
Brincadeiras de Ivan Cruz - Bambole III
O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA CEGA
Estudos sobre o desenvolvimento infantil são necessários para
poder prevenir e corrigir qualquer problemas advindos ou não de
alguma deficiência.
Procurou-se conceituar a função do olho e chamar a atenção
para a complexidade do ato de ver, que, para as pessoas que
enxergam, parece processar-se de forma instantânea e natural.
Não se dá conta de que é através da visão que a criança
começa a se desenvolver desde que nasce e que, se ela lhe
faltasse, seu desenvolvimento não aconteceria tão naturalmente.
Mas como ocorre o desenvolvimento de um bebê que não enxerga?
É preciso que estudos sobre esse tema aconteçam com maior
freqüência e em quantidade maior do que as que tem sido
encontradas.
Posto isso, ressalta-se a importância dessa pesquisa.
Pensar que o processo de desenvolvimento da criança cega ocorre
da mesma maneira que o da criança que enxerga, apenas com uma maior
necessidade de apoio, é um pensamento altamente simplista, pois
dá a falsa impressão de que a criança que não vê não necessita
de assistência contínua e específica.
É preciso saber em que seu desenvolvimento se difere, o que
acontece ao deixar uma criança cega sem atenção especial e quais
tipos de apoios ela necessita e porque.
Para isso, é necessário conhecer como se desenvolve o deficiente
visual.
I. ASPECTOS SOBRE O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA CEGA NO PERÍODO
SENSÓRIO-MOTOR
O desenvolvimento se dá através de experiências que vão
sendo adquiridas, e entende-se que a visão é a maior e mais
completa forma de acesso para o mundo. Nos primeiros anos de vida,
todos os estímulos percebidos de todas as outras vias sensoriais,
irão valer-se da visão para chamar a atenção da criança e
motivá-la a se lançar em novas experiências: agarrar, puxar,
engatinhar e andar, em fim, descobrir o mundo.
Segundo Rodrigues ( 2002 ), o amadurecimento do sistema nervoso
acontece pelo exercício da função das experiências da criança e
pela captação dos estímulos ambientais. E, à medida que o
sistema nevoso amadurece, permite que a quantidade e qualidade das
habilidades alcançadas pela criança sejam cada vez maiores. Os
movimentos reflexos involuntários vão sendo integrados, cedendo
lugar às reações e às coordenações.
De acordo com Figueira ( 1996 ), a cegueira é um obstáculo que
interfere profundamente em todos os subsistemas desde os primeiros
momentos de vida, já que o organismo está estruturado para
realizar um contínuo “feedback” através da visão, que exerce
a função reguladora do tônus muscular e a monitorização de
todas as outras vias sensoriais que irão constituir o suporte
sensório-motor.
Autores como Bruno ( 1993 ), Rodrigues ( 2002 ) e Farias ( 2003 )
concordam em definir o período sensório-motor como o mais
importante para o desenvolvimento infantil, já que é nos anos
iniciais que encontra-se a base para o desenvolvimento futuro.
Lafuente ( 2000 ), fala do risco de
um déficit sensorial, nos primeiros anos de vida, produzir paradas
ou desvio no desenvolvimento com seqüelas, ás vezes,
irreversíveis.
Bruno ( 1993 ), ao falar da importância do período sensório-motor
para o desenvolvimento cognitivo, explica que é através da
interação com o meio, da relação com pessoas, objetos e
acontecimentos, incorporados aos esquemas de ação, que a criança
irá adquirir consciência de si, do outro e do mundo ao seu redor.
Enfatiza, ainda, que a formação dos esquemas sensóriomotores
permite a organização da realidade através de experiências
motoras e da capacidade de percebê-las, utilizando os órgãos
sensoriais. A criança cega não conta com o canal sensorial da
visão.
De um a 4 meses, a criança que enxerga começa a repetir ações
que produzam efeitos no ambiente, que a satisfaçam e lhe sejam
interessantes. Para isso, irá utilizar-se do corpo e das mãos.
A interação é a chave mestra para o desenvolvimento e o
movimento é o principal meio de interação da criança.
Para Rodrigues ( 2002 ), o movimento é uma necessidade orgânica,
a base para a organização física, psíquica, mental e social do
homem. Autores como Gesell (1987), Amatruda
(1987) e Coriat (1977) também consideram o movimento essencial
para o desenvolvimento.
Barraga ( 1992 ), é bem mais incisiva ao falar sobre a importância
da integração motora, proporcionada pelo movimento:
Do mesmo modo que a estimulação sensorial e a
interpretação são os alimentos do cérebro para o crescimento e
desenvolvimento, a digestão desse alimento se consegue através da
integração motora da informação sensorial. A integração motora
só pode ocorrer quando o bebê e a criança pequena usam o sistema
motor ao responder à estimulação sensorial. ( BARRAGA, 1992 ).
Todo movimento pressupõe, em geral, um objetivo, algo a ser
alcançado. A criança precisa querer movimentar-se e a visão
propicia estímulos rápidos e eficazes: a criança que enxerga
movimenta-se tão logo sua curiosidade é aguçada ao ver um objeto
atraente. O bebê cego precisa de maiores motivações para se
mexer, visto o espaço percebido por ele limita-se a seu próprio
corpo.
O bebê cego, segundo Bruno ( 1993 ) tende a permanecer em
assimetria e rejeitar movimentos e mudanças posturais, devido à
sua baixa reação vestibular gerada pela pouca movimentação
espontânea e pobreza de giro cefálico.
A mesma autora salienta que a vivência do corpo no espaço está
diretamente relacionada a mudanças posturais e deslocamentos no
espaço, logo, o desenvolvimento sensório-motor da criança cega
pode ser retardado.
Estudos realizados por Fraiberg, Gillman e Lairy, citados por
Barraga (1987 ), mostram que as crianças cegas desenvolvem suas
habilidades motoras seguindo seqüências diferentes das crianças
que enxergam. Estes estudos demonstraram que as crianças cegas
apresentam atrasos em atividades como engatinhar e andar e que não
conseguem organizar seus movimentos sem ajuda antes de terem
estabelecido a relação entre som e objeto, que ocorre depois de um
ano de idade.
A falta da visão irá restringir os movimentos do bebê cego, que
se utilizará das mãos e da boca de modo limitado e ao acaso para
conhecimento do objeto.
As ações executadas pelo bebê que enxerga, produzem efeitos
que contribuem para que ele se interesse em repetir e aperfeiçoar
essas ações, o que fará com que inicie a se orientar de forma
eficaz no ambiente
Por falta do estímulo visual, que é o que mais atrai a criança
para o movimento, o bebê cego pode ter atrasos em seus reflexos e
um desenvolvimento motor mais lento. A maior parte das crianças
cegas demora a ficar de pé e a adquirir a marcha independente. Por
isso a visão é importante não apenas como fator de motivação,
mas para o desenvolvimento dos mecanismos de controle motor.
Nos primeiros meses, as experiências proprioceptivas ( percepção
do próprio corpo ) e a atuação do sistema visual, é que irão
organizar a ação motora. Os movimentos dos olhos irão mobilizar a
cabeça e o corpo, através da busca visual da luz, brilho e objetos
em movimento.
Bruno ( 1993 ) remete a um fator muito
importante: a criança que não enxerga, não apresenta as reações
de busca. Os exercícios funcionais, decorrentes dessas reações,
realizados com a cabeça, olhos e depois com o corpo todo, são
essenciais para a reação e integração do sistema vestibular,
responsável pelo equilíbrio, movimentos harmoniosos e postura
adequada. Em decorrência disso, a percepção e orientação no
espaço, também serão prejudicadas.
A ativação e o desenvolvimento dos processos neurais que levam à
percepção e orientação no espaço, ocorrem através da atuação
do sistema vestibular em conjunto com as sensações prorioceptivas,
táteis-visuais e auditivas. E o desenvolvimento perceptivo depende
da qualidade das experiências sensório-motoras vividas, da sua
elaboração e organização. A criança cega não conta com o
principal canal sensorial que integra essas atividades: a visão.
A autora acredita que a ruptura dessas experiência sensóriomotoras
integradas prejudica a organização e o planejamento do ato motor e
a vivência do corpo no espaço, que são responsáveis pelo
desenvolvimento do mecanismo de adaptação ao meio e de organização
interna do sujeito. Mais: segundo a autora, a escassa experiência
sensóriomotora pode levar à rejeição de estímulos táteis,
podendo desenvolver uma hipo ou hiper sensibilidade tátil. Esses
fatores são altamente agravantes para a criança cega, já que
seu sistema tátil deve constituir-se no principal aliado para
perceber o mundo que a rodeia.
Esses são alguns dos muitos motivos pelos quais acredita-se, nessa
pesquisa, na grande importância de estimular a criança cega.
Gesell e Amatuda ( 1987 ) são categóricos ao afirmarem que, se a
criança cega for deixada a sós, tenderá a ficar indiferente ao
mundo externo e seu desenvolvimento será impedido pelo simples
empobrecimento ambiental. Poderá tornar-se anêmica, fisicamente
subdesenvolvida, mal nutrida e de musculatura flácida. Não
fortalecerá a musculatura do pescoço e, consequentemente, não
desenvolverá corretamente o tônus que permite o controle da
cabeça em posição de linha média. Em decorrência, apresentará
grandes atrasos motores e posturais.
Os autores enfatizam também que a criança cega poderá adquirir
hábitos nervosos ( movimentos esteriotipados ou ceguismos ):
movimentos repetitivos, como esfregar constantemente os olhos,
fungar e cheirar, girar os braços, balançar o corpo e produzir
tique e ruídos vocais repetitivos. Para os autores, esses
“ceguismos” são sintomas e atividades substitutas, decorrentes
da necessidade não correspondida da criança de auto expressar-se.
Faz-se necessário proporcionar ajustamentos especiais para que o
bebê cego possa desfrutar de experiências positivas de
desenvolvimento.
O bebê cego não tem interesse em realizar busca com as mãos ou
levá-las à linha média ( ação que o bebê que enxerga realiza
sem maiores dificuldades já aos 4 meses), quando entra em contato
com um objeto, é ocasionalmente.
Revuelta ( 1997 ), explica que, nos primeiros meses, o bebê cego
está mais interessado em suas sensações proprioceptivas, como
calor e balanceio, a tepidez do rosto da mãe, o movimento de sua
boca, o frescor do lençol de seu berço, a umidade de sua chupeta.
Por isso, ele precisa da intervenção do adulto.
É necessário encorajá-lo a tocar, ensiná-lo a descobrir que há
outras coisas para serem conhecidas além das suas figuras de apego
( a mãe, o pai ou algum objeto conhecido e preferido ). Os pais
devem aproximar os estímulos que estão fora do seu alcance
tátil-cinestésico, colocando brinquedos próximo a seus braços,
por exemplo, para que esbarre neles e tente tocá-los.
Nos primeiros meses de vida, toda criança , no início, vive uma
situação de indiferenciação dos objetos, que são tomados como
um prolongamento do próprio corpo. No decorrer dos primeiros anos
de vida, irá aprender a usar os objetos e entender que eles são
separados dela.
No período sensóriomotor, ela irá desenvolver habilidades
essenciais para diferenciação do seu “eu”: desenvolverá a
preensão, adquirirá as habilidades manuais básicas e o
conhecimento do uso e função dos objetos. Todos esses processos
ocorrem de forma integrada, e a visão exercerá papel decisivo,
pois é o sentido que chama a atenção para as formas e cores, e
completa a síntese do conhecimento dos objetos.
Ao seguir objetos com os olhos, a criança realiza exercícios de
flexão, extensão e rotação da cabeça, favorecendo o giro
cefálico, que será muito pobre na criança que não enxerga.
Privada da visão, a criança cega terá que buscar meios
alternativos para realizar as reações de integração
táteis-cinestésicas e auditivas- visuais.
A audição será um sentido do qual ela se utilizará para buscar
objetos, ajudando-a a realizar a rotação cefálica.
A criança que vê, nos primeiros meses, também fará uso da busca
sonora, mas sempre associando-a à busca visual. A localização do
som ocorre sobre a focalização do objeto, que gradativamente vai
alcançando distâncias maiores.
Para Bruno ( 1993 ) , a motivação para a criança agir está na
contemplação do espetáculo dos objetos em movimento, na imagem e
no reencontro dos objetos que ela já conhece. A criança cega
precisa de ajuda para motivar-se, e a busca auditiva constitui uma
ajuda.
Segundo a autora citada acima, nas primeiras etapas do
desenvolvimento, a criança não focaliza a fonte sonora. A busca
auditiva não é automática, é lenta, e ocorre por volta dos 5 ou
6 meses. Esclarece ainda que a busca auditiva, mesmo quando estiver
desenvolvida, não basta para compensar a falta da busca visual.
A falta da visão é, por si só, o maior fator que interfere no
desenvolvimento da criança cega. Pois a visão possibilita ( e
facilita enormemente ) o contato com o mundo objetivo,
proporcionando informações constantes e verificação imediata,
permitindo que os elementos sejam apreendidos em forma já
integrada. A pessoa cega, sem a visão, vale-se dos sentidos
remanescentes: audição, tato, olfato e paladar; porém, esses
sentidos têm de funcionar sem a integração proporcionada pela
visão, o que faz com que os dados obtidos sejam intermitentes,
fugidios, seqüenciais e recebidos de forma fragmentada.
Trevijano ( 2001 ) acredita que, embora a cegueira constitua-se em
fator de risco, não determina definitivamente o desenvolvimento da
criança, e sim o situa em uma posição onde é especialmente
vulnerável às dificuldades de qualquer tipo que encontre à sua
volta. Já Farias ( 2003 ), vê a cegueira como fator de restrição
ao processo de desenvolvimento como um todo.
A autora Trevijano ( 2001 ), explica que a falta da visão irá
alterar o desenvolvimento da criança de duas maneiras: primeiro,
porque várias áreas serão afetadas ao faltar a visão; depois,
porque a presença da cegueira pode ter graves repercussões à sua
volta ( família, parentes, amigos) e, portanto, nas relações
estabelecidas com a criança.
A criança cega, desde os primeiros dias se encontra em posição de
vulnerabilidade. Esse fato pode ser comprovado através das
palavras de Gesell e Amatruda: “O bebê não acorda realmente até
que começa a olhar; quando pára de olhar, adormece. Nos primeiros
meses, olhar é a metade da vida”. ( Gesell e Amatruda, 1987 ).
Nos primeiros anos de vida, os movimentos têm importância
fundamental, e a criança cega tem seus movimentos restringidos
desde cedo. A criança que enxerga tenta colocar em uso os
movimentos adquiridos imediatamente, sentindo prazer em aperfeiçoar
suas habilidades motoras. Já a criança cega sentir-se-á inibida à
isso pela falta do estímulo visual, não terá atração por cores
e objetos brilhantes, sentirá medo do vazio no qual o mundo
constitui-se para ela e não terá domínio do espaço à sua volta
e nem idéia do que possa encontrar.
Entretanto, essas dificuldades podem ser superadas, se a criança
for precocemente estimulada. Se ela não for educada precocemente,
se tornará passiva e poderá sofrer alterações musculares, como
hipotonia, e alterações na coordenação e no equilíbrio estático
e dinâmico.
Com tudo isso, pode-se afirmar, consoante com Figueira ( 1996 ), que
a visão constitui o suporte que permite à criança estabelecer sua
atividade motora e perceptiva.
Na falta dela, existirão vários fatores que irão interferir no
desenvolvimento da criança.
II. FATORES QUE INTERFEREM NO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA CEGA
Para Farias (2003 ), a restrição ambiental incide mais no processo
de orientação e mobilidade do que a perda da visão. O autor
destaca alguns fatores que interferem no desenvolvimento da criança
cega. A ausência da visão irá interferir na construção do seu
esquema corporal futuro: lateralidade, organização e estruturação
espaciais, e na orientação e identificação dos objetos e
pessoas.
Sobre esses aspectos, Figueira (1996 ), salienta que a criança
cega não é capaz de se orientar, nem realizar adaptações em seu
sistema muscular de acordo com as variações de posição,
distância , tamanho e forma. Essa adaptação ( a postura corrige
a visão e a visão corrige a postura ) é comum à criança que
enxerga.
Na área da locomoção, a falta de visão acarreta a perda do
equilíbrio, dos reflexos de proteção, da coordenação motora e
do sentido da justeza dos passos. Outro fator importante ocorre
quando há pouco contato da mãe com a criança e a ausência de
estimulação vestibular, como não mudar a criança de posição ou
pegá-la no colo.
A autora Trevijano ( 2001 ), aponta para outras dificuldades, como:
redução da variedade de informações e experiências; a dimensão
do ambiente como gerador de respostas; a falta da função
globalizadora e integradora que realiza a visão; dificuldades para
estabelecimento de vínculos humanos e ambiente educativo
inadequado.
● Redução da variedade de informações e experiências - Sendo a visão responsável por 80% das informações que se recebe
, pode-se imaginar a limitação da criança cega .
Kirk e Gallagher ( 1987 ) referem-se a pesquisas que comprovam a
incapacidade dessas crianças para compreenderem associações,
ligar idéias e objetos, devido à falta de experiência. Nessas
pesquisas, as crianças entre 5 e 7 anos demonstraram grande
dificuldade para contar como duas coisas se assemelham, citar as
partes do corpo e falar dos componentes de uma casa.
Essas pesquisas sugerem que a maneira pela qual essas crianças
processam informações pessoais e ambientais parece resultar em
compreensões fragmentadas e distorcidas de conceitos simples e
diretos, revelando uma conceituação incompleta do mundo imediato à
sua volta.
As crianças cegas, de acordo com as mesmas pesquisas, encontram
dificuldades para criar sistemas de significação em virtude da
ausência de observação direta de pessoas, objetos e eventos que
levam à interação.
Trevijano ( 2001 ), destaca que a criança cega é privada, desde o
nascimento, da comunicação pelo sorriso, da percepção da
ação materna ao alimentá-la, e em seu ritual diário de higiene.
A criança cega tem dificuldades em agir e perceber suas próprias
ações e as dos outros para poder imitá-las; a imitação
interiorizada ajuda na formação da imagem mental e no aparecimento
das representações.
