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 Sobre a Deficiência Visual

Matemática e Deficiência Visual

Ana Karina Lira & Jorge Brandão

excerto

 

Apresentação
Capítulo 0: Alguns matemáticos cegos enquanto jovens e suas influências na Matemática
Capítulo I: Introdução
Capítulo II: Formação de Conceitos
Capítulo III: As Técnicas de Orientação e Mobilidade e suas Relações com a Geometria
Notas


Apresentação

Caríssimo leitor e prezada leitora, ler pode ser perigoso, com efeito, quando se lê um livro, uma revista, entre outros meios escritos, na verdade repetem-se os processos mentais de quem escreveu. Assim sendo, quando é que a leitura passa a ser algo construtivo para o(a) leitor(a)?

Quando aquilo que se lê não é ponto de chegada e sim ponto de partida para o ato de pensar, haja vista a leitura dos pensamentos dos outros servir de base para o(a) leitor(a) conseguir ter os próprios pensamentos (COSTA, CASCINO e SAVIANI, 2000). A leitura feita com os olhos pode apreciar e associar gravuras ao texto, o que nem sempre ocorre com aqueles que leem com o tato.

Este livro é uma organização de artigos bem como uma reescrita da tese de doutorado – matemática e deficiência visual – visando uma leitura para o contexto escolar. Pois, não adianta o docente em sala de aula se preocupar em transmitir conteúdos se o discente não sabe localizar-se dentro do ambiente.

Diante de leitores que não trabalham em escolas especiais, vale ressaltar que, em relação à postura pedagógica do(a) professor(a), não é necessário que o(a) mesmo(a) saiba Braille para ter uma comunicação ativa com discente cego (ou libras para se comunicar com estudante surdo). “Só” é preciso que a pessoa a qual irá ministrar uma aula em salas regulares, onde estão incluídos alunos com algumas necessidades especiais, tenha domínio de seu conteúdo.

Com efeito, de que modo é possível adaptar material concreto para compreender soma de frações, tirando o m.m.c., se, enquanto docente, não sei o que significa m.m.c. (e você, caríssimo(a) leitor(a), lembra o significado do m.m.c.?). Outro exemplo, de que forma um(a) professor(a) pode querer fazer uma experiência na área de Ciências da Natureza, contemplando cegos e videntes, se não conhece os princípios envolvidos no dito experimento?

Ainda em relação à postura pedagógica, não obstante o domínio do conteúdo, espera-se que o(a) docente seja uma pessoa que consiga transmitir os conhecimentos de forma compreensível. Independentemente de estratégias utilizadas, a maneira como o(a) professor(a) fala cria, no estudante, uma sensação de confiança naquilo o qual é comunicado pelo(a) docente.

Assim sendo, falar com linguagem isenta de erros e vícios, utilizar linguagem clara, objetiva e de fácil compreensão e variar a intensidade de voz durante as explicações, são algumas atitudes positivas. Atitudes que facilitam a aprendizagem, independentemente do tipo de aprendiz (com ou sem deficiência visual).

Por fim, e não menos importante, a comunicação do(a) professor(a) com os alunos deve respeitar os limites dos discentes, valorizando e estimulando suas potencialidades.

Verificar se, em ocorrendo uma conversa entre dois ou mais estudantes, o motivo da conversa é ou não o conteúdo visto. Pois, muitas vezes os alunos compreendem (melhor) determinado assunto transmitido pelo(a) professor(a) através da linguagem de seus pares (colegas).

Em relação à Matemática, adiante serão apresentadas algumas estratégias que contemplem alunos cegos e alunos videntes. Vale ressaltar, todavia, que não adianta adaptar se não se sabe a “essência” do conteúdo.

Capítulo 0 – Alguns matemáticos cegos enquanto jovens e suas influências na Matemática

De que forma um professor de Matemática deve trabalhar este campo do saber em sala de aula quando existem discentes com deficiência visual? Ora, analisando a expressão “estudante com deficiência visual”, excluindo-se “deficiência visual” fica “estudante” e, por conseguinte, têm direitos e deveres iguais aos demais. Logo, o docente pode trabalhar conforme planejou sua atividade. É claro, com adequações.

A Matemática está associada aos números... então só há matemática se ocorrer a existência de números? Acompanhem, caríssimos leitores, o seguinte exemplo: Conjugar o verbo cantar.

Primeira pergunta natural a ser feita é: em qual tempo verbal? Pois bem, caso seja no presente do indicativo temos:

EU CANT O
TU CANT AS
...
Caso seja no pretérito, fica:
EU CANT EI
TU CANT ASTE
...

Ora, o verbo cantar é um verbo de primeira conjugação porque termina em AR. Além disso, é um verbo regular. Verbos regulares são verbos que não possuem alteração no radical, no caso CANT.

Percebam que há uma relação direta entre os sujeitos, que possuem suas características, e as desinências (terminações). A relação entre esses conjuntos, conjunto dos sujeitos e o conjunto das desinências, é dada pela existência do radical CANT.

Como os sujeitos influenciam (DOMINAM) as desinências, podemos indicar tal conjunto como o DOMÍNIO da função "conjugar o verbo cantar". As desinências refletem, reagem a este domínio, isto é, elas representam CONTRADOMÍNIO. Ao conjunto das desinências de um tempo verbal específico chamamos de IMAGEM...

Eis um exemplo de adequação.

Aprender matemática (e qualquer outra área do saber) consiste em aprender seus conceitos. Por exemplo: leite em pó é leite, se uma criança conceitua leite como líquido de cor branca que saem das mamas dos mamíferos?

Mas, como se dá a formação de conceitos? Nos capítulos seguintes, que fazem parte do corpo da tese, serão apresentadas as ideias segundo Vygotsky (2001), Batista (2005), entre outros.

Matemáticos cegos e contribuições

Lev Semenovich Pontryagin (1908–1988) nasceu em Moscou em 1908 e ficou cego aos 14 anos em virtude de uma explosão. Foi auxiliado em seus estudos principalmente pelo apoio recebido de sua mãe, Tatyana Andreevna, que lia para Pontryagin.

Muito embora fosse leiga na Matemática, Tatyana descrevia com um linguajar próprio a partir das aparências dos símbolos matemáticos. Por exemplo: para indicar que um conjunto A está contido em um conjunto B, notação A
C B, ela fazia referência do tipo A cauda B (EVES, 2002).

A importância da citação de Pontryagin não é só sua capacidade matemática. Seu esforço o tornou um brilhante professor nas áreas de Topologia e Equações Diferenciais. Destaca-se a participação de sua mãe como um apoio em seus estudos, “transcrevendo” textos.

Na Economia, o estudo da inflação ou nas medidas e instrumentos para medir a taxa de desemprego – fenômenos que sofrem variação só com o tempo, nas quais se usam as Equações Diferenciais Ordinárias, temos uma certa influência dele.

Em relação ao Saunderson,
Nicholas Saunderson (1682–1739), nasceu em Thurlstone, Yorkshire, em janeiro de 1682. Com aproximadamente um ano de idade ele perdeu a visão através de varíola, todavia, este ocorrido não o impediu de adquirir um conhecimento de latim e grego, bem como estudar matemática. Amigos liam para ele.

Destaca-se a máquina que ele desenvolveu. A mesma máquina era útil tanto para realização dos cálculos algébricos quanto para a descrição de figuras retilíneas, podendo ser comparada a um “pré-geoplano”.

A máquina consistia em um quadrado, dividido em quatro partes iguais por meio de linhas perpendiculares aos lados, de modo que ele ofereça os nove pontos 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9. O quadrado é perfurado por nove orifícios capazes de receber alfinetes de duas espécies todos do mesmo comprimento e da mesma grossura, mas uns com a cabeça um pouco mais grossa do que outros.

Os alfinetes de cabeça grande situam-se sempre no centro do quadrado; os de cabeça pequena, sempre nos lados exceto em um único caso, o do zero. O zero é assinalado por um alfinete de cabeça grande, colocado no centro do pequeno quadrado, sem que haja qualquer outro alfinete nos lados. O algarismo “1” é representado por um alfinete de cabeça pequena, colocado no centro do quadrado, sem que haja qualquer outro alfinete nos lados.
 


Figura 1 – Adaptando números de Saunderson, da “carta para cegos” de Diderot (2007)

O representa alfinete de cabeça pequena e X indica alfinete de cabeça grande O algarismo “2” é indicado por um alfinete de cabeça grande, situado no centro do quadrado, e por um alfinete de cabeça pequena, situado em um dos lados do ponto “1”. O algarismo “3” é representado por um alfinete de cabeça grande, situado no centro do quadrado, e por um alfinete de cabeça pequena, situado num dos lados do ponto “2”.

Indica-se o algarismo “4” por um alfinete de cabeça grande, situado no centro do quadrado, e por um alfinete de cabeça pequena, situado no centro do quadrado, e por um alfinete de cabeça pequena, situado num dos lados do ponto “3”.

O algarismo “5”, por um alfinete de cabeça grande, situado no centro do quadrado, e por um alfinete de cabeça pequena, colocado em um dos lados do ponto “4”. O algarismo “6” é representado por um alfinete de cabeça grande, situado no centro do quadrado, e por um alfinete de cabeça pequena, situado num dos lados do ponto “5”.

O algarismo “7”, por um alfinete de cabeça grande, colocado no centro do quadrado, e por um alfinete de cabeça pequena, colocado num dos lados do ponto “6”. O algarismo “8”, por um alfinete de cabeça grande, colocado no centro do quadrado, e por um alfinete de cabeça pequena, colocado num dos lados do ponto “7”. E o algarismo “9”, por um alfinete de cabeça grande, colocado no centro do quadrado, e por um alfinete de cabeça pequena, colocado num dos lados do quadrado do ponto “8”.

O material apresentado por Saunderson pode ser considerado um precursor das celas Braille. Não obstante, a forma como confeccionava figuras planas, utilizando seu material ele estava introduzindo, de modo inconsciente, o hoje utilizado geoplano.

A gravura abaixo indica a representação de um trapézio segundo usos de Saunderson.
 


Figura 02 – Representação de um trapézio

Os pontos pretos representam alfinetes e os zeros são espaços vazios. Entre colchetes tem-se uma “cela” do esquema de Saunderson.

Com o tato ele caracterizava as figuras. Quando as figuras eram grandes ou com maior riquezas de detalhes, ele colocava apenas nos extremos (vértices) alfinetes e estes eram unidos por barbantes.

E um terceiro matemático cego é
Bernard Morin. Ele nasceu em 1931 em Shangai, onde o seu pai trabalhava para um banco. Morin desenvolveu glaucoma bem cedo e foi levado para a França para tratamento médico. Ele voltou a Shangai, mas, por ocasião do rompimento das retinas ficou completamente cego aos seis anos de idade.

Depois que ficou cego, Morin retornou para a França sendo educado em escolas para cegos até a idade de quinze anos, quando entrou no ensino regular. Estudou sob Henri Cartan e se juntou ao Centre National de la Recherche Scientifique como pesquisador em 1957. Morin já era bem conhecido por sua eversão da esfera e tinha passado dois anos no Institute for Advanced Study na época em que concluiu a sua tese de Ph.D. teoria da singularidade em 1972.

A grande notoriedade de Morin está no fato de ser dos matemáticos que demonstrou a possibilidade da “eversão da esfera”, um problema na área de Topologia Matemática.

As citações desses matemáticos servem para indicar que a Matemática pode ser apreendida por pessoas com necessidades especiais, e que a participação ativa da família e de amigos (e dos professores especialistas) é de grande importância para uma aprendizagem significativa.

Capítulo I – Introdução

O que motivou escrever sobre o tema foi o fato de, quando professor de Matemática na Escola de Ensino Fundamental e Médio Presidente Roosevelt, em Fortaleza, de fevereiro de 1998 a julho de 2002, tive a oportunidade de trabalhar com alunos com deficiência visual. Até então associava a minha prática docente a ideia de que os alunos compreenderiam bem melhor a Matemática por meio de exercícios associados à realidade, feitos repetidas vezes.

Questionava, no entanto, se a realidade dos discentes com deficiência visual não era considerada, no sentido de orientações pedagógicas aos docentes. Com efeito, estando incluído em sala de aula regular, em relação à postura pedagógica do professor, não é necessário que o mesmo saiba Braille para ter uma comunicação ativa com discente cego. É necessário domínio do conteúdo, de tal forma que o docente consiga transmitir os conhecimentos de forma compreensível. Independentemente de estratégias utilizadas, a maneira como o professor fala cria, no estudante, uma sensação de confiança naquilo o qual é comunicado pelo docente.

Em relação à minha prática docente, observava que atividades as quais eram apresentadas escritas no quadro-negro, muito embora fossem verbalizados todos os processos de formulação e resolução dos mencionados exemplos detalhadamente para os referidos estudantes, não usava material concreto, porque não sabia o que utilizar e não havia informações, por parte de professores itinerantes, do que utilizar no Ensino Médio. Assim sendo, percebia que os aprendizes cegos estavam apenas reproduzindo o conhecimento que era passado 1.

Com efeito, diante da resolução de situações-problemas que tinham o mesmo conteúdo matemático estudado em sala de aula, mas que apresentavam um contexto diferenciado, os discentes não resolviam de modo satisfatório. Exemplificando:

Dispondo de 20 metros de tela de arame deseja-se cercar um terreno de formato retangular. Quais as medidas do lado do retângulo de maior área assim construído? (BRANDÃO, 2009).

Tal exemplo, apresentado em sala de aula, era resolvido por mim, como docente. Quando eram apresentadas variações, como utilizar uma parede como um dos lados, muitos discentes não resolviam a aplicação.

Desta feita, em virtude da presença dos alunos com deficiência visual passei a achar mais importante o uso de exercícios de Matemática voltados para a realidade desses discentes; fazendo uso de materiais concretos, como tangram e material dourado; bem como o uso de partes do corpo dos próprios alunos para a formação ou compreensão de conceitos matemáticos.

Quando uma pessoa não dispõe da visão, desde cedo se procura fazer uso de sua percepção espacial, estimulando o uso dos demais sentidos, principalmente tato e audição, conforme explicam Ochaita e Espinosa (2004) e Batista (2005). Conhecer-se 2 é algo de grande valia para uma aprendizagem significativa e para uma locomoção independente. E a locomoção independente é adquirida através da Orientação e Mobilidade (OM).

De fato, a função da OM é ensinar a pessoa com deficiência visual a se locomover em público, fornecendo-lhe percepção espacial e conhecimento do próprio corpo, sendo desenvolvidas técnicas para uma vida independente (BRASIL, 2002). E a OM faz uso de materiais concretos para facilitar compreensão de várias situações vivenciadas pelos discentes cegos. Por exemplo, um pequeno retângulo de madeira para representar uma porta ou o piso de uma sala.

Como professor na área de OM da Escola de Ensino Fundamental Instituto dos Cegos de Fortaleza, de julho de 2002 a dezembro de 2008, comecei a observar que há muitas noções matemáticas envolvidas nas técnicas de OM, principalmente noções de Geometria Plana. Por exemplo, em uma postura inicial para uma locomoção independente, o discente com deficiência visual fica em pé, na posição vertical, formando entre o braço, o cotovelo e o antebraço um ângulo de 120º, para utilizar a bengala longa. Ela se locomove em uma calçada paralelamente ao meio-fio etc. Também destaca-se a ideia de interseção de reta e plano quando relacionamos um pé contido no piso (plano) e respectiva perna (reta).
 


