
Eliana Nascimento & Luciene Marques

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RESUMO |
As dificuldades enfrentadas pelos deficientes visuais são inúmeras e uma delas é o uso de medicamentos.
A grande limitação do acesso à informação sobre produtos farmacêuticos e enfermidades é um
fato importante que contribui para o uso inadequado de medicamentos. O objetivo deste estudo foi formar uma base de dados sobre os deficientes visuais que permita a definição de estratégias para a implantação
da Atenção Farmacêutica no grupo estudado. O estudo foi realizado entre fevereiro a agosto de 2007 na
Associação Aliança dos Cegos situada na cidade do Rio de Janeiro, Brasil. O termo de consentimento pós
informado foi obtido de todos participantes antes do início do estudo. A metodologia empregada foi a qualitativa
em nível exploratório. Os dados foram coletados utilizando-se um roteiro pré definido em 30 participantes
do sexo masculino com idade entre 18 e 89 anos. A dificuldade de administração de algumas formas
farmacêuticas foi um dos principais problemas relacionados ao medicamento encontrados no grupo
estudado. Estratégias foram definidas para a implantação da atenção farmacêutica neste grupo: consulta
das necessidades, anseios e prioridades dos cegos; comunicação eficiente geradora de confiança e amizade;
aconselhamento e programas educativos e motivacionais de saúde para os deficientes e sua família; atuação
de uma equipe multidisciplinar e com visão humanística.
INTRODUÇÃO
A percepção que o homem tem do mundo e
sua colocação nele, bem como sua interação e
inclusão social têm estreita relação com a visão.
Segundo Millecco
1, nossa civilização é eminentemente
visual, onde os outros sentidos parecem
não ter a mínima importância para o homem,
marcando os deficientes visuais com preconceito
e rejeição 1,2.
A Organização Mundial de Saúde (OMS)
apresentou uma estimativa em 1993 na qual
existiam cerca de 700 mil deficientes visuais no
Brasil. De acordo com o censo de 2000 realizado pelo IBGE, 24,5 milhões de brasileiros eram
portadores de algum tipo de deficiência, ou seja,
14,5% da população nacional. Desse total,
48,1% possuem deficiência visual e pertencem
predominantemente às camadas mais desfavorecidas
da sociedade brasileira e menos atingidas
pelas políticas sociais
3,4.
As pessoas com problemas de saúde crônicos,
de acordo com Smeltzer & Bare
5, podem
viver independentemente e levar uma vida plena
com o mínimo de distúrbios e outras podem
requerer monitorização frequente. No caso dos
deficientes visuais, a monitorização freqüente e
controlada constitui uma dificuldade em função
da própria deficiência, já que estes apresentam
restrição da mobilidade independente, principalmente
em ambientes não familiares
6. Além disso,
nos grandes centros urbanos é muito pequeno
o número de médicos que dispõem de tempo
para atendimento domiciliário.
A prevenção e a promoção da saúde, objetivando
uma melhor qualidade de vida através da
orientação, educação, monitoramento da terapia
medicamentosa e de todo seu contexto são as
principais características da Atenção Farmacêutica
7.
A OMS define qualidade de vida como a percepção
do indivíduo de sua posição na vida no
contexto da cultura e sistema de valores nos
quais ele vive e em relação aos seus objetivos,
expectativas, padrões e preocupações
8. Abrange
a saúde física, o estado psicológico, os níveis
de independência, o relacionamento social, as
características ambientais e o padrão espiritual
9,10.
Segundo o censo de 2000 do IBGE, a proporção
de pessoas deficientes aumenta com a
idade. Mais de 70% dos deficientes visuais graves
têm acima de 65 anos e, na sua maioria,
apresentam pelo menos uma doença crônica em
decorrência da idade
11.
O impedimento à palavra impressa gera uma
limitação na autonomia e inserção social
12. Atualmente, o acesso ao braile ainda é precário
principalmente para os idosos. A partir dos 65
anos, o tato se torna menos aguçado, o que dificulta
o aprendizado de uma nova escrita, além
do custo do equipamento ser relativamente elevado.
