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Resumo: É
freqüente encontrar nos textos sobre deficiência visual
a afirmação de que os cegos enfrentam grandes
dificuldades, pois 80% das informações acerca do mundo
externo nos chegam através da visão. A partir desta
afirmação, supostamente fundada em estudos científicos
de última geração, os cegos conheceriam em torno de 20%
do mundo real. Este trabalho procura fazer a análise
crítica dessas colocações, apontando que elas estão
longe do consenso e da evidência científica. Ao
contrário, caracterizam uma certa abordagem da cognição
– a abordagem cognitivista – que é pautada na teoria
da informação e,
em última análise, no modelo da representação, que vem
sofrendo fortes questionamentos nas últimas décadas.
Lançaremos mão das críticas de Varela ao cognitivismo
computacional, que trazem à cena tanto a auto-produção
do sistema cognitivo, quanto o co-engendramento do
sistema e do domínio cognitivo da percepção e da ação.
Discutiremos a contribuição da abordagem da enação no
campo da deficiência visual a partir de estudos sobre
sistemas de substituição sensorial e procuraremos
examinar o problema da ausência da visão no contexto do
que Belarmino (2004) chamou de paradigma visuocêntrico.
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1. Introdução
É constante a referência a um percentual de
informações captadas pela visão. Fala-se
às vezes em 80%, em 85%, às vezes até
em 90%. Em princípio, esta parece ser uma
afirmação objetiva e desprovida de uma perspectiva
teórica específica. No entanto, se analisamos
com mais cuidado, verificamos tratar-se
de uma formulação baseada no modelo da
teoria da informação. Neste sentido, conhecer
é processar informações provenientes do mundo
externo. Ela evidencia uma posição realista
que pressupõe um mundo dado e pré-existente.
O mundo seria composto de objetos com existência
prévia e independente da relação cognitiva.
Seguindo esta formulação, somos levados
a pensar que os cegos teriam conhecimento de
apenas 20% do mundo externo. Nesta direção,
tomaríamos o mundo percebido pelos videntes
como sendo o mundo. Sob tal perspectiva, o
cognitivismo computacional é uma versão renovada
do behaviorismo. O conceito de input
é próximo do de estímulo, e o de output do
de resposta. Os inputs provêm de um mundo externo, cuja existência prévia e
independente
do percebedor jamais é colocada em questão.
Vigora também aqui uma posição relativista:
cegos e videntes teriam diferentes representações
de um mesmo mundo externo.
Além de realista e relativista, tal posição é
visuocêntrica. Isto significa que a representação
dos videntes é tomada como a mais adequada,
enquanto a dos cegos produziria um
conhecimento bastante incompleto e limitado.
O fato do mundo percebido pelo vidente converter-se em o mundo, faz dele um modelo e
uma norma. Uma das representações – a do
vidente – é tomada como sendo aquela mais
plena, espontânea e natural. Em outras palavras,
como a percepção normal. Tal posição é
problematizada por pessoas com deficiência
visual, como na fala de uma pessoa com baixa
visão: Muita gente me diz que eu não enxergo
direito, mas ninguém nunca conseguiu me explicar
o que é enxergar direito (P4).
O trabalho de Humberto Maturana e Francisco
Varela (1995) sobre a autopoiese do sistema
cognitivo colocam em evidência a indissociabilidade
entre o organismo e o ambiente,
entre o agente percebedor e o mundo, entre
sistema cognitivo e domínio cognitivo. O sistema
cognitivo é autopoiético no sentido que ele
é auto-produzido através das ações que cada
organismo realiza. Neste sentido, as ações
possuem uma dimensão ontológica. Elas configuram, num movimento de
co-engendramento,
o sistema cognitivo e o domínio cognitivo.
Um mesmo conjunto de práticas configura, de
modo recíproco e indissociável, o si e o mundo.
De acordo com tal perspectiva, a visão é
um tipo de prática cognitiva que responde pela
auto-produção de um sistema cognitivo cuja
plataforma é visual, engendrando, ao mesmo
tempo, um mundo visual. Da mesma maneira,
práticas cognitivas táteis produzem como resultado
um sistema dotado de uma plataforma
cognitiva tátil e de um mundo eminentemente
tátil. A questão que se coloca com a perda da
visão é a constituição de práticas capazes de
reconfigurar tais sistemas e gerar novas plataformas
e novos mundos.
