
Arte de rua - Pavel Puhov
RESUMO: Objetivou-se analisar as estratégias de aprendizagem frequentemente
utilizadas por estudantes cegos (estudo 1) e comparar as estratégias de
aprendizagem utilizadas por estudantes cegos e videntes (estudo 2). O estudo 1
contou com a participação de 25 estudantes cegos, de ambos os sexos, com idades
entre 9 e 16 anos, matriculados do 3º ao 9º ano do ensino fundamental. Os
instrumentos utilizados foram um questionário sociodemográfico e uma entrevista
semiestruturada. Os dados indicaram que os alunos cegos utilizam tanto
estratégias cognitivas como metacognitivas, contudo o repertório apresentado é
pouco variado. No estudo 2, 25 alunos cegos e 25 videntes, de ambos os sexos,
com idades entre 9 e 16 anos, matriculados do 3º ao 8º ano do ensino
fundamental, responderam um questionário sociodemográfico e uma escala de
estratégias de aprendizagem. Os resultados indicaram homogeneidade nas
respostas, denotando que os dois grupos reportaram utilizar as mesmas
estratégias de aprendizagem. Conclui-se que os estudantes cegos e videntes
utilizam estratégias cognitivas e metacognitivas para estudar de forma
semelhante, mas esse repertório é pouco complexo, indicando que eles utilizam
estratégias independentes do conteúdo estudado ou da tarefa a ser executada.
Introdução
A aprendizagem escolar tem se mostrado uma característica fundamental na
contemporaneidade, visto que o mercado de trabalho está cada vez mais exigente,
solicitando profissionais qualificados. Apesar disso, no Brasil, os índices de
evasão e repetência escolar são alarmantes e diante deles pode-se questionar as
razões que levam crianças e adolescentes a abandonarem as escolas. Será que o
fracasso escolar está relacionado a questões internas do aluno (variáveis
psicológicas e cognitivas), a questões externas a ele (escola, espaço político,
problemas sociais e econômicos) ou a ambas? Será que os alunos estão sabendo
estudar? Essas questões instigam a pensar o que leva alguns alunos a aprenderem
e outros não.
Um dos fatores que influenciam o sucesso acadêmico é o uso efetivo das
estratégias de aprendizagem (SILVA; SÁ, 1997), as quais podem ser compreendidas
como técnicas ou métodos utilizados pelos estudantes para adquirir conhecimento
(DEMBO, 1994). Pozo (1996) caracteriza as estratégias de aprendizagem como
sequências planejadas de procedimentos ou atividades selecionadas com o objetivo
de facilitar a aquisição, o armazenamento e a utilização da informação.
As estratégias de aprendizagem podem ser classificadas como cognitivas ou
metacognitivas. Segundo Dembo (1994), as estratégias cognitivas se referem a
comportamentos e pensamentos que influenciam o processo de aprendizagem de
maneira que a informação possa ser armazenada de forma mais eficiente. Costa
(2000) aponta que é possível encontrar três tipos de estratégias cognitivas:
estratégias de ensaio, de elaboração e de organização. As estratégias de ensaio,
que demandam atenção dos alunos, são copiar, repetir, sublinhar ou destacar o
material apresentado em sala de aula. As estratégias de elaboração, tais como
parafrasear, criar analogias, tomar notas, criar e responder perguntas e
resumir, exigem que os alunos relacionem as informações novas com o conhecimento
já existente. E as estratégias de organização são utilizadas para estruturar o
material a ser aprendido, subdividindo-o em partes, de modo tal que os alunos
possam identificar as ideias principais do texto, bem como os detalhes, e criar
diagramas utilizando-se de palavras ou conceitos chaves.
As estratégias metacognitivas, por sua vez, são procedimentos que o indivíduo
usa para planejar, monitorar e regular o seu próprio pensamento (DEMBO, 1994).
Planejar diz respeito ao estabelecimento de uma organização para lidar com o
material de aprendizagem. Monitorar relaciona-se ao acompanhamento e a
verificação de quanto o indivíduo aprendeu ou não do conteúdo. Regular, como o
próprio nome indica, relaciona-se com o comportamento de modificar as atividades
de estudo, quando se percebe que não houve uma compreensão adequada do material
de aprendizagem (BORUCHOVITCH, 1999; COSTA, 2000; BORUCHOVITCH; SANTOS, 2006).
O sucesso escolar dos estudantes está relacionado diretamente com o uso efetivo
das estratégias de aprendizagem, as quais se complexificam à medida que as
tarefas se tornam mais difíceis e exigem dos estudantes habilidades mais
sofisticadas e capazes de responder às exigências impostas (COSTA, 2000). No
Brasil, esforços têm sido realizados para investigar como as estratégias de
aprendizagem influenciam positivamente o aprendizado, bem como quais as relações
entre elas e outras variáveis psicológicas como ansiedade e depressão. Para
acessar essa informação, os pesquisadores têm utilizado diversos instrumentos,
tanto internacionais como nacionais.
Dentre os instrumentos desenvolvidos no exterior e adaptados para a população
brasileira, destaca-se a Self-Regulated Learning Interview Schedule (SRLIS),
desenvolvida por Zimmerman e Martinez-Pons, em 1986, e adaptada por
Boruchovitch, em 1995 (COSTA, 2000). Trata-se de uma entrevista, para estudantes
do ensino fundamental e médio, composta por questões abertas, que envolve
situações hipotéticas nos contextos concretos de aprendizagem (BORUCHOVITCH,
2006; BORUCHOVITCH; SANTOS, 2006). Alguns pesquisadores brasileiros (COSTA,
2000; CRUVINEL, 2009; SCHLIEPER, 2001; SERAFIM, 2004; SOUZA, 2007) já utilizaram
esse instrumento para identificar as estratégias de aprendizagem utilizadas
pelos estudantes. De modo geral, identificaram que os alunos possuíam um
repertório de estratégias, contudo, esse parecia ser insuficiente frente às
diversas situações de aprendizagem, uma vez que as estratégias eram utilizadas
com pouca frequência e sem grande variabilidade.
