
Imagem de St.ª Luzia - Convento
de S. Francisco, Beja
RESUMO: Este trabalho tem por objetivo a
produção de material didático inclusivo com conteúdo de Botânica para estudante
com deficiência visual no ensino médio juntamente com uma sugestão de aplicação
de uma sequência didática. Nesse sentido, foi produzido um modelo biológico de
uma planta Monocotiledônea usando diferentes materiais para representar aspectos
da anatomia e morfologia peculiares a esse grupo das Angiospermas. A pesquisa
ocorreu durante o curso de especialização em Meio Ambiente e Agroecologia do
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Baiano – IF BAIANO, Campus
Valença, no ano de 2022. A metodologia consiste em três etapas distintas, sendo
realizado um levantamento bibliográfico das características necessárias para a
elaboração de um recurso didático inclusivo, a produção do modelo didático e a
sugestão de uma sequência didática para uso do material em aulas de Botânica,
respectivamente. Concluímos que a produção de um material didático inclusivo com
conteúdo de Botânica, abordando temas relacionados ao Meio Ambiente, usando uma
sequência didática pode contribuir para a efetivação da Educação Inclusiva nas
escolas ao facilitar a aprendizagem dos alunos com deficiência visual. O modelo
facilitará a prática pedagógica no Ensino de Biologia contribuindo para o
combate a Cegueira Botânica oportunizando a todos os estudantes conhecer sobre a
imensa importância das plantas para a biodiversidade.
Introdução
A educação de qualidade é um direito que, ao ser exercido pelo cidadão, pode ser
considerado um dos pilares da igualdade social no Brasil e no mundo. Para
garantir uma educação mais equitativa, muitos professores têm buscado novas
estratégias de ensino inclusivas (BORGES; DIAS, 2014). Uma das metodologias
utilizadas tem sido a construção de modelos didáticos na perspectiva inclusiva,
que vem contribuindo bastante para a efetivação de um processo de ensino e
aprendizagem significativos, visto que estes produtos são utilizados como
facilitadores na relação entre professor, aluno e conteúdo e auxiliam no
desenvolvimento cognitivo (BARBOSA et al., 2019).
Quando o professor aborda questões relacionadas ao Meio Ambiente em uma aula de
Biologia é comum descrever os organismos que compõem os biomas, os processos que
envolvem a formação de cada ecossistema, a complexa rede trófica, a influência
do clima para a evolução das espécies, entre outros assuntos. Os alunos podem
contemplar a beleza da natureza nos documentários sobre a vida selvagem na
televisão ou ver belíssimas imagens de animais nos livros didáticos. Contudo,
segundo dados do Censo 2016 do Inep, 57,8% das escolas brasileiras contavam com
alunos com deficiência incluídos em classes comuns.
Isso significa que alunos com deficiência visual estão inseridos em classes
regulares e precisam receber uma educação de qualidade utilizando-se para isso
de “currículos, métodos, técnicas, recursos educativos e organização específicos
para atender às suas necessidades” (BRASIL, 1996), conforme preconiza o Art. 59
da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDBEN - nº 9. 394. Cordeiro
(2005) afirma que a aprendizagem está relacionada aos conhecimentos captados
através dos sentidos (tato, visão, audição, olfato e paladar) e enviados ao
cérebro, onde ocorre a elaboração intelectual.
Com a Lei nº 10.436/02 (BRASIL, 2002) a Língua Brasileira de Sinais (Libras) foi
inserida no currículo dos cursos de formação de professores na forma de
disciplina obrigatória para o exercício docente, ou seja, essa legislação
estabelece que as instituições de ensino preparem os licenciados para receber os
alunos com deficiência auditiva em suas salas de aula. No entanto, quando se
trata de alunos com deficiência visual não ocorre nenhuma orientação normatizada
no currículo ainda durante a graduação.
Segundo Carvalho, Nunes-Neto e El-Hani (2011), o ensino de biologia possui uma
quantidade enciclopédica de conteúdos abordados de forma fragmentada nos livros
didáticos. Nos alunos com deficiência visual a ausência do sentido da visão
dificulta bastante o entendimento dos conteúdos, devidos aos assuntos abstratos
inerentes ao Ensino de Biologia (BORGES; DIAS, 2014). De acordo com Queiroz et
al., (2012), quando se trata de materiais didáticos que abordem estratégias de
ensino para alunos com deficiência visual não estão disponíveis muitas opções no
Ensino de Biologia.
Contudo, não somente os alunos com deficiência visual têm dificuldades em
assimilar os conceitos biológicos. Quando se trata do ensino de Botânica, ramo
da biologia que estuda os organismos vegetais, Salantino & Buckeridge (2016, p.
