
Jogo da cabra-cega - fotografia de
Evgen Bavcar, 1997
Introdução
Este capítulo tem como objetivo dialogar sobre as características e
especificidades que envolvem o processo de aquisição de conhecimentos no
adolescente com cegueira congênita, assim como discutir sobre quais são as vias
perceptuais que propiciam a essa pessoa construir conceitos.
Ao longo dos anos atuando na educação de educandos com deficiência visual,
enfrentei diversas questões que envolvem a aprendizagem e a aquisição de
conhecimentos pelo educando com cegueira congênita. Observei que os processos de
formação de conceitos, aquisição de conhecimentos e aprendizagem das pessoas com
cegueira congênita acontecem de maneira singular, individualizada, independente
de possuírem em comum a ausência da percepção visual desde o nascimento. Em
contrapartida, algumas características parecem comuns a esses educandos, como a
repetição de comportamentos desenvolvidos pelos adultos que os rodeiam, a
passividade em relação ao desconhecido, a restrição na mobilidade, a
infantilização, a intolerância a ruídos do ambiente, os movimentos repetitivos e
o verbalismo (fala esvaziada de sentido).
Em muitos momentos, esses educandos com os quais lidava tinham uma compreensão
diferente daquilo que, como professora, eu esperava receber como resposta. Eles
não estavam equivocados, todavia, suas respostas distanciavam-se dos conceitos
estabelecidos pelas experiências visuais e culturais vivenciadas por esta
pesquisadora.
Observou-se que, muitas vezes, a explicação oral desses educandos sobre
determinado objeto remetia a características diversas daquelas vivenciadas por
esta pesquisadora. Esse tipo de diferença foi verificada também entre educandos
cegos congênitos e com cegueira adquirida. Estes últimos tiveram contato com o
mundo visual, mesmo que por curto espaço de tempo, e conservaram uma memória
visual dos objetos, o que influenciava as suas percepções e a aquisição de
conhecimentos.
Para isso, mostrou-se necessário entender quais parâmetros usa a pessoa que
percebe o mundo não com os olhos, mas pelos sons, pelo tato, pelo olfato, pelo
paladar, pela cinestesia, enfim, pelo corpo, para construir significados. Esse
foi o ponto de partida para refletir com mais cautela sobre como esses educandos
que não dispõe do sentido da visão podem ser prejudicados em seu processo de
ensino–aprendizagem se não lhes forem oferecidas outras maneiras de experienciar
o mundo ao seu redor.
A cegueira congênita e a aquisição de conhecimentos
De acordo com Ormelezi (Cf. 2006), a cegueira é considerada congênita quando se
manifesta do nascimento até os cinco anos de idade, pois é nessa faixa etária
que a maturação visual se aperfeiçoa, ou seja, a acuidade visual da criança se
iguala à do adulto. Com a perda da visão até essa idade, não ocorre retenção de
imagens visuais, e a criança não poderá ter como base a memória visual para suas
construções mentais, pois as imagens visuais adquiridas até esse período não são
retidas ao longo da vida. Quanto mais tempo a pessoa enxergar, maior será a sua
memória visual (lembranças das imagens, luzes e cores que conheceu), o que
influencia de modo positivo sua readaptação e seu aprendizado.
Para Amiralian (1997, p. 32), as pessoas cegas utilizam meios não convencionais
para estabelecer relações com o mundo que as cerca, fazendo assim uma
reestruturação do sistema psicológico que desenvolve novas estratégias de
desenvolvimento.
Não se pode negar a importância da visão para a estruturação do sujeito.
Todavia, o cego congênito se desenvolverá como um sujeito que não sabe o que é
perceber com os olhos e, portanto, não poderá dizer para si mesmo se realmente a
visão é tão importante para ele. É preciso sensibilidade a uma forma
diferenciada de constituição do “eu” na qual não se inclui a percepção visual.
Muitas pesquisas têm investigado a existência ou não de atraso no
desenvolvimento cognitivo e educacional das crianças cegas. Alguns autores
apontam a importância da variedade de experiências durante a primeira infância
da criança com cegueira congênita, como também a falta de experiências, que
ocasiona a incapacidade de compreender a ligação entre ideias e objetos. Bruno
(1993) afirma que as crianças com cegueira congênita precisam de mais tempo para
elaborar a noção de objeto permanente, imagens mentais e conceitos sobre o mundo
dos objetos, de relações e sobre si mesmas.