Por isso, tudo o que as outras crianças aprendem naturalmente,
“vendo” e imitando no período sensório-motor, o bebê cego
precisa ser estimulado, avisado ( falando à ele tudo o que está
acontecendo ) e ajudado.
● A dimensão do ambiente como gerador de respostas - as respostas que o ambiente oferece através dos estímulos são
limitadas para o bebê cego. Objetos chamativos estimulam o bebê a
se locomover, mas o bebê cego não conta com esse estímulo que
motiva a criança a se locomover e ajuda na construção de
distância e de espaço, que se inicia no arrastar, engatinhar e na
marcha posterior. Ela não conta também com a imitação
espontânea, que é fonte de muitas aprendizagens, e precisará
encontrar caminhos alternativos para aprender o que a criança que
enxerga aprende “apenas vendo”.
● Falta da função globalizadora e integradora que realiza a
visão - devido à falta dessa função, o bebê cego terá,
inicialmente, um conhecimento mais fragmentado da realidade. Ele
pode se utilizar da audição e do tato, mas o ouvido proporciona
uma informação temporal e requer proximidade ou familiaridade com
o objeto e o tato. Além de ser mais lenta, a audição
proporciona uma informação fragmentada e seqüencializada.
Barraga ( 1987 ) assegura que as experiências táteis e auditivas
são bem menos claras e mais frágeis que as percepções visuais,
e, portanto, podem destruir-se antes que a criança possa
interiorizá-las e empregá-las para formar a imagem mental.
Sem a visão, embora utilizando-se do tato, olfato e audição, ela
não conseguirá um conhecimento global dos objetos. Terá grande
dificuldade em perceber mudanças e movimentos e também em
construir o espaço próximo e distante.
Fica evidente que o bebê cego, desde que nasce, tem que organizar
a informação de maneira completamente diferente daquele que
enxerga.
● Dificuldades para estabelecimento de vínculos humanos - devido à falta da visão faz-se necessário o uso de alternativas
para comunicar-se com a criança, e a família precisa adaptar-se a
essa nova condição. O estado emocional da família desde que
recebe o diagnóstico de cegueira do filho, pode abalar o início da
criação de vínculos afetivos, e isso pode acarretar graves
conseqüências no desenvolvimento do bebê , principalmente quando
o vínculo mãe-filho não é satisfatório.
Sobre esse aspecto, Trevijano ( 2001 ), lembra que a privação do
olhar como código universal de contato e comunicação irá
interferir na relação do bebê com seus pais.
Barraga ( 1987 ), lembra que, hoje, os laços afetivos com outros
seres humanos são considerados a base para o desenvolvimento da
linguagem e o desenvolvimento cognitivo.
Assim, a figura do pai insere-se como importante para o
desenvolvimento da criança, pois, junto à mãe, o pai é a pessoa
com quem a criança possui laços afetivos mais estreitos. Segundo
Gomes e Rezende ( 2003 ), o pai é o primeiro outro que a criança
descobre depois da mãe. Para os autores, a princípio, o
pai é indistinto para. Mas, aos poucos, sua figura vai se
diferenciando, permitindo o nascimento da interioridade do filho e
desfazendo, assim, a fusão entre o eu e o não eu da criança.
● Ambiente educativo inadequado - muitas vezes, por falta de
conhecimento das possibilidades de desenvolvimento da criança, a
família e a escola superprotejem-na e não exigem muito dela. Essa
atitude impede o progresso da criança e gera falta de confiança e
baixa auto estima. A criança cega deve ser tratada como qualquer
outra criança, que recebe desafios, vence-os , frusta-se,
reorganiza-se e tenta novamente, sempre ciente de que existem
limites a serem seguidos , mas confiante das suas potencialidades.
São várias as limitações impostas pela cegueira e, portanto,
inúmeras as razões pelas quais o bebê cego necessita de
estímulos.
Frutos ( 2004 ) considera as dificuldades iniciais do bebê cego
unindo-as em torno de dois eixos: o cognitivo e o emocional.
● No cognitivo, em que, segundo a autora, a cegueira impõe uma
séria limitação para interpretar boa parte das informações
exteriores e para integrar os estímulos que, nesse caso, chegam de
forma segregada e incompleta.
● No emocional, onde a privação do olhar como código universal
de contato e de comunicação interferirá na relação do bebê com
seus pais.
Figueira ( 1996) destaca que os reflexos primários da criança
cega, de modo geral, não apresentam alterações, com exceção à
reação de endireitamento do pescoço, que pode vir a sofrer
prejuízos pela ausência de monotorização óptica. Quanto aos os
reflexos secundários ( que aparecem após ao nascimento, como
reações de endireitamento, protetoras e as de equilíbrio ) todos
estarão prejudicados, e não aparecem de forma espontânea,
necessitando serem ensinados e trabalhados até que se tornem
automáticos.
No caso das reações protetoras, a criança cega não as realiza,
principalmente, porque não enxerga o solo e, por isso, não tem
porque estender os braços para proteger-se da queda. Deve-se
ensiná-la a perceber a continuidade das superfícies através do
tato.
As reações de endireitamento serão prejudicadas porque a criança
cega não tem o referencial visual. E, portanto, como afirma Gesell
e Amatruda ( 1987 ), não pode usar a visão e as respostas motoras
em combinações autocorretivas mútuas e em reforços recíprocos (
a visão corrige a postura e a postura corrige a visão).
Considera-se ainda a importância destas reações nas aquisições
motoras básicas, como o elevar a cabeça, rolar, sentar etc. Quando
está em prono ( de bruços ), a criança cega não percebe qualquer
diferença entre estar com a cabeça voltada para o chão ou
elevá-la, devido à ausência de estímulos visuais. Ela não se
estimula a elevar a cabeça e sente-se desconfortável na posição
prono. O controle da cabeça é primordial no processo do
desenvolvimento motor, portanto, devemos estimular a criança cega a
elevar a cabeça através de estímulos auditivos.
As reações de equilíbrio segundo Figueira (1996 ), são
contingentes às de endireitamento e também devem ser educadas de
forma progressiva. A criança cega não desfruta da importância
da íntima relação entre a percepção vestibular e a percepção
visual, em que uma serve de reforço para a outra. As informações
vestibulares estabelecerão vínculos mais estreitos com os
receptores táteis e proprioceptivos para que a criança cega
realize as reações de equilíbrio.
Para Scholl ( 1992 ), as limitações básicas imposta pela
cegueira, são: a quantidade e variedade de experiências e a
mobilidade e domínio de espaços desconhecidos. Além dessas
limitações, o autor fala do controle do ambiente e a relação da
pessoa cega com ela mesma.
Rodrigues ( 2002 ), enfatiza que para desenvolver a sua orientação
espacial, a criança cega sempre irá depender da necessidade do
contato direto com os objetos, da acessibilidade da experiência e
da sua capacidade analítica.
Perceber e determinar a qualidade dos objetos, também é tarefa
difícil para ela.
Só poderá perceber a forma de objetos que possam ser
agarrados, pois objetos maiores são percebidos analiticamente,
através da percepção das suas várias partes para, somente
depois, integrar e sintetizar as percepções isoladas.
O conceito do movimento também não pode ser apreendido pelo
sentido tátil, assim como o vôo de um pássaro ou a noção de
cores. A lua e as estrelas só terão significados para ela através
das explicações e descrições dos outros.
As das palavras de Santos (1999 ), citando Hall, podem
exemplificar como a pessoa cega percebe o mundo, quando diz que a
percepção de alguém cego atinge um raio de seis a trinta metros,
enquanto as pessoas com visão poderiam atingir as estrelas.
Frutos ( 2004 ), chama a atenção para o fato de que esta situação
inicial do bebê cego o coloca em uma situação de risco que,
combinadas com outros fatores psicossociais, pode produzir paradas
ou desvios no seu desenvolvimento e, em casos mais extremos, pode
produzir desestruturação psíquica.
Porém, pode-se intervir desde o nascimento do bebê cego para que
consiga ir e vir pelo mundo com o máximo de desprendimento,
conquistando uma conivência harmônica e desempenho igual ao das
outras crianças.
Assim, entende-se como sendo primordial a estimulação precoce
direcionada a atender a criança cega.
O primeiro passo a realizar junto a esse bebê, é ajudá-lo a
desenvolver os seus canais remanescentes: o tato, a audição , o
olfato e o paladar que, juntos, constituirão o meio pelo qual
conhecerá o mundo.
III. DESENVOLVIMENTO TÁTIL
O desenvolvimento dos canais perceptivos precisa ser
construído. Segundo Barraga ( 1992 ), a maduração fisiológica
parece que afeta a recepção sensorial que só pode ocorrer quando
o sistema sensorial recebe estímulos continuados através de
mensagens que passam consistentemente pelas fibras nervosas. De modo
que qualquer sentido precisa ser estimulado para desenvolver-se
adequadamente.
Barraga ( 1992 ) acrescenta que o ambiente é um determinante
crítico como fonte de sensações que influencia precocemente as
preferências sensoriais do bebê. É importante prestar atenção
em como é o ambiente: se o ambiente for rico em sons e ruídos mas
pobre em imagens, contrastes, pouca e/ou sempre o mesmo tipo de
iluminação, se quase não se movimenta o bebê, ele pode não
desenvolver aptidão para diferenciar os estímulos sensoriais. Se,
ao contrário, o ambiente for rico em estímulos visuais,
proprioceptivos e vestibulares mas pobre de sons, o bebê pode
demonstrar menos sensibilidade para discriminar os sons.
A autora citada acima lembra que é enquanto bebê que se
estabelece o modelo de recepção sensorial que será parte vital do
estilo de aprendizagem e do desenvolvimento perceptivo e cognitivo
da criança. Esse fator reforça a importância do ambiente desde os
primeiros dias de vida do bebê.
Santin e Simmons ( 2000 ), afirmam
que nos primeiros meses, o bebê tem o “eu” como sua única
informação, tanto quanto ele é percebido. Para a criança cega,
a boca é o principal órgão sensorial, e se constitui no seu foco
da atenção, por falta de estimulação alternativa.
O bebê que enxerga nasce dotado de um programa biológico para
compreender pouco a pouco o ambiente e ir se adaptando ao meio. Já
o bebê cego precisa integrar e sintetizar os dados e a informação
recolhida por outros canais de percepção.
O pensamento será o maior aliado para a criança cega compreender
o mundo exterior e interagir com ele. Mas antes que o pensamento
atinja o estágio a que vai chegar quando adulto ( pensamento formal
), a criança cega precisa viver experiências variadas.
O cego terá na percepção tátil a forma que lhe facilitará
experimentar o mundo. Porém, é necessário que se explore ao
máximo o desenvolvimento da modalidade tátil, para poder ajudar a
criança cega em seu desenvolvimento.
Segundo Griffin e Gerer ( 1996 ), o tato passa por quatro estágios
de desenvolvimento: conhecimento das qualidades táteis dos objetos,
obtendo consciência de texturas, temperaturas, superfícies
vibrantes e consistências; reconhecimento e concepção de forma;
representação gráfica e sistema de simbologia ( Braille ). Sendo
que cada estágio contém níveis variados de aquisição de
habilidades para o desenvolvimento.
Será através do tato que a criança irá perceber que existe algo
fora, saberá que existem objetos acessíveis, e que cada coisa tem
um nome, forma e uso próprio.
Entretanto, segundo Santin e Simmons ( 1977 ), deve-se sempre
lembrar que o tato sem a visão sofre limitações semelhantes às
da audição sem a visão, porque o incentivo para a exploração
tátil é proporcionado pela visão, que se encarrega de realizar a
integração dos sentidos ( o conhecimento é unificado em sua
totalidade pela experiência visual ). Uma criança cega não poderá
ter o mesmo conceito que a que enxerga do que é um prédio, por
exemplo. A criança cega carece dessa integração. Ela tem o tato,
a audição e o olfato para elaborar seus conhecimentos daquilo que
a cerca, mas recebe dados isolados de cada canal sensorial e lhe
falta a experiência visual para realizar a síntese das informações
recebidas.
Barraga ( 1992 ) refere-se a dois fatores que devem ser lembrados:
primeiro, que a sensibilidade tátil varia segundo qual seja a parte
do corpo, porque as diferentes partes do corpo têm mais ou menos
quantidades de receptores e, depois, que a informação tátil
sempre estará relacionada com a informação cinestésica.
Para Revuelta ( 1993 ), as mãos são os principais agentes do
sentido do tato e, para a criança cega, devem converterem-se no
órgão primário de percepção.
DESENVOLVIMENTO DA PREENSÃO
Segundo Bruno ( 1993 ), nos primeiros meses, a função da
mão é dependente das reações táteis-cinestésicas do tocar o
corpo da mãe ( o seio, a mão, o rosto ). A preensão é orientada
pelo tato e essas experiências táteis agem como suporte para
toques em objetos inanimados.
Para conhecer o mundo com o tato, a criança precisa tocar os
objetos com as mãos e manipulá-los. Porém, ela não nasce com a
habilidade de pegar, manipular, soltar e tornar a pegar objetos.
Será desenvolvendo a preensão que a criança adquirirá essas
habilidades.
Revuelta ( 1993 ) estabelece fases para o desenvolvimento da
preensão para o bebê que enxerga, as quais seguem o esquema
abaixo.
● Localização visual;
● Aproximação da mão, que envolve a varredura com o braço, a
aproximação parabólica e a aproximação direta;
● Preensão propriamente dita, que envolve a preensão
cúbito-palmar, a preensão rádio-palmar e oposição do polegar.
Fonseca ( 1992 ) considera a preensão através de uma evolução
que passa de uma preensão palmar a uma preensão rádio-palmar e,
posteriormente, à preensão em pinça ( oposição do polegar ). O
autor enfatiza que primeiro a visão segue a mão, depois, domina-a.
Aqui comprovamos mais uma vez a importância da visão para a
preensão, e a vulnerabilidade da criança cega.
Para Brandão ( 1984 ), o desenvolvimento dos padrões adquiridos
de preensão se dá através de estágios. Os quais descrevemos a
seguir.
● Estágio de preensão cúbito-palmar ( 4 meses )
Nesse estágio, o bebê realiza um tipo primitivo de preensão,
flexionando os dois últimos dedos e apertando o objeto apreendido
contra a eminência hipotenar ( lado direito da palma mais próximo
ao punho ). A aproximação é executada pelos movimentos da
espádua e dos ombros, é uma aproximação bimanual e simétrica.
● Estágio da preensão dígito-palmar ( preensão em cinta ) (
5-6meses)
A aproximação ainda é, preferencialmente, bimanual e simétrica;
é realizada pelos movimentos conjuntos da espádua, dos ombros e
dos cotovelos. O objeto é apreendido entre os quatros dedos longos
e a palma.
● Estágio de preensão em pinça pela flexo-adução do polegar (
7 – 8 meses )
Aparecem os movimentos de abdução-adução e os de
flexão-extensão do polegar, que a criança começa a usar na
preensão.
Ela vai apreender o objeto na parte radial da mão, entre a polpa
do polegar e a face radial da última falange do indicador fletido,
mas ainda não há oposição do polegar. Esse tipo de preensão
provavelmente é adquirida a partir dos objetos que escapam à
preensão dígito-palmar e venham a se situar entre o polegar e a
face radial do segundo dedo em semiflexão, terminando aprisionado
por esses dedos.
● Estágio de pinça bidígito-polpar ( 9 –10 meses )
Os objetos pequenos são apreendidos entre a polpa do indicador e a
polpa do polegar em oposição. É uma preensão precisa e delicada,
é um tipo básico de preensão mais desenvolvido.
A criança consegue este tipo de preensão graças à aquisição
do controle da oposição do polegar e à individualização dos
movimentos do indicador.
Sugere ainda Brandão ( 1984 ), que o seguinte estágio é o das
preensões especiais.
● Estágio de aquisição das preensões especiais ( A partir de
11- 12 meses )
Aos 12 meses, a criança já desenvolveu todos os padrões básicos
de preensão do tipo adulto, mas ainda terá que evoluir para
executar a atividade do membro superior de modo normal. Terá que:
aperfeiçoar os padrões especiais de preensão ( adaptar o modo de
segurar os objetos à suas formas e às atividades que quer exercer
sobre eles ); aperfeiçoar o modo como a mão toma contato com o
objeto ao fazer a preensão e adaptar a preensão ao modo de usar e
manusear os objetos.
Aos 3 anos de idade, a criança já desenvolveu coordenação e
precisão nos movimentos de preensão e não precisa mais apoiar as
mão na mesa. Aos 4 anos, pode pegar o cubo com precisão e, ás
vezes, faz preensão em pinça usando o polegar e o dedo médio,
deixando o indicador para iniciar atividades exploratórias. Com 5
anos, a criança realiza a preensão exatamente como o adulto, de
forma precisa e com boa atitude dos dedos e da mão. Antes dos 6
anos, a criança realiza a preensão e a aproximação de formas
torpe e desajeitada para objetos colocados além da distância
normal, em que possam ser seguros sem esforço. Porém, aos 6 anos,
a aproximação dos objetos distantes já estará inteiramente
dominada.
O processo da preensão inicia-se desde o nascimento do bebê.
Os estímulos visuais chamarão a atenção do bebê, que tentará
pegar um objeto que lhe interesse. Mas o bebê cego, privado dos
estímulos visuais, deverá desenvolver adaptações para
desenvolver a preensão.
Revuelta ( 1993 ) enfatiza que são necessárias duas principais
adaptações:
► a mão deve converter-se em um órgão primário de percepção,
sem perder sua função executora, e
► a coordenação visomotora deve ser substituída na criança
cega pela coordenação bimanual e coordenação ouvido-mão.
Brandão ( 1984 ), fala sobre a importância dos primeiros
movimentos primitivos de agitação que o bebê realiza com as mãos:
de abrir e fechar, de vaivém da mão afastando-se e voltando a ter
contato com os objetos e a manutenção da preensão ( mão fechada
). O autor diz que essas experiências permitirão a formação dos
padrões definitivos de preensão, de aproximação, de coçar,
arranhar, etc. e que é a partir dessas primeiras atividades ,
iniciadas reflexamente, que se formarão todas as ações adultas
das mãos que serão executadas sob a orientação do tato.