De acordo com a abordagem da enação de
Francisco Varela, a cognição não é um fenômeno
meramente mental e, nesta medida, o
cego deve ser entendido como portador de um
outro corpo cognitivo (VARELA; THOMPSON;
ROSCH, 2003). O corpo cognitivo não se limita
a um corpo biológico, mas é construído com
base nas ações. A ação, em sua dimensão ontológica,
cria acoplamentos e conexões com o
mundo. Também segundo Bruno Latour (2004)
o corpo se faz por conexões. A cegueira traz
afecções características e conexões peculiares,
dificuldades e capacidades, deficiências e potências,
que configuram um corpo e um modo
de perceber, de se deslocar, de se comunicar e
de viver, definindo também um domínio cognitivo
e configurando um mundo. Reinventar-se
com a perda da visão é recriar o campo de
conexões, criando assim um novo corpo cognitivo
e um novo mundo.
A importância da abordagem de Varela
é evidenciar que ambos os sistemas cognitivos
– do cego e do vidente – resultam de um
processo de produção por práticas concretas.
Isto concorre para a revisão da idéia de que
haveria uma maneira natural e espontânea
de conhecer o mundo – a maneira visual – e
uma maneira estranha, quase bizarra – aquela
do cego – que precisa, para perceber e agir,
usar as mãos, o ouvido, o olfato, sentidos que
parecem secundários, pouco eficientes e, em
última análise, menos nobres que a visão. A
história da filosofia está plena de referências
à visão como um sentido mental, espiritual e
transcendente, que permite apreender o mundo
de modo distanciado. Por outro lado, o tato
surge como um sentido de proximidade, mais
próximo do corpo. Mesmo Descartes refere-se
à visão como o mais universal e o mais nobre
de todos os sentidos, embora reconheça
que ela está sujeita a ilusões. No campo da
psicologia cognitiva, muitos estudos já apontam
que a visão não é um processo espontâneo
e que há necessidade de aprender a ver
(GREGORY, 1974). Mas o que a abordagem da
enação concorre para evidenciar é que, cegos
ou videntes, somos feitos através do mesmo
mecanismo auto-produtivo, e que não há um
mundo único pré-existente.
É o que argumentam Varela, Thompson e
Rosch (2003) acerca da percepção de cores.
A experiência das cores não deve ser considerada
como um atributo das coisas do mundo,
explicada pela intensidade e comprimento de
onda da luz refl etida. Ela resulta de processos
complexos que envolvem a cooperação entre
múltiplos conjuntos de neurônios do cérebro,
que produzem estados globais emergentes. O
mundo cromático apresenta grande variedade
entre as diferentes espécies. Os humanos
percebem três cores primárias enquanto vários pássaros são tetracromáticos,
percebendo
quatro cores primárias. Neste caso, humanos
e pássaros são habitantes de mundos perceptivos
heterogêneos, que não podem se sobrepor,
pois suas dimensões são articuladas diferentemente,
através de certas propriedades
refletoras das superfícies.
A simples pergunta
'qual é a cor do mundo?' revelaria a presença
de um problema mal colocado. Se pensarmos
também no caso dos esquimós, capazes de
perceber mais de quarenta tons de branco, seria
cabível perguntar se eles percebem o mundo
melhor que nós, não esquimós? Seríamos
deficientes em matéria de branco e suas infinitas nuances? E o que dizer dos músicos que
escutam sons e notas musicais completamente
inaudíveis para nós, meros videntes?
Enquanto um modelo teórico, o cognitivismo
computacional está longe de responder a
tais questões e ser um consenso na área de
estudos da cognição. Mas o mais grave é que,
além de um modelo teórico, ele é uma política
cognitiva. O conceito de política cognitiva
busca evidenciar que o conhecer envolve uma
posição em relação ao mundo, a si mesmo e
ao próprio conhecer. Envolve uma atitude, um
ethos. Sendo assim, o cognitivismo e a abordagem
da enação não trazem apenas divergências
teóricas, mas também, e, sobretudo, diferentes
políticas cognitivas. Eles são configurações
que nossa cognição assume (KASTRUP;
TEDESCO; PASSOS, 2008).