178) afirmam que “[...] parece ser uma característica da espécie humana perceber
e reconhecer animais na natureza, mas ignorar a presença de plantas”. Ramos &
Silva (2013) ressaltam que muitas pessoas apresentam desprezo em relação à área
da Botânica, durante o processo de ensino e aprendizagem dessa disciplina.
De acordo com Silva & Sano (2016), o conhecimento em biologia vegetal é tão
insatisfatório que as plantas raramente são consideradas como algo mais que
componentes da paisagem ou objetos de decoração. Ao negligenciar o conhecimento
botânico as pessoas se tornam portadores do que se denominou “Cegueira Botânica”
(ARRAIS; SOUSA; MASRUA, 2014). O conceito de “Cegueira Botânica” foi proposto
originalmente por Wandersee & Schussler no ano de 1999 em um artigo, de língua
inglesa, denominado “Preventing plant blindness” que traduzindo para o português
significa “Prevenindo a cegueira das plantas” (WANDERSEE & SCHUSSLER, 2002).
O termo “Cegueira Botânica” caracteriza a incapacidade de reconhecer a
relevância das plantas como parte integrante da biosfera e das suas interações
com o nosso cotidiano, da falta de percepção dos aspectos estéticos e biológicos
exclusivos dos vegetais, além da concepção de inferioridade da Botânica em
relação à Zoologia (NEVES; BÜNDCHEN; LISBOA, 2019). Ursi et al., (2108) ressalta
que a Botânica é vista como enfadonha, de difícil compreensão e distante da
realidade dos alunos. Allen (2003) salienta que a Cegueira Botânica é
prejudicial não apenas para a evidência dos vegetais como seres vivos, mas
principalmente pela compreensão do seu papel na conscientização sobre a
importância do Meio Ambiente e da preservação da biodiversidade.
Quando se trata de Meio Ambiente existem diversas questões ligadas à conservação
das espécies nativas, manutenção dos ecossistemas ou a recuperação das áreas
degradadas que carecem de atenção por parte da sociedade (PAULINO; VAZ; BAZON,
2011). Contudo, não seria mais fácil preservar a natureza se a população tomasse
consciência sobre o grande valor que as plantas possuem? As legislações
ambientais não teriam maior respeito por parte da população se desde a infância
os recursos naturais fossem vistos como algo imprescindível a vida? O
posicionamento e atuação crítica dos cidadãos nas questões ambientais e
políticas nunca foram tão necessários quanto nesse momento de crise ambiental.
Existe necessidade urgente de reflexão sobre o futuro das nossas florestas,
carecem de mais atenção os nossos povos tradicionais e de proteção os
ambientalistas.
Nesse contexto, faz-se imprescindível para a sociedade conhecer sobre a sua
flora, descobrir as vantagens ao manter a florestas “de pé”, plantar mais
árvores nas cidades e incentivar para que todos cuidem de Meio Ambiente. A
Política Nacional de Educação Ambiental (PNEA), instituída no Brasil pela Lei
Federal n° 9.795/ 1999, em seu artigo 10º estabelece que “A educação ambiental
será desenvolvida como uma prática educativa integrada, contínua e permanente em
todos os níveis e modalidades do ensino formal”. (BRASIL, 1999).
Segundo Arrais et al., (2014); Matos et al., (2015; Nascimento et al., (2017) os
principais motivos do desinteresse pela Botânica se deve ao fato das abordagens
serem excessivamente teóricas, descontextualizadas e com ausência de materiais
didáticos facilitadores. Os alunos precisam de uma proposta pedagógica mais
atrativa no ensino de Botânica que esteja atrelada às questões cotidianas,
fazendo associação com outras áreas de conhecimento como a geografia, a
história, a sociologia, a climatologia, a agricultura, a economia, aos
alimentos, aos remédios, etc. Não é uma tarefa fácil, mas devemos tentar.
Segundo Krasilchik (2004), os modelos didáticos são um dos recursos mais
utilizados em aulas de biologia para visualizar objetos tridimensionais que
estão representados em imagens nos livros didáticos ou na internet. Ao permitir
que os estudantes manipulem o material, ocorre melhoria na sua compreensão sobre
o conteúdo abordado. E esse benefício não é exclusivo aos alunos com deficiência
visual, pois os alunos sem a deficiência também podem usar este mesmo material
durante as aulas (SOUZA; LIMA, 2018), sendo uma estratégia eficiente na
construção do conhecimento científico ao aliar a função lúdica e a função
educativa (KISHIMOTO, 2008).
