pela sociedade normovisual.

2- Perceção sem visão

Perceção é a função cerebral que dá significado a estímulos sensoriais.


Consiste na aquisição, interpretação, seleção e organização das informações obtidas pelos sentidos. Através da perceção, um indivíduo organiza e interpreta as suas impressões sensoriais para atribuir significado ao seu meio. Assim, a perceção não é somente a captação de dados sensoriais, mas requer organização ativa do indivíduo, determinada pela sua inteligência. Segundo Gibson (1983), a perceção é um processo através do qual colhemos informações sobre o nosso ambiente através do uso e integração dos recetores sensoriais e funcionais. A perceção, a aprendizagem e o pensamento constituem os processos cognitivos.

No que respeita à perceção visual, Barraga et al, (1976) entende-a como a exequibilidade para interpretar o que se vê, a aptidão de compreender e processar toda a informação recebida através da visão. Esta informação chega-nos através dos olhos, é recebida no cérebro e associada a outras informações pré-existentes nele. Assim, o autor considera a perceção visual um processo mais relacionado com a capacidade de aprendizagem da criança do que com a sua condição visual.

Para Ochaita e Rosa (1995), toda a deficiência sensorial caracteriza-se por uma diminuição da informação que a criança capta do ambiente, não conseguindo receber, da mesma maneira e em igual quantidade, essa mesma informação, tão importante para a construção da ideia do meio ambiente em seu redor. Assim, a ausência de visão exige um maior número de experiências alternativas de desenvolvimento, com o objetivo de cultivar a inteligência e promover capacidades adaptativas. A exploração tátil é um meio alternativo para chegar à informação, mas normalmente o seu incentivo é proporcionado pela visão. Pormenores como a cor, a forma, a textura ou a localização, que servem para atrair o bebé, não estão disponíveis para quem não tem visão.

Segundo Piaget (1952) o bebé cego, nos primeiros meses de vida, não consegue retirar informação suficientes e adequadas do som que o rodeia, devido à falta de visão, pois esse som é-lhe inacessível, não o podendo explorar e retirar mais informações. Consequentemente, o ambiente permanece confuso até que a criança possa movimentar-se para conhecer as suas características ou seja, até que a criança possa dirigir-se à fonte sonora por si mesma, não começará a explorar ativamente o mundo. A redução ou privação da capacidade de ver traz consequências para a vida do indivíduo, tanto a nível pessoa como funcional, colocando-o muitas vezes à margem do processo social, da segurança psicológica e das habilidades básicas. Para que tal não aconteça, e para que a perceção se desenvolva na ausência da visão, é necessário que, desde o nascimento até aos dois anos de idade, a criança cega seja colocada em ambientes ricos em estímulos auditivos e táteis para que sua audição e tato aprendam a funcionar em conjunto, facilitando desse modo o seu processo de locomoção e, consequentemente, a exploração do mundo. Num ambiente rico em estímulos e graças ao movimento, a criança vai desenvolvendo a formação de conceitos, o raciocínio e a representação mental, iniciando assim a interpretação do mundo. Torna-se então necessário salientar a pertinência de programas educativos adequados, iniciados precocemente, que possam fornecer à criança cega os estímulos necessários à relação o mais equilibrada possível com o mundo que a rodeia.

Todas as informações que temos são recebidas através dos sentidos. O tato dá-nos indicações sobre qualidades como dureza e maciez, textura, forma, flexibilidade, peso, vazio ou solidez e atmosfera seca, cheia de vapor, fria ou morna. O olfato ajuda-nos a reconhecer materiais como couro, madeira, metal, tinta, flores e se um cheiro agradável e desagradável. O paladar dá-nos informações sobre doce, ácido, amargo ou salgado. Já a visão e a audição, os denominados “sentidos da distância”, fornecem-nos informações sobre: cor, tom, contraste, profundidade, perspetiva, tamanho, forma, opacidade ou transparência, reflexão, intensidade, bem como volume, tom e timbre, sons do mar, de animais e de casa, respetivamente. No que respeita ao sentido propriocetivo (*), este transmite informações sobre a posição do corpo, dos membros, da cabeça e dos músculos, direção, equilíbrio, movimento, peso, aceleração, desaceleração e imobilidade.

* Proprioceção ou cinestesia é o termo utilizado para nomear a capacidade em reconhecer a localização espacial do corpo, sua posição e orientação, a força exercida pelos músculos e a posição de cada parte do corpo em relação às outras, sem utilizar a visão. Esta perceção permite a manutenção do equilíbrio postural e a realização de diversas atividades práticas. Resulta da interação das fibras musculares que trabalham para manter o corpo na sua base de sustentação, de informações táteis e do sistema vestibular (conjunto de órgãos do ouvido interno).

Conclui-se que cada um dos sentidos desempenha um papel fundamental na perceção da criança cega. É importante que a criança desenvolva capacidades motoras, de linguagem, discriminativas e percetivas para que comece desde cedo a ser capaz de compreender o seu corpo e o mundo que a rodeia.

3- Perceção visual Vs Perceção háptica

Podemos afirmar que o “ser humano se relaciona (se comunica) com o mundo através dos sentidos da visão, audição, olfato, paladar e tato” (Pagliuca, 1996, p.128), sendo a visão, segundo Piaget (1952) o nosso principal elo de ligação com o mundo, dando-nos informações permanentes e verificação instantânea, e permitindo que os elementos sejam capturados de forma completa. A presença de visão, mesmo em idades muito precoces, vai propiciar uma organização interna do mundo. “As primeiras ações externas da criança são controladas pela visão, então começa aqui uma divergência no desenvolvimento das crianças normovisuais e das cegas.” (Warren, 1984, p.33; Blatt & Morris, 1986, p.318).


A visão é a perceção de raios luminosos pelo sistema visual. A perceção visual compreende, entre outras coisas, a perceção de formas, de relações espaciais, de cores, de intensidade luminosa e de movimentos. As pessoas com perda parcial ou total, temporária ou permanente, de um órgão dos sentidos estão sujeitas a alterações no processo de comunicação. Assim, terão necessidade de explorar os outros sentidos (tato, paladar, olfato e audição) para conseguirem melhorar a qualidade da comunicação e estimularem vias alternativas de acesso à informação. No caso dos cegos, acredita-se que o meio privilegiado de captação da informação será através, sobretudo, do sentido da audição e do tato, desempenhando um papel extraordinariamente importante no conhecimento sensorial do meio que o rodeia na ausência do sentido visual, pois “fornece informações acerca de estímulos puramente táteis, pressão e determinadas vibrações.” (Martín & Bueno, 2003, p.110).

As atuais teorias sobre o desenvolvimento psicológico afirmam que é através da ação sobre o ambiente e da comunicação social que se adquire o domínio das habilidades mentais que permitem o conhecimento da realidade. A ausência da visão obriga a experiências alternativas de desenvolvimento, com o objetivo de desenvolver a inteligência e promover capacidades de adaptação à sociedade, sendo o desenvolvimento tátil, para os cegos, a base de tudo.

O tato é algo muito fiável, pois vai para além do próprio sentido. Inclui a percepção e a interpretação por meio da exploração sensorial. Ele permite-nos reconhecer a presença, forma e tamanho dos objetos e também a temperatura dos mesmos. Mas este sentido não se reduz exclusivamente às mãos. É sentido em todo o corpo, pois está distribuído por toda a superfície da pele, estando os seus recetores, tanto na derme como na epiderme. Contudo, não é distribuído uniformemente pelo corpo. Os dedos da mão possuem uma discriminação maior do que as restantes partes. Os fatores presentes na perceção tátil são: a discriminação tátil ou a capacidade de distinguir objetos de pequenos tamanhos, a perceção de calor e a perceção da dor.

Considera-se importante distinguir os conceitos de tato passivo e tato ativo ou perceção/sistema háptico(a). No tato passivo, a informação é recebida de uma forma não intencional ou passiva. Pelo contrário, no tato ativo, a informação é procurada intencionalmente pelo indivíduo que toca para conseguir determinada informação. O tato ativo ou sistema háptico (Ochaita & Rosa cit. Coll & Palacios, 1995) é o mais importante sistema sensorial que a pessoa cega tem para conseguir conhecer o mundo. Segundo Farrel (2008, p.32):

“a palavra tátil (tactile) associa-se muitas vezes a um toque passivo, como o do tecido da roupa a encostar na pele (...). Os termos tátil (tactual) e háptico utilizamse quando nos referimos a um uso mais ativo do tato, como quando exploramos as qualidades de um objeto ou material e reconhecemos qualidades como temperatura, textura, forma e peso. As representações táteis incluem mapas, diagramas, gráficos tabelas, figuras e construções matemáticas e podem ser suplementadas por rótulos e instruções em braille. Diagramas táteis podem usar colagens (por exemplo, cordões, lixas, arames, entre outros) ou um papel com relevo, linhas pretas salientes, contrastando com um fundo branco plano.”.

Quando a informação é visual, o todo é adquirido primeiro e, de seguida, analisam-se as partes. Nas crianças com deficiência visual, as informações táteis são processadas sequencialmente e posteriormente, constrói-se um todo através da junção de todas as partes.

O sistema háptico vai além do tato, sendo um dos mais complexos meios de comunicação entre o mundo interno e externo do homem. Este relaciona-se com a perceção de texturas, movimentos e forças através da coordenação dos recetores do tato, visão, audição e proprioceção. Esta função depende da exploração ativa do ambiente. Segundo Mauerberg-deCastro (2005, p.201) a perceção háptica “decorre de esforços coordenativos táteiscinestésicos durante atos exploratórios utilizados, principalmente, na manipulação de objetos com o objetivo de deteção de tamanho, formas e texturas”. No tato ativo, estão abrangidos os recetores da pele, os tecidos subjacentes e ainda os recetores dos músculos e tendões para que o sistema percetivo háptico capte a informação articulatória motora e de equilíbrio. Assim se compreende a importância nos indivíduos cegos da atividade no conhecimento do mundo através do tato, tal como é necessária a atividade percetiva na perceção visual. As mãos, tal como os olhos, embora de forma mais lenta, analítica, fracionada e sequencial (ao contrário da visão, que é rápida e globalizada), movem-se propositadamente para procurar as particularidades das formas com o objetivo de obter uma imagem do objeto em análise. Este movimento aumenta com a idade, o que possibilita um melhor reconhecimento das suas formas. Essa necessidade de atividade exploratória torna o sistema percetivo háptico semelhante ao visual, apesar de mais lento.

Contudo, a perceção háptica proporciona uma captação limitada de informações, pois a sua atuação não vai além daquilo que pode ser alcançado pelos membros, não conseguindo perceber espaços distantes, contrariamente à visão, sentido de excelência para perceber objetos e a sua posição espacial a grandes distâncias. Apesar disso, o tato ativo permite captar diversas informações e propriedades dos objetos, tais como: temperatura, forma, relações espaciais e textura. A textura está para o tato como as cores para a visão. Assim, as diferentes texturas dos objetos são captadas pelo tato desde muito cedo (a partir dos três, quatro anos), o que facilita mais tarde a discriminação tátil da forma dos objetos, ainda que com um significativo atraso quando realizada por um normovisual (Warren, 1984).

Mauerberg-deCastro (2005) afirma que o sistema háptico possui alguns subsistemas, a saber: sistema cinestésico, que causa a consciência da postura corporal através de informação que chega através de recetores dos músculos, da pele e das articulações; sistema cutâneo, que dá noções extra corporais sentidas na face da pele; sistema propriocetivo háptico, que fornece espontaneidade às ações devido à coordenação dos músculos e das articulações e sistema auditivo háptico, que dá informações auditivas extremamente importantes.

