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RESUMO |
Introdução: A deficiência visual é uma
limitação sensorial que afeta 6,5 milhões de pessoas somente no Brasil, chegando
a 285 milhões no mundo. Os sujeitos afetados pela deficiência visual têm
dificuldade maior para manter o equilíbrio, já que a visão é um dos principais
sentidos envolvidos nesse complexo processo. Para melhorar essa capacidade
físico-motora e, consequentemente, a qualidade de vida desses sujeitos, é
necessário aperfeiçoar os outros sistemas de propriocepção. Um dos métodos para
isso é o treinamento funcional.
Objetivo: Analisar os efeitos do
treinamento funcional sobre a propriocepção e o equilíbrio de pessoas com
deficiência visual.
Métodos: O presente estudo de caso
analisou três sujeitos com cegueira total ou baixa visão, durante um programa de
treinamento funcional que teve duração de 12 semanas, com duas sessões semanais.
O equilíbrio postural foi avaliado em uma plataforma de força, em condição
bipodal e olhos vendados. A avaliação da propriocepção de membros superiores foi
realizada com um cinesiômetro e a avaliação de membros inferiores foi realizada
com a fixação de um flexímetro na articulação do joelho dominante do
participante, ambas com os olhos vendados. Os resultados foram analisados de
maneira descritiva e utilizando a técnica de análise de séries temporais.
Resultados: Todos os sujeitos apresentaram
melhora do equilíbrio postural. Com respeito à propriocepção do membro superior,
o sujeito 1 (S1) apresentou melhora e quanto à propriocepção do membro inferior
todos os sujeitos apresentaram melhora.
Conclusão: Dessa forma, os resultados
sugerem que o treinamento funcional influenciou positivamente o equilíbrio e a
propriocepção desses indivíduos.
INTRODUÇÃO
Atualmente, existem no mundo 285 milhões de
pessoas com deficiência visual, dessas 39 milhões são cegas e as outras 246
milhões sofrem de perda de visão moderada ou severa
1. Já no Brasil, são 6,5
milhões de pessoas com deficiência visual, sendo 582 mil cegas e seis milhões
com baixa visão, conforme o censo de 2010 realizado pelo Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística
2.
A deficiência visual (DV) é uma limitação sensorial que pode comprometer o
desenvolvimento motor, afetivo, social e cognitivo do ser humano
3. Em condições
normais, os órgãos da visão contribuem com 85% dos estímulos encaminhados ao
cérebro e são responsáveis pelo desenvolvimento e pela realização dos movimentos
humanos. Portanto, a falta da visão implica em um comprometimento de atividades
básicas que envolvem questões de segurança, integridade, autoimagem, orientação,
percepção e aprendizagem
4, prejudicando a interação social e possíveis
oportunidades de estimulação motora, presentes na vida cotidiana
5. Dessa forma,
existem diferentes conceitos e valores que a sociedade impõe às pessoas com DV,
gerando, muitas vezes, exclusão social. Uma forma de superar essa situação é
proporcionar vivências sociais e motoras para que essa população alcance níveis
de desenvolvimento dentro dos padrões considerados normais
6-8.
Para promover o desenvolvimento motor desses sujeitos é necessário considerar
que o controle das ações motoras depende do fluxo de sinais que estimulam os
receptores sensoriais do corpo. Esses sinais são recebidos do ambiente externo
pelos exteroceptores, como a visão, a audição e o tato, e internamente pelos
proprioceptores, como os fusos musculares, os órgãos tendinosos de Golgi e o
aparelho vestibular
9. Então, para a execução motora são necessárias essas
informações, que irão proporcionar condições para que o indivíduo se desloque no
ambiente, mantendo sua noção de localização espacial, postural e posição de
membros
10,11.
O conjunto de informações fornecidas pela visão para a execução motora é
denominado propriocepção visual
12. Há casos em que o sujeito com DV utiliza as
informações da propriocepção visual aprendidas em experiências anteriores9, e
quando a ausência da visão se caracteriza por um longo e indefinido tempo, vai
recrutar informações auditivas e proprioceptivas. Existe uma interação estreita
entre os processos sensoriais e motores no controle postural, pois o movimento
realizado necessariamente influencia as informações sensoriais fornecidas para o
controle postural. Assim, a ação motora não dependerá somente das restrições
mecânicas da tarefa, mas também da disponibilidade de informações sensoriais
13.