Além disso, os materiais didáticos proporcionam momentos de discussão, interação
e socialização entre os alunos, permitindo o desenvolvimento de habilidades
conforme preconiza a Base Nacional Comum Curricular - BNCC (BRASIL, 2017). No
que se refere à Área de Ciências da Natureza, como objetivos a serem alcançados
nos anos finais do ensino fundamental do componente curricular Ciências, a BNCC
afirma que:
Ao longo do Ensino Fundamental a área de Ciências da Natureza tem um compromisso
com o desenvolvimento do letramento científico, que envolve a capacidade de
compreender e interpretar o mundo (natural, social e tecnológico), mas também de
transformá-lo com base nos aportes teóricos e processuais das ciências. Em
outras palavras, apreender ciência não é a finalidade última do letramento, mas,
sim, o desenvolvimento da capacidade de atuação no e sobre o mundo, importante
ao exercício pleno da cidadania” (BRASIL, 2017, p.319 grifos nossos).
Desse modo, dentre as atitudes e valores que o aluno precisa desenvolver estão à
capacidade de compreender e interpretar o mundo assim como a capacidade de
atuação no e sobre o mundo, formando alunos capazes de expressar seu pensamento
crítico. Nesse sentido se espera que os alunos, na etapa final da educação
básica, estejam preparados, como cidadãos, para atuar no mundo.
As Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica (BRASIL,
2001) podem contribuir, no âmbito pedagógico, para a formação de estudantes com
necessidades educacionais específicas capazes de refletir sobre as questões
sócio-ambientais. Os professores precisam ter autonomia na proposta pedagógica
para abordar questões ambientais relacionando os conteúdos com a realidade em
que o país se encontra, contextualizando os assuntos do currículo. Nessa
perspectiva, a produção de um modelo didático inclusivo com conteúdo de Botânica
pode colaborar no processo de ensino e aprendizagem sobre o Meio Ambiente para
alunos com ou sem deficiência visual como estratégia de enfrentamento à
“Cegueira Botânica”?
Sendo assim, o presente trabalho tem como objetivo a produção de material
didático inclusivo com conteúdo de Botânica para estudante com deficiência
visual no Ensino Médio juntamente com uma sugestão de aplicação de uma sequência
didática para o ensino de conteúdos ambientais no combate a “Cegueira Botânica”,
realizada durante o curso de especialização em Meio Ambiente e Agroecologia e do
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Baiano – IF BAIANO, Campus
Valença, no ano de 2022.
Metodologia
A abordagem utilizada neste trabalho é do tipo quali-quantitativa. Para
compreender essa abordagem é necessário que os aspectos quantitativos e
qualitativos sejam elucidados separadamente para que desta forma fique claro o
papel que cada abordagem confere a pesquisa quando estas características são
agrupadas. Dal-Farra e Lopes (2013) destacam que os estudos quantitativos e
qualitativos possuem, quando separados, aplicabilidades e problemas conhecidos,
por isso a utilização dos métodos mistos podem possibilitar pesquisas
importantes para a Educação.
Quanto aos procedimentos metodológicos adotados neste trabalho, podemos
classificá-lo como uma pesquisa bibliográfica, pois “é desenvolvida a partir de
material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos
científicos” (GIL, 2007, p. 27). Foi realizada uma busca por publicações do tipo
artigos e trabalhos publicados em eventos com recorte temporal de cinco anos
(2012 a 2022) usando como instrumento de consulta o Google Acadêmico, disponível
na internet, que abordassem sobre material didático para o ensino de botânica no
intuito de identificar as produções científicas que abordem os pressupostos
relacionados à Educação Inclusiva.
Os descritores escolhidos para a pesquisa no site foram: “materiais didáticos e
o ensino de botânica”, “materiais inclusivos e o ensino de botânica”. As
palavras-chave usadas na pesquisa foram: “material (ais) didático(s)”, ”material
(ais) inclusivo(s)”, “ensino de botânica”, “ensino de ciências”, “ensino de
biologia”, “educação inclusiva”, “deficientes visuais”, “deficiência visual”.
Não foi estabelecido o período de publicação da pesquisa e desta forma buscamos
encontrar os materiais didáticos produzidos de uma forma mais abrangente, sem
determinar um intervalo de tempo.
A pesquisa bibliográfica, neste trabalho, teve como objetivo levantar
informações a respeito das características necessárias para a elaboração de um
material didático, como as orientações acerca de texturas adequadas para o
manuseio por pessoas com deficiência visual, tamanhos e relevos que facilitem a
compreensão do que está sendo representado com a maior fidelidade possível e
quais materiais são utilizados para confeccionar esses modelos, levando
ludicidade para a sala de aula.