Na ausência da visão, os sentidos de que a pessoa dispõe – audição, tato, olfato
e paladar – funcionam sem a informação e a integração que a visão proporciona e
não realizam uma compensação sensorial imediata, daí a importância de a criança
cega receber estimulação sensorial, de maneira a suprir essa ausência. Bruno
(1993) aponta a importância da intervenção precoce em crianças cegas:
É neste momento envolvente de comunicação sensorial que acontece o diálogo
corporal mamãe–bebê: o olhar, o toque, o cheiro e a voz materna são tão
importantes como o leite. É desta forma que o bebê assimila o mundo. (p. 51)
A cegueira é, sem dúvida, um modo diferente de estar no mundo e se relacionar
com o outro, pois muitas das situações que os videntes vivem por meio da visão,
os cegos vivenciam por outros caminhos perceptivos, por isso devem ser
oferecidas experiências alternativas de desenvolvimento para a criança cega.
O tato constitui importante via de acesso para a pessoa cega perceber o mundo,
tanto pelos estímulos externos quanto internos. Daí a necessidade de aprimorar o
uso das mãos e incentivar o tato ativo na criança cega. A atividade de
estimulação tátil com diferentes texturas é essencial para o seu desenvolvimento
e a sua aprendizagem.
Pode-se dizer que, no desenvolvimento da pessoa cega, o tato e a audição são as
experiências sensitivas mais importantes. Como aponta Sacks (1995), “é de
suspeitar que as partes táteis e auditivas do córtex são alargadas nos cegos, e
podem até se expandir para o que normalmente é o córtex visual” (p. 153).
Estudos apontam que o tato e a audição atuam conjuntamente no processo de
aquisição de conhecimentos pela criança com cegueira congênita. Por exemplo, ao
ouvir a palavra “boneca”, uma criança cega necessitará tateá-la para que consiga
relacionar o significante ao significado e assim construir o conceito de boneca.
Dessa forma, ao se referir ao processo de aquisição de conceitos pelo sujeito
com cegueira congênita, é preciso considerar que esse processo ocorre de maneira
distinta.
Para Ochaita e Rosa (1995), a linguagem tem importância fundamental para a
aprendizagem dos cegos. Esta aprendizagem ocorre por meio de veículos
linguísticos que eles conhecerão e aprenderão a manipular, construindo
mentalmente a realidade que os cerca.
Ainda, conforme as autoras, o bebê cego somente será capaz de encontrar um
objeto fora de seu alcance a partir dos doze meses. Esse procedimento ajudará a
criança cega a construir a noção de permanência do objeto, o que dependerá,
sobretudo de suas experiências corporais com o objeto.
Quando a criança cega detém o conhecimento sobre a existência de objetos no seu
entorno, sente-se estimulada a se locomover no espaço, a explorar e dominar o
ambiente em busca do que deseja.
Ochaita e Rosa (1995) acrescenta que, por não reconhecerem o mundo exterior com
os olhos, os bebês cegos em geral apresentam comportamento muito tranquilo,
exigindo menos atenção e, em consequência, menor contato afetivo.
Da mesma forma que uma criança cega aprende a brincar com um brinquedo sonoro,
também aprende a interagir a partir do som. Dessa forma, brincadeiras como falar
no rosto da criança, na barriga e em outras partes do corpo contribuem para a
construção da sua consciência corporal.
O processo de construção de imagens não é exclusivamente visual, e essa
construção, no caso do sujeito cego, se fará com base nas experiências
acústicas, olfativas, táteis e cinestésicas.
Segundo Vygotsky (1997), o desenvolvimento do conceito – como todos os processos
psicológicos superiores – amplia-se no processo de atividade coletiva e
concretiza-se através da utilização da linguagem como instrumento para elaborar
o conceito. Desse modo, no processo de aprendizagem a mediação pedagógica é
muito importante para que o educando com cegueira possa complementar o imediato
concreto com o pensamento conceitual.
