
Espectáculo da Cia Ballet de Cegos de
São Paulo. Fundada em 1995, é reconhecida internacionalmente como a única companhia de ballet profissional do mundo composta maioritariamente por bailarinos com deficiência visual.
Resumo | O artigo suscita reflexões sobre as possibilidades do corpo cego e a
interação com a dança na construção da autonomia. Autores como Fleming, Frazão
e Lusseyran apontam questões sobre a rede tecida pelos sentidos na formação de
imagens sensório-motoras pelo deficiente visual. Damásio contribui para o
entendimento de emoção e razão. Llinás explica a construção do movimento baseado
na Neurociência. Katz traz a Teoria do Corpomídia para pensar a dança como
cognição. Nas considerações finais, observamos a dança como parte do conhecimento
humano e espaço que possibilita o entrelaçamento de saberes, haja vista o ser
humano se construir em rede pelo imbricamento entre corpo, ambiente e cultura.
Introdução
Habitamos em um mundo predominantemente visual. Imagine a importância da visão
para o ser vivo que necessita perceber o mundo a fim de interagir com ele e poder
se mover. Como se deslocar em segurança por este lugar “estranho”, “inóspito”,
“perigoso”, sendo este ser desprovido da principal fonte de percepção humana: a
visão? Ser cego é ter a percepção de um mundo borrado, sem contornos nítidos,
sem definições. É não poder contar com o recurso da visão para conhecer o mundo
no qual se vive. Os olhos são tão importantes para os seres humanos que ao se
referir a algo que tem a nossa atenção e cuidado, costuma-se dizer que é a
nossa “menina dos olhos”.
E por que existem seres humanos cegos? Alguns com cegueira total e outros com
cegueira parcial. Qual o motivo desta diferença? Onde encontrar as explicações
para estes fatos? Estas pessoas não são boas o suficiente e receberam um castigo
“divino”? Ou é um ser estranho que vem de fora e arranca os olhos e a capacidade
de visão dessas pessoas como no conto – “O estranho” – relatado por Freud (1976,
p. 289), no qual “O Homem de Areia é um ser perverso que chega quando as
crianças não vão para a cama e joga punhados de areia nos olhos delas, de modo
que estes saltam sangrando da cabeça”.
Que ser estranho é este que tem a
possibilidade de provocar deficiências, de interferir nas ações dos seres
humanos, tornando-os reféns das circunstâncias? É possível, por analogia,
compreender este ser estranho, o “Homem de Areia” que arranca os olhos das
crianças, como os acidentes e as enfermidades tipo diabetes – que podem ocorrer
e provocar cegueira, interferindo na qualidade de vida desses indivíduos.
Existem dois tipos de cegueira: congênita e adquirida. O primeiro tipo se
refere às pessoas que já nascem sem o recurso da visão; elas não possuem
imagens pré-formadas, inclusive a imagem corporal de si mesmo. O segundo tipo se
refere às pessoas que perderam a visão em algum momento da vida por causas
diversas; possuem imagens mentais anterior à deficiência. Além disso, a cegueira
pode ser total ou parcial; na cegueira parcial, o indivíduo apresenta visão
subnormal.
Provavelmente, de todas as deficiências que afetam os seres humanos, a
que mais priva o indivíduo do contato com o mundo externo é a deficiência
visual, visto que o olho é o maior captador de imagens sensório-motoras. Os
“olhos roubados” impossibilitam que esses indivíduos possam perceber e
compreender o mundo no qual estão inseridos. Eles necessitam de artefatos que
ampliem as suas possibilidades de entender o mundo. Mas, esta deficiência não é
algo que veio de fora, de um mundo fantástico, etéreo, como no conto de Freud
(1976, p. 288), um mundo “povoado de espíritos, demônios e fantasmas”.
