
Cesteiros cegos, 1871 | gravura de Joseph Swain, a partir de obra do pintor
Hubert von Herkomer, publicada na revista 'The Illustrated London News' em
30 de setembro de 1871.
RESUMO
Este trabalho aborda a integração de pessoas cegas no mercado de trabalho e visa
contribuir para o conhecimento do processo de integração, bem como refletir
sobre políticas e práticas organizacionais passíveis de promover tal integração.
O seu desenho contempla tanto a perspectiva das pessoas cegas como das
instituições empregadoras. Foram realizadas treze entrevistas semi-estruturadas,
oito direcionadas a pessoas cegas integradas no mercado de trabalho e cinco às
respetivas chefias. De modo geral, os entrevistados consideram que a integração
de pessoas cegas no mercado de trabalho é positiva. Contudo, consideram que há
ainda um longo caminho a percorrer, especialmente ao nível da informação junto
aos empregadores de modo a ultrapassar preconceitos associados à deficiência. Os
resultados sugerem também que empregadores e trabalhadores cegos devem assumir
uma atitude ativa no processo de integração de modo a desenvolverem um cenário
de adaptação mútua que promova o bem-estar dos trabalhadores cegos na entidade
empregadora.
O presente trabalho versa sobre a integração profissional de pessoas cegas no
mercado de trabalho. Nesse âmbito, importa sublinhar que a obtenção de um
emprego não é só importante do ponto de vista da independência económica, também
o é do ponto de vista psicológico e social, contribuindo para uma integração
plena na sociedade (Costa, 2012; Vieira & Vieira, 2015). Esses fatores, aliados
a boas práticas organizacionais e aos efeitos de determinadas condições do
ambiente de trabalho, contribuem para uma melhor qualidade de vida dos
indivíduos (Silva & Ferreira, 2013).
Entende-se por deficiência visual a ausência ou deterioração do sentido da
visão, podendo essa refletir-se em diversos graus de limitação, desde baixa
visão até cegueira (Pelechano, Miguel, & Ibánez, 1995). Essa problemática pode
ser causada por alteração genética, complicações verificadas durante a infância
ou idade adulta (Pelechano et al., 1995) ou, ainda, infecções maternas durante o
período gestacional (Direção-Geral da Saúde [DGS], 2000). Em Portugal os graus
de incapacidade são atribuídos por meio da Tabela Nacional de Incapacidades,
legislada pelo Decreto-Lei 352/2007 de 23 de outubro. Salienta-se que o presente
trabalho versa sobre o processo de integração no mercado de trabalho de pessoas
cegas.
Do ponto de vista funcional, inerentes à ausência do sentido da visão estão
limitações sensoriais que se refletem em uma diminuição da autonomia no
desempenho de determinadas tarefas. No entanto, existe atualmente uma
multiplicidade de tecnologias que permitem às pessoas cegas contornar suas
limitações e ganhar autonomia. Dessa forma, as capacidades e aptidões
aproximam-se das de um normovisual (indivíduo com visão normal), o que lhes
permite assumir um papel ativo tanto em nível social como profissional (Bacelo,
2012; Silva, 2007).
De acordo com estudo realizado em 2012 pela Associação de Cegos e Amblíopes de
Portugal (ACAPO, 2012), existem nesse país cerca de 27.000 mil pessoas com algum
tipo de incapacidade visual, sendo que a taxa de emprego dessa população
situa-se nos 32,9%, enquanto na população geral é de 62,9%. A fonte citada
revela, ainda, que a proporção de empresários, dirigentes e profissionais
liberais é apenas metade da observada na população em geral, enquanto a
proporção de empregados executantes atinge o dobro do verificado na população em
geral.
A integração profissional de pessoas cegas tornou-se uma realidade à medida que
cada país foi criando políticas de incentivo à contratação de pessoas com
deficiência (Costa, 2012; Silva, 2007). No caso de Portugal, a Lei 38/2004
determina um sistema de cotas de vagas destinadas a cidadãos com deficiência. No
que se refere às organizações privadas, dependendo da sua dimensão, as vagas
podem representar até 2% do número total de trabalhadores. Na administração
pública, o sistema de cotas representa uma porcentagem igual ou superior a 5%
(Capítulo IV, Artigo 28º, números 1 e 3). No que diz respeito à legislação,
Markel e Barclay (2009) salientam que a discrepância entre as taxas de emprego
entre pessoas com e sem deficiência - mais baixas no primeiro caso - indica que
esta não é condição suficiente para a obtenção e manutenção de uma relação de
emprego.
Com efeito, existem diversos fatores que condicionam o acesso de pessoas cegas
ao emprego. Por um lado, à semelhança do que acontece na população em geral, a
escolaridade e a idade constituem fatores importantes nesse acesso; por outro,
aliam-se aos fatores referidos variáveis inerentes à deficiência visual, como a
autonomia no cotidiano e adesigualdade de oportunidades de trabalho dos
candidatos (ACAPO, 2012; Costa, 2012). A falta de informação, a qual origina
atitudes preconceituosas por parte dos possíveis empregadores (Markel & Barclay,
2009; Vieira & Vieira, 2015) tem sido também indicada pela investigação (Kaye,
Stephen, Lita, & Jones, 2011; Kulkarni & Lengnick-Hall, 2014; Lengnick-Hall,
Gaunt, & Kulkarni, 2008) como um dos principais fatores que limitam o acesso ao
emprego por parte dessa população.