As informações obtidas através do tato ativo têm de ser adquiridas sistematicamente para que os estímulos ambientais sejam significativos. O processo do desenvolvimento tátil atravessa quatro fases: (1) a consciência de qualidade tátil dos objetos; (2) o reconhecimento da estrutura e da relação das partes com o todo; (3) a compreensão de representações gráficas e (4) a utilização de simbologia. Cada uma destas fases vai apresentar níveis variados de aquisição de habilidades, dentro do seu desenvolvimento. O trabalho exaustivo destas quatro fases é essencial para a leitura tátil do braille.

Assim concluímos que, na ausência da perceção visual, o desenvolvimento da perceção háptica torna-se imperativo na educação para o desenvolvimento de crianças cegas. Para tal, é necessário promover atividades sistemáticas que visem a sua estimulação apropriada e a aquisição de destreza para que a criança consiga recolher informações sobre o ambiente que a rodeia e para que consiga adquirir diversas aprendizagens, tal como as normovisuais.

O DESENVOLVIMENTO E A APRENDIZAGEM NA CRIANÇA CEGA

Introdução

Sendo a cegueira uma problemática complexa e que condiciona o desenvolvimento global da criança cega, expomos, no terceiro capítulo desta investigação, a forma como se processa este desenvolvimento, comparando o mesmo com o da criança normovisual, tendo como pano de fundo a Teoria Piagetiana. Segundo Mendonça et al (2008, p.16)

“(…) a visão constitui um canal privilegiado de acesso ao mundo, constituindo a base de uma parte significativa das aprendizagens humanas. Através da visão as crianças desenvolvem-se e aprendem naturalmente, sem que tenham que ser ensinadas, unicamente pelo facto de observarem, explorarem e interagirem com o mundo que as rodeia. No caso das crianças cegas ou com graves limitações visuais, a informação visual é inexistente ou recebida de forma fragmentada e distorcida, o que limita a interação com o ambiente e a extensão e variedade das experiências, comprometendo as aprendizagens acidentais e originando atrasos no desenvolvimento motor, cognitivo e social. Os sons e o tato fornecem uma informação fragmentada do meio e as descrições verbais são dificilmente apreendidas nas primeiras idades o que determina a existência de características próprias de desenvolvimento nas crianças com deficiência visual, não seguindo exatamente as mesmas etapas dos seus pares normovisuais.”.

Assim, debruçamo-nos, num primeiro momento, sobre os aspetos ligados ao desenvolvimento cognitivo e motor, e, num segundo momento, abordarmos as questões de aprendizagem destes alunos e discutimos os pontos a ter em consideração para que a mesma ocorra de forma eficiente, nomeadamente no que respeita à intervenção dos docentes do ensino regular, dos docentes do ensino especial e da família destas crianças.

1- Desenvolvimento cognitivo e motor

Depois de estudar os padrões de pensamento das crianças desde o nascimento até ao final da adolescência, Piaget (1975) encontrou características comuns e definiu quatro estádios de desenvolvimento da criança, a que o próprio denominou de fases de transição. Embora definidos, estes estádios nunca existem numa forma pura, podendo coexistir elementos dos estádios anteriores ou seguintes. Esses 4 estádios são: sensório-motor (0 – 2 anos); pré-operatório (2 – 7 anos); operações concretas (7 – 12 anos) e operações formais (12 – 15 anos).



Figura 1 - Estádios de desenvolvimento de Piaget

Descrevemos cada um deles, focando-nos e desenvolvendo os dois que mais importam para esta investigação, o sensório-motor e o pré-operatório, comparando nestes o desenvolvimento de crianças normovisuais e cegas.

Segundo esta teoria, durante o estádio sensório-motor, existe um conhecimento do mundo baseado nos sentidos e habilidades motoras. Neste estádio Piaget realça a importância da interação da criança com o meio através dos sentidos, estando as crianças que se encontram nesta fase, devido à ausência de linguagem, limitadas à experiência imediata. É durante este estádio que se desenvolve a permanência do objeto, sobretudo entre o primeiro e o segundo ano de vida. No final deste período, a criança aplica representações mentais. Nesta fase, o bebé começa a construir esquemas de ação para assimilar mentalmente o meio que o envolve, isto essencialmente devido a reflexos neurológicos básicos. Este estádio é também marcado pela construção prática das noções de objeto, espaço, causalidade e tempo.

Segundo Nunes (1995), neste período a criança constrói gradualmente o conhecimento de si própria e do ambiente por meio da sua contínua interação com o ambiente físico e social.

No que respeita ao desenvolvimento cognitivo e motor da criança cega, o mesmo não tem que ser coincidente com o do normovisual. Segundo Lowenfeld (1977), há três condições que podem afetar o desenvolvimento cognitivo das crianças cegas: a diversidade de experiências, as suas aptidões para conhecer o meio que a rodeia e o pouco saber que possui sobre o ambiente e sobre si. O atraso ao dirigir-se e alcançar objetos e uma maior lentidão ao iniciar o movimento por iniciativa própria leva à diminuição das oportunidades que têm de explorar o ambiente e tirar ilações sobre ele.

Nos primeiros quatro meses, o desenvolvimento de um bebé cego é muito parecido ao de um normovisual, pois os seus reflexos são inatos. É nesta etapa que constrói os seus primeiros hábitos em relação ao seu corpo, exceto os respeitantes à visão. Nesta fase melhora o ato de segurar, coordenar a sucção e a preensão e sorrir quando ouve a voz da mãe. A partir do quinto mês, as crianças normovisuais seguram objetos devido ao seu controlo visual e estão sempre a realizar explorações de objetos, a ver as suas características e o local onde se encontram. Pelo contrário, para um bebé cego alcançar algo tem de saber que esse algo existe, que o ruído que ouve vem de algum lado e que, por sua vez, está dentro de uma distância alcançável. Assim, os bebés cegos só têm consciência da existência de objetos e do espaço se estes emitirem som e se estiverem ao seu alcance. É por este motivo que a coordenação áudio-manual e a consequente procura de objetos devido ao som dá-se com cerca de seis meses de atraso relativamente à coordenação visualmanual.

A noção de que algo continua a existir mesmo longe da perceção imediata (noção de permanência do objeto) é bastante difícil para a criança com deficiência visual, pois não pode recorrer a este sentido para a ajudar a saber o que acontece com o objeto, uma vez que só se apercebe da sua existência se ouvir ou tocar no mesmo. Estudos realizados por Fraiberg (1977), Ochaita e Rosa (1995) defendem que a aquisição da permanência de objetos é efetuada de forma diferente entre crianças com visão e cegas, devido ao facto de nenhum outro sentido ter a mesma capacidade de síntese como a visão.

Adicionalmente, Fraiberg (1977), num estudo realizado com crianças cegas, identificou um atraso de um a três anos na aquisição da permanência dos objetos físicos, sobretudo devido às dificuldades apresentadas na busca e recuperação de objetos através do som. Segundo Fraiberg (1977), o desenvolvimento dos bebés cegos no que respeita à busca de objetos é a seguinte: antes dos sete meses, não há indícios de procura, pois quando se tira um brinquedo da sua mão não o tenta recuperar; entre os sete o os oito meses, começa a procurar os objetos com os quais tem mais contacto tátil, mas não se apercebe do lugar onde o perdeu. Quando o objeto emite som, não o procura, mas abre e fecha a mão como se o quisesse agarrar. Se a criança não teve contacto com eles previamente, mesmo que este soe, não há qualquer resposta por parte dela para o querer alcançar; entre os oito e os onze meses, o bebé começa a procurar os objetos à volta do local onde os perdeu. Contudo, se não teve contacto com eles previamente, não é capaz de os procurar; aos doze meses, é capaz de procurar os objetos, guiando-se só pelo seu som, o que faz acreditar que a coordenação ouvido-mão é definitiva.

O tato só permite conhecer os objetos que estão próximos, e, tal como o som, não é de todo um substituto da visão. Dessa forma, torna-se mais difícil, na ausência da visão, elaborar imagens desses objetos, bem como identificar a sua posição no espaço, tal como afirma Warren (1984, p.34) “este handicap vai manifestar-se sobretudo no atraso da aquisição da permanência do objeto, que, na criança cega, só se verifica entre os três e os cinco anos, em oposição aos dois anos da criança normovisual.” e acrescenta ainda “o bebé cego não pode acreditar que exista um objeto quando este não se manifesta e, por isso, não o procura; por outro lado, o facto de não ter um contacto constante com os objetos não lhe permite conhecê-los de forma a atribuir-lhes substancialidade.”.

Por todos os motivos anteriormente mencionados, é a partir desta idade que começa a haver diferenças significativas entre o desenvolvimento das crianças cegas e das crianças normovisuais.

No que respeita ao desenvolvimento motor, em geral, as crianças invisuais desenvolvem-se da mesma forma do que as normovisuais, dentro da mesma faixa etária, se forem bem estimuladas quanto às aquisições posturais (virar-se, deitar-se), exceto no levantar-se com os braços quando estão de bruços (Fraiberg, 1977), encontrando-se atrasados cerca de oito meses, possivelmente pela necessidade que demonstram em utilizar as mãos como instrumentos de conhecimento do mundo. Quanto à movimentação autoiniciada, existem atrasos significativos, pois quase não gatinham e começam a andar sem ajuda aos 19 meses. Isto explica-se, segundo Fraiberg (1977), pelo facto de só quando a criança sentir interesse e necessidade em se movimentar para alcançar os objetos sonoros, começará a movimentar-se. Até lá, como desconhece a existência dos objetos que não pode alcançar com os braços, não sentirá necessidade de o fazer.

No que respeita ao período pré-operatório, as crianças apresentam um grande desenvolvimento linguístico, sendo o seu modo de aprendizagem sobretudo intuitivo. Nesta fase, deixam de estar limitados ao meio e, consequentemente, à experiência imediata, pois expandem a capacidade de desenvolver imagens mentais. Começam a ter a capacidade de substituir um objeto ou acontecimento por uma representação, e esta substituição é possível, segundo Piaget, devido à função simbólica. Em relação a esta, as crianças cegas encontram-se bastante atrasadas nas etapas de desenvolvimento do jogo simbólico, quando comparadas com as normovisuais, embora superem o atraso, aproximadamente, a partir dos seis anos. Isto deve-se ao facto de, por um lado, a criança cega ter dificuldade na construção de uma imagem de si mesmo e dos outros (algo necessário para se imaginar e imaginar os outros no jogo) e, por outro, devido às dificuldades que estas crianças têm na imitação das ações da vida diária que constituem a base de todos os jogos de faz de conta.

A atividade sensório-motora não está esquecida, mas vai ser aperfeiçoada, pois ocorre uma melhoria na sua aprendizagem, permitindo explorar melhor o ambiente, usando mais movimentos e perceções intuitivas.

No que respeita à linguagem, a partir dos dois ou três anos, a linguagem das crianças cegas é completamente normal, tanto sob o ponto de vista gramatical como semântico. Existe, no entanto, uma importante exceção: na ausência da visão, as crianças cegas têm grandes problemas para utilizar corretamente os termos pessoais (eu, tu), como espaciais (ir, vir), devido aos problemas de auto-representação que mencionamos anteriormente ao falar do jogo, bem como a dificuldade na compreensão das relações espaciais.

No estádio das operações-concretas, a criança desenvolve noções de tempo, espaço e ordem, sendo capaz de relacionar diferentes aspetos e separar dados da realidade. No estádio anterior, as crianças são sonhadoras, têm pensamentos mágicos e muitas fantasias. Agora, as crianças são lógicas e muito concretas.

No estádio das operações formais, segundo Wadsworth (1996), as estruturas cognitivas da criança atingem o seu nível mais elevado de desenvolvimento. Nesta fase a criança é capaz de pensar com lógica, desenvolver hipóteses e arranjar soluções, sem depender da observação da realidade.

