
Na Escola para Cegos de Zollikofen em
Berna - fotografia de Peter Mosimann
A criança diagnosticada com baixa visão apresenta uma redução na sua capacidade
visual que, no decorrer de sua vida, irá interferir ou limitar o seu desempenho,
mesmo após a correção de erros de refração comuns. São muitas as causas da baixa
visão, podendo ocorrer por traumatismos, doenças ou imperfeições no órgão ou no
sistema visual. Pode-se dizer que crianças acometidas da mesma etiologia,
poderão apresentar características diferenciadas que compõemum quadro diverso de
problemas e dificuldades visuais, afetando a acuidade e ou o campo visual,
resultando em comprometimentos em áreas de percepção visual (Carvalho et al.,
1992; Gaspareto, 2009; Nobreetal.,1998; Veitzman, 2000).. Neste sentido é
importante compreender que a eficiência visual ou a capacidade de enxergar, não
depende somente de funções orgânicas, mas também de condições ambientais, ou
seja, de habilidades construídas pelas experiências e na interação com o meio,
pois é no uso da visão, seja nas atividades cotidianas, seja nas atividades
escolares, que esta se desenvolve, melhora e se torna mais eficiente. Segundo
Chou (2010), Natalie Barraga, em 1963, apresenta um estudo em que postula o uso
da visão e a eficiência visual, como processos aprendidos, ou seja, poderiam ser
ensinados e potencializados a partir da aprendizagem e comportamento funcional.
Se despreendendo
da ideia de que a baixa visão estava determinada por padrões estáticos e medidas
de acuidade.
Assim, os primeiros anos de vida são de extrema importância, pois nessa fase a
criança precisa receber e interagir com estímulos ambientais, pois é o período
que se caracteriza como determinante no desenvolvimento da visão, já que o
organismo está em mudanças e demonstra reação a estímulos quando exposto,
portanto, qualquer comprometimento no órgão visual que impeça a formação da
imagem pode trazer sérios prejuízos para a aquisição e desenvolvimento das
funções perceptivas (Oliveira,2008). Ao nascer, a criança apresenta uma visão
limitada somente a presença de luz e de vultos, de 2 a 3 meses já consegue, com
o olhar, seguir objetos (reflexo de fixação), aos 4 meses há um desenvolvimento
macular e consegue fixar e pegar objetos próximos, assim o bebê começa sua
caminhada de exploração do meio, aprendendo a enxergar, da mesma forma que se
aprende por estímulos a falar, andar e outros. No percurso comum do
desenvolvimento visual, a criança terá com 5 ou 7 anos de vida, uma visão igual
ao do adulto (Graziano, 2005; Varella, 2021).
Segundo Farroni & Menon (2008) a exposição do bebê desde o nascimento, a
experiências sensoriais que ocorrem no contexto social e familiar são de extrema
importância para que o cérebro se desenvolva e estabeleça conexões. Assim como o
diagnóstico e tratamento de doenças precisam ocorrer de forma mais célere do que
normalmente tem ocorrido. Para o autor o desenvolvimento da criança que
apresenta baixa visão, diagnosticada ao nascer ou nos primeiros anos de vida,
dependerá também da reação da família à sua aceitação, pois quanto mais rápido a
família superar os sentimentos e conflitos internos gerados pela notícia, mais
rápido poderá buscar ajuda profissional, junto à Programas de Estimulação
Essencial (Atendimento que visa o desenvolvimento biopsicossocial da criança que apresenta
alguma deficiência de 0 a 3 anos de idade.) , que devem ser ofertados em creches ou outras instituições, seja da
área da saúde, seja da área da educação. É necessário que as relações e as
experiências de aprendizagem, que a princípio acontecem de forma limitada no
ciclo familiar, sejam expandidas para outros ambientes e seguimentos da
sociedade como a escola.
O desenvolvimento do potencial visual em crianças com baixa visão raramente
ocorre de maneira espontânea e automática. Faz-se necessária a realização de
orientações e atividades que auxiliem e estimulem o processo de discriminação
entre formas, contornos, figuras e símbolos. A busca contínua com os olhos
permite à criança com alteração visual a identificação de detalhes antes
despercebidos, levando à aquisição de noções perceptuais reais, das várias
formas existentes no universo visual no qual está inserida. A estimulação visual
na infância é um processo que promove o desenvolvimento funcional da visão e os
aspectos psicomotores, afetivos e sociais da criança (Bruno, 1993). Dessa forma,
a criança com baixa visão necessita da estimulação visual desde os primeiros
anos de vida. Esta estimulação consiste em desenvolver e utilizar o resíduo
visual, pois, quanto maior for o seu uso, mais funcional será o seu resultado,
propiciando uma melhor adaptação da capacidade visual à eficácia na visualização
(Figueiredo et al., 2011).
Será no ambiente escolar que a criança que apresenta baixa visão, mas que ainda
não foi diagnosticada poderá ser identificada, a partir do olhar atento da
comunidade escolar. Todavia, o contrário disso, tem causado à essas crianças
situações de estigma e exclusão, pois passam a apresentar nesse novo ambiente
comportamentos que vão da apatia e desinteresse, “preguiça” à hiperatividade,
falta de concentração e não realização das tarefas. Siaulys (2009), afirma que,
a cegueira é notada mais facilmente, já a criança que apresenta baixa visão,
esta comumente demora mais para ser percebida, sendo observada geralmente ao
iniciar suas atividades escolares. Nesse sentido, se faz importante, a
comunidade escolar desenvolver programas de avaliação e identificação de sinais
e sintomas que possam alertar a família sobre a condição visual de sua criança.
Para isso, precisa haver uma articulação entre os Sistemas de Ensino e de Saúde,
enquanto elaboração de políticas públicas de apoio a escola e a família, além de
formação aos docentes e ou outros executores.