O cognitivismo e
os pressupostos do modelo da representação
– a pré-existência de um sujeito cognoscente e
de um mundo que se dá a conhecer – são muitas
vezes tão enraizados em nós que se confundem
com uma atitude natural. E são formulações
como essa – que falam dos tais 80%
das informações captadas pela visão como um
modelo e uma norma – que concorrem para
incrementar o poder do cognitivista que habita
em nós, que supõe uma superioridade e mesmo
uma perfeição do vidente, em comparação
com a cognição inferior e incompleta do cego.
É curioso que, mesmo que nosso sistema cognitivo
tenha passado por um longo processo
de auto-produção, nos esquecemos do que se
passou. No caso em questão, o que caracteriza
a política da representação é considerar que o
mundo que se percebe enquanto vidente é o
mundo tal como ele realmente é.
Segundo Joana Belarmino (2004) a dominância
da visão configura o paradigma visuocêntrico
que caracteriza a sociedade ocidental
contemporânea. A noção de paradigma foi formulada
por Thomas Khun (1982) no campo da
epistemologia e da história das ciências. Paradigmas
são realizações científicas que, durante
algum tempo, fornecem alguns problemas
e soluções que se transformam em modelos
para uma comunidade científica. Embora seja
construído historicamente, através de determinadas
práticas, o paradigma acaba por confi
gurar a chamada ciência normal, ou seja, o
modo de fazer pesquisa como uma atividade
de solução de problemas, como a realização
de um quebra-cabeças. Para Kuhn o paradigma
entra em crise quando a ciência normal é
atravessada por novos problemas, que exigem
estratégias inéditas de investigação. É importante
destacar que a noção de paradigma vai
além da definição de regras da prática científica, possuindo um sentido normativo e portando
a idéia de como deve ser – no caso, a produção
do conhecimento objetivo e verdadeiro.
É neste momento que o paradigma dá um giro
da epistemologia para a política.
A cognição humana paradigmática ou considerada
normal é aquela que dispõe dos cinco
sentidos – visão, audição, tato, olfato e paladar.
Joana Belarmino fala de um paradigma
visuocêntrico para sublinhar que a visão assume
aí o estatuto de centralidade, ou seja,
de sentido dominante, exercendo a função de
controle dos demais. A visão domina porque
ela sintetiza as sensações trazidas pelos outros
sentidos, totalizando-as. Nos videntes, a visão
em geral domina e submete os demais sentidos,
tornando-os acessórios ou coadjuvantes.
Falamos então de um efeito de sobrecodificação
sensorial, entendendo por sobrecodificação
uma subsunção de todos os sentidos pela
visão. Um exemplo deste fenômeno é a curiosa
afirmação de pessoas idosas de que quando
estão sem óculos não conseguem falar ao telefone,
pois não ouvem direito. Como se o fato
de não enxergar bem lhes retirasse também a
nitidez de outros sentidos, como a audição.
As pessoas cegas também vivem sob a égide
do paradigma visuocêntrico. Mesmo sem
enxergar, a referência ao mundo visual está
sempre presente, apresentando-se a elas
como a forma normal de estar no mundo. Por
este viés, a diferença nos sistemas cognitivos
de cegos e videntes converte-se irremediavelmente
numa deficiência. A condição da cegueira
torna-se então uma condição de inferioridade.
2. Desdobramentos Atuais da
Abordagem da Enação no Campo
da Deficiência Visual
Desenvolvendo na atualidade a abordagem
da enação, o grupo Suppléance Perceptive, da
Universidade Técnica de Compiègne (França),
faz uma crítica ao modelo da representação
impulsionada pelo trabalho com deficientes visuais.
A partir de estudos experimentais realizados
com dispositivos técnicos de substituição
sensorial (criados para auxiliar pessoas cegas
a perceberem objetos à distância) este grupo
aponta sérias falhas do modelo computacional
da cognição, realizando uma forte defesa da
teoria da enação. Lenay, Gapenne, Stewart e
Hanneton, entre outros membros do grupo,
mostram que, longe de consistir em um conjunto
dado de informações a serem captadas
pelo sujeito, o espaço perceptivo é construído
pela própria atividade de exploração.