A partir da leitura do título do trabalho e do resumo foram selecionadas as
publicações mais relevantes à produção dos materiais didáticos para o ensino de
botânica na perspectiva inclusiva. Após a leitura completa destas publicações
foram coletados os seguintes dados: o tipo do modelo produzido, o público alvo,
os conceitos abordados e os tipos de materiais usados para confecção dos
modelos. Com o tratamento das informações obtidas foi possível obter as
particularidades necessárias à construção de um modelo didático adequado ao
ensino de alunos com deficiência visual para o ensino de Botânica no Ensino
Médio.
Após elaborar o material didático inclusivo para o ensino de Botânica,
pretendemos sugerir uma sequência didática para o ensino de conteúdos
ambientais, de forma interdisciplinar, usando o modelo produzido. Além de
estimular profissionais da educação a (re)produzir os modelos ou criarem novos
tipos de recurso para outros assuntos também buscamos disseminar ideias e
informações pertinentes às suas aplicabilidades no Ensino Médio, o público-alvo
do material didático elaborado.
Resultados e discussão
Levantamento bibliográfico
Durante o levantamento bibliográfico foi possível perceber que os trabalhos
sobre “materiais didáticos e o ensino de botânica” se apresentaram em maior
quantidade que os trabalhos sobre “materiais inclusivos e o ensino de botânica”,
sendo nove modelos didáticos que não abordam a questão da deficiência e cinco
modelos construídos na perspectiva da Educação Inclusiva. Esse resultado
demonstra que os materiais elaborados com o conteúdo relacionado à Botânica que
incluem os alunos com deficiência visual ainda são em quantidade menor em
relação a outros modelos didáticos não adaptados. Como este trabalho não trata
de uma revisão bibliográfica sobre o ensino de Botânica usando modelos
didáticos, abordaremos nos resultados apenas os cinco trabalhos que contribuíram
na confecção dos modelos e, assim, ajudaram a construir o material didático
inclusivo, o produto deste trabalho.
No trabalho “Elaboração e aplicação de modelos didáticos como subsídios
metodológicos no ensino de botânica” elaborado por Sarmento; Araujo; Pereira
(2013) foram confeccionados modelos tridimensionais feitos com massa de biscuit,
que permitiram a visualização tátil das “fases esporofíticas e gametofíticas”
dos ciclos de vida dos principais representantes de Briófitas e Pteridófitas
para auxiliar o Ensino de Botânica no Ensino Fundamental e Médio.
No artigo “Conhecer para preservar: o uso de modelos táteis no ensino de
biologia para deficientes visuais na associação de cegos do Piauí” que aborda os
conteúdos de Anatomia e Fisiologia Vegetal para “alunos com perfis muito
diferentes, seja referente à idade, ocupação, causa para perda da visão e
dificuldades em sala de aula”, segundo os autores Andrade et al, (2017, np),
criando modelos táteis de raiz em corte transversal para ensino-aprendizagem de
conceitos como Pelos radiculares, estrias de Caspary, periciclo, floema e
xilema. Para isso usaram E.V.A. de cor verde grama, tinta Relevo (TR) nas cores
verde lima e laranja, cola para isopor e tinta para papel na cor azul.
A pesquisa realizada por Alves et al., (2020) teve como objetivo verificar a
importância de modelos tridimensionais para lecionar Botânica em alunos com e
sem deficiências visuais. Os modelos foram produzidos por alunos da Universidade
Estadual do Ceará usando rolo de papel higiênico, biscuit, fecho plástico com
arame, canudo, folha de isopor, balão de festa, tinta, EVA, papel manteiga, cola
quente, conduíte, pluma, bola de isopor, papelão, botões e miçangas foram
baseados em lâminas histológicas. Foram produzidos cinco modelos
tridimensionais, sendo que estes representavam a estrutura interna da célula
vegetal, a estrutura interna de folhas, caules e raízes em corte transversal de
eudicotiledôneas, além da estrutura do xilema para alunos do 6º ao 9º ano do
Ensino Fundamental (ALVES et al., 2020). Os autores afirmam:
Ao entrevistarmos os alunos de baixa visão a respeito se a cores facilitaram o
entendimento todos responderem que sim. Um aluno ainda completou dizendo que se
as estruturas fossem todas da mesma cor ficaria difícil de identificar (ALVES et
al., 2020, p. 12).