Com o tempo, são incorporadas modificações às atividades
iniciais e adquiridas novas condutas ( por exemplo: o bebê deixa de
arranhar para realmente segurar ), que são conseqüências de
movimentos executados, pela primeira vez ao acaso, em resposta à
uma, duas ou mais atividades reflexas ou à ações já adquiridas e
repetidas, mas sob condições diferentes de estimulação.
O bebê nasce com uma programação de respostas comportamentais
que primeiro são reflexas, e progressivamente tornam-se
intencionais. Diante de um bebê sadio, os pais e os que convivem
com ele podem interpretar e atender a essas reações, naturalmente,
de forma que o bebê se fará cada vez mais competente.
Quando há uma deficiência, é preciso que todos esforcem-se para
realizar adaptações.
Como nas primeiras oito semanas o tônus flexor dos dedos é
predominante, o bebê mantém as mãos fechadas na maior parte do
tempo, devendo ser ajudado a abrir sua mão o mais cedo possível
para desenvolver o tato.
Pode-se tentar fazer com que o bebê, inicialmente sob a nossa
intervenção direta, acaricie com a palma da mão a chupeta, o
lençol e o rosto da mãe. Também pode-se colocar o dedo
indicador dentro da sua mão fechada para ajudá-lo a abri-la.
Brandão ( 1984 ) ressalta a importância do contato dos objetos
com a palma da mão, quando se refere à atividades que o bebê
realiza através da reação circular primária: a princípio, ele
tateia, explora para depois segurar e soltar. Segue sempre uma
seqüência regular de arranhar, agarrar, manter, soltar, voltar a
arranhar e a agarrar, executando uma verdadeira exploração do
ambiente para depois realizar a preensão. Nessas condutas,
inicialmente são captadas as sensações táteis pelo contato das
pontas dos dedos com os objetos, mas, depois, devido à ação
flexora dos dedos, o objeto arranhado é deslizado e se embola
comprimindo a palma da mão do bebê, o que contribui para que a
preensão do objeto seja executada graças à estimulação tátil
da palma.
Da mesma forma, essa estimulação tátil da palma é importante
para a preensão do bebê cego.
Porém, para obter a estimulação tátil, a criança precisa
buscar o objeto e a visão se encarregará de estimulá-la a fazer
essa busca. Mas enquanto a criança que enxerga realiza a
localização visual naturalmente, a criança cega necessitará da
intervenção do adulto e realizará a descoberta do objeto
em substituição a localização visual.
O sistema tátil-cinestésico, que engloba o tato, movimento e a
posição do corpo no espaço, assumirá enorme importância para o
desenvolvimento da criança cega e se constituirá na sua principal
via de aprendizagem.
A autora Barraga ( 1992 ), defende que pode-se considerar os
movimentos de pernas, braços, colo e tronco como sendo equivalentes
ao o que a iluminação é para o desenvolvimento visual. À medida
que o bebê se movimenta as mãos tocam, pegam, empurram e levantam,
e essas ações se constituirão na base da exploração ativa e do
uso dos músculos. Por exemplo: o contato da mão com as cobertas
desperta sensações táteis que, quando agradáveis, são
repetidas, aperfeiçoadas e adquirem significado , passando a serem
percebidas pelo bebê.
Segundo Rodrigues ( 2002 ), essas sensações, ao adquirirem
significado, tornam-se em imagens exterioceptivas e constituem-se em
estímulos que contribuirão para o desaparecimento das atividades
reflexas primitivas ( com o amadurecimento do sistema nervoso ) e
promoverão o aprendizado.
Para descobrir outros objetos que não estão em seu campo
tátil-cinestésico, o bebê cego precisa de intervenção,
ajudando-o a segurar passivamente entre as mãos objetos como bola,
chocalhos, bonecos de borracha e outros objetos, segurando as suas
mãos de modo a deixá-las seguras, para que possa sentir os objetos
em sua pele.
O objeto deve ficar com ela o tempo suficiente para que se
familiarize com ele. A criança começa cedo a desenvolver sua
preferência por texturas, de modo que desde cedo deve ter contato
com objetos de texturas variadas. Revuelta ( 1993 ) relata que
algumas crianças costumam repelir objetos de borracha, peludos ou
escorregadios, preferências que poderão ser observadas pelas mães.
Quando as atividades realizadas com o bebê cego forem agradáveis,
ele as irá repetir, como toda criança. E a repetição fará com
que progrida no processo de aquisição da preensão.
Para o bebê cego realizar a aproximação intencional da mão , o
adulto também precisará estimulá-lo a realizar o movimento da
mão, dirigindo-a de seu corpo até o lugar onde se acha o objeto.
Porém, Revuelta ( 1993 ) lembra que para a aproximação da mão
tornar-se uma ação concretizada, é preciso um movimento ativo por
parte da criança. E, para isso, a criança deverá ter a noção de
permanência do objeto, compreender a existência de algo que está
fora, mesmo que ela não esteja em contato com o objeto.
As fases da preensão ocorrem na criança cega de maneira semelhante
a que ocorre com as crianças que enxergam.
Se os objetos estiverem ao seu alcance e lhe interessarem
suficientemente para brincar com eles, ela irá pegá-los de forma
adequada. Revuelta ( 1993 ) observa que há uma tendência
prolongada de chupar os objetos em vez de usar as mãos de uma
forma mais funcional e que a criança cega tem alguma dificuldade
para utilizá-los de forma criativa. Deve-se ajudá-la a realizar
atividades com os brinquedos da mesma maneira que a criança que
enxerga faz, assim que ela pegue em um brinquedo.
Entre os 18 meses e os 3 anos ocorrem novas aquisições que
Revuelta ( 1993 ) considera como fases de aperfeiçoamento: o
segurar objetos entre as pontas dos dedos e a pinça.
A criança cega, novamente, precisa de ajuda para realizar essas
ações.
Passivamente, deve-se ensiná-la a fazer uma concha com a mão e a
não mais apoiar os objetos contra a sua palma, como fazia antes.
Depois, pode-se também explicar-lhe com palavras a fazer isso. É
importante que aprenda a segurar dessa forma para uma boa
coordenação bimanual e para que ocorram consecutivamente as
diferentes habilidades manipuladoras, que serão imprescindíveis
por toda a vida da criança cega.
A criança cega não irá realizar a pinça da mesma maneira que a
criança que enxerga. Ela precisa ajudar-se com o dedo médio para
poder colher informação sobre a posição que ocupa o objeto. Ela
irá utilizar o polegar e o dedo médio para executar o movimento de
pinça e reservará o indicador para percepção do objeto, pois os
dedos que seguram o objeto estarão inutilizados para perceber. Além
de perceber o objeto, o terceiro dedo terá a função de
impulsioná-lo para o local que a criança queira ( por exemplo:
para colocar uma bolinha em uma garrafa, ela irá segurar a bolinha
com os dois dedos e usar o terceiro para impulsioná-la até a boca
da garrafa).
Com as adaptações necessárias, a criança cega irá pegar objetos
naturalmente.
Segundo Revuelta ( 1993 ), as dificuldades que a criança cega
enfrenta para buscar objetos estão diretamente relacionadas com a
noção de permanência dos mesmos, condição indispensável para o
reconhecimento da realidade externa como uma entidade diferente e
separada de si mesma, com experiência própria e independente.
Nos primeiros meses, os estímulos táteis são encontrados e
reencontrados apenas por acaso. Os objetos aparecem e desaparecem do
seu campo perceptivo-tátil, sem que o bebê cego possa entender o
motivo. Por isso, antes dos 8 meses de idade ele não irá tentar
resgatar um objeto retirado de sua mão. Ação que o bebê que
enxerga terá facilitada porque estará vendo o objeto e a
trajetória deste, mesmo fora do seu alcance.
O bebê cego precisará de intervenção para entender que as coisas
continuam a existir fora ou não do seu campo perceptivo. Ele irá
aprender através da experimentação, que lhe deverá ser
facilitada dirigindo suas mãos até que possa deduzir que as coisas
continuam por perto e que poderão ser alcançadas se ele quiser.
Ao saber que pode alcançar um objeto que não está tocando, que
derrubou ou lhe foi tirado das mãos, a criança cega tentará
pegá-lo, primeiro, esticando os braços e procurando-o com as mãos,
como lhe foi ensinado, e depois iniciando a se deslocar. Só através
do deslocamento é que ela poderá aprender o espaço à sua volta e
sentir-se segura para começar a engatinhar e posteriormente a
andar. Por isso é essencial que adquira a noção de permanência
dos objetos.
Os sons também ajudarão a criança cega a compreender a
existência de uma realidade exterior fora dela.
IV. DESENVOLVIMENTO DA AUDIÇÃO
Embora os sons ajudem a criança cega a descobrir a realidade
exterior, demoram bastante tempo para ter significado para ela, e
não despertam logo de início o interesse em alcançar um objeto
que produziu som. A audição dá melhores informações a respeito
da qualidade das coisas do que de seus aspectos substanciais.
Segundo Barraga (1992), nas primeiras semanas, o bebê faz pouco uso
da audição e se mostra indiferente aos ruídos à sua volta.
Provavelmente, começa a empregar a informação auditiva por volta
dos 5 ou 6 meses.
O bebê responde aos estímulos sonoros produzidos pela voz humana e
pelas músicas suaves. Apesar de distinguir sons, demora a
relacionar o som ao objeto que o causa. Ele terá que, após ouvir o
som, tocar o objeto para só então relacionar o som que se refere
ao objeto que já conheceu pelo tato.
Rodrigues ( 2002 ), destaca que, com bases em pesquisas, acredita-se
que a criança cega se movimenta em direção ao som meses depois
que a que enxerga se dirige a um estímulo visual.
Esse atraso é confirmado através de Brandão (1984 ), segundo o
qual, a noção de permanência dos objetos é adquirida em torno
de 8 a 10 meses pela criança que enxerga, e através de Rodrigues (
2002 ), o qual acredita que a criança cega não adquire essa noção
antes de 12 meses.
A aquisição dessa noção pela criança cega vai depender
principalmente das suas vivências corporais no espaço, do
conhecimento de si, do outro e das propriedades do objeto com o qual
não esteja em contato. Destaca-se a importância de
possibilitar-lhe reencontrar o objeto desaparecido.
Portanto, a criança cega deve ser estimulada a usar as mãos para
recuperar imediatamente objetos que caem e saem do seu campo de ação
e a estar atenta ao ruído que fazem ao cair para facilitar a sua
localização.
Rodrigues ( 2002 ), citando Fraiberg e suas pesquisas, ressalta que
nos primeiros meses, não existem atrativos para a criança cega.
Para ela não existem objetos à sua volta, exceto quando estão em
contato imediato com o seu corpo. Nos primeiros meses, se ela deixa
cair um objeto com o qual estava brincando, acha que o objeto deixou
de existir, mesmo que ele produza som, porque não estará mais em
contato com o seu corpo. A criança age como se o som que o objeto
fazia e que lhe era familiar ao brincar com ele, se desintegra do
mesmo e não tivesse nenhuma conexão com aquilo que ela havia
brincado.
Essa atitude revela o desconhecimento do bebê cego sobre a
permanência do objeto. Ele necessitará adquirir essa noção para
desenvolver a coordenação ouvido-mão que lhe propiciará
explorar os objetos detalhadamente.
Embora o bebê cego não perceba de forma distinta os sons, ele
presta atenção ao que acontece à sua volta, como os passos e a
voz da mãe, inclusive as vozes estranhas, às quais ele pode
demonstrar agitação e ansiedade.
Mais tarde, a atenção que o bebê presta aos sons o ajudará a
localizar os objetos ou provocará condutas de busca para tocar a
fonte sonora. Por isso é importante que se fale com ele sobre os
sons que ele ouve, que se nomeie o objeto que produz determinado
som e que se comece a imitação vocal com o bebê.
O bebê cego tentará alcançar a mãe, quando puder relacionar a
voz com o próprio corpo da mãe. Ele deve ser estimulado a tocar
o rosto e a boca da sua mãe enquanto esta lhe fala.
Santin e Simmons ( 1977 ), citando Piaget, consideram que nos
primeiros meses de um bebê cego, o som sem a visão não
proporciona informações adequadas, já que a localização, fonte
e causa são inacessíveis, e não está no poder do bebê repetir o
estímulo a fim de examinar, explorar e verificar as informações.
De modo que o ambiente continuará indistinto para ele até que
possa dirigir-se à fonte sonora para poder explorar o mundo.
A audição será muito importante para o desenvolvimento do bebê
cego. As autoras Santin e Simmons ( 1977 ), enfatizam que será
através das informações fornecidas pela audição que a criança
irá desenvolver sua mobilidade, condição indispensável para
que ela inicie a explorar ativamente. As autoras enfatizam ainda que
para a criança cega a mobilidade é necessária para estabelecer
um elo primário de ligação com o mundo exterior e que, sem esse
elo, fica impedido o seu desenvolvimento auditivo e tátil.
Antes de ter desenvolvido a noção de permanência dos objetos ou a
coordenação ouvido-mão, a criança cega não engatinha ou
arrasta, porque não haverá nada para motivá-la a se deslocar no
espaço.
1 COORDENAÇÃO OUVIDO-MÃO
Para explorar o mundo à sua volta, o bebê cego precisa
desenvolver uma coordenação entre a mão e o ouvido, para poder
associar o som ao objeto.
Bruno ( 1993 ), ressalta que, por não poder ver o objeto, o bebê
cego não antecipa a conduta da preensão e não trás as mãos à
linha média, flexionando os dedos. Ele deve ser avisado da presença
do objeto pelo barulho e pelo toque deste com a parte externa da sua
mão.
A coordenação ouvido-mão, segundo Revuelta ( 1993 ), se
desenvolve através de alguns períodos fundamentais que a criança
vai superando pouco a pouco até conseguir a coordenação final
ouvido-mão.
A seguir, serão descritos os passos referidos pela autora, e a
idade provável em que a criança adquire cada um deles,
considerando os parâmetros de Fraiberg, citado por Revuelta ( 1993,
p. 8 ).
● A criança escuta o som de um objeto, mas não mostra sinais de
atividade e não há indícios de tentativas de pegá-lo. ( 6-7
meses ).
● Estende a mão em direção a uma pista sonora e, em seguida, a
uma pista tátil. Está começando a unir uma pista sonora a uma
pista tátil, aproxima-se o chocalho até que ela o toque com a mão
e então, o retira-se-o rapidamente. A criança abre sua mão e a
movimenta levemente para recuperá-lo. ( 7- 8 meses: inicia a busca
após contato tátil; 8-11 meses: une esquemas auditivos e táteis,
caracteriza o objeto pelo som ).
● Já estende a mão seguindo unicamente pistas sonoras, pois já
entendeu a natureza do objeto somente por um de seus atributos. O
objeto já existe para ela independente da experimentação tátil.
Abre a mão e a dirige para a fonte do som do brinquedo que
agitamos próximo à ela. ( 11- 13 meses ).
● Desde que a criança já compreenda a linguagem, pode responder
à ordem verbal “pegue”, sem necessidades de pistas sonoras ou
táteis.
Com a noção de permanência dos objetos adquirida, a criança
poderá aprender a orientar-se no espaço e a usar de estratégias
para realizar uma busca eficaz. Porém, esse processo implica passos
sucessivos, que deve-se ajudar a criança cega a alcançar.
Segundo Revuelta ( 1993 ), para ajudar a criança cega nesse
processo, coloca-se objetos em seu peito para que possa procurá-los
e levar as mãos à linha média; roça-se com o rosto ou com as
mãos na criança e afasta-se um pouco, de tal forma que, ao
mínimo movimento, ela os encontre; realiza-se deslocamentos com a
mão da criança apoiada ; coloca-se objetos em contato com todo o
seu corpo e em variadas posições e objetos sonoros bem próximo de
seus braços.
A criança cega, sabendo que pode buscar o objeto que lhe interessa,
conseguirá pegá-lo com facilidade. Então poderá explorar os
objetos a fim de conhecê-los.
Mas antes que ela inicie a exploração detalhada dos objetos com as
mãos, transcorre um tempo em que ela sente prazer explorando-o com
a boca.
Uma criança de 14-16 meses, apesar de poder pegar objetos
normalmente, não demonstra o mesmo interesse em brincar com eles,
como a que enxerga. Os objetos são menos interessantes para a
criança cega, pois sem o estímulo visual ela não descobre tão
rápido quanto a criança que vê, como brincar com ele. Por isso a
criança cega vai preferir as pessoas, principalmente as que se
constituem em suas figuras de apego, como a mãe e o pai.
Segundo a mesma autora, esse comportamento é uma característica
do período adaptativo que ela passará dentro do caminho que terá
para percorrer. Deve-se observar essa relação tão forte de
vínculo com suas figuras de apego, que deve evoluir dando lugar ao
interesse por outros objetos e pelo mundo exterior, pois caso isso
não ocorra, pode haver paradas no desenvolvimento da criança.
Nessa espécie de “pausa” que realiza, a criança cega manipula
os objetos de forma pouco diferenciada, agita-os e bate-os para
produzir ruído e age com todos os objetos de maneira similar.
Porém, a criança que enxerga não passa por essa pausa, o que faz
com que a criança cega fique atrasada em relação à ela. Essa
fase também é normal, porém, a criança corre o risco de ficar
estacionada e não progredir em brincar com os brinquedos como a
criança que enxerga faz . Ficando estacionada, a criança cega
passa a ter uma conduta esteriotipada ( como fonte de estímulo
próprio, na falta de estímulos alternativos), vazia de conteúdos,
que impedirá que conheça realmente os objetos.
Segundo Santin e Simmons ( 1977 ), a criança cega carece de motivos
para descobrir o mundo, que para ela não possui traços
característicos e não é nada estimulante. Por isso, segundo as
autoras, o bebê cego se dirige para o som meses depois do bebê que
enxerga e apresenta atrasos quanto as aquisições dos movimentos.
Senta-se e mantém-se de pé com a mesma idade do bebê que enxerga,
mas demonstra atraso para estender as mãos, engatinhar e caminhar.