O sistema de substituição visuo-tátil (SSVT)
foi criado por Paul Bach-y-Rita (1972) na década
de 60. A estrutura deste dispositivo, que
se manteve basicamente a mesma até os dias
de hoje, é formada por quatro elementos principais:
uma câmera de vídeo, com a função de
captar sinais luminosos; um computador; uma
caixa de conversão, que converte os sinais luminosos
em sinais táteis; e uma matriz bidimensional
20 x 20 de estimulação mecânica
(tátil). A idéia básica é que, quando os sinais
luminosos são convertidos em estimulação tátil,
os cegos podem ter acesso a uma imagem
tátil análoga à imagem visual que se forma na
retina dos videntes. A matriz de estimulação
tátil é então colocada sobre a pele do sujeito,
que, para cada objeto captado pela câmera,
recebe uma estimulação tátil bidimensional
correspondente. Por exemplo, se o objeto na
frente da câmera é um triângulo, a matriz tátil
emite uma estimulação que tem a forma de
um triângulo.
Desde o início, o SSVT obteve resultados
surpreendentes. Verificou-se que, se a câmera
permanece estacionária ou se o experimentador
é quem a move em torno do objeto a ser
reconhecido, as capacidades de discriminação
do sujeito são muito limitadas e a estimulação
é sentida sobre a pele. Entretanto, se o sujeito
tem permissão de manipular livremente a
câmera (que pode ser fixada à sua cabeça ou
mesmo à sua mão), o sujeito revela uma capacidade
surpreendente de reconhecimento de
formas e objetos, que aumenta com o tempo
de treino, podendo às vezes chegar ao reconhecimento
de rostos. Além disso, quando é o
sujeito que controla a câmera, ele passa, em
algumas horas de uso do equipamento (5 – 15
horas), a perceber os objetos à distância, esquecendo-se da estimulação sobre a sua pele
(PACHERIE, 1997, LENAY et al., 2001).
Os resultados obtidos com o SSVT logo provocaram
controvérsias. Afinal de contas, o fato
de os sujeitos serem capazes de perceber formas
e objetos à distância significa que o aparelho
faz ver? Pode-se dizer que ele devolve
a visão aos cegos, mesmo que em condições
limitadas? Ele de fato substitui uma modalidade
sensorial? Seu inventor, Bach-y-Rita,
respondeu afirmativamente a esta questão,
pretendendo haver demonstrado que o olho,
mero transmissor de informações, é perfeitamente
dispensável para a visão. Segundo ele,
o importante na percepção é que a informação
pertinente - que neste caso estaria contida na
energia luminosa - atinja o cérebro. O canal
pelo qual a informação é captada e conduzida
do ambiente até os centros nervosos não
faz diferença alguma. Independentemente de
qual seja ele, chega-se sempre a uma mesma
representação do mundo (visual) (BACHY-RITA; KERCEL, 2003). Outros autores, como
Pacherie (1997), defendem que, mesmo que
o SSVT não produza sensações visuais (como
as cores), o que conta é que ele dá lugar a
perceptos visuais, já que o estímulo percebido
é a luz.
É preciso atentar para o fato de que, por
trás desta formulação – o SSVT é capaz de fazer
ver e devolver a visão aos cegos – subjaz
uma concepção informacional da cognição. Segundo
esta concepção, trata-se, na substituição
sensorial, de suprir uma quota de informação
disponível desde sempre, mas inacessível
para os cegos. A insistência de que o SSVT faz
ver torna manifesta a crença em um retorno
a uma espécie de cognição natural - a do vidente.