No que concerne aos instrumentos nacionais, Boruchovitch e Santos, em 2001, com
base nos instrumentos internacionais, elaboraram a Escala de Estratégias de
Aprendizagem para Universitários. Posteriormente, em 2004, desenvolveram a
Escala de Estratégias de Aprendizagem para o Ensino Fundamental, a qual foi
baseada tanto nos estudos internacionais como nos estudos nacionais. Diversos
pesquisadores (BORUCHOVITCH; OLIVEIRA; SANTOS, 2007; BORUCHOVITCH ET AL., 2006;
CRUVINEL, 2003; CRUVINEL; BORUCHOVITCH, 2004; GOMES, 2002; GOMES; BORUCHOVITCH,
2005; LINS, 2009; LINS; ARAUJO; MINERVINO, 2011; MUNEIRO, 2008; OLIVEIRA, 2008;
OLIVEIRA; BORUCHOVITCH; SANTOS, 2007, 2009, 2011) utilizaram essas duas escalas
nacionais para identificar as maneiras pelas quais os estudantes apreendem o
conhecimento e de maneira semelhante encontraram falhas nos repertórios de
estratégias de aprendizagem dos estudantes, bem como diferenças entre os grupos
quando comparados por sexo, idade e ano escolar cursado.
Como se pode perceber, no Brasil, pesquisas vêm sendo realizadas na região
sudeste do país e ainda há poucas informações sobre a realidade nordestina. Além
disso, essas pesquisas focalizam os estudantes sem deficiências, sejam elas
visuais, auditivas ou físicas, de modo que pouco se sabe sobre quais estratégias
os alunos com deficiência, e mais especificamente os cegos, utilizam para
estudar e aprender melhor os conteúdos escolares.
Frente a isto, questiona-se: estudantes cegos utilizar-se-ão de estratégias de
aprendizagem diferentes dos estudantes videntes, caracterizando resultados
diversos? Variáveis sociodemográficas distintas como, por exemplo, sexo e idade,
possibilitam que se encontrem resultados diferentes quanto ao uso de estratégias
de aprendizagem nesses grupos? Imagina-se diferenças quando comparados os
grupos, pois a visão é o meio mais importante de relacionamento com o mundo
exterior, organizando as informações trazidas também por outros órgãos dos
sentidos. Além disso, a maior parte das informações é apresentada visualmente,
seja em casa, na escola ou nas ruas, sendo pouco estimulados os sentidos
remanescentes. A visão ainda é o sentido mais privilegiado e estimulado. Frente
à ausência da visão, a criança precisa desenvolver estratégias compensatórias
que permitam o acesso à informação.
Tendo isso em vista, o presente trabalho objetivou identificar as estratégias de
aprendizagem utilizadas por alunos cegos e videntes matriculados no Ensino
Fundamental. Para tanto, foram feitos dois estudos. O primeiro objetivou
analisar as estratégias de aprendizagem mais frequentemente utilizadas por
estudantes cegos, de modo a proporcionar um maior entendimento de como esses
alunos fazem para estudar e aprender os conteúdos escolares e o segundo
objetivou comparar as estratégias de aprendizagem utilizadas por estudantes
cegos e videntes, inseridos no mesmo contexto social e cultural.
Estudo 1 Método
Participantes: Participaram da pesquisa 25 estudantes cegos, com cegueira
congênita e adquirida, dos quais 48% eram do sexo masculino, com idades entre 9
e 16 anos (12,9±2,4), matriculados do 3º ao 9º ano do Ensino Fundamental, em
escolas públicas e instituições especializadas das cidades de Natal (RN) e
Campina Grande (PB).
Instrumentos: Utilizou-se um questionário sociodemográfico para caracterizar a
amostra (sexo, idade, série escolar e cidade de proveniência) e uma entrevista,
composta por 20 questões abertas, que buscavam averiguar quais estratégias de
aprendizagem eram empregadas pelos alunos cegos em sala de aula e em casa, tanto
no momento em que realizavam as tarefas escolares como quando se preparavam para
as avaliações. As questões da entrevista foram construídas com base nos
instrumentos já existentes como a SRLIS e as escalas de estratégias de
aprendizagem, na literatura sobre a área e nas peculiaridades dos estudantes
cegos, como por exemplo, o uso da audição ativa em sala de aula e do material em
Braille.
Procedimentos: Contatou-se os responsáveis pelas instituições especializadas no
atendimento a pessoas com deficiência visual e pelas escolas públicas
frequentadas por tais pessoas, compareceu-se às instituições e conversou-se com
os estudantes, com o intuito de saber quais gostariam de participar e aos que
aceitaram foi entregue o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, para ser
assinado pelos responsáveis. Quando da devolução desse material devidamente
assinado, deu-se início a coleta de dados. Os instrumentos foram aplicados, de
forma individual, durante o horário de aula, em salas disponibilizadas pelas
escolas. Após a coleta de todo o material, as entrevistas foram transcritas na
íntegra e tratadas através da análise de conteúdo (BARDIN, 1977).