Essa
deficiência pode estar na formação do ser, nas explicações biológicas, nas
doenças adquiridas ou nos acidentes que podem acontecer ao longo da vida; daí
Freud (1976, p. 289) afirmar que “o medo de ferir ou perder os olhos é um dos
mais terríveis temores das crianças. Muitos adultos conservam uma apreensão
nesse aspecto e nenhum outro dano físico é mais temido por esses adultos do que
um ferimento nos olhos”. Freud (1976) assegura que a ansiedade quanto aos
próprios olhos e o medo de ficar cego se relacionam ao temor de ser castrado.
O
corpo cego, assim como qualquer outro corpo, possui uma história pessoal. Ele é
constituído de movimento, pensamento, emoção, razão, sentimentos e sonhos,
muitos sonhos. As vias de acesso a estas informações é que são outras, pois eles
não utilizam a visão. Damásio (1996) afirma que sentimentos e emoções são
percepções diretas de nossos estados corporais e constituem um elo essencial
entre o corpo e a consciência, estando relacionadas com o processo de tomada de
decisão.
O movimento é a nossa primeira forma de linguagem: uma linguagem não
verbal estruturada no corpo. Partindo desta idéia, o corpo é a condição
primeira para que ocorra o pensamento a partir da articulação entre a coerência
e a coesão das ações sensório-motoras.
O corpo testa hipóteses de movimentos e seleciona os mais eficientes. Pelo
processo de memória e repetição promove a aprendizagem desses movimentos em uma
negociação com o ambiente, organizando a informação em tempo real. Ocorre um
mapeamento temporal, a informação que chega ao cérebro se reconfigura a todo o
momento pelo acesso às novas informações, facilitando a configuração rápida de
imagens. A imagem sensório-motora, segundo Llinás (2002), necessita de uma
pré-alimentação e uma retro-alimentação da informação.
A limitação do indivíduo cego está relacionada à percepção visual; entretanto
suas outras fontes de percepção estão intactas e possibilitam a aprendizagem. Aqui a regra válida é que cada indivíduo tenha a possibilidade de explorar o
ambiente, buscando novas formas de interação, ampliando suas capacidades
multissensoriais para uma aprendizagem significativa, reorganizando os
conhecimentos pela interação dos sentidos não comprometidos.
O desenvolvimento da competência sensório-motora ocorre ao longo da vida, não
se restringe apenas ao período da infância (LAKOFF; JOHNSON, 1999; LLINÁS,
2002). Este fato reforça a importância da prática da dança mesmo na vida
adulta. Para os indivíduos cegos, esta prática torna-se ainda mais relevante
pelas interações espaço/temporais e corporais com os processos mentais. Os
processos de assimilação, organização, reorganização e acomodação das
experiências vividas pelos indivíduos cegos ocorrem de forma mais lenta do que
nos indivíduos normovisuais, 1 entretanto, eles acontecem.
Frazão (1968) afirma que a audição e o tato possuem grande importância nas
elaborações mentais do indivíduo cego. Também o aparato proprioceptivo é
requisitado para o controle postural e a manutenção do equilíbrio. Sobre esta
questão, é necessário compreender que:
Postural stability is essential in the
everyday activities involved in leading an independent lifestyle. […] The
ability to modulate posture and voluntary movement serves to enhance the
acquisition of environmental information, not only from visual mechanisms but
also from somatosensory and vestibular mechanisms 2 (WADE; JONES, 1997, p. 620-621).
A dança apresenta esta possibilidade, pois além de trabalhar aspectos que
envolvem a construção do pensamento, a criatividade e as idéias de tempo-espaço,
melhora a manutenção do equilíbrio e da postura corporal. É necessário
entender que as capacidades e habilidades do indivíduo cego não estão
limitadas; a organização perceptiva é que se processa de maneira diferente
devido à ausência da visão.
Praticar dança permite ao indivíduo cego construir suas próprias idéias de tempo
/espaço, de manutenção do equilíbrio pela reorganização postural, a partir da
utilização dos outros sentidos, do aparato vestibular e da propriocepção. O
indivíduo estabelece seu ritmo próprio de aprendizagem através da
experimentação, do contato corporal, do toque, da exploração do espaço e dos
sons. Os conhecimentos produzidos nestas experimentações são levados para as
atividades da vida diária.