Numa outra direção, Lenay (2006) argumenta
que o que o SSVT mostra é que não
há cognição natural. Tal como defende o grupo
Suppléance Perceptive, a substituição sensorial
não substitui nada (LENAY et al., 2000). O
que ela faz é criar uma nova modalidade perceptiva,
híbrido de tato e visão. Se prestamos
atenção ao testemunho dos sujeitos que fazem
uso do dispositivo, logo descobrimos que a experiência
perceptiva que ele promove, ainda que guarde com a visão muitos traços comuns,
é diferente dela do ponto de vista da experiência
perceptiva. Por causa disso, os cegos costumam
se revelar decepcionados com a qualidade
da experiência, afirmando que o aparelho
está longe de devolver-lhes a visão (KASTRUP
et al., 2009, LENAY et al., 2000). A experiência
de ver com os olhos é muito diferente daquela
de ver com o SSVT. Assim, ao invés de falarmos
em substituição sensorial – termo que sugere
uma carência informacional do mundo do
cego –, o grupo Suppléance Perceptive propõe
que falemos em suplementação perceptiva. O
uso de qualquer um dos muitos dispositivos de
substituição sensorial (1) constitui uma experiência
enriquecedora para qualquer um que os
utilize, mesmo para os videntes. Eles deixam
claro que corpos diferentes constroem espaços
perceptivos diferentes, nenhum dos quais
pode ser considerado, a não ser de forma puramente
arbitrária, o padrão (os 100%) a partir
do qual a riqueza informacional dos outros
pudesse ser calculada.
Lenay et al. (2000) não somente desconstroem
a idéia de que o SSVT produz experiências
visuais, como mostram que este dispositivo
testemunha contra a própria concepção
representacional da percepção. Segundo estes
autores, o que os experimentos com sistemas
de substituição sensorial revelam de mais importante
é o caráter fundamental da ação na
própria constituição do mundo percebido, jogando
por terra a noção de que nossos órgãos
sensoriais recebem inputs do meio. Afinal, a
noção de input implica em recepção passiva de
informações presentes num mundo previamente
dado. Os dados experimentais de Bach-y-Rita evidenciam o caráter ativo da
percepção:
sem a ação do sujeito, a estimulação cutânea
não assume o valor perceptivo de um objeto
externo, comportando-se apenas como uma
sensação localizada sobre a região da pele que
está sendo estimulada.
O grupo Suppléance Perceptive percebe
evidências empíricas a favor da concepção da
enação nos resultados obtidos por Paul Bachy-
Rita e em outros experimentos semelhantes (2).
Os autores demonstram que o sujeito, substituição sensorial, ao tornar evidente
o caráter
ativo da percepção, cria ocasião para a
colocação de novos problemas no campo da
deficiência visual. Se é verdade que a experiência
da cegueira nos confronta com a questão
da diferença, já não podemos mais, no entanto,
entender esta diferença apenas como falta.
Antes, esta diferença aponta para outra forma
de estar no mundo, outro acoplamento que,
assim como o acoplamento visual, possui limitações,
mas também porta potencialidades
que o vidente desconhece.
3. Deficiências e Potências: um
problema político-metodológico
O paradigma visuocêntrico ou visuocentrismo
é uma política cognitiva que constantemente
nos ronda. Ele é também uma política
científica que comparece sempre que escolhemos,
como estratégia metodológica, abordar a
cegueira através de estudos comparativos com
o vidente. Tais estratégias, que ainda são freqüentes
no campo da deficiência visual, têm
sido bastante criticadas e constituem um desafi
o a ser enfrentado (HATWELL, 2003, MASINE,
2007). Se adotarmos a perspectiva do
vidente, o que vai se destacar são as deficiências
do cego. O que se concede de positivo
fica restrito à compensação sensorial. Nessa
direção, afirma-se que o cego tem excelente
audição ou um tato privilegiado. Há uma longa
discussão acerca do tema, mas hoje está claro
que a chamada compensação não consiste em
um mecanismo neurofisiológico imediatamente
defl agrado pela cegueira, e sim em uma laboriosa
construção que leva tempo, exigindo
uma reorientação da atenção (HATWELL, 2003,
VIEIRA et al., 2007, CARIJÓ et al., 2008). De
todo modo, na maioria das vezes as teorias da
compensação ficam restritas a uma discussão
sobre como um cego pode viver de maneira
adequada num mundo de videntes, sem discutir
suas estratégias inventivas nem tampouco
a construção coletiva de um mundo comum e
heterogêneo incluindo cegos e videntes. Também
não é problematizada a suposta perfeição
da cognição dos videntes.
Entender a cognição das pessoas cegas em
sua positividade, ou seja, analisar suas singularidades
para além da visão negativa da
deficiência, é um problema ao mesmo tempo
teórico e político. A representação negativa
do cego é muito antiga. Desde a Idade Média,
as fábulas e o teatro profano trazem a figura
do cego bufão, desajeitado e grosseiro, do
cego mendigo, geralmente acompanhado de
um guia. Também é muito comum a figura do
falso cego, que explora a caridade das pessoas.