Figura 03 – Postura para locomoção independente.

A figura “03” mostra uma pessoa tendo aula de OM. Observa-se que ela está na vertical (em pé, ereta, sem inclinações), o braço que segura a bengala tem um ângulo próximo de 120º. A discente está se locomovendo paralelamente à uma parede, muito embora esteja utilizando a mão esquerda no corrimão (o que deve ser evitado!)

conhecimento do próprio corpo. Sabe o tamanho de seus braços e de suas pernas. Compreende lateralidade: por exemplo, se o aluno está na frente de uma pessoa, então sua direita corresponde à esquerda dessa pessoa.

Vertical, ângulo, paralelamente são expressões relacionadas com conceitos muito utilizados na Matemática, principalmente na Geometria. Assim, ao mesmo tempo em que refletia sobre isso, comecei a tentar entender: de que forma um aluno cego percebe um ângulo de 120º? Como é compreendido o conceito de paralelismo? Será que a partir da realização de atividades de OM estudantes cegos podem compreender conceitos geométricos? Se sim, como a partir da realização de atividades de OM alunos cegos podem compreender conceitos geométricos?

Também despertava meu interesse as maquetes. Com efeito, maquetes são recursos muito utilizados na OM com o objetivo de formar um mapa tátil o qual facilite a construção de um mapa mental pelo discente cego. Essas maquetes incluem várias figuras de distintos formatos geométricos, como retângulos, triângulos etc. Assim me perguntava: será que a partir da interação com essas maquetes estudantes cegos conceituam quadrados, retângulos, entre outros?

Mesmo não encontrando resposta formal à essa questão, mas somente intuitiva, assumi como pressuposto que a realização de atividades de OM promove a compreensão de conceitos matemáticos.

Propus o método
GEUmetria = EU + Geometria (BRANDÃO, 2004), que utiliza técnicas da OM para introduzir conceitos geométricos. O fato de ter formação matemática e desempenhar a função de técnico de Orientação e Mobilidade ajudou-me a estabelecer ligação entre os dois tipos de conhecimento. Sendo o tato uma das maneiras que pessoas com deficiência visual têm para compreender formas geométricas, texturas, entre outras, o GEUmetria 3 também faz uso da exploração tátil para aprendizagem de conceitos geométricos (BRANDÃO, 2004).

Uma das principais questões da pesquisa é se há relação entre a realização de atividades de OM para estudantes cegos congênitos e a compreensão de conceitos geométricos, como se dá? A partir da análise a priori das técnicas de OM quanto ao conhecimento geométrico que envolvem e, diante de estudo de caso em que jovens cegos congênitos são observados durante aulas de OM e aulas de Matemática, verificar como eles associam conceitos comuns às duas situações.

Em busca de modelos teórico–metodológicos que fornecessem subsídios para verificar o nível de aprendizagem dos conceitos geométricos pelos alunos cegos, encontrei o método Van Hiele de ensino de geometria. Achei-o apropriado porque, para eles, o pensamento geométrico evolui de modo lento desde as formas iniciais de pensamento até as formas dedutivas finais nas quais a intuição e a dedução vão se articulando (VAN HIELE, 1986).

Isso, a aprendizagem de conceitos geométricos, remete ao tema sobre formação de conceitos. Em outras palavras, pretendo compreender se – e como – a vivência em OM promove a formação de conceitos geométricos por discentes cegos congênitos. Assim sendo, para fundamentação teórica encontrei os trabalhos de Vygotsky (1988 e 2001).

Vygotsky distingue três fases no processo de formação de conceitos. A primeira é denominada de "conglomerado vago e sincrético de objetos isolados". A segunda é a do "pensamento por complexos". Nessa fase os objetos isolados se associam na mente da criança devido às suas impressões subjetivas e "às relações que de fato existem entre esses objetos". Um complexo é um agrupamento concreto de objetos e fenômenos unidos por ligações factuais. Essa fase é importante porque há nela um momento chamado de pseudoconceito, bastante semelhante ao conceito propriamente dito e, inclusive, elo de ligação para a formação dos conceitos.

A terceira fase é a de formação de conceitos. Vygotsky a distingue da fase de pensamento por complexos, afirmando que para formar conceitos é necessário abstrair, isolar elementos, e examinar os elementos abstratos separadamente da totalidade da experiência concreta de que fazem parte. Na verdadeira formação de conceitos, é igualmente importante unir e separar: a síntese deve combinar-se com a análise. O pensamento por complexos não é capaz de realizar essas duas operações.

Para entender o processo de formação de conceitos, via escolarização, por exemplo, é preciso considerar as especificidades e as relações existentes entre conceitos cotidianos e conceitos científicos, conforme o pensamento de Vygotsky.

A aprendizagem de um conceito se dá quando o discente é capaz de fornecer características do referido conceito, bem como fornecer contraexemplos. Exemplificando: um triângulo possui três lados e três ângulos. Seus lados, digamos de medidas x, y e z, são tais que 4 | x – y | < z < x + y. Um contraexemplo é argumentar que três medidas quaisquer podem não formar um triângulo, como dois cm, três cm e seis cm. Dentre os pesquisadores que investigaram a apreensão de conceitos geométricos, destaco o casal Van Hiele.

A teoria do casal Dina e Peter Van Hiele (1986) refere-se ao ensino e aprendizagem da Geometria. Esta teoria, desenvolvida nos anos 50 do século XX, propõe uma progressão na aprendizagem deste tópico através de cinco níveis cada vez mais complexos, a saber: (0) visualização ou representação; (1) análise; (2) dedução informal; (3) dedução formal e (4) rigor. Esta progressão é determinada pelo ensino.

Um dos desafios que encontrei nessa pesquisa foi adequar o método dos Van Hiele para pessoas cegas de nascença, principalmente no que concerne aos aspectos visuais que esse método propõe. Por exemplo, para a visualização ou representação de figuras planas, primeiro dos níveis do método Van Hiele, usa-se peças de papelão ou EVA. Como ilustração, considere-se a figura 02. Para pessoas videntes 5 um retângulo e um quadrado são apresentados de várias formas, para que esses possam ver e identificar. Para alunos com deficiência visual, ao fazer uso de maquetes, via tato, os discentes identificam a quantidade de vértices. Identificam os tipos de ângulos internos e estabelecem as medidas dos lados (se são ou não iguais).
 


Figura 04 – representações de quadrados e retângulos

Deste modo, o objetivo geral desta tese é investigar se a aprendizagem de conceitos geométricos, tais como: triângulos, quadriláteros e simetrias, por alunos cegos congênitos incluídos em salas de escolas regulares, podem ser estimulados por atividades de OM.

Assumo como hipóteses:

A Orientação e Mobilidade, a qual faz parte do contexto social da pessoa com deficiência visual, pode ser eficaz à aprendizagem de conceitos geométricos;

O Método Van Hiele pode ser eficaz por causa do respeito ao ritmo de aprendizagem de cada indivíduo, assim como a valorização de seus conhecimentos prévios. Isto é, os níveis de aquisição do pensamento geométrico por estudantes cegos estão relacionados com níveis de ensino apropriados aos níveis de aquisição.

Como objetivos específicos, têm-se: identificar conteúdos geométricos nas técnicas de OM; verificar se a apresentação de conceitos da Geometria Plana a partir da vivência de técnicas de OM possibilita uma boa compreensão desse conteúdo; e estruturar o método GEUmetria para a aprendizagem de conceitos geométricos por discentes cegos.

Assim sendo, o presente estudo fica assim organizado: em um primeiro momento apresenta-se uma revisão da literatura sobre a apreensão de conceitos segundo Vygotsky e sobre como pessoas cegas apreendem conceitos, conforme Batista e Ochaita e Espinosa, entre outros. Ainda neste capítulo a teoria dos Van Hiele é apresentada, haja vista a aprendizagem de conceitos geométricos ser tratada nesta parte da tese.

No capítulo seguinte, apresento a Orientação e Mobilidade e faço análise dos conhecimentos geométricos envolvidos com as técnicas de OM. A primeira versão do método GEUmetria também é abordada. Trabalhos como o de Saxe o qual fez observações com os Oskapim, em Papua Nova Guiné, o de Argyropoulos (2006) e seu grupo que realizou estudos com uma discente cega na Grécia relacionando Matemática com Geografia. Também há menção ao trabalho de Fihn (2007) que faz uso de partes do corpo em atividades físicas para compreensão de conteúdos geométricos.

Capítulo II: Formação de Conceitos

Dedico este capítulo aos fundamentos teóricos que deram suporte aos meus questionamentos sobre como se dá a aprendizagem de conceitos geométricos por estudantes cegos congênitos incluídos em escolas regulares. É apresentado tendo os seguintes tópicos: processo de aprendizagem de conceitos, processo de aprendizagem de conceitos geométricos, processo de aprendizagem de conceitos por pessoas cegas.

Em relação à este capítulo, o primeiro tópico que trata do processo de aprendizagem de conceitos está estruturado principalmente nos trabalhos de Vygotsky. Com efeito, questionou Vygotsky (2001, p. 245): “o que acontece na mente da criança com os conceitos científicos que lhe são ensinados na escola?”. A análise para a resposta desse questionamento tal como apresento pelo autor serve de base para a minha indagação sobre se o ensino de conceitos da Geometria Plana a partir da vivência que o aluno tem de técnicas de OM possibilita uma compreensão desse conteúdo

No tópico subsequente, ocupo-me em relatar como se dá o processo de aprendizagem de conceitos geométricos sob diferentes perspectivas teóricas acerca do pensamento matemático. É nessa etapa que destaco o método Van Hiele e sua estreita relação com a temática que estou investigando.

No terceiro tópico trato da compreensão de conceitos por pessoas com deficiência visual, principalmente indivíduos cegos congênitos. Tem como base trabalhos de Ochaita e Espinosa, na Espanha, e Batista, no Brasil, entre outros. Para compreensão do tema, abordo a temática da deficiência visual.

2.1. O processo de formação de conceitos segundo Vygotsky

Um tema central dessa tese é a aprendizagem de conceitos geométricos por discentes com deficiência visual. Como se dá a aprendizagem de conceitos por pessoas que têm deficiência visual? A compreensão sobre como se dá a aprendizagem de conceitos por pessoas sem deficiência visual está atrelada as diferenças advindas da condição de pessoa cega, que na ausência da visão utiliza-se dos demais sentidos para conhecer o mundo que a cerca.

Para analisar esse tema e refletir sobre o ensino de geometria para pessoas com deficiência visual, uma fundamentação teórica desta tese, em relação ao Vygotsky, são seus trabalhos apresentados principalmente nos livros “Formação social da mente”, em 1988 e “A construção do pensamento e da linguagem”, de 2001. Ele trata da mediação, a qual é o processo de intervenção de um elemento intermediário numa relação; a relação deixa de ser direta e passa a ser mediada por esse elemento.

Para ele, a ação docente somente terá sentido se for realizada no plano da Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP). Isto é, o professor constitui-se na pessoa mais competente para auxiliar o aluno na resolução de problemas que estão fora do seu alcance, desenvolvendo estratégias para que pouco a pouco possa resolvê-las de modo independente.

O trabalho escolar com a ZDP tem relação direta com o entendimento do caráter social do desenvolvimento humano e das situações de ensino escolar, levando-se em conta as mediações histórico-culturais possíveis nesse contexto. De acordo com Vygotsky (2001), o aluno é capaz de fazer mais com o auxílio de uma outra pessoa (professores, colegas) do que faria sozinha; sendo assim, o trabalho escolar volta-se especialmente para esta zona em que se encontram as capacidades e habilidades potenciais, em amadurecimento. Essas capacidades e habilidades, uma vez internalizadas, tornam-se parte das conquistas independentes da criança.

A internalização é um processo de reconstrução interna, intersubjetiva, de uma operação externa com objetos que o homem entra em interação. Trata-se de uma operação fundamental para o processo de desenvolvimento de funções psicológicas superiores e consiste nas seguintes transformações: de uma atividade externa para uma atividade interna e de um processo interpessoal para um processo intrapessoal. O percurso desta internalização das formas culturais pelo indivíduo, que tem início em processos sociais e se transforma em processos internos, interiores do sujeito, ou seja, por meio da fala chegasse ao pensamento. Destaca-se a criação da consciência pela internalização, ou seja, para Vygotsky, esse processo não é o de uma transferência (ou cópia) dos conteúdos da realidade objetiva para o interior da consciência, pois esse processo é, ele próprio, criador da consciência.

O trabalho docente voltado para a exploração da ZDP e para a construção de conhecimentos nela possibilitada requer atenção para a complexidade desse processo de construção pelo aluno. Mesmo quando o conhecimento está sendo construído efetivamente, os processos interpessoais abrangem diferentes possibilidades de ocorrências, não envolvendo apenas movimentos de ajuda.

Os processos mentais superiores que caracterizam o pensamento tipicamente humano são processos mediados por sistemas simbólicos. Essa capacidade de representação simbólica liberta o homem da necessidade de interação concreta com os objetos de seu pensamento, permitindo que ele pense sobre coisas passadas ou futuras, inexistentes ou ausentes do espaço onde ele se encontra, sobre planos, projetos e intenções.

Os conceitos, representações da realidade rotuladas por signos específicos (as palavras), ao ordenarem as ocorrências do mundo real em categorias, de maneira a simplificar sua extrema complexidade, de certa forma moldam a percepção que temos do mundo. Relacionando com a geometria, por exemplo, a forma triangular existe no mundo físico, todavia a palavra "triângulo" agrupa todas as ocorrências dessa forma geométrica sob uma mesma categoria conceitual.

Uma pessoa que se desenvolve numa cultura que dispõe da palavra "triângulo" interage simultaneamente com as formas triangulares que encontra no mundo e com a existência e o uso dessa palavra. O conceito de triângulo que essa pessoa possui, portanto, procede ao mesmo tempo de um dado objetivo e da disponibilidade da palavra, com um determinado significado, na sua língua.

A partir de sua experiência com o mundo objetivo e do contato com as formas culturalmente determinadas de ordenação e designação das categorias da experiência, o sujeito vai construir sua estrutura conceitual, seus significados. Esse é um processo que ocorre ao longo do desenvolvimento intelectual da criança e do adolescente e persiste na vida adulta - o sujeito está sempre adquirindo novos conceitos. Essa rede de conceitos representa, ao mesmo tempo, o conhecimento que ele acumulou sobre as coisas e o filtro através do qual ele é capaz de interpretar os fatos, eventos e situações com que se depara no mundo objetivo.

Conforme Vygotsky (2001) a formação de conceitos é o resultado de uma atividade complexa em que todas as funções intelectuais básicas tomam parte. No entanto, o processo não pode ser reduzido à associação, à atenção, à formação de imagens, à inferência ou às tendências determinantes. Todas são indispensáveis, porém insuficientes sem o uso do signo, ou palavra, como o meio pelo qual conduzimos as nossas operações mentais, controlamos o seu curso e as canalizamos em direção à solução do problema que enfrentamos.