Para Revuelta ( 1993 ), a criança cega deve apresentar uma
significativa mudança na forma de aproximar-se dos objetos,
iniciando a utilizar-se das mãos para explorar cuidadosamente os
objetos a fim de identificá-los e poder dar-lhes um uso funcional.
Essa mudança ocorre entre 12 e 16 meses. Para que ocorra a
exploração dos objetos, é necessário que a criança leve as mãos
à linha média ( ação que a criança que enxerga consegue
naturalmente e precisa ser facilitada para a criança cega) e
tenha maturidade na coordenação bimanual para que entrem em jogo
as formas complexas da percepção tátil, pelas quais ela poderá
conhecer o objeto e sua forma.
2 COORDENÇÃO BIMANUAL
A criança que enxerga se utiliza da coordenação visomotora, a
cega, da coordenação bimanual.
A coordenação de ambas as mãos é imprescindível para que as
funções de percepção possam realizar-se harmoniosamente. É
necessário que as mãos trabalhem em equipe para que o resultado
final buscado pela exploração aconteça.
Para a criança cega, a principal adaptação é que
as suas mãos devem converter-se em órgão primário de percepção,
porém, sem deixar de lado a função executora. As mãos
deverão: pegar os objetos, tirar, colocar, abrir, fechar, tampar,
enfileirar, empilhar e, ainda, proporcionar à criança cega as
informações necessárias para localizar e explorar os objetos.
Para Revuelta ( 1993 ), o ponto de partida para a coordenação
bimanual é levar as mãos á linha média. Mas enquanto o bebê que
enxerga , por volta dos 3 meses, olha suas mãos e brinca com elas,
colocando-as diante dos olhos, o bebê cego tende a deixar suas mãos
caídas ao lado do corpo. Tocam alguns objetos quando em posição
lateral, mas não motivam-se a erguer as mãos à linha média. Deve
ser ajudado a fazer isso, colocando brinquedos em seu peito de
modo que possa senti-los e tentar pegá-los, levando assim as mãos
à linha média, desde o mais cedo possível.
Para iniciar a coordenação bimanual, pode-se realizar exercícios
como bater palminhas, segurar a sua mamadeira com as duas mãos,
chupar ou mordiscar a chupeta, bater horizontalmente dois objetos
entre si, tamborilar em superfície como a de um pandeiro, entre
inúmeros outros.
O desenvolvimento funcional de ambas as mão será vital para a
criança cega, quando for realizar atividades que requeiram maior
precisão de execução, como tampar uma caixinha ou enfiar argolas
em um bastão vertical.
Aos 18 meses, a criança cega deve realizar atividades com ambas as
mãos, nas quais a mão não dominante fixa e guia e a mão
dominante executa.
Revuelta ( 1993 ), enfatiza que enquanto ela não tiver definido sua
lateralidade, é importante deixar que ela escolha espontaneamente
o papel de cada mão; depois, observa-se com qual mão tem mais
eficiência e não permite-se a mudança sucessiva e continua do
papel que cada mão deve desempenhar.
Com as duas mãos coordenadas, a criança poderá segurar uma
caixa com uma das mãos ( a não dominante ) e localizar com esta
mesma mão as bordas da caixa, ao mesmo tempo que a outra mão ( a
dominante ), dirige a tampa para o local exato para fechá-la, que
lhe estará sendo indicado pela mão que segura a caixa.
O mesmo desenvolvimento de coordenação se dá com os dedos. Aos 3
ou 4 anos, uma criança cega pode enfiar um pino em um tabuleiro
perfurado apenas com uma mão. Para isso, reservará um de seus
dedos para a função de percepção e executará com os outros dois
: costuma colocar o pino entre seu dedo indicador e o polegar,
apoiando-o levemente na primeira falange do dedo médio, enquanto
coloca o extremo desse último sobre a superfície perfurada, o que
lhe permite localizar e executar ao mesmo tempo. Por isso a criança
cega precisa realizar a pinça com três dedos.
Dirigir a mão dominante exatamente no lugar que a outra mão
indica, implica certas habilidades motoras que a criança deve ter
adquirido, como controle tônico-muscular, independência funcional
da mão e do braço, flexibilidade das articulações, independência
segmentária, além de uma organização espacial relativamente boa.
A mão é um meio eficiente que proporciona à criança conhecer o
mundo que a cerca.
Mas em repouso, a mão não é capaz de perceber o objeto em sua
totalidade. Poderá perceber temperatura, textura ou apenas uma
aresta, mas serão dados isolados que não darão a idéia do objeto
em si.
Revuelta ( 1993 ), esclarece que a criança precisa realizar a
“palpação” do objeto, utilizando-se das duas mãos. Para isso,
a criança já terá que ter definido qual é a sua mão dominante,
que, ao realizar a palpação, será a mão mais ativa, realizando
movimentos mais amplos e fazendo a integração dos dados.
Com a mão não dominante, a criança irá segurar o objeto que
quer explorar, e esta mão permanecerá mais parada; com a mão
dominante, ela vai realizar movimentos mais amplos e envolventes,
que sintetizam a forma global do objeto.
A criança irá se utilizar de dois tipos de movimentos
apalpadores:
- os leves, que informam os detalhes ou as partes significativas de
um objeto, e
- os amplos, que têm função globalizadora ou de síntese.
A criança se utiliza
de movimentos palpatórios leves, para explorar os traços
particulares e significativos de cada objeto. Ao explorar uma moeda,
uma miniatura de animal, uma escultura ou outro objeto pequeno
qualquer, a sua mão se detém como que acariciando o objeto. Os
dedos indicadores da criança alcançam especial mobilidade e as
pontas dos dedos conseguem perceber de uma forma muito
especializada.
Estimular
a criança cega desde cedo a se utilizar deste tipo de movimento
palpatório, é extremamente importante. Também deve-se introduzir
brinquedos e pequenos jogos que lembrem a escrita Braille . Desse
modo, quando ela chegar no período de representar graficamente, já
terá noções necessárias à escrita Braille. Essa escrita lhe
proporcionará independência, e, se vier sendo estimulada desde
cedo, estará familiarizada com a forma de utilizar os dedos para
realizar a escrita e a leitura do Braille.
Para alguns objetos, a criança irá se utilizar dos dois tipos de
movimentos palpatórios. Por exemplo: para explorar uma garrafa, a
criança a segura com a mão não dominante e com a mão dominante
realiza movimentos de palpação leves para constatar o
estreitamento do gargalo, a forma da tampa, e movimentos amplos que
relacionam as partes umas com as outras e proporcionam a informação
da forma final, a global, que caracteriza a garrafa.
O polegar é o dedo que dá o ponto de referência para medir o
objeto, posicioná-lo no espaço e representar sua forma em três
dimensões.
Para identificar um objeto pelo tato, a criança precisa
desenvolver o caráter analítico e processual do tato. O tato
percebe de forma parcelada, oferecendo informações parciais de
aspectos da realidade, que deverão ser integradas até formar uma
visão do conjunto. Ao ver, entende-se o objeto rapidamente, pois a
visão tem função sintética e globalizadora. “Ver” com o
tato, implica em ter que, primeiro, integrar percepções parciais
para depois de integrá-las, concluir sobre o que é o objeto que
tem-se em mãos. É preciso, ainda, manipular o objeto para poder
colher essas informações; com a visão não: basta olhar.
Por isso, quando a criança cega pega um objeto como uma garrafa,
antes de explorá-la de forma adequada, pode achar que trata-se de
um pote, uma mamadeira, ou uma peça cilíndrica apenas. Ela
precisa fazer a exploração completa para encontrar alguns
elementos significativos, através dos quais poderá deduzir que se
trata de uma garrafa.
Revuelta ( 1993), observa outra questão importante na exploração
de objetos: na exploração de objetos pequenos os movimentos são
assimétricos. A mão não dominante fica mais parada e se encarrega
de proporcionar os pontos de referência, e a mão dominante executa
uma inspeção mais ativa. Para explorar o objeto com uma só mão,
será o dedo polegar a proporcionar pontos de referência, exercendo
o papel da mão não dominante, e os outros dedos farão a inspeção.
Já no caso de objetos grandes, os movimentos serão mais amplos e
simétricos. O corpo da criança a ajudará na exploração de
objetos muito grandes. O eixo vertical de seu próprio corpo será
utilizado como referência. Para explorar uma casa de brinquedo, a
criança se colocará de pé frente à ela e usará suas mãos e
seus braços como se estivesse abraçando-a.
A autora chama a atenção para observar as condutas da criança
cega, defendendo que a maneira como ela se relaciona com seus
objetos, como os toca e oque faz com eles, nos revela aspectos
qualitativos importantes de seu desenvolvimento.
O modo como ela move suas mãos, pode dar pontos de importância
decisiva para um diagnóstico diferencial de seu desenvolvimento.
Não basta apenas avaliar, através de testes de desenvolvimento, a
aquisição das habilidades básicas de manipulação. Existem
outras condutas relacionadas à área de manipulação, que dão
indícios sobre se a criança está de bem com o mundo, interessada
em conhecê-lo e se vai interagir com ele.
A autora
citada acima salienta que observando a conduta da criança ao
manipular objetos, pode-se constatar se está realizando uma
manipulação adequada e útil, feita para o prazer e o
conhecimento, ou não. Existem formas de manipular que interferem na
própria finalidade da exploração e são sinais de alerta de
possíveis alterações no desenvolvimento.
Na
exploração adequada, a criança explora lenta e suavemente.
Conserva as mãos estendidas, porém, mantém o tônus muscular
necessário para segurar o objeto e poder tocá-lo. Pelo seu
interesse em conhecer o objeto, ela gira-o, acaricia-o , fá-lo soar
e detém seus dedos por momentos em algo que lhe chame a atenção.
Se, ao
contrário, a criança toca o objeto de forma rápida e precipitada,
ansiosamente e não mostra sinais de organização, estará
realizando uma exploração inútil ou vazia.
O
estimulador deve estar atento quando: a criança não consegue
tampar uma caixa ou modelar uma massinha, segura os objetos
rigidamente e os maneja sem flexibilidade. Esses comportamentos
podem ser indicativos de patologias, e deve-se procurar um médico.
Quando há distonias, os dedos podem estar tão rígidos ou tão
flácidos que é impossível a percepção.
Os
movimentos esteriotipados ou repetitivos também são próprios da
exploração sem finalidade: bater o brinquedo sem parar, girá-lo
incessantemente nas mãos. Em um bebê de 10 ou 12 meses que se
diverte agitando seu chocalho, essa é uma conduta evolutiva.
Porém, quando uma conduta evolutiva se fixa e não é própria do
período em que a criança se encontra, pode ser denotativo de
alterações de personalidade, nas quais os vínculos afetivos e a
comunicação com o exterior podem estar prejudicados em maior ou
menor grau.
As crianças
menores realizam uma exploração incompleta . Progressivamente,
vão se organizando, ainda que algumas oponham bastante resistência
à sistematização, fator indispensável para uma exploração
eficaz. Mas mesmo que a exploração seja rudimentar e incompleta,
pode-se perceber que, desde cedo, elas realizam movimentos muito
harmônicos. Por isso, crianças que realizam movimentos
desarmoniosos devem ser analisadas com maior atenção.
Segundo
Revuelta ( 1993 ), existem crianças que aprendem as condutas
ensinadas, tampam, destampam, empilham, encaixam, enroscam,
enfileiram e executam outras atividades, mas realizam todas essas
ações sem nenhum desejo próprio, e fazem a exploração de forma
mecânica ou do tipo robô. Elas apenas executam essas ações
sempre que lhe pedem. Possuem a habilidade necessária e desenvolvem
a exploração eficazmente, são capazes de erigir torres de vários
cubos, mas incapazes de brincar com os irmãos realizando ações
parecidas. São crianças falsamente adaptadas das quais pode-se
deduzir que alguma coisa não evolui satisfatoriamente , devendo se
investigada, pois elas podem, inclusive, apresentar alguma
patologia.
Uma
exploração inadequada pode ter causas diferentes, a mesma autora
levanta algumas hipóteses. Uma dessas hipóteses é a de que a
criança não teve estimulação ou os programas pedagógicos não
deram atenção suficiente a esse aspecto. Se o abandono à criança
não foi prolongado, pode-se resolver a questão com um trabalho
sistemático e máxima atenção à criança.
Outra
hipótese da autora é a de que existe algum problema de origem
orgânica, desde uma distonia leve a uma paralisia cerebral. Nesse
caso, depois do diagnóstico médico, deve-se proceder ao tratamento
indicado e buscar as informações junto aos médicos de como
trabalhar com a criança. A anomalia na exploração pode ser
devido a uma perturbação geral do desenvolvimento, que pode
acarretar alguma alteração na personalidade da criança, tanto no
aspecto cognitivo como no afetivo. Deve-se proceder a uma completa
avaliação psicológica para obter informações sobre a criança
e, a partir dos resultados, realizar um plano de intervenção.
As
condutas da criança cega devem ser observadas com muita atenção.
A forma como a criança cega explora seus objetos é extremamente
pessoal e constitui um dos meios mais importantes pelos quais ela
se expressa.
Porém,
determinar se uma conduta é própria do período em que se encontra
uma criança cega e deve ser respeitada, enquanto se tenta fazê-la
evoluir, ou, pelo contrário, pode indicar alguma alteração no seu
desenvolvimento, é uma questão muito difícil, e deve ser decidida
somente após um estudo completo e individual de cada criança.
Além do
tato e da audição, os sentidos do olfato e paladar também são
importantes para o desenvolvimento da criança cega.
3
IMPORTÂNCIA DO OLFATO E DO PALADAR PARA A CRIANÇA CEGA
Esses
sentidos trabalham intimamente unidos por estarem próximos
fisiológicamente: quando gosta-se de algo, também sente-se seu
odor; o olfato influencia o paladar, ainda que algo com odor
agradável possa não ser agradável ao paladar.
O bebê
cego deve ter oportunidade de transitar pelos vários ambientes da
casa, para começar a diferenciá-los através de características
como odores, barulho e temperatura. Quando estiver engatinhando ou
iniciando a marcha, além dessas características, poderá iniciar a
diferenciar os ambientes percebendo os objetos que existem em cada
um. Os pais também devem conversar dando informações à criança
sobre o ambiente .
Devem ser
apresentados à criança, desde muito cedo, alimentos de diferentes
sabores (amargo, doce, salgado, azedo, acre) e odores para que
possa aprender a identificá-los.
Odores
fortes podem despertar o interesse da criança em conhecê-los,
principalmente se ainda não os houver experimentado.
Através de
odores, a criança pode distinguir ambientes, tipos de materiais (livros, tintas, impressos...) alimentos, flores., em fim, uma
variedade de possibilidades se abre a ela através do olfato.
Aprendendo a reconhecer lugares e ambientes através dos seus
respectivos odores característicos, a criança pode usar essa
capacidade para orientar-se no espaço.
A criança
cega deve ser ajudada a utilizar seu olfato e paladar, recebendo
constantes informações que lhe permitam empregar esses sentidos
para localizar-se melhor em seu meio ambiente.
Utilizar
esses sentidos para explorar o ambiente proporciona informações
importantes, que podem ser processadas e utilizadas em conjunto com
os outros sentidos, contribuindo para desenvolvimento perceptivo da
criança.
Usando seus
sentidos em conjunto e de forma coordenada, a criança poderá
movimentar-se com maior facilidade. A mobilidade é necessária
para a criança cega, pois através dela a criança realiza sua
ligação com o mundo.
4
ASPECTOS DA ORIENTAÇÃO E MOBILIDADE DA CRIANÇA CEGA
Na criança
cega, a falta da visão, acarreta, além do comprometimento na
aquisição e desenvolvimento de conceitos e nas suas interações
sociais, sérios comprometimentos relacionados à sua capacidade de
se orientar e de se locomover com independência e segurança.
Orientação
é a habilidade da pessoa perceber o ambiente que a cerca,
estabelecendo as relações corporais, espaciais e temporais com
ambiente. A criança cega, se utilizará da audição, do aparelho
vestibular, do tato, da consciência cinestésica e do olfato para
orientar-se.
O sentido
de orientação é definido por Figueira ( 1996 ) como a capacidade
de situar-se em relação aos objetos à sua volta.
A
mobilidade é a capacidade da pessoa mover-se, reagindo a estímulos
internos ou externos, em equilíbrio estático ou dinâmico. A
criança cega necessita de um processo de ensino e aprendizagem e de
um método sistematizado para desenvolver sua mobilidade.
Antes de
se mover , a criança cega tem pouca evidência da estrutura do
espaço à sua volta. Ao mesmo tempo que aumenta sua necessidade de
se mover para conseguir informações, ela demonstra ausência de
motivação, que, em geral, é proporcionada pela visão. Um bebê
cego que começa a se manter em pé, sem a visão, tende a ter mais
receio de explorar um ambiente imprevisível, do que motivação.
Essa imprevisibilidade gera retraimento, medo e desconfiança,
fatores que retardam o movimento e o comportamento exploratório.
Para
deslocar-se e localizar-se em seu meio, a criança precisa
desenvolver sua organização espaço-temporal. Essa organização
possibilitará o desenvolvimento da orientação e mobilidade da
criança cega
Autores
como Figueira ( 1996 ) e Kephart , Schawatz e Webster, citados em
“Adaptações Curriculares em Ação”, Brasil ( 2003 ), são
consoantes quanto a limitação na orientação e mobilidade ser
considerada como o mais grave efeito da cegueira sobre o indivíduo.
Através da
orientação, a criança cega pode estabelecer posição e
relacionamento com os objetos significativos do ambiente,
valendo-se, para obtê-la, da coordenação entre o tato, a audição
e o olfato.
O
desenvolvimento do processo de orientação e mobilidade deve ser
iniciado em casa, com os pais, desde cedo. Para poder
realizar um movimento com estabilidade e proporção, é necessária
uma orientação apropriada para o relacionamento com o espaço de
sua ação. Sem isso, a mobilidade não acontece de forma segura e
eficiente.
Uma
tendência significativa encontrada nas crianças cegas é
salientada por Rodrigues ( 2002 ): elas tendem a engatinhar para
trás ou se deslocar de forma atípica. Essas atitudes provavelmente
devem-se à atuação do senso de proteção que faz com que a
criança busque adaptações como forma de defesa. São adaptações
que expõem menos a cabeça e a face, consideradas partes sensíveis
do corpo. A autora diz que existem crianças cegas que andam antes
de engatinhar ou o fazem muito depois de terem adquirido a marcha.