Com efeito, como indica tal investigação, muitos empregadores referem que não
contratam pessoas com deficiência por recearem que elas possam lesionar-se ou
faltar devido a problemas de saúde inerentes à deficiência, por considerarem que
elas não têm capacidade para realizar o trabalho ou, ainda, por temerem reações
menos positivas por parte de colegas e/ou clientes. Em outro estudo (Golin,
2003), os entrevistados referiram que a baixa escolaridade, o preconceito, a
falta de informação e a elevada competitividade são aspectos que podem
dificultar a integração no mercado de trabalho. Apontaram, ainda, as seguintes
medidas capazes de diminuir as dificuldades encontradas, como: aposta na criação
ou atualização da formação, divulgação de informação acerca da integração no
mercado de trabalho de pessoas com deficiência e adaptação dos postos de
trabalho. A integração de pessoas cegas no mercado de trabalho implica não só a
adaptação do posto de trabalho, mas também a adequação de políticas e práticas
organizacionais que assegurem uma melhor integração. Contudo, nesse âmbito,
Carvalho-Freitas (2007), em seu estudo em que foram inquiridas 18 empresas
localizadas no Brasil, constatou que estas têm privilegiado as adaptações no
posto de trabalho e desvalorizado as ações de sensibilização e as práticas de
recursos humanos que assegurem a inserção.
A (in)satisfação laboral das pessoas cegas integradas no mercado de trabalho
parece estar relacionada com as práticas de recursos humanos, nomeadamente a
gestão de carreira e a adaptação dos postos de trabalho. Assim, a insatisfação
está relacionada com a falta de perspectiva de crescimento profissional
(Carvalho-Freitas, 2007), enquanto as adaptações dos postos de trabalho
contribuem positivamente para a satisfação laboral (Assunção, Carvalho-Freitas,
& Oliveira, 2015).
Quando surge um indivíduo com deficiência em um processo de seleção, a
recomendação é que seja realçado o perfil apresentado pelo candidato em termos
de suas competências, habilidades, conhecimentos e experiência para desempenhar
as funções (Costa, 2012; Lengnick-Hall et al., 2008), aliás, procedimentos que
também devem ocorrer com candidatos sem deficiência. A legislação portuguesa
reforça essa preocupação, referindo o Código do Trabalho (Lei 7/2009 de 12 de
Fevereiro), no artigo 24º, ponto 1, que
O trabalhador ou candidato a emprego tem direito a igualdade de oportunidades e
de tratamento no que se refere ao acesso ao emprego (...) não podendo ser
privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento
dequalquer dever em razão, nomeadamente, de (...) deficiência (...). (p. 933)
Acrescenta ainda, o nº 2 (alínea a) do referido artigo, que tal direito deve
respeitar "critérios de seleção e condições de contratação, em qualquer setor de
atividade e a todos os níveis hierárquicos". Nesse âmbito, Markel e Barclay
(2009) chamam também a atenção para o modo como as vagas de emprego são
divulgadas, de modo a evitar práticas discriminatórias (p. ex., os formatos de
divulgação usados podem não ser passíveis de leitura por pessoas com deficiência
visual).
Passada a fase de seleção, segue-se a integração do indivíduo na organização, a
qual, se bem-sucedida, implica uma participação plena no local de trabalho.
Assim, com vista a garantir seu sucesso, é importante que se forme uma aliança
entre empregadores, o próprio indivíduo e os demais colegas de trabalho, para
garantir o apoio inerente à integração do trabalhador cego, adaptando e
proporcionando-lhe condições de trabalho, sem o infantilizar ou desvalorizar
(Bacelo, 2012; Carvalho-Freitas, 2007; Costa, 2012; Kaye et al., 2011;
Lengnick-Hall et al., 2008; Markel & Barclay, 2009).
A Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho (AESST, 2004) refere que
a adaptação dos postos de trabalho implica um conjunto de alterações que vão
desde fornecer ao trabalhador todos os equipamentos necessários para a
realização do trabalho (p. ex., leitores de ecrã) até a adaptação dos espaços
físicos e/ou sinalética.
Há, no entanto, outra realidade, que é a dos indivíduos que perdem a visão em
uma fase posterior a já estarem integrados no mercado de trabalho. Perante um
caso desses, cabe à organização avaliar se o trabalhador pode permanecer nas
funções que tinha anteriormente. Em caso de resposta negativa, o posto de
trabalho poderá ser reajustado de forma a permitir ao trabalhador desempenhar
suas funções em sua nova condição (Bacelo, 2012). É desejado que as organizações
tenham essa mesma atitude. Contudo, nem sempre isso acontece (Bacelo, 2012;
Costa, 2012; Gonçalves & Nogueira, 2012).
É nesse seguimento que referimos o Modelo de Experiências de Trabalho
Bem-sucedidas para trabalhadores com deficiência visual (Golub, 2006),
desenvolvido com base em 22 entrevistas realizadas por telefone com empregadores
nos Estados Unidos que contratavam pessoas cegas ou com baixa visão. De acordo
com o modelo proposto, empregadores e trabalhadores deverão assumir papel ativo
no desenrolar do processo de integração. O modelo está alicerçado em 14 etapas,
sendo sete referentes às atitudes do empregador e sete referentes ao
trabalhador. O alcance da última etapa do modelo em ambos os casos -
empregadores e trabalhadores-pressupõe "adaptação mútua", em que o objetivo é
reconhecer, respeitar e valorizar as diferenças.