A compreensão do processo de formação de conceitos pelo sujeito é um dos pontos de preocupação de Vygotsky e suas considerações a respeito constituem uma grande contribuição de seu pensamento para o ensino escolar. Segundo o autor, para o conhecimento do mundo, os conceitos são imprescindíveis, pois com eles o sujeito categoriza o real e lhe atribui significados.

O desenvolvimento do pensamento conceitual – que ele permite uma mudança na relação cognitiva do homem com o mundo – é função da escola e contribui para a consciência reflexiva do aluno. Os experimentos realizados por Vygotsky (e colaboradores como Luria) revelaram que a formação de conceitos é um processo criativo e se orienta para a solução de problemas.

O desenvolvimento dos processos que resultam na formação de conceitos inicia-se na infância, mas as funções intelectuais básicas para isso só ocorrem na puberdade. É relevante, pois, para a reflexão sobre o ensino, considerar que os conceitos começam a ser formados desde a infância, mas só aos 11, 12 anos a criança é capaz de realizar abstrações que vão além dos significados ligados a suas práticas imediatas. Vale destacar que os sujeitos de estudo desta tese, quando observados, estavam entre 14 e 18 anos de idade.

Todavia não se dá pela idade simplesmente, é preciso considerar o contexto histórico-cultural que o sujeito interpreta diante de situações em que, pela atividade intersubjetiva do sujeito, seja a criança ou o adulto, ocorre a apropriação de significados da linguagem que, por conseguinte, forma conceitos desse sujeito.

A partir dos seus estudos experimentais a respeito da ontogênese dos conceitos artificiais, utilizando blocos de madeira com diferentes tamanhos, formas e cores e que possuíam denominações específicas de acordo com certas propriedades que eram comuns e simultâneas, Vygotsky (2001) apresenta três momentos distintos com relação ao desenvolvimento das estruturas de generalização: o pensamento sincrético, o pensamento por complexos e o pensamento conceitual propriamente dito.

O pensamento sincrético caracteriza-se pelo fato da criança efetivar os primeiros agrupamentos, bastante rudimentares, de maneira não organizada. Os critérios utilizados pela criança são critérios “subjetivos”, sofrem contínuas mudanças e não estabelecem relações com as palavras, pois não desempenham um fator de organização para a classificação da sua experiência. Já no pensamento por complexos, baseado na experiência imediata, a criança já forma um conjunto de objetos a partir de relações fundamentadas em fatos, identificadas entre eles. Os objetos são agrupados a partir da base de vinculação real entre eles, um atributo que a criança apreende a partir da situação imediata envolvida. Neste caso o pensamento ainda se encontra em um plano real-concreto.

O desenvolvimento do pensamento por complexos é o norteador da formação do que Vygotsky denomina de pseudoconceitos, fase que marca o início da conexão entre o pensamento concreto e o pensamento abstrato de uma criança, um equivalente ao pensamento conceitual do adulto. Neste nível não ocorre mais uma classificação baseada nas impressões perceptuais imediatas, mas sim a determinação e a separação de variados atributos do objeto, situando-o em uma categoria específica - o conceito abstrato codificado numa palavra.

Para Vygotsky, o conceito é impossível sem a palavra e o pensamento conceitual não existe sem o pensamento verbal. A capacidade do adolescente para a utilização significativa da palavra, agora como um conceito verdadeiro, é o resultado de um conjunto de transformações intelectuais que se inicia na infância. A adolescência é um período de crise e amadurecimento do pensamento e, no seu decorrer, o pensamento sincrético e o pensamento por complexos vão cedendo espaço para os conceitos verdadeiros – no entanto, não acontece o abandono total destas formas de pensamento.

Segundo Vygotsky, as forças que movimentam estes processos e acionam os mecanismos de amadurecimento encontram-se, na verdade, fora do sujeito. As determinantes sociais criando problemas, exigências, objetivos e motivações impulsionam o desenvolvimento intelectual do adolescente, no que se refere ao conteúdo e pensamento, tendo-se em vista a sua projeção na vida social, cultural e profissional do mundo adulto. Ou seja, o desenvolvimento intelectual no adolescente precisa ter seu vetor voltado ao crescente domínio consciente e voluntário sobre si mesmo, sobre a natureza e sobre a cultura.

Neste sentido, a escola tem a função de possibilitar o acesso às formas de conceituação que são próprias da ciência, não no sentido de acumulação de informações, mas sim como elementos participantes na reestruturação das funções mentais dos estudantes para que possam exercer o controle sobre as suas operações intelectuais – um processo da internalização com origem na intersubjetividade e nos contextos partilhados específicos e regulados socialmente.

Para entender o processo de formação de conceitos, via escolarização, pois os sujeitos de estudo desta tese estão incluídos em salas de escolas regulares, por exemplo, é preciso considerar as especificidades e as relações existentes entre conceitos cotidianos e conceitos científicos, conforme o pensamento de Vygotsky. A esse respeito, ele afirma o seguinte:

Acreditamos que os dois processos – o desenvolvimento dos conceitos espontâneos e dos conceitos não-espontâneos – se relacionam e se influenciam constantemente. Fazem parte de um único processo: o desenvolvimento da formação de conceitos, que é afetado por diferentes condições externas e internas, mas que é essencialmente um processo unitário, e não um conflito entre formas de intelecção antagônicas e mutuamente exclusivas. (VYGOTSKY, 2001, p.258)

Os conceitos são generalizações cuja origem encontra-se na palavra que, internalizada, se transforma em signo mediador, uma vez que todas as funções mentais superiores são processos mediatizados e os signos são meios usados para dominá-los e dirigi-los. Ou seja, os conceitos são, na verdade, instrumentos culturais orientadores das ações dos sujeitos em suas interlocuções com o mundo e a palavra se constitui no signo para o processo de construção conceitual.

As formulações de Vygotsky sobre esse processo de formação de conceitos ajuda-me a encontrar caminhos no ensino para compreender como se dá o desenvolvimento intelectual dos alunos observados. Com efeito, os conteúdos geométricos têm como um dos eixos de estruturação os desdobramentos de conceitos amplos da ciência a que correspondem, e são encarados como instrumentos para o desenvolvimento dos alunos, conforme os Parâmetros Curriculares Nacionais – PCNs (BRASIL, 1998). O próximo tópico trata da aprendizagem de conceitos geométricos.

2.2. O processo de formação de conceitos geométricos.

Focando a apreensão de conceitos geométricos por estudantes cegos, como ocorre a compreensão de conceitos matemáticos, em particular, os conceitos geométricos em estudantes videntes?

Responder esse questionamento serve de subsídio para o método GEUmetria, o qual relaciona a Geometria com a Orientação e Mobilidade. Antes, porém, faço um breve relato sobre o desenvolvimento da Geometria Plana, com efeito, a compreensão da análise histórica do desenvolvimento de um conceito em muito facilita sua compreensão, destaca Eves (2002).

Conforme a História da Matemática, segundo Eves (2002) e Courant e Robbins (2000), há relatos que explicam como eram divididas as terras para tributação no Antigo Egito. As civilizações de beira-rio (as do Nilo e também as dos rios Tigre, Eufrates, etc.) desenvolveram uma habilidade em engenharia na drenagem de pântanos, na irrigação, na defesa contra inundação, na construção de templos e edifícios.

Era uma Geometria prática, em que o conhecimento matemático tinha uma função meramente utilitária. De acordo com essa função, a Geometria, que significa "medida de terra", associa-se à prática de medição das terras, como por exemplo: a demarcação dos lados de um terreno; a ideia de área para a tributação e para a divisão entre herdeiros; a ideia de volume na irrigação; a construção de templos etc. Ainda hoje esta percepção de uma Geometria vivenciada, associada ao cotidiano dos discentes é recomendada pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), de acordo com Brasil (1998).

Conforme os PCN (BRASIL, 1998) os conceitos geométricos constituem parte importante do currículo de Matemática no ensino fundamental, porque o aluno desenvolve um pensamento que lhe permite compreender, descrever e representar, de forma organizada, o mundo em que vive. O estudo da Geometria serve para trabalhar com situações-problema e é um tema pelo qual os alunos costumam se interessar naturalmente, destacam os PCN. Com efeito, o trabalho com noções geométricas contribui para a aprendizagem de números e medidas, já que estimula o aluno a observar, perceber semelhanças e diferenças, identificar regularidades etc.

O trabalho com espaço e forma pressupõe que o professor de Matemática explore situações em que sejam necessárias algumas construções geométricas com régua e compasso, como visualização e aplicação de propriedades das figuras, além da construção de outras relações. Esse bloco de conteúdos contempla não apenas o estudo das formas, mas também as noções relativas a posição, localização de figuras e deslocamentos no plano e sistemas de coordenadas (BRASIL, 1998).

Destaca-se, ainda em conformidade com os PCN, a importância das transformações geométricas (isometrias, homotetias), quando desenvolvem habilidades de percepção espacial como recurso para induzir de forma experimental a descoberta, por exemplo, das condições para que duas figuras sejam congruentes ou semelhantes. Além disso, é fundamental que os estudos do espaço e forma sejam explorados a partir de objetos do mundo físico, de obras de arte, pinturas, desenhos, esculturas e artesanato, de modo que permita ao aluno estabelecer conexões entre a Matemática e outras áreas do conhecimento (BRASIL, 1998).

Em conformidade com Eves (2002) e Courant e Robbins (2000), os PCN destacam que na vida em sociedade, as grandezas e as medidas estão presentes em quase todas as atividades realizadas. Desse modo, desempenham papel importante no currículo, pois mostram claramente ao aluno a utilidade do conhecimento matemático no cotidiano. As atividades em que as noções de grandezas e medidas são exploradas proporcionam melhor compreensão de conceitos relativos ao espaço e às formas. São contextos muito ricos para o trabalho com os significados dos números e das operações, da ideia de proporcionalidade e um campo fértil para uma abordagem histórica. Além disso, os conteúdos referentes a grandezas e medidas proporcionam contextos para analisar a interdependência entre grandezas e expressá-la algebricamente.

Hoje em dia, em algumas escolas faz-se o uso de software para aprendizagem de conceitos geométricos, como o Logo. De acordo com Fainguelenert 6 (1999), a Geometria pode ser vista como o estudo das formas e do espaço, de suas medidas e de suas propriedades. Os alunos descobrem relações e desenvolvem o senso espacial construindo, desenhando, medindo, visualizando, comparando, transformando e classificando figuras.

A discussão de ideias, o levantamento de conjecturas e a experimentação das hipóteses precedem as definições e o desenvolvimento de afirmações formais. A exploração informal da Geometria pode ser motivadora e matematicamente produtiva, nos primeiros ciclos do Ensino Fundamental. Nesta etapa, o ensino de Geometria recai sobre a investigação, o uso de ideias geométricas e relações, ao invés de se ocupar com definições a serem memorizadas e fórmulas a serem decoradas.

A Geometria constitui parte importante do currículo, pois a partir dela o aluno desenvolve o pensamento espacial. A ação é de mão dupla: ao mesmo tempo em que o aluno desenvolve este tipo de pensamento, descrevendo a sua própria ocupação e movimentação do espaço, é também através desse raciocínio que ele descreve e representa o mundo em que vive. É um processo dinâmico (FAINGUELERNT, 1999). Para a referida autora a construção de um conceito geométrico segue a sequência: visualização, percepção, representação, abstração e generalização. Essa sequência, apresentada para ambiente Logo, tem como base o método dos Van Hiele (1986).

O método apresentado pelos Van Hiele (1986) é de grande valia para esta tese. A teoria de Dina e Peter van Hiele desenvolvida nos anos 50 do século XX, propõe uma progressão na aprendizagem deste tópico através de cinco níveis cada vez mais complexos. Esta progressão é determinada pelo ensino. Assim, o professor tem um papel fundamental ao definir as tarefas adequadas para os alunos progredirem para níveis superiores de pensamento. Sem experiências adequadas, o seu progresso através dos níveis é fortemente limitado.

Conforme teoria há cinco níveis de aprendizagem da Geometria: visualização (nível 0), análise (nível 1), ordenação (nível 2), dedução (nível 3) e rigor (nível 4). Na visualização os alunos compreendem as figuras globalmente, isto é, as figuras são entendidas pela sua aparência. Os conceitos geométricos são vistos como entidades totais, e não como entidades que têm componentes ou atributos. As figuras geométricas, por exemplo, são reconhecidas por sua forma como um todo, isto é, por sua aparência física, não por suas partes ou propriedades. Neste nível, alguém consegue aprender um vocabulário geométrico, identificar formas específicas e, dada uma figura, consegue reproduzi-la. Por exemplo, relembrando a figura 4:
 


Figura 04 – representações de quadrados e retângulos

As três figuras de cima são percebidas como retângulos, enquanto as três de baixo são identificadas como quadrados, pois se parecem com retângulos e quadrados, vistos anteriormente pelo próprio discente. O discente é capaz de fazer cópias no papel ou na lousa. Alguém neste estágio, contudo, não reconheceria que as figuras têm ângulos retos e que lados opostos são paralelos.

Na análise os aprendizes entendem as figuras como o conjunto das suas propriedades; por exemplo, através da observação e da experimentação, os alunos começam a discernir as características das figuras. Surgem propriedades que são utilizadas para conceituar classes de configurações. Desta feita, reconhece-se que as figuras têm partes, sendo assim reconhecidas por tais partes. Exemplificando, considere alguns paralelogramos:
 


Figura 05 – paralelogramos e alguns ângulos opostos pelo vértice indicados

Identificando e “colorindo” os ângulos iguais, “estabelecer” que ângulos opostos de um paralelogramo são iguais. Após usarem vários desses exemplos, os alunos poderiam fazer generalizações para a classe dos paralelogramos. Todavia, os alunos deste nível ainda não são capazes de explicar relações entre propriedades, não vêem inter-relações entre figuras e não entendem definições.

Na ordenação, também identificada como dedução informal, os estudantes ordenam logicamente as propriedades das figuras; fazendo inter-relações. Já são capazes de deduzir propriedades de uma figura e reconhecer classes de figuras. As definições têm significado. Exemplificando: um quadrado é um retângulo porque tem todas as propriedades de um retângulo.

Na dedução os discentes entendem a Geometria como um sistema dedutivo; postulados, teoremas e definições já passam a ser compreendidos. Há possibilidades de entender e desenvolver uma demonstração de mais de uma maneira; compreendem condições necessárias e suficientes; são capazes de fazer distinções entre afirmações e recíprocas. E no rigor os alunos estudam diversos sistemas axiomáticos para a Geometria de forma abstrata.

A teoria de Van Hiele sugere que o pensamento geométrico evolui de modo lento desde as formas iniciais de pensamento até as formas dedutivas finais onde a intuição e a dedução se vão articulando. As crianças começam por reconhecer as figuras e diferenciá-las pelo seu aspecto físico e só posteriormente o fazem pela análise das suas propriedades.

O modelo visa fornecer uma compreensão daquilo que há de específico em cada nível de pensamento geométrico. Destaca-se que os Van Hiele identificaram algumas generalidades que caracterizam o modelo.