Existe uma grande quantidade de pacientes
com problemas visuais que podem ter dificuldades
para administrar corretamente os medicamentos
13. A identificação equivocada do medicamento,
a dose e o horário inadequados e a
percepção de reações adversas que afetam negativamente
a qualidade de vida do paciente,
aumentam custos, podendo também dificultar o
sucesso da farmacoterapia
14,15.
A Atenção Farmacêutica busca garantir a necessidade,
a segurança e a efetividade no uso
de medicamentos
5,3,16. Pode contribuir ainda,
no desenvolvimento da autoconfiança e valorização
da própria capacidade do deficiente em
agir com maior segurança em relação ao uso
dos medicamentos. Portanto, para definir uma
estratégia de implantação é necessário conhecer
o universo destas pessoas e obter informações
suficientes sobre elas, para definir o melhor método
de Atenção Farmacêutica.
Diante do exposto, o objetivo deste trabalho
foi conhecer as necessidades dos deficientes visuais
em relação aos cuidados com a saúde e o
tratamento medicamentoso e definir estratégias
para implantação da Atenção Farmacêutica.
MATERIAL E MÉTODOS
O estudo foi realizado na Associação Aliança
dos Cegos no bairro de São Francisco Xavier na
cidade do Rio de Janeiro, Brasil. A Associação é
reconhecida como Instituição de utilidade pública
pelo Governo Federal – Decreto 4.807 de 24
de outubro de 1939 e atende 68 deficientes visuais
do sexo masculino, sendo 30 deles em regime
interno. A coleta de dados foi realizada no
período de fevereiro a agosto de 2007 por meio
da observação participante e entrevistas, preservando
a privacidade dos entrevistados após o
consentimento dos mesmos.
O universo da pesquisa foi constituído de 30
pessoas com deficiência visual com idade entre
18 a 89 anos. Parte delas residente no local, outras
passavam o dia e retornavam para suas residências.
A escolha dos entrevistados foi aleatória,
determinada pela presença dos mesmos nos
dias das entrevistas. A metodologia utilizada
apresenta a modalidade qualitativa, pois buscou-se maior compreensão do tema.
A coleta de dados foi feita por meio de um
formulário com questões fechadas e abertas, organizado
em duas partes. Na primeira parte, a
pesquisadora coletou dados para a identificação
dos sujeitos. A segunda parte foi composta por
questões que visaram conhecer as percepções
dos sujeitos a respeito do tema estudado. As entrevistas
foram gravadas.
Considerando que os dados coletados foram
do tipo qualitativo, gerado a partir do registro
detalhado, no preenchimento do formulário, os
dados foram organizados por categorias para facilitar
a interpretação dos resultados.
Para a efetivação das análises foram realizados,
primeiramente momentos de leitura livre
para um conhecimento geral do resultado e
posteriormente buscou-se identificar os temas
mais significativos e recorrentes. A partir dessa
identificação, procurou-se organizar os dados
em categorias.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os resultados das entrevistas foram obtidos
através de curtas transcrições das respostas e
agrupados em gráficos e tabelas para melhor
compreensão.
Características dos entrevistados
Conforme os dados apresentados na Tabela
1, dos trinta entrevistados 80 % encontravam-se
acima dos 41 anos.
Idade
(anos)
|
N.° de entrevistados
|
Percentagem (%)
|
<20 21 – 30 31 – 40 41 – 50 51 – 60 > 60
|
1 1 4 6 8 10
|
3,33 3,33 13,33 20,00 26,67 33,33
|
Total:
|
30
|
100,00
|
Tabela 1. Faixa etária dos entrevistados no ano da entrevista
(2007).
Em relação à idade da perda da visão, conforme
a Figura 1, a faixa etária mais populosa
dos entrevistados (33%) estava entre um mês de
vida até 10 anos de idade, seguida pela faixa de
40 a 50 anos de idade (20%).

Figura 1. Faixa etária da perda da visão.
A data de aparecimento e o tempo de cegueira
são variáveis que intervêm sobre o comportamento
destas pessoas, pois quanto mais
tarde surge a cegueira maior a probabilidade de
encontrar sentimentos de tristeza e desespero
que provocam ansiedade e depressão crônicas.