Ainda nesse âmbito, Carvalho-Freitas, Toledo, Nepomuceno, Suzano e Almeida
(2010) sugerem medidas com vista à socializa ção e à adequação aos postos de
trabalho, como: adotar critérios de seleção que valorizem as potencialidades dos
indivíduos com deficiência; verificar a flexibilidade da organização em realizar
as adaptações necessárias para trabalhar com as diferenças; sensibilizar chefias
e colegas de trabalho; divulgar a informação acerca das expectativas
relativamente ao trabalho que irão desenvolver, aos resultados ou possibilidades
de crescimento; e demonstrar abertura para negociar as condições e os
instrumentos de trabalho para que não estejam em desvantagem.
Posto isso, pode-se concluir que é esperado que a adoção do tipo de medidas
mencionadas anteriormente contribua para a promoção do bem-estar dos
trabalhadores. Assim, cabe às organizações o desafio da promoção da igualdade de
direitos no acesso de pessoas com algum tipo de deficiência ao mercado de
trabalho, desde a seleção até a integração, contribuindo para a diminuição da
discriminação (Costa, 2012; Gonçalves & Nogueira, 2012). No entanto, como o
Modelo de Golub (2006) propõe, também é desejável e necessário que as próprias
pessoas cegas ou com baixa visão desempenhem papel ativo nesse processo, em
especial pelo tipo de atitudes que podem adotar face ao contexto profissional.
O estudo aqui apresentado visa contribuir para o conhecimento do processo de
integração de pessoas cegas no mercado de trabalho, tendo em conta a experiência
das próprias pessoas cegas e a perspectiva das organizações empregadoras.
Considera-se que a integração dessa dupla perspectiva, isto é, a perspectiva dos
trabalhadores e a das entidades empregadoras, por meio de suas chefias, permite
uma abordagem mais rica e completa do fenômeno em estudo. Além disso, à
semelhança do estudo de Golub (2006), a coleta de dados foi feita com base em
experiências de trabalho bem-sucedidas (i.e., de pessoas cegas que já entraram e
se mantêm no mercado de trabalho), o que permite refletir sobre boas políticas e
práticas de integração. Por sua vez, integra a perspectiva dos empregadores, o
que tem sido raro na investigação nesse domínio (Golub, 2006; Lengnick-Hall et
al., 2008).
De modo mais detalhado, procurou-se identificar, na perspectiva das
organizações, por meio de suas chefias, de que modo foi efetuado o processo de
seleção, no sentido de explorar eventuais especificidades em comparação com a
população geral. Além disso, pretendeu-se identificar como as organizações, após
a admissão do trabalhador, geriram seu processo de integração e qual a sua
percepção geral sobre esse processo. Na perspectiva do trabalhador cego,
pretendeu-se identificar o modo como este percepcionou a sua
integraçãoprofissional, explorando, nesse caso, aspectos como: dificuldades
experienciadas no processo de integração na organização, dificuldades sentidas
na execução das tarefas e eventuais estratégias de resolução, e percepção geral
do processo de integração. Em ambos os casos, a identificação de boas políticas
e práticas constituiu também um propósito da investigação realizada.
Método
Participantes
O estudo foi realizado em Portugal e recorreu à realização de entrevistas. No
total, foram entrevistadas 13 pessoas, oito trabalhadores e cinco chefias dos
primeiros. Todos os trabalhadores entrevistados eram cegos. Das cinco chefias,
duas também eram cegas, trabalhando ambas em uma associação de apoio a pessoas
com deficiência visual. Dos oito trabalhadores, três são mulheres. Dois deles
estão integrados no mercado de trabalho na ilha da Madeira, um em Lisboa, dois
no Porto e três em Braga. As funções que exercem profissionalmente são:
treinador em uma associação de apoio a pessoas com deficiência visual (2),
jurista (1), psicólogo e treinador (1), telefonista e recepcionista (2), técnico
administrativo (1) e técnico auxiliar (1).
Em termos do setor de atividade, quatro estão integrados no setor público, um
está no setor privado e três estão em instituições particulares de solidariedade
social (IPSS). Refira-se que as IPSS são instituições de natureza particular,
sem finalidade lucrativa e sem administração do Estado, que assumem
responsabilidades de solidariedade e justiça social (Segurança Social, 2016). O
tempo de trabalho na empresa variou entre 5 e 18 anos (o valor mediano foi de
8,5 anos), denotando, assim, um grupo de trabalhadores com uma razoável
experiência profissional. No caso das chefias, o tempo de trabalho na empresa
variou entre 5 meses e 18 anos, situandose o valor mediano em 10 anos.
Instrumentos
As entrevistas basearam-se em dois roteiros semiestruturados, desenvolvidos a
partir da revisão da literatura e dos objetivos do estudo. No roteiro relativo
às chefias, foram abordados os temas: integração do trabalhador cego na
organização; percepção do exercício profissional deste; percepção da organização
acerca da integração de pessoas cegas no mercado de trabalho; e sugestões de
medidas promotoras da integração. No caso dos trabalhadores, os temas foram:
processo de integração na organização; exercício profissional; percepção geral
sobre o tema em estudo; e, também, sugestões de medidas.