Tais personagens podem inspirar o riso, o
terror, a repugnância ou a compaixão. Muitas
vezes a não-visão simboliza o obscurecimento
da inteligência e mesmo uma cegueira moral
(WEYGAND, 2005). Num balanço geral, prevalecem
as visões negativas, com ênfase nas
deficiências.
A obra de Diderot
Carta Sobre os Cegos Para
Uso dos que Vêem é o primeiro texto dedicado
a descrever e discutir positivamente as características
das pessoas cegas. Além de discutir
o clássico problema de Molyneux, que como
afirma Zina Weygand (2005), faz do cego uma
espécie de mito fundador da filosofia das luzes,
o texto de Diderot traz à cena um matemático
cego e discute as virtudes e a delicadeza da
percepção tátil, quando ela é trabalhada pelo
treino. Sem entrar aqui nos detalhes desta
obra, que guarda até hoje uma surpreendente
atualidade, cabe apenas destacar que ela coloca
o personagem cego no centro do debate
acerca do estatuto do sensível nos processos
de conhecimento.
Para dar conta da positividade do modo de
conhecer e estar no mundo que é próprio da
pessoa cega, Joana Belarmino (2004) fala de
uma mundividência tátil ou munditactência.
Afirma que sua plataforma cognitiva é eminentemente
tátil, incluindo também importantes
referências da audição e do olfato. Evocando
uma lembrança de infância, vivida no interior
da Paraíba, escreve:
-
Aos cinco anos, talvez, lá estava eu às voltas com a terra,
as pedras, às voltas com o mistério. Eu atritava pedaços
de pedras, somente para sentir o cheiro daquelas
faíscas que elas geravam. Cheiro de fogo diferente, uma
espécie de fogo antigo que me ligava ao mistério do
princípio do mundo, ao princípio da criação das coisas.
-
Pesava a terra entre as minhas mãos de menina e me
perguntava de que matéria ela era feita. Sentia o vento
a anunciar a chuva e me perguntava, como chovia,
como fazia sol, como ventava. E o meu cérebro, obediente
máquina de pensar, produziu uma resposta para
essas minhas indagações. O meu cérebro providenciou
para mim um corpo sensível todo tátil. O meu cérebro
inventou uma montanha, com sua base rugosa, cheia
de arbustos. O meu cérebro fez com que eu escalasse
aquela montanha, e encontrasse lá no alto, gavetas que
eu podia abrir, para fazer chover, para fazer sol, para
fazer ventar. Tivesse a ciência tradicional tido acesso a
essas minhas evocações, tivesse a pedagogia tradicional
conhecido, numa sala cheia de crianças da minha
idade, que enxergavam, essas minhas rudimentares
percepções do mundo, e eu provavelmente seria alvo
de um sentimento de compaixão, de piedade, por estar
tão longe da verdade. Essas reminiscências, porém, exibem a riqueza do universo
perceptivo de uma criança
cega, brotando do interior de si mesma, ou forjando-se
na interação do seu corpo com o ambiente à sua volta
(BELARMINO, 2009, p.182).
A cegueira é uma limitação sensorial e não
uma deficiência intelectual. É certo que existem
limitações diversas. Uma das maiores difi
culdades do cego é sua percepção do espaço,
seu deslocamento na cidade e nos espaços públicos,
nem sempre dotados de boas condições
de acessibilidade. A referência básica no tato e
a quase inexistência de percepção à distância
(apenas a audição atende a este requisito) faz
com que sua situação seja de grande vulnerabilidade.