De acordo com Paulino; Vaz; Bazon (2011), a baixa visão é a diminuição da
acuidade visual, mas que dependendo do grau de comprometimento do campo visual
permite a percepção das cores e sensibilidade ao contraste. Nesse sentido, a
pesquisa deixa claro que quando se pretende elaborar um material didático
inclusivo as cores são importantes para a representação do conteúdo com maior
fidelidade possível do material original. Rocha; Machado e Siqueira apontam
“conhecimento raso sobre o tema inclusão por grande parte dos docentes” (2017,
p. 184), mas quando se busca capacitação em Educação Inclusiva ainda durante a
formação inicial de professores o caminho da inclusão fica mais fácil de
trilhar.
Na pesquisa realizada por Silva; Oliveira; Arruda (2021) intitulada “Modelos
táteis como metodologia alternativa para o ensino de botânica” são apresentados
materiais didáticos elaborados por estudantes do 7° ano do ensino fundamental,
que usaram habilidades como a criatividade na produção de modelos táteis de
plantas avasculares (briófitas) usando massa de biscuit, arames, palitos de
madeira, folha de isopor e papel camurça. Essa atividade, segundo as autoras
“possibilitou a interação entre os colegas videntes e não videntes contribuindo
para sua formação enquanto educando e cidadão” (Silva; Oliveira; Arruda, 2021,
p. 83).
Os trabalhos citados anteriormente ressaltam a necessidade de modelos que
facilitem o entendimento de termos abstratos como, por exemplo: “estrias de
Caspary” e “fases esporofíticas e gametofíticas” que são ministrados no Ensino
Médio. Como foi possível observar no levantamento, desde o ensino fundamental os
alunos têm contato com as plantas e se esse conteúdo não despertar o interesse
dos estudantes durante essa fase escolar será mais difícil entender a
importância dos vegetais quando chegarem na etapa final da educação básica, onde
os termos se tornam mais complexos e estarão presentes na prova do ENEM (Exame
Nacional do Ensino Médio), por exemplo.
Para Menezes et al., (2016), o emprego de modelos didáticos auxilia no ensino de
Botânica através da representação tridimensional dos órgãos e dos tecidos dos
vegetais, facilitando a compreensão dos cortes transversais o que não se alcança
fazendo o uso apenas do livro didático. Nesse sentido, o papel dos modelos
didáticos no ensino de Biologia é de grande importância principalmente pela
possibilidade de representação de estruturas e funcionamento de processos
complexos no âmbito da construção dos conhecimentos científicos (KRASILCHIK;
MARANDINO, 2002). Essa prática pedagógica se configura uma estratégia de combate
à Cegueira Botânica nos sistemas educacionais.
O último artigo selecionado traz uma proposta de ensino de Botânica para pessoas
com deficiência visual muito interessante usando frutas, verduras e partes das
plantas como as folhas e as raízes e apesar de não se tratar de um material
sintético o trabalho “Ensino de botânica para deficientes visuais: uma proposta
de inclusão a partir dos aromas, formas, texturas e sabores” de autoria de Souza
e Lima (2018) atende às necessidades dos estudantes com deficiências visuais. As
autoras buscaram a inclusão de estudantes da 1ª, 2ª e 3ª série do Ensino Médio
(cinco cegos e um com baixa visão) através de outros sentidos. Isso evidencia o
caráter dos trabalhos que elegemos e do material didático que construímos: o
combate a Cegueira Botânica usando modelos inclusivos de baixo custo usando o
que temos ao nosso redor.
Durante a realização dessa pesquisa percebeu-se que ainda são incipientes os
trabalhos relacionados a materiais didáticos inclusivos voltados para o ensino
de Botânica. Esse resultado deve ser pelo fato de o ensino de Botânica ser
considerado um saber de menor importância (NEVES; BÜNDCHEN; LISBOA, 2019). De
acordo com os autores Cruz Borges; Borges Dias; Correa (2020), existem poucos
trabalhos voltados para a produção de material didático para o ensino de
Biologia na perspectiva da inclusão escolar e isso demonstra a necessidade de
desenvolvimento de mais pesquisas nessa área, sobretudo para o ensino de
Botânica pra Ensino Médio.
Material didático inclusivo sobre folhas e raízes das plantas
monocotiledôneas
A fim de articular com a primeira etapa dos resultados, foi produzido um modelo
didático de uma planta que pertence ao grupo das Angiospermas, este dividido em
duas classes: Monocotiledônea e Eudicotiledônea (CÉSAR et al., 2011). Por essas
classes apresentarem, em nível morfológico, diferenças significativas, foi
confeccionado nesse primeiro momento o modelo da espécie Monocotiledônea
ressaltando algumas das principais diferenças entre Monocotiledôneas e
Eudicotiledôneas: as folhas e as raízes.