Procedimentos de coleta de dados e cuidados éticos
Na primeira fase, e por questões de facilidade de acesso, solicitou-se apoio à
delegação da ACAPO de Braga (Portugal), de forma que fosse possível identificar
e estabelecer o primeiro contato com possíveis participantes no Distrito de
Braga, tendo sido explicado, nesse contato, em que consistiam os objetivos do
estudo. Quanto aos participantes oriundos dos Distritos de Lisboa e do Porto (os
maiores de Portugal Continental) e da ilha da Madeira, recorreu-se a contatos
informais.
Após a fase inicial de identificação de potenciais participantes, procedeu-se ao
contato com os trabalhadores cegos, via telefone, com a finalidade de esclarecer
dúvidas que, eventualmente, existissem acerca da participação no estudo.
Salienta-se que, dos contatos fornecidos pela ACAPO, não foi possível
estabelecer contato com apenas duas pessoas e, por conseguinte, elas não
participaram no estudo. O passo seguinte foi contatar as organizações
empregadoras, via e-mail, explicando os objetivos da investigação e solicitando
a colaboração por parte das respectivas chefias. Foram contatadas as chefias dos
oito trabalhadores. Contudo, três não responderam ao e-mail, apesar de ter sido
realizada mais de uma tentativa de contato.
Exceto em dois casos, em que as entrevistas foram realizadas na delegação da
ACAPO de Braga, as demais entrevistas foram realizadas nas respectivas
organizações. A coleta de dados ocorreu em abril e maio de 2015. Imediatamente
antes da realização das entrevistas, foi apresentado a cada um dos participantes
o termo de consentimento que, no caso das pessoas cegas, encontrava-se em
braille ou em documento digital, no qual constavam todas as informações
relativas à investigação, ou seja, os objetivos do estudo, a garantia de
anonimato e de confidencialidade dos dados recolhidos e analisados, bem como a
solicitação para autorização de gravação da entrevista e a salvaguarda da sua
posterior destruição. Nesse documento, os participantes eram ainda informados
que a sua participação no estudo era totalmente voluntária e que poderiam
desistir a qualquer momento se assim o desejassem.
Procedimentos de análise de dados
Recorreu-se à Template Analysis como metodologia de análise de dados. Essa
metodologia de análise qualitativa inicia-se com a definição dos temas com
suporte no conceitual teórico e em simultâneo com a definição dos roteiros das
entrevistas, organizados em um Template Inicial (King, 2012), procedimentos que
cumprimos nesta investigação. Durante o processo de codificação dos dados, o
Template Inicial poderá ser alterado, geralmente pela introdução de novos temas
que se evidenciam nos dados pela sua relevância (ver Tabelas 1 e 2,
respetivamente correspondentes aos trabalhadores e às chefias). Assim, na
conclusão da análise dos dados, obtivemos um Template Final mais aprofundado,
que sustentou a discussão dos dados. Da análise foram excluídos alguns temas
abordados pelos entrevistados, visto não se enquadrarem no tema em estudo (p.
ex., evolução histórica de um dado departamento). Ao longo da apresentação dos
dados, as entrevistas dos colaboradores serão identificadas com EC, seguidas de
números de 1 a 8, e as das chefias com ECH, seguidas de números de 1 a 5.
Resultados
Na Tabela 1, estão representados os temas
e subtemas que integram os Templates inicial e final da análise das
entrevistas com os trabalhadores. Na
Tabela 2, encontram-se representados os
temas e subtemas identificados no caso das chefias.
Em seguida, descrevem-se os temas e subtemas presentes nos dois Templates
finais, sendo que tal descrição considerará, em simultâneo, os dados relativos
às entrevistas com os trabalhadores e com as chefias em uma dada temática (p.
ex., entrada na organização). De modo a facilitar a correspondência entre as
referidas Tabelas e a descrição dos resultados, optou-se por colocar também no
texto a numeração atribuída a um dado Tema/Subtema.
TABELA 1
Entrevistas com os trabalhadores.

TABELA 2
Entrevistas às chefias.

O primeiro tema, Entrada na organização (1), engloba o processo de seleção
profissional a que o trabalhador foi, ou não, submetido, o processo de
integração na organização ao longo do tempo e a integração atual. No que diz
respeito ao Processo de seleção (1.1), constatou-se que não houve
especificidades, do ponto de vista da presença de deficiência, nos processos dos
quatro trabalhadores que se submeteram a um processo de recrutamento e seleção,
tendo sido realizadas provas de conhecimentos e entrevistas em todos os casos.
Um dos processos de recrutamento e seleção, dada a natureza do trabalho em
questão, foi dirigido especificamente a pessoas com deficiência visual, tendo,
para o efeito, a entidade empregadora contatado a ACAPO. Os demais quatro
trabalhadores não participaram de qualquer processo de seleção profissional,
sendo que dois deles foram colocados nas respectivas organizações por meio de
estágio profissional, um por meio de um programa ocupacional para desempregados
e o último foi contatado diretamente.