De acordo com a teoria da aprendizagem significativa (TAS), de Ausubel (1968),
para que a aquisição de conceitos pelo sujeito cego ocorra significativamente, é
necessário partir do conhecimento prévio que o educando já possui, baseado nas
experiências perceptuais, nas vivências pessoais, nos seus interesses, nas suas
sensibilidades e habilidades.
O fotógrafo cego Evgen Bavcar desenvolve sua arte a partir da descrição do lugar
feita por um vidente que lhe transmite verbalmente o que está à sua frente.
Assim, o fotógrafo por sua vez, escuta, imagina e faz o retrato. Conforme
comenta Tessler:
Bavcar vê com a audição, com seu tato, com todos os sentidos, enfim, com todo o
seu corpo. Seus passeios são guiados pelas interpelações que dirige, a todo o
momento, a seu acompanhante. “O que você está vendo?”. E enquanto há relato,
inaugura-se a imagem. Enquanto escuta, o fotógrafo filósofo vê. Passagem da
palavra à imagem. (TESSLER apud BAVCAR, 2003, p. 11). A partir dessa experiência, é possível compreender que a construção de imagens
não depende exclusivamente da visão. Neste sentido, essa construção no sujeito
cego se fará com base nas experiências acústicas, olfativas, táteis e
cinestésicas.
Para que a pessoa cega construa um determinado significado acerca de um
conceito, além de saber o nome e função do objeto, esta necessita também
conhecê-lo com as mãos.
Aquisição de conceitos
De acordo com Masini¹, conceito é a noção que o ser humano tem das propriedades
e características de uma classe de seres, objetos, ou entidades, devido à sua
faculdade intelectiva e cognoscitiva de abstração. A representação mental que
permanece presa à concretude evidencia procedimento intelectivo e cognoscitivo
em ausência de abstração. Como expôs essa autora em Masini & Moreira (Cf. 2008,
p. 64) “a obra de Ausubel evidencia que sua teoria partiu da concepção de como o
conhecimento vai sendo adquirido à medida que o ser humano se situa no mundo”.
Esse é um ponto basilar para esta Tese que se propõe investigar como o
adolescente cego congênito adquire conceito e consequentemente se os
adolescentes - sujeitos/entrevistados desta pesquisa - adquiriram conceitos ou
ficaram em nível de representação concreta.
Ausubel define aquisição de conceitos como resultado de uma experiência
consciente, diferenciada e idiossincrática. A aquisição de conceitos envolve
duas modalidades principais: a formação de conceitos e a assimilação de
conceitos:
Formação de conceitos
Conforme Moreira e Masini (2006, p. 38), para Ausubel, a formação de conceitos
envolve os processos elencados a seguir e é característica da criança em idade
pré-escolar podendo ser explicada como sendo a aquisição espontânea de ideias
genéricas por meio da experiência empírico-concreta.
-
a) Análise discriminativa de diferentes padrões de estímulo;
b) Formulação de hipóteses em relação a elementos
abstraidos comuns;
c) Testagem subsequente dessas hipóteses em situações
específicas;
d) Seleção dentre elas de uma categoria geral ou conjunto de atributos comuns
sob os quais todas as variações possam ser assimiladas;
e) Relacionamento desse conjunto de atributos a elementos relevantes que sirvam
de ancoradouro na estrutura cognitiva;
f) Diferenciação do novo conceito em relação a outros conceitos previamente
aprendidos;
g) Generalização dos atributos criteriais do novo conceito a todos os membros da
classe;
h) Representação do novo conteúdo categórico por um símbolo de linguagem
congruente com o uso convencional.
Esse processo acontece a partir de experiências empírico-concretas, sendo
resultado de um processo de abstração dos aspectos comuns essenciais de uma
classe de objetos ou eventos que varia de acordo com o contexto, dando origem à
estrutura cognitiva.
Como afirmam Moreira e Masini (2006): O processo de formação de conceitos consiste essencialmente de um processo de
abstração de aspectos comuns essenciais de uma classe de objetos ou eventos que
varia contextualmente. [...] Na vida real, a formação de conceitos é um processo
mais longo e menos ordenado, que resulta da exposição a muitos diferentes
tamanhos, formas, tipos etc. do objeto. No caso de “cachorro”, por exemplo, a
exposição a diferentes tipos de raça, tamanho etc. de cães e outros animais. (p.
