
4.Jan.1809 — 6.Jan.1852
Se é verdade que a escrita em geral condiciona e modela de certa forma a
estrutura lógica e o alcance do pensamento do homem moderno, o braille em
especial tende particularmente a acentuar esse fenómeno, em razão da sua
perfeita adequação psicofisiológica e da impressionante harmonia que realiza com
o sentido do tacto. Efectivamente, se a visão admite com maior ou menor
dificuldade a coexistência de diferentes formas de representação escrita,
assentes em diversos códigos e processos semióticos, o tacto, pela sua matriz
eminentemente analítica e pela especificidade do respectivo campo preceptivo,
exige um sistema de representação escrita único e perfeitamente ajustado ao tipo
particular do seu funcionamento sensorial. O braille surge, então,
inevitavelmente, como a resposta superior que só o superior engenho de um cego
genial poderia proporcionar, por apenas ele possuir a vivência directa e
experimentada da centralidade do tacto ria sua relação com o mundo. Não foi
impunemente que o braílle se afirmou como ”meio natural de leitura e escrita das
pessoas cegas”: é que, mais do que a escrita vulgar normalizada, ele justifica
incontestavelmente o estatuto que lhe é conferido em tão feliz asserção.
Sem o Sistema Braille, seria hoje possível aceder à informação escrita
nomeadamente através dos modernos meios de registo e síntese de voz, mas não
disporíamos de um instrumento valorizador e potenciador do tacto que nos permite
penetrar no âmago da palavra escrita com a eficácia do olhar e talvez com mais
profunda intimidade.
Não esqueçamos que o tacto é, por excelência, o sentido da proximidade e da
relação íntima, aquele que normalmente reservamos para as situações de maior
envolvimento afectivo-emocional! Quem pratica ou apregoa o abandono do braille e
a sua substituição por recursos assentes na audição, não imagina até que ponto
está a preconizar a renúncia de algo de verdadeiramente sublime e único, de uma
enorme riqueza humana e de um alcance psicológico incalculável.
As palavras eloquentes de T. V. Crammer sugerem inequivocamente a natureza
quase transcendente que o braille reveste: ”Há qualquer coisa de místico,
miraculoso e não inteiramente compreendido que acontece quando os dedos
treinados e experientes de um leitor cego desvendam os padrões simétricos dos
pontos braille que transferem para a sua mente consciente palavras, pensamentos,
ideias e emoções provindos de um amigo ou de pessoas há muito desaparecidas.” De
facto, o braille não constitui um mero código mais ou menos secreto que opera a
transposição dos símbolos da escrita vulgar para sinais tangiveis perfeitamente
dimensionados ao espaço perceptivo da polpa do dedo: é uma forma de sentir, de
se apropriar, de se relacionar, de combater a indelével condição vivencial que o
indivíduo cego carrega consigo; o braille possui um calor próprio, uma emoção,
um afecto, uma carga profundamente humana que deriva da natureza mais intrínseca
do tacto, esse sentido ainda tão insatisfatoriamente estudado e compreendido e
que os olhos tendem a desvalorizar porque ele representa potencialmente uma
mais-valia susceptível de ameaçar o seu domínio omnipotente e sacrossanto.
Mais do que um código ou um sistema que me permite aceder à leitura e à escrita,
o braille assume para mim o papel de um prolongamento do meu próprio corpo, uma
parte integrante da minha forma de estar e sentir ou percepcionar o mundo
envolvente. A célula braille e a matriz básica de seis pontos que nela se
inscreve configuram dalgum modo a minha relação com as coisas e as ideias, como
se constituíssem uma rede, uma membrana quadriculada que se interpõe entre mim e
o mundo. Para mim, o braille está na ponta dos meus dedos como se desde sempre
lá tivesse estado, como se fosse uma consequencia natural de sentir e tocar,
autêntica forma instintiva de perceber e enfrentar a realidade exterior. Nesta
medida, o braille é para mim uma paixão constitutiva, um ”órgão vital” de
apropriação do mundo, que eu não
dispensaria nem em troca do mais sofisticado e eficaz processo de
leitura/escrita. A Louis Braille fico a dever, mais do que o acesso ao mundo da
escrita e da cultura literária e científica, a dádiva de urna Prótese” pessoal,
de um modelo cognitivo-sensorial de comunicação, de um fecundo instrumento
gerador capaz de conduzir a uma verdadeira estética do tacto.
Nos 150 anos da morte de Louis Braille, a mais significativa homenagem que cada
um de nós pode prestar à sua memória é aceitar essa prodigiosa dádiva que nos
legou, usar e abusar do seu Sistema,
ajudar ois seus potenciais destinatários a superar quaisquer ideias
preconceituosas ou associações de carácter estigmatizante que envolvam a imagem
do braille, experimentando-o sem subterfilgios, e, acima de tudo, promover
incansavelmente a sua prática que nos enriquecerá como seres pensantes e como
seres sensíveis.
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VÍTOR REINO
Nascido a meio da década de 50, perdeu a visão aos seis anos em consequência
de um violento acidente e descobriu a magia do braille com nove anos no Instituto
Branco Rodrigues. Psicólogo no Ministério da Educação desde 1983, é membro da
'Comissão de Braille' e da 'Comissão de Leitura para Deficientes Visuais',
actividades que procura compatibilizar com o estudo e a prática da Música.
in 'Mãos Que Lêem'
Testemunhos a Louis Braille
150 Anos da Morte de Louis Braille
Edição
Comissão de Braille,
2003
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4.Jan.2017
publicado
por
MJA
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