A natureza da deficiência (Fig. 2) é relevante
no tipo de ajustamento ao nível social e emocional
efetuado pelos deficientes visuais. Os entrevistados
com cegueira adquirida, súbita ou
gradual, passam grande parte do tempo centrados
sobre a sua perda.

Figura 2. Causas da perda da visão.
Os entrevistados que perderam a visão gradualmente
mostraram-se mais adaptados à nova
condição física, dentro de suas limitações, em
relação aos que perderam a visão subitamente.
São mais receptivos a novas informações e
orientações, o que é essencial na Atenção Farmacêutica.
Ser cego é...
Ao serem indagados sobre o que significa ser
cego, obtiveram-se as seguintes respostas:
-
“É dificuldade
do ser humano, porém suportável quando
se tem o apoio da sociedade”, “É ser maltratado
por muita gente. O cego tem que se colocar
no seu lugar”. “É viver na escuridão para sempre.
Tanto faz se é dia ou noite. A vida acabou. É só
ir levando”. “Me sinto capaz com certas limitações
como o vidente também”.
Dentre os entrevistados,
20,0% responderam que ser cego é um
problema de adaptação, 23,4% que são dificuldades,
20,0% que é revoltante, 30,0% que é ser
dependente, 3,3% que é ser maltratado e 3,3%
que é ser limitado.
Ao orientar um paciente deficiente visual, o
farmacêutico deve desenvolver a potencialidade
inerente a cada pessoa, levando conhecimentos
e técnicas, às vezes simples, mas eficazes no
contexto do uso racional dos medicamentos.
É o incentivo à elevação da auto estima que faz
com que certas limitações sejam superadas e o
paciente perceba que sua deficiência não é incapacitante
e tão pouco uma doença.
Visão própria e das pessoas videntes sobre
a cegueira, segundo os entrevistados
“Muitos amigos se afastaram, me sentia como
uma cruz, que eu atrapalhava, me sentia muito
humilhado”, “Sou alegre, mas depende do lugar.
Onde há maior número de cegos o convívio é
melhor”, “Sou muito dependente”.
Sob o ponto de vista dos deficientes visuais
entrevistados, a visão da sociedade em relação a
eles é predominantemente preconceituosa
(46,7%). Eles se sentem oprimidos pela sociedade
que não os compreende, e com isso se fecham
em si mesmos ou preferem o convívio só
com outros deficientes. O farmacêutico, como
cidadão e como profissional, deve estar consciente
de sua responsabilidade em contribuir
para a diminuição das desigualdades.
Motivo de estar na Associação Aliança dos
Cegos
Ao serem indagados sobre o motivo de estarem na
Associação Aliança dos Cegos, obtiveram-se as seguintes
respostas: “Vim para estudar, mas não
me adaptei ao braille e preferi trabalhar” e “Como
eu não podia ficar só, minhas primas me
trouxeram para cá. Aprendi a andar só com os
outros companheiros daqui”.
Somente duas opções foram mencionadas
pelos entrevistados: local para morar (70 %) e
local para trabalhar (30 %). Na Associação, os
deficientes produzem vassouras, espanadores e
outros objetos que são comercializados para auxiliar
na manutenção da Instituição.
Família
Ao serem indagados sobre a família, obtiveram-se
as seguintes respostas: “Minha família não me
aceita do jeito que estou. Eles se incomodam
com a minha presença, poucas vezes ligam prá
cá”, “Me discriminam totalmente. Não querem
saber de mim. Sou sozinho” e “Todos se preocupam
comigo. Me ligam a toda hora e não querem
que eu fique aqui no Rio de Janeiro. Sou de
outro estado. Mas eu me sinto melhor no meio
dos meus colegas, pessoas iguais a mim”.
Dos
entrevistados, 70% foram abandonados pela família;
10 % relataram que a família era indiferente
à sua presença e 20% recebiam apoio dos
familiares.
Dentro desse contexto, o farmacêutico, no
seu papel de educador de saúde, deve incluir
na sua estratégia de Atenção Farmacêutica aos
deficientes visuais, um programa de participação
da família, onde seja possível a compreensão
da deficiência e das enfermidades apresentadas
por eles.