É sequencial, pois uma pessoa deve necessariamente passar pelos vários níveis, sucessivamente. Para compreender determinado nível, o discente precisa assimilar as estratégias dos níveis precedentes. O avanço, progressão ou não progressão de um nível para outro, depende mais do conteúdo e dos métodos de instrução recebidos do que a idade. Nenhum método de ensino permite ao aluno avançar de um nível para outro sem a devida compreensão.

Os objetos inerentes a um nível tornam-se os objetos de ensino no nível seguinte. Por exemplo, no primeiro nível apenas a forma é percebida. A figura, que é percebida por suas propriedades, só é caracterizada no segundo nível.

A linguística também é uma generalidade porque ressalta que cada nível tem seus próprios símbolos linguísticos e seus próprios sistemas de relações que ligam esses símbolos. Desta feita, uma relação que é “correta” em um determinado nível pode ser modificada em outro nível. Por exemplo, uma figura que pode ter mais de um nome, um quadrado é um retângulo e também é um paralelogramo, só é percebida pelo estudante que se encontra no terceiro nível.

Destaca-se que caso um aluno esteja em certo nível e o curso em um nível diferente, o aprendizado bem como o progresso talvez não se verifiquem. Combinação inadequada é denominada esta generalização do modelo. De acordo com Van Hiele, como são as fases do aprendizado? São propostas cinco fases, a saber: interrogação/informação, orientação dirigida, explicação, orientação livre e integração.

Na fase de interrogação/informação professor e alunos conversam e desenvolvem atividades envolvendo objetos de estudo no respectivo nível. Fazem-se observações, levantam-se questões e introduz-se um vocabulário específico do nível.

Na orientação dirigida os discentes exploram tópicos de estudos através do material que o professor ordenou em sequência. Tais atividades revelarão gradualmente aos alunos as estruturas características desse nível. Desta forma, grande parte do material serão pequenas tarefas com o intuito de suscitar respostas específicas.

Em relação à fase de explicação, com base em experiências anteriores, discentes expressam e trocam suas visões emergentes sobre as estruturas que foram estudadas. Mínimo é o papel do docente em virtude de o mesmo apenas orientar os alunos no uso de uma linguagem adequada.

Na orientação livre são realizadas tarefas em aberto ou que possuem várias maneiras de serem concluídas. O aluno ganha experiência ao descobrir várias formas de abordar determinada situação problema. E na integração os aprendizes reveem e sumarizam o que aprenderam com o objetivo de formar uma visão geral da nova rede de objetos e relações.

Um exemplo de ilustração das fases de aprendizagem para o conceito de retângulo:

Informação/interrogação: O professor mostra aos alunos diversos retângulos e pergunta-lhes se são ou não retângulos. Os alunos são capazes de dizer se uma dada figura é ou não retângulo, mas as razões apresentadas serão apenas de percepção visual.

Orientação guiada: Realizam-se outras atividades sobre retângulos. Por exemplo, dobrar um retângulo segundo os seus eixos de simetria; desenhar um retângulo no geoplano que tenha as diagonais iguais, construir um maior e um menor.
 


Figura 06 – um quadrado no geoplano
 

Explicitação: As atividades anteriores são seguidas por uma discussão entre os alunos sobre o que descobriram.

Orientação livre: O professor coloca o problema de construir um retângulo a partir de dois triângulos.

Integração: Os alunos reveem e resumem o que aprenderam sobre as propriedades do retângulo. O professor ajuda a fazer a síntese.

Para ser adequado, isto é, para ter em conta o nível de pensamento dos alunos, o ensino da Geometria no Ensino Fundamental deve ter como preocupação ajudá-los a progredir do nível visual para o nível de análise. Assim, eles devem começar por identificar, manipular (construir, desenhar, pintar, etc.) e descrever figuras geométricas.

De que forma o método Van Hiele pode ser adequado para pessoas com deficiência visual? Destaca-se que uma pessoa cega apesar de não ver determinada figura esta pode ser representada por peças de E.V.A., papelão ou quaisquer outros materiais concretos, satisfazendo o primeiro nível, a visualização, do método Van Hiele.

Antes de inserir o próximo tópico, a título de informação, entre as pesquisas recentes sobre a formação de conceitos geométricos destaco as de Duval 7 (2009) que argumenta que a geometria envolve três formas de processo cognitivo que preenchem especificas funções epistemológicas: visualização, construção e raciocínio.

A visualização é o processo que examina o espaço-representação da ilustração de uma afirmação, para a exploração heurística de uma situação complexa, por uma breve olhada ou por uma verificação subjetiva; A construção (processo por instrumentos) é a construção de configurações, que pode ser trabalhado como um modelo, em que as ações representadas e os resultados observados são ligados aos objetos matemáticos representados; e o raciocínio é para a prova e a explicação.

O autor distingue três tipos de apreensões: sequencial, perceptiva e discursiva. A apreensão sequencial é solicitada nas tarefas de construção ou nas tarefas de descrição com objetivo de reproduzir uma figura; a perceptiva é a interpretação das formas da figura em uma situação geométrica; e a discursiva é a interpretação dos elementos da figura geométrica, privilegiando a articulação dos enunciados, pois as mergulha numa rede semântica de propriedades do objeto. Para ele, a aprendizagem se efetiva quando o discente entende uma demonstração.

Com efeito, a aprendizagem de uma demonstração, para Duval (2009), consiste primeiramente na conscientização de que a demonstração é um discurso diferente do que é praticado pelo pensamento natural. A compreensão operatória das definições e dos teoremas supõe que estes sejam vistos como regras de substituição. Para o autor, a dedução é uma forma de cálculo cuja organização não está automatizada, e, a tomada de consciência do que é uma demonstração somente ocorre numa articulação de dois registros, dos quais um é a utilização pelo aluno da linguagem natural. Essa tomada de consciência surge da interação entre a representação não discursiva produzida e a do discurso expresso. Tal interação não ocorre ou não tem a mesma importância se representação e expressão são propostas dentro de outro discurso.

Um registro de representação é, segundo Duval (2009), um sistema semiótico que tem as funções cognitivas fundamentais em nível do funcionamento cognitivo consciente. Um tratamento é a transformação de uma representação em uma outra representação do mesmo registro. O tratamento é uma transformação estritamente interna a um registro.

Existem tratamentos que são específicos a cada registro e que não precisam de nenhuma contribuição externa para serem feitos ou justificados. Uma conversão é a transformação de uma representação de um registro D em uma outra representação de um registro A, conservando, pelo menos, a referência ao mesmo objeto ou à mesma situação representada, mas mudando, de fato, o conteúdo de apresentação.

Para Duval (2009), os problemas de geometria apresentam uma grande originalidade em relação a muitas outras tarefas matemáticas que podem ser propostas aos alunos. Nisto há uma inter-relação com os PCNs. Pois, as resoluções exigem uma forma de raciocínio que implica a referência a axiomática local, a qual se desenvolve no registro da língua natural. Ainda segundo o autor, favorecer o desenvolvimento das funções cognitivas, organizando problemas de geometria matematicamente próximos que solicitem os mesmos conhecimentos, determina uma categorização cognitiva indispensável ao aprendizado da demonstração. Sendo assim, Duval identifica três níveis de problemas:

Nível 1: aqueles em que há congruência operatória da figura e um tratamento matemático, neste caso uma apreensão discursiva explicita não é necessária.

Nível 2: aqueles em que a apreensão discursiva é necessária, porque não há mais congruência da figura ou porque é explicitamente pedido como justificativa.

Nível 3: aqueles que exigem mais que uma apreensão discursiva, o recurso aos esquemas formais lógicos específicos tais como o raciocínio disjuntivo, o raciocínio por contraposição.

Percebe-se uma proximidade entre as ideias de Duval e dos Van Hiele. Também Duval (2009) explora o aspecto visual para a formação de conceitos. E como se dá a formação de conceitos por pessoas com pouca ou nenhuma acuidade visual? Assim sendo, o próximo tópico trata do processo de formação de conceitos por pessoas cegas.

2.3. O processo de formação de conceitos por cegos

Até aqui tenho abordado de forma geral a aprendizagem de conceitos. Uma vez que este estudo busca entender a compreensão de conceitos geométricos por alunos cegos, esse tópico trata da aquisição de conceitos por pessoas cegas. Todavia, à luz da educação brasileira, quem é aluno com deficiência visual?

No Brasil, conforme especialistas do Instituto Benjamin Constant 8 (IBC), que serve de base para a educação de cegos no País, pessoa cega é aquela que possui perda total ou resíduo mínimo de visão, necessitando do método Braille como meio de leitura e escrita e/ou outros métodos, recursos didáticos e equipamentos especiais para o processo ensino-aprendizagem. Pessoa com baixa visão é aquela que possui resíduos visuais em grau que permitam ler textos impressos à tinta, desde que se empreguem recursos didáticos e equipamentos especiais, excluindo as deficiências facilmente corrigidas pelo uso adequado de lentes.

Nas escolas especializadas, como o IBC que atende alunos do maternal ao nono ano do Ensino Fundamental, os discentes aprendem a escrita e leitura em Braille. O Sistema Braille é um sistema de leitura e escrita tátil que consta de seis pontos em relevo, dispostos em duas colunas de três pontos. Os seis pontos formam o que convencionou chamar de "cela Braille". Para facilitar a sua identificação, os pontos são numerador da seguinte forma: Do alto para baixo, coluna da esquerda: pontos 1-2-3 Do alto para baixo, coluna da direita: pontos 4-5-6
 


Figura 07 – representação de cela Braille

A diferente disposição desses seis pontos permite a formação de 63 combinações ou símbolos Braille. As dez primeiras letras do alfabeto são formadas pelas diversas combinações possíveis dos quatro pontos superiores (1-2-4-5); as dez letras seguintes são as combinações das dez primeiras letras, acrescidas do ponto 3, e formam a 2ª linha de sinais. A terceira linha é formada pelo acréscimo dos pontos 3 e 6 às combinações da 1ª linha.

Os símbolos da 1ª linha são as dez primeiras letras do alfabeto romano (a-j). Esses mesmos sinais, na mesma ordem, assumem características de valores numéricos 1-0, quando precedidas do sinal do número, formado pelos pontos 3-4-5-6 . 

Vinte e seis sinais são utilizados para o alfabeto, dez para os sinais de pontuação de uso internacional, correspondendo aos 10 sinais de 1ª linha, localizados na parte inferior da cela Braille: pontos 2-3-5-6. Os vinte e seis sinais restantes são destinados às necessidades especiais de cada língua (letras acentuadas, por exemplo) e para abreviaturas.

Doze anos após a invenção desse sistema, Louis Braille acrescentou a letra "W" ao 10° sinal da 4ª linha para atender às necessidades da língua inglesa.
 

ALFABETO BRAILLE


Figura 08 – representação das letras em Braille
 

O sistema Braille é empregado por extenso, isto é, escrevendo-se a palavra, letra por letra, ou de forma abreviada, adotando-se código especiais de abreviaturas para cada língua ou grupo lingüístico. O Braille por extenso é denominado grau 1, o grau 2 é a forma abreviada, empregada para representar as conjunções, preposições, pronomes, prefixos, sufixos, grupos de letras que são comumente encontradas na palavras de uso corrente. A principal razão de seu emprego é reduzir o volume dos livros em Braille e permitir o maior rendimento na leitura e na escrita. Uma série de abreviaturas mais complexas forma o grau 3, que necessita de um conhecimento profundo da língua, uma boa memória e uma sensibilidade tátil muito desenvolvida por parte do leitor cego.

A importância do Braille nesta tese está no uso da simetria existente entre letras na forma de escrever e ler. Com efeito, em relação à escrita Braille, escreve-se da direita para a esquerda, na seqüência normal de letras ou símbolos. A leitura é feita normalmente da esquerda para a direita. Conhecendo-se a numeração dos pontos, correspondentes a cada símbolo, torna-se fácil tanto a leitura quanto a escrita feita em reglete. Escreve-se o Braille na reglete com o punção os pontos assim usados:
 


Figura 09 – representação de cela Braille para escrita

Já que, para a apresentação de conceitos por cegos, farei explanação sobre trabalhos de Ochaita e Espinosa (2004), destaco que as atividades pedagógicas que existem em escolas especiais, tanto no Brasil quanto na Espanha, explicam as intervenções educativas:

“O planejamento das intervenções educativas que devem ser feitas com as crianças cegas e deficientes visuais baseia-se em suas necessidades específicas que decorrem, fundamentalmente, da falta ou deterioração do canal visual de coleta de informações. (...) dessa forma poderão (os educadores) adaptar suas ações às peculiaridades de (cada) criança.” (OCHAITA e ESPINOZA, 2004, p. 162)

Conforme citação anterior, as ações educativas são feitas em conformidade com as necessidades de cada educando, de acordo com o tipo de deficiência visual e das necessidades do educando. Exemplificando: um aluno cego que necessite de uma locomoção independente terá mais aulas de OM do que outro que tenha interesse maior em aprender a ler e escrever em Braille.

Não obstante, reforçam a participação ativa dos pais ou responsáveis, haja vista que

(...) Desde seus primeiros dias de vida, as crianças cegas (...) interagem com os adultos, desde que estes saibam interpretar as vias alternativas de que a criança dispõe para conhecê-los e comunicar-se com eles.” (OCHAITA e ESPINOZA, 2004, p. 163).

A referida participação também é mencionada em Brasil (2003). Sem ela, as atividades docentes ficam de certa forma comprometida em relação à uma boa qualidade. Com efeito, discentes que poderiam ter um atendimento estimado em dez meses, às vezes dobram este período, como no caso da OM. O atendimento de OM no corpo da tese é motivado pela relação desta atividade com a Geometria. Assim, como se dá a formação de conceitos por cegos?

Na ausência da visão, o uso do tato e da audição em maior escala que o uso do olfato e do paladar, caracteriza o desenvolvimento e a aprendizagem das crianças cegas (OCHAITA e ESPINOSA, 2004). Ochaita e Espinosa (2004), na Espanha, apresentam o sistema háptico ou tato ativo como o sistema sensorial mais importante para o conhecimento do mundo pela pessoa cega. Para essas autoras, é necessário diferenciar o tato passivo do tato ativo ou sistema háptico. Enquanto no primeiro a informação tátil é recebida de forma não intencional ou passiva, no tato ativo a informação é buscada de forma intencional pelo indivíduo que toca.

Ainda, segundo as autoras, no tato ativo encontram-se envolvidos não somente os receptores da pele e os tecidos subjacentes (como ocorre no tato passivo), mas também a excitação correspondente aos receptores dos músculos e dos tendões, de maneira que o sistema perceptivo háptico capta a informação articulatória, motora e de equilíbrio.

O tato somente explora as superfícies situadas no limite que osbraços alcançam, em caráter seqüencial, diferentemente da visão, que é o sentido útil por excelência para perceber objetos e sua posição espacial a grandes distâncias. Entretanto, o tato constitui um sistema sensorial que tem determinadas características e que permite captar diferentes propriedades dos objetos, tais como temperatura, textura, forma e relações espaciais.

Aplicando essas considerações ao exemplo de um gato, uma criança cega não vai ter a noção de gato por ver um gato, mas por integrar dados sensoriais e explicações verbais que lhe permitam

identificar e descrever um gato, estabelecer distinções entre gato, cachorro e rato, e, no processo de educação formal, adquirir noções cada vez mais profundas e complexas sobre seres vivos e suas propriedades.