Contudo, são necessários profissionais especializados para atuar com essa
população, e entre eles destaca-se o professor de educação física, que através
da ênfase na prática do exercício físico tem o papel de resgatar a
funcionalidade e a independência dos DVs para a vida cotidiana
14. Esse
profissional deve utilizar técnicas e exercícios específicos que possibilitem
ampliar a gama motora, a percepção corporal e espacial desses sujeitos
15, mas
também deve-se considerar que não são todos os exercícios que desenvolverão
especificamente o equilíbrio, e se for esse o objetivo do treinamento, deverá
ser escolhido um treinamento adequado e específico
16.
Entre os exercícios físicos e métodos de treinamento propostos atualmente
encontra-se o treinamento funcional, que utiliza padrão de movimentos,
envolvendo todas as capacidades físicas através de movimentos multiarticulares e
multiplanares. Seu objetivo é treinar funcionalidade através do princípio da
transferência, onde se tenta reproduzir um gesto motor do cotidiano ou
específico de alguma modalidade esportiva
17.
Considerando o treinamento funcional como importante ferramenta para prevenção
de lesões, aumento da autonomia, melhoria da saúde e capacidades físicas
funcionais para os DV, surge o objetivo deste estudo que foi verificar os
efeitos de um programa de treinamento funcional na propriocepção e no equilíbrio
de pessoas com deficiência visual.
MATERIAIS E MÉTODOS
A pesquisa caracteriza-se como estudo de caso
18.
Todos os dados foram coletados no Laboratório de Biomecânica (LABIOMEC) do
Centro de Educação Física e Desportos (CEFD), da Universidade Federal de Santa
Maria (UFSM), Santa Maria, RS, Brasil. As avaliações foram realizadas após
leitura e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido pelos
participantes, conforme determina a Resolução 466/12 do Conselho Nacional de
Saúde e o projeto aprovado no Comitê de Ética em pesquisa pelo CAAE nº
31104314.2.0000.5346.
Os sujeitos do estudo foram selecionados intencionalmente na Associação de
Deficientes Visuais (ACDV) da cidade de Santa Maria, RS. O critério de
participação foi possuir deficiência visual (baixa visão ou cegueira), não
possuir problemas de saúde como diabetes e hipertensão 19, não usar medicamentos
e concordar em participar da pesquisa.
Os sujeitos foram avaliados inicialmente com uma anamnese para selecionar os
"casos" a serem estudados, conforme critérios anteriormente descritos. Após esse
momento foram mensurados o equilíbrio e a propriocepção, aplicados à intervenção
e reavaliados.
Na anamnese foram solicitados dados de identificação (sexo, idade, situação
previdenciária, escolaridade); características da deficiência (baixa visão ou
cegueira, congênita ou adquirida, tempo, causas e mobilidade); características
sobre saúde (se é fumante, se usa bebida alcoólica, se possui algum
comprometimento com a saúde, se utiliza medicamentos, a massa corporal, a
estatura e o IMC), e seu braço e mão de domínio para realização do teste de
propriocepção.
Avaliou-se o equilíbrio postural em condição bipodal, utilizando-se uma
plataforma de força modelo OR6-6-2000 AMTI (Advanced Mechanical Technology Inc.
176 Waltham Street, Watertown, MA 02472-4800 EUA). Os sujeitos foram instruídos
a permanecer o mais estático possível em cima da plataforma, na postura habitual
e com os pés distanciados seguindo o alinhamento do quadril. Anteriormente, ao
início da coleta, elaborou-se um molde do posicionamento dos pés de cada sujeito
sob a plataforma para que mantivessem a mesma distância entre os pés na segunda
coleta após as doze semanas de treinamento. Realizou-se três tentativas de olhos
vendados para cada sujeito, com 30 segundos cada e com frequência de aquisição
de 100 Hz. Os dados de força foram utilizados no cálculo do centro de pressão
(COP), e analisado a amplitude e velocidade de deslocamento nas direções
anteroposterior (COPap) e médio-lateral (COPml), velocidade de deslocamento nas
direções anteroposterior (COPvelap) e médio-lateral (COPvelml), conforme
orientações de Cunha et al. 20.
A avaliação da propriocepção de membros superiores foi realizada com o
cinesiômetro (Santa Maria - RS - Brasil), conforme o protocolo de Paixão
21. Para
a coleta o sujeito sentou-se em frente ao instrumento, de olhos vendados, com
seu braço de domínio sobre o braço móvel do cinesiômetro, estando esse em 0°.