Em primeiro lugar, trata-se de vulnerabilidade
física, que diz respeito à exposição
freqüente a acidentes – um mero orelhão pode
causar um grande dano. Mas há que se escutar
algumas falas dessas pessoas:
-
A gente não olha só com o resto de visão que a gente
tem, a gente olha com a visão, a gente olha com o coração,
a gente olha com a emoção. O mais importante
é a emoção. O deficiente visual – tem muitos que não
conseguem distinguir isso. Porque a gente fica com a
visão ruim, cego total ou visão baixa, mas adquirimos
outros fatores que são essenciais pra gente. É a audição,
é o olfato, é o tato e os sextos sentidos que a gente
vai adquirindo com a mente. [...] Tem uma colega
de uma geração de cegos, bota ela em qualquer lugar
com a bengala, ela vai embora. E não enxerga. Porque a
mente dela tá muito avançada, até o vento, o vento, ela
sabe a direção do vento. E aí ela não se perde. (P4)
4. Conclusão
A afirmação aparentemente neutra de que
80% das informações que recebemos do mundo
nos são dadas através da visão caracteriza
um posicionamento teórico e político, como
procuramos mostrar ao longo deste artigo.
Apontamos que esta afirmação está estritamente
vinculada a teorias que compreendem
a cognição segundo o modelo da representação.
Além de prestar o que consideramos um
desserviço para o campo de investigação da
deficiência visual, tal afirmativa contribui para
a disseminação de preconceitos e práticas de
exclusão com os quais o deficiente visual se
defronta todos os dias.
Da idéia de que processamos informações
a fim de elaborar representações mentais do
mundo segue-se a conclusão que estarão mais
bem adaptados aqueles que mais fielmente
puderem representar o mundo. Conforme este
raciocínio, o vidente teria uma percepção total
do mundo, enquanto o cego teria uma visão
apenas parcial, precisando se contentar com
a irrisória fatia de 20% deste mesmo mundo.
É evidente que, segundo o modelo da representação,
o mundo mais completo é aquele do
vidente.
Neste artigo, contrapusemos à abordagem
cognitivista da percepção aquela da enação,
formulada por Francisco Varela. Rejeitando o
entendimento do indivíduo como uma máquina
de processar informações, a abordagem da
enação nos apresenta o organismo autopoiético,
aquele que produz a si mesmo e ao mundo
num mesmo processo, no qual a ação possui
um papel constitutivo. A cognição, aqui, não
é explicada somente através de mecanismos
cerebrais; ela engloba todo o corpo e deve ser
entendida a partir das conexões que este corpo
cria ativamente com o mundo que habita.
Diante da abordagem da enação, a afirmação
de que 80% do mundo nos são dados através
da visão revela-se incoerente e até mesmo
absurda. Nada justifica que a visão deva ocupar
posição central na cognição, nem que seja
tomada como um sentido superior ou mais
correto. Ela constitui apenas uma das formas
de acoplamento do organismo com o mundo,
dentre tantas outras possíveis. Ela produz
uma cognição de certo tipo, cuja plataforma é
visual. Da mesma forma, o tato produz uma
cognição diferente, cuja plataforma é tátil. O
fato de constituir um acoplamento diverso do
visual não caracteriza, em princípio, uma inferioridade.
Afinal, não é nem mesmo possível
encontrar uma medida para a completude ou
a incompletude do mundo percebido por uma
modalidade sensorial. Assim, o cego possui um
corpo cognitivo diferente daquele do vidente,
mas ambos percebem um mundo integral. E,
se podemos apontar limitações na experiência
cognitiva tátil, como a ausência de cores ou
de percepção distal, também é verdade que a
visão não é capaz de perceber o peso e a temperatura
dos objetos, por exemplo.
A abordagem da enação vem recebendo
reforços experimentais, como o do grupo Suppléance
Perceptive, cujos estudos com dispositivos
de substituição sensorial demonstram a
centralidade da ação na constituição do espaço
percebido. O trabalho com o SSVT mostra
que não existe cognição natural, mas que, pelo
contrário, a percepção pode se configurar e reconfi
gurar de diferentes maneiras, dependendo da atividade do organismo e das
conexões que
ele estabelece com o mundo. Estes dispositivos
mostram que a cognição de todo e qualquer indivíduo
é expansível, o que nos obriga a abandonar
qualquer pretensão de eleger um arranjo
cognitivo ótimo, ou seja, que capta 100% do
mundo. Ao recusar o esquema informação-processamento-representação-ação e ao colocar
a ação como condição mesma da percepção,
rompendo com o juízo comum de que o
organismo capta informações sobre o mundo
para em seguida agir, a abordagem enativa cria
novas possibilidades de entendimento da cegueira.