De modo geral, as chefias entrevistadas corroboram a informação relativa aos
processos de recrutamento e seleção profissional descritos anteriormente, embora
três delas tenham acrescentado o acesso ao currículo dos candidatos como parte
integrante de tais processos. Salienta-se, ainda, que duas das chefias (ambas
trabalhando na ACAPO) referiram que o processo de seleção não sofre alteração no
caso de uma pessoa cega se candidatar à vaga, sendo que o fator determinante é o
posto de trabalho.
No que se refere à Integração profissional (1.2), emergiram, sobretudo, dois
aspectos: adaptações no posto de trabalho, em especial ao nível do software, e a
importância da socialização para um processo de integração bem-sucedido. Em
relação às adaptações ao nível de software, foram observadas três realidades.
Dois dos trabalhadores beneficiaram-se de adaptações promovidas pela
organização, como dotar o posto de trabalho com um computador com leitor de ecrã
e scanner: "A única coisa que me adaptaram foi a instalação de um programa [...]
um scanner para eu poder digitalizar alguns documentos" (EC5). Em contraste, em
outros dois casos, as adaptações efetuadas foram realizadas pelos trabalhadores
em seu próprio computador pessoal: "Adaptações não foram feitas nenhumas, eu
ainda atualmente trabalho com o meu computador" (EC3). Nessa vertente
encontra-se, no entanto, um caso em que, inicialmente, o trabalhador utilizava
equipamento próprio, mas para o qual posteriormente a organização disponibilizou
parte do equipamento (computador), permanecendo o leitor de ecrã do trabalhador.
No processo de integração, foi ainda observada uma terceira realidade em que não
foi necessário efetuar qualquer tipo de adaptação em relação ao software, visto
que tais adaptações já estavam presentes no posto de trabalho, como se verificou
em três casos, por se encontrarem integrados em delegações da ACAPO ou, em um
dos casos, a um serviço de apoio a estudantes com deficiência. As respectivas
chefias confirmaram as situações relatadas anteriormente.
A socialização com a organização, em geral, e os colegas de trabalho, em
particular, emergiu como um aspecto crítico no processo de integração: "É muito
difícil estar integrado profissionalmente se eu não conseguir estar integrado
socialmente" (EC6); "Eu tive a sorte de, para além do emprego, [...] ter tido
também uma integração[...] não fui colocado à margem, as pessoas sempre foram
muito abertas e muito disponíveis" (EC1). Esse aspecto foi reforçado pelo relato
de uma chefia que refere que o fato de os demais colegas conviverem com um
colega cego fez com que adquirissem competências para lidar de modo mais
adequado com estudantes também cegos (p. ex., dar indicações de como se
movimentar entre os vários edifícios no campus universitário). Em contraste com
a descrição anterior, um dos trabalhadores relatou ter havido, em uma fase
inicial de sua integração, "algum preconceito", algo que foi eliminado com o
tempo.
Quanto à Integração atual (1.3) na organização, todos os entrevistados afirmam
que esta é positiva: "Uma pessoa nunca pode dizer que está 100% integrada, mas
se pudesse dizer isso dizia" (EC4); "Sinto-me totalmente integrada agora" (EC8).
Tal apreciação positiva é validada pelas chefias: "Atualmente acho que ele está
muito bem integrado" (ECH4).
O segundo tema, Exercício profissional (2), divide-se em dois subtemas:
alterações de funções ao longo do tempo e dificuldades encontradas no desempenho
das funções. No que diz respeito às Alterações de funções ao longo do tempo
(2.1), seis trabalhadores referiram a ocorrência de tal situação, encontrando-se
esta, sobretudo relacionada com mudanças internas do próprio departamento ou com
a necessidade de dar resposta a outras tarefas. Nesse âmbito, é pertinente
destacar a situação de um dos trabalhadores que entrou na organização com
problema de baixa visão e evoluiu para cegueira. Perante a situação, a
organização procurou perceber-se o trabalhador pretendia manter, ou não, as
funções, sendo que o trabalhador escolheu mantê-las. No entanto, as funções
sofreram algumas alterações, sobretudo devido ao fato de a empresa não ter
adaptado um computador, adequando-o às novas necessidades do colaborador.
Quanto às Dificuldades encontradas na execução das funções (2.2), um dos
entrevistados revelou que sua maior dificuldade é acessar o sistema informático
da empresa, o que é consequência direta do fato de ter que utilizar seu próprio
computador no posto de trabalho:
Teres acesso ao conteúdo da Internet da empresa, tinhas acesso como os outros
colegas, a todas as informações [...] não consegues, porque é um computador
pessoal, não tenho acesso à rede [...] estás a trabalhar noutra velocidade que
os outros não estão. (EC2)
Se, por um lado, fica visível que a não adaptação do computador por parte da
organização limita o desempenho desse trabalhador, fica também visível que isso
não se verifica no caso de outro entrevistado em que a organização também não
adaptou, convenientemente, o posto de trabalho, uma vez que ele refere não
sentir dificuldades no desempenho de suas funções.
Dois dos entrevistados apontaram dificuldades inerentes ao acesso à informação
em papel: "A única limitação que eu tenho é quando quero ler um documento no
imediato" (EC8). A formatação de documentos também foi descrita como uma
dificuldade encontrada "Peço às administrativas para formatarem" (EC5). Um dos
trabalhadores referiu, ainda, a dificuldade inicial em responder às novas
tarefas e, outro, a falta de atualização de software como sendo uma dificuldade
inerente ao desempenho de sua função.