Dificuldades para chegar ao consultório
médico e freqüência das consultas médicas
De acordo com 100% dos entrevistados, a
maior dificuldade para chegar ao médico é a locomoção.
Com relação à freqüência
que consultam o médico,
63,3% responderam que a
última vez que foram a
uma consulta médica
havia mais de dez anos;
13,3% responderam que
havia mais de sete anos
e outros 13,3%
responderam que
compareciam
periodicamente, de seis
em seis meses no
consultório médico. Um
entrevistado (3,3%)
respondeu que a última
vez que esteve no
consultório médico havia
seis meses, mas porque
passou mal e que era
difícil procurar um
médico. Os outros dois
entrevistados (6,6%)
responderam que havia 10
meses e quatro anos
respectivamente que
procuraram um médico.
A locomoção é uma das grandes dificuldades
relatadas pelos deficientes visuais que necessitam
de ajuda para transitar em lugares distantes,
populosos e desconhecidos para eles. Seguem
alguns dos depoimentos:
“A dificuldade para ir
ao médico é que dependo de alguém para me
colocar no ônibus, depois dependo de alguém
para saltar do ônibus e por fim dependo de alguém
para me fazer chegar na porta do médico”,
“Tenho medo de andar só. Da última vez
que fui ao médico, fui com um colega cego, caí e
me machuquei na rua. Andar nessa cidade dá
medo” e “Tenho que ir com uma pessoa. O hospital
é grande e tem muitas pessoas lá dentro. É
difícil para se locomover”.
Outro fator observado em relação às respostas
sobre a frequência das
consultas médicas foi a negação de
qualquer enfermidade ou mal estar por parte de
alguns entrevistados: “Tem sete anos que não
procuro um médico, mas eu também não sinto
nada”, “Tem muito tempo que não vou ao médico.
É muito difícil eu sentir alguma coisa”, e “A
freqüência de ir no médico é pouca. É muito difícil.
Eu vou em último caso somente”.
O medo de uma dependência maior aliado
ao medo do sofrimento pode justificar a atitude
de negação da existência de alguma enfermidade
por parte do entrevistado. Por outro lado, a
depressão causada pela falta de apoio de familiares,
por limitações físicas, dificuldade de elaborar
novos projetos de vida, falta de atividades
que preencham o tempo também podem ser a
causa de tal atitude.
Aprendizado do Braille
A maioria dos entrevistados (63,3%) não conseguiu
aprender o Sistema Braille. Apenas 10 %
declararam ler e escrever bem, enquanto 26,6%
aprenderam pouco. A leitura mediante ao tato é
realizada letra a letra e não através do reconhecimento
das palavras completas, como ocorre
na leitura dos videntes. Por se tratar de uma tarefa
lenta e que requer, a princípio, uma grande
concentração, é difícil de ser aprendida por pessoas
idosas.
Alguns fatores interferem no processo do
aprendizado do Sistema Braille como o estímulo
pessoal em aprender, o apoio das outras pessoas,
a idade que se inicia o aprendizado, o
grau de desenvolvimento ou desgaste do tato e
a forma do aprendizado. A escrita é mais rápida
e apresenta menos dificuldade do que a leitura.
Seguem as opiniões dos deficientes: “É muito
difícil. Tentei, mas não consegui”, “Estudei pouco.
Não gostei. A leitura e a escrita do braille é
muito lenta. Tentei aprender com 28 anos”, “Sei
bem. Aprendi desde pequeno”e “Eu tentei aprender,
mas meus dedos já não sentiam os pontos.
Desisti”.
Este quadro reflete um problema grave
quanto ao uso seguro de medicamentos pelos
deficientes estudados, já que apesar das medidas
que estão sendo adotadas pelos laboratórios
farmacêuticos de adaptar as embalagens para
impressão em Braille, a maioria dos deficientes
não sabem ler em Braille.
Recebimento de informações sobre o
mundo
O recebimento de informações sobre o mundo
chegava a maior parte dos deficientes entrevistados
(70%) pela televisão e pelo rádio. Somente
quatro ouviam o rádio, pois não gostavam
da televisão e cinco entrevistados já estavam
com a audição comprometida. Segue o depoimento
de um dos deficientes:
“Outro dia, eu
ouvi no rádio a propaganda de um remédio que
é muito bom pros ossos, pra dor de cabeça, pra
dor no estômago, pra fraqueza e cansaço, melhora
os intestinos e é bom pra memória. Era
muito caro, mas eu comprei. Ta até acabando.