Para
adquirir a marcha independente, a criança cega necessita explorar
tátil-corporalmente o espaço no qual deseje se deslocar. Ainda
que, posturalmente pronta para os movimentos necessários para a
marcha, o medo e a insegurança gerados pelo espaço desconhecido,
podem dificultar essa importante aquisição.
Rodrigues (
2002 ), chama a atenção para um erro que os pais costumam cometer:
superproteger o filho cego. A superproteção privará a criança,
entre várias outras coisas, de desenvolver as habilidades motoras,
que são essenciais para o desenvolvimento global e, no tocante ao
assunto que tratamos, desenvolver a orientação e mobilidade.
Uma
característica fundamental da visão, é que ela antecipa os fatos;
a criança que enxerga, ao encontrar uma poça ou um buraco, sabe
que terá de pular ou contornar esses obstáculos e antecipa os
movimentos para realizar a ação escolhida previamente. A criança
cega precisa ser comunicada verbalmente do que está por acontecer
para poder realizar os ajustes do tônus muscular para executar o
movimento e comportamento adequados à situação, ações que
dependem de um planejamento motor.
O
planejamento motor é dificultado para a criança cega. A principal
causa dessa dificuldade, segundo Rodrigues ( 2002 ) e Bruno ( 1992
), é a baixa atividade motora, proprioceptiva e vestibular,
que acarreta prejuízos também na organização e na
vivência do corpo no espaço. Bruno ( 1992 ), acredita que em
virtude da pouca movimentação espontânea integrada e do giro
cefálico pobre, a criança cega tem pouca reação vestibular e,
por isso, rejeita a movimentação e mudanças posturais.
Em
decorrência da dificuldade no planejamento motor, a criança
apresenta especial prejuízo na realização de movimentos mais
finos e delicados, realizando, muitas vezes, movimentos bruscos e
grosseiros. O uso das mãos de forma funcional é importante para
ajudá-la a explorar o ambiente, reconhecer a qualidade dos objetos
e protejer-se contra os obstáculos que se interpõem ao ambiente.
Também é importante para adquirir a marcha, que só ocorrerá
quando as mãos e membros superiores estiverem trabalhados
suficientemente para a extensão, de modo que a criança possa se
proteger e se orientar no espaço.
Para
Figueira ( 1996 ), a mobilidade depende de dois fatores essenciais
intimamente relacionados:
-
a
orientação mental - habilidade de uma pessoa reconhecer o espaço à
sua volta e as relações espaço-temporais em relação a si mesma;
e
-
locomoção
física - movimento de um organismo em deslocamento, conferindo
significado a este mecanismo orgânico.
Segundo o
mesmo autor , para a criança dirigir-se a um determinado lugar
deverá formar um mapa mental em seu pensamento, enquanto se desloca
para seu objetivo. Ela precisa também colher informações sobre
toda e qualquer variação à sua volta e sobre os perigos que
derivam dessas informações.
Essas
informações ela obterá através da sua memória motriz e sua
audição, que estarão em intensa atividade; além de direcionar o
olfato a todos os odores à sua volta e manter a atenção nas
mudanças de temperatura, correntes de ar, alterações do piso,
distância em relação ao tempo que leva para alcançar seu
objetivo. Depois, terá que interpretar os diferentes sinais
recolhidos do ambiente, que servem de ponto de referência para
verificar se seu deslocamento está correto.
A criança
necessita de equilíbrio para se locomover e das referências sobre
a configuração do corpo no espaço, fornecidas pelo sentido
cinestésico. Porém, deve-se lembrar que o equilíbrio é sempre
prejudicado quando falta a visão, que permite que o corpo ajuste a
postura ao movimento. A criança cega deve buscar equilíbrio
desenvolvendo melhor coordenação e reflexos e deve ajustar o seu
sentido cinestésico para que ele assuma a função de ajustar
movimentos e deslocamentos.
Rodrigues (
2002 ) acredita que a dificuldade da criança cega em controlar sua
postura faz com que ela dependa muito mais do seu órgão do
equilíbrio ( ouvido interno ) para adquirir a capacidade da marcha.
Por isso, muitas vezes , elas usam do balanceio para ativar o órgão
do equilíbrio. Porém, para que essa ação não se torne
repetitiva e estereotipada como forma de auto-estimulação, deve-se
sugerir à criança, sempre que inicie o balanceio, uma atividade
motora mais significativa que preencha sua necessidade de estimular
o ouvido interno.
Apesar das
dificuldades impostas pela cegueira, como o medo do ambiente
imprevisível, a criança cega encontrará interesse em explorar o
espaço mais amplo, se receber afeto da mãe e do pai, se tiver a
chance de se familiarizar com muitas posições de seu corpo
e se seus ouvidos e mãos receberem grande variedade de estímulos
através de objetos que unam os sentidos táteis-cinestésicos.
A criança
necessita desenvolver sua orientação e mobilidade de forma eficaz,
pois movimentar-se livremente leva o indivíduo a participar da
sociedade e ser reconhecido por ela.
A
orientação e mobilidade depende, também, da organização
espacial e temporal.
Segundo o
documento “Adaptações curriculares em ação”, Brasil ( 2003
), um programa de orientação e mobilidade completo deve ser de
trezentas a trezentas e vinte horas-aula. Esse programa deve ser
elaborado a partir de um estudo de caso, considerando aspectos
biopsicossociais, condições sensóriomotoras, experiência de
vida, necessidades e interesses da pessoa.
5
ORGANIZAÇÃO ESPAÇO-TEMPORAL
Para falar
do espaço mental, Barraga ( 1992 ) cita Simpkins, dizendo que o
espaço é um sentimento que se pode imaginar, ainda sem visão, e
os conceitos espaciais se internalizam baseados nas ações. A
autora explica que, à medida que os movimentos e as ações se
coordenam e se internalizam é que o espaço mental se constrói; e
que as percepções espaciais aumentam com a idade e a experiência.
Daí a importância de prover várias e satisfatórias experiências
à criança desde que ela nasce.
Conforme
Figueira ( 1996 ), o sistema de referência da criança cega é
completamente diferente da que enxerga, e a estruturação do
espaço é constituída de forma singular e específica. Na ausência
da visão, o espaço será construído através de referências
auditivas, gustativas, proprioceptivas e táteis. Vê-se aí, mais
uma vez, a importância da família propiciar estímulos para esses
sentidos desde o primeiro momento de vida da criança cega.
Novamente, o sistema tátil-cinestésico é de suma importância.
Isso
porque, segundo Rodrigues ( 2002 ), a aquisição das mudanças de
posturas é fundamental para a compreensão e organização do
espaço. De acordo com a postura assumida pela criança cega é que
se dará as diferentes disposições da sua relação com objetos e
pessoas. E sabe-se que é o sistema tátil-cinestésico que ajuda a
criança cega a ajustar sua postura.
As
informações recebidas dos diversos sentidos possibilitam criar uma
imagem mental deste espaço, que junto com seu sentido de
orientação, concentração e memória, permitem o deslocar-se com
mais facilidade em um meio externo, interiorizado.
O
desenvolvimento da noção de espaço da criança cega, segundo
Figueira ( 1996 ), se inicia ainda bebê. Esse processo se inicia
com o conhecimento de seu espaço corporal e o do corpo de sua mãe:
com o conhecimento das mãos, leva-as ao rosto da mãe e sente com
prazer a vibração do som ao explorar os lábios dela. Rodrigues (
2002 ) fala da junção das mãos à frente do corpo, que parece dar
referência básica para o início da construção do espaço,
principalmente para o bebê que enxerga, que nessa posição, tenta
agarrar o objeto tão logo este seja colocado em seu campo visual.
Para o
autor, essas experiências visomotoras, quando agradáveis, são
repetidas e aperfeiçoam os movimentos e reforçam, continuamente, a
orientação do espaço.
Conforme
Bruno ( 1993 ), o bebê cego tende a permanecer por mais tempo em
assimetria, com cabeça voltada para a lateral, braços abertos e
elevados e mãos cerradas. Ele precisa ser ajudado a movimentar-se
espontaneamente, para aprender a organizar-se motoramente e, assim,
poder trazer as mãos, cabeça e todo o corpo à linha média.
Deve-se ajudá-lo colocando objetos sonoros e atraentes ao tato em
seu peito para que tente pegá-los, entre outras atividades.
A autora
citada , salienta que trazer as mãos à frente do próprio corpo e
descobri-las tatilmente é o que levará o bebê cego à vivência
global do seu corpo.
Através de
um forte vínculo afetivo com a mãe, a criança vai aperfeiçoando
suas habilidades sensoriais, motoras e sensitivas que serão
instrumentos básicos à percepção do espaço.
O
estabelecimento do seu esquema corporal também é imprescindível
para a noção de espaço. A princípio, o espaço se estrutura em
referência ao próprio corpo e se organiza através de dados
fornecidos pelo esquema corporal e pela experiência pessoal.
Segundo
Santos ( 2001 ), a imagem corporal do cego pode ser trabalhada com a
“imagem manual”, partindo-se da percepção manual, em que a
criança percebe e diferencia os dedos das mãos, possibilitando o
raciocínio para o conhecimento das outras partes do corpo. O autor
se refere também que a dispersão entre a percepção e a preensão
é superada apenas quando a visão conquista o corpo, ao descobrir
suas extremidades. O que não acontece com a criança cega e
dificulta o desenvolvimento da sua imagem corporal.
A criança
cega tem necessidade do toque corporal. Deve ser-lhe proporcionado
estímulos para tocar e perceber as partes do seu corpo, tocar o
corpo de outras crianças, e informações dos pais sobre as partes
do seu corpo, aproveitando atividades cotidianas como a hora do
banho e de vestir-se... Essas ações a ajudarão a desenvolver o
seu esquema corporal.
Também é
essencial que a criança cega seja movimentada e colocada em
variadas posições desde cedo, para poder se situar em relação
aos objetos à sua volta. Figueira ( 1996 ) recomenda que a partir
dos 5 meses de idade sejam introduzidos alguns conceitos espaciais
como: em baixo, em cima, e assim por diante.
Segundo
Santos ( 1999 ), o corpo é um espaço e a construção espacial é
simbólica, sendo no corpo que a noção de espaço é registrada. O
corpo é o espaço fundador, referências dentro e fora, sair e
entrar, engolir e expelir, projetar e incorporar. O autor cita Ponty
que diz que o espaço não é o ambiente ( real ou lógico ) em que
as coisas se dispõem, mas o meio pelo qual a posição das coisas
se torna possível; e conclui que tudo isso é apreendido pelo
corpo.
A autora
Barraga ( 1992 ) também defende esse conceito, ao acreditar que as
percepções espaciais podem ser confirmadas, mediante um mapa
mental da posição dos objetos no ambiente e empregando o tato
como guia.
Portanto, o
corpo constrói uma relação consigo mesmo, através da imagem
corporal elaborada em sua apreensão de mundo.
A criança
precisa movimentar-se, experimentar várias posições para
construir a noção de espaço.
Segundo
Rodrigues ( 2002 ), essa construção está intimamente relacionada
às experiências motoras e à capacidade de se deslocar. A
aquisição do rolar, engatinhar e andar faz com que a criança, a
cada uma dessas etapas, vá organizando um mapa mental do espaço
que vai experimentando à sua volta. Os pais devem ser orientados a
não trocar móveis e objetos do lugar, para que a criança cega
possa se mover com segurança.
A autora
citada ressalta que depois de adquirir a marcha independente, o
espaço da criança cega é ampliado de forma considerável. Ela
começa a captar direções e demais estruturas espaciais
elementares, inicialmente, sempre em relação ao seu próprio
corpo. A autora afirma que a construção do espaço está
intimamente relacionada às experiências motoras da criança, à
capacidade de se deslocar.
A criança
cega precisa de experiências com diferentes espaços: pequenos,
onde só caibam suas mãos e grandes o suficiente para comportá-las.
Ela tem que experimentar o espaço com seu próprio corpo para
compreender os limites do espaço tocado por seu corpo para, depois,
compreender e se localizar em espaços maiores.
Para
Rodrigues ( 2002 ), a criança necessita da construção espacial
para poder adquirir a organização temporal, devido a íntima
relação entre ambas. Sendo que a percepção do tempo é bem mais
complexa e só aparece bem mais tarde na criança.
Segundo a
mesma autora, o tempo se estrutura a partir de duas percepções
espaciais sucessivas. A noção de tempo se estrutura, primeiro,
tendo a própria criança como referência, depois, entre ela e os
objetos e, mais tarde, entre os objetos.
O prazer
será o eixo norteador no início dessa estruturação, a partir de
experiências pessoais da criança: se ela sente prazer em uma
atividade, o tempo passa depressa, e demora em atividades ou
situações que lhe causam desprazer.
Primeiramente,
aparece a idéia de presente, “tudo é agora”, na mesma hora. A
criança ainda não sabe esperar. A seqüência de acontecimentos
das suas atividades diárias lhe ajudarão a entender o passado e,
mais tarde, reconstruir o que passou, perceber o que está
realizando no presente e antecipar o que irá acontecer.
Para a
criança cega, essa seqüência de atividades é primordial. Sem as
pistas visuais, é fundamental que sejam estabelecidas rotinas bem
estruturadas em sua vida diária, para que, gradativamente, possa
ir adquirindo a noção da seqüência das atividades desenvolvidas.
A organização deve imperar na sua vida : depois do banho, a
refeição e, logo após, será colocada em seu berço para dormir.
De acordo
com Figueira ( 1996 ), a partir dos dois anos a criança cega é
capaz de integrar o tempo de uma forma mais completa a partir das
“esperas”. Deve-se estabelecer pontos de referências claros e
repetidos, para que ela possa esperar, antecipando o que está por
acontecer. Um ambiente desorganizado e alterado, gera-lhe angústia
e depressão derivados do medo do inesperado.
Figueira (
1996 ) enfatiza que a criança cega estabelece progressivamente o
sentido de tempo por meio dos ritmos vivenciados, como fome e
saciedade, sono e vigília, silêncio e ambiente sonoro.
A autora
lembra que até um ano de idade, as frustrações associadas às
gratificações terão um valor especial no estabelecimento do
tempo. Nos primeiros meses o bebê não pode esperar e precisa ser
atendido no momento em que sua necessidade se apresenta. Depois, aos
6 meses, a mãe pode deixá-lo esperar um pouco, mas sempre
possibilitando que a criança escute sua voz calma e seus passos
aproximando-se.
Um aspecto
importante que deve ser salientar é o desenvolvimento da linguagem
da criança cega, que está intimamente relacionado com a maneira
como ela constrói a realidade e desenvolve sua identidade. Porque
ela ouve, deduz-se que não tenha dificuldades em desenvolver a
linguagem ou em interpretar a realidade, que pode ser “comunicada”
à ela.
6 A
CRIANÇA CEGA E O DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM
Antes de
desenvolver a linguagem falada, o bebê tem a intenção de
comunicar-se e tenta fazê-lo, através de movimentos corporais e
vocalizações.
A
construção da linguagem, para Bruno ( 1993 ), depende ( não só
) da capacidade de distinguir o significado do significante, que a
criança adquire por volta de um ano e meio, dois anos. Segundo a
autora, para construir o sistema de significação, a criança
precisa ser capaz de agir e de perceber suas próprias ações e as
dos outros para poder imitá-las. Construirá seu sistema de
significação através da interação com pessoas e objetos, da
organização da ação no tempo-espaço e da sua organização
interna.
A criança
só será capaz de adquirir a linguagem quando puder representar
por imagens aquilo que vivenciou, organizou e estruturou no período
sensório-motor, pois ao representar, será capaz de refletir sobre
o seu passado através de imagens, e, assim, poderá também
fantasiar, imaginar, prever e antecipar.
A criança
cega não poderá observar diretamente as situações de rotina, o
ir e vir das pessoas, o sorriso e o olhar da mãe, pois suas
informações para compreender o mundo serão escassas, pela falta
da visão.
As suas
primeiras interações com o meio devem ter qualidade para que
consiga adaptar-se a ele. Através do toque, do aconchego do pai e
da mãe, da fala suave da mãe e da voz firme, porém amável e
segura do pai, ela se sentirá segura e tranqüila, tornando-se mais
receptiva.
Apesar da
facilidade proporcionada pela visão, as pessoas que enxergam não
transmitem seus sentimentos e necessidades apenas através da
fisionomia, e nem as atitudes dos outros podem ser percebidas
apenas observando suas atitudes. A fala, dependendo da entonação,
do ritmo, da cadência e da suavidade, também expressa intenções,
humor e sentimentos. E os movimentos, contrações musculares e
expressões faciais , também expressam intenções e sentimentos,
que podem ser percebidos por um bebê cego através do tato. Ele
pode ouvir e interpretar o que as outras pessoas sentem através
da fala.
A
comunicação não verbal, segundo Castanho et al ( 2003 ), é
constituida de gestos espontâneos expressivos, automáticos, ou
deliberadamente produzidos.
É
fundamental preocupar-se com a qualidade da comunicação, do
manuseio e da instalação de rotinas diárias que se oferece à
criança cega, pois essas ações permitem que ela perceba indícios
que lhe ajudarão a antecipar o que irá acontecer. Podem ser alguns
indícios: a maneira de pegar o bebê no colo, os passos e a voz da
mãe e do pai, cheiro e movimento, entre outros. Deve-se sempre
descrever o ambiente, comunicar à criança o que está acontecendo
para que possa reconhecer o meio e, assim, não assustar-se,
frustar-se ou desorganizar-se.
A criança
deve agir com o meio, inicialmente, sempre com a ajuda de quem
enxerga. Deve ter experiências multisensoriais significativas e
interagir com as pessoas. Assim, ela poderá compreender e
construir o real, formar a noção do objeto e construir o seu
sistema simbólico.
Para
Leonhardt ( 1998 ), a aprendizagem da linguagem só é possível porque tem-se
muitas formas pré-lingüísticas de penetrar na mente dos outros,
em especial, quando se está motivado a ler as expressões
não-verbais que se apresentam de muitas formas. A criança que
enxerga, realiza a observação da fisionomia do outro para
interpretar atitudes e intenções, as repete e consegue
comunicar-se. A criança cega irá realizar o que o autor chama
de fononomia: observar a fala do outro.