Resultados e discussão
Os resultados serão descritos respeitando-se os quatro eixos temáticos
estabelecidos pelos pesquisadores a priori. O primeiro eixo temático teve por
objetivo verificar como os estudantes cegos aprendem os conteúdos escolares em
sala de aula, o segundo teve por intuito averiguar como os estudantes cegos
realizam as suas lições de casa, o terceiro teve por finalidade analisar como os
estudantes cegos internalizam os conteúdos escolares quando estudam para as
provas e o quarto atendeu à intenção de examinar como os estudantes cegos se
organizam para estudar em casa.
O primeiro eixo temático teve por objetivo verificar como os estudantes aprendem
os conteúdos escolares em sala de aula, através de seis questões. Verificou-se
que 36% dos alunos costumam escutar e prestar atenção quando o professor está
explicando um assunto novo, demonstrando que monitoram o seu comportamento em
sala (estratégia metacognitiva). Alguns pesquisadores (COSTA, 2000; CRUVINEL,
2009; SCHLIEPER, 2001; SERAFIM, 2004; SOUZA, 2007), utilizando um instrumento
similar, encontraram resultados análogos junto aos videntes, visto que parte
considerável dos participantes disse controlar a atenção e o comportamento em
sala de aula. Controlar a atenção durante o processo de aprendizagem é
fundamental, pois as informações só poderão ser retidas e posteriormente
recuperadas se o indivíduo se mantiver focalizado. O grau de atenção necessário
para que se processe a informação depende do conhecimento prévio, pois quando se
trata da aprendizagem de informações familiares, o processamento requer o mínimo
da função, diferentemente do que ocorre quando se trata de algo novo, onde a
atenção concentrada é muito mais importante (GOMES, 2002). Manter a atenção é,
pois, peça-chave para o bom aprendizado.
Cerca de 40% dos alunos costumeiramente solicitam silêncio direta ou
indiretamente (via professor) quando os colegas estão conversando em sala de
aula. Tal postura demonstra que, frente a situações desagradáveis, os estudantes
buscam eliminar o que os incomoda. Pode-se pensar então que, a partir do momento
que percebem os empecilhos e buscam modificar a situação a fim de conseguir
melhorar a sua aprendizagem, os alunos revelam-se ativos e engajados com o
processo de aprendizagem.
Também se identificou que 84% dos alunos copiam o conteúdo e os exercícios
apenas quando o professor manda e o fazem exatamente do jeito que ele diz, não
havendo, portanto, um comportamento elaborativo. A escrita mecânica é uma
estratégia cognitiva, de ensaio, considerada uma das mais simples, geralmente
utilizada por alunos das séries iniciais. Diferentemente, a escrita elaborada
envolve a otimização do aproveitamento dos estudos, uma vez que a consciência do
que escrever demanda o comportamento estratégico de pensar antecipadamente sobre
determinado conteúdo (MUNEIRO, 2008). A escrita elaborada, portanto, é mais
eficaz para o entendimento do conteúdo e característica dos alunos mais
estratégicos, devendo ser estimulada.
Ainda sobre a aprendizagem em sala, quase metade dos entrevistados (45%) disse
reler o que escreveu em aula apenas quando não tem outra atividade para fazer,
independentemente da realização de tarefas, demonstrando que é dada pouca
atenção a esse tipo de material, ficando o estudo dessas anotações relegado a
segundo plano. Os alunos parecem não perceber a importância das anotações feitas
em sala e o quanto elas podem auxiliá-los em momentos de estudo posteriores. Tal
situação evidencia que tanto os professores como os familiares desses alunos
precisam ajudá-los, através da instrução, a compreenderem melhor o papel dessas
anotações em sua aprendizagem. Apesar de algumas estratégias serem aprendidas
espontaneamente pelos alunos, outras precisam ser ensinadas diretamente para que
sejam utilizadas (SOUZA, 2007).
Quando questionados sobre o que costumam fazer quando esquecem o material
(reglete/punção/máquina) em casa e não podem copiar a matéria, 44% dos alunos
reportou pegar a matéria com os colegas posteriormente. A estratégia de pedir
ajuda é uma estratégia metacognitiva, que envolve o monitoramento e a regulação
da cognição.
Contudo, nesse caso específico, a solicitação de ajuda não pode ser considerada
metacognitiva, tendo em vista que não houve uma real compreensão de uma
dificuldade de aprendizagem, revelando-se como um pedido de ajuda elementar.
Apesar disso, reconhece-se a importância de buscar a informação que foi perdida
com os colegas, na medida em que demonstra uma real preocupação com o conteúdo
escolar e o consequente aprendizado.
Finalizando a investigação sobre a aprendizagem em sala de aula, a maioria dos
alunos (65%) comentou que, quando os professores fazem desenhos, figuras ou
gráficos no quadro e não trazem nenhum material em alto relevo, nem detalham o
que está sendo posto, geralmente tenta imaginar o que está sendo passado para os
demais, demonstrando vontade de compreender e consequentemente de alcançar
aquele conhecimento. A imaginação, ao permitir que eles representem os objetos
em suas mentes, funciona como uma ponte que tenta aproximá-los do mundo dos
videntes e do conhecimento a eles apresentado. Contudo, tal estratégia revela-se
problemática, pois os professores passam a não ter controle sobre o que está
sendo imaginado pelo aluno e isso pode ocasionar uma aprendizagem errada. Os
professores precisam trazer para a sala de aula conteúdos concretos e assim
estimular os sentidos remanescentes dos estudantes para que possam tentar
garantir a aprendizagem efetiva daqueles conteúdos.