2- Questões de aprendizagem

A criança com deficiência visual apresenta um comprometimento da área sensorial responsável pela representação do mundo: a visão. A diminuição ou mesmo inexistência da captação de informação através da visão irá ter, obrigatoriamente, consequências sobre o desenvolvimento e a aprendizagem dos invisuais. Contudo, segundo Cunha (2003), a pessoa com deficiência visual deve ser compreendida como um ser integral, não se devendo atribuir demasiada importância ao problema visual, pois corre-se o risco de esquecer a maior e mais importante questão: o sujeito.


Simultaneamente, é de igual forma importante ter em conta que a falta da visão não interfere na capacidade intelectual e cognitiva das crianças cegas. Elas têm o mesmo potencial de aprendizagem, mas isso só acontece se tiverem as condições e recursos adequados, tal como afirma Farrel (2008, p.23 e 24) referindo que “a deficiência visual afeta o desenvolvimento social e emocional, o desenvolvimento da linguagem, o desenvolvimento cognitivo, a mobilidade e a orientação” e que “a combinação desses efeitos sobre o desenvolvimento influencia o funcionamento e o potencial de aprendizagem da criança com deficiência visual (…), sendo necessárias estratégias para minimizar os efeitos potencialmente adversos da deficiência visual”.

Para que o desenvolvimento destas crianças ocorra de forma correta, é essencial a precisão do diagnóstico, nomeadamente no que respeita à evolução e ao prognóstico da cegueira. A criança deve ser submetida a uma avaliação clínica e outra funcional. A equipa deve ser constituída por: professor do ensino regular, serviços especializados, oftalmologista, técnico de reabilitação, psicólogo, técnico de serviço e família, tal como afirma Mendonça et al (2008, p.7 e 8):

“considera-se também importante que os educadores e os professores conheçam o funcionamento visual, suas dimensões e componentes de análise, uma vez que todos eles podem ter um papel significativo no desempenho das várias atividades que ocorrem na escola. Assim, uma rigorosa avaliação funcional da visão pressupõe a intervenção de uma equipa multidisciplinar: o docente de educação especial, o professor da turma/disciplina e a família. Esta avaliação é um aspeto fundamental a ter em conta, contribuindo de forma decisiva para o estabelecimento do plano e do programa educativo do aluno.”.

A avaliação funcional consiste em avaliar os aspetos essenciais da visão e as suas implicações educacionais, devendo ocorrer em contextos naturais, onde se recolhem informações sobre a forma como a pessoa utiliza a sua visão em diferentes condições. Para que tal seja eficaz, os profissionais envolvidos devem empregar linguagem compreensível pelas crianças, utilizar objetos e materiais familiares apelativos, objetos esses que devem ser contextualizados e que tenham significado para o aluno. Essa avaliação também deve ter em conta a idade do início das dificuldades visuais, o modo de progressão da perda de visão (lenta ou rápida), as origens/causas dessas dificuldades, se é uma patologia congénita, hereditária ou adquirida e qual o prognóstico da problemática, se é algo estacionário ou evolutivo.

A perceção da realidade de um cego é totalmente diferente, nem melhor, nem pior, da de um normovisual. Grande parte da noção da realidade assenta em questões relacionadas com a visão que estão inacessíveis aos invisuais, o que não significa que não possa conhecer o mundo. No entanto, para que tal aconteça, torna-se necessário criar, através de vias alternativas, sistemas de ensino que transmitam a informação que não pode ser obtida através dos olhos, sendo obrigatória a potencialização de outros sistemas sensoriais.

Assim, torna-se fundamental estimular os seus sentidos: estimulação do tato, auditiva, do olfato e do paladar pois, para Gibson (1983), na ausência da visão, os sentidos restantes têm de funcionar sem a informação e integração que a visão propicia. Tendo noção de que esses dados adquiridos através dos outros sentidos são algo intermitente e sequencial e que essa compensação não é mágica.

No início, parece-nos que os outros sentidos estão esmorecidos na ausência da visão, necessitando as crianças cegas de mais estimulação, contudo, mais tarde, com o hábito, são capazes de usar os outros sentidos eficazmente, dando a impressão que os têm mais desenvolvidos, mas, na realidade, estão é muito atentos à informação sensorial relevante, usando mais eficazmente os sentidos que têm intactos, melhor do que os normovisuais. Por exemplo “los ciegos utilizan ecos para obtener algún tipo de información sobre los objetos y el espacio que le rodea” (Lewis, 1991, p.53). Por isso, é necessário motivar a criança a alcançar, tocar, manipular e reconhecer o objeto; ensinar a “olhar” para quem fala; adaptar uma área onde a criança possa brincar em segurança e onde os objetos estejam ao seu alcance (dos seus braços).

Relativamente ao tato, deve ter-se em atenção a descriminação de diferentes texturas, a experimentação de diferentes materiais com formas e feitios com contornos nítidos e cores vivas; distinção de temperaturas e ensinar a manipular diferentes tipos de objetos, explicando a função de cada um. De entre as outras modalidades sensoriais, a audição é o único sentido de distância de que os cegos dispõem e tem de funcionar de maneira totalmente diferente, sem a informação da visão. Inicialmente, o bebé cego não tem controlo sobre a presença ou ausência do som em seu ambiente. “(...) vozes saem do nada e voltam ao nada quando cessam” (Cutsforth, 1951, p.5).

Para se realizar a estimulação auditiva é necessário que a criança ouça barulhos ambientais, de gravadores e de rádios; que identifique sons simples; que distinga timbre e volumes dos sons; que consiga discriminar a diferença entre duas frases muito semelhantes e que desenvolva uma memória auditiva seletiva. Quanto à estimulação do olfato e do paladar, devem ser dadas a provar às crianças diferentes comidas (doces, salgadas e amargas), e dar-lhes a cheirar diferentes fragâncias (agradáveis desagradáveis, de intensidade forte e fraca).


O cego deve ser orientado a movimentar-se no espaço, o que é um processo prolongado e sequenciado que deve começar o mais cedo possível, sendo as técnicas mais utilizadas o guia normovisual, o uso de bengala e o cão guia. Para a criança cega, a mobilidade é fundamental para construir uma relação com o mundo exterior. A criança cega tem pouca noção da estrutura do espaço que a rodeia, até poder começar a movimentar-se no sentido de o descobrir. A orientação e a mobilidade são associadas ao movimento e ao deslocamento independente. A orientação diz respeito à tomada de consciência do espaço envolvente (Onde estou? Aonde quero ir? Como vou lá chegar?), a mobilidade diz respeito à capacidade de se movimentar com segurança. Para tal, há programas específicos de mobilidade que têm como objetivo “progredir ao longo do contínuo de entendimento, controle e independência” (Farrel, 2008 p.32 cit. Stone, 1997b p.162). A orientação e a mobilidade permitem melhorar a aptidão física, aumentar a autoestima, melhorar a socialização e melhorar a capacidade de se deslocar de um lado para o outro. A utilização de um modelo da escola, em forma de maquete tátil ou de uma planta impressa em papel grande, pode ajudar o aluno a criar uma noção do espaço que frequenta diariamente.

Todo este trabalho não será possível sem o apoio de professores especializados, adaptações curriculares e materiais adicionais de ensino, acomodações, condições acústicas, adaptações no meio físico, nas políticas e nos procedimentos escolares, existência de materiais táteis e cinestésicos, acesso a todas as áreas do currículo, através de aparelhos, equipamentos ou móveis específicos e um acesso regular e frequente ao apoio especializado, para que consigam atingir um nível de desenvolvimento proporcional às suas capacidades. Quando todas as circunstâncias anteriormente referidas se verificam, a criança cega irá ter um desenvolvimento muito semelhante à criança normovisual. Caso contrário, irão ocorrer atrasos no seu desenvolvimento. Contudo, mesmo dispondo de todas estas condições, as crianças com deficiência visual podem ser mais lentas na realização de algumas atividades, pois a perceção táctil demora mais tempo para ser analisada e compreendida do que a visual e também porque, segundo um estudo realizado por Ferrel (1996), uma série de situações de aprendizagem, dependentes da visão, ocorre de forma acidental na maioria das crianças, o que muitas vezes não acontece no desenvolvimento das crianças com deficiência visual.

A visão é um sentido unificador, pois é através dela que se podem relacionar os restantes sentidos, ajudando-nos a interpretá-los. A falta de informação visual restringe o conhecimento em relação ao ambiente, por isso é necessário incentivar as crianças ao comportamento exploratório e à experimentação. Elas precisam de manipular e explorar os objetos para conhecer as suas características, fazer uma análise detalhada das partes e tirar conclusões. Estas crianças “veem” o mundo de forma diferente, possuindo um modo particular de percecionar e organizar a informação. Logo, a audição, o tato, o paladar, o olfato, o estímulo do meio e das pessoas que acompanham a criança cega são fatores fundamentais para a sua perceção do mundo e, consequentemente, para a sua aprendizagem e desenvolvimento. Tudo isto, juntamente com a política pública, a gestão escolar, as parcerias, o apoio da família e as estratégias pedagógicas mais adequadas às necessidades de cada criança potenciarão a sua aprendizagem (Figura 2).



Figura 2 – Fatores potenciadores de aprendizagem


MODELOS DE INTERVENÇÃO NA CRIANÇA CEGA

Introdução

No quotidiano, a visão é o sentido mais usado, levando assim a crer que é o mais importante. Uma vez cego, o indivíduo terá muitas restrições no seu dia-a-dia que terão de ser colmatadas de outras formas, exigindo adaptações, pois se as informações não chegam até ele pelo sentido da visão, terá de socorrer-se dos outros sentidos para as obter, sendo a partir deles que tem infinitas possibilidades de conhecer o mundo que o rodeia. Este processo, tal como outros, exige aprendizagem por parte do indivíduo. Assim, a falta de visão não é um impedimento para o desenvolvimento, mas obriga a que o sujeito percorra caminhos diferentes, uma vez que a obtenção de conhecimentos depende de uma organização sensorial diferente da do normovisual. Para que tal aconteça, é necessário que desde cedo haja uma intervenção atempada e adequada, que vá ao encontro das necessidades específicas destas crianças.


No quarto e último capítulo, abordaremos os aspetos fundamentais a ter em consideração na intervenção com a criança cega, nomeadamente a estimulação e intervenção precoce, questões que se prendem com a inclusão destes alunos no ensino regular e as adaptações feitas ao nível do ensino préescolar e do 1.º Ciclo no que respeita à propedêutica e aprendizagem da leitura e da escrita braille. É imperativo que estas crianças, tal como as com visão, tenham uma escolarização adequada e eficaz, o que implica um grande desafio para os professores que com elas desenvolvem este trabalho.

“As escolas inclusivas devem reconhecer e satisfazer as necessidades diversas dos seus alunos, adaptando-se aos vários estilos e ritmos de aprendizagem, de modo a garantir um bom nível de educação para todos através de currículos adequados, de uma boa organização escolar, de estratégias pedagógicas, de utilização de recursos e de uma cooperação com as respetivas comunidades” (UNESCO, 1994, p. 11).

1- Estimulação e Intervenção Precoce

O estímulo recebido pela criança é a base do seu futuro desenvolvimento. Assim, o estímulo precoce que recebe, proporcionado pelos pais e outros educadores, tem como objetivo desenvolver e potenciar ao máximo e de forma adequada, positiva e divertida, através de jogos, exercícios, técnicas e atividades, as suas funções cerebrais, desenvolvendo o seu lado intelectual, físico e afetivo. As crianças irão adaptar-se melhor ao seu ambiente e às diferentes situações que lhes irão surgir. Quando se estimula um bebé, está-se a abrir um leque de oportunidades e de experiências que o levará a explorar, adquirir perícia e habilidades de forma natural, e entender o que se passa à sua volta.