38)
De acordo com Moreira e Masini (2006, p. 43), até a criança iniciar o processo
de escolarização, uma grande parte dos conceitos adquiridos se dá por definição
ou uso no contexto.
Assimilação de conceitos
Conforme Moreira e Masini (2006), após a infância, principalmente na escola, os
conceitos não são mais adquiridos por um processo de formação, mas por um
processo de assimilação, a partir de conceitos já existentes na estrutura
cognitiva do aprendiz, que Ausubel denomina de conceitos subsunçores.
A aquisição de novos significados é dependente da interação com as
representações mais relevantes que a pessoa dispõe e que servirão de base para
esse processo de assimilação e modificação do conhecido adquirindo novos
significados. Conforme Moreira (1999, p. 152) a aprendizagem resulta “no
armazenamento organizado de informações na mente da pessoa que aprende, e esse
complexo organizado é conhecido como estrutura cognitiva”. A assimilação de
conceitos ocorre a partir dos conceitos que a pessoa dispõe em sua estrutura
cognitiva.
O processo de assimilação de conceitos envolve a relação, de modo “substantivo”
e “não-arbitrário” de ideias relevantes estabelecidas na estrutura cognitiva com
o conteúdo potencialmente significativo implícito na definição dos atributos
criteriais. Isso significa que para aprender um novo conceito, o sujeito recorre
a outros conceitos que já possui (ancoradouros) para que a assimilação aconteça.
Esses conceitos são denominados conceitos subsunções.
Conforme Ausubel (2003, p 8), a aquisição de significados na estrutura cognitiva
por assimilação ocorre em três fases:
-
(1) ancoragem seletiva do material de aprendizagem às ideias relevantes
existentes na estrutura cognitiva; (2) interação entre as ideias acabadas de introduzir e as ideias relevantes
existentes (ancoradas), sendo que o significado das primeiras surge como o
produto desta interação; e (3) a ligação dos novos significados emergentes com as ideias ancoradas
correspondentes no intervalo de memória (retenção).
Nesse processo, não só a nova informação se modifica ao interagir com o conceito
subsunçor relevante da estrutura cognitiva, mas o próprio conceito subsunçor
também sofre alteração. Esta alteração ocorre a partir da assimilação de novas
ideias, com as quais interage.
A assimilação de conceitos vai tornando gradualmente a forma predominante de
aquisição de conceitos quando a criança inicia o processo de escolarização, por
isso é caracterizada pela aquisição de conceitos secundários, haja vista, que
parte-se do pressuposto de que esse sujeito já possui maturidade intelectual
para relacionar à estrutura cognitiva atributos criteriais abstratos de um novo
conceito.
Segundo Moreira Moreira e Masini (2006, p. 40), uma das principais funções dos
conceitos existentes na estrutura cognitiva é facilitar a aquisição de novos
conceitos, por isso, os conceitos são utilizados de várias formas: “na aquisição
de novos conceitos, na categorização perceptual da experiência, na solução de
problemas, na percepção de novos significados dos conceitos e proposições
previamente aprendidos”.
Para compreender a aquisição de conceitos, é necessário considerar que esse
processo é resultado de uma experiência e que por isso, pressupõe-se que o
sujeito está ativo numa situação, num processo de elaboração pessoal. Desta
forma, quando o sujeito incorpora um símbolo à sua estrutura cognitiva, o
significado potencial converte-se em significado fenomenológico.
Aquisição de conceitos pelo cego congênito
A aquisição de conceitos pelo adolescente cego, da mesma forma que acontece com
o vidente, requer partir do conhecimento prévio que o educando possui, baseado
nas experiências perceptuais, nas vivências pessoais, nos seus interesses, nas
suas sensibilidade e habilidades.