A dança, para o deficiente visual, possibilita a
superação de limites impostos pela cegueira, ampliando as possibilidades
motoras com a execução de movimentos conscientes. Ela promove a melhoria do
equilíbrio e da locomoção; da socialização, da realização pessoal e propicia uma
vida ativa; além disso, a dança aumenta a compreensão da noção espaço/temporal
e a noção de consciência corporal pela concretização da imagem de si mesmo,
podendo ser um espaço de descobertas e consolidação de novos padrões motores
que possibilitam novas aprendizagens e a aquisição da autonomia.
A aquisição do
movimento em dança pelo indivíduo cego depende das condições oferecidas pelo
meio e pelo grau de apropriação que o corpo fizer destas ações pela percepção,
estabelecendo relações entre as sensações e os movimentos elaborados. Isso
possibilita ao indivíduo prever mentalmente atos motores cada vez mais
complexos, sendo o corpo coparticipativo na construção desse
conhecimento.
Piaget (1964) defende a idéia de que o conhecimento é fruto de
construções sucessivas com elaborações constantes de novas estruturas. Este
pensamento nos remete a Katz (2005) quando a autora afirma que a cada vez que
realiza um mesmo movimento, o mapa neuronal já não é o mesmo, pois este
acontece no tempo/espaço do acontecimento real. Sendo assim, quando o indivíduo
se depara com novas situações, seja ele cego ou não, utiliza esquemas de ações
sensório-motoras disponíveis para a percepção, construção e assimilação do
movimento no momento em que o mesmo acontece.
Lakoff e Johnson (1999) ratificam
este pensamento quando afirmam que todas as informações que chegam ao corpo via
percepção são sensório-motoras. Ocorre uma formação de redes neuronais, um
criterioso trabalho de seleção de informação em rede pela capacidade de
neuroplasticidade 3 do cérebro.
O indivíduo não armazena as informações, seja em
um corpo cego ou não; elas são refeitas a cada momento sempre que necessárias,
apoiando-se no real, nas conexões entre o mundo externo e o aparato cerebral. Desse modo a aprendizagem é construída no fazer concreto, na manipulação, na
locomoção, representando internamente a realidade (LLINÁS, 2002).
O indivíduo
cego não tem a possibilidade de receber as informações do mundo externo através
da visão. De que forma então pode ser percebida a informação dança pelo
deficiente visual? Este corpo cego percebe a dança da mesma forma que os
indivíduos normovisuais percebem?
Nesta perspectiva, a motivação é um fator
intrínseco relevante no processo ensino-aprendizagem da dança, pois mobiliza e
impulsiona o indivíduo, predispondo-o a agir para alcançar os seus objetivos e
a buscar soluções para resolver os problemas. A motivação aliada à curiosidade
são as molas propulsoras na descoberta das possibilidades do corpo. Utilizando a
percepção e a reflexão, ocorre a assimilação dos movimentos da dança pela
representação construída mentalmente, permitindo ao cego, como lembra
Lusseyran (1995, p. 44), “mergulhar numa vida que é tão real e difícil quanto às
outras vidas”, mas que vale a pena ser vivida.
De acordo com Fleming
(1978, p. 109): “a criança cega terá dificuldade com tarefas cognitivas e
perceptivas caso não obtenha uma vasta gama de experiências e oportunidades de
explorar seu ambiente”. A dança possibilita esta exploração e o aumento deste
repertório de experiências e oportunidades pela utilização do sistema
somatossensorial, aguçando os sentidos tátil, auditivo e cinestésico.
Quanto maior for o tempo de exploração do movimento individual ou na
relação com o outro, maior será a compreensão e a assimilação deste movimento,
facilitando o entendimento do tempo/espaço, das noções de lateralidade, da
aquisição do equilíbrio e do controle postural, além da melhoria da mobilidade. Refina também a idéia de corpo nas inter-relações com os outros e com o ambiente.