Esta mesma sequência aplica-se na compreensão de figuras geométricas. Observei, ao fornecer figuras em E.V.A., como um trapézio, que os discentes cegos inicialmente procuram um dos

vértices. Com um dos dedos indicadores sobre este vértice, desliza o outro dedo indicador para localizar os vértices seguintes até retornar ao vértice inicial. Com base na quantidade de vértices indica o tipo de figura: se é quadrilátero ou triângulo.

Em seguida, analisa os ângulos internos para saber se algum é reto. Sugeri para representar o ângulo reto a letra “v”, em Braille dada por



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Ressalta-se que a escrita Braille foi utilizada no corpo desta tese para trabalhar ideia de simetria e, algumas letras, para representar ângulos ou formas geométricas. É importante destacar que deslizar dedos indicadores para caracterizar figuras é uma prática da leitura Braille. Com efeito, são os dedos indicadores que as pessoas que leem em Braille identificam os pontos característicos das letras.

No tocante ao valor das informações sequenciais, é oportuno lembrar que, na vida, de acordo com Batista (2005), estão presentes muitas modalidades de informação sequencial: a música, o texto longo (romances, dissertações, entre outros), a exibição de um filme ou de uma peça de teatro. Nesses casos, não se considera que haja perdas ou dificuldades para a pessoa cega, pela impossibilidade da captação global e simultânea de todos os elementos que vão sendo apresentados em sequência.

Batista 9 (2005) enfatiza que sejam evitados estudos comparativos entre populações com indivíduos videntes e cegos. Com efeito, se obtém melhor compreensão acompanhando o processo de desenvolvimento de uma criança cega, especialmente de casos em que a aquisição de uma habilidade é bem sucedida, do que buscando tendências médias, pois um único caso bem sucedido já indica que as dificuldades, frequentemente encontradas na aquisição daquela habilidade, não são inerentes à cegueira, conforme Souza e Batista (2008).

Dessa forma é que decidi trabalhar com alunos cegos sem estabelecer comparações entre eles e entre discentes com deficiência visual e estudantes sem deficiência visual (videntes).

Já Lewis (2003) em sua dissertação de mestrado fez estudo com jovens cegas utilizando à percepção auditiva, isto é, a forma como determinado objeto era descrito verbalmente, apresenta revisão de literatura sobre o desenvolvimento de crianças cegas, concluindo que a cegueira não impede o desenvolvimento, mas que este difere, de diversos modos, do apresentado pelas crianças videntes.

Descrevendo objetos, sendo estes figuras matemáticas, Fernandes e Healy (2006) destacam a importância da vivência dos aprendizes cegos diante da apresentação de novos conceitos. Relacionaram a formação de conceitos com a apreensão de conceitos matemáticos por cegos, em particular conceitos geométricos, como simetrias.

Pesquisaram, Fernandes e Healy (2006), a formação do conceito simetria com dois estudantes cegos, fizeram uso dos trabalhos de Vygotsky para nortear sua mediação com os sujeitos de estudo. Apresentavam figuras no geoplano, como triângulos isósceles e quadriláteros, e solicitavam que os estudantes indicassem os eixos de simetria. A figura “04”, indicada anteriormente representa um quadrado em um geoplano. Os eixos de simetria são as diagonais e as retas que passam pelos pinos, tanto na horizontal quanto na vertical.

As formas de mediação para compreensão dos conceitos de simetria em muito contribuíram para as formas de mediar as atividades via OM O próximo capítulo trata da Orientação e Mobilidade e das características educacionais de discentes cegos.

Capítulo III – As Técnicas de Orientação e Mobilidade e suas Relações com a Geometria

Esse capítulo versa sobre as técnicas de OM e suas relações com a geometria. Didaticamente, a OM possui três grupos de técnicas: de guia - vidente (locomoção com auxílio de uma pessoa que enxergue), de auto-ajuda (correspondendo às técnicas de proteção) e de Hoover (uso de bengala longa), conforme Brasil (2003). Essa divisão é proposta pela União Mundial dos Cegos (UMC). Desta feita, torna-se necessário um breve levantamento sobre o desenvolvimento histórico da Orientação e Mobilidade para observar os possíveis conhecimentos geométricos existentes nas técnicas.

3.1. Breve histórico do desenvolvimento da Orientação e Mobilidade e seu uso atual

Este tópico trata do desenvolvimento da OM. Com efeito, conforme Moura e Castro (1998), ao ser abordada a evolução da OM, esta pode ter iniciado com uso do “cão-guia” na Idade da Pedra, pois na mitologia grega são encontrados sinais de uso primitivo de meios para ajudar a deslocação da pessoa cega. Também oc Antigo Testamento contém referências relativas à OM dos cegos e em particular a Isaac, que deve ter sido o primeiro caso registrado de cegueira que, ao perder a visão, utilizou um cajado de pastor como auxiliar para se deslocar.

Todas as ajudas utilizadas pelos cegos para se deslocarem (bastão, cão-guia), não eram fruto de qualquer experiência científica, mas sim do conhecimento comum. No entanto, pode-se dizer que os estudos nesta matéria se iniciaram, em 1749, quando Denis Diderot (DIDEROT, 2007), tenta descrever a percepção dos obstáculos pelos cegos. Continuando a citar o mesmo autor, os cegos também eram capazes de calcular a distância aos obstáculos.

Sauerberger (1996) relata que em 1925, ao ser demonstrada como as ondas de rádio se refletiam, de maneira semelhante às da luz num espelho, significando que quando um raio de energia é interceptado por um obstáculo, alguma parte dessa energia é devolvida à sua origem, o que indica a presença de um obstáculo no caminho do raio de energia, este princípio do radar poderia ser aplicado ao uso de raios de energia para detectar obstáculos que se apresentavam no caminho dos cegos. Moura e Castro (1998) relata diversos experimentos que demonstraram que o estímulo auditivo pode ter relação com esta sensação (da energia devolvida).

Segundo Sauerberger (1996) as experiências implicavam na detectação de obstáculos silenciosos depende da audição. Nas referidas experiências, indivíduos vendados eram colocados a determinada distância de uma parede de pedra. Os pesquisadores pediam que os sujeitos caminhassem e parassem junto da parede logo que esta fosse detectada. Alguns indivíduos eram cegos de nascença e outros videntes. Verificou-se que os cegos tinham maior facilidade na detecção ao passo que os outros colidiram várias vezes com a parede. Estas dificuldades foram desaparecendo com o treino.

Uma hipótese que era colocada era de que a audição ajudava na detecção, uma vez que o chão era de madeira e os indivíduos estavam calçados. Para controlar esta hipótese realizaram a experiência descalços e em soalho com tapete. As dificuldades aumentaram para os dois grupos, reforçando a ideia de que a audição interfere na detecção de obstáculos silenciosos.

Uma segunda experiência realizada, conforme indica Moura e Castro (1998), consistiu em colocar um indivíduo cego em um aposento sem sonorização. O observador com microfone de alta fidelidade caminhava calçado num soalho duro. O cego avisava o experimentador quando devia parar. Verificou-se que as informações eram corretas. Para reforçar a ideia de que a detecção de objetos silenciosos é devido à audição, Moura e Castro (1998) indica estudos realizados com surdo-cegos que verificaram que os mesmos são incapazes de detectar objetos.

O cão-guia é um outro meio de ajuda para locomoção da pessoa cega. Os cães que serviram de mensageiros durante a 1ª Guerra Mundial viriam a ser treinados como guias para cegos. O cão tornou-se um grande auxiliar para a locomoção das pessoas cegas. Em 1923 foi criada, em Postdam, uma organização de cães-guias para cegos civis. Em 1930 é fundada a primeira escola de treinamento em Wallassey, Cheshire. Todavia verificou-se que a utilização do cão-guia por parte dos indivíduos mais jovens não era satisfatória, na medida em que o cão não obedecia ao dono devido às constantes brincadeiras que este tinha com ele (MOURA E CASTRO, 1998).

Nos fins da 2ª Guerra Mundial, devido ao número de ex-combatentes dos Estados Unidos ficarem localizados para reabilitação no Hospital Geral de Vallerytorge perto da Filadélfia, foi recrutado pessoal para ajudar aos cegos. No pessoal recrutado havia um jovem, Richard Hoover, que tinha sido professor de matemática e treinador de atletismo numa escola de cegos. De acordo com Moura e Castro (1998), Hoover 10 pela observação dos seus alunos e de experiências pessoais com os olhos vendados, chegou à conclusão de que o bastão usado não estava adequado.

O método de treino e o estudo das técnicas da bengala só mais tarde foram apuradas, no Hines Veteran’s Hospital em Chicago, Illinois, durante os anos 50 do século XX, de acordo com Sauerberger (1996). Assim foi fabricado um bastão de metal tubular comprido e ligeiro. Foi chamado o bastão de Valleyforge, peça central da técnica de Hoover para a aprendizagem da Orientação e Mobilidade.

Em 1960, foi inaugurado o primeiro curso para formar instrutores de Orientação e Mobilidade, em Boston College, com o nome de Peripatologia. Em 1961 abre o mestrado em OM na Western Michigan University (MOURA E CASTRO, 1998). Outras universidades deram continuidade ao processo de formação, incluindo programas para crianças cegas, uma vez que os primeiros cursos estavam mais vocacionados para jovens e adultos. Assim sendo, como é definida a OM atualmente?

“Orientação”: é o processo de utilizar os sentidos remanescentes para estabelecer a própria posição e o relacionamento com outros objetos significativos no meio ambiente (BRASIL, 2003). Essa habilidade de compreender o ambiente é conquistada pelos deficientes visuais desde seu nascimento e vai evoluindo no decorrer de sua vida. Por isso há necessidade de nova orientação, por parte da criança, toda vez que houver mudanças no espaço. Tal orientação pode durar instante ou até semanas, dependendo da complexidade da situação.

As crianças cegas, durante o processo de orientação, podem sentir dificuldades espaciais com relação aos quatro tipos de orientações a partir da consciência de sua localização. Os quatro tipos de orientações são: (1) pontos fixos, quando está parado; (2) pontos fixos, quando está em movimento; (3) pontos em movimento, quando está parado; (4) pontos em movimento, quando está em movimento.

Ao ensinar um aluno deficiente visual, o processo de orientação tem como princípio três questões básicas: (1) Onde estou? (2) Para onde quero ir? (Onde está o meu objetivo?) e (3) Como vou chegar ao local desejado?

Mas, para o aluno elaborar essas questões, ele deve passar pelo processo que envolve as seguintes fases (WEISHALN, 1990): (1) percepção para captar as informações presentes no meio ambiente pelos canais sensoriais; (2) análise, a qual consiste na organização dos dados percebidos em graus variados de confiança, familiaridade, sensações e outros; (3) seleção ou escolha dos elementos mais importantes que satisfaçam as necessidades imediatas de orientação; (4) planejamento ou plano de ação, cujo foco é chegar ao objetivo do discente, com base nas fases anteriores; Para, então, chegar à: (5) mobilidade propriamente dita, que é realizar o plano de ação através da prática.

Todo o processo se dá de forma dinâmica e, caso haja mudanças dos objetivos iniciais, há a possibilidade de alteração. Na orientação existem referenciais que facilitam a mobilidade da pessoa deficiente visual: pontos de referência, pistas, medição, pontos cardeais, auto-familiarização e leitura de rotas, segundo Sauerberger (1996). O autor define a mobilidade como a habilidade de locomover-se com segurança, eficiência e conforto no meio ambiente, através da utilização dos sentidos remanescentes.

As pessoas percebem boa parte da realidade à sua volta por meio da visão, o que não significa que as com deficiência visual estejam impossibilitadas de conhecer e se relacionar com o mundo. Ela deve se utilizar de outras percepções sensoriais, como a audição que envolve as funções de ecolocalização, localização dos sons, escutar seletivamente e sombra sonora; o sistema háptico ou tato ativo; a cinestesia; a memória muscular; o sentido vestibular ou labiríntico; o olfato e o aproveitamento máximo de qualquer grau de visão que possa ter (BRASIL, 2003).

Em relação à audição, o ouvido é o principal órgão sensorial à longa distância. Não existe uma compensação automática da agudeza auditiva causada pela perda da visão, conforme crença popular (BRASIL, 2003). A capacidade de perceber objetos à distância aparece como resultado do esforço persistente das pessoas cegas para usufruírem ao máximo desse sentido.

Recomenda-se, conforme Brasil (2003), estimular as crianças cegas a permanecerem alertas aos sons, interpretá-los e convertê-los em pistas para orientação no espaço. Com efeito, pelos sons a criança deficiente visual conhece as qualidades acústicas de sua casa, reconhecendo cada ambiente pelas características de seus respectivos sons. Desde muito pequena deve ser estimulada a tomar consciência de qualquer som que possibilite sua orientação. O som de abrir ou fechar uma porta pode revelar a posição da criança, os sons vindos das janelas favorecem a relação do ambiente interno com o externo da casa e suas relações de espaço e distância.

Em relação ao ambiente escolar, o professor deve falar sobre os diferentes sons e ajudar a criança a descobrir outros que possam ser utilizados como indicadores de orientação (OCHAITA e ESPINOSA, 2004). Qualquer som tem o potencial de se converter em um auxiliar para a orientação. Ochaita e Espinosa (2004) insistem para que os professores estimulem os alunos deficientes visuais a converterem o seu “ouvir” em um “escutar” ativo para a orientação e mobilidade. Por exemplo, na escola a direção de um corredor pode ser facilmente determinada pelo passo de outras pessoas. Os corredores que se cruzam podem ser detectados pelos passos e ecolocalização. Num ambiente há várias indicações ou pistas auditivas: uma torneira aberta, troca de som dos passos devido a mudança de piso da superfície, sons característicos da cozinha, refeitório, secretaria, barulho de um ventilador e outros.

Ecolocalização indica a habilidade de transmitir um som e perceber as qualidades do eco refletido, foi identificado nos morcegos e posteriormente nos golfinhos, utilizam extremamente bem esta habilidade ao navegar pelos oceanos, conforme Moura e Castro (1998).

As pessoas com deficiência visual fazem uso da ecolocalização em diferentes graus e ela é também conhecida como visão facial, percepção de obstáculo e “sexto sentido”. As crianças são menos inibidas para emitir um som e perceber a sua reflexão, porém, os adultos são mais sutis nessa realização. Muitas crianças empregam a ecolocalização em um recinto fechado para ter noção de seu tamanho ou para perceber a extensão de um corredor ou tentar descobrir mais informações sobre o ambiente em que se encontra (BRASIL, 2003).

Algumas crianças cegas arrastam os pés “varrendo” o chão a cada passo, com esta forma de andar criam a ressonância auditiva, utilizando-a como meio para orientar-se no ambiente. O som pode ser emitido de diferentes formas: bater palmas, estalar a língua, fazer castanholas com os dedos, ou dar um passo mais “forte” no solo.

Em relação à localização do som, são localizados pelo intervalo de tempo e intensidade. Se a fonte sonora estiver à direita, as ondas sonoras alcançarão o ouvido direito numa fração de segundo antes que o ouvido esquerdo. Os sons que vêm da frente ou de trás são mais difíceis de serem localizados e é comum a pessoa virar a cabeça para melhor determinar sua origem.