Dessa forma, o modelo didático inclusivo foi produzido usando 01 metro de corda
de sisal, tesoura, pincel, tinta marrom e pistola de cola quente. Estes
materiais podem ser encontrados em uma papelaria e são de baixo custo. Para
montagem, primeiro a corda foi desfeita (C) e cortada em pedaços menores. Para
unir os pedaços da corda ao ramo de folhas artificiais foi usada uma pistola
para distribuir a cola quente na haste onde foram enrolados os pedaços de cordas
até cobri-lo por completo (B), observe a figura 2.
Figura 2.
A- Materiais usados na produção;
B- corda de sisal desenrolada;
C- corda enrolada na haste com cola quente para fixação;
D- arqueamento das folhas imitando verdadeiras folhas de milho.
Valença, 2022

Após unir os materiais e deixar a cola secar, a corda foi pintada com tinta
marrom para representar o contato da planta com o solo e as folhas foram
arqueadas imitando as verdadeiras folhas de milho (Zea mays L.) (Figura 3).
Figura 3.
Modelo didático inclusivo reproduzindo uma planta
Monocotiledônea com suas folhas e raízes.
Valença, 2022.

Os modelos didáticos, quando produzidos, devem ser acessíveis a todos os
alunos e, por isso, precisam retratar o conteúdo de acordo com o que está sendo
mostrado na fonte de consulta (livro didático, revistas, imagens da internet,
etc.), para que despertem o interesse e sejam visualmente atrativos para os
alunos que não possuem deficiência visual ou possuam baixa visão. Para
proporcionar autonomia aos alunos com deficiência visual é necessário que o
material didático elaborado seja adaptado e atenda às necessidades cognitivas
dos estudantes.
As raízes das plantas Monocotiledóneas são conhecidas como fasciculada ou
cabeleira e as nervuras das suas folhas são paralelas, chamadas de
paralelinérveas (CÉSAR et al., 2011). Mas as raízes possuem diversos tipos e
formas e algumas de suas funções são fixar o vegetal, retirar nutrientes do solo
e absorver água, que serão transportados e distribuídos para toda a planta, além
de serem excelentes alimentos para pessoas e animais (MATOS et al., 2015). Além
disso, fornecem substrato para fungos micorrízicos. Os fungos micorrízicos são
microrganismos que se associam às raízes de cerca de 80 % das plantas terrestres
e esta associação é considerada como uma simbiose, em que os dois organismos
obtêm vantagens adaptativas (RIBEIRO; CARVALHO, 2017).
As raízes são muito importantes para a conservação da qualidade de vida no solo
e como estão geralmente inseridas na terra não podem ser visualizadas no
cotidiano. Com a elaboração do material didático inclusivo será possível
representar, em alto relevo a estrutura radicular e facilitar a compreensão de
como ocorre à interação Planta-Solo. A Política Nacional de Educação Ambiental
(PNEA), instituída no Brasil pela Lei Federal n° 9.795/ 1999, em seu artigo 10º
estabelece que “A educação ambiental será desenvolvida como uma prática
educativa integrada, contínua e permanente em todos os níveis e modalidades do
ensino formal”. (BRASIL, 1999).
A Educação Ambiental faz parte do currículo transversal no Ensino Fundamental e
Médio, sendo abordada de maneira mais complexa no Ensino Médio quando são
explicados conceitos ligados à diversas áreas do conhecimento. O entendimento de
que o tipo de morfologia da raiz interfere na interação da planta com o solo, em
como ela absorve água e nutrientes, por exemplo, facilitará a construção de
conceitos como o de fertilidade, de estresse hídrico, de desertificação, de
erosão, de contaminação do solo, entre outros assuntos ligados a diversas
questões ambientais (SALANTINO; BUCKERIDGE, 2016).
A diferenciação das folhas com nervura paralelinérvea realizada por intermédio
da observação tátil facilita o reconhecimento das plantas da classe
Monocotiledônea no cotidiano dos alunos permitindo a estes identificarem
aspectos do mundo ao seu redor, como as gramíneas que apresentam nervura
semelhante. Ao usar os modelos o professor está estimulando a aquisição de
competências e habilidades pelos estudantes, independente dele apresentar a
deficiência visual ou não, o que facilitará a compreensão das diferentes funções
que as plantas exercem no Meio Ambiente (NEVES; BÜNDCHEN; LISBOA, 2019).