Golomer et al. (1999) e Vuillerme et al. (2001a apud NAGY et al., 2004) afirmam
que: “It has been observed that professional dancers and gymnasts are
significantly more stable and less dependent our visual for postural control that
untrained subjects 4”. Se este fato é observado nos indivíduos normovisuais que
praticam dança, apresentando resultados significativos; por analogia, é possível
compreender que para o indivíduo cego a prática da dança possibilita esta
estabilidade no controle postural, melhorando a sua mobilidade e conseqüente
autonomia.
Nowill (1996) garante que o maior desejo do indivíduo cego é poder
participar da vida em sociedade. Para que isto ocorra é necessário promover
ações que possibilitem a sua autonomia. Ele necessita pegar, manipular e sentir,
a fim de perceber a realidade concreta. Para facilitar este processo é necessária
a interação dos sentidos, facilitando a percepção e conseqüente aprendizagem.
Muitas são as tentativas de melhorar a qualidade de vida das pessoas portadoras
de deficiências. Estas ações permitem a participação destes corpos na sociedade,
possibilitando uma interação entre os sujeitos e se não for possível a
superação, pode auxiliar na convivência com a deficiência, buscando promover a
autonomia desses indivíduos. Os deficientes não necessitam da compaixão dos
não-deficientes; eles necessitam de espaço na sociedade da qual fazem parte. Não
se trata aqui de assistencialismo e sim de oportunidades para que eles exerçam
o seu papel de cidadão. Este fato inclui a possibilidade de participar de
atividades que, a princípio, parecem impróprias para o deficiente. A dança é um
exemplo.
A compreensão deste fato permite que esses indivíduos sejam inseridos
no campo artístico, cultural, educacional, político e social pelo acesso à
prática destas atividades individualmente ou em grupos. Entretanto, muitas são
as dificuldades encontradas por estes corpos deficientes: profissionais
despreparados, espaços inadequados e falta de oportunidade são alguns exemplos. No caso do deficiente visual, as dificuldades aumentam sobremaneira pela
impossibilidade de utilizarem a capacidade antecipatória do cérebro de prever
situações e saber solucioná-las adequadamente. Isto se dá pela ausência da
visão que é a responsável pela pré–alimentação das respostas motoras (LLINÁS,
2002).
Bobath (1978) ratifica esta idéia ao afirmar que o sentido da visão dá
acesso às informações do mundo externo, sendo o principal sentido utilizado na
formação de imagens sensório-motoras. A partir destes dados indagamos: É
possível o corpo cego se apropriar da informação dança? Como este fato se
processa?
Dançar sem olhos
Sabemos que a aquisição e construção dos movimentos
acontecem a partir da percepção sensorial, sendo o sistema visual o principal
responsável por este fato. Que recursos os deficientes visuais utilizam para
elaborar os movimentos e transformá-los em dança sem ter o referencial do mundo
externo? Como esta experiência se dá sem a presença de movimentos visualizados
para serem entendidos?
Para entender esta experiência é preciso pensar a dança
no momento em que ela acontece, pois Llinás (2002) assegura que o pensamento é a
interiorização evolutiva do movimento. Para Katz (2005), a dança é uma forma de
pensamento. Sendo a dança movimento, estas idéias se complementam.
A dança
nasce quando no corpo se desenha um determinado tipo de circuitação
neuronial/muscular. Este mapa, exclusivamente ele, tem o caráter de um
pensamento. Quando ele se dá a ver no corpo, o corpo dança. Esse momento parece
inaugural. No entanto, o apresentar-se da dança no corpo já representa o fim de
um caminho. Quando lá se instala, a dança inaugura uma outra cadeia de
circuitação para o corpo. Os acionamentos que impelem esse trânsito têm o mesmo
caráter daquele que ocorre no cérebro humano (KATZ, 2005, p. 52).