Uma chefia confirma uma das dificuldades descrita por um dos colaboradores: "A
única dificuldade [...] os documentos terão de ser todos digitalizados para que
possa analisar. E se houver um despacho manuscrito, [...] ele tem de ter alguém
ao lado para apoiá-lo" (ECH5). Outra das chefias aponta a dificuldade na
formatação de documentos: "Há documentos que ele tem de elaborar e a parte mais
gráfica [...] passa por mim" (ECH4), algo que não foi mencionado pelo
trabalhador (EC4), que referiu não ter dificuldades no desempenho das suas
tarefas. As demais chefias revelaram, ainda, não ter existido qualquer
necessidade de adaptação da função. Quanto ao desempenho dos trabalhadores, as
chefias fazem uma apreciação positiva no geral.
No que se refere ao tema Percepção geral sobre o processo de integração (3),
isto é, perspectiva geral acerca da integração de pessoas cegas no mercado de
trabalho, incluindo-se aqui a percepção tanto de chefias como de colegas,
familiares ou amigos e a do próprio trabalhador, os entrevistados fazem, no
geral, uma apreciação positiva: "No geral [...] eu penso que as pessoas que
convivem com pessoas cegas integradas obviamente conseguem ter uma visão das
coisas muito mais aberta" (EC6). No entanto, consideram que a integração de
pessoas cegas no mercado de trabalho ainda se processa de forma lenta: "Eu acho
que, apesar de tudo, ainda é um bocado reduzida. Haveriam de dar mais
oportunidades" (EC3); "É lenta. Acho que tem tido um caminho, acho que tem
melhorado ao longo dos anos" (EC2). Consideram que um dos fatores responsáveis
por tal situação é o fato de ainda haver falta de informação por parte dos
empregadores acerca dessa temática.
Nesse contexto, uma das chefias da ACAPO refere que o problema é "as empresas
terem pouca informação sobre nós... deviam se calhar procurar informações e ver
que há muito cego, há muito baixa visão que é tão ou mais competente que um
normovisual" (ECH6). Essa situação pode traduzir-se em preconceito, tanto dos
empregadores como, por vezes, das próprias pessoas cegas. As duas citações que
se seguem são representativas dessa situação: "Eu acho que, na perspectiva de
emprego, hoje em dia ainda existe muito preconceito da parte das instituições e
até dos próprios deficientes [...]" (EC7); "Há sempre quem ache que a
deficiência devia ser escondida e não posta aos olhos de toda a gente" (EC2).
Uma forma de contrariar esse preconceito pode residir na atitude adotada pela
própria pessoa cega quando inicia a sua integração no mercado de trabalho, que
pode passar por uma postura positiva, proativa, procurando ser polivalente, como
se constata nas seguintes citações:
Preponderante é a atitude da pessoa cega na integração no mercado de trabalho,
vai fazer toda a diferença. Ou tem uma forma de encarar as coisas de forma
aberta, ou então, caso contrário, os outros não vão acreditar no seu potencial.
(EC4)
Nós temos de ser mais proativos, procurar ser polivalentes, que eu penso que é
isso que se espera hoje nos locais de trabalho. (EC6)
Há ainda dois entrevistados que, apesar de considerarem a percepção das chefias
e dos colegas positiva, referem haver necessidade de um "esforço extra": "Se
calhar por sermos cegos, agarramos mais as oportunidades que nos dão, porque se
já para os outros é difícil arranjar empregos, para nós pior ainda" (EC3); "O
tipo que tem uma deficiência como a visual se calhar vai aproveitar muito mais
rápido uma oportunidade dessas do que um tipo sem deficiência nenhuma" (EC2).
Por fim, quanto ao tema das Sugestões de medidas (4) a tomar de forma a alterar
a situação, os trabalhadores entrevistados sugerem que a divulgação de
informação junto aos empregadores acerca dessa temática pode revelar-se fulcral
na medida em que pode fazer com que as portas do mercado de trabalho se abram a
um maior número de pessoas cegas. Dessa forma, as pessoas com deficiência visual
teriam oportunidade de mostrar as suas capacidades e competências. Porém, um dos
entrevistados manifestou uma opinião contrária à dos demais. Referiu que, devido
ao fato de ainda ser muito difícil uma pessoa cega integrar o mercado de
trabalho, uma boa alternativa seria a criação de emprego protegido (nesse caso,
as entidades empregadoras recebem ajuda financeira como incentivo à contratação
de pessoas com certas características). Ou seja, nesse contexto, a entidade
patronal não pode avaliar o desempenho do colaborador com deficiência da mesma
forma que o faz com um colaborador sem deficiência, possibilitando, assim,
saídas de trabalho alternativas. Outra opção pode ser "Criar uma empresa
específica, uma empresa de serviços que dê preferência ao emprego de pessoas com
deficiência [...] nessa empresa nós podemos perceber o que cada um é capaz de
fazer" (EC1).
Na perspectiva das organizações, uma chefia considera que a organização tem uma
percepção positiva da integração de pessoas cegas no mercado de trabalho, devido
ao fato de a experiência que tem com o trabalhador em questão ser positiva, não
descartando, por isso, a hipótese de contratar mais alguém com deficiência: "Se
surgir-nos outra oportunidade e tivermos necessidade, e tivermos de enquadrar
alguém, se calhar não vamos pensar duas vezes" (ECH4). Há, contudo, duas chefias
que não têm a noção de qual é a percepção que a organização tem da integração de
pessoas cegas no mercado de trabalho.