Conforme preconiza a BNCC, os anos finais da educação básica têm a função de
preparar o discente para a vida em sociedade, colocando em prática competências
específicas, tais como:
֍ Avaliar aplicações e implicações políticas, socioambientais e culturais da
ciência e de suas tecnologias para propor alternativas aos desafios do mundo
contemporâneo, incluindo aqueles relativos ao mundo do trabalho;
֍ Construir argumentos com base em dados, evidências e informações confiáveis e
negociar e defender ideias e pontos de vista que promovam a consciência
socioambiental e o respeito a si próprio e ao outro, acolhendo e valorizando a
diversidade de indivíduos e de grupos sociais, sem preconceitos de qualquer
natureza (BRASIL, 2017, p. 324).
Nesse sentido, o modelo didático inclusivo de monocotiledônea pode ser usado
pelo professor para representar a planta do Milho (Zea mays L.), por exemplo,
pois desta forma poderá contextualizar o conteúdo trabalhando aspectos ligados à
cultura, tecnologia, agricultura, economia, diversidade biológica, meio
ambiente, ou qualquer outro assunto que seja ligado ao milho. A construção de
modelos didáticos contribui para a efetivação de um processo de ensino e
aprendizagem significativo, visto que estes instrumentos são utilizados como
facilitadores na relação entre professor, aluno e conteúdo e auxiliam no
desenvolvimento cognitivo (BARBOSA; SILVA; JÚNIOR; LIMA; MENEZES, 2019).
Sugestão de sequência didática com a utilização do modelo didático produzido
O docente deve saber lidar com o conhecimento prévio trazido pelos estudantes e
promover interações, a fim de contribuir para a elaboração de novos conceitos
(MOUL; SILVA, 2017). Nesse sentido, as sequências didáticas são uma excelente
metodologia para trabalhar conteúdos de Botânica usando o modelo didático
inclusivo produzido anteriormente. De acordo com Mantovani (2017):
Uma sequência didática é composta por várias atividades encadeadas de
questionamentos, atitudes, procedimentos e ações que os alunos executam com a
mediação do professor. As atividades que fazem parte da sequência são ordenadas
de maneira a aprofundar o tema que está sendo estudado e são variadas em termos
de estratégia: leituras, aula dialogada, simulações computacionais,
experimentos, etc. Assim o tema será tratado durante um conjunto de aulas de
modo que o aluno se aprofunde e se aproprie dos temas desenvolvidos (MANTOVANI,
2017, p. 08).
Sendo assim, sugerimos a seguinte sequência didática para o Ensino Médio, sendo
seis encontros de 110 minutos cada. Nesse trabalho recomendamos o conteúdo
“Características e funções das raízes e folhas no Meio Ambiente”.
Primeiro momento: Inicialmente, cada estudante será convidado a falar uma
palavra que ele associa quando ouve a palavra “plantas” e ao final terá se
formado uma nuvem de palavras com as palavras mencionadas por cada estudante.
Cada participante terá que falar da sua planta e o motivo de tê-la escolhido.
Segundo momento: Usando o modelo didático inclusivo para o ensino de
Morfologia Vegetal de Monocotiledôneas facilitará a compreensão de como é a raiz
da planta e suas folhas para um aluno com deficiência visual, diminuindo a
abstração, e com o uso de papel oficio e lápis o aluno pode tentar representar
em forma de desenho o modelo que manipulou.
Terceiro momento: Em seguida, cada aluno poderá falar sobre a importância
das raízes com o auxilio do modelo. O professor poderá explicar sobre o
desenvolvimento dos vegetais, proporcionando aos estudantes o conhecimento sobre
a importância da conservação do solo e seus nutrientes para o crescimento das
plantas e eles poderão fazer anotações em seus próprios desenhos.
Quarto momento: Usando o modelo será explicado para os alunos sobre a
importância das folhas para o Meio ambiente, observando se os alunos vão citar
as contribuições das plantas para a alimentação humana e animal ou para a
medicina tradicional, de acordo com seus conhecimentos prévios. O professor
poderá abordar as diferenças entre os organismos autotróficos e heterotróficos.
Quinto momento: Serão abordadas as diferentes formas foleares que existem
na natureza, sua importância na diferenciação entre a classe das
Monocotiledôneas e das Eudicotiledôneas, e seu papel na Fotossíntese. O
professor pode estimular os alunos a criarem coleções de folhas diferentes,
nomeando o tipo de morfologia de cada modelo.