Segundo Moya (1978, p.19), estimulação precoce “supone el promocionar unos determinados estímulos que van a facilitar el desarrollo global del niño y por tanto a conseguir que su organismo llegue al máximo de sus potencialidades”. Para Salvador (1989, p.2), “La estimulación precoz consiste en suministrar una información adecuada a las peculiaridades perceptivas y elaborativas de un sujeto con disturbio en las capacidades para el conocimiento y utilización del mundo a través del lenguaje y comunicaciones sensoriales.”. Para Palacios (1980), para que haja um desenvolvimento físico e intelectual normal, é necessário estimular a criança e o organismo no seu período de crescimento. Com tudo isto, pretende-se potenciar ao máximo as capacidades intelectuais e físicas de todas as áreas sensoriais da criança, através da estimulação regular e contínua, sendo algo estruturado e de acordo com a sua maturação, baseando-se em técnicas científicas: “la estimulación precoz está determinada por su carácter sistemático y secuencial y por el control que se hace de dicha estimulación.” (Salvador, 1987, p.20 cit. Palacios- Cabrera, 1980).

Entende-se por intervenção precoce, segundo o Sistema Nacional de Intervenção Precoce na Infância criado pelo Decreto-Lei n.º 281/2009 de 6 de outubro e, mais tardem pelo Despacho n.º 405/2012, de 13 de janeiro, um “conjunto de medidas de apoio integrado centrado na criança e na família, incluindo ações de natureza preventiva e reabilitativa, no âmbito da educação, da saúde e da ação social.”. Segundo o mesmo despacho “a intervenção precoce junto de crianças até aos 6 anos de idade, com alterações ou em risco de apresentar alterações nas estruturas ou funções do corpo, tendo em linha de conta o seu normal desenvolvimento, constitui um instrumento político do maior alcance na concretização do direito à participação social dessas crianças e dos jovens e adultos em que se irão tornar.”; “quanto mais precocemente forem acionadas as intervenções e as políticas que afetam o crescimento e o desenvolvimento das capacidades humanas, mais capazes se tornam as pessoas de participar autonomamente na vida social e mais longe se pode ir na correção das limitações funcionais de origem.”.

O Decreto-Lei n.º 3/2008, de 7 de janeiro, art.27, faz referência aos apoios especializados a prestar na educação pré-escolar e nos ensinos básico e secundário dos setores público, particular e cooperativo, alegando que:

“1 - No âmbito da intervenção precoce na infância são criados agrupamentos de escolas de referência para a colocação de docentes. 2 - Constituem objetivos dos agrupamentos de escolas de referência: a) Assegurar a articulação com os serviços de saúde e da segurança social; b) Reforçar as equipas técnicas, que prestam serviços no âmbito da intervenção precoce na infância, financiadas pela segurança social; c) Assegurar, no âmbito do ME, a prestação de serviços de intervenção precoce na infância.”.

O grande objetivo da intervenção precoce é contribuir para um melhor desenvolvimento físico e intelectual da pessoa com deficiência, bem como a sua integração social. Tem também como objetivo o aumentar as possibilidades de aprendizagem destas crianças em tempo real, ou seja, no mesmo período de tempo das crianças normovisuais, pois a intervenção precoce da criança cega quando realizada de forma adequada, assume grande importância para diminuir dificuldades existentes consequentes da falta de visão.

Segundo a Tribuna Médica (1978, p.19) a intervenção precoce:


“está pensada para mejorar o prevenir los probables déficits en el desarrollo psicomotor de niños con riesgo de padecerlos tanto por causas orgánicas como biológicas o ambientales. Esta intervención precoz consiste en crear un ambiente estimulante, adaptado a las capacidades de respuestas inmediatas del niño para que éstas vayan aumentando progresivamente y su evolución sea lo más parecida a la de un niño normal.”.

Para haver um desenvolvimento adequado da criança cega, é de realçar e estimulação e intervenção em todas as áreas, desde a motora, a física, a social e a cognitiva; à orientação e mobilidade; às atividades da vida social e autónoma e ao desenvolvimento tátil-cinestésico como preparação para a escrita braille, bem como a importância das relações afetivas e da aceitação e do conhecimento, por parte dos pais, das potencialidades da criança. O papel da família mostra-se fundamental no apoio dado a estas crianças. Os pais e familiares das crianças cegas sentem, em geral, um grande sentimento de culpa e/ou vergonha e não sabem como reagir face aos problemas que surgem, não os conseguindo superar de imediato. Segundo Gauderer (1985) os pais de uma criança com deficiência encontram-se num luto eterno devido à perda do filho saudável que não tiveram. Na opinião do autor, o que estes pais sentem é que existe uma criança que vai substituir a que se perdeu idealmente e que tem uma lesão definitiva. Da mesma forma, Silva (1988) afirma que a autoestima dos pais sofre muito com o nascimento de uma criança com deficiência e, geralmente, esse sofrimento é acompanhado de culpa. Este sentimento deverá ser reconhecido e ultrapassado de forma a potenciar a intervenção precoce.

Assim, o programa de intervenção precoce deve privilegiar o envolvimento da família e implementar procedimentos específicos de avaliação/intervenção (Sandall, McLean & Smith, 2000; Stayton & Karnes, 1994; Trivette & Dunst, 2000; Wolery, 2000). Segundo Andrada (1991, p.6):  “é essencial detetar precocemente a deficiência na criança e dar-lhe desde os primeiros meses condições ótimas para o seu desenvolvimento promovendo uma estimulação precoce através de equipas interdisciplinares que incluem os médicos especialistas, terapeutas, psicólogos, enfermeiras especializadas, educadores e assistentes sociais.”.

Neste trabalho em equipa é também fundamental a participação ativa dos pais, pois eles são os principais agentes da estimulação, sobretudo nas idades precoces.

Considera-se então que a intervenção precoce é um conjunto de ações contínuas e sequenciais, que incluem diferentes técnicas e terapias, dirigidas e adequadas às crianças, dos 0 aos 6 anos, que apresentam problemas de desenvolvimento, e que têm como objetivo desenvolver ao máximo a criança e integrá-la dentro do meio familiar e social, melhorando as suas condições neurológicas e relacionais. As técnicas devem ser aplicadas o mais cedo possível, se possível, desde os primeiros dias de vida pois, segundo Carletto (2009), a necessidade de atendimento precoce, logo nas primeiras semanas de vida da criança que nasce cega ou que fica cega no início de sua vida, é proporcional à sua oportunidade de normal desenvolvimento motor, social, cognitivo e afetivo e acrescenta ainda que a estimulação das crianças cegas desde os primeiros dias de vida, é determinante para a otimização de seu desenvolvimento na escola.

A intervenção nos primeiros meses de vida, desenvolvendo os sentidos remanescentes (vestibular, tátil-cinestésico, auditivo e propriocetivo) é algo essencial para que as dificuldades sejam minimizadas, é o primeiro passo para que estas crianças se sintam realmente incluídas quando iniciarem o seu processo escolar no ensino regular. A par disto, os bebés ao nascer ainda não concluíram o seu processo de maturação do sistema nervoso central e isso dálhes uma grande plasticidade que mais tarde não terão e que, por isso, tem de ser aproveitada nestes primeiros anos de vida.

A inclusão precoce das crianças com deficiência no ensino regular é o que lhe vai permitir a sua adaptação e integração na sociedade. Por sua vez, a criança dita normal, através do contacto direto e diário com a criança com deficiência, aprenderá a comunicar e brincar com ela e a considerá-la como mais uma no meio dos restantes, quebrando logo ali barreiras futuras que pudessem vir a existir. Segundo Rodrigues (2001), o objetivo da escola é dar respostas diversas a alunos cuja única semelhança é serem diferentes, pois a diferença é aquilo que nos une enquanto característica comum. Assim, a escola tem de estar preparada para responder à diversidade de alunos que dela fazem parte, não olhando apenas para a diferenciação, mas sim para a intervenção que se pode fazer com aquelas crianças. Em termos educacionais, identificar uma deficiência revela-se insuficiente, é necessário sim intervir corretamente em cada caso.

2- Escola Inclusiva: Diversidade(s) e Diferença(s)

A aceitação das crianças cegas, a quem a natureza lhes exige um esforço maior para conseguir realizar quaisquer tarefas, por parte da família e da sociedade é fundamental para o seu desenvolvimento.

No que respeita à família, existe, segundo Andrada (1991, p.5) “uma grande deceção perante a deficiência, pois todos os pais anseiam naturalmente por uma criança física e psiquicamente normal.”. A sua reação varia ao longo do tempo. No início, a tendência é negar a deficiência, sobretudo se esta é pouco óbvia. Seguidamente, os pais culpam-se e rejeitam a deficiência. Quanto à sua reação perante a criança, segundo a mesma autora, “a atitude dos pais é habitualmente ambivalente com excessiva proteção e indulgência ou hostilidade e rejeição” (Andrada, 1991, p.5). Assim, no meio desta maré de sentimentos e de atitudes, falta muitas vezes à criança o essencial para o seu equilíbrio emocional e para o desenvolvimento das suas capacidades: a disciplina e o estímulo.

Quanto à aceitação por parte da sociedade, a pessoa com deficiência é ainda olhada com pena, atendendo apenas aos aspetos negativos e esquecendo-se das suas potencialidades.

Fazendo uma retrospetiva, essa rejeição da sociedade levou à criação de instituições, criando-se um mundo à parte, para onde iam, longe da família e dos amigos, criando-se um fosso ainda maior entre as duas realidades, “verdadeiros guetos que só por si favoreciam a segregação do deficiente e não estimulavam a sua integração social” (Andrada, 1991, p.6). Hoje em dia, esse tipo de apoio está ultrapassado, sendo o objetivo precisamente o contrário: integrar precocemente a pessoa com deficiência, sendo o seu lugar inserido na sociedade, com o afeto da família e dos amigos e com o estímulo social de todas as crianças da sua idade. Tal como afirma o autor Rodrigues (2013):

“hoje sabemos que as escolas especiais – independentemente da sua vontade, projeto e sentido benigno da sua missão – são estruturas que não são adequadas para preparar o aluno para uma vida de plena cidadania numa sociedade complexa e exigente como a nossa. Educar separadamente alunos por causa das suas dificuldades levar-nos-ia a uma situação insustentável: teríamos que começar por separar os alunos com Necessidades Educativas Especiais (NEE) e depois progressivamente todos os outros que vão evidenciando dificuldades, enfim uma situação insustentável até no mais elementar nível da gestão do sistema educativo”.

É então necessário que a sociedade saiba responder cada vez melhor a todo o tipo de crianças, o que é o mesmo que dizer responder à diversidade, aceitando a diferença. Uma das citações que melhor ilustra a aceitação da diversidade e da diferença é “todos temos o direito a ser iguais quando a diferença nos diminui e todos temos direito a ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza.” (Santos, 2001, p.193). Segundo este autor, o objetivo da escola é dar respostas diversas a alunos cuja única semelhança é serem diferentes, pois a diferença é aquilo que nos une enquanto característica comum. Assim, a escola tem de estar preparada para responder à diversidade de alunos que dela fazem parte, não olhando apenas para a diferenciação, mas sim para a intervenção que se pode fazer com aquelas crianças. Em termos educacionais, identificar uma deficiência não é suficiente, é necessário intervir corretamente naquele caso específico.