No que se refere ao ponto de vista das chefias acerca do que poderia ser
melhorado no âmbito da integração de pessoas cegas no mercado de trabalho, uma
chefia considera que deveria haver um reforço das medidas de apoio à
contratação. E outra considera que "a universidade poderia ter um papel
interessante, sobretudo na difusão em tornar mais normal e mais generalizado o
conhecimento sobre as especificidades das necessidades dessas pessoas em
contexto laboral" (ECH1).
Discussão
O estudo aqui apresentado procurou contribuir, por um lado, para aprofundar o
conhecimento do processo de integração de pessoas cegas no mercado de trabalho
e, por outro, a partir das realidades profissionais identificadas, refletir
sobre as práticas e atitudes que as entidades empregadoras e os próprios
trabalhadores cegos podem assumir com vista a uma melhor integração. Apesar da
amostra reduzida e do fato de não ter sido possível entrevistar todas as
chefias, cremos que o presente estudo permite abordar várias reflexões a partir
dos resultados obtidos. Como salientam Kulkarni e Lengnick-Hall (2014), uma
melhor compreensão dos obstáculos que as pessoas com deficiência enfrentam em
seus locais de trabalho reais permitirá aos profissionais responsáveis pela
gestão e desenvolvimento dos recursos humanos encontrarem mais soluções baseadas
em evidências.
Observou-se que metade dos trabalhadores entrevistados teve acesso ao mercado de
trabalho a partir de estágios curriculares, programas específicos e contrato
direto, o que, em nossa perspectiva, reforça a importância de medidas, sobretudo
governamentais, que incentivam a colocação de pessoas cegas no mercado de
trabalho. Por outro lado, tal resultado vai de encontro às sugestões de medidas
dadas pelos próprios trabalhadores. De fato, essa colocação "protegida" no
contexto profissional oferece às pessoas a oportunidade de mostrar as suas
competências, o que constitui um aspecto crítico do ponto de vista da
contratação por parte dos empregadores.
Como indica a investigação de Lengnick-Hall et al. (2008), realizada junto de
empregadores, uma das principais razões pelas quais eles não contratam pessoas
com deficiência relaciona-se com a crença de que esses candidatos não têm as
devidas competências e, por conseguinte, terão um desempenho menor, ainda que a
evidência empírica não suporte tal associação. Nesse contexto, tem sido
assinalada a importância da experiência pessoal ou de contratações
bem-sucedidasde pessoas com deficiência para o desenvolvimento de apreciações
positivas do desempenho e do potencial dessa população (Kaye et al., 2011).
Relativamente à forma como as organizações geriram o processo de integração do
trabalhador, constatamos que tal ocorreu, genericamente, de duas formas. Assim,
enquanto, em cinco dos casos estudados, os trabalhadores beneficiaram-se de
todas as adaptações necessárias no posto de trabalho, principalmente no que se
refere à adaptação do computador com leitor de ecrã, nos outros três casos, os
trabalhadores tiveram necessidade de recorrer a equipamento pessoal. Essa "dupla
realidade" é também consistente com outros estudos realizados (ACAPO, 2012;
Bacelo, 2012), tendo, por exemplo, o estudo da ACAPO (2012) indicado que 30% dos
indivíduos inquiridos integrados no mercado de trabalho apontaram a falta de
adequação dos equipamentos ao seu posto de trabalho como uma das dificuldades
sentidas, o que significa que as recomendações da AESST (2004) não estão sendo
cumpridas por parte dos empregadores. As dificuldades sentidas incluem também
acesso à informação manuscrita.
O conjunto dos resultados obtidos nesse domínio aponta, em nosso entender, para
a necessidade de as organizações adotarem uma postura mais ativa na integração
desses trabalhadores. Ainda que as adaptações para as pessoas com deficiência
possam representar custos adicionais para os empregadores, a evidência
disponível sugere que esses custos habitualmente são pequenos, sendo improvável
que afetem a relação custos-benefícios que resultam da contratação dessa força
de trabalho (Lengnick-Hall et al., 2008; Schur et al., 2014). No domínio da
integração, a socialização no local de trabalho emergiu como fator importante
nesse processo, tanto na perspectiva dos trabalhadores como nadas chefias, tendo
sido também identificado no estudo de Kulkarni e Lengnick-Hall (2011). Tal
socialização, permite, também, que os demais membros da organização passem a
conhecer melhor a realidade do trabalhador cego, ajudando, assim, a desconstruir
eventuais preconceitos associados.
A investigação (Lengnick-Hall et al., 2008) tem também apontado o receio de
reações negativas por parte de colegas e/ou de clientes face a trabalhadores com
deficiência como um dos principais entraves à contratação por parte dos
empregadores, ainda que não exista investigação que sustente tal conexão. No
âmbito da perspectiva da integração profissional dos próprios trabalhadores,
dois referiram que uma pessoa cega, quando tem oportunidade de integrar o
mercado de trabalho, sente, de certa forma, necessidade de um "esforço extra" de
modo a não desperdiçar oportunidades, resultado que é consistente com o estudo
de Bacelo (2012) e que sugere que as pessoas cegas que estão no mercado de
trabalho ainda sentem a necessidade de "provar" que são merecedoras da
oportunidade que tiveram.