Para
compreender a dança, os indivíduos cegos necessitam vivenciar experiências
corporais que possibilitem o contato com o mundo e com os outros. Llinás (2002)
afirma que “mirar é uma forma sutil de tocar”; observando esta idéia é possível
pensar que na ausência da visão “tocar é uma forma diferente de ver”; isto é,
utilizar a audição para “sentir” o ritmo e o tato para “perceber” o movimento e
a relação com o corpo.
Os seres humanos são modulados pelos sentidos para se
relacionar com o mundo a sua volta. A visão é a principal via de recepção das
imagens que possibilitam a nossa compreensão de mundo; os deficientes visuais
não possuem esta via. Para compreender o que é um mundo sem imagens, podemos
fechar os olhos e imaginar, tentar nos locomover em um espaço desconhecido sem o
uso de artefatos que ampliem a nossa possibilidade de visão. Ainda assim somos
privilegiados, pois já conhecemos o mundo externo e temos a idéia destes fatos
que podem ser recuperados pela evocação das memórias já experenciadas.
A bengala
de Hoover 5 é um artefato que “expande a visão” do deficiente visual, aumentando a
distância entre este e os objetos que o cercam, proporcionando-lhe uma maior
autonomia. Merleau-Ponty (1994, p. 198) explica que “a bengala para o cego não é
um simples objeto, sua extremidade é uma zona sensível que aumenta a amplitude e
o raio de ação de tocar, semelhante a um olhar”. Ela é um instrumento de
orientação e promove a autonomia do indivíduo cego, funcionando como uma
extensão do próprio corpo. Esta idéia nos reporta a pensamentos já cultivados no
Renascimento:
[...] vê tudo em relação e procura(r) correspondência entre
corpo, natureza e instrumentos. São metáforas que se enviam reciprocamente pelos
parâmetros comuns percebidos nessas três instâncias. Por isso, seu mecanicismo é
metafórico e procura sempre associar máquinas a modelos, figuras, organismos e
necessidades práticas humanas. Ele vê os instrumentos como extensão das
capacidades do organismo humano de pôr-se em relação com o mundo e utilizá-lo
(BRANDÃO, 2004, p. 278).
Ainda Brandão (2004, p. 279) lembra que “para Alberti,
a máquina é produto da história humana e metáfora que multiplica as
possibilidades de todo nosso ser. [...] Alberti humaniza a máquina e a
coloca em função dos fins humanos”.
A dança para o deficiente visual deve ser uma
experiência na qual ocorra uma interação e um compartilhamento de informações em
nível de pele pelo toque, pelo sentir das características de outros corpos. É
possível afirmar que são corpos que se comunicam. Hellen Keller, cega e surda
desde bebê, reforça a necessidade do toque das mãos para o desenvolvimento da
percepção de mundo do indivíduo cego:
Não posso desfrutar da beleza do movimento
rítmico senão numa esfera restrita ao toque de minhas mãos. Só posso imaginar
vagamente a graça de uma bailarina, como Pavlova, embora conheça algo do prazer
do ritmo, pois muitas vezes sinto o compasso da música vibrando através do piso. Imagino que o movimento cadenciado seja um dos espetáculos mais agradáveis do
mundo. (HELLEN KELLER 6).
Possibilitar aos deficientes visuais o contato com a
dança é uma forma de ajudá-los a sentir, perceber, conhecer e aprender. Além
disso, vivenciando a dança, esses indivíduos têm a possibilidade de utilizar
suas capacidades, descobrir suas habilidades e explorar suas potencialidades,
aumentando a sua autonomia.
Dançar é movimentar-se. No caso do indivíduo cego
é “ver” com o corpo o que os olhos não podem enxergar; é ultrapassar limites
impostos pela deficiência visual. É aprender a partir da experiência em tempo
real, sendo a imagem sensório-motora uma realidade produzida pela interação das
percepções no aparato cerebral. A formação da imagem corporal no indivíduo cego
depende de informações táteis, auditivas e cinestésicas já que as experiências
visuais são limitadas, dificultando-lhe a percepção do mundo.