As questões do segundo eixo temático investigavam como os estudantes cegos
realizam as suas lições de casa, através de seis perguntas. Quando questionados
sobre que material utilizam para fazer o dever de casa e quem os auxilia, 40%
dos participantes afirmaram contar com a ajuda de seus familiares e que esses
geralmente leem os livros em tinta para eles. Costa (2000), Schlieper (2001),
Serafim (2004) e Souza (2007) também encontraram resultados semelhantes ao
entrevistar alunos videntes, uma vez que eles reportaram procurar apoio social
junto aos seus familiares para fazer as atividades corretamente. Contudo,
diferentemente dos alunos videntes que podem ler os livros didáticos, os
estudantes cegos dependem de seus familiares para fazer as atividades por
possuírem basicamente livros em tinta e quando esses não podem auxiliá-los,
lendo os livros, eles deixam de fazê-las. Essa dependência os prejudica, pois ao
ficar a mercê dos outros deixam de ser os condutores do seu próprio processo de
aprendizagem.
Sobre a revisão do dever de casa, cerca de 65% dos participantes afirmou reler o
material após terminar a tarefa, utilizando-se, portanto, de uma estratégia
metacognitiva (regulação), dado esse corroborado por Costa (2000), Schlieper
(2001), Serafim (2004), Souza (2007) e Cruvinel (2009) junto aos alunos
videntes, os quais disseram reler cuidadosamente a tarefa de casa a fim de
conferir se está correta. Essa estratégia metacognitiva relaciona-se com a
capacidade do sujeito refletir sobre seu próprio processo de aprendizagem, de
modo que quanto mais desenvolvida essa habilidade, maior a flexibilidade no uso
das estratégias de aprendizagem, resultando em melhor desempenho acadêmico
(COSTA, 2000).
Quando questionados sobre as dificuldades na realização do dever, metade dos
alunos relatou deixar as questões em branco e no dia seguinte procurar o
professor para sanar as dúvidas. Novamente a estratégia de pedir ajuda se
mostrou presente e, nesse caso, revela-se estratégia metacognitiva de fato, uma
vez que os estudantes compreenderam uma dificuldade de aprendizagem e
solicitaram o auxílio de terceiros. A esse respeito, Costa (2000) revela que
crianças pequenas, com 4 ou 5 anos de idade, já têm consciência da eficiência de
procurar ajuda, sendo essa estratégia uma das mais importantes por possibilitar
que o aluno aprenda outras habilidades. Os alunos que solicitam ajuda são
capazes de perceber a dificuldade da tarefa e estão constantemente monitorando
sua própria capacidade de compreensão do conteúdo que estão aprendendo
(SCHLIEPER, 2001).
Sobre os trabalhos de pesquisa, 36% dos estudantes reportaram utilizar-se da
Internet quando precisam pesquisar algo. Contudo, afirmaram necessitar do
auxílio de seus familiares, pois, em geral, os computadores não possuem
programas adequados (leitores de tela) e quando possuem, alguns não sabem como
utilizá-los. Por essa razão, não acompanham o andamento do processo de pesquisa
e recebem o material pronto, apenas entregando aos professores, sem refletir ou
discutir sobre o conteúdo posto. Novamente a dependência dos familiares é
problemática, pois, por conta de empecilhos que fogem ao seu controle, os
estudantes precisam deixar sob a responsabilidade de outros as suas tarefas
escolares e com isso deixam de assimilar o conteúdo, o qual muitas vezes também
não é cobrado posteriormente pelos professores.
No caso de não compreender o que estão lendo, 40% reportou reler cuidadosamente
o material, enquanto outros 40% disseram pedir ajuda, ambas estratégias
metacognitivas, de regulação. Costa (2000), Serafim (2004), Souza (2007) e
Cruvinel (2009) também obtiveram essas respostas da maioria dos estudantes
videntes. Diferentemente, a maioria dos partícipes da pesquisa de Schlieper
(2001) reportou não fazer nada frente a essa questão. O uso dessas estratégias
metacognitivas, como apontado anteriormente, torna a aprendizagem mais
significativa na medida em que torna visível para os estudantes seus pontos
fortes e fracos em domínios específicos e, ao identificar o que pode ser
melhorado, eles geralmente se motivam e tentam utilizar suas habilidades para
avançar.
O terceiro eixo temático teve por finalidade analisar como os estudantes cegos
internalizam os conteúdos escolares quando estudam para as provas, através de
seis questões. No que diz respeito à preparação para as provas, 44% dos
estudantes comentou estudar pelos exercícios de revisão entregues pelos
professores na semana anterior a prova, indicando o uso de uma estratégia de
ensaio (cognitiva) pouco complexa. De modo semelhante, Costa (2000) identificou
que os alunos videntes utilizam estratégias de ensaio, enquanto os estudantes da
pesquisa de Schlieper (2001) mencionaram usar estratégias de elaboração,
consideradas mais sofisticadas. O uso das estratégias de elaboração deve ser
sempre estimulado, pois “criam relações entre o conhecimento prévio e o novo,
possibilitando o processamento da informação de forma mais profunda” (COSTA,
2000, p. 23).
A maioria dos estudantes (87,5%) disse utilizar-se da repetição para decorar o
conteúdo (estratégia cognitiva, de ensaio). A repetição é uma estratégia
adquirida espontaneamente pelos estudantes já nas etapas iniciais da
escolarização, de modo tal que não necessitam de um ensino estruturado em sala
de aula para aprendê-la (COSTA, 2000). Souza (2007) encontrou que os alunos
videntes utilizam estratégias de ensaio para memorizar. Já a maior parte dos
alunos da pesquisa de Serafim (2004) afirmou não fazer nada quando precisa
memorizar alguma informação para se sair bem na prova, demonstrando pouco ou
nenhum conhecimento sobre como processar informações de maneira rápida ou
profunda.