A resposta para toda esta problemática passa pela educação inclusiva, pois esta é uma abordagem humanística e democrática, que percebe o sujeito e as suas singularidades, que atende à diversidade inerente à espécie humana, respeitando-a, valorizando-a e não a descriminando, percebendo e atendendo às necessidades educativas de todos os alunos, com ou sem necessidades especiais, em salas comuns do ensino regular. É necessário haver um processo educativo que valorize as NEE e não a deficiência em si. Educação inclusiva é educar todos os alunos no mesmo contexto escolar, o que não significa desvalorizar as dificuldades dos estudantes, mas sim ver as diferenças, não como um problema, mas sim como diversidade. E é essa mesma diversidade, segundo a autora Alonso (2013), partindo da realidade da sociedade, que pode ampliar a visão de mundo e desenvolver oportunidades de convivência entre todas as crianças.

Segundo Rodrigues (2001), a diferenciação curricular positiva é um dos aspetos centrais que deve ser alterado quando queremos modificar a escola no sentido da inclusão. A educação de alunos com deficiência visual deve dar-se através de programas diferentes, desenvolvidos em classes especiais ou numa classe comum, usufruindo de um ambiente estruturado e securizante e recebendo sempre apoio do professor especializado, que faça uma boa gestão de tempos específicos e que utilize instalações, equipamentos, materiais, métodos e técnicas específicas adaptados à criança em causa, bem como algumas adaptações ou adições curriculares, onde o seu currículo tenha objetivos funcionais, mas que vão o mais possível ao encontro das mesmas áreas e atividades que se encontram nos programas regulares, tendo que se adaptar o processo de avaliação. Ainda segundo o mesmo autor, a proposta pedagógica da educação inclusiva passa pela oferta de oportunidades de aprendizagem diversificada para os alunos. Se a diferença é comum a todos e assumimos a turma como heterogénea, é importante responder a essa heterogeneidade em termos de estratégias de ensino e aprendizagem. Se uma escola não diferencia o seu currículo, não usa modelos inclusivos, então não promove a igualdade de oportunidades entre os seus alunos.

Quando é feita esta diferenciação ou flexibilidade curricular nos nossos sistemas, muitas vezes não o é numa perspetiva inclusiva. A criação de um sistema paralelo de educação, de turmas especiais ou de currículos alternativos, constitui estratégias de diferenciação, mas não necessariamente de inclusão. Diferenciação é diferente de inclusão, tal como integração é diferente de inclusão, pois incluir não é apenas integrar.

O termo “inclusão” usa-se no sentido de ser uma escola para todos, da inserção do aluno com deficiência na classe regular, que é o que defende Rodrigues (2003). A inclusão não significa tornar todos iguais, mas sim respeitar as diferenças. Rodrigues e Macário (2006) defendem uma educação inclusiva, uma diferenciação curricular positiva, pois acreditam que a única semelhança que partilham todos os seres humanos é a diferença, tendo de a aproveitar para o bem comum. Para que tal seja possível, é necessária uma reestruturação da cultura, da prática e das políticas vivenciadas nas escolas, da formação humana e académica dos professores e das relações escolafamília, de modo que as escolas respondam à diversidade de alunos, não olhando apenas para a diferenciação, mas sim para a intervenção e posterior inclusão que se pode fazer com aquelas crianças.

Assim, diferentes alunos devem frequentar a mesma escola, a mesma turma (tornando-a heterogénea), cumprir diferentes currículos para que seja uma verdadeira escola inclusiva, pois promover a igualdade é diferenciar os currículos. Só com estas medidas é possível cumprir os grandes objetivos da escola inclusiva: o crescimento, a satisfação pessoal e a inserção social de todos. A mais-valia da escola inclusiva é a adaptabilidade das competências às capacidades e motivações do indivíduo e o trabalho das competências sociais.

A diferenciação que se pretende é a que tem lugar num meio em que não separa os alunos, em que são educados em conjunto e se aproveita o potencial educativo de um grupo heterogéneo. Esta diferenciação pressupõe uma gestão pedagógica mais complexa àquela a que os professores estão habituados. Implica que os professores proporcionem diferentes pontos de partida, que realizem percursos de aprendizagem diferentes, para que se possam atingir patamares de objetivos e competências diferentes, segundo as necessidades de cada aluno. Mas esta responsabilidade de diferenciação curricular não passa apenas pelo professor, mas sim pelas estruturas da escola, turmas, horários, equipamentos, espaços, materiais, entre outros, pois a diferenciação do currículo é uma tarefa do coletivo da escola e engloba mais do que a gestão da sala de aula: implica uma abertura para uma nova organização do modelo de escola, e também, tal como afirma Rodrigues (2013) “para ser competentemente realizada a inclusão precisa de professores especializados, de outros técnicos, de apoio pedagógico, de acessibilidade, da montagem e funcionamento de um sistema de atenção particular às necessidades deste aluno e da sua família e comunidade.”. Só assim a "missão impossível" poderá ser ultrapassada. Já Farrel (2008, p.17 cit. Gartner e Lipsky 1989) defende a “inclusão total”, ideia de que todos os alunos com NEE deveriam ser educados em escolas regulares, onde “seria melhor que houvesse mais recursos e apoios, de acordo com a complexidade das NEE.”.

Lopes (2007) partilha da mesma opinião no que respeita a que todos os alunos devem estar integrados em salas regulares, sendo a favor de uma educação inclusiva e defendendo a diferenciação curricular positiva. No entanto, afirma, com base em investigações feitas sobre as adaptações e diferenciações curriculares em salas de aula onde existem alunos com necessidades educativas especiais, que estas práticas são a exceção e não a regra, considerando que a gestão flexível do currículo constitui uma tentativa fracassada de lidar com a heterogeneidade dos alunos nas salas de aula, pois a forma como o ensino está estruturado, não respeita os princípios gerais da aprendizagem: há uma avaliação seletiva, os tempos letivos são iguais para todos, as aulas são suportadas em planos estandardizados e dirigidas para alunos médios.

Os autores anteriormente citados defendem uma diferenciação curricular positiva, contudo, no que respeita à ação do professor do ensino especial, nomeadamente na sua presença dentro da sala de aula, os mesmos divergem de opinião. Rodrigues (2006) não defende a entrada do professor do ensino especial na sala de aula, durante as aulas de ensino regular, pois acredita que esse facto, por si só, é um fator de exclusão. Defende que este apoio dos serviços educativos adequados, ajustados às características e necessidades do aluno, deve ser dado noutros momentos, fora da aula regular. Por outro lado, João Lopes não vê que o facto do professor do ensino especial estar presente na aula regular seja, à partida, um fator de exclusão, pois os dois professores são para todos os alunos e porque vê o professor do ensino especial como um recurso para o professor do ensino regular, onde a colaboração tem de estar presente, embora tenha consciência de que esta constitui um acontecimento raro. Daí o autor falar do descontentamento, insatisfação e frustração dos profissionais de ensino especial, muitas vezes devido à incompatibilidade das metodologias de ensino típicas da educação especial com as metodologias típicas da educação regular. Sobre esta temática, Lopes (1997) chama a atenção para a diferença de metodologias da educação especial e da educação regular. A tentativa de juntar as duas tem tido resultados pouco positivos: não se consegue ensinar bem os alunos do ensino especial nem os do ensino regular, o que origina o desrespeito pela diversidade e diferença, o que tem de ser melhorado. Os autores Kauffman e Hallahan (1995) defendem que a educação especial lida com especificidades e consideram que haverá sempre alunos que necessitam de mais individualização do que a educação regular pode fornecer.

Na base da inclusão deve estar uma estrutura sólida e diversificada de oportunidades – inclusão essencial. Só depois disso é que se pode equacionar uma inclusão eletiva, em que o indivíduo, dentro das suas limitações, tenha um leque de opções a fazer nos estudos/aprendizagem e na transição para a vida ativa.

Uma das soluções encontradas foi a criação, através do Decreto-Lei n.º 3/2008 de 7 de janeiro art.4, 2 b), de uma rede de escolas de referência para a inclusão de alunos cegos e com baixa visão, com vista a concentrar meios humanos e materiais que possam oferecer aos alunos uma resposta educativa eficaz e com qualidade. De acordo com Rodrigues (2013): “hoje sabemos que a presença de alunos com NEE em escolas regulares não é devido ao sistema educativo ser “bonzinho” mas é um direito de todas as crianças.

Não só as crianças com NEE têm direito a ser educadas com os seus colegas sem NEE, como os alunos sem NEE têm direito a não ser privados do conhecimento, do convívio e da interação com os seus colegas que têm dificuldades. A Escola Inclusiva (EI) permite a todos os alunos um alargamento dos seus horizontes ao nível das relações humanas, da socialização e da aprendizagem.“

As escolas de referência para a educação de alunos cegos e com baixa visão, Decreto-Lei n.º 3/2008 de 7 de janeiro art.24, surgem, assim, como uma resposta educativa especializada. A criação destas escolas tem como objetivo garantir as adequações necessárias no que respeita ao processo de ensino e de aprendizagem, de carácter organizativo e de funcionamento, necessárias à organização dessa resposta. Segundo o mesmo Decreto-Lei, p.161:

“1 - As escolas de referência para a educação de alunos cegos e com baixa visão concentram as crianças e jovens de um ou mais concelhos, em função da sua localização e rede de transportes existentes.

2 - As escolas de referência a que se refere a alínea b) do n.º 2 do artigo 4.º, constitui uma resposta educativa especializada desenvolvida em agrupamentos de escolas ou escolas secundárias que concentrem alunos cegos e com baixa visão.

3 - Constituem objetivos das escolas de referência para a educação de alunos cegos e com baixa visão:

a) Assegurar a observação e avaliação visual e funcional; b) Assegurar o ensino e a aprendizagem da leitura e escrita do braille bem como das suas diversas grafias e domínios de aplicação; c) Assegurar a utilização de meios informáticos específicos, entre outros, leitores de ecrã, software de ampliação de caracteres, linhas braille e impressora braille; d) Assegurar o ensino e a aprendizagem da orientação e mobilidade; e) Assegurar o treino visual específico; f) Orientar os alunos nas disciplinas em que as limitações visuais ocasionem dificuldades particulares, designadamente a educação visual, educação física, técnicas laboratoriais, matemática, química, línguas estrangeiras e tecnologias de comunicação e informação; g) Assegurar o acompanhamento psicológico e a orientação vocacional; h) Assegurar o treino de atividades de vida diária e a promoção de competências sociais; i) Assegurar a formação e aconselhamento aos professores, pais, encarregados de educação e outros membros da comunidade educativa.

4 - As escolas de referência para a educação de alunos cegos e com baixa visão integram docentes com formação especializada em educação especial no domínio da visão e outros profissionais com competências para o ensino de braille e de orientação e mobilidade.

5 - As escolas de referência para a educação de alunos cegos e com baixa visão devem estar apetrechadas com equipamentos informáticos e didáticos adequados às necessidades da população a que se destinam.

6 - Consideram-se materiais didáticos adequados os seguintes: material em caracteres ampliados, em braille; em formato digital, em áudio e materiais em relevo.

7 - Consideram-se equipamentos informáticos adequados, os seguintes: computadores equipados com leitor de ecrã com voz em português e linha braille, impressora braille, impressora laser para preparação de documentos e conceção de relevos; scanner; máquina para produção de relevos, máquinas braille; cubaritmos; calculadoras electrónicas; lupas de mão; lupa TV; software de ampliação de caracteres; software de transcrição de texto em braille; gravadores adequados aos formatos áudio atuais e suportes digitais de acesso à Internet.

8 - Compete ao conselho executivo do agrupamento de escolas e escolas secundárias organizar, acompanhar e orientar o funcionamento e o desenvolvimento da resposta educativa adequada à inclusão dos alunos cegos e com baixa visão.”.