A localização do som depende da fonte sonora ter uma duração suficiente que permita ao indivíduo medi-la auditivamente, encontrar a direção de maior intensidade e determinar a pista para um caminhar mais seguro. A localização do som possibilita à criança deficiente visual perceber se os passos vêm em sua direção, ou em direção contrária, “olhar” o rosto da pessoa com quem está falando e também determinar a sua altura.

Quando o indivíduo tem dificuldade para se orientar em casa, o rádio ligado serve como fonte sonora constante que permite localizar as dependências da casa e mantê-lo orientado através da relação que estabelece com a fonte sonora, assim como os ruídos característicos existentes nos respectivos ambientes: cozinha, banheiro, lavanderia, quintal e outros. A pessoa cega mantém a sua linha de direção e por vezes atravessa as ruas de mão única localizando o som paralelo dos carros, identificando quando o som do trânsito está à sua frente, o que indica um cruzamento de ruas. Assim sendo, escuta seletivamente (BRASIL, 2003).

Escutar seletivamente é a capacidade de selecionar um som entre um grupo de muitos outros simultâneos. Possibilita à pessoa cega extrair uma pista de orientação auditiva entre muitos sons. Existem muitas oportunidades para sua aplicação, é a forma mais precisa para cruzar ruas, sempre que possível, onde entre muitos sons é selecionado o som do trânsito. Outra aplicação importante é quando, mantendo uma conversação, ocasionalmente percebe os passos de outras pessoas andando ao longo da calçada. O desenvolvimento dessa habilidade exige do sujeito atenção e discriminação para que possa selecionar precisamente a fonte sonora para melhor se orientar em ambientes conhecidos ou não, por isso deve sempre ser informada sobre os sons do ambiente.

Em relação ao conhecer dado objeto, isto se faz via tato. A percepção sensorial mais importante que a pessoa cega possui para conhecer o mundo é o háptico, também chamado de tato ativo. No tato passivo, a informação tátil é recebida de forma não intencional, como a sensação que a roupa causa na pele produzindo calor, a mão que repousa sobre a mesa, o resvalo na parede e outros. No tato ativo, a informação é buscada de forma intencional pelo indivíduo que toca o objeto e procura identificá-lo, destaca Ochaita e Espinosa (2004).

As pessoas cegas obtêm muitas informações para sua orientação pelas mãos tocando os objetos e os transformando em pontos de referência. A bengala longa, nas técnicas de Hoover, se transforma em extensão do dedo indicador para sondar tatilmente a superfície. Os pés percebem pontos de referência quando pisam diferentes tipos de texturas, como a grama, pedregulhos, lajotas, areia, asfalto e outros (BRASIL, 2003).

Ochaita e Espinosa (2004) consideram de grande importância a percepção tátil, porque possibilita o contato e o conhecimento dos objetos, sendo o canal imprescindível para a leitura. Entretanto, para a orientação e mobilidade, a audição é um dos sentidos mais importantes, porque possibilita estabelecer as relações espaciais.

Os receptores térmicos na pele fornecem indicações de orientação, pela indicação dos pontos cardeais. Pela manhã, o sol (calor) incidindo na face ou parte anterior do corpo, indica à pessoa cega que está se dirigindo para o leste; na parte de trás da cabeça e nas costas, para o oeste. Desta forma, o uso do sol como referência possibilita rápida verificação de uma possível troca de direção e a correção imediata da mesma.

GARCIA (2001) enfatiza que os professores precisam estimular seus alunos cegos para que utilizem essas indicações e se mantenham orientados na escola, durante o recreio para preservarem sua independência na mobilidade. A percepção do calor e frio fornecida por lugares ensolarados ou não pode ajudar a criança cega a identificar sombras de árvores e do prédio escolar, perceber sua aproximação do objetivo que deseja atingir, fornecendo pistas seguras e confiáveis. O movimento do ar sobre os pêlos do corpo pode ser de grande ajuda para, o aluno detectar um ventilador silencioso, portas e janelas abertas, o final de um corredor ou a saída do ambiente sem ser desejado. Como o uso do tato implica em movimento muscular, torna-se necessário perceber cada movimento realizado.

Assim sendo, define-se a cinestesia como a sensibilidade para perceber os movimentos musculares ou das articulações.

Segundo Brasil (2003), esta percepção nos torna conscientes da posição e do movimento do corpo, por exemplo, quando se eleva o braço até a altura dos ombros, o sentido cinestésico nos informa a posição exata do braço e qualquer movimento executado.

É através desse sentido que as pessoas deficientes visuais podem detectar as inclinações ou os desníveis das superfícies sobre as quais caminham, quando o ângulo do pé ou da parte interior da perna trocam sua posição normal, face a modificação do solo. As pessoas deficientes visuais percebem os aclives e os declives com muito mais sensibilidade que as pessoas que enxergam, devido a sua importância para a orientação.

Através da repetição de atividades é formada a memória muscular, uma das funções do sentido cinestésico. Com efeito, é a repetição de movimentos em uma sequência fixa, que se convertem em movimentos automáticos. Para os cegos esse fenômeno é valioso para trajetos curtos em ambientes internos. Por meio dele a pessoa pode realizar um caminho e retornar ao ponto de partida sem a necessidade de contar os passos (BRASIL, 2003).

Essa habilidade não é muito percebida pelas pessoas que enxergam uma vez que utilizam a visão como principal referência para realizar esse controle. Esta habilidade deve ser estimulada no aluno cego possibilitando a vivência dos movimentos que contribuirão para a sua independência, desde que o sentido vestibular não esteja comprometido, como ocorre em alguns casos de deficiência múltipla (BATISTA, 2005).

O sentido vestibular provê informações sobre a posição vertical do corpo e dos componentes rotatórios e lineares dos movimentos sobre o eixo de uma volta em graus, por exemplo, ao dobrar uma esquina 90 graus. Os movimentos para a direita ou para a esquerda exercem grande influência no equilíbrio e a pessoa deficiente visual precisa vivenciar situações desse tipo para não se desorientar ou desequilibrar-se (BRASIL, 2003). Em relação à orientação, é de grande valia o uso de referenciais na OM. Em alguns casos, o cheiro do ambiente serve para a localização de objetos, como paredes, que permitem ao aluno se posicionar na vertical.

Desta feita, o olfato é um sentido de longo alcance e pode fornecer pistas para a orientação e localização de ambientes, como cozinha, sanitários, consultório dentário, laboratório, jardins e outros. O olfato é uma grande referência para a localização na rua, por meio de odores característicos de certos estabelecimentos comerciais, como farmácia, açougue, posto de gasolina e outros.

Esse sentido deve ser bastante estimulado nas pessoas deficientes visuais porque, além de ser um grande auxiliar para sua orientação e mobilidade, contribui, também, para a proteção e cuidados pessoais na discriminação de produtos de diferentes naturezas, como alimentação, higiene pessoal, limpeza, medicamentos e outros. A pessoa cega terá poucas oportunidades de explorar o ambiente se ficar deslocando-se somente por caminhos e espaços conhecidos, com auxílio de guias (BRASIL, 2003). Ela apreende o mundo pela interação direta com ele, daí a importância da alteração de caminhos e exploração de pistas olfativas (GARCIA, 2001). Assim sendo, o uso de plantas táteis é de grande importância, pois permite uma abstração da interação com o mundo.

A planta tátil pode ser confeccionada no alumínio, marcado por carretilha de costura, ou em cartolina, utilizando sucatas, materiais de diferentes texturas, cola plástica, fios colados e outros materiais que dêem relevo. Nessa planta é importante marcar o ponto de referência (onde está localizado o discente!). Quando a pessoa está nas primeiras séries é importante que, além de utilizar tais materiais, deve-se fazer com que ela trace o caminho para sua exploração e pedir que reconstrua o espaço. Dessa forma, irá transferir as relações espaciais simples da sala de aula para uma maquete construída progressivamente, à medida que for descobrindo novos ambientes. Nessa atividade pode-se avaliar o grau de compreensão do sujeito.

É de extrema importância que o aluno vivencie o espaço para compreendê-lo: caso a sala de aula seja quadrada, a base da maquete deve ter a mesma forma. No caso da sala de aula, o ponto mais importante é a porta, depois a mesa do professor, a carteira do aluno deficiente visual, as demais carteiras e as janelas (BRANDÃO, 2006). Enquanto as pessoas videntes formam e comprovam muitos conceitos informalmente, as pessoas com deficiência visual necessitam de uma apresentação estruturada dos mesmos para assegurar um desenvolvimento adequado dos fundamentos a eles relacionados (BRASIL, 2003).

Conceitos básicos relacionados à Orientação e Mobilidade são necessários para a pessoa com deficiência visual movimentar-se com segurança e eficiência. O conhecimento corporal, por exemplo, é fundamental, devendo-se dar especial atenção a: (1) esquema corporal, (2) conceito corporal, (3) imagem corporal, (4) planos do corpo e suas partes, (5) lateralidade e direcionalidade.

Esses conceitos devem ser enriquecidos com outros da mesma importância, como: posição e relação com o espaço, forma, medidas e ações, ambiente, topografia, textura e temperatura. De acordo com GARCIA (2001) é necessário ressaltar que a criança cega tem poucas oportunidades de explorar seu corpo e o ambiente que a rodeia. Sua passividade e falta de curiosidade podem ser atribuídas ao medo de se mexer e à falta de motivação para explorar o espaço em que vive.

Essa insegurança é proveniente da falta de estímulo e faz com que a criança com deficiência visual apresente um processo de desenvolvimento mais lento. Assim, os programas de atendimento devem ser individualizados e terem como referência o estudo de caso, no qual sejam adequadamente investigados os aspectos bio-psico-sociais, condições sensório-motoras e história de vida. A partir desses dados devem ser oferecidas atividades variadas para propiciar o desenvolvimento das habilidades para perceber e discriminar similaridades no processo perceptual que são fundamentais para a formação de conceitos (BRASIL, 2003).

Formar conceitos de espaço e objetos no espaço depende em grande parte do relacionamento do observador com o objeto. O indivíduo percebe objetos a partir de um ponto de vista egocêntrico, usando os termos acima, abaixo, em frente, lado esquerdo, direito o que depende do desenvolvimento da consciência corporal. Esta, envolve a imagem corporal, o conceito e a concepção corporal - elementos essenciais e independentes para a percepção das relações espaciais.

A imagem corporal está relacionada com a experiência subjetiva do próprio corpo que envolve sentimentos acerca de si mesmo: atraente, baixo, obeso, musculoso, proporcional, gracioso, etc, com base em fatores emocionais, interações e aspirações sociais e valores culturais. A auto-imagem pode diferir consideravelmente da imagem real. O adolescente pode ter apenas uma pequena mancha, mas achar que todo o seu rosto está coberto com espinhas que todos percebem.

Conceito corporal compreende o conhecimento do próprio corpo, adquirido por um processo de aprendizagem consciente, que inclui a habilidade de identificar partes do corpo: pernas, braços, joelhos, nariz, orelhas, cabelo, etc, sua localização e funções. E a concepção do corpo, que é inconsciente e muda constantemente, também chamadas sensações proprioceptivas, serve para tomar conhecimento do corpo: posição dos músculos, relação das partes do corpo entre si e com a força de gravidade. O equilíbrio da pessoa depende da concepção corporal. Se estiver perturbada, haverá dificuldade em fazer movimentos coordenados como andar, sentar-se ou inclinar-se.

Para a formação de conceitos corporais é importante conhecer as partes, funções, superfícies, relação de partes e de movimento do corpo. A pessoa deficiente visual deve identificar as partes do corpo e descrever suas funções: ouvidos para ouvir sons; fala para dizer coisas; mãos para agarrar, segurar e manipular; pernas para sustentar o corpo em pé e auxiliar para caminhar, correr, etc; dentes para morder e mastigar alimentos; nariz para respirar e sentir odores. É preciso movimentar e vivenciar as partes do corpo ou superfícies do corpo pelas articulações: dobrar o braço no cotovelo, erguer os dedos do pé, curvar o corpo lentamente para frente, andar para trás, colocar as mãos nos quadris (BRASIL, 2003).

Conforme Garcia (2001), à medida que a pessoa desenvolve o conhecimento do próprio corpo vai formando conceito corporal mais exato de suas posições e relações. Para um sujeito com deficiência visual é particularmente importante que ele saiba relacionar o seu corpo com o espaço que o rodeia. Por conseguinte, a construção do espaço necessita de preparação e se realiza pela liberação progressiva dos egocentrismos. Na construção dos conceitos espaciais é necessário levar em consideração: (1) o espaço corporal; (2) o espaço de ação; (3) espaço dos objetos; (4) espaço geométrico e (5) espaço abstrato.

Segundo essa autora, espaço corporal consiste na consciência das posições, direções e distâncias em relação a seu corpo. Utilizando o seu próprio corpo como referência, a criança localiza objetos a partir de relações entre eles (corpo-objeto) e coordenação de diferentes pontos de vista. Posteriormente passa do egocentrismo para a descentralização.

Espaço de ação é a orientação para a execução de movimentos. Para a criança, o espaço é essencialmente um espaço de ação; ela constrói suas primeiras noções espaciais, usando os conceitos tais como: próximo, dentro, fora, em cima, embaixo, por meio dos sentidos e seus deslocamentos como rolar, rastejar, engatinhar e andar (GARCIA, 2001). O espaço é o espaço vivido, prático, organizado e equilibrado quanto à ação e comportamento.

Espaço dos objetos consiste na posição dos objetos quanto à direção e distância, a partir do espaço corporal perceptivo. As relações espaciais possibilitam a construção de representações espaciais, topológicas, projetivas e euclidianas (BRASIL, 2003). Pelas relações topológicas, localiza objetos no espaço, utilizando termos como vizinho de, ao lado de, dentro de, fora de e outros. Em relação ao espaço geométrico, a orientação se faz a partir das experiências concretas, utilizando os conceitos geométricos para elaboração de mapas mentais, a partir de algum sistema de coordenação ou direção, aplicável em diferentes áreas.

Segundo Garcia (2001) a criança evolui da orientação corporal para a geométrica, estabelecendo as direções norte, sul, leste e oeste, em um espaço tridimensional ou numa superfície plana (planta da casa ou mapa). O espaço perceptivo se constrói em contato com o objeto e o representativo, na sua ausência. Essa construção requer concepções geométricas dos elementos da figura (linha, ângulos), que não são elaborados por crianças menores de oito anos (BATISTA, 2005).

Espaço abstrato é a capacidade de manejo dos conceitos para elaboração de rotas, traçados de plantas, mapas e outros (GARCIA, 2001). A pessoa com deficiência visual tem dificuldade de construir os conceitos espaciais, o que interfere diretamente na orientação e mobilidade. Geralmente ela tem dificuldade de sair de si mesma e compreender o mundo que a rodeia (BATISTA, 2005). Os conceitos espaciais são excelentes auxiliares na orientação e mobilidade. O professor mediador deve levar o aluno cego a realizar atividades que facilitem sua compreensão e interiorização (BRASIL, 2003). Feitas essas considerações, as técnicas de OM atualmente empregadas são apresentadas a seguir.