Quando indagados sobre o que fazem quando percebem que não vai dar tempo estudar
tudo o que precisam, 36% dos estudantes disseram não ter passado por essa
situação, pois sempre estudam todo o material com antecedência. Mas 28% disse
não fazer alterações em função do tempo, mantendo o mesmo ritmo, demonstrando
falta de conhecimento e preparo para lidar com pouco tempo disponível para
estudar para uma prova. Costa (2000) e Souza (2007), ao fazer a mesma questão
para estudantes videntes, encontraram que a maior parte mantém seu comportamento
inalterado e apenas alguns fazem seleções e ajustes em funções do tempo. Isso
significa que os alunos têm dificuldade para selecionar e ajustar o estudo em
função do tempo, mesmo as pesquisas apontando que a administração do tempo se
relaciona positivamente com o desempenho acadêmico, devendo ser uma estratégia
ensinada aos alunos.
Quando perguntados sobre o que fazem quando tem dificuldades para responder as
questões da prova, os alunos (36%) disseram que costumam pedir ajuda (estratégia
metacognitiva, de regulação) ao professor para concluí-las. Tais dados
corroboram a pesquisa de Costa (2000), que encontrou que 25% pedem ajuda ao
professor, sendo a segunda estratégia mais citada pelos participantes.
Diferentemente ocorre no estudo de Souza (2007), onde mais da metade dos
estudantes relatou não usar nenhuma estratégia nessa situação.
Metade dos estudantes disse reler a prova antes de entregá-la ao professor, a
fim de conferir se as respostas estão corretas (estratégia metacognitiva, de
regulação). Resultados semelhantes foram obtidos por outros pesquisadores,
quando entrevistaram videntes, como, por exemplo, Costa (2000), Schlieper
(2001), Serafim (2004), Souza (2007) e Cruvinel (2009) visto que os partícipes
dessas pesquisas reportaram conferir as respostas antes de entregar,
mostrando-se metacognitivos nessa situação.
Quando perguntados sobre o que fazem quando recebem uma prova corrigida, pouco
mais da metade (52%) dos estudantes comentou que além de olhar a nota que tirou,
verifica quais as questões erradas (estratégia metacognitiva, de monitoramento).
Costa (2000) e Serafim (2004), ao fazer uma pergunta similar, identificaram que
a estratégia mais citada pelos estudantes foi a correção. Na pesquisa de
Schlieper (2001) a maior parte dos estudantes disse mostrar para pessoas
significativas as notas das provas e quase metade deles disse corrigir as
questões erradas. Percebe-se, pois, que os estudantes buscam monitorar o
processo cognitivo. Contudo, salienta-se que, além de observar as questões
erradas, seria importante que os alunos tentassem refazê-las, para assim
garantir a aprendizagem correta do conteúdo.
O último eixo temático atendeu à intenção de examinar como os estudantes cegos
se organizam para estudar em casa, através de duas questões. Sobre a organização
do tempo, 48% dos estudantes disse que estuda apenas quando tem alguma atividade
para fazer, seja dever de casa ou prova, demonstrando uma ausência de
organização diária. A falta de organização dificulta as situações de
aprendizagem, indicando que os estudantes precisam planejar e organizar o seu
tempo para que possam alcançar melhores resultados (MUNEIRO, 2008). Acredita-se
que, para que os estudantes compreendam os benefícios das estratégias
organizativas, precisam ser instruídos pelos professores e pais. A instrução em
estratégias abre novas perspectivas para uma potencialização da aprendizagem,
permitindo aos estudantes ultrapassar dificuldades pessoais e ambientais de
forma a conseguir um bom desempenho na escola (SILVA; SÁ, 1997).
Quanto ao local escolhido para estudar, mais da metade dos estudantes (52%)
disse procurar lugares tranquilos e silenciosos a fim de evitar as distrações
(estratégia metacognitiva, de regulação). Costa (2000), Schlieper (2001),
Serafim (2004), Souza (2007) e Cruvinel (2009) encontraram resultados
semelhantes com os estudantes videntes, que responderam procurar um lugar
adequado, buscando neutralizar a presença de pessoas e ruídos, bem como
condições físicas desfavoráveis. Tal estratégia mostra-se positiva, pois uma boa
estruturação do ambiente torna mais efetivo o acesso à informação. Ou seja,
quando o aluno se depara com poucos estímulos visuais e auditivos pode deter sua
atenção sobre eles com mais afinco e isso faz com que as informações adquiridas
possam ser armazenadas e posteriormente recuperadas.
Percebe-se que dentre as estratégias cognitivas, as mais utilizadas foram as de
ensaio: repetir/anotar na íntegra (Tabela 1). Estratégias de elaboração, como
resumir, anotar com suas próprias palavras, criar analogias, parafrasear e
estratégias de organização como selecionar as ideias mais importantes, criar
roteiros ou mapas foram pouco citadas pelos participantes. Costa (2000) destaca
que as estratégias de elaboração são importantes para a aprendizagem, pois
possibilitam que se faça questionamentos sobre o conteúdo estudado. Já no que
concerne às estratégias metacognitivas, percebeu-se que o uso de estratégias de
monitoramento (atenção, compreensão) e de regulação (reler, rever, ajustar
ambiente, pedir ajuda) foram referenciadas pelos estudantes. Contudo, não se
percebeu o uso de estratégias de planejamento. O uso de tais estratégias, de
acordo com Muneiro (2008), implica o estabelecimento de metas e de organização
para a realização de atividades de aprendizagem, bem como o planejamento do
tempo disponível para estudar ou realizar uma tarefa, de modo que o não uso
dessas estratégias demonstra que os estudantes não pensam antecipadamente a
respeito das atividades a serem desenvolvidas.