A criação destas escolas é ainda uma forma de dar resposta aos direitos das crianças: direitos humanos e princípios como justiça, solidariedade, igualdade e participação, dando seguimento a documentos internacionais e princípios constitucionais.


“A criação de escolas de referência para a educação de alunos cegos e com baixa visão poderá, ainda, proporcionar uma melhoria do processo de socialização destes alunos: ao proporcionar a cada um o contacto com o exemplo tangível de outros com as mesmas características, as mesmas limitações e protagonistas dos mesmos esforços de superação, o ambiente educativo de uma escola de referência pode estimular a sua autoconfiança e a sua autoimagem.”. (Matos, 2010, p.3).

Estas escolas poderão assegurar mais facilmente a abordagem de áreas curriculares específicas como leitura e escrita em braille, técnicas de orientação e mobilidade, atividades de vida diária, entre outras. As mesmas têm como objetivo: assegurar a observação e avaliação visual e funcional; assegurar o ensino e a aprendizagem da leitura e escrita do braille, bem como das suas diversas grafias e domínios de aplicação; assegurar a utilização de meios informáticos específicos (linhas e impressoras braille); assegurar o treino visual específico; orientar os alunos nas disciplinas em que as limitações visuais ocasionem dificuldades particulares (expressão plástica e expressão físicomotora) e assegurar o acompanhamento psicológico e a orientação vocacional, entre outros.

Os desafios que se impõem à educação são imensos, pois a população escolar é cada vez mais heterogénea. Todos os indivíduos são diferentes e têm necessidades específicas de educação, por isso a escola tem de aprender a crescer e a construir-se dentro de um contexto social heterogéneo e em permanente mudança, pois só assim conseguirá dar resposta à diversidade e à diferença. É importante reforçar que não é considerado diferente apenas o aluno com deficiência. Existem muitos outros sem diagnóstico que não aprendem e esses também necessitam de uma atenção particular. Assim, a Educação Inclusiva concebe a educação especial dentro da escola regular e transforma a escola num espaço comum, favorecendo a diversidade, pois vê que todos os alunos podem ter necessidades especiais em algum momento de sua vida escolar. Ou seja, os alunos com deficiências, ou que apresentem dificuldade de aprendizagem escolar, necessitam em alguns ou muitos momentos da sua vida e do seu dia-a-dia de individualização do ensino.

Embora esta não seja uma tarefa simples, tem-se vindo a melhorar no sentido de dar resposta a estas problemáticas, tal como afirmam Rodrigues (2003) e Lopes (1997), pois reconhecem o valor do alargamento da rede de educação especial ao longo dos últimos vinte e cinco anos. Tal constitui uma significativa vitória para o nosso país, que poucos anos antes apresentava indicadores praticamente nulos no que respeita ao apoio de crianças com deficiência. No entanto, grande e difícil é o caminho que ainda temos de percorrer. Rodrigues (2003) defende uma transição gradual na educação. O autor é contra as ruturas e as mudanças bruscas e repentinas nas reformas educativas, pois se assim for, considera que nem há tempo para ver o que de positivo tinha o modelo anterior, repescando-o para o atual, mas considera que há muitas mudanças a fazer. Apesar da escola inclusiva ser cara, pois implica profissionais qualificados e competentes, recursos e materiais específicos, maior é o preço da exclusão e da marginalização.

Tal como afirma Rodrigues (2013), uma escola saudável, uma Escola Inclusiva, é a que permite que todos os discentes vivam experiências o mais próximo possível da diversidade e quotidiano da sociedade. Precisamos de mudar para termos uma verdadeira Educação Inclusiva, respeitando o que sabemos, o que temos e o que queremos, e só quando conseguirmos alcançar este objetivo conseguiremos ter a Sociedade Inclusiva que tanto ambicionamos.

3- A propedêutica da leitura e da escrita no jardim-de-infância

No que respeita ao trabalho desenvolvido no jardim-de-infância, Ferrel (1996) afirma que a deficiência em si não afeta o que a criança é capaz de aprender cognitivamente, mas sim como a criança irá aprender. Assim, é de extrema importância o planeamento da estimulação das potencialidades da criança para que esta seja permanente ao longo do período pré-escolar, tal com afirma Enumo e Batista (2000) quando dizem que é de extrema importância dar à criança com deficiência visual, sistematicamente e de forma planeada, experiências que as outras crianças possuem.

Como já referimos anteriormente, a escola inclusiva deve cumprir um papel fundamental no processo educativo destas crianças. Assim, embora muitos destes alunos sigam o currículo do regime educativo comum, é preciso expandir o seu programa individual através de áreas curriculares particulares, pois há necessidade de explorarem determinados conteúdos específicos visando o seu sucesso educativo. Tal como refere Almeida (2002) a criança cega necessita trabalhar a mente e o corpo para conciliar o pensamento e a ação. Assim, o educador deve propor à criança experimentar várias situações de aprendizagem, para que ela possa descobrir e reconhecer o meio a que pertence. Para dar resposta a estas necessidades surgiu, no ano de 2008, a necessidade de adaptar para os alunos cegos e com baixa visão as orientações curriculares gerais existentes para o pré-escolar para alunos normovisuais, com o objetivo de “promover a participação dos alunos com alterações nas estruturas ou funções da visão no sistema de ensino e a aquisição de competências que lhes permitam autonomia e sucesso na escola e na vida.” (Mendonça et al, 2008, p.5).

A “publicação sobre Orientações Curriculares para Alunos Cegos e com Baixa Visão focaliza o currículo e a necessidade da sua expansão em algumas áreas básicas para a autonomia e integração social dos alunos, tais como as atividades da vida diária e a orientação e mobilidade. Visa, ainda, a aquisição de competências fundamentais para o seu sucesso educativo relacionadas com o domínio da leitura e da escrita, focando aspetos fundamentais do treino de visão, do braille e das tecnologias de informação, sem descurar as estratégias a que o professor deve recorrer para melhorar os níveis de atividade e de participação do aluno nos diferentes contextos de vida.” (Mendonça et al, 2008, p.5).

Iremos focar-nos na nossa temática, a aquisição de competências para o domínio da leitura e da escrita e, consequentemente, a sua propedêutica na educação pré-escolar.

A propedêutica é o ensino de algo, a parte introdutória de uma disciplina, um ensinamento preparatório ou introdutório, o conhecimento mínimo sobre algo, o conhecimento necessário para a aprendizagem, mas sem a proficiência.

O jardim-de-infância é um local privilegiado para aprendizagens, porque aqui todas as crianças podem interagir e brincar, cabendo ao adulto incentivar e organizar a cooperação entre elas, procedendo-se à inclusão, que tem como objetivo “incentivar as escolas a reconsiderar a sua estrutura, as metodologias de ensino, a formação de grupo de alunos e o uso de apoio a fim de responder às necessidades percebidas de todos os seus alunos.” (Farrel, 2008, p.24, cit. Kingsley, 1997).

Segundo Mendonça, et al (2008, p.7):


“(…) o educador é o construtor, o gestor do currículo, no âmbito do projeto educativo do estabelecimento ou do conjunto de estabelecimentos. O educador deve construir esse currículo com a equipa pedagógica, escutando os saberes das crianças e suas famílias, os desejos da comunidade e, também, as solicitações dos outros níveis educativos.”.

“Professores, em colaboração, procuram oportunidades para encontrar novas maneiras de envolver todos os alunos a partir da experimentação e da reflexão. Deve haver um acesso planeado a um currículo amplo e equilibrado, desenvolvido desde seus fundamentos como um currículo para todos os alunos” (Farrel, 2008, p.16), pois a inclusão é “assegurar oportunidades apropriadas de aprendizagem, avaliação e qualificação, para permitir a plena e efetiva participação de todos os alunos no processo de aprendizagem” (Farrel, 2008, p.17, cit. Wade, 1999), caminhando-se para a “inclusão total” que defende a ideia de que todos os alunos com NEE deveriam ser educados em escolas regulares, onde “seria melhor que houvesse mais recursos e apoios, de acordo com a complexidade das NEE” (Farrel, 2008, p.17, cit. Gartner e Lipsky, 1989).

Até há poucos anos atrás, defendia-se que a apenas seria importante a aquisição e aprendizagem da linguagem oral no ensino pré-escolar, sendo a abordagem da leitura e da escrita passada para o 1.º Ciclo. Niza (1998) afirma que, até há algumas décadas atrás, julgava-se que só se poderia pedir às crianças que escrevessem e lessem depois de serem alfabetizadas.

Atualmente sabe-se que, muito antes de entrar para o 1.º Ciclo, as crianças tentam imitar a escrita dos adultos, atribuindo significado à sua garatuja. Por isso, hoje defende-se que esta abordagem deverá ser integrada já no ensino pré-escolar, onde o educador de infância terá um papel primordial no processo da aquisição da leitura e da escrita. Este deve encorajar e motivar a emergência de comportamentos de leitura e escrita na criança, organizando os ambientes educativos que proporcionem estes processos, especialmente, que despertem curiosidade e empenhamento por parte da criança e promovendo atividades de qualidade, nunca esquecendo a bagagem linguística (oral ou escrita) que a criança já possui ou com a qual já contactou, tirando partido do que ela já sabe e valorizando os seus conhecimentos.

No que respeita à linguagem, segundo Niza (1998) há quatro diferentes níveis: escrita pré-silábica, escrita silábica, escrita com fonetização e escrita alfabética.

Na fase da escrita pré-silábica, as crianças utilizam letras, pseudoletras ou números, não deixando espaços entre as palavras; no nível silábico, as crianças utilizam uma letra para representar uma sílaba; no nível da escrita com fonetização a escolha das letras para representar as sílabas já não se faz ao acaso; por último, na escrita alfabética, as crianças já escrevem aproximadamente uma letra por som (fonema), mas não conhecem ainda as regras da ortografia. Esta aquisição deve ser um processo contínuo, que se inicia muito cedo, desde a altura em que as crianças descobrem que existe escrita, mesmo que ainda não associem nenhuma mensagem à mesma. Não se pretende que seja uma aprendizagem formal, mas sim um facilitador da emergência da linguagem oral e escrita. É importante que a criança entenda desde cedo que o que se diz se pode traduzir por palavras e o que está escrito se pode dizer, lendo.

Não obstante a maturidade para a leitura ou de disposição para a leitura, mesmo antes da entrada formal para a escola (1.º ciclo), etapa associada formalmente à aprendizagem da leitura e da escrita, as crianças são capazes de aprender um grande número de conhecimentos básicos sobre literacia e suas funções. As crianças apercebem-se diariamente dos sons e palavras impressas, explorando-as de diferentes formas e desenvolvendo competências cognitivas e linguísticas, a literacia emergente sendo esta, segundo Silva (1997, p. 66) “uma competência global para a leitura no sentido de interpretação e tratamento de informação que implica a leitura da realidade, das imagens e de saber para que serve a escrita, mesmo sem saber ler formalmente.”. Assim, têm de ser desenvolvidas diversas competências: ao nível da linguagem oral, do conhecimento sobre o impresso e do processamento fonológico. A par dos momentos lúdicos ocorre a aprendizagem, nomeadamente das três grandes áreas que constituem as ferramentas fundamentais para a aprendizagem da leitura e escrita: a fonética e fonologia, a perceção e a psicomotricidade.