Masini e Moreira (2008) retomam a importância de se estar atento à experiência
perceptiva do aprendiz e à sua relação corporal com o mundo que o rodeia –
pessoas e objetos, de maneira a superar o paradigma da unidimensionalidade do
estudo da aprendizagem do aspecto intelectual, enfatizando a dimensão
existencial do conhecer. É elucidativa, nesse sentido, a contribuição da
fenomenologia da percepção de Merleau-Ponty.
É, pois, da reflexão sobre o vivido e da atenção à experiência perceptiva que
emergem os significados da pessoa no mundo. [...] A reflexão, por exemplo, da
criança com deficiência visual surge de sua experiência de habitar o mundo por
meio de sua apalpação tátil, em que interroga o objeto de forma mais próxima do
que se o fizesse com o olhar. É a velocidade e a direção de suas mãos que a
farão sentir as texturas do liso e do rugoso, a temperatura fria ou quente, o ar
mais abafado ou quando se aproxima de uma parede, acompanhada pela interação de
sua voz ouvida e sua voz articulada que se altera ante um obstáculo ou em
ambiente aberto. Essas percepções de tatear, que ocorrem com seus movimentos de
mãos e dedos, de articular a voz, de ouvir, de sua comunicação e de sua
locomoção no espaço, estão unidas no seu corpo, no mundo e compreendidas pela
reflexão sobre cada uma das experiências. (MASINI e MOREIRA, 2008, p. 78)
Nesse sentido, a atenção dada pelos educadores às manifestações do sujeito com
cegueira congênita poderá indicar suas formas de percepção, sua participação e
suas experiências perceptivas. Esse é, pois, um caminho para compreender como se
processa a aquisição de conceitos pelo adolescente com cegueira.
A criança cega, por exemplo, vai povoando e preenchendo o ambiente que a cerca
com os objetos com os quais teve contato e que têm significado para ela, como o
colo da mamãe; o cheiro do suco de laranja; o ladrilho liso do banheiro; o som
do passo da irmã quando está no piso da cozinha ou no assoalho do corredor; o
fofo do tapete da sala de brinquedos na escola; a areia quentinha no pátio da
escola; a diferença de pisar na grama, na terra e no barro; o som da bola de
borracha e carrinho metálico que vem em sua direção.
Quando são propiciadas condições apropriadas pelos pais, ou outros educadores,
para que faça uso dos sentidos de que dispõe, a criança sente-se apoiada
afetivamente e confiante para explorar o meio que a circunda. (MASINI, 2007,
p.4)
O processo de aquisição de conceitos pelo adolescente com cegueira congênita
baseia-se na sua experiência corporal e perceptiva, por meio dos sentidos de que
dispõe, utilizando-os de maneira total, e não fragmentada. Nesse contexto,
Merleau-Ponty acrescenta: “o corpo próprio de cada um está no mundo em sua
experiência perceptiva” [...] (apud Masini, 2008, p. 79). Isso explica a
experiência perceptiva como sendo o processo que envolve muito mais do que
fatores perceptivo-cognitivos, enquanto fisiológicos, mas refere-se ao modo como
o sujeito percebe e constrói seu próprio mundo.
Ainda sobre a percepção da pessoa com cegueira, Masini (2007) complementa:
A ausência, a recuperação ou a perda desse sentido envolve um conjunto de
processos complexos, pois dizem respeito a como a pessoa percebe e constrói seu
próprio mundo. Assim, para saber como é o perceber de uma pessoa com deficiência
visual é preciso que se entre em contato com seu viver, em diferentes momentos e
situações que determinam as condições materiais da sua existência. Faz-se, pois,
necessário acompanhá-la na totalidade de sua maneira de ser: como sente, como
age, como se comunica e se expressa, como pensa. (p. 5)
Para que o adolescente cego
se organize no mundo, é preciso que lhe sejam
oferecidas oportunidades para explorar todas as suas experiências perceptivas,
atentando às suas formas de perceber.
Segundo Ormelezi (2000): Por ser a visão o sentido que mais nos coloca em contato com as coisas,
principalmente à distância e em detalhes, parece no mínimo intrigante pensar
como o cego estrutura seu mundo mental e como se apropria do conhecimento das
coisas que não pode vivenciar pelo tato, olfato e audição – como o conceito de
lua e nuvem, por exemplo. (p. 37).