Durante a execução, o pesquisador moveu o braço do aparelho junto com o braço do
sujeito, em cada um dos ângulos determinados: primeiramente 90º para a direita
em seguida 45º para a esquerda e por último 105° para a direita, retornando a
posição inicial 0°. Após, foi solicitado ao sujeito que repetisse na mesma
ordem, parando quando percebesse que eram as angulações corretas, conforme
orientação anterior, para ser feito o registro. No final, a pontuação se deu por
meio do cálculo do erro, resultante da média das três tentativas e das três
posições.
Para verificar a propriocepção dos membros inferiores, foi utilizado um
flexímetro (SANNY, São Bernardo do Campo, SP, Brasil). Este foi ajustado na
articulação do joelho. Os indivíduos estavam com os olhos vendados. Foram
mensurados os ângulos de 40º e 20º, predeterminados por sorteio. Partindo-se de
90° de flexão, a perna do avaliado foi movida passivamente em extensão até
chegar à angulação (40º/20º) e o membro foi mantido por dez segundos nessa
posição, retornando então à posição inicial. Após cinco segundos, o participante
foi instruído a efetuar ativamente o mesmo movimento, parando assim que
percebesse que a posição alvo tinha sido atingida 22. Da mesma forma que a
avaliação de propriocepção de membros superiores está apresentada ao a
resultante da média de erro.
O experimento com treinamento funcional teve duração de 60 minutos, duas vezes
por semana, durante 12 semanas, totalizando 24 aulas. Os exercícios
desenvolvidos foram de sobrecarga corporal, de bases instáveis e de uso de
equipamentos de ginástica para o aquecimento, conforme apresentado na Tabela 1.
Precauções inerentes ao ensino da pessoa com deficiência visual foram
observadas, como: iniciar atividades com diferentes possibilidades de
assistência para que uma delas tenha sucesso; usar o mesmo tom de voz na
abordagem individual; cuidar para não haver excesso de proteção; adaptar o
ambiente, evitando a presença de muitos estímulos sonoros e com algum tipo de
obstáculo; chamar cada aluno pelo nome, narrar atividades para que compreendam o
que está acontecendo, incentivar participação e aprendizagem através de
estímulos táteis, auditivos e visuais e solicitar sugestões de abordagem para
melhorar o desempenho do aluno 23.
Tabela 1 - Estrutura da intervenção com treinamento funcional.
|
Aulas |
Tempo (min) |
Descrição atividades realizadas
|
Aquecimento
|
10
|
Atividades no slide, esteira, bicicleta, elíptico, corrida
estacionária e/ou corrida lateral. |
Treinamento funcional
|
40
|
Agachamento simples no suspenso, remada fechada no suspenso,
prancha ventral, tríceps na estação de musculação, bíceps
com um pé no disco de equilíbrio, agachamento com bola nas
costas, sobe e desce no step,
panturrilha com medicine
ball, corrida estacionária no jump,
flexão de braços no suporte, tríceps no gymstick,
corrida com cinto de tração, bíceps no disco de equilíbrio,
abdominais na bola suíça, afundo com um pé no step,
corrida no suspenso, afundo no suspenso, bíceps com um pé
no bosu, burpee,
afundo com elevação de braços, bíceps sentado na bola,
agachamento no jump,
sobe e desce do step pela
frente, tríceps com gymstick,
trote- 4 passos para frente/4 passos para trás, tríceps no
suspenso com os joelhos no chão, equilíbrio no bosu,
panturrilha e tríceps com elástico, equilíbrio com um pé em
cada disco, corrida estacionária no suspenso, remada aberta
no suspenso, abdominal com os pés na bola.
|
Alongamento ou relaxamento
|
10
|
Alongamento no solo, alongamento na barra, alongamento em pé
|
As aulas foram organizadas em
forma de circuito, intercalando exercícios aeróbios com exercícios funcionais,
seguindo um nível de dificuldade progressivo desde a primeira até a última aula.
Ex: Na primeira aula, os exercícios funcionais eram de baixa complexidade
(bíceps/ tríceps com gymstick), Nas últimas aulas foram ministrados exercícios
de alta complexidade como burpee e prancha ventral. A intervenção foi realizada
em uma sala multiuso preparada em estações para o treinamento em forma de
circuito funcional.
Análise estatística
Os dados foram analisados de maneira descritiva (médias, frequências relativas e
absolutas), e apresentados usando a técnica de análise de séries temporais
18.