A imagem corporal e
a relação desta com o espaço circundante elaborada pelo corpo cego,
possivelmente, apresentam fronteiras borradas por o indivíduo não ter a
percepção visual dos objetos e do seu próprio corpo. O contato com o outro nas
aulas de dança facilita este processo, uma vez que o leva a perceber o movimento
que o outro realiza, permitindo reconhecer o movimento do próprio corpo e expor
idéias corporalmente, se apropriando de parâmetros sensório-motores relacionados
à marcha, ao equilíbrio, à força, à flexibilidade e ao tônus muscular.
O deficiente visual constrói o seu universo a partir do toque e os seus
movimentos em dança serão construídos a partir do seu repertório de
experiências. Poder movimentar-se sem o auxílio de outras pessoas é, para o
deficiente visual, sinônimo de autonomia conquistada passo-a-passo em um processo
contínuo de novas adaptações, promovendo novas aprendizagens. Desta forma,
dançar não deve ser um ato mecânico destituído de significado para o corpo que
dança. As atividades de dança para os deficientes visuais devem ser criativas,
lúdicas, com movimentos que promovam a autonomia deste corpo.
A dança pode ser
construída a partir dos movimentos cotidianos, das atividades da vida diária e
da locomoção, promovendo autonomia. Com isso há um ganho na qualidade de vida,
possibilitando a inserção sócio-cultural do indivíduo cego na comunidade como um
cidadão ativo e capaz. Desse modo, a dança não deve estar presa a valores e
modelos pre-estabelecidos e deve permitir que o indivíduo descubra nos
movimentos o seu fazer com estilo e caráter próprio; fato que o individualiza. Além disso, ela deve ser desenvolvida juntamente com os indivíduos normovisuais
promovendo assim a interação, pois, o movimento em dança também é coletivo.
Nesse sentido, a dança pode surgir a partir do jogo, da brincadeira, da
atividade dirigida, da exploração de movimentos através do toque, da relação
corpo-a-corpo, unindo emoção e razão. O indivíduo cego tem a possibilidade de
explorar a sua criatividade e descobrir a sua potencialidade criadora, pois,
como corrobora Llinás (2002; p. 198), “[...] a criatividade do cérebro
humano, os processos neurais inerentes àquilo que chamamos de criatividade nada
tem a ver com a racionalidade. [...]. A criatividade não nasce da razão”.
A
dança, para o corpo cego, deve ser pensada como movimento, corpo em ação, e não
como terapia; pois a habilidade motora, uma vez adquirida, se consolida e isto
leva a autonomia, diminuindo a ação dos fatores limitantes impostos
externamente ao corpo cego. Se a dança é o pensamento do corpo, como afirma Katz
(2005), cabe-nos perguntar: – Qual a importância da dança na construção da
autonomia do indivíduo cego? De que forma atua no desenvolvimento da percepção
corporal deste corpo? Qual o significado da dança para estes corpos?
A dança para
o deficiente visual pode significar a intermediação entre o seu corpo, o corpo do
outro e o ambiente, permitindo-lhe ganhos na qualidade de vida como a melhoria
da auto-estima, o equilíbrio, a manutenção postural e, principalmente, a
autonomia. Neste processo, a dança deve ser valorizada porque através dela o
indivíduo percebe o movimento em relação ao seu corpo e o corpo do outro; o seu
espaço e o espaço do outro, e também a interação entre estes.
Acreditamos que a
dança neste corpo privado de visão possibilita novas relações do sujeito que
dança com o seu Umwelt 7 e o ambiente. Santaella (2003, p. 184) lembra que “não
vemos o mundo lá fora como algo separado de nós, mas vemos apenas aquilo que
nossa organização sistêmica nos permite ver”. Partindo desta idéia é possível
afirmar que o indivíduo cego ‘ver’ aquilo que a união dos outros sentidos permite
captar do mundo externo.