Segundo a
autora citada, a interação mãe-bebê aparece como um protótipo
de todas as relações posteriores de intercâmbio: a mãe é como
um espelho, quando emite um som, o bebê o reproduz. Ele começa a
perceber que, se ele faz determinado movimento com seu corpo, sua
mãe lhe responde da mesma maneira - ( a comunicação antecede à
linguagem e esse intercâmbio constitui uma ponte para alcançá-la).
Através de
uma pesquisa onde observou-se crianças cegas do nascimento até
dois anos de idade, considerando a relevância dessa faixa etária
para o desenvolvimento, Leonhardt ( 1998 ), constatou a importância da interação nos primeiros 12
meses, primeiramente através de diálogos gestuais. Segundo a autora, esses elementos gestuais funcionam como
pré-simbolos para a criança, atuando como protótipos de
linguagem. Os gestos dão lugar à fala e, a partir dos 12 meses, a
fala será o meio de comunicação entre o bebê e seus pais.
Em sua
pesquisa , a autora observou curvas paralelas entre as condutas
utilizadas pela mãe e as desenvolvida pelo filho. Ficando
estabelecido que as mães que desenvolvem uma estimulação não
excessiva, que se concentram em interpretar as condutas dos filhos e
, em especial, responder a essas condutas estabelecendo assim a
comunicação entre ela e seu filho, são as que mais favorecem o
desenvolvimento da linguagem da criança cega.
A autora
qualifica como condutas não correspondentes a uma boa relação
direta entre os pais e o filho:
- condutas do
bebê: agitar os pés e pernas ( espernear) enquanto dorme, ou
quando está sonolento ou distraído; e
- nos pais:
falar com uma terceira pessoa deixando de lado o bebê ou realizar
uma tarefa deixando-o à margem.
Como
condutas interativas, a mesma autora define: quando , a uma ação
da mãe, o bebê responde com outra envolvida com a dela, ou vice
versa ( se a mãe fala, o bebê explora sua boca ou sorri), e quando
a criança desenvolve a fala que precede à linguagem verbal, a
“fala infantil”, interpretada pelos pais : pá-pá ( comida ),
naná ( dormir ) etc.
Bruno (
1993), enfatiza o jogo simbólico como sendo fundamental para o
desenvolvimento cognitivo e afetivo da criança cega, porque através
dele, ela exercita o pensamento pré-lógico, comunica a sua
compreensão do meio, seus sentimentos, desejos, fantasias e aprende
a lidar com suas emoções e afeto.
A criança
cega precisa de ajuda, que dêem-lhe pistas e dicas para que possa
compreender a origem dos objetos e suas relações de causa e efeito
e, assim, compreender as transformações do meio. Essa noção a
ajudará a desenvolver representações conceituais, essenciais para
desenvolver a linguagem. Através das informações dadas a ela
sobre os objetos, também poderá formar conceitos; por isso deve-se
dar essas informações em momentos concretos, para que tenham
significado para a criança: explicar para ela o que é e para que
serve a bola quando estiver com ela em suas mãos e puder verificar
as informações recebidas.
Isso é
extremamente importante. A criança precisa fazer a verificação da
mesma maneira que a criança que enxerga a faz; precisa interiorizar
os conceitos das palavras que aprende. Quando isso não acontece,
ela desenvolve a ecolalia - repetir ou ecoar o que as outras pessoas
dizem.
Ferrel (
1999 ) considera a ecolalia uma fase pela qual todas as crianças
passam a fim de treinar a fala e aprender sobre a linguagem e a
comunicação, entretanto, a criança cega pode deter-se nessa fase,
sem compreender que as palavras representam pessoas, conceitos ou
coisas. Antes de obter essa compreensão ela será incapaz de
realizar seu próprio discurso.
Barraga (
1992 ), considera que as palavras que se referem a ações e objetos
formam parte do sistema de comunicação à medida que se aprende os
conceitos. Por isso, a autora acredita que a aprendizagem
perceptivo-cognitivo está relacionada ao desenvolvimento da
linguagem.
A autora se
refere, ainda, ao fato de que a criança parece usar a linguagem,
primeiramente, para falar consigo mesma, logo para comunicar-se com
os outros e só depois compreende o uso da linguagem como um meio
social e emocional que lhe permite a interação e a comunicação.
Santin e
Simmons ( 2000 ), afirmam que deve-se considerar a influência da
linguagem dos que enxergam na construção da realidade da criança
cega, ao se tentar compreender como uma criança cega traduz suas
experiências em um modelo de mundo.
A criança
cega recebe informações do mundo através dos outros canais
sensoriais, ainda que de forma fragmentada e não integrada. Mas, ao
mesmo tempo que ela vivencia o mundo através dessas experiências
sensoriais, os que enxergam tentam lhe explicar o mundo através da
linguagem verbal, segundo os critérios da visão, que talvez não
correspondam à experiência sensorial da criança cega.
Existem
idéias e conceitos contidos na linguagem verbal que só encontram
correspondência para os que enxergam, e, aos cegos, é impossível
interiorizá-las tendo como base apenas o tato, a audição, o
olfato e o paladar. Por exemplo: a criança cega vai ouvir as
explicações do que vem a ser um prédio, a partir da experiência
de uma pessoa que o enxerga. Ela, precisaria tocar todo o prédio (
se isso fosse possível ) para compreendê-lo através da sua
percepção, que difere da que enxerga.
Os autores
Lima e Silva ( 2000 ), afirmam que não se sabe com certeza como são
as representações mentais dos cegos a partir da captura háptica
( percepção pelo tato ), mas existem fortes indícios de que
essas representações são diversas das imagens mentais dos que
enxergam. Os autores salientam que a transcodificação do mundo
visual para uma linguagem tátil e/ou oral traz consigo a
nomenclatura de quem vê, o que dificulta a compreensão do mundo
interno ou da representação que o cego faz do mundo. Por isso, a
verbalização não é eficiente para o cego.
As
informações sensoriais que a criança cega possui, sozinhas, não
são suficientemente completas para lhe permitir o desenvolvimento
cognitivo. As suas informações, quando somadas à linguagem do
mundo dos que enxergam, tornam-se extremamente complexas para que
ela possa processá-las de forma eficiente.
Uma criança
que enxerga em fase de elaboração da fala, nos seus três
primeiros anos, por exemplo, pode errar ao chamar um cachorro de
gato. Mas esse erro é logo corrigido pelo adulto que a acompanha,
que pode orientá-la, partindo das mesmas informações sensoriais
da criança, pois também usa a visão para perceber e explicar o
que é um cachorro e o que é um gato.
Porém, se
uma criança cega identifica uma cadeira onde um gato estivera
deitado como sendo o próprio gato, porque ela sentiu na cadeira o
cheiro do gato, o adulto , que enxerga, talvez não entenda o erro e
lhe dê uma explicação sem levar em conta a importância da
informação do cheiro.
Assim, o
adulto terá desvalorizado a experiência particular da criança,
que terá que reformular suas informações sem a vantagem de obter
informações de um mediador que compartilha de seu particular
sistema de coleta de informações, como é o caso da criança que
enxerga.
Santin e
Simmons ( 2000 ), esclarecem que, estas dificuldades relativas à
construção de um modelo do mundo, se refletem na linguagem em
desenvolvimento da criança cega.
Com essas
considerações, as autoras , consideram que a linguagem inicial
da criança cega não parece refletir o desenvolvimento de seu
conhecimento de mundo, mas sim o conhecimento aferido através da
linguagem dos outros.
Porém ,
deve-se buscar que ela desenvolva a interação social, a
curiosidade e o comportamento exploratório, para realizar o seu
próprio discurso, dentro de um contexto significativo para ela.
7 A
LINGUAGEM E A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE DA CRIANÇA CEGA
Devido às
peculiaridades da criança cega, supõe-se que o seu processo de
construção da realidade não ocorre da mesma maneira que o da
criança que enxerga.
Segundo
Ingsholt ( 1991 ), o início do desenvolvimento da identidade, em
qualquer criança, pode ser dividido em três partes, descritas a
seguir.
1-°) O
sentido do “eu” emergente - as experiências de qualquer bebê ,
desde quando nasce até os dois anos de idade, são basicamente
sensações corporais.
O bebê que
enxerga, através das experiências que vivencia nas relações
recíprocas com seus pais, principalmente as de contato corporal, e
da classificação, embora ainda imatura, forma um sentimento de
“eu” emergente, que surge das novas percepções do seu corpo,
como ponto de referência para essas experiências.
O bebê
cego tem a mesma necessidade de relacionar-se com os pais e adquirir
novas experiências. Porém, em razão do estado psíquico ruim em
que, muitas vezes, se encontram seus pais e da sua falta de contato
visual, correm o risco de ter menos e mais breves relações
recíprocas e, portanto, menos experiências sobre as quais
organizar seu mundo. Em decorrência, o bebê cego pode demorar mais
a estabelecer um sentido de “eu” emergente.
Os pais
devem, nessa fase, falar muito em todos os momentos em que estão
com seu bebê cego, dar-lhe muitos estímulos táteis em todo seu
corpo e aprender a interpretar os signos faciais e corporais que
informam se estão conseguindo chamar a atenção do seu bebe e se
ele está desfrutando da relação com eles.
2-°) O
sentido de um “eu” interior - esse sentido se estabelece quando a
criança descobre que seu corpo é o ponto de referência para suas
experiências; aparece entre os dois e seis meses, em bebês que
enxergam.
Segundo
Ingsholt ( 1991 ), cada criança tem um limite pessoal para receber
estímulos. Se os recebe em quantidade e intensidade muito acima do
seu limite, ela fica ansiosa e pode até entrar em pânico. Quando,
ao contrário, os recebe muito abaixo do seu limite, demonstrará
aborrecimento. Os estímulos devem ser dirigidos de maneira a
satisfazer a necessidade da criança na medida certa.
O estado
psíquico interior do bebê pode ser regulado ao limite desejado
através das ações recíprocas. O bebê precisa perceber que seus
pais são capazes de regular o nível dessas ações e, aos poucos,
adquirirá a consciência de que ele mesmo pode regular seu nível
de excitação, ao constituir-se em um participante ativo da
interação com seus pais. Por isso, nessa fase se formam os
elementos fundamentais do desenvolvimento social.
O contato
visual, as expressões faciais e os jogos de cara a cara, facilitam
essas experiências.
O bebê
cego e seus pais têm que relacionar-se sem os signos faciais
percebidos pelo contato visual. Os pais devem desenvolver um sentido
crescente de como seu filho indica, através das expressões
faciais, corporais e da sua vocalização, se deseja que aumentem ou
diminuam o nível de estímulos. Se o bebê se decepciona muitas
vezes por experiências que falharam ao regular os níveis de
excitação, ele pode retrair-se das atividades que proporcionam
interações sociais, passando a preferir entreter-se com jogos e/ou
movimentos já bem conhecidos dele, no lugar de desenvolver relações
sociais.
Alguns
bebês cegos acabam acomodados com experiências em um nível
médio de excitação, que não são nem desagradáveis, nem
proporcionam incentivos.
Os pais
devem realizar muitas ações recíprocas com seu filho cego e usar
de todas as expressões faciais e corporais como se a criança
enxergasse; a voz será importante para estimular a criança,
através da velocidade, ritmo e sonoridade.
3-°) O
sentido de um “eu” subjetivo- nessa fase, gradualmente, a
criança vai percebendo que seus sentimentos íntimos podem ser
comparados pelos outros, dando-se conta de que os sentimentos, que
acreditava pertencer somente a ela, também podem ser sentidos pelos
outros. O bebê começa a perceber, através das atitudes dos pais,
o processo de empatia, e busca compartilhar experiências de coisas
e feitos com os outros. Note-se que toda essa comunicação acontece
por gestos, expressões e posturas, pois o bebê está na fase
pré-verbal.
O bebê que
enxerga segue a direção indicada pelos pais para alcançar um
objetivo e, ao alcançá-lo, olha para os pais a fim de confirmar,
pelas suas expressões, que encontraram o objetivo correto. Desse
modo, sabem que compartilharam o mesmo foco de atenção.
Já o bebê
cego não sabe por ele mesmo o que ele e os pais estão fazendo
“nesse” momento, pois lhe falta o signo, que é visual. Os pais
terão que contar, explicar o que eles e a criança estão fazendo.
Os sons, a voz ( intensidade, ritmo e sonoridade ), o tato e o
contato corporal devem ser utilizados para fazer a criança
entender que estão compartilhando o mesmo foco de atenção.
A criança
que enxerga, para compartilhar sua intenção, comunica-se com
gestos, posturas e vocalizações; por exemplo, estende a mão em
direção a um objeto produzindo sons sistemáticos e, ao mesmo
tempo, seu olhar vai e vem da sua mão para o rosto da mãe.
As crianças
cegas também produzem sons quando querem ver satisfeitos seus
desejos e, por vezes, também estendem as mãos. Quando os pais
conhecem bem seu filho, podem compreender espontaneamente sua
vontade e satisfazê-la. Se a criança cega percebe que suas
intenções em se fazer entender, falham repetidamente, pode achar
que a comunicação intencional é inútil e demorar para entender
o uso comunicativo da linguagem e até afastar-se das interações
sociais.
A
comunicação verbal é a forma mais eficaz de comunicação . Os
pais devem ajudar o desenvolvimento da linguagem nomeando sempre os
objetos ao dar-lhes ao filho ou quando ele os toca, para que, desde
cedo, a criança aprenda palavras verdadeiras em lugar de palavras
soltas e sem sentido, para cumprir suas necessidades e desejos.
Quando a
criança se sente insegura ou com medo, olham as expressões faciais
dos pais e suas atitudes para assegurar-se que podem continuar em
sua atividade. Para a criança cega , pequenos detalhes podem
representar perigos; por isso, muitas crianças cegas preferem
brinquedo velhos e jogos já conhecidos e evitam atividades novas.
Essas crianças podem prender-se a rituais com medo da novidade e,
em conseqüência, ter poucas possibilidades de aprender coisas
novas, podendo ter um desenvolvimento retardado, pobre e restrito.
Para evitar
esse tipo de comportamento, os pais devem usar a voz para dar
segurança ao seu filho em situações incertas.
4-°)
Sentido do “eu” verbal - com o desenvolvimento da linguagem, a
criança se reconhece como “ela” e não como apenas uma criança.
Tem novas maneiras de compartilhar experiências interpessoais e
começa a usar os pronomes pessoais ( eu, mim, meu ).
Para
Ingsholt ( 1991 ) a linguagem se baseia na interação social e na
relação e, portanto, tem influência na identidade e forma a
base da capacidade para o jogo e o pensamento simbólico.
Alguns pais
sentem que entram em contato pela primeira vez com o filho cego
quando ele adquire a linguagem, e o filho pode, pela primeira vez,
assegurar-se que realmente ele e seus pais estão compartilhando as
mesmas experiências , ao perguntar e obter informações. Antes da
linguagem, a criança cega não podia fazer a verificação como a
criança que enxerga já fazia inúmeras vezes com a visão.
Para o
autor , a linguagem compensa a falta do contato visual, a busca
visual da intersubjetividade e o compartilhar o foco de atenção.
O autor
enfatiza que criança cega terá dificuldade em usar os pronomes
pessoais. Os pais devem trabalhar o uso dos pronomes, para reforçar
a base da compreensão do seu uso , para assegurar que a criança
realmente alcançou e passou as fases do sentido do eu interior e
talvez até da intersubjetividade, e para assegurarem-se de que a
criança está pronta para dar o passo seguinte para o
desenvolvimento da identidade. Porém os pais devem usar os pronomes
pessoais de forma clara e em combinação com coisas e ações em
situações naturais, e não criadas.
Partindo
dessas considerações, pode-se concluir que a construção da
identidade se dá na integração e comunicação com o outro,
mediante oportunidades de ação sobre o meio e de vivências
sensoriais significativas.
As
brincadeiras e a expressão corporal da criança cega também
ajudam-na a desenvolver a linguagem e construir sua identidade.
Autores como Bruno ( 1993 ), Rodrigues ( 2002 ), Araújo ( 1997 ) e
Mara O. Campos Siaulys da LARAMARA , consideram o brincar como
essencial para o desenvolvimento da criança cega.
Considera-se
importante saber como o brincar e o expressar-se atuam no
desenvolvimento da criança cega.
8 A
IMPORTÂNCIA DA EXPRESSÃO CORPORAL E DO BRINCAR
Como todas
as outras crianças, a criança cega precisa desenvolver-se como ser
social.
Nas
relações sociais, são usadas várias formas de expressão. Mais
uma vez, destaca-se a importância do movimento, que também é uma
forma de expressão.
Santos (
1999 ) cita Boulch, para quem o movimento acontece em presença do
olhar de outro, e assume significado quando o outro interpreta esse
movimento. A pessoa cega terá dificuldades em suas relações
sociais devido à falta da visão. Segundo o autor, o olhar
facilita relações pessoais, sendo utilizado como código de
aprovação, reprovação ou aceitação. A pessoa cega, sem ter um
olhar que lhe transmita aceitação ou não, pode ter sua mobilidade
prejudicada junto aos outros.
As
expressões faciais e corporais fazem parte das relações
sociais. Desde crianças, essas formas de expressão acompanham o
ser humano. A criança que enxerga tem o olhar para perceber as
expressões faciais e movimentos corporais dos outros e, assim,
imitá-las. Depois, as internaliza e passa a usá-las em suas
relações sociais.
Segundo
Bruno ( 1993 ), a criança cega aprenderá a imitar e a brincar se
encontrar pessoas disponíveis para interagir, com movimentos
co-ativos, para que compreenda tátil-cinestésicamente a ação
pelo contato físico.
Brincar é
uma maneira da criança descobrir a si mesma, o outro e o mundo.
Conforme
Rodrigues ( 2002 ), o primeiro brinquedo da criança é seu próprio
corpo. Ela precisa perceber prazer em descobri-lo, se diferenciando
do mundo que a cerca.
