Teresa Maia

Soldado cego com a mãe - Kosovo, 1928
Afirmar que o braille é um símbolo de identificação com a cegueira, é um lugar
comum para quantos lidam de perto com estas questões, mas pode ter algum
significado para aqueles (e são-no cada vez em maior número) que há pouco tempo
se vêm introduzindo nestes assuntos.
Só lê braille quem não vê, quem é forçado por razões determinantes a fazê-lo
quando já se esgotaram todas as hipóteses, ainda que ténues, de alternativas aos
resíduos visuais.
Sempre que um adulto, portador de cegueira recente, se disponibiliza para
aprender o Sistema Braille é porque já assumiu a sua nova condição de deficiente
visual. Esta é a primordial de todo um conjunto de muitas outras que se lhe
seguem e que estão subjacentes a esta atitude perante a sua nova vida de
indivíduo privado de vista. É, talvez nesta acepção que a palavra "reabilitação"
tem o seu maior significado. "Reabilitar" é "voltar a preparar a vida". Alguém
que viu durante um período mais ou menos longo da sua existência e em dado
momento fica privado desse sentido é um ser humano que ficou com a sua vida
cortada em duas partes: uma antes e a outra depois de ter ficado cego. Tal como
afirmou um estudioso americano das questões da cegueira, ela, a cegueira, é um
acontecimento de tal modo grave na vida de uma pessoa, susceptível de
"desestruturar" a personalidade.
Decidir aprender o Sistema Braille é, pois, uma decisão séria e profundamente
construtiva para "reestruturar" e retomar o gosto, o interesse, o prazer pela
vida, pelos afectos, pelas emoções, pela realização pessoal e profissional.
Um adulto que aprende braille em processo de reabilitação é, obviamente, um
cidadão alfabetizado e, não raro, portador de um grau de cultura e instrução
académicas elevados, não vai portanto aprender a ler nem a escrever, mas, tão
somente, vai aprender a ler e escrever por um novo processo baseado num outro
sentido, o do tacto.
É assim que o professor de braille deve ter o máximo cuidado em apresentar ao
aluno textos que não infantilizem nem banalizem os saberes de que ele é
detentor.
Esta é uma excelente ocasião para começar a dar informações relacionadas com
diversos assuntos que tenham a ver com a problemática da cegueira, tais como:
utilização de ceco gramas, endereços de bibliotecas e outros serviços
vocacionados para o atendimento de deficientes visuais, história do
associativismo, legislação, etc.
O sentido do tacto é, pois o pilar sobre que assenta toda a aprendizagem do
Sistema Braille. Geralmente, estes alunos apresentam dificuldades tácteis
iniciais e tendem a fazer analogias com a escrita a tinta, nomeadamente quanto
ao feitio das letras e às posições dos pontos que compõem a "célula braille".
Nunca é demais repetir que um bom domínio do Sistema Braille passa por um bom
desenvolvimento táctil. A fase de pré-leitura é muito importante para o futuro
da aquisição do sistema. De início o aluno deve identificar relevos, pontos,
grupos de pontos mais ou menos compactos, com diferentes graus de continuidade e
descontinuidade. Só depois de bem explorados estes aspectos se deve passar à
fase da leitura propriamente dita.
A nossa experiência diz-nos que os alunos adultos manifestam uma grande
ansiedade na fase de pré-leitura, pois sentem que não estão a "aprender"
consoante é seu legítimo desejo. Deve aqui o professor explicar-lhes a situação
com bastante pormenor e repeti-la quantas vezes forem necessárias, pois é
perfeitamente compreensível o estado de ansiedade e até de insegurança que o
aluno experimenta.
A aquisição da técnica de leitura é o passo mais árduo e moroso que o aluno tem
de dar; pelo contrário, a técnica da escrita é mais simples e fácil; é por isto
que a escrita só é iniciada quando o aluno já domina razoavelmente a leitura.
Outro aspecto importante é a postura corporal. O aluno deve ser encorajado a
desenvolver uma correcta posição do seu corpo e enquadrá-lo devidamente com a
mesa de trabalho e os materiais: fichas, livro, máquinas braille, pautas, etc.
Por fim vamos aqui deixar uma nota que já em diversas ocasiões aflorámos; é a
total ausência de material didáctico editado para este trabalho de iniciação ao
Sistema Braille de adultos alfabetizados. Faltam igualmente, estudos adaptados à
língua portuguesa para iniciação à leitura e escrita braille, de crianças em
idade escolar.
O Sistema Braille não é gratificante, análogo da escrita vulgar. Recorre a um
sentido, o tacto, que também não é análogo do sentido da vista, pois enquanto
este é globalizante, o tacto é analítico... Estas diferenças têm de ser
respeitadas...
CONCLUSÃO
A reabilitação dos cegos adultos é um processo global e total. O ensino do
Sistema Braille é apenas um dos elementos que compõem essa totalidade. Ensinar o
Sistema Braille a um adulto que cegou recentemente não é uma mera transmissão de
conhecimentos técnicos, conteúdos pedagógicos. Nesta condição, o professor de
braille tem de ter disponibilidade para ouvir e falar sobre a cegueira, de
atitudes e de defesas, medos e angústias que o aluno manifesta perante ela.
A reabilitação não é um mero processo com tempo e horário marcados. É antes uma
mudança de atitude face à vida, sem o sentido da vista, que implica coragem,
determinação, consciência de que se é diferente do que se era dantes. Mas,
simultaneamente, a reabilitação dá a consciência de que a vida não termina
porque a vista terminou. Que Ela, a Vida, continua a ter sentido, valor e espaço
de afirmação pessoal.
Ensinar braille a um adulto que cegou recentemente é, em suma, ajudar alguém a
dar o salto da profunda depressão e descrença para uma nova postura em que o
braille é um dos muitos instrumentos de acção positiva no futuro.
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fonte: Lerparaver,
8 Dezembro, 2005
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