Assim como Alberti, citado por Brandão (2004) também
Santaella (2003) reforça a idéia de ampliação das possibilidades do corpo pela
presença de artefatos e da união de eventos que constituem a nossa humanidade:
Em um mesmo corpo, reúnem-se o mecânico e o orgânico, a cultura e a natureza, o
simulacro e o original, a ficção científica e a realidade social. A declaração de
Haraway de que somos todos ciborgs deve ser tomada em sentido literal e
metafórico. No sentido literal, porque as tecnologias biológicas e
teleinformáticas estão, de fato, redesenhando nossos corpos. Metaforicamente,
porque estamos passando de uma sociedade industrial orgânica para um sistema de
informação polimorfo (SANTAELLA, 2003, p. 186).
O corpo do mundo contemporâneo
tem sido redesenhado por tecnologias cada vez mais sofisticadas, tecendo uma rede
complexa entre os eventos que constituem a nossa humanidade. Desta forma,
corpos cegos que dançam também têm suas habilidades e competências redesenhadas
pela possibilidade de utilização dessas novas tecnologias.
Nesta perspectiva,
este corpo está sempre em um estado transitório de imagens e memórias
experenciadas que se constituem no trânsito de informações entre corpo e
ambiente, natureza e cultura. É um corpo ativo na ação cognitiva que está
imbricado em um contexto cultural, social, imaginativo, desejante, passional e
metafórico como esclarecem Lakoff e Johnson (1999). Desta forma, observando o
pensamento de Freire (1996), os corpos cegos que dançam estabelecem no ato de
aprender/fazer dança um ato político, criativo e transformador, pois se
inscrevem em um ser/fazer/estar contínuo, incompleto, inacabado e metafórico;
representativo da própria experiência humana em um diálogo presentificado na
complexidade do existir.
Considerações finais
Este trabalho deseja suscitar
reflexões sobre as possibilidades do corpo cego e a sua interação com a dança em
uma proposta de construção da autonomia, lembrando ser este sujeito constituído
de sentimentos, sonhos, desejos, emoção e razão. Um sujeito biológico,
cultural, histórico, social e político que possui a sua individualidade e é
também um sujeito coletivo, construído em uma rede que deve possibilitar a sua
inserção como cidadão; um ser capaz, livre de discriminação na sociedade a qual
pertence.
Entender o espaço próprio da dança neste processo como uma busca
pessoal de construção do movimento em tempo real, pois o conhecimento não
acontece apenas pelo uso da razão e sim pela interação com a emoção, possibilita
compreender a importância da dança na aquisição/construção do movimento no/pelo
corpo cego. A dança como atividade possível de ser realizada pelo corpo cego
deve se preocupar com o estudo do corpo e suas ações, compreendendo o corpo em
sua relação com o ambiente; isto acontece no fazer.
Nesta perspectiva,
preocupar-se com o estudo do corpo significa compreender o corpo que se move em
um determinado espaço, a interação com o corpo do outro na construção da idéia
de tempo/espaço, a relação com o ambiente na busca da autonomia do corpo cego,
mas com possibilidades de descobertas.
Neste sentido, praticar dança é relevante
e depende da integração dos sentidos, potencializando assim as capacidades e
habilidades corporais. A descoberta e a exploração do movimento estão imbricadas
e são co-dependentes, sendo parte da necessidade humana de sobrevivência do
indivíduo e também da permanência da espécie na terra. Para o corpo cego, esta
necessidade se faz maior.
Assim, este conhecimento em dança se constrói
cotidianamente com base nas experiências individuais e na interação do sujeito
com o outro e com o mundo, respeitando as limitações próprias. Quanto maior for
o repertório de experiências do indivíduo, maiores serão as suas chances de
aprendizagem. Esta é uma relação de grandeza diretamente proporcional e a
dança propicia este espaço de aprendizagem e construção de autonomia.