Araújo
(1997 ), acredita na psicomotricidade como atividade de expressão
corportal, utilizando-se de jogos e brincadeiras a partir do
interesse real da criança cega.
Nessas
atividades, a criança entra em contato com o seu corpo, o corpo do
outro, seu espaço, espaço do outro. A criança auto expressa-se
através da sua mobilidade.
Para a
autora, o brinquedo proporciona a utilização do toque, do contato
físico, da relação corpo a corpo e possibilita o contato da
criança com suas emoções e sentimentos, através da relação
íntima e compartilhada.
Brincando,
a criança cega sente que o outro se movimenta, gesticula e que ela
também pode fazer o mesmo.
O movimento
deve estar presente em toda e qualquer atividade como forma de
expressão corporal e emocional.
A autora
ressalta que através das brincadeiras e do jogo simbólico, a
criança cega vai, ao mesmo tempo, aperfeiçoando seus esquemas
sensório-motores e criando suas estruturas cognitivas, além de
fortalecer sua noção de permanência e posição dos objetos. A
criança interage no espaço físico e, através desta relação
com o espaço ,com o brinquedo e com o outro, vai atuando, na
fantasia, sobre a realidade, explorando-a, assimilando-a e a ela se
acomodando.
Rodrigues (
2002 ) enfatiza que a melhor maneira da criança cega aprender a
usar o corpo é brincando. Aprendendo a usar o corpo, a criança
torna-se autoconfiante, independente e mais feliz.
Por isso
vemos o brincar como um meio para a criança cega aprender a se
expressar e a se relacionar socialmente.
A autora
afirma que para a criança cega, o brincar é uma atividade vital,
que previne e evita o autoconfinamento.
A criança
cega tem dificuldade para aprender, por si só, movimentos,
expressões faciais e corporais que são comum às pessoas que
enxergam. Desde a mais tenra idade a criança cega deve se envolver
com brincadeiras e atividades que ajudem-na a se expressar. Assim,
ela poderá contar com um importante meio de comunicação que
contribuirá para todas as suas interações sociais futuras: a
comunicação não verbal.
A
comunicação não-verbal assume importante função nas interações
cotidianas: como a pessoa fala ( tom de voz ) e como se expressa
emocionalmente na face e no corpo formam um todo organizado, uma
linguagem não verbal que mostra intenções e sentimentos.
Existem
crianças cegas que apresentam o que se chama de “rosto morto”.
Tratam-se de crianças que não tiveram estimulação adequada e não
desenvolveram a capacidade de expressar emoções na face, ao menos
não com os códigos conhecidos pela maioria: os que enxergam.
Segundo
Cunha ( 2004 ) estudos recentes afirmam que mesmo o cego congênito
pode exibir emoções na face e ser tão expressivo quanto a pessoa
que enxerga, mesmo sem as pistas visuais.
Ao
estimular a criança cega a expressar emoções com a face e o
corpo, deve-se considerar a sua individualidade como ser humano. Ela
pode expressar emoções que não condizem com as conhecidas pela
maioria das pessoas, mas não deixam de ser a sua maneira de
expressar-se.
É preciso
ensinar a criança que o corpo e o rosto podem “falar”, mas não
há necessidade que ela aprenda a usar exatamente os mesmos códigos
pré-estabelecidos pelos que enxergam.
Cunha (
2004 ) faz uma pergunta cuja resposta é imprescindível para
conduzir as atividades de expressão facial e corporal com a
criança cega:
Afinal,
que tipo de expressividade se deseja de um deficiente visual? A
expressividade dele, a maneira como reage e expressa seus
sentimentos, ou a cópia perfeita das emoções e reações de um
vidente? Em suma, queremos que tenha a sua própria expressividade
ou que seja a xerox das pessoas que enxergam?( CUNHA, 2004, p. 5 )
A autora
retifica que as pessoas cegas que apresentam uma expressão facial
“pobre”, carecem de estimulação adequada e, em geral, não
possuem consciência do próprio corpo e podem apresentar défict em
outras áreas psicomotoras. Afirma que uma pessoa cega que receba
todo tipo de estímulo desde a sua infância pode desenvolver a sua
própria expressividade.
Os aspectos
que encontrados nessa pesquisa sobre como se desenvolve a criança
cega, oferecem uma certeza: ela não se desenvolve da mesma maneira
que as crianças que enxergam, nem da mesma maneira que as crianças
com outra deficiência qualquer.
Logo, a
estimulação precoce da criança cega deve ser focada nessa
diferença.
As
atividades previstas em currículo de intervenção para a criança
cega devem ser elaboradas e pensadas a partir dos aspectos do seu
desenvolvimento.
Podendo ser
desenvolvidas atividades que serão mais específicas e trarão
melhores e mais resultados para o pleno desenvolvimento da criança
cega, porque continuar a prever nos currículos as “mesmas
atividades da estimulação precoce em geral, apenas adaptadas”?
Desenvolvendo
um rol de atividades especificas, elaboradas, pensadas, testadas e
planificadas para as peculiaridades do desenvolvimento da criança
cega, se contribuirá verdadeiramente para que ela se desenvolva
globalmente, de forma natural e harmônica, preparando-a para a vida
emotiva, afetiva e social.
Partindo
deste pressuposto, serão tratadas, no capítulo seguinte, as
peculiaridades da estimulação precoce para a criança cega.
⁕⁕⁕
A
ESTIMULAÇÃO PRECOCE PARA A CRIANÇA CEGA
Vários fatores que confirmam a
vulnerabilidade que a criança cega apresenta em seu
desenvolvimento.
Em
conformidade com esse preceito, Figueira ( 1996 ) ressalta que a
cegueira não é apenas a perda de um sentido isolado, já que a
visão é o sentido que integra todos os outros. A autora acrescenta
que a cegueira vai afetar o desenvolvimento neuropsicomotor da
criança, quando está presente desde o nascimento. Porém,
desenvolverá normalmente suas potencialidades se for bem orientada.
A mesma
autora enfatiza que a cegueira é um fator que deixa a criança
predisposta a alterações cognitivas, motoras e psíquicas mas
essas alterações não podem ser tidas como conseqüências
absolutas da cegueira.
O
sentimento de segurança estará presente na criança cega que for
estimulada e encorajada pelos pais. Assim, ela poderá adquirir
todas as habilidades de cada etapa do seu desenvolvimento.
Rodrigues (
2002 ), refere-se à pesquisa realizada por Fraiberg em cujo
resultado observou-se que a cegueira tem relativamente pouca
influência na conquista de posturas, sendo que a maior dificuldade
reside no fato de que uma criança cega não pode movimentar-se para
pegar um objeto atraente à sua frente. Observou-se atrasos em
relação a estender as mãos, engatinhar e andar com independência.
Fraiberg atribui a esse atraso o que chama de “mobilidade iniciada
por autodeterminação”.
Quanto mais
a criança receber estimulação adequada, menor será o atraso
apresentado em relação às crianças que enxergam.
Desde que
nasce, toda criança está aprendendo e se adaptando, desenvolvendo
estruturas.
A criança
cega também. A autora Silva, B. N. ( 1986 ) no III Simpósio sobre
ensino integrado dos Deficientes Visuais, defende que a criança
cega deve ser levada, estimulada, através de técnicas específicas,
não só para aprender coisas específicas, mas para desenvolver sua
mente para que se torne melhor equipada para novas conquistas
motoras, afetivas e possa acompanhar o mundo das pessoas que
enxergam.
Acompanhar
o mundo dos que enxergam, é ter as mesmas oportunidades de
desenvolvimento. Por exemplo: o brincar é crucial para o
desenvolvimento. A criança que enxerga brinca naturalmente com as
mãos desde bebê, porque as vê, e toma conhecimento delas e de si.
Procura brinquedos e interage com sorrisos e imitações dos gestos
dos adultos. Já a criança cega, apesar de poder fazer tudo isso
igualmente, precisa da intervenção do adulto, precisa ser ajudada
a descobrir seu corpo, sentir-se separada de suas roupas e lençol,
descobrir que pode se expressar com o rosto, que existe objetos à
sua volta e que pode brincar com eles. Ou, não poderá usufruir dos
benefícios que o brincar proporciona.
Claro que
se uma criança não tiver estímulos, mesmo sem apresentar nenhuma
deficiência, ficará estacionada em seu desenvolvimento. Porém,
julga-se ter ficado claro o alto fator de risco no qual se
constitui a cegueira e, portanto, a indiscutível necessidade da
estimulação para o bebê cego.
Embora toda
a criança passe pelas mesmas fases de desenvolvimento sem pular
nenhuma, cada uma tem suas próprias “necessidades”.
Foram
estudadas as características do desenvolvimento no período
sensório motor, que é a base para o desenvolvimento futuro.
Podendo, através dessas características, saber o que uma criança
pode realizar em dado momento e o que ainda não está matura para
realizar. Mas as crianças não são iguais, cada uma tem seu ritmo
e peculiaridades.
Será que
se pode enxergar da mesma maneira a criança surda, a cega a que tem
distrofia muscular, síndromes, deficiência física ou múltipla
deficiência? A resposta é óbvia. Elas não podem ser vistas da
mesma maneira, nem pode-se trabalhar com elas da mesma maneira.
Cada uma irá exigir apoios, atividades e cuidados especiais.
Se é
assim, então porque não são desenvolvidos programas de
estimulação precoce voltados para cada deficiência?
É comum
ouvir-se que a estimulação precoce é “geral” devendo apenas
ser adaptada à criança e sua deficiência. Porém, quase não
existem estudos referentes sobre as “adaptações” necessárias
na estimulação precoce para a criança cega.
Foi
observado, nessa pesquisa, que o desenvolvimento da criança cega
difere em muitos aspectos do das outras crianças, por motivos já
demonstrados. E que “prever a necessidade de adaptações” em
seu currículo de estimulação precoce, não é o suficiente.
É
necessário um estudo completo sobre o que estimular na criança
cega, como e porque. E, a partir desses estudos, desenvolver a
estimulação precoce específica e voltada para a criança cega.
I
CARACTERÍSTICAS DA ESTIMULAÇÃO PRECOCE
Frutos (
2000 ), assegura que um déficit sensorial nos primeiros anos de
vida trás consigo um grave risco de que se produzam paradas ou
desvios do desenvolvimento com seqüelas, às vezes, irreversíveis
para o sujeito. Portanto, para a autora, assegura os programas de
estimulação precoce para crianças cegas ou deficientes visuais
têm características próprias que os tornam diferentes de outros
programas. Tais como:
● a
especificidade reflexa na própria definição do trabalho, em seus
objetivos, na população a que se dirige, na metodologia e na
formação dos seus profissionais que requer uma organização e
recursos próprios;
● a
concepção de estimulação precoce a crianças com cegueira ou
deficiência visual como um programa específico incluído nos
programas de estimulação precoce gerais, tendo-os como referência.
É um serviço especializado dentro dos de estimulação precoce; e
● a
concepção do desenvolvimento infantil como um processo integral
que requer uma intervenção globalizada.
Segundo a
mesma autora, a estimulação precoce para crianças com cegueira ou
deficiência visual compreende o conjunto de medidas, de ordem
psicopedagógicas, médica e social, direcionadas a obter o
desenvolvimento da criança sem outras limitações que as
estritamente inerentes a seu déficit visual.
Quanto à
população, a autora determina que o programa de
estimulação precoce deve contemplar todas as crianças com
déficits visuais graves com idade entre o nascimento e quatro anos,
prorrogável até os seis , dependendo do progresso no
desenvolvimento e das características psicossociais da criança.
A seguir,
serão tratadas outras características da estimulação precoce,
como intervenção, prevenção, desenvolvimento evolutivo e
interdisciplinaridade, segundo a mesma autora.
A
intervenção em estimulação precoce para o deficiente visual,
deve contemplar alguns aspetos como a detecção.
Em primeira instância, se faz necessário manter contato permanente
com os profissionais dos serviços de neonatologia e oftalmologia
dos hospitais maternos- infantis. Esse contato pode ser
proporcionado por seminários, conversas e conferências, de modo a
propiciar o conhecimento sobre as conseqüências da cegueira e a
importância da estimulação precoce.
Em um
segundo momento, deve-se manter contato com os centros de saúde,
serviços de apoio e centros escolares. Através da assistente
social, deve-se criar um “informe oftalmológico” contendo
diagnósticos das crianças da comunidade , a fim de conhecer a
população que precisará do serviço de estimulação precoce.
Outro
aspecto a ser destacado no âmbito da intervenção, é a
prevenção.
Toda
criança com risco de severo déficit visual deve ser atendida desde
seu nascimento. Faz-se necessário que os profissionais do âmbito
sanitário tenham conhecimento dos riscos que implica a cegueira e a
deficiência visual para o desenvolvimento da criança. Com esse
conhecimento, eles poderão encaminhar precocemente as crianças de
risco e as já diagnosticadas, para o serviço de estimulação
precoce, que desenvolverá junto a elas e suas famílias um trabalho
global e integrador , o que será decisivo para diminuir os graves
riscos da falta total da visão.
A fim de
subsidiar o desenvolvimento evolutivo, a equipe de intervenção
ajudara a criança e seus pais na orientação e seguimento das
etapas do desenvolvimento. O especialista em estimulação precoce
desenvolverá um trabalho especializado junto aos pais, buscando
ajudá-los em seu equilíbrio emocional, e considerando todos os
elementos que aparecem na dinâmica familiar.
Para
garantir as necessidades manisfestadas pelas famílias de serem
acompanhadas, ajudadas e atendidas , promovendo, assim, um
crescimento emocional adequado, em um momento em que a família está
em risco, é necessário um trabalho contínuo e coordenado com
distintos profissionais do âmbito sanitário, social, psicológico
e pedagógigo, para dar seguimento à intervenção. No caso de um
recém-nascido cego internado em hospital, deverá se coordenar
sessões interdiciplinares com neonatólogos, pediatras, oftalmos
pediátricos e assistentes sociais.
Deverá ser
mantido contato com profissionais de creches, escolas infantis e
psiquiatras infantis que ajudarão o profissional de estimulação
precoce a orientar o trabalho com a criança e sua família.
Também
deve ser mantido contato com profissionais de outros serviços de
estimulação precoce que tratam de crianças com transtornos
associados.
Como
objetivos gerais da estimulação precoce para o deficiente visual,
a autora destaca:
- favorecer,
desde o nascimento, o desenvolvimento de toda criança deficiente
visual; e
- dar suporte a família
desde o momento da detecção do déficit, prestando-lhe uma atenção
direta.
Na Guia de Serviços
Sociais, Educativos e culturais da Direção Geral da ONCE (
Organização Nacional de Cegos Espanhóis ) Madrid, 1992 se
especifica:
A ONCE desenvolverá
seu programa de Atenção Precoce com o objetivo de eliminar a
influencia negativa que a perda total ou parcial da visão pode
exercer sobre o desenvolvimento intelectual, motor, conceitual e
social da criança, criando as condições favoráveis que garantam
a maduração infantil normalizada através da orientação
familiar e a aplicação de programas específicos de
desenvolvimento.
1. ÂMBITOS
DE INTERVENÇÃO
Segundo
Frutos ( 2000 ) , a intervenção deve acontecer nos âmbitos:
- atenção
conjunta aos pais e as crianças;
- atenção
a toda a família;
- atenção
individualizada a criança no centro de intervenção;
- atenção
individualizada aos pais;
- grupos de
pais e grupos de crianças ( grupos de irmãos );
- coordenação com outros profissionais em um trabalho conjunto e
interdisciplinar;
- sensibilização em hospitais e maternidades; e
- escolas
infantis.
2. AS ÁREAS
DE INTERVENÇÃO DEVEM SER:
- desenvolvimento afetivo e emocional;
- desenvolvimento sensorial;
- desenvolvimento perceptivo-cognitivo;
- comunicação e linguagem;
- desenvolvimento psicomotor; e
- autonomia
pessoal.
3.
METODOLOGIA DOS PROGRAMAS DE INTERVENÇÃO
A seguir,
será citado um modelo de metodologia de intervenção para
serviços e programas de estimulação precoce, segundo Frutos (
2000 ).
Intercâmbio
com profissionais para busca de informações sobre a história
clínica do caso e primeiro contato com a família;
Entrevista
de acolhida com a família que pode ser realizada no hospital ou na
sede da equipe, segundo a idade e circunstâncias da criança. Onde
serão colhidas informações sobre a estrutura e o funcionamento
da família, preocupações, dificuldades e expectativas;
Recompilação das avaliações realizadas por outros profissionais;
Avaliação
conjunta do terapeuta especialista e do psicólogo - entrevistas,
sessões de observação direta e testes de desenvolvimento padrão);
Participação dos resultados das avaliações à todos da equipe
-
com a finalidade de elaborar um plano individualizado de atenção;
Observações
- para determinar que tipo de intervenção é mais
aconselhável para a criança, conforme seu desenvolvimento e o
momento evolutivo em que se encontre, e as características e
estruturação da família. Determinação do espaço físico onde
se realizará a intervenção ( sede da equipe de estimulação
precoce ou lar da família);
Sobre esse
aspecto, Barraga ( 1987 ), considera que em um segundo nível de
serviços incluído na maioria dos modelos de intervenção, deve
haver uma transição gradual desde a fase inicial de aproximação,
apoio e consulta com os pais, até o atendimento da criança em
sua casa. A autora diz que, em geral, os pais pedem esse serviço e,
quando não o solicitam, deve ser-lhes sugerido. O especialista,
junto com os pais, faz um esquema de trabalho para ser seguido com a
criança em casa, considerando o que os pais querem que a criança
aprenda, respeitando a maturidade da criança. Os pais recebem um
plano, passo a passo, sobre como realizar as atividades. A autora
explica que o modelo de educação em casa é utilizado
especialmente nos dois primeiros anos, podendo se estender até a
idade da criança ingressar na escola. Frutos ( 2000 ) considera
que, depois da escolha do lugar onde se dará a intervenção, se
destinará, definitivamente, o caso ao especialista em estimulação
precoce.