RESULTADOS
Os sujeitos estudados são do sexo masculino e
serão apresentados como S seguido de número (Ex: S1, S2 e S3), conforme Tabela
2.
Tabela 2 - Caracterização dos sujeitos. |
|
S1 |
S2 |
S3 |
Idade (anos) |
20 |
39 |
41 |
Massa Corporal (kg)
|
60,3
|
61,1
|
80,5 |
Estatura (cm) |
184
|
168 |
181 |
Tipo de deficiência |
CT |
BV |
BV |
Tempo com a deficiência (anos) |
12
|
7 |
18
|
CT: Cegueira Total; BV: Baixa Visão.
|
O tipo de deficiência de S1 é cegueira total, adquirida por glaucoma e
deslocamento de retina, usa bengala e é independente para todas as atividades. O
S2 tem baixa visão, adquirida por glaucoma e se locomove sozinho. O S3 também
tem deficiência do tipo baixa visão, adquirida por retinose pigmentar e se
locomove com o auxílio de pessoa vidente, porém é independente para as
atividades cotidianas como autocuidado, incluindo tarefas de escovar os dentes,
pentear os cabelos, vestir-se, tomar banho, calçar sapatos, alimentar-se, beber
água, fazer uso do vaso sanitário; e tarefas cotidianas como lavar louça,
arrumar a cama, varrer a casa e usar o telefone (Tabela 2).
Na Tabela 3, dados sobre equilíbrio postural. Variáveis analisadas pré e pós
teste: amplitude de deslocamento anteroposterior (COPap) e médio-lateral (COPml)
e velocidade de deslocamento anteroposterior (COPvelap) e médio-lateral
(COPvelml). Houve melhora em todas variáveis para todos os sujeitos no
pós-teste.
Tabela 3 - Dados sobre equilíbrio postural
|
|
S1 |
S2 |
S3 |
Váriaveis do equilibrio
|
Pré
|
Pós
|
Pré
|
Pós
|
Pré
|
Pós
|
COPap |
2,47
|
1,89
|
2,31 |
1,61 |
1,88 |
1,00 |
COPml |
2,86 |
1,12 |
2,61 |
1,38 |
1,43 |
0,88 |
COPvelap |
1,91 |
0,88 |
3,12 |
1,51 |
1,60 |
1,22 |
COPvelml |
1,34 |
0,65
|
2,48 |
2,02 |
1,41 |
0,72 |
COPap: amplitude de deslocamento anteroposterior (cm); COPml:
amplitude de deslocamento médio-lateral (cm); COPvelap:
velocidade de deslocamento anteroposterior (cm/s); COPvelml:
velocidade de deslocamento médio-lateral (cm/s),
|
Tabela 4, são apresentadas as médias de erro do pré e do pós teste da
propriocepção de membros superiores e inferiores. O sujeito S2 apresentou
melhora em ambos os testes. Já os sujeitos S1 e S3 apresentaram melhoras somente
no teste de membros inferiores.
Tabela 4 - Média de erro da propriocepção de MS e MI
|
|
S1 |
S2
|
S3
|
Propriocepção |
Pré |
Pós
|
Pré |
Pós
|
Pré |
Pós
|
Membro Superior
|
8,3º
|
8,3º
|
10,0º
|
1,6º
|
7,3º |
8,3º |
Membro Inferior |
3,5º
|
2,0º
|
6,5º |
3,5º
|
5,0º |
2,5º
|
Resultados apresentados em
média do erro em graus
|
DISCUSSÃO
Após a intervenção, observou-se melhora nos
resultados dos três sujeitos nas variáveis do equilíbrio, o que vem ao encontro
do estudo de Silva et al.
24, que apontou que a dança proporcionou ganhos tanto
no equilíbrio estático quanto no dinâmico das pessoas com deficiência visual do
seu estudo, na faixa etária de 12- 60 anos, de ambos os sexos. Souza et al.
25
verificaram o efeito da ginástica artística para essa mesma população e
concluíram que no final de um programa de dezoito aulas com os fundamentos da
ginástica artística houve uma melhora no equilíbrio.
No estudo de caso de Soares et al.
14 que utilizaram o método de observação para
verificar a melhora do equilíbrio entre outras variáveis motoras, percebeu-se
uma melhora no equilíbrio conforme avançava o processo de intervenção,
corroborando com resultados desse estudo.
Silva et al.