Pensar a
dança como área de conhecimento que possibilita a utilização da criatividade, a
aquisição e a produção de conhecimentos vinculados à atividade concreta, ao
desenvolvimento de capacidades e de habilidades é o maior desafio deste trabalho
com corpos cegos.
É também a abertura de um espaço de atuação para profissionais comprometidos com
as questões públicas que envolvem estes corpos.
Nesta perspectiva, é necessário
perceber a importância da dança como atividade compartilhada que proporciona
percepção do mundo, do outro e de si mesmo ao indivíduo cego. Este pode utilizar
o contato físico, o fluir do movimento independente de estímulos externos, para
compreender as mensagens enviadas pelo próprio corpo para a construção do
movimento consciente a partir de tomadas de decisão que lhe permite a escolha
de respostas, possibilitando um refinamento dos esquemas sensório-motores.
O
mundo do indivíduo cego não precisa ser restrito e sem possibilidades; mesmo
tendo limitação sensorial, são pessoas com capacidades e limitações como as
outras e podem usufruir da dança – uma ação corporal que ocorre em tempo real
possível a qualquer ser humano. Não podemos esquecer que o deficiente visual é
um ser humano constituído de corpo, história, emoção, razão, sentimento,
pensamento e sonhos; como tal tem o direito de usufruir dos conhecimentos
humanos. A dança é uma dessas formas de conhecimento.
NOTAS
-
1 Normovisuais: pessoas com visão dentro do padrão de normalidade.
-
2 Tradução das Autoras: Estabilidade postural é essencial nas atividades diárias
envolvidas em guiar um estilo de vida independente. […] A habilidade para
modular a postura e os movimentos voluntários serve para intensificar a aquisição
da informação ambiental, não somente a partir de mecanismos visuais, mas também
a partir dos mecanismos somatossensórios e vestibular
-
3 Neuroplasticidade do cérebro: capacidade de adaptabilidade a novas situações
-
4 Tradução das Autoras: Tem sido observado que dançarinos profissionais e
ginastas são significativamente mais estáveis e menos dependentes da visão para o
controle postural que sujeitos não treinados.
-
5
O Primeiro Tenente Oftalmologista Richard Hoover, após a segunda Guerra
Mundial, se propôs a estudar e tratar o problema da cegueira e o mecanismo da
marcha e criou um método revolucionário de locomoção, usando um instrumento que
lembrava um bastão, mas com função, material e comprimento diferentes. Este
instrumento recebeu o nome de Bengala de Hoover. Disponível em:
<http://intervox.nce.ufrj.br/ãmi-gosbr/historia.html>. Acesso em: 15 dez. 2006
-
6
Três dias para ver – Ensaio escrito por Hellen Keller e publicado na revista
Seleções Reader’s Digest há 70 anos. Reeditado em Seleções Reader’s Digest em
junho de 2002. Disponível em:
<http://www.cerebromente.org.br/ n16/curiosidades/ helen.htm>. Acesso em: 15
nov. 2006.
-
7 Umwelt: “Universo particular” ou “privado”, proposto por Uexkull (1992) apud
Vieira (2006). Percepção de um Universo que não é real, mas o que é permitido
pela complexidade, produzido na interação com a realidade.
Referências
-
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Vicente e Georgina Segurado. 2 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. FLEMING, J. W. A criança excepcional. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978. FRAZÃO, M. F. Princípios básicos na educação de deficientes visuais. In: Revista
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Acesso em: 18 set. 2006
autoras:
◘
Clotildes Maria de
Jesus Oliveira Cazé é
Mestra em Dança pelo PPGDança da Escola de Dança da UFBA (2008), Especialista em
Ginástica Rítmica pela UNOPAR (2003) e em Psicopedagogia pelo CEP/MEx/UFRJ
(1998). Graduada em Educação Física pela UCSal (1982).
◘ Adriana da Silva Oliveira é Graduada em Fisioterapia pela Escola Bahiana de
Medicina e Saúde Pública (2004) e mestranda em Dança pelo PPGDança da Escola de
Dança da UFBA (2008).
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