Meus colegas compraram também. É muito bom.
A senhora conhece?”
A automedicação neste grupo é originada
pelas propagandas de rádio e televisão. A propaganda
causa grande motivação para o uso irracional
e prejudicial de medicamentos. A dificuldade
e o custo de conseguir uma opinião
médica, o desespero e a angústia desencadeados
por sintomas ou pela possibilidade de se
adquirir uma doença, informações sobre medicamentos
obtidos pelo rádio e televisão e a falta
de programas educativos sobre os efeitos muitas
vezes irreparáveis da automedicação são alguns
dos motivos que podem levar as pessoas a se
automedicarem.
Descrição da consulta e orientação médica
sobre a enfermidade e os medicamentos
prescritos
“Só perguntam - O que o senhor ta sentindo?
- e não fazem exame e prescreve o remédio”, “O
médico diz que a diabete é assim mesmo. Não
dá nenhuma orientação. Não explica o açúcar
no sangue que foi a 492”, e “O médico explica
tudo, porque pergunto tudo também”.
O grau de informação que o paciente possui
sobre seu problema de saúde indica a preocupação
do profissional em torná-lo atuante no
seu tratamento. Segundo 50% dos entrevistados,
o médico perguntava o que sentia, não examinava
e já prescrevia o medicamento; 23,3% afirmaram
que o médico atendia com pressa; e 20
% que o médico perguntava os sintomas, examinava
e prescrevia.
No Brasil, as consultas são cada vez mais rápidas
e desumanizadas, já que os médicos do
serviço público são obrigados a atender dezenas
de pessoas por dia, devido ao elevado contingente
populacional carente de nosso país. É
preciso ouvir mais o paciente, dar importância
para as suas queixas e estar preparado para
identificar os distúrbios.
Realização de exames
“Nem me lembro mais
quando foi a última
vez que fiz exames”, “Em 1999 foi a última vez
que fiz exames. Tava tudo bem” e “Tem uns
quatro anos, mais ou menos. Mas ta tudo bem.
Eu não to sentindo nada”.
De acordo com os
entrevistados, apenas 26,7% realizaram exames
recentes; 30% fizeram os exames entre quatro a
cinco anos atrás; e outros 30% fizeram os exames
de sete a dez anos atrás. Em relação ao conhecimento
dos resultados, 63,3% declararam
não conhecer os resultados dos exames, enquanto
36,7% conhecem os resultados.
No grupo estudado, onde a prevalência de
idade está acima de 50 anos, e os exames laboratoriais
datam de mais de quatro anos para a
maioria dos entrevistados, o diagnóstico das
condições de saúde no momento e de prováveis
enfermidades existentes são necessárias para o
acompanhamento terapêutico medicamentoso.
Avaliar e registrar os exames laboratoriais bem
como registrar a ocorrência de problemas relacionados
aos medicamentos são atividades do
farmacêutico na prática da Atenção Farmacêutica.
Os exames em alguns casos são essenciais
para a avaliação da efetividade do tratamento
no seguimento farmacoterapêutico.
Enfermidades atuais
Os três problemas de saúde mais relatados
pela população estudada foram diabetes
(86,7%), hipercolesteremia (90%) e hipertensão
arterial (93,3%), seguidos de escabiose (46,7%),
alergia (43,3 %), depressão (40 %) e obesidade
(30%). Ainda foram mencionados problemas de
memória (23,3 %), asma (6,7%), hipotiroidismo
(3,3 %), sinusite (3,3%), esquizofrenia (3,3%) e
erisipela (3,3%).
A falta de conhecimento sobre a enfermidade
atual foi declarada por 50 % dos entrevistados,
enquanto 33,3% afirmaram conhecer sobre
sua enfermidade, e 16,7% responderam que não
apresentavam doenças. A maioria dos pacientes
(50%) sabe muito pouco sobre a enfermidade e
como combatê-la, o que compromete a efetividade
do tratamento, levando a não adesão terapêutica.