Tabela 1. Principais estratégias de aprendizagem referenciadas pelos estudantes
Estratégias
cognitivas
|
Estratégias
metacognitivas
|
Repetição
Copiar o material na íntegra
Leitura e escrita mecânica
|
Controle da atenção
Reler cuidadosamente
Rever/Conferir
Ajustar ambiente
Procurar assistência social
|
Fonte: autores
|
Pelo exposto, percebe-se que, apesar dos estudantes reportarem utilizar
estratégias cognitivas e metacognitivas para estudar, o repertório de
estratégias é pouco variado, indicando que eles usam basicamente as mesmas
estratégias independentemente da tarefa a ser realizada. Essa realidade parece
ser muito similar ao exposto na literatura nacional no que concerne aos
videntes. Visando investigar melhor essa questão, realizou-se outro estudo com o
objetivo de comparar as estratégias de aprendizagem utilizadas por estudantes
cegos e videntes, com as mesmas características sociodemográficas, partindo da
mesma matriz instrumental.
Estudo 2 Método
Participantes: 50 estudantes, 25 cegos e 25 videntes. O sexo masculino
representou 52% (n=26) da amostra, matriculados do 3º ao 8º ano do Ensino
Fundamental, em escolas de duas cidades do Nordeste Brasileiro. A idade mínima e
a máxima foram de 9 e 16 anos (12,6±2,4), respectivamente.
Instrumentos: Utilizou-se um questionário sociodemográfico para caracterizar a
amostra (cidade e estado onde residiam, escola, série, turno, nome, sexo e
idade). Fez-se uso também da Escala de Avaliação das Estratégias de Aprendizagem
para o Ensino Fundamental (OLIVEIRA; BORUCHOVITCH; SANTOS, 2010), que contém 31
questões e avalia as estratégias de aprendizagem utilizadas por alunos do ensino
fundamental, de 7 a 16 anos. As questões possuem três possibilidades de
respostas: sempre, às vezes e nunca. A escala fornece a pontuação bruta, que
varia de 0 a 62 pontos.
A escala possui uma estrutura de três fatores. O fator 1, intitulado ausência de
estratégias de aprendizagem disfuncionais, engloba itens que revelam a
frequência no uso de estratégias disfuncionais no momento do estudo. Deste modo,
espera-se que estudantes estratégicos alcancem escores baixos nesse fator. No
fator 2 (estratégias de aprendizagem cognitivas) têm-se itens que requerem
estratégias consideradas mais simples para a concretização da aprendizagem.
Assim, escores altos indicam que os estudantes estão utilizando estratégias mais
elementares durante a sua aprendizagem. E no fator 3 (estratégias de
aprendizagem metacognitivas) os itens englobam questões que exigem maior
comportamento estratégico. Logo, os estudantes que pontuam mais nesse fator são
aqueles que usam as estratégias mais complexas em seu aprendizado.
Procedimentos: Após a escolha das instituições e o aceite, foi entregue os
Termos de Consentimento Livre e Esclarecido, para serem assinados pelos
responsáveis e pelos próprios estudantes. Administrou-se os instrumentos durante
o horário de aula, em salas disponibilizadas pelas escolas, de forma individual,
por cerca de 15 minutos.
Resultados e discussão
Os dados foram tabulados com o auxílio de softwares estatísticos e submetidos às
estatísticas descritiva e inferencial. Como a distribuição da população foi
normal, utilizou-se testes paramétricos e adotou-se o nível de significância de
5%.
Inicialmente buscou-se averiguar a pontuação total obtida pelos participantes na
escala, bem como as pontuações nos seus respectivos fatores (ausência de
estratégias de aprendizagem disfuncionais, estratégias cognitivas e estratégias
metacognitivas), como pode ser visto na Tabela 2.
Tabela 2. Pontuação de cegos e videntes na escala total e quando considerados os
fatores
| |
Cegos
|
Videntes
|
| |
Média de pontos
|
Média de pontos
|
Pontuação total
Ausência de estratégias disfuncionais
Estratégias cognitivas
Estratégias metacognitivas
|
34,2±6,7
19,5±4,1
5,5±4,5
9,1±2,4
|
36,8±7,5
19,6±4,8
7,6±4,3
9,5±2,2
|
Fonte: autores
|
Percebe-se que os estudantes videntes alcançaram uma média de pontos superior
aos cegos, indicando que eles reportaram utilizar mais estratégias de
aprendizagem durante a realização de tarefas escolares e estudo. Essa diferença
se evidencia quando são analisadas as médias nos fatores, especialmente no que
concerne às estratégias cognitivas. Tal diferença pode ocorrer, pois os
estudantes cegos enfrentam dificuldades em seu dia a dia como, por exemplo, a
falta de livros em Braille. Frente à ausência de material didático escrito em
linguagem adequada, eles recebem dos seus professores apenas o material
resumido, muitas vezes ditado da lousa, o que dificulta o uso de algumas
estratégias cognitivas como resumir (elaboração) ou selecionar as ideias
principais de um texto (organização). Além disso, devido à deficiência visual
ficam impedidos de criar roteiros ou mapas de estudo (organização) ou sublinhar
os textos (ensaio).