3.2. Técnicas formais aplicadas em Orientação e Mobilidade

Neste sub–tópico é apresentada uma relação entre a Geometria e as técnicas de Orientação e Mobilidade. A análise dos conteúdos geométricos foi observada em conjunto com professores do Departamento de Matemática da UFC e da E.E.F. Instituto dos Cegos. Outros conteúdos matemáticos, como trigonometria, são apresentados no artigo “A Matemática por trás da Orientação e Mobilidade”, conforme Brandão (2009b).

Fica convencionado nesta tese que a técnica será denotada por Tc. Assim, por exemplo, Tc1 significa a técnica número um, a técnica do guia vidente. Tc1.2, por conseguinte, representa o segundo tópico da técnica número um, neste caso, é a troca de lados. Vale ressaltar que para a instrução de uma técnica, o professor verbaliza o objetivo e os procedimentos correspondentes. Quando for o caso (como na Tc1.1), o docente pode tocar nas partes do corpo do discente que serão utilizadas na aula para ilustrar dado procedimento. Destaca-se que toda vez que o docente necessitar tocar no discente, ele deve informá-lo.

Exemplificando: considere a técnica de troca de lado (tc1.2). Como objetivo tem-se proporcionar ao aluno deficiente visual a mudança de lado de acordo com o seu interesse, preferência, condições de segurança e adequação social quando estiver sendo guiado em ambientes internos ou externos.

Em relação aos procedimentos destaca-se que o aluno deve segurar o braço do guia com as duas mãos; soltando uma das mãos o aluno deve escorregá-la horizontalmente nas costas do guia até localizar o braço oposto e após localizar o outro braço o aluno passa automaticamente para o lado oposto.

Conteúdos geométricos associados 11: estando caminhando com o guia vidente, o discente já está instruído que deve andar de modo ereto, estando seu corpo em posição vertical em relação ao solo. O deslocamento é paralelo à uma parede ou meio-fio de uma calçada. A mão é escorregada horizontalmente pelas costas do guia até localizar o outro braço deste. O ângulo entre o braço – cotovelo – antebraço é de 90º.

A seguir, apresento um resumo geral das técnicas (BRASIL, 2003), com respectivos objetivos e procedimentos, os quais servem, para as tabelas de “A” até “C”. É importante destacar que a apresentação embora pareça cansativa é de grande valia para relacionar conteúdos geométricos com procedimentos.

Técnica do Guia Vidente (Tc1)

É a primeira técnica a ser ensinada e se constitui em um dos meios mais eficientes para familiarizar a pessoa com os espaços físicos da escola, principalmente a sala de aula. O professor ao guiar o aluno de um lado a outro na escola deverá pedir-lhe que descreva detalhes encontrados no ambiente: cruzamento de corredores, aberturas de espaços como saguão, portas, texturas dos pisos, inclinações, degraus e outros.

Essas informações servem ao professor como avaliação informal do aluno quanto aos conceitos e as percepções não visuais ou no caso dos alunos com baixa visão o quanto e como está enxergando, o que pode identificar e a que distância. A técnica do guia vidente é empregada universalmente tanto em ambientes internos ou externos, é utilizada tanto no início do aprendizado de orientação e mobilidade como em situações posteriores. Destaca-se a participação ativa do estudante com deficiência visual. Com efeito, o discente também é responsável por sua segurança física, devendo instruir seu guia para que este se constitua numa fonte segura de informação e proteção.

O aluno deficiente visual interpreta corretamente os movimentos corporais e sinais emitidos pelo guia, isto acontece após um período de uso da técnica quando estará apto a captar todas as informações cinestesicamente, dispensando as informações orais. Durante a caminhada o guia vidente descreve, relata e informa pontos de referência que sirvam de interesse, fornece informações complementares e úteis sobre os serviços existentes bem como obstáculos encontrados no percurso.

Uma observação importante é que o deficiente visual em ambiente externo deve caminhar do lado interno da calçada, protegendo-se de obstáculos que, quase sempre, são encontrados na parte externa da calçada, como postes, telefone, caixa de correio, lixeiras e outros. O MEC destaca (BRASIL, 2003) que a finalidade de apresentação das técnicas é oferecer subsídios práticos aos professores de classes inclusivas e pais de alunos deficientes visuais para que possam atuar junto aos mesmos de forma a torná-los mais independentes.

A utilização do guia vidente tem como objetivos: Funcionar como uma técnica segura e eficiente de movimentos; Proporcionar ao aluno participação ativa e independente; Permitir que o aluno compense as dificuldades causadas por um mal guia; Possibilitar a interpretação dos movimentos do guia através da percepção cinestésica.

As técnicas podem ser contempladas em Brasil (2003). Faremos apenas um quadro resumo comparando o que se pode explorar matematicamente.
 

Quadro “1” – técnicas do guia vidente e geometria


Fonte: Pesquisa direta


Técnicas de Auto-Ajuda (Tc2)

Estas técnicas possibilitam ao aluno com deficiência visual movimentar-se com independência, eficiência e segurança, em ambientes internos e familiares, em situações onde haja necessidade de utilizar seu corpo e seus movimentos para se orientar e se locomover.

Para o uso dessas técnicas os alunos necessitam de conhecimento de seu corpo, de seus movimentos, da posição das partes do mesmo, e dominar conceitos relacionados a espaço, tempo, lateralidade e outros, envolvendo a interpretação cinestésica e a utilização integrada de todos os sentidos.

As técnicas de auto-ajuda deverão ser incluídas o mais precocemente possível, pois se constituirão nas bases da segurança e confiança na locomoção, tornando-se hábitos indispensáveis que evitarão que o aluno deficiente visual caminhe agitando os braços de forma incontrolada. Sem o uso de pontos de referência confiáveis, por não ter adquirido orientação e domínio do ambiente e conhecimento dos objetos que o rodeiam, estará exposto constantemente a acidentes, gerando uma relação de dependência com seus familiares ou pessoas de seu relacionamento, o que irá bloquear sua independência e levará a uma baixa na sua autoestima.

Quadro “2” – técnicas de auto-ajuda e geometria


Fonte: Pesquisa direta


Técnicas Com O Uso da Bengala Longa Ou Técnicas de Hoover (Tc3)

Estas técnicas têm como objetivo habilitar a pessoa com deficiência visual para locomover-se com segurança, eficiência e independência em ambientes internos e externos, utilizando a bengala longa.

O primeiro-tenente e médico oftalmologista do Valley Forge Hospital, Dr. Richard Hoover, em 1950, após estudos relacionados a problemática da cegueira e a mecânica da marcha, criou uma bengala mais longa e mais leve que as tradicionais de apoio, para ser utilizada como uma extensão do dedo indicador, para sondar através da percepção tátil-cinestésica o espaço à frente, detectando a natureza e condições do piso, existência de obstáculos, depressões, aclives, declives, localizar pontos de referência e proteger a parte inferior do corpo de colisões.

A bengala criada por Hoover, media aproximadamente, l,42m de comprimento, por l,2cm de diâmetro e pesando 186g, com a extremidade inferior arredondada para facilitar o deslizamento no contato com o solo. Criou e desenvolveu um sistema de exploração tátil e cenestésica por extensão, estruturando um programa de Orientação e Mobilidade em três etapas; utilização do guia vidente, técnicas de autoajuda e técnicas para utilização da bengala longa. Hoje, o comprimento da bengala para a pessoa com deficiência visual é determinado pela estatura, tipo físico, extensão do passo; costuma-se tomar com referência de medida uma linha vertical que vai da extremidade do osso externo (boca do estômago) até o solo.

Essa técnica foi organizada através de uma seqüência progressiva de dificuldades, iniciando-se em ambientes internos e conhecidos, passando para uma fase residencial, de movimento e trânsito tranquilo, evoluindo para áreas comerciais e mais movimentadas. Em se tratando de estudantes, deverá ser iniciada pelos corredores, sala de aula, banheiros, refeitório e parte administrativa passando para o pátio e posteriormente para os arredores onde a escola está inserida.

A bengala longa poderá ser utilizada desde a infância até a idade em que a pessoa tenha condições de se locomover sozinha. O uso da mesma é recomendável também para crianças pequenas dependendo de algumas condições relacionadas à idade, interesse, necessidade, maturidade, responsabilidade e domínio de competências e habilidades que favoreçam o processo evolutivo dos programas de Orientação e Mobilidade.

Feitos os quadros, o próximo tópico trata do desenvolvimento do método GEUmetria = EU + Geometria. O referido método teve como motivação as aulas de Orientação e Mobilidade. Visando maior aproveitamento nas aulas de OM, Brandão (2007) insere técnicas de alongamento e respiração, como uma das primeiras atividades do GEUmetria.
 

Quadro “3” – técnicas de Hoover e geometria


Fonte: Pesquisa direta


3.3. GEUmetria

Neste tópico apresento as ideias iniciais que motivaram a estruturação do método GEUmetria = EU + Geometria, que foi desenvolvido entre 2002 e 2004 na E.E.F. Instituto dos Cegos de Fortaleza, no Ceará, e procura estimular a compreensão de conhecimentos geométricos utilizando partes do corpo de discentes cegos diante de aulas de Orientação e Mobilidade (BRANDÃO, 2004). Para pessoas com deficiência visual, a OM faz parte do seu contexto social.

Estudos em Nova Guiné (SAXE, 1996) e na Noruega (FHYN, 2007) têm focalizado a associação entre conhecimento de partes do corpo e a compreensão de sistemas e conceitos matemáticos. Saxe (1996) realizou experiência com os Oksapmins, povos indígenas de Papua Nova Guiné, desde o fim dos anos 80 do século passado. Eles usavam como sistema numérico os nomes das partes do corpo.

Saxe observou a instrução escolar em matemática dos Oksapmins em virtude do Governo de Papua Nova Guiné realizar reformas educacionais cujo principal foco era criar fortes laços entre as atividades escolares e ações cotidianas dos alunos fora da vida escolar. A língua indígena que passou a ser utilizada em sala de aula não apresentou, por parte dos docentes, grandes dificuldades. Todavia, o ensino de matemática teve que ser adaptado, em virtude dos Oksapmins utilizarem partes do corpo para indicar um sistema de base 27, diferente do tradicional sistema de base 10.

Para realizar contagens, os Oksapmins iniciam com o polegar em um lado e enumera 27 lugares ao redor da periferia superior do corpo, terminando no dedo mindinho da mão oposta. Para indicar um número específico, aponta para a parte do corpo adequado (por exemplo, o ouvido) e diz o nome da parte do corpo em voz alta. Tradicionalmente, cada número é marcado tanto por uma palavra e um gesto, apontando para a parte do corpo em questão.

Para continuar após a parte do corpo 27 continua até o pulso, antebraço e em cima e em redor do corpo. Não há distinção entre o nome, incluindo gestos e palavras, para a parte do corpo 21 e parte do corpo 29. Desta feita, torna-se necessário compreender o contexto do referencial numérico para qualquer número no sistema de contagem Oksapmins.

Em relação aos estudos realizados na Noruega, Fyhn (2007) faz uso de atividades físicas, como escaladas em montanhas, andar de skate, entre outras, para inserir a ideia de ângulo e dos tipos de ângulos mais frequentes encontrados na natureza e no corpo dos próprios discentes. Exemplificando: ao andar de skate o equilíbrio do sujeito fica mais estável quando o ângulo compreendido entre a coxa, o joelho e a perna fica em torno de 60º. Em sua tese de pós-doutoramento ela afirma que é preciso experimentar a matemática para reinventá-la. O experimentar associado à repetição para compreensão de conceitos. Nesse sentido, de experimentar associado à repetição, vale ressaltar que a OM é utilizada pela pessoa com deficiência visual continuamente.

Já que a OM faz parte do contexto social das pessoas com deficiência visual, a ideia das convenções matemáticas em um determinado contexto social é reforçada, por Carraher, Carraher e Schliemann (1995). Com efeito, dentre os alunos que não aprendem na aula estão discentes que usam a matemática na vida diária, vendendo em feiras ou calculando e repartindo lucros. Analisam, os referidos autores, a matemática na vida diária entre jovens e trabalhadores que, na maioria das vezes, não aprenderam na escola o suficiente para resolver os problemas que resolvem no cotidiano.

O cotidiano de discentes com deficiência visual, principalmente os cegos, está associado ao uso de bengala longa. Pois, quando estão se locomovendo em determinado ambiente, a bengala serve para indicar a existência de objetos ou buracos à frente do sujeito. Para um manuseio correto, a pessoa deve deixar a bengala no centro do corpo e fazer arcos de circunferência, com 60º para a direita e 60º para a esquerda, a partir do centro do corpo como referencial.

Tanto a compreensão do que é um ângulo 60º quanto o saber o significado de arco de circunferência, são ideias geométricas. Para inserir conceitos da Geometria Plana são necessárias algumas considerações. Axiomas (ou Postulados) são proposições aceitas como verdadeiras sem demonstração e que servem de base para o desenvolvimento de uma teoria.

O que também motivou a relação da geometria com a OM foi a procura de discentes cegos para tirarem dúvidas comigo sobre assuntos de Matemática, principalmente os conteúdos atrelados à geometria (Plana ou Espacial). Desta feita, passei a trabalhar a matemática a partir das aulas de OM. A seguir são apresentados exemplos, sem figuras, extraídos da OM, que são associados aos postulados, conforme ministrava conteúdos.

Em relação aos quatro postulados sobre pontos e retas, conforme indicados por Artmann (1999), Courant e Robbins (2000) e Eves (2002), o primeiro postulado afirma que a reta é infinita. Como exemplo para o discente indicava o fato de uma pessoa estar caminhando em uma rodovia, em linha reta, durante um longo intervalo de tempo. Para vivenciar essa ideia, realizei locomoção na Av. Mister Hull, por cerca de 20 minutos com o discente, sendo que os poucos referenciais que ele tinha eram o meio-fio e o som dos carros.

Por um ponto podem ser traçadas infinitas retas, é o que diz o segundo postulado. Você pode se deslocar para frente ou para trás indefinidamente e em todas as direções, é o típico exemplo para ilustrar a referida ideia. Em relação ao terceiro postulado, este afirma que por dois pontos distintos passa uma única reta. Como ilustração para ser vivenciada pelo discente cego, se em uma rua há uma Escola e uma Igreja, considerando a Escola e a Igreja como pontos, a reta será a mencionada rua.

Um ponto qualquer de uma reta divide-a em duas semi-retas, é o que afirma o quarto postulado. Para que o aluno vivencie esta ideia, considere que em um trecho retilíneo de uma avenida exista uma sorveteria. Desta para a direita (na avenida) temos uma semi-reta, idem desta para esquerda.

Em relação aos postulados sobre o plano e o espaço, o primeiro postulado afirma que por três pontos não-colineares passa um único plano. Para vivenciar com um discente cego este postulado, sugiro observar os vértices (as pontas) de um triângulo que pode ser formado com a bengala dobrável. O segundo postulado indica que o plano é infinito. Como atividade, indico o ato de se locomover sobre o piso de uma sala, a qual está contida o piso da escola, que, por sua vez, está inserida no piso de um bairro, e assim sucessivamente.