A educação do paciente faz parte do tratamento
e o farmacêutico é o profissional de saúde
que deve assumir o maior grau de responsabilidade
em minimizar a não adesão, proporcionando
acesso facilitado à informação através do
estabelecimento de uma
relação farmacêutico
― paciente, com a garantia ao direito do paciente
em conhecer sua enfermidade e os riscos e benefícios
do tratamento.
Compra de medicamentos
De acordo com os entrevistados, 73,3% compravam
seu próprio medicamento, enquanto
20% solicitavam a um voluntário para comprar e
6,67% pediam a um parente. Entre os entrevistados
que compravam seu próprio medicamento,
86,4% pediam por telefone; e 13,6% compravam
no balcão da farmácia, como revelado nos seguintes
depoimentos:
“Eu mesmo compro o
medicamento por telefone e peço para entregar
aqui. Peço alguém para ler a receita. Não tenho
certeza se o balconista mandou o remédio certo
ou errado”, “Eu mesmo compro. Levo a receita
na farmácia” e “Eu tenho colesterol alto, mas já
baixou. Quando eu sinto que ele aumentou eu
compro o medicamento que já sei qual é”.
Relato de problemas derivados do uso de
medicamentos
Conforme os entrevistados, 90% não tinham
problemas com medicamentos; 3,3% reclamaram
de impotência e não recordavam o nome
do medicamento que a causou; 3,3% apresentaram
alergia com tetraciclina; e 3,3% reclamaram
de cefaléia com o uso de um composto vitamínico.
Percepção da hora de usar o medicamento
“Ouço a sineta da Associação e a Hora do
Brasil, sei que ta na hora de usar o colírio” e
“Tomo todos juntos no mesmo horário. Sempre
com as refeições”.
Dos entrevistados, 53,3% tomavam
seus medicamentos durante as refeições;
outros 23,3% tinham o relógio sonoro que avisava
a hora; 16,7% só tomavam o medicamento na
crise da enfermidade, não estavam em terapia
medicamentosa de uso contínuo.
O interesse, a participação e a responsabilidade
do paciente são essenciais para o sucesso
da terapia medicamentosa, onde a atenção farmacêutica
assume um compromisso maior de
conscientização sobre o medicamento certo, na
dose certa, à hora da administração certa e administrados
corretamente, pois de forma equivocada,
podem ter a efetividade e segurança reduzidos.
Dificuldades no uso dos medicamentos
A forma farmacêutica que apresentou maior
dificuldade de uso entre os deficientes entrevistados
foram as soluções orais em gotas com
53,3% dos relatos; outros 20% declararam dificuldades
com o uso de colírios; enquanto 26,7%
não tinham dificuldades em usar algum medicamento.
“Quando não tem alguém para ajudar
com o remédio em gotas, eu meço no copinho e
viro na boca uma quantidade que acho suficiente.
Eu sei que não é certo”, “Prá colocar
uma gota de colírio em cada olho, as vezes eu
erro e coloco a mais. A vista fica doendo, mas
não tem outro jeito” e “Prá tomar um remédio a
gente se vira por conta própria”.
Situações em que deixam de utilizar o
medicamento
Conforme os deficientes entrevistados, 50%
paravam de usar o medicamento porque já se
sentiam melhor; 23,3% paravam de usar porque
o medicamento acabava; outros 6,7% porque estava
fazendo mal; e apenas 20% seguiam a prescrição
médica:
“Não tomo muito remédio para
não viciar”, “Não gosto de remédios. É errado
encher o organismo com remédios. É melhor curar
pela alimentação” e “Paro de tomar o remédio
da pressão por relaxamento e, as vezes, por
esquecimento e outras porque me sinto melhor”.
Sugestões dos entrevistados para o uso
seguro de medicamentos
De acordo com a opinião de 50 % dos entrevistados,
as embalagens diferentes facilitariam o
reconhecimento do medicamento com maior segurança; enquanto para 36,6 % o tamanho
e o formato da cartela garantiria mais confiança;
apenas 6,67% mencionaram que o braille
deveria ser mais legível nas caixas; e outros
6,67% indicaram a bula em áudio. Abaixo
seguem alguns dos depoimentos:
“Para não
confundir os remédios é melhor o braille na caixa.