Por certo a pessoa cega tem uma série
de limitações, sobretudo em função de habitar
um mundo construído por e para videntes. No
entanto, em vez de apenas destacar tais limitações
e de afirmar seu fracasso em apreender
um mundo que se supõe prévio, a abordagem
da enação nos põe em condições de pensar a
cegueira em sua positividade.
É preciso reconhecer que a pessoa cega
porta, antes de tudo, uma cognição diferente,
uma experiência de mundo em que, dado que
a visão não impera, outros sentidos concorrem
para produzir uma experiência rica em outros
elementos. Ora, muitos desses elementos
não se encontram nem mesmo presentes no
mundo habitado pelo vidente, que, capturado
por um excesso de imagens visuais, entra em
um funcionamento cognitivo tal que a visão
sobrecodifica toda a sua percepção. A profusão
de elementos visuais não significa que o
vidente tem acesso a uma porção maior do
mundo, já que a contraparte deste infl uxo de
imagens visuais é a perda de experiências mediadas
por outros sentidos. Assim sendo, não
se pode dizer que um mundo é menos integral
que o outro. A própria idéia de um mundo
pleno, 100%, em oposição a mundos incompletos,
é insustentável, porque não é possível
medir mundos.
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NOTAS:
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1. Desde a década de 60, muitos outros foram inventados.
Ver Bach-y-Rita e Kercel, 2003.
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2. O grupo Suppléance Perceptive conduziu experimentos
com dispositivos de substituição sensorial
simplificados, confirmando os resultados obtidos por
mais que receber uma informação para então
processá-la, precisa aprender, ativamente, que
há uma correlação entre as variações sensoriais
que ocorrem em sua pele e a ação que ele
mesmo executa. Se o sujeito move a câmera
da esquerda para a direita, sente o estímulo se
mover da direita para a esquerda em sua pele.
Se utiliza o zoom para aproximar a imagem,
percebe um aumento da área de estimulação
cutânea. A princípio o sujeito reconhece formas
que são percebidas na própria pele. Depois de
algumas horas de treino, porém, na medida em
que o sujeito percebe regras que lhe permitem
apreender as conseqüências sensoriais de seus
movimentos, o estímulo passa a ser percebido
não mais na superfície de seu corpo, mas no
exterior, no espaço à sua volta. Este fenômeno,
denominado distalização, não é uma mera
representação abstrata de que existe um objeto
lá fora que é a causa de suas sensações.
É um fenômeno vivido, incorporado. A aproximação
muito rápida do estímulo na direção do
percebedor, por exemplo, não leva à percepção
de aumento de tamanho do objeto, mas a um
movimento refl exo de esquiva, característico
de uma atitude de defesa contra um possível
choque.
Os experimentos com dispositivos de substituição
sensorial reforçam aquilo que vínhamos
defendendo acima sobre a natureza da
percepção. O SSVT, muito longe de substituir
um sentido que falta, muito longe de devolver
80% das informações sobre o mundo que
a pessoa cega perde, deve ser compreendido
como uma extensão do corpo cognitivo, como
uma forma original de acoplamento do corpo
com o mundo. O que temos é uma nova prática
cognitiva produzindo um novo sistema cognitivo,
que cria um mundo e uma plataforma
cognitiva que ainda não estamos em condições
de nomear, mas que certamente não é tátil
nem visual. Se o espaço em que vivemos é
construído através de nossa atividade, então
o SSVT constrói novos espaços, novas formas
de agir e perceber. Não vivemos em um espaço
representado, mas em um espaço constantemente
produzido pela nossa própria ação (LENAY
et al., 2002).
Da mesma forma, o estudo de sistemas de
Bach-y-Rita mesmo quando o sensor é constituído de
uma única fotocélula e a matriz é reduzida a um único
ponto de estimulação cutânea. Ver, p. ex., Lenay
et al., 2001.
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FIM
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Abordagem da Enação no Campo da Deficiência Visual autores:
Virgínia Kastrup -
Professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do
Rio de Janeiro; Filipe Herkenhoff Carijó
- Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal
do Rio de Janeiro; Maria Clara de Almeida
-
Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do
Rio de Janeiro in INFORMÁTICA NA EDUCAÇÃO: teoria & prática Porto Alegre, v.12, n.2, jul./dez.
2009.
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