Quanto à fonética e fonologia, tal como as crianças normovisuais, as crianças cegas necessitam desenvolver a consciência dos sons da fala. Para trabalhar esta consciência fonético-fonológica devem ser desenvolvidos muitos jogos de linguagem, como rimas; canções; histórias (Marques, 1991) a leitura frequente de livros de histórias por parte do educador é uma maneira apropriada para estimular o desenvolvimento de competências literárias); trava línguas; lengalengas; substituição de sons por palavras; classificação de palavras, identificando as que começam ou terminam no mesmo som; pedido de palavras que comecem com o mesmo som; imitação/identificação de diferentes sons de animais e objetos; segmentação de palavras; perceção de que as palavras são constituídas por sílabas e que as sílabas se decompõem em fonemas; contagem das sílabas através de batimentos; sintetização e reconstrução de palavras: dizer palavras dizendo todos os seus sons muito lentamente, para que outros a adivinhem; manipulação de palavras: se disser "ga" e depois "to", que palavra disse? Se esconder "ga" fica..."to"; se esconder "to" fica... "ga"; diálogo sobre letras e sobre o seu valor sonoro; entre outros.

Para Sim-Sim (1998, p.19):

“toda a criança que desenvolve a sua competência linguística, refletindo sobre os segmentos mínimos como os sons, vai favorecer uma melhor aquisição da leitura, porque vai redescobrir os segmentos gráficos a partir dos que vai trabalhando oralmente. O trabalho ao nível da oralidade revela-se assim algo igualmente indispensável para o desenvolvimento da aprendizagem da leitura e da escrita.”.

A mesma autora afirma ainda (1998, p. 19) “através da linguagem, recebemos, transportamos e armazenamos informação, usamo-la para comunicar, organizar e reorganizar o pensamento”. Para Sim-sim (1998, p.33) “o desenvolvimento da linguagem oral está intrinsecamente relacionado com a aprendizagem da leitura e da escrita e o conhecimento de ambas as vertentes da língua (oral e escrita) é indispensável para a integração e domínio da maioria dos conteúdos disciplinares que integram o currículo escolar dos alunos”.

Segundo VVAA (2009, p.4002), é igualmente importante “a aquisição e ou desenvolvimento da consciência lexical (enriquecimento da linguagem), do conhecimento sintático (compreensão de que as palavras se agrupam em frases com sentido) e da consciência fonológica (conhecimento e a capacidade de analisar e manipular os elementos que constituem a linguagem).”. O desenvolvimento da consciência fonológica é um instrumento fundamental para a aquisição da leitura e da escrita. O trabalho de concentração, atenção e memorização são também fundamentais neste processo de aprendizagem, pois assim as crianças serão capazes de recorrer aos conhecimentos trabalhados sempre que necessário.

Quanto à perceção, tal como já referimos anteriormente, esta mostra-se muito importante no auxílio da aprendizagem da leitura e escrita, na medida em que estas são trabalhadas partindo da sua perceção global e reconhecimento de palavras com significado (nome da criança e dos seus familiares, objetos de uso diário, entre outros), sempre associados a estímulos. Ao usar várias perceções: auditiva, visual (no caso dos normovisuais) e tátil, a aprendizagem da leitura e da escrita torna-se mais fácil, pois estabelece relações entre a forma gráfica da palavra (perceção visual), a forma fonológica (perceção auditiva) e os movimentos necessários para a escrever (perceção tátil).

A psicomotricidade contribui para a formação e estruturação do esquema corporal e tem como objetivo principal incentivar a prática do movimento em todas as etapas da vida de uma criança. Segundo Barreto (2000), o desenvolvimento psicomotor é muito importante na prevenção de problemas da aprendizagem e no trabalho da postura, da lateralidade e do ritmo. No pré-escolar, a criança procura experiências no seu próprio corpo, formando conceitos e organizando o esquema corporal. A abordagem da psicomotricidade irá permitir a compreensão da forma como a criança toma consciência do seu corpo e das possibilidades de se expressar por meio dele, localizando-se no tempo e no espaço. Por meio das atividades, as crianças divertem-se e criam, interpretam e relacionam-se com o mundo. Assim, devem ser desenvolvidos jogos e atividades lúdicas que potenciem as suas capacidades, tendo em conta a sua idade, o seu grau de desenvolvimento e os seus interesses, para que a criança tome consciência do seu corpo. A criança deve gatinhar, rolar, balançar, dar cambalhotas, equilibrar-se num pé, andar para os lados, caminhar, equilibrando-se, sobre uma linha no chão e utilizando sempre diversos espaços e materiais. Segundo Wallon (1995) o movimento não é simplesmente um deslocamento no espaço, nem uma simples contração muscular, mas sim uma relação afetiva com o mundo. Fonseca (1988) afirma que a psicomotricidade é atualmente concebida como a integração superior da motricidade, produto de uma relação inteligível entre a criança e o meio. A educação psicomotora deve ser trabalhada na sua globalidade, utilizando as funções motoras, percetivas, afetivas e sócio-motoras, pois assim a criança explora o ambiente, passa por experiências concretas, indispensáveis ao seu desenvolvimento intelectual, e é capaz de tomar consciência de si mesma e do mundo que a rodeia.

Todas estas áreas, com o auxílio de diversos materiais, como o DVD, o rádio com leitor de CDS, a máquina de escrever e o gravador áudio são instrumentos de apoio, equipamentos que podem ajudar a criança e o educador no processo de aprendizagem da leitura e da escrita.

Assim, segundo uma perspetiva socioconstrutivista do desenvolvimento e da aprendizagem da criança, o educador tem um papel crucial no processo da leitura e da escrita no pré-escolar. Este deve estimular o processo de aprendizagem desde muito cedo, potenciando o desenvolvimento cognitivo e da consciência fonológica da criança nestas idades. Deve estar atento às manifestações que a criança apresenta no sentido de querer aprender a ler ou a escrever. É a partir destas pistas por elas fornecidas que o educador deve agir, tirando partido de diversas situações que surjam, das experiências reais e concretas das crianças, de acordo com os seus conhecimentos, capacidades, interesses e necessidades. Para Mata (2006, p. 70), “é necessário, em todas as idades, contextualizar as aprendizagens em situações reais e significativas para as crianças, explorar diferentes funções da leitura e da escrita, promover a reflexão e a utilização de múltiplas formas de escrita e de múltiplos tipos de leitura”. Tal como Freire (1996, p.22), "eu digo que ler não é só caminhar sobre as palavras, e, também não é voar sobre as palavras. Ler é reescrever o que estamos lendo. É descobrir a conexão entre o texto e o contexto do texto, e também como vincular o texto/contexto com o meu contexto, o contexto do leitor". Para Horta (2007, p. 10) “a promoção da descoberta/aprendizagem da leitura e escrita no jardim-de-infância só faz sentido se for funcional, interessante, lúdica e desafiadora”.

A sala de aula deve criar um ambiente de vida que responda de modo particular às necessidades das crianças. Deve ser um lugar agradável, confortável e adaptado ao grupo de crianças que a frequenta. Como refere Craidy e Kaercher (2001, p. 73) “ao pensarmos no espaço e materiais para as crianças devemos ter em consideração que o ambiente é composto por gosto, toque, sons e palavras, regras de uso do espaço, luzes e cores, odores, mobílias, equipamentos e ritmos de vida.”. De acordo com Brickman e Taylor (1991, p. 154) “para a definição das áreas e dos materiais que lá se colocam, importa observar as crianças, os seus interesses, as fases de desenvolvimento, as culturas”.

O educador pode organizar a sala de forma autónoma, prática e eficaz para os seus alunos sem ou com deficiência visual (etiquetar todos os materiais que considerar importante, pôr os objetos ao alcance das crianças; utilizar materiais mais adequados para cada aluno).

Tal como acontece com a criança normovisual, todo o trabalho preparatório da leitura e da escrita deve ser proporcionado à criança cega no jardim-de-infância. As metas de aprendizagem para a área da linguagem oral e da abordagem à escrita são: domínio da consciência fonológica, reconhecimento e escrita de palavras, o conhecimento de convenções gráficas e a compreensão de discursos orais e interação verbal. Através da promoção de atividades com o intuito de desenvolver estes pré-requisitos, a criança cega ficará munida das competências necessárias para a aquisição da leitura e da escrita no 1.º ano do primeiro ciclo, tal com as crianças normovisuais.

Posteriormente, antes que a criança com deficiência visual ingresse na escola regular, o professor de ensino especial dará à escola detalhes da avaliação visual do aluno e as suas implicações educacionais, alertando para a importância dos cuidados a ter na sala de aula.

4- A aprendizagem da leitura e da escrita no 1.º Ciclo

É preciso entender a importância do processo de transição do ensino pré-escolar para o 1.º Ciclo como fator que contribui para uma progressão de sucesso nas aprendizagens das crianças, nomeadamente no domínio da linguagem oral e escrita.

Os alunos cegos, na entrada para o 1.º Ciclo do Ensino Básico, podem apresentar um atraso no desenvolvimento global, devido à dificuldade de interação, apreensão, exploração e domínio do meio físico onde se encontra.

Para minimizar este eventual atraso, eles necessitam de ter experiências significativas que são o que dão significado ao mundo onde se inserem, feitas através de vias sensoriais alternativas (tato, audição, olfato e paladar), pois a ausência das mesmas prejudica a compreensão do espaço e do tempo, bem como a aquisição de conceitos que são necessários à aprendizagem da leitura e da escrita, tal como consta no Currículo e Programas de Educação Especial, do Ministério da Educação, para que exista uma equidade educativa, o sistema e as práticas educativas devem assegurar a gestão da diversidade, utilizando diferentes tipos de estratégias que permitam responder às necessidades educativas dos alunos. Assim, a escola inclusiva implica a individualização e personalização de todos os alunos.

Para se compreender o processo de aprendizagem da leitura e das escritas pelas crianças cegas, é essencial primeiramente apresentar o processo de alfabetização das crianças normovisuais. Este processo é algo por onde passam todas as crianças e os métodos utilizados pelas normovisuais podem ser os mesmos dos usados pelos cegos, sendo que neste último é necessário realizar algumas adaptações.

A aprendizagem da leitura e da escrita é algo que ocorre devido à curiosidade das crianças, havendo por isso necessidade de dispor de recursos materiais que as levem a aprender de uma forma mais ativa.

Para Soares (1985, p.19-24), ”a alfabetização é um processo permanente, que se estende por toda a vida, não se esgotando na aprendizagem da leitura e da escrita. Faz parte da natureza humana a procura de novos conhecimentos, e essa busca permanente faz com que o homem produza novos conhecimentos, mediados pela linguagem oral ou escrita.”.

A criança normovisual, dados os estímulos visuais que recebe diariamente, é estimulada a aprender a leitura e a escrita, até por imitação dos outros, pois desde muito cedo tem contato visual com estes domínios, o que funciona como facilitador para o processo de alfabetização. É comum ver crianças a folhear revistas, jornais e livros, tal como também é natural vê-las a “escrever”.

Segundo Ferreiro e Teberosky (1985), a criança normovisual, quando ingressa no 1.º Ciclo, já traz consigo uma ampla bagagem de saberes e conhecimentos no que respeita à leitura e à escrita.

Segundo Barbosa (1992) pode haver dois métodos para o ensino da leitura e da escrita:

  • método sintético ou fonético, parte da unidade para o todo. O ponto de partida é o estudo dos elementos da língua (letra, fonema, sílaba). Este tem como principal objetivo ensinar ao aluno o código no qual os sons são convertidos em letras ou grafemas, ou vice-versa, separando inicialmente a leitura e o significado;

  • método analítico ou silábico, em que as sílabas se combinam para formar palavras e, posteriormente, frases e textos.


Para ambos os métodos devem ser apresentados conteúdos significativos e adequados à idade das crianças em questão.

Quanto à alfabetização das crianças cegas, o seu processo de aprendizagem irá realizar-se por meio dos outros sentidos (tato, olfato, audição, paladar), utilizando o Sistema braille como principal meio de comunicação escrita.