O terceiro postulado afirma que por uma reta podem ser traçados infinitos planos. Como ilustração, peço que abra um livro e considere cada página como sendo um plano. A reta seria a parte da capa a qual sustenta as páginas. Em relação ao quarto postulado: toda reta pertencente a um plano divide-o em duas regiões chamadas semiplanos. Como exemplo, peço que o discente dobre uma folha de papel ao meio, o local fincado (a dobradura) é a reta e as duas partes são os semiplanos. E o quinto postulado indica que qualquer plano divide o espaço em duas regiões chamadas semi-espaços. Para vivenciar esta ideia, peço que o discente localize uma porta. Os lados antes e depois da porta são os semi-espaços.

À medida que os postulados são compreendidos pelos discentes, apresento as posições relativas entre retas, que no espaço, duas retas distintas podem ser concorrentes, paralelas ou reversas. São concorrentes, conforme Artmann (1999) e Eves (2002), quando estão no mesmo plano e possuem um ponto em comum. Como ilustração para um sujeito sem acuidade visual, indico que no piso da sala de aula existem várias retas (divisórias entre as cerâmicas, as quais são percebidas pelos discentes cegos quando as tocam com os dedos), por sua vez elas só se cruzam em um único ponto. Caso particular de grande utilidade na OM é quando se tem retas perpendiculares, que são retas concorrentes que formam um ângulo de 90º entre si. Por exemplo: o lado e a base de uma porta.

São paralelas as retas pertencentes ao mesmo plano que não possuem pontos em comum. Exemplificando: atividades de OM quando os discentes estão se locomovendo próximo as linhas férreas (linhas do trem). E duas retas são reversas quando não possuem pontos em comum e não existe plano que as contenha simultaneamente. Exemplo: as extremidades de duas paredes paralelas.

Existindo retas e planos, são três situações possíveis as posições relativas entre esses entes geométricos. A primeira é quando a reta está contida no plano. Isso ocorre quando possui dois pontos distintos no plano. Como vivência com discente cego, os dois pontos seriam as extremidades de uma parede no piso e o piso seria o plano.

A segunda situação é quando a reta é concorrente ou incidente no plano. Significa que uma reta fura um plano em um único ponto. Exemplo: uma árvore ou um poste (reta) em um campo (plano). E a terceira é a reta paralela ao plano. Isto se dá: quando uma reta não possui um ponto em comum com certo plano. Exemplo: uma lâmpada fluorescente no teto (reta) e o piso (plano).

Tem-se o seguinte postulado: se dois planos distintos têm um ponto em comum, então a interseção é dada por uma única reta que passa por esse ponto (ARTMANN, 1999). Exemplificando: o encontro de duas paredes formando canto. E uma reta r será perpendicular a um plano -- se, e somente se, r é perpendicular a todas as retas de ---- que passam pelo ponto de interseção de r e ----.

Exemplificando: ventiladores do tipo “tripé” e os seus “pés”. O ventilador é a reta perpendicular ao piso e seus pés são retas perpendiculares ao ventilador (reta r).

Destaca-se, ainda, posições relativas entre planos. São três as principais situações de posições entre planos: (1) Planos coincidentes ou iguais; (2) Planos concorrentes ou secantes: quando a interseção dos mesmos é uma reta. Exemplo: o canto entre duas paredes e (3) Planos paralelos: planos que não se interceptam. Exemplo: duas paredes opostas (paralelas). Diz-se que dois planos são perpendiculares se, e só se, existe uma reta de um deles que é perpendicular ao outro. As ideias matemáticas são retiradas de Artmann (1999) e Eves (2002) e os exemplos aqui apresentados são vivenciados por discentes sem acuidade visual.

Uma ideia matemática de muita utilidade para a confecção de triângulos e quadriláteros é a de ângulo. Diz-se que ângulo é a região obtida pela reunião de duas semi-retas de mesma origem, não contidas numa mesma reta (EVES, 2002). Exemplo: A abertura entre o braço e o antebraço. Um importante resultado é o postulado do transporte de ângulos: dados um ângulo e uma semi-reta de um plano existente sobre este plano, e num dos semiplanos que a semi-reta permite determinar, uma única semi-reta que forma com a semi-reta inicialmente dada um ângulo congruente ao ângulo inicialmente descrito.

Todas as ideias até aqui apresentadas têm como foco a construção de maquete com os alunos de OM. Como uma maquete é formada por várias figuras geométricas, a tabela “4” tem as figuras feitas em EVA ou no geoplano, pelos discentes, auxiliados pelo pesquisador, com contorno (perímetro) feito a partir do uso de ligas ou barbantes, de algumas figuras usuais.

Como caracterizar uma figura? Os discentes sabem diferenciar as particularidades de cada uma (pois em teoria, tal conteúdo já foi visto em sala de aula)?

Em atividades de OM conseguem vivenciar tais conhecimentos geométricos? Por exemplo 12, suponha que em determinado bairro um aluno que se encontra na esquina das ruas Santa Luzia e Atenção (Ponto A) queira chegar à esquina das ruas Fé e Esperança (ponto B). Qual o percurso mais curto?

Seguir pela Rua Atenção e dobrar à direita na Rua Fé e seguir até a Rua Esperança.
Seguir pela rua Santa Luzia, dobrar à esquerda na rua Esperança e seguir em frente até a rua Fé.
 


Figura 10 – esboço de maquete
 

A resposta certa é tanto faz. Pois o quarteirão em questão é um retângulo e os lados do retângulo envolvido são iguais. Deste modo, é isso que se pretende observar nos discentes: sabem ou não usar em situações vivenciadas conceitos geométricos e explicar o conceito utilizado.

Analisando outras pesquisas que envolvam matemática e deficiência visual, encontrei dois trabalhos fora do Brasil: Argyropoulos (2006) e Fyhn (2007), já mencionado; e seis trabalhos apresentados no Nono Encontro Nacional de Educação Matemática (IX ENEM), realizado em 2007 em Belo Horizonte. Vale destacar que ministrei minicurso neste encontro com o título “Matemática e deficiência visual”.

Argyropoulos (2006) fez uma atividade semelhante à realizada por Brandão (2004) ao observar as aulas de Geometria e de Geografia de uma aluna cega incluída em uma escola regular, em uma comunidade rural nas proximidades de Atenas, na Grécia. Em uma pesquisa ação, Argyropoulos e seu grupo de estudos analisaram a inclusão da referida aluna e intervieram com os docentes dela ao confeccionarem mapas táteis e formas geométricas que facilitassem a compreensão dos conteúdos, partindo da vivência.

O material utilizado nas aulas de Geografia foi feitos em alto-relevo, colando cordões nos limites entre cidades, fitas de diferentes texturas (algodão, poliéster, etc.) para representar localidades. Em um globo terrestre, os Meridianos e as Paralelas também eram em relevo. As medidas da Geometria eram apresentadas a partir das aplicações na Geografia (Cartografia).

Segundo o referido autor, não só a discente cega foi contemplada com a compreensão da Geometria quanto os alunos videntes tiveram uma melhora na compreensão de determinados conceitos outrora apresentados apenas no quadro-negro.

Dentre os trabalhos apresentados no IX ENEM, dois relataram alguma experiência com pessoas com deficiência visual. Todavia, eram experiências dentro das escolas especializadas. Nessas escolas os alunos com deficiência visual possuem atendimentos tanto de OM quanto de reforço de matemática, ou outras disciplinas, com profissionais específicos. Reforçando exposto na introdução desta tese, acumulei as funções de professor de apoio pedagógico, na área de matemática, e de técnico de OM.

Para esta tese, são pertinentes as informações de Pavanello e Franco (2007), docentes do Programa de Pós-graduação em Educação para a Ciência e o Ensino da Matemática – Universidade Estadual de Maringá, os quais destacam que, em relação à educação matemática, a atividade escolar com a geometria é importante pelo fato de ocorrer desenvolvimento de capacidades intelectuais como a percepção espacial, a criatividade e o raciocínio hipotético-dedutivo. Vale ressaltar que na geometria são encontrados um grande número de situações em que o estudante exercita sua criatividade pelo fato das questões geométricas terem diferentes combinações de resolução. Como se dá a percepção espacial os discentes cegos e de que forma fazem uso de raciocínio hipotético-dedutivo? Esses questionamentos servem de base para a estruturação do GEUmetria, a qual será apresentada mais adiante.

A importância dos estudos de Quartieri e Rehfeldt (2007) que investigaram os conceitos em geometria, realizando uma pesquisa entre os anos de 2005 e 2006, no Centro Universitário UNIVATES, Lajeado/RS, é a relação entre o que sabe e o que ensino um docente. Com efeito, na pesquisa foi elaborado e aplicado um instrumento de coleta de dados com vistas a verificar se o professor sabe e conhece os conceitos relacionados à geometria. O mencionado instrumento constou de um questionário por escrito, aplicado à dezoito professores participantes. Segundo eles, os professores tinham dificuldades conceituais e metodológicas em relação a alguns assuntos geométricos. Assim sendo, faz-se mais um questionamento, reforçado em Brandão (2006): se os professores não sabem desenvolver determinado conteúdo, de que forma é possível adaptar mencionado conteúdo para pessoas com deficiência visual? Motiva-se esse questionamento em virtude de nosso projeto de tese querer investigar a utilidade da geometria em conjunto com a álgebra e a aritmética.

O método dos Van Hiele, o qual propomos uma adequação, foi discutido por Santos (2007) no IX ENEM. Segundo a referida autora, o modelo hierárquico o qual obedece a uma seqüência, reforçando a aprendizagem da geometria exclusivamente das partes para o todo, do particular para o geral, sufocando a visão global. Ele, o método Van Hiele, aponta as lacunas de aprendizagem que o aluno tem e assim o professor organiza-se criativamente na sua prática pedagógica para facilitar a aprendizagem do aluno, estabelecendo estratégias metodológicas que favoreçam a resolução de problema e a interdisciplinaridade em uma visão não linear.

Diante da referida visão não linear do método Van Hiele, Barbosa et al (2007) e Vieira e Silva (2007), em estudos de casos separados, a primeira no tocante ao estudo da simetria por pessoas cegas, realizado no Instituto Benjamin Constant desde 2002 (BARBOSA, 2003) com resultados atualizados para o ENEM, em relação ao número de sujeitos observados, e os segundos pela flexibilização do ensino da geometria por pessoas com deficiência visual, realizado na Universidade Federal Pará, propõem atividades a serem executadas pelos docentes. Cabe a mesma pergunta anterior: e se os professores não sabem o conteúdo, como adaptar?

Buske e Murari (2007), do Programa de Pós-Graduação em Educação Matemática da Universidade Estadual de São Paulo (UNESP), de Rio Claro, propõem para o ensino de geometria o uso de origami modular. O origami distingue-se pela quantia de peças de papel utilizadas em sua confecção. O tradicional utiliza apenas uma peça de papel, e o modular se baseia na construção de módulos ou unidades (quase sempre iguais), formando figuras ao serem encaixados. É no estudo dos poliedros que se tem a principal fonte de inspiração do origami modular.

Tal metodologia em muito se assemelha ao método GEUmetria no tocante ao uso tátil e compreensão geométrica daquilo que se pretende construir: triângulos equiláteros, prisma, entre outros. Destaca-se que todos estes raciocínios e métodos têm como base Os Elementos de Euclides (ARTMANN, 1999), reforçados nos estudos de História da Matemática (EVES, 2002).

Tales de Mileto, precursor de Pitágoras e seus seguidores, esteve no Egito antes de implantar no mundo grego sua percepção matemática. Pitágoras, em sua escola, procurou desenvolver uma matemática não voltada para a realidade de seu tempo, conforme Courant e Robbins (2000).

Todavia, em Elementos, como assinalam estes três últimos autores, as construções geométricas eram realizadas com régua, não milimetrada, e compasso. Eram registradas em tábuas de barro as construções feitas.

Em que se assemelham com o método que propomos os estudos atuais? A valorização das potencialidades dos discentes cegos em relação à manipulação e caracterização de objetos bi e tridimensionais.

Em que se distanciam? Não procuram atender simultaneamente às necessidades educacionais de cegos e videntes. Com efeito, usam um linguajar informal (sem ser linguagem formal da matemática).

E qual a desvantagem de uma linguagem informal na matemática? Falta de compreensão de livros ou artigos científicos de caráter nacional ou internacional; Pouco entendimento do enunciado de questões de matemática ou raciocínio lógico em concursos públicos nacionais.

NOTAS

  • 1 E os que não tinham deficiência visual também não compreendiam muito as modificações. Assim sendo, passei a focar minhas atividades docentes visando aprendizagem dos discentes cegos, confeccionando material concreto útil para ambos os estudantes (com e sem deficiência visual)

  • 2 Na Orientação e Mobilidade, conhecer-se significa que o discente tem conhecimento do próprio corpo. Sabe o tamanho de seus braços e de suas pernas. Compreende lateralidade: por exemplo, se o aluno está na frente de uma pessoa, então sua direita corresponde à esquerda dessa pessoa.

  • 3 Destaca-se que conceitos geométricos são apresentados a partir das atividades de OM e não o inverso. Exemplificando, entre as técnicas de OM há a de formação de conceitos – esquema corporal. O objetivo da técnica em questão é construir o conceito da imagem do próprio corpo pela inter-relação indivíduo-meio, identificando as partes do corpo que são usadas no ensino das técnicas básicas de Mobilidade: a altura da cintura, cabeça para cima, pé direito, etc.

  • 4 A ideia básica é que ao escolher um dos lados, este é menor que a soma dos outros dois lados e é maior que o módulo da diferença entre esses dois lados.

  • 5 Pessoas videntes são as que não possuem deficiência visual (BRASIL, 2002).

  • 6 Professora do Instituto de Educação Matemática da Universidade Santa Úrsula – RS, e que fez tese de doutorado sobre a representação e a construção em Geometria usando a linguagem Logo

  • 7 Duval realiza estudos relativos à psicologia Cognitiva, desenvolvidos no Instituto de Pesquisa em Educação Matemática (IREM) de Estrasburgo (França).

  • 8 O IBC foi criado pelo Imperador D. Pedro II através do Decreto Imperial n.º 1.428, de 12 de setembro de 1854, tendo sido inaugurado, solenemente, no dia 17 de setembro do mesmo ano, na presença do Imperador, da Imperatriz e de todo o Ministério, com o nome de Imperial Instituto dos Meninos Cegos. Fonte: www.ibc.gov.br.

  • 9 Cecília Batista é psicóloga e é professora da Universidade Estadual Paulista, em Campinas, e desde 1993 realiza pesquisas na área da Educação Especial e Reabilitação de pessoas com deficiência visual, com foco no estudo dos processos psicológicos do desenvolvimento humano.

  • 10 Anos depois se formou em medicina, na área de oftalmologia.

  • 11 Sendo sequenciais as apresentações das técnicas, o conhecimento prévio adquirido na Tec1.1. é utilizado na Tec1.2.

  • 12 Conforme ruas nas proximidades do domicilio dos discentes, os nomes de fantasia das ruas são substituídos por nomes verdadeiros respectivos.

FIM

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   excerto da obra
Matemática e Deficiência Visual
autores: Ana Karina Lira & Jorge Brandão
Publicação: Universidade Federal de Alagoas
fonte do texto integral: https://im.ufal.br/evento/bsbm/download/oficina/matematicainclusiva.pdf

 

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18.Set.2026
Maria José Alegre