Sexto momento: O modelo didático de milho pode ser usado para abordar
temas interdisciplinares como a Geografia (de onde veio o milho?), História
(como o milho chegou ao Brasil?), Genética (quais são as variedades de milhos
existentes?), Sociologia (qual a importância do milho na cultura Nordestina),
etc. Pode ser elaborada uma feira gastronômica em parceria com outros
professores com pratos típicos a base de milho ou, simplesmente, preparar pipoca
para seus alunos como finalização desta atividade.
O planejamento e a aplicação da sequência didática podem ser adaptados pelos
professores, com plano de aula produzido por eles sistematizando a sequência das
ações didáticas de acordo com a dinâmica observada em cada encontro. De acordo
Moul; Silva (2017) a percepção dos alunos sobre as plantas é utilitarista,
servindo aos animais e principalmente ao homem, como remédios, alimentos e até
mesmo abrigo e o professor pode contribuir para a mudança dessa concepção ao
citar exemplos que contribuam para a valorização do Meio Ambiente em vários
outros aspectos.
Na realização da sequência didática podem ser adotadas as seguintes
metodologias: aula expositiva dialogada, atividade prática usando o modelo
didático inclusivo em comparação a outras plantas que o professor pode levar
para a sala, desenhos, “Chuva de ideias”, música e o que mais puder estimular os
alunos a reconhecerem as plantas como organismos imprescindíveis aos seres
vivos.
Considerações finais
A produção de um material didático inclusivo com conteúdo de Botânica usando uma
sequência didática, abordando temas relacionados ao Meio Ambiente, pode
contribuir para a efetivação da Educação Inclusiva nas escolas ao facilitar a
aprendizagem dos alunos com deficiência visual, uma vez que os modelos
didático-pedagógicos são considerados ferramentas de extrema significância para
uma educação inovadora e diferente do modelo tradicional de ensino.
De acordo com Silva; Landim; Souza (2014), é imprescindível para a construção do
conhecimento pelos alunos com deficiências visuais que as figuras dos livros
possuam relevos para facilitar a percepção do tema explicado. Cores, texturas,
relevos e tamanhos adequados são indispensáveis para que ocorra a assimilação
dos conteúdos pelos alunos, independente de suas necessidades educacionais.
Todos os alunos poderão perceber as diferenças morfológicas ao visualizar ou
manipular com segurança o objeto facilitando o processo de aprendizado dos
conceitos científicos em Botânica e, assim minimizar a abstração do conteúdo
raízes e folhas através de estímulos sensoriais (visão ou tato) sendo uma
estratégia de enfrentamento à “Cegueira Botânica”.
Ressaltamos que a intenção desse trabalho não é analisar o desempenho dos
materiais didáticos no processo de aprendizagem e nem todos os trabalhos
encontrados durante o levantamento. Buscamos, com os trabalhos citados,
contribuir na etapa de produção dos modelos com conteúdo de Botânica, com o
objetivo de melhorar o entendimento de problemas relacionados ao Meio Ambiente,
para todos os alunos, no combate à “Cegueira Botânica”.
Os materiais didáticos produzidos para alunos com deficiência visual precisam
ser adaptados às suas necessidades educacionais específicas como, por exemplo, a
baixa visão, mas também devem ser usados com alunos que não apresentam
deficiência, sendo direcionado ao ensino de todos (BORGES; DIAS, 2014).
Apesar do público alvo do conteúdo de Botânica proposto neste trabalho serem os
estudantes com deficiência visual do Ensino Médio, os materiais didáticos podem
atender também aos graduandos em Ciências Biológicas e Ciências Agrárias com
deficiência visual e principalmente como ferramenta de inclusão de metodologias
que contemplem a diversidade de pessoas matriculadas nos cursos superiores.
O modelo facilitará a prática pedagógica no Ensino de Biologia contribuindo para
o combate a Cegueira Botânica oportunizando a todos os estudantes conhecer sobre
a imensa importância das plantas para a biodiversidade. Em perspectivas futuras
a aplicação e avaliação do material produzido e da sequência didática sugerida
irá permitir verificar e adequar o material quanto ao que se pretende ensinar e
se este atende à necessidade perceptual tátil do aluno.
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MODELO DIDÁTICO DE BOTÂNICA PARA ALUNOS COM DEFICIÊNCIA VISUAL com ênfase no
ensino de conteúdos ambientais
autora: ELLEN SAMILLE CRUZ BORGES - Pós-graduanda em Meio Ambiente e
Agroecologia pelo IF BAIANO e graduada em Licenciatura em Ciências Biológicas
pela Universidade Estadual de Santa Cruz, Ilhéus, Bahia, Brasil.
Revista Macambira, v. 6, n.1, 2022, e061026 | ISSN 2594-4754
in
https://www.researchgate.net/publication/368951433
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