26 em seu estudo com crianças e adolescentes asmáticos e
não-asmáticos reafirmaram a importância da visão para o equilíbrio ao realizar
testes na plataforma de força, com olhos abertos e fechados, salientando que o
teste com olhos fechados dificultou a representação adequada do corpo dos
indivíduos, no ambiente do teste. Isto nos aponta a importância de enfatizar no
treinamento funcional a prática da propriocepção em indivíduos com deficiência
visual, pois os sistemas sensoriais identificarão outros elementos importantes
para o indivíduo conseguir controlar seu corpo no espaço.
No estudo de Antes et al.
27 que analisou a estabilidade postural e a
propriocepção de idosas fisicamente ativas, foi encontrada correlação positiva
entre a propriocepção e a idade e entre a propriocepção e a estabilidade
postural, o que vem ao encontro do presente estudo, enfatizando a importância da
propriocepção para o equilíbrio.
Na propriocepção, os resultados foram positivos para todos os sujeitos nos
testes de membros inferiores. O sujeito S2 obteve resultados positivos tanto
para os membros superiores quanto para os inferiores, e somando aos resultados
positivos do equilíbrio, podemos associar esses resultados aos efeitos do
treinamento funcional, somados a sua independência na locomoção (sem bengala ou
pessoa vidente), e ao menor tempo de deficiência (baixa visão)
28.
Interpretou-se o bom desempenho do S2 em todas as variáveis nos pós testes,
através do estudo de Soares et al.
14 que afirmam ser factível a compreensão de
que déficits motores não sejam inerentes à condição de DV, mas a falta de
estimulação que ocorre decorrente da falta de profissionais especializados para
atender esse público ou o medo que a própria família tem do DV se machucar
durante a prática dos exercícios físicos. Entretanto, desenvolver atividades
para estimulação psicomotora é de extrema necessidade.
Antes et al.
29 em seu estudo sobre propriocepção de joelho em jovens e idosas
praticantes de atividades físicas, observaram pequena diferença na média de erro
entre idosas e jovens, devido ao fato que ambos grupos eram fisicamente ativos.
No entanto, quando se compara as médias do grupo de jovens com os sujeitos deste
estudo (5,73 para os jovens e 2,66 para os DVs) percebe-se nitidamente melhor
resultado dos DVs, reforçando o bom nível proprioceptivo dos sujeitos deste
grupo, através das sensações geradas pelos mecanoreceptores localizados na pele,
músculos, ossos e tendões.
A importância de treinamento físico que desenvolva a propriocepção é observada
no estudo sobre coordenação motora fina e propriocepção em idosas praticantes de
hidroginástica entre 59 e 84 anos, realizado por Antes, Katzer e Corazza
30, que
constataram que o grupo com idade mais avançada teve desempenho inferior nos
testes, demonstrando perdas motoras com o avanço da idade.
As limitações encontradas nesse estudo estão relacionadas ao pequeno número de
sujeitos, dificultando a generalização dos resultados e à pequena variação de
exercícios específicos para a propriocepção de membros superiores. Sugere-se,
desta forma, um olhar atento a estes elementos em futuras pesquisas com
indivíduos com DV.
CONCLUSÕES
Ao analisar os efeitos de um programa de
treinamento funcional na propriocepção e no equilíbrio de pessoas com
deficiência visual, pode-se constatar que houve melhora no equilíbrio e na
propriocepção de membros inferiores dos sujeitos, o que confirma a eficácia do
programa de treinamento funcional com este pequeno grupo.
Nesse contexto, o treinamento funcional é uma possibilidade de propiciar a
inclusão da pessoa com DV às práticas corporais, contribuindo para a melhoria de
sua qualidade de vida, sociabilidade, saúde, liberdade e autonomia.
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artigo: “BENEFÍCIOS DO TREINAMENTO FUNCIONAL PARA O EQUILÍBRIO
E PROPRIOCEPÇÃO DE DEFICIENTES VISUAIS”
autores: Sara Teresinha Corazza; Rafael Cunha Laux, Miriam Léa Struass Foesch;
Daniela Lopes dos Santos; Rafaella Righes Machado; Thuane Lopes Macedo; Ana
Carla Piovesan; Stela Paula Mezzomo
Publicação: Revista Brasileira de Medicina do Esporte (RBME) vol.22 nº 6, 2016
Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Santa Maria, RS, Brasil.
DOI: http://dx.doi.org/10.1590/1517-869220162206164644
SciELO - Scientific Electronic Library Online
fonte:
https://www.scielo.br/j/rbme/a/5zqRQbFQHZ7L9qrrdHggk3R/?lang=pt
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