São vários são os fatores que interferem na aprendizagem da leitura e escrita braille: a organização espaço-temporal; a interiorização do esquema corporal; a independência funcional dos membros superiores; a destreza manual; a coordenação bimanual; a independência digital; o desenvolvimento da sensibilidade tátil; o vocabulário adequado a idade; a pronúncia correta; a compreensão verbal; a descriminação auditiva (consciência fonológica); a motivação para a aprendizagem; o nível geral de maturação e o trabalho do docente.

Ao contrário da criança vidente, a bagagem trazida pelo aluno cego na entrada para o 1.º Ciclo, no que respeita a conhecimentos ao nível da leitura e da escrita, é menor. Tal como referimos, antes de aprender a escrever e a ler, a criança normovisual tem já algumas conceções prévias sobre o tema, pois contactam diariamente com ambos os domínios e muitas dela desenvolvem hábitos de leitura e escrita desde muito cedo, muitas vezes simplesmente por imitação dos outros. Já a criança cega, segundo Almeida (2002, p.22), “ (…) não passa com tal naturalidade por essas experiências enriquecedoras. Faltalhe a condição de imitar, [e ela] acaba, por essa razão, não tendo reais oportunidades de aprendizagem. O ato da escrita tão simples e prazeroso para uma criança vidente transforma-se numa lacuna para ela nos primeiros anos de sua vida.“. Assim, a criança cega demora algum tempo a entrar no universo do ler escrever, pois o sistema braille não faz parte do dia-a-dia, uma vez que só os cegos o utilizam, e devido à já referida falta de capacidade de imitação. Para além disso, ao contactarem com a escrita e a leitura, muitas vezes apenas nos 5 anos, cria-se um entrave e um atraso no processo de alfabetização. Também o código braille, tal como a escrita faz do quotidiano dos normovisuais, deveria fazer parte do universo da criança em diversas situações do dia-a-dia, mesmo que ela ainda não saiba decifrar este código. Quer na escola, quer em casa, esta forma de escrita devia estar presente para identificar objetos, brinquedos, nomes, nas portas, na mobília, entre outros.

Assim, o ensino da linguagem escrita tem de ser levado a cabo por meio de estratégias capazes de respeitar as características das crianças e, simultaneamente, despertar-lhes o interesse e o desejo de cada uma. Elas precisam de experiências físicas e contactos diretos com os objetos, para além da uma permanente interação verbal com os adultos e com as outras crianças com quem se relacionam, para conseguirem aprender sobre o que a rodeia.

Para além disto, é essencial que trabalhem o tato desde muito cedo para facilitar o processo de alfabetização.

O trabalho tátil, como já referimos anteriormente, é um pré-requisito essencial para minimizar as dificuldades da criança cega na alfabetização. O contato com materiais com diversas formas e texturas, com o objetivo de desenvolver seu sentido tátil, é essencial para a aprendizagem do braille. A destreza tátil e a coordenação manual precisam estar desenvolvidos, pois tanto a técnica da leitura como a escrita dependem de movimentos sincronizados das mãos e da perceção tátil. Por esse motivo, as crianças cegas devem ser estimuladas desde cedo no que diz respeito à exploração do sistema háptico (o tato ativo) através de atividades lúdicas. Devem desenvolver um conjunto de símbolos, as simetrias e as dificuldades de perceção de cada fonema.

O ensino do Sistema braille dá-se, inicialmente, através de instrumentos como a reglete e o punção (Figura 3). Mais tarde, a criança usa a máquina de braille (Figura 4), pois esta exige mais força e mais coordenação. A reglete é constituída por duas placas de metal ou de plástico, fixadas de um lado por dobradiças, de forma a permitir a introdução do papel. Isso permite à pessoa cega escrever os pontos em relevo, pressionando o papel com o punção. Na reglete, escreve-se da direita para a esquerda, na sequência normal das letras ou símbolos, mas lê-se da esquerda para direita, como a escrita dos com visão. Já na máquina de braille, a escrita obedece às mesmas convenções da escrita em tinta, pois a escrita e a leitura são realizadas no mesmo sentido e do mesmo lado da folha de papel.
 

    
Figura 3                                                              Figura 4


Também se utilizam materiais como as células braille aumentadas (Figura 5), material impresso em braille, livros em braille (Figura 6), material em relevo entre outros utilizados com crianças com visão, mas adaptados.


Figura 5

      
Figuras 6 a-b


Existem algumas semelhanças entre o processo de escrita dos com visão e o sistema de leitura-escrita braille. Para Almeida (2002), a principal semelhança é que as crianças cegas passam pelas mesmas etapas de alfabetização do que as crianças normovisuais e têm a mesma vontade de aprender, contudo têm de ser mais estimuladas. Importa que o aluno compreenda a linguagem escrita, as suas regras, a sua função, e que tenha interesse por aprender. Porém, o que acontece muitas vezes é que, como decifrar o sistema braille é algo que se prende com a descodificação percetivotátil, isso não garante a interpretação necessária ao processo de leitura, e não basta ler, é necessário atribuir sentido e significado ao que lê.


A falta de material didático, a falta de formação dos professores do ensino regular, em alguns casos o contato tardio com a escrita braille, e a não aceitação, por parte do aluno cego ou da sua família, da sua limitação sensorial, são outras dificuldades que existem no processo de alfabetização da criança cega.

O papel do professor torna-se assim essencial no ensino da leitura e da escrita. Falsarella (2004) salienta que o docente não é apenas responsável por uma mera transmissão de conhecimentos. Não basta apenas ter boa formação teórica, deve tornar-se reflexivo e procurar aprendizagens que vão ao encontro da alfabetização de cegos para poder aplicar os conhecimentos pertinentes na sala de aula e realmente ajudar os seus alunos.

Não há um método ideal para alfabetizar o aluno cego. Contudo no caso do tato, a perceção faz-se das partes (letras, sílabas e palavras) para o todo.

Assim, para Almeida (2002) o método sintético é um dos que dá melhor resultado para alfabetizar crianças cegas, pois parte da unidade para o todo, enquanto o método analítico parte do todo para a unidade. O trabalho de alfabetização de crianças cegas será mais fácil e eficaz se estas características e suas implicações pedagógicas forem compreendidas pelo professor. Tal como acontece com os alunos com visão, o importante é que o professor conheça o aluno e pense qual o método que melhor se adequa a ele, fazendo desse processo algo lúdico e atrativo. Segundo Freire (1996) é muito importante que o professor avalie a sua prática pedagógica para melhorar a sua atuação, os seus recursos didáticos e pedagógicos.

A alfabetização é muito importante, quer para a formação de uma criança cega quer para a normovisual. O que determina o sucesso desse processo são as estratégias utilizadas pelos professores. Ensinar a leitura e a escrita a crianças cegas não difere muito de ensinar a crianças normovisuais, contudo é necessário adaptar o processo para ultrapassar as lacunas consequentes da falta de visão. Para que tal seja eficaz, é essencial que os professores tenham conhecimentos na área para melhorar a sua prática. Uma aprendizagem eficaz permitirá às crianças cegas tornarem-se autónomas e irá abrir-lhes portas para o sucesso.

5- Leitura a tinta Vs Leitura braille

O acesso dos normovisuais à informação pode ser feita de várias formas, entra as quais a leitura a tinta. Também os cegos podem aceder à informação escrita através da utilização de recursos informáticos, contudo o mais utilizado é o sistema de leitura-escrita braille.

O braille é um sistema de leitura através do tato, utilizado pelos cegos, e inventado pelo francês Louis Braille, em Paris, no ano de 1827. Louis Braille perdeu a visão aos três anos. Quatro anos depois, entrou no Instituto de Cegos de Paris. Em 1827, com dezoito anos, tornou-se professor desse instituto. Em 1829 publicou o seu método e, por ser um sistema eficaz, tornou-se utilizado até aos dias de hoje. É um alfabeto, formado por combinações de pontos sobre uma matriz de base 3 x 2 em alto relevo, pontos esses que são captados pela pele dos dedos. A partir dos seis pontos, é possível fazer 63 combinações que podem representar letras simples ou com acentos, pontuações, números, notas musicais e sinais matemáticos.

De acordo com Sá e Magalhães (2008), para a realização da escrita ou leitura em braille é essencial que a criança conheça convenções, assimile conceitos, desenvolva habilidades e agilidades táteis. É fundamental que a criança cega tenha uma rigorosa preparação quanto à discriminação tátil, pois é através dela que vai perceber o mundo e vai apropriar-se do sistema de escrita braille.

Os processos psciológicos acionados para a leitura-escrita através do tato são diferentes dos acionados para a leitura-escrita através da visão. A leitura braille é feita com a ponta dos dedos indicadores de uma mão, deslizando os dedos num suave movimento através das linhas, captando a configuração dos pontos que constituem as letras. A leitura é feita letra a letra, sendo o tempo de leitura de uma palavra superior ao do reconhecimento de cada uma das letras que a formam. A velocidade de leitura de um leitor cego experiente, não excede as 114 palavras por minuto, enquanto a média dos normovisuais é de cerca de 280 palavras por minuto.

Existem grandes diferenças entre a leitura braille e a leitura visual. A leitura visual, a tinta, é feita através de rápidos movimentos oculares, conseguindo perceber mais do que uma palavra na totalidade. No caso do braille, a leitura é feita com a ponta dos dedos indicadores das mãos, dependendo do grau de habilidade de leitura. Para o ensino do braille, num primeiro momento, devem ser usadas celas de tamanho aumentado para a eficácia se tornar ainda maior.

A sensibilidade tátil obriga a uma exploração letra a letra que é, obrigatoriamente, mais lenta que a visual e que obriga a uma grande capacidade de memória. Contudo, Batista (2005) afirma que não é só o tato que tem o caráter sequencial. A música, os livros e os textos são formas sequenciais de transmissão de informação e, nem por isso, são consideradas melhores ou piores do que a informação recolhida com os olhos. Pelo contrário, frequentemente se diz que ler um livro permite um aprofundamento maior da história do que ver o filme.

O Sistema braille é o melhor processo pelo qual um cego poderá aperfeiçoar a acentuação, a pontuação e a ortografia, conteúdos gramaticais onde há mais dificuldades no uso diário. A memorização da grafia correta das palavras dá-se através de duas fontes: pela visão ou pelo tato, no caso das pessoas cegas.

Segundo Rosa e Ochaíta (1995) sendo o tato, para os cegos, a via por excelência do acesso à informação, o desenvolvimento das habilidades percetivas táteis afeta o conhecimento do meio.

No desenvolvimento teórico da nossa investigação abordamos a temática da cegueira, a forma como ela se integra num mundo predominantemente visual, as características da criança cega e a intervenção a realizar com estas crianças para uma iniciação proficiente à leitura e à escrita.

Temos a intenção de perceber de que forma é trabalhado o desenvolvimento tátil-cinestésico e a perceção háptica na educação préescolar, por forma a munir os alunos cegos das mesmas ferramentas do que os normovisuais no que respeita aos pré-requisitos para a aquisição da leitura e da escrita no 1.º ano de escolaridade.

Assim, e de acordo com o nosso interesse investigativo, questionámonos sobre Como se processa a propedêutica da leitura e da escrita, no jardim-de-infância, nas crianças cegas, por forma a terem sucesso no 1.º Ciclo do Ensino Básico.

FIM
 

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A Propedêutica da Leitura e da Escrita na Criança Cega
excerto: caps 2, 3 e 4
Dissertação apresentada à Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti para obtenção do grau de Mestre em Ciências da Educação – Área de Especialização em Educação Especial
Candidata: Ana Raquel Ribeiro Amador Alves Domingues
Orientação: Doutora Maria Isabel Santo de Miranda Cunha Porto, julho de 2014
 

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20.Jul.2025
Maria José Alegre