Dentre os cegos, as estratégias mais mencionadas, com 56%, foram duas
metacognitivas, indicando que a maioria dos participantes costuma perceber
quando não entende o que está lendo (item 27) e quando isso acontece,
normalmente para e lê novamente (item 29). As estratégias mais citadas pelos
videntes, com 84% e 76%, também foram duas estratégias metacognitivas. Nestes
itens, mais da metade dos participantes afirmou que sempre olham o que erraram
quando recebem uma prova corrigida (item 18) e quando não entendem o que estão
lendo, param e leem novamente (item 27).
Quando analisadas as estratégias, percebe-se que o item 27 (estratégia
metacognitiva) foi um dos mais citados pelos participantes de ambos os grupos,
indicando que tanto os cegos como os videntes, quando percebem que não
entenderam o que leram, param e leem novamente. Em sua pesquisa, Muneiro (2008)
também encontrou que esta estratégia metacognitiva era uma das mais citadas
pelos estudantes universitários, demonstrando que tanto os estudantes das séries
iniciais como os das séries mais avançadas possuem um comportamento regulatório,
embora seja esperado que quanto mais o aluno progrida em termos de escolaridade,
mais aguçada seja sua percepção de que não entendeu algum conteúdo.
No que se refere à frequência no uso das estratégias de aprendizagem, a maioria
das estratégias foi escolhida pelos participantes como sendo empregada “nunca”.
Assim, 88% dos respondentes cegos afirmaram que não costumam assistir televisão
enquanto estudam (item 30), 80% não costumam comer enquanto estudam (item 24) e
72% não costumam ficar se levantando toda hora para pegar algum material no
momento do estudo (item 23). Analisando os videntes mais especificamente
verificou-se que 88% dos participantes desse grupo não costumam escutar música
enquanto estudam (item 30), 88% não costumam comer enquanto estudam (item 24) e
60% não costumam ficar se levantando toda hora para pegar algum material no
momento do estudo (item 23).
Quanto às estratégias “nunca” empregadas por ambos os grupos, pode-se perceber
que essas compõem o fator ausência de estratégias metacognitivas disfuncionais,
demonstrando que mesmo os estudantes não se utilizando de muitas estratégias,
eles sabem quais não devem utilizar. Ou seja, eles podem não ter um
comportamento mais sofisticado quando se trata de estratégias cognitivas e até
metacognitivas, mas demonstram saber evitar os comportamentos indesejados no
momento do estudo, tanto em sala de aula como em casa.
Analisada a influência da variável sexo junto aos cegos e aos videntes, pode-se
verificar que houve diferença na pontuação, tendo as meninas alcançado escores
mais elevados do que os meninos. Entretanto, o teste t demonstrou que essa
diferença não é estatisticamente significante. Os trabalhos de Gomes (2002),
Cruvinel (2003), Oliveira (2008), Lins (2009), Lins, Araujo e Minervino (2011) e
Oliveira, Boruchovitch e Santos (2011) corroboram com o observado neste
trabalho, visto que nesses as meninas se sobressaíram, alcançando médias
superiores a dos meninos. Inclusive, nas quatro últimas pesquisas citadas essa
diferença foi estatisticamente significante. Pode-se imaginar que tais dados
foram encontrados repetidamente, mesmo utilizando-se de instrumentos diferentes,
pois as meninas possuem um desenvolvimento cognitivo distinto e mais rápido que
os meninos e assim conseguem se manter mais compenetradas nos estudos.
No tocante à idade, devido à diversidade da amostra, optou-se por agrupar os
alunos em dois grupos: 9 a 12 anos e 13 a 16 anos. O primeiro grupo dos cegos
contou com 44% (n=11) dos participantes e o segundo com 56% (n=14) dos alunos.
Os resultados indicaram que o grupo 1 alcançou médias de pontos superiores ao
grupo 2, apesar do teste de Student indicar que essa diferença entre os grupos
não foi estatisticamente significante. Já no que concerne aos videntes, o
primeiro grupo contou com 56% (n=14) dos alunos e o segundo grupo com 44%
(n=11). Os resultados indicaram que o grupo 2 alcançou médias de pontos
superiores ao grupo 1 e novamente o teste t indicou que não era estatisticamente
significante essa diferença.
Percebe-se, pois, que no grupo dos cegos, os alunos mais jovens (G1) se saíram
melhor do que os estudantes mais velhos (G2). Diferentemente, no grupo dos
videntes, o G2 alcançou uma média de pontos superior ao G1. Chama a atenção que
no grupo dos cegos os mais novos tenham se sobressaído, visto que a literatura
aponta que a capacidade metacognitiva aumenta com a idade e a experiência, de
modo que as crianças mais velhas e adolescentes empregam estratégias mais
sofisticadas tendo, portanto, um comportamento mais estratégico (CRUVINEL,
2003). Apesar disso, Oliveira (2008), Oliveira, Boruchovitch e Santos (2011),
Lins (2009) e Lins, Araujo e Minervino (2011) também encontraram que os alunos
mais jovens apresentaram uma melhor pontuação do que os mais velhos. Diante
desse resultado controverso, pode-se pensar que mesmo as crianças mais velhas
possuindo um repertório de estratégias mais elaborado e uma capacidade
metacognitiva mais aguçada, elas não empregam as estratégias de aprendizagem no
momento do estudo. Supõe-se então que os estudantes mais velhos não compreendem
a utilidade das estratégias de aprendizagem, bem como a importância delas para
um aprendizado significativo.
Quando se analisou os resultados dos estudantes cegos tomando por base os anos
escolares cursados, pode-se perceber que os alunos do 3° ano obtiveram a melhor
pontuação (Tabela 3), mas utilizando-se a ANOVA, verificou-se que não houve
diferenças estatisticamente significativas entre os grupos. Já entre os
videntes, observou-se que os alunos do 8° ano obtiveram a melhor pontuação,
embora a ANOVA tenha novamente demonstrado a não existência de diferenças
significantes estatisticamente.