Formato de caixas diferentes confunde muito”,
“O Braille das caixas não é muito bom para
ler o que está escrito ali. Conhecemos os medicamentos
pelo tamanho e formato da cartela. Faço
furos nas caixas e amarro barbantes e coloco em
lugares diferentes” e “Colocar o Braille bem legível
nas caixas. Tem que ser maior”.
Sugestões para a melhoria do atendimento
à saúde
Atendimento domiciliar foi a sugestão predominante
para melhoria do atendimento à saúde
mais relatada entre os entrevistados (83,3
%).Cuidar da saúde dos deficientes no local onde
residem, humaniza o tratamento, incentiva a
adesão e facilita a educação para a mudança de
atitudes em relação à saúde.
CONCLUSÃO
A Atenção farmacêutica que consiste na relação
pessoal entre o farmacêutico e o usuário, é
pautada pela garantia do uso racional de medicamentos.
A promoção do uso racional de medicamentos
passa por um processo educativo
dos usuários.
O grupo entrevistado encontra-se completamente
carente de qualquer tipo de atenção à
saúde e como co-responsável pelo bem-estar
dos pacientes, o farmacêutico deve colocar em
prática ações que beneficiem os deficientes visuais.
O farmacêutico deve orientar o seu trabalho
para as verdadeiras necessidades dos cegos,
através da compreensão e da ajuda nas situações
em que o uso da visão é solicitado. Ter
uma conduta de superproteção é não acreditar
na capacidade do deficiente de execução de tarefas
e, em conseqüência, é negar-lhe o direito
de inclusão e reabilitação.
As necessidades, anseios e prioridades deste
grupo relatados neste estudo, determinam que
certas estratégias devem ser adotadas antes de
se implantar a Atenção Farmacêutica propriamente
dita (Acompanhamento do tratamento
farmacológico):
-
a) Comunicação geradora de
confiança, através de trocas de experiências e
desenvolvimento do lado humano representado
pelo verdadeiro interesse pela pessoa, respeitando
a diversidade humana;
-
b) Saber conduzir as
manifestações psicológicas e comportamentais
de medo, desespero, pânico, agressividade e
outras que possam estar associadas ao fenômeno
da cegueira;
-
c) Desenvolver o aconselhamento,
programas educativos e motivacionais
de saúde para os cegos e sua família, para o desenvolvimento
do conceito de que restabelecimento
da saúde não se restringe à prática terapêutica
medicamentosa, mas constitui um conjunto
de outros fatores que devem ser observados;
-
d)
Atuar em
uma equipe
multidisciplinar
formada por um grupo de especialistas, que
possam participar de um trabalho de reabilitação,
educação e promoção da saúde de pessoas
com deficiências visuais;
-
e) Desenvolver a atuação
domiciliar;
-
f) Desenvolver atividades diárias,
variadas e divertidas, envolvendo o social e o
emocional, desenvolvendo as potencialidades
inerentes a cada deficiente visual, bem como
sua auto-estima;
-
g) Desenvolver materiais educativos
em áudio;
-
h) Utilizar a manipulação de
medicamentos (medicamentos magistrais) como
ferramenta para facilitar a adesão: associando
diversos princípios ativos em um único medicamento,
envasando os medicamentos em embalagens
diferentes, produzindo novas formas farmacêuticas
para diferenciar um medicamento do
outro.
O cuidado dispensado aos deficientes estudados
deve ultrapassar a prestação de cuidados
físicos e os conhecimentos a respeito de sua
doença e dos tratamentos clínicos, pois as necessidades
emocionais e sociais deste grupo devem
ser consideradas, além de abranger a utilização
de técnicas adequadas de comunicação e
relacionamento.
REFERÊNCIAS
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"O Deficiente Visual e a Atenção Farmacêutica" autoras:
Eliana L. Nascimento & Luciene A.M. Marques Departamento de Farmácia.
Universidade Federal de Alfenas,
MG, Brasil Latin American Journal of Pharmacy,
nº 28 (2): 203-10 (2009)
Δ
21.10.2011 publicado
por
MJA
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