A falta de informação surgiu neste estudo como sendo um dos maiores entraves à
integração profissional de pessoas cegas, resultado que é congruente com outros
estudos (ACAPO, 2012; Golin, 2003) e com revisões de literatura sobre obstáculos
à integração de pessoas com deficiência no mercado de trabalho (p. ex., Kulkarni
& Lengnick-Hall, 2014; Markel & Barclay, 2009). Uma forma de contornar essa
situação seria, segundo os participantes, a divulgação de informação junto dos
empregadores, tal como sugerido também pelos participantes do estudo de Golin
(2003). Uma alternativa poderia sera divulgação de histórias de sucesso da
integração no mercado de trabalho, fazendo com que essas se tornassem modelos a
seguir (Lengnick-Hall et al., 2008). Essa estratégia foi posta em prática pela
Organización Nacional de Ciegos Españoles (ONCE, 2015), a partir da divulgação,
em sua página da internet, não só de informação relevante acerca da integração
de pessoas cegas no mercado de trabalho, mas também de casos de sucesso.
Após o cruzamento dos resultados desta investigação com os encontrados na
literatura, cremos poder concluir que uma maior divulgação de informações sobre
as políticas de incentivo à contratação, aliada a políticas e práticas de gestão
de recursos humanos que assegurem a inserção, poderá ajudar a reduzir
desigualdades no acesso de indivíduos com deficiência ao emprego. Neste ponto da
discussão, importa salientar o papel que a área dos recursos humanos -em que com
frequência os psicólogos do trabalho e das organizações trabalham - pode assumir
do ponto de vista da intervenção nesse domínio. Por exemplo, Markel e Barclay
(2009), com base na literatura revista, colocam diversas questões que as
organizações deverão responder, fazendo, no seguimento de tais questões,
recomendações específicas em diversas políticas e práticas (p. ex.,
recrutamento, seleção, treinamento, avaliação de desempenho) que os
profissionais de recursos humanos podem adotar no sentido de desenvolver locais
de trabalho "mais amigos" das pessoas com deficiência. Por exemplo, no nível do
treinamento, colocam a seguinte questão: "As organizações possuem treino quer em
questões legais quer em gestão orientada para pessoas com deficiência?",
recomendando que os trabalhadores de organizações que recrutam pessoas com
deficiência deverão ter treinamento sobre as questões legais associadas à
deficiência e sobre o modo como estabelecer e manter uma relação de trabalho
produtiva com a pessoa que foi recrutada.
Kulkarni e Lengnick-Hall (2014) apresentam também diversas recomendações na área
dos recursos humanos. Por exemplo, recomendam que as práticas de recrutamento
incluam fontes de recrutamento não tradicionais, de modo a aumentar a
probabilidade de conhecimento das ofertas de emprego junto a pessoas com
deficiência. Em suma, é possível identificar na literatura orientações
específicas que as organizações podem implementar em suas políticas e práticas
de gestão de recursos humanos com vista ao desenvolvimento de uma cultura
organizacional "amiga" da pessoa com deficiência e, por conseguinte, mais
responsável socialmente.
Foi também referida, pelos próprios trabalhadores, a importância de
desenvolverem uma atitude "positiva", "proativa" e "polivalente". No conjunto,
os resultados apontam para a necessidade de serem consideradas medidas coletivas
(nesse caso, organizacionais) mas também individuais, sendo possível, em nosso
entender, que ambas se inter-relacionem, isto é, um clima organizacional
apoiante das pessoas com algum tipo de deficiência gerará uma atitude mais
favorável destas para com a organização e vice-versa. Com efeito, como preconiza
o modelo de experiências de trabalho bemsucedidas para trabalhadores com
deficiência visual (Golub, 2006), empregadores e trabalhadores devem adotar uma
postura ativa no processo de integração com vista à "acomodação mútua", em que
os empregadores devem proporcionar condições de trabalho ajustadas e um clima
organizacional "amigo" da diversidade, e os trabalhadores devem procurar
ativamente ter as competências necessárias a um bom desempenho e ser
"embaixadores" da sua deficiência nas organizações em que estão inseridos.
Conclui-se que a integração de pessoas com deficiência no mercado de trabalho
significa a redução de diversas barreiras e preconceitos. Talvez seja a maior
vitória da inclusão, ainda que haja um longo caminho a percorrer, visto que nem
todas as organizações estão preparadas para acolher pessoas com deficiência.
Além disso, ainda há que se derrubar a barreira do preconceito que faz com que
muitos empregadores ainda tenham a perspectiva de que um trabalhador cego não
será uma mais-valia para a empresa (Bacelo, 2012; Costa, 2012; Lengnick-Hall et
al., 2008). Em todo o caso, como salientam Kulkarni e Lengnick-Hall (2014, p.
175), a eliminação ou redução de obstáculos nessa matéria exigirá um "esforço
combinado de empregadores, profissionais da área dos recursos humanos, pessoas
com deficiência e sociedade em geral".
FIM
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Integração profissional de pessoas com deficiência visual: das práticas
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Escola de Psicologia da Universidade do Minho, Braga, Portugal
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Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, vol.17 no.2, 80-88 -
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