Dessa forma, qual seria o modo de tornar significativa a aprendizagem de
conceitos por adolescentes com cegueira congênita?
As estratégias de ensino direcionadas ao educando cego necessitam propiciar-lhe
condições para perceber e analisar os elementos do mundo exterior e organizá-los
de acordo com a sua maneira de estar no mundo.
Investigar o caminho da aquisição de conceitos pelo adolescente cego implica
compreender que a sua organização mental, no processo de simbolização e de
formação de conceitos, estrutura-se com base em canais próprios, uma forma de
compensação sociopsicológica que, de acordo com Vygotsky (1993), permite ao cego
congênito construir outros meios de contato com o mundo.
Considerações Finais
Esse enfoque torna claro que é necessário que o educador partilhe com o educando
cego, a partir do conjunto dos caminhos do seu corpo, sua experiência
perceptiva, proporcionando-lhe experiências enriquecedoras, que favoreçam a
exploração do mundo, de modo que a sua aprendizagem seja significativa.
Devido às especificidades da cegueira, a pessoa que nunca fez uso da visão
possui um modo diferente de estar no mundo e de se relacionar com o outro.
Muitas situações que outras pessoas vivenciam por meio da visão, os cegos o
fazem utilizando outros caminhos perceptivos.
No que diz respeito à forma da pessoa cega captar o mundo por outros sentidos
que não o da visão, cita-se principalmente as percepções táteis, cinestésicas,
olfativas e auditivas como contribuintes para a aquisições dos conceitos
adquiridos.
A aquisição de conceitos a partir da experiência vivida pelo cego através dos
seus próprios caminhos perceptivos ocorre a partir das diferentes e
significativas experiências em relação às coisas e situações que fazem parte do
seu estar no mundo.
A aquisição de conceitos por assimilação ocorre a partir das experiências
perceptivas dos sujeitos, dos seus conhecimentos prévios, das suas vivências e
das múltiplas formas de perceber e refletir sobre o conceito em questão,
possibilitando-os formar representações do mundo.
Se o educando com cegueira congênita não tiver acesso à diferentes experiências
perceptivas, sua fala e conceitos apresentados poderão basear-se na repetição da
conceituação do vidente indicando que não há apropriação do conceito em questão,
portanto não há conceito e sim uma reprodução mecânica sem significado real para
o cego. A representação concreta pode se dar pela falta de estímulos
contextualizados e de experiências concretas da pessoa cega empobrecendo suas
próprias elaborações acerca do mundo em que vive e distanciando-se das suas
próprias percepções, nas quais deveria fazer uso dos sentidos que dispõe.
Na ausência da visão há uma reorganização de toda a estrutura mental que
possibilitará ao cego adquirir conhecimento sobre o mundo de acordo com uma
dialética própria através dos sentidos de que dispõe. Neste sentido, compreender
esse processo, implica penetrar no seu mundo, reconhecendo sua forma particular
de perceber com base na sua experiência perceptiva e no seu modo próprio de
perceber e de relacionar-se.
Destaca-se a importância de serem oferecidas à pessoa com cegueira congênita
experiências enriquecedoras, estímulos contextualizados, considerando os seus
canais perceptivos, permitindo que as suas vivências sejam significativas, de
maneira que a suas construções de conhecimentos se deem associadas às suas
experiências concretas.
De acordo com Ausubel (1968), a aquisição de conceitos implica um processo de
abstração da experiência, no qual as características essenciais de uma classe de
objetos ou eventos, variáveis de acordo com o contexto, são organizadas e
estabelecidas na estrutura cognitiva como uma forma de representar o mundo que o
rodeia, pressupondo um sujeito ativo numa situação, num processo de elaboração
pessoal.
Referências
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ϟ
Aquisição de Conceitos em Adolescentes com Cegueira Congénita
autora:
Marta Cristina Rodrigues
Doutora em Educação, Arte e História da Cultura Universidade Presbiteriana
Mackenzie. Mestre em Educação Universidade Nove de Julho. Graduada em Pedagogia
Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho.
São Paulo, São Paulo, Brasil
Artigo publicado em 17 de fev. de 2018
https://www.linkedin.com/
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