Tabela 3. Pontuação de cegos e videntes considerando os anos escolares
| |
Cegos
|
Videntes
|
| |
Média de pontos
|
Média de pontos
|
3º ano
4º ano
5º ano
6º ano
7º ano
8º ano
|
37,0±7,0
35,6±14,5
36,0±5,5
31,8±4,0
33,3±5,2
34,0±9,8
|
26,6±0,5
36,3±2,0
38,0±8,7
38,6±3,9
38,0±7,2
39,2±12,8
|
Fonte: autores
|
Quando analisada a pontuação por anos de escolaridade, os alunos das séries
básicas e das mais avançadas alcançaram índices superiores no grupo dos cegos e
videntes, respectivamente. Como comentado em relação à idade, apenas o
encontrado no grupo dos videntes corrobora o teorizado na literatura, uma vez
que essa aponta que quanto mais os alunos avançam nas séries escolares, maior a
sua capacidade de autorregulação. Contudo, podem ser encontrados dados
controversos como, por exemplo, em Cruvinel (2003), Oliveira (2008), Oliveira,
Boruchovitch e Santos (2011), Lins (2009) e Lins, Araujo e Minervino (2011),
onde os alunos das séries iniciais obtiveram uma média de pontos melhor do que
aqueles das séries mais avançadas.
Analisando de forma geral os dados aqui apresentados, pode-se perceber
homogeneidade nas respostas dos participantes, de modo tal que as estratégias
utilizadas pelos estudantes cegos são semelhantes às utilizadas pelos estudantes
videntes e, portanto, similares às mencionadas pela literatura da área em nível
nacional. Entretanto, os estudantes cegos demonstraram utilizar-se de
estratégias de aprendizagem de pouca complexidade, que apesar de serem análogas
às utilizadas pelos estudantes videntes, estes as utilizam nas séries iniciais.
Além disso, identifica-se que apesar dos estudantes reportarem utilizar
estratégias cognitivas e metacognitivas para estudar, o repertório de
estratégias é pouco variado, indicando que eles basicamente usam as mesmas
estratégias independentemente da tarefa a ser realizada. Assim sendo, parece ser
necessário mostrar aos alunos, sejam eles cegos ou videntes, a importância das
estratégias de aprendizagem e o modo mais eficaz de utilizá-las, para que possam
maximizar o seu aprendizado.
Conclusões
Os dois estudos apontam que tanto os estudantes cegos como os videntes utilizam
poucas estratégias cognitivas e apresentam falhas na habilidade metacognitiva,
demonstrando que a falta de um repertório de estratégias de aprendizagem denso
não decorre da ausência ou presença de visão, estando possivelmente atrelado a
um bom entendimento de como as estratégias funcionam. Além disso, fatores como
sexo, idade e série escolar afetam, embora minimamente, o uso e o nível de
desenvolvimento de algumas estratégias de aprendizagem.
Identificou-se também que os estudantes cegos não utilizam algumas estratégias
propostas para os videntes e parecem não possuir em seu repertório outras que
possam substituí-las de forma eficaz. Isso provavelmente ocorre, pois, o
estudante cego não dispõe de recursos para ampliar o seu repertório de
estratégias sozinho, nem conta com o apoio dos seus professores que, devido à
falta de preparo, não sabem como ajudá-los a alcançar esse conhecimento. Por
essa razão, faz-se necessário a implementação de programas que visem aprimorar o
conhecimento desses profissionais acerca das dificuldades escolares apresentadas
pelos seus alunos e que sobretudo os instrumentalizem a identificarem e
ensinarem estratégias de aprendizagem diversificadas.
Pelo exposto, diz-se que o presente trabalho traz contribuições para a
literatura da área, uma vez que apresenta informações acerca das estratégias
utilizadas por alunos cegos, até então pouco referenciados. Contudo, algumas
limitações podem ser citadas como o baixo efetivo de participantes, restrito a
duas cidades nordestinas, não nos permitindo, pois, generalizar os dados para
populações inseridas em realidades culturais e sociais distintas. Logo, é
necessário ter cautela na análise e na conclusão dos resultados apresentados, já
que se trata de uma amostra reduzida, de poucas escolas. Sugere-se que novas
pesquisas sejam realizadas a fim de aprofundar os resultados preliminares que
foram apresentados.
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Como referenciar este artigo
-
LINS, Manuela.; ALCHIERI, João Carlos. Estratégias de aprendizagem utilizadas
por estudantes cegos e videntes. Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação,
Araraquara/SP, v. 11, n. 3, p.1221-1241, 2016. Disponível em:
<https://dx.doi.org/10.21723/riaee.v11.n3.7311>. E-ISSN: 1982-5587.
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Estratégias de aprendizagem utilizadas por estudantes cegos e videntes
◊ Manuela Ramos Caldas
LINS (Doutora em Psicologia pelo Programa de Pós-Graduação
em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações (PSTO) da Universidade de
Brasília (UnB). Mestre em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do
Norte (UFRN). Email: manuela_rcl@hotmail.com)
◊ João Carlos
ALCHIERI (Doutor em Psicologia pela Universidade Federal do Rio
Grande do Sul (2004). Professor associado e bolsista produtividade (CNPq) na
Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Email: jcalchieri@gmail.com)
RIAEE – Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação, v. 11, n. 3,
p.1221-1241, 2016 E-ISSN: 1982-5587
DOI: https://dx.doi.org/10.21723/riaee.v11.n3.7311 1224
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