Devolução
das informações para a família - aspectos observados que podem
ajudar na vinculação com o filho, o tratamento determinado e o
local onde será realizado, apresentação do profissional que irá
realizar as atividades e recursos para atender a situação
particular da criança;
Atenção à
criança - conforme o plano de intervenção individualizado;
Atenção à
família - juntamente com um trabalho de contenção e de ajuda para
sua reorganização emocional;
Trabalho com
grupos de pais , de crianças cegas;
Atenção à
escola - informando sobre o significado da deficiência visual e as
características pessoais da criança atendida pelo serviço de
intervenção e sobre as suas necessidades e como solucioná-las;
Estabelecimento de colaboração contínua e de seguimento conjunto
e coordenado - entre a população de estimulação precoce e os
oftalmos, oncólogos e demais profissionais sanitários que atendam
a criança. O modelo estabelecido com a escola deve ser dinâmico,
de modo a permitir modificações e adaptações ao desenvolvimento
e as novas situações vividas pela criança;
Organização
de grupos de reuniões periódicas - para professores,
especialistas, a fim de repassarem suas experiências e
dificuldades com a criança.
Segundo
Frutos ( 2000 ) deve-se fazer uma distribuição de casos, pois o
número de profissionais e o tempo destinado ao serviço, varia
dependendo do número de casos e características da população
atendida.
RECURSOS
MATERIAIS
Frutos (
2000 ), destaca a importância de prever o espaço, o tempo, os
jogos e os brinquedos para a estimulação.
A autora afirma que existem dois tipos de espaços que devem ser
considerados na estimulação precoce: o espaço externo, em que o
“eu” se desenvolve em contato com e em interação com os
elementos, objetos e pessoas do mundo externo, e o espaço interno,
mental, em que a pessoa sente, experimenta, pensa e elabora em
relação com seus objetos afetivos ou pessoas às quais se vincula.
O espaço
físico deve ser limitado. O atendimento para a criança cega pode
ser realizado em casa, favorecendo a intervenção nas primeiras
etapas; após um ano de idade, pode-se alternar o atendimento entre
a sua casa e o centro de atendimento para, progressivamente,
realizá-lo completamente no centro.
As
características do centro dependerão da idade e das peculiaridades
da criança. Uma característica sempre será requerida: é
importante haver uma atmosfera calma e acolhedora com espaços
fechados, reservados aos mais pequenos e espaços abertos para os
maiores. Para a criança que apresente hiperatividade, deve-se
reservar uma sala com objetos estritamente necessários à
atividade a ser realizada com aquela criança específica, de
maneira a não interferir, distraindo-a. Também é necessário
dispor de um lugar para as reuniões com as famílias e grupos de
pais.
O espaço
mental é condicionado ao contexto da família e da criança. Se a
família encontra-se desestruturada e tem suas condutas
desorganizadas, estabelecerá um marco confuso de trabalho em casa,
não sendo aconselhável esse espaço para a intervenção. Nesse
caso, o serviço de estimulação precoce no centro, é o que
oferecerá um marco seguro e estável para o trabalho de
intervenção.
Porém, se
a criança encontra-se em uma situação particular que dificulte o
trabalho no centro e possui uma família bem estruturada, pode-se
iniciar o trabalho na casa da criança. Através de observações e
coleta de informações sobre a família e a criança, é que se
estabelecerá o espaço mental ideal.
Porém, em
cada etapa da intervenção, faz-se necessário a escolha do espaço
físico que favorecerá o espaço mental mais adequado para cada
família em particular.
Em relação
ao tempo, a autora afirma que a regularidade das interações e
repetições de experiências amorosas concorrerá para fortalecer o
vínculo com a criança, caracterizando o tempo emocional, cuja
interiorização deve ser favorecida, expressada e reforçada pelo
profissional que trabalha com a criança. O tempo dedicado
objetivamente ao trabalho não deve ser inferior a uma hora, sempre
considerando as capacidades pessoais e a idade de cada criança. É
importante priorizar o trabalho direto com a criança e sua família,
buscando fórmulas flexíveis e efetivas que possibilitem que o
atendimento seja realizado sem longos períodos de interrupção.
Quanto aos jogos e brinquedos, Frutos ( 2000 ), considera
necessário dispor de um mínimo de jogos e brinquedos apropriados
às idades e etapas do desenvolvimento da criança. Os brinquedos
devem ser adaptados às necessidades evolutivas e de aprendizagem da
criança cega e, ao mesmo tempo, oferecer a possibilidade de
interagir com outras crianças que enxergam.
Os móveis devem ser apropriados para as crianças desde sua idade
mais precoce. Faz-se essencial que o centro possua colchonetes,
almofadas, andadores, escadas pequenas, mesas e cadeiras adaptadas,
etc.
II
INTERVENÇÃO FAMILIAR
Frutos
( 2000 ) enfatiza que o bebê cego inicia sua caminhada desde seu
nascimento, precisando da intervenção do adulto para encontrar
vias alternativas de adaptação.
Nessa
pesquisa, não foi encontrado um modelo de intervenção para um
programa de estimulação precoce direcionado apenas para a criança
cega, e sim para a criança com perda visual e a criança cega.
Citou-se alguns recursos para as crianças com perda visual,
entretanto, se focará as características e peculiaridades da
estimulação da criança cega, que constitui o objeto desse estudo
para o momento.
A família
e, em particular os pais, devem ser os maiores interventores no
processo de estimulação da criança cega. São eles quem, em
geral, passam a maior parte do tempo com a criança e desenvolvem um
forte vínculo afetivo com ela.
Porém, nem
sempre a família está em posição de ajudar a criança. Muitas
vezes, a família está sofrendo um bloqueio emocional. A falta de
informação correta sobre o estado e potencialidades de seu filho
também prejudica o seu relacionamento com ele.
Benito e
Ortiz ( 1998 ), tratam sobre a importância da avaliação e
intervenção no contexto familiar. Os autores realizaram estudo
sobre o “contexto familiar real” ( contexto em que efetivamente
vivem as famílias ) e “contexto teórico” ( idéias, crenças e
formação dos pais sobre educação ). O estudo demonstrou que,
embora o ambiente em volta da criança seja, em geral, seja
adequado, existem diferenças significativas entre o contexto real
e o teórico.
Entende-se
que o ambiente em que a criança vive influencia diretamente em seu
desenvolvimento, especificamente no desenvolvimento da criança
cega. O contexto real nem sempre condiz com o teórico, visto que a
criança não desfruta de um ambiente rico em condições e
experiências necessárias para seu desenvolvimento normal e sadio.
Faz-se necessária uma avaliação das diferenças entre os dois
contextos seguida da intervenção junto às famílias para
melhorar o contexto real da criança cega.
Segundo Frutos ( 2000 ), diante do nascimento de um filho com
cegueira, durante os primeiros meses da vida do bebê, os pais se
acham imersos em uma crise emocional. Eles precisam elaborar a dor
da perda de um filho “sadio” que era esperado e assumir um filho
cego que nasceu.
A autora fala de etapas pelas quais os pais passam nessa elaboração
da dor. Num primeiro momento, eles não acreditam e não admitem o
fato, experimentando uma sensação de atordoamento e irrealidade.
Algum tempo depois, revelam-se contra a idéia do filho ser cego e
iniciam uma peregrinação médica em busca de uma solução mágica
, tentando despertar do “pesadelo”.
Quando, finalmente, compreendem que a situação é irreversível,
defendem-se da dor diminuindo a gravidade e a importância da
deficiência. Mais tarde, pode aparecer sentimentos de culpa e
vergonha.
Os pais experimentam diversos estados depressivos de intensidade
variadas. São sentimentos naturais durante o processo de adaptação
e costumam dar lugar a uma posição mais sã, na qual a deficiência
do filho se integra no conjunto de suas capacidades e podem
reconhecê-lo e amá-lo.
Entretanto, existem casos em que esse processo não evolui como
seria desejável, intensificando essas “etapas naturais” pelas
quais o pais passam e as prolongando excessivamente. Nesses casos,
podem aparecer atitudes que impedem o crescimento sadio da criança,
e a intervenção junto à família é primordial.
Aos profissionais da equipe de intervenção cabe apoiar e
acompanhar os pais, enquanto dão sugestões e orientações
encaminhadas a favorecer o desenvolvimento da criança e facilitar a
criação do vínculo entre ela e seus pais.
Frutos ( 2000) lembra que uma intervenção apressada, para
explicitar a gravidade da cegueira para o desenvolvimento da
criança, no momento em que os pais tentam diminuir essa gravidade,
pode desencadear uma depressão nos pais. Não se deve intervir de
forma direta antes que a mãe e o bebê tenham encontrado uma forma
própria de relacionarem-se e que a mãe tenha descoberto as partes
sadias e amáveis de seu filho.
Barraga ( 1987 ), considera que nos primeiros meses os pais resistem
em comprometer-se com estranhos, devido a insegurança e sentimentos
que os envolvem. Por algum tempo, só o que podem aceitar é que
alguém se preocupa com eles e está disposto a compartilhar as
informações que possuem. Necessitam que os convidem a aceitar a
ajuda e a aprender como ajudar seu filho cego, sem que sintam-se
obrigados a isso. A autora assegura que nem sempre o que os pais
perguntam é o que os profissionais da intervenção gostariam de
lhes informar, mas qualquer pergunta é um passo mais adiante e,
para alguns pais, demasiada informação pode resultar em agonia.
Frutos ( 2000 ),
destaca como objetos principais da intervenção familiar:
Explicar as
peculiaridades específicas da cegueira em relação ao
desenvolvimento; orientar sobre o momento evolutivo da criança,
explicar objetivos imediatos e estratégias para a consecução
desses objetos e informar quais as possibilidades e recursos que a
criança irá alcançando no decorrer de sua vida.
A mesma autora enfatiza
que a conquista desses objetivos é imprescindível para que os
pais possam ajudar o filho, porém, esta possibilidade está
condicionada ao estado emocional dos pais. Estado ao qual os
profissionais devem estar atentos para não precipitarem-se
insistindo em determinada orientação que os pais não conseguirão
levar a cabo devido ao seu estado emocional.
Os pais
devem estar presentes nas sessões de tratamento de seus filhos,
até os dois anos e meio ou três anos, já que o objetivo não é
apenas ensinar à criança, mas fazer com que os pais assumam seu
papel imprescindível na educação de seu filho.
Depois dos três anos, a criança deve ser preparada para a vida
social, passando a ficar sozinha nas sessões. A família deverá
ser atendida em outros espaços, através de entrevistas de
seguimento periódicas, nas quais o profissional da intervenção
comunicará a evolução do tratamento.
A psicoterapia é recomendada aos pais que não respondem ao
processo habitual de aceitação da deficiência do filho, e a
dinâmica de grupos ( grupos terapêuticos de objetivo limitado,
voluntários e de duração pré-estabelecida ) é recomendada para
abordar temas referentes aos períodos críticos do desenvolvimento
da criança que geram ansiedade nos pais.
Frutos ( 2000 )
considera que é possível descrever quais são os obstáculos
principais encontrados pelos pais, mas sublinha a importância de
dois núcleos conflitivos em volta dos quais se aglutinam os
problemas de muitos pais de crianças cegas: a dificuldade para
amá-las e a dificuldade para deixá-las crescer plenamente.
A
estimulação precoce é fator determinante para que a criança cega
viva plenamente.
A construção da
mente, da realidade e da concepção do eu são fatores cruciais
para o desenvolvimento cognitivo e da identidade de toda criança.
O desenvolvimento
cognitivo está interrelacionado com a construção mental e,
conforme lembra Barraga ( 1987 ), o bebê constrói sua mente com
símbolos motores, visuais, táteis e auditivos. Esses símbolos
vão, gradativamente, convertendo-se em símbolos conceituais à
medida que a maduração, a interação, a experiência e a
interpretação facilitam a transferência.
A autora enfatiza que
priva-se a criança deficiente visual de oportunidades para seu
desenvolvimento cognitivo se não se intervém em seu primeiro ano
de vida.
III PROGRAMA DE
ESTIMULAÇÃO PRECOCE
O currículo de
intervenção tem que ser elaborado por especialistas em deficiência
visual, que sabem quando intervir e o que proporcionar para
facilitar o desenvolvimento das áreas em que a criança cega possa
apresentar carências.
Segundo Barraga ( 1987
), um programa de intervenção precoce deve seguir alguns passos:
● proporcionar
atividades estimulantes para a criança adquirir consciência das
diferentes estimulações sensoriais, aprendendendo a usar os
sentidos;
● atividades passivas
e interativas de movimentos coordenadas com a estimulação
sensorial;
● conforme o progresso
observado na criança, inicia-se a introdução de habilidades de
auto cuidado, como comer e vestir-se;
● acrescenta-se às
experiências de aprendizagem da criança, a imitação, a
discriminação, a exploração e o jogo, segundo as etapas do
desenvolvimento; e
● a partir dos 4-6
anos, pode-se introduzir atividades mais estruturadas, buscando que
a criança aprenda a organizar-se e comportar-se segundo esquemas
pré-fixados, assumindo responsabilidades.
O programa de intervenção para a criança cega deve constar de um
plano individualizado, adequado às necessidades do seu
desenvolvimento nos aspectos afetivo, emocional, comunicativo,
social, motor, cognitivo e de descobrimento plurisensorial.
Um aspecto extremamente importante na estimulação precoce do bebê
cego, e que não pode deixar de ser ressaltado, é a interação
entre dos pais com o bebê cego, pois a qualidade dos primeiros
vínculos entre eles e o bebê, determina o desenvolvimento futuro
da criança.
IV A IMPORTÂNCIA DAS PRIMEIRAS INTERAÇÕES COM O BEBÊ
A mãe é a principal
figura de apego do bebê cego. Toda criança necessita do amor e da
atenção da mãe, que é a estimuladora natural do bebê.
A forma como a mãe
pega, carrega e acalma o seu bebê é fundamental para a interação
e comunicação.
Bruno ( 1993 ) explica
que através desse contato acontece a comunicação sensorial, que
propicia o diálogo corporal mãe-bebê. A autora enfatiza que o
olhar, o toque, o cheiro e a voz materna são tão importantes
quanto o leite e que é dessa forma que o bebê assimila o mundo.
Nesse sentido,
acredita-se que o pai também possui importante papel no
desenvolvimento do bebê. O pai contemporâneo permite-se
expressar-se e aproximar-se, inclusive fisicamente, do filho,
constituindo-se no primeiro outro que a criança encontra fora do
ventre da sua mãe, segundo Gomes e Rezende ( 2003 ).
Rodrigues ( 2002 )
lembra que é nos cuidados básicos dispensados ao bebê pela mãe ,
que tem início a relação mãe-filho e que a qualidade dessa
relação determina as possibilidades de um desenvolvimento
emocional e global satisfatório, ajustado à criança.
Para Lévy ( 1987 ), o
contato carnal, diálogos carinhosos, gratificações recíprocas e
estímulos compõe o “jogo do desenvolvimento”, que enriquece e
aprofunda a simbiose mãe-filho.
Entende-se que esse jogo
do desenvolvimento também enriquece a relação pai-filho, já que
hoje ao pai é permitido fortalecer os laços emocionais com o bebê
e cuidar dele, características antes delegadas somente à mãe.
Segundo Gesell ( 1989 ),
a mãe e o pai são as pessoas mais capazes de lidar mais
eficientemente com a criança, tendo maior possibilidade de ajudá-la
a desenvolver integralmente suas possibilidades, conhecendo as
diversas maneiras como o seu comportamento se desenvolve.
O contato corporal
estabelece a comunicação desde os primeiros dias, a criança sente
prazer em ser tocada, alimentada, banhada e acariciada. Hoje, os
dois, pai e mãe, podem estabelecer essa comunicação, e
possibilitar um desenvolvimento emocional e global sadio ao seu
filho.
CONCLUSÃO
Como
resposta à indagação que originou o presente estudo, encontramos
que os padrões de desenvolvimento da criança cega seguem os mesmos
da criança que enxerga.
Porém,
entendendo o desenvolvimento como sendo um processo dinâmico de
interação com o meio, no qual o amadurecimento das estruturas
sensoriomotoras ocorre através de contínua troca de estímulos e
respostas e, estando a criança cega privada do sentido da visão, o
seu desenvolvimento será mais lento e adaptações iniciais serão
necessárias para que possa seguir normalmente seu desenvolvimento.
Estudando o desenvolvimento, entende-se que há uma
estreita relação de reciprocidade entre a visão, o tato e a
audição. Com isso, constata-se a gravidade da deficiência que
recai sobre o bebê cego, pois ele não contará com o sentido que
integra todos os outros.
A
cegueira afeta o desenvolvimento da percepção espacial e da
distância, da identificação das qualidades dos objetos, o
desenvolvimento das habilidades motoras, a construção da
linguagem, da identidade e o comportamento social.
Podendo
afirmar que:
- A criança cega organiza-se e estrutura-se de forma completamente
diferente da criança que enxerga.
- O seu desenvolvimento se dá pelo movimento e pelo desenvolvimento
dos canais remanescentes.
- É preciso compreender a criança cega como tendo um
desenvolvimento sensorial, cognitivo, da linguagem e um
desenvolvimento afetivo que lhe são peculiares.
- Com todos os fatores que a diferenciam das outras crianças, em seu
desenvolvimento, é obrigatório reconhecer que a estimulação
precoce deve ser direcionada à essas diferenças.
Pode-se afirmar também que, considerar a criança
que nasceu cega como sendo uma criança normal que nasceu sem a
visão será impor a ela um conjunto artificial de dimensões, tais
como o desenvolvimento sensorial sem a visão, ou o desenvolvimento
afetivo sem a visão.
Embora
as limitações impostas pela cegueira sejam muitas e exerçam peso
crucial no desenvolvimento da criança cega, concluiu-se que, se lhe
for proporcionado uma educação precoce única, personalizada e
distinta, ela se desenvolverá plenamente, usando todo seu potencial
e criatividade, inserida na sociedade e com uma vida afetiva
harmoniosa.
Essa
pesquisa buscou evidenciar o viés da estimulação precoce sobre
trabalhos realizados por outros pesquisadores, já que foi uma
pesquisa bibliográfica.
No
entanto, há necessidade de aprofundamento com a pesquisa de campo e
enfoque em áreas específicas para que sejam investigados outros
pontos em que o desenvolvimento da criança deficiente visual
apresente peculiaridades.
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