Para Amiralian (2004), existe ainda falta de clareza e de conhecimentos sobre
como a criança com baixa visão enxerga as coisas a sua volta, o que impede a
família e a escola perceberem com mais atenção as dificuldades enfrentadas por
essa criança, e ainda atribuindo essas dificuldades a incapacidades pessoais e
não a uma condição visual.
O sentido da visão estimula o desenvolvimento humano, captando imagens, cores,
formas, impulsiona a exploração do mundo a sua volta, pois é um sentido que atua
como integralizador sensorial. Por isso, é preciso que a escola seja um ambiente
organizado e estruturado para receber as crianças, independentemente de suas
condições, em seus processos de desenvolvimento. No caso da criança com baixa
visão, o ensino precisa estar direcionado para o alcance dos canais sensoriais
que possui e da forma que se apresentam.
A escola precisa considerar como primeiro desafio a compreensão sobre o que
significa baixa visão, não somente o percentual da visão que o aluno possui ou a
etiologia, mas a qualidade da visão, o “como” esse aluno enxerga e assim poder
encaminhar e ressignificar os procedimentos de ensino no atendimento às
necessidades desses alunos. Pois, segundo Vygotsky (1989) Todas as crianças têm
capacidades, se desenvolvem e aprendem. As mais sérias deficiências podem ser
compensadas, mediante um ensino apropriado, com mediação consciente e
intencional.
No entanto, Mendes (2017) chama atenção para algumas características de
funcionamento do sistema escolar e alega que este precisa ser modificado, para
responder as necessidades da criança com deficiência. Pois essa forma como a
escola está estruturada com salas comuns superlotadas, com um professor atuando
sozinho em paralelo ao professor do AEE e que sobrecarregado, organiza o
atendimento no contraturno, duas vezes por semana, geralmente com proposta
pedagógica distante da que está sendo vista na sala comum, acaba não cumprindo
seu papel de apoio a escolarização e nem colaborando na eliminação das barreiras
interpostas no ambiente escolar. Para Vygotsky (1989), o ambiente escolar e a
mediação que neste ocorre precisam ser planejados para promover a interação
entre todos os que lá coexistem, pois, não é a deficiência que impede o
desenvolvimento do aluno, mas sim as mediações limitadoras que podem acentuar e
causar as deficiências secundárias, ou seja, a sociedade acaba impondo
restrições ao desenvolvimento da criança, quando não possibilita sua
participação e vivência nos seus diferentes espaços.
Quando se trata de criança com baixa visão, a mediação pedagógica do professor
da classe comum e do AEE, precisa estar atenta para a forma como esta enxerga, a
compreensão dessa premissa será o divisor de águas, no seu processo de ensino da
escrita e leitura. Quando o professor tem claro, os conceitos de acuidade visual
e campo visual e, onde se encontra a limitação do aluno, no seu ato de enxergar,
o planejamento e a prática docente direcionadas a ele, se tornam exitosas. O que
será feito e como será feito, a mediação consciente muda o resultado dentro do
processo de ensino e de aprendizagem da criança com baixa visão e rompe a
invisibilidade deste no ambiente escolar (Laplane & Batista, 2008).
Para Mendonça et al. (2008), existe uma fragilidade nos conceitos clínicos de
acuidade e campo visual que ancoram as definições de cegueira e baixa visão,
pois não revelam como ocorre o funcionamento visual da criança. É possível
perceber no funcionamento visual, traços e características individuais
apresentados por duas pessoas com a mesma patologia e, ainda os diferentes
níveis de funcionamento que ocorre numa pessoa quando há alteração nas suas
condições físicas e ambientais. Isso se deve pelo fato de a visão sofrer
interferências, de fatores pessoais e ambientais, ou seja, existe uma interação
orgânica das funções visuais com o estado físico emocional e o meio ambiente.
Conforme a figura:
Figura: Factores pessoais, ambientais e visuais

Fonte: adaptação de Mendonça et. al. (2008).
Desta forma, o tripé: fatores pessoais, ambientais e funções visuais podem
diminuir e ou potencializar a funcionalidade da visão, daí a importância que
precisa ser
atribuída para que escola e família oportunizem a criança com baixa visão a
realização das avaliações clínica, realizada pelo oftalmologista e funcional,
realizada por equipe multiprofissional.
Sendo assim, nos caminhos para a inclusão da criança com baixa visão no ambiente
escolar, é preciso que ocorra a identificação da quantidade e da qualidade de
visão que a criança possui. A mediação docente intencional e planejada deve
propiciar a criança inúmeras atividades de contraste, discriminação,
sequenciação, categorização, etc., enfim,atividades de exploraçãoque despertem
seu interesse e a estimulem a usar a visãopara obter maior eficiência,
considerando a condição que esta se apresenta (Sá et al., 2007).
I Recursos ópticos, não ópticos e tecnológicos de apoio a escrita e
leitura
As crianças com baixa visão apresentam funcionamento visual bem diferenciado.
Mesmo aquelas que possuem a mesma acuidade visual podem demonstrar diferentes
graus de dificuldades para enxergar de perto ou a determinadas distâncias e,
limitações variadas, para realizar tarefas escolares que exijam habilidades
visuais de distinguir contrastes, detalhes, cores, copiar de quadros, entre
outras.Sendo necessário o uso de auxílios que melhorem o desempenho visual na
realização de suas atividades. Esses auxílios podem ser ópticos, não ópticos e
eletrônicos (Sampaio et al., 2001).
Para que o aluno possa fazer uso desses recursos, faz-se necessário que o
professor oriente a família para que busque junto ao setor da oftalmologia uma
avaliação clínica para avaliar a necessidade de uso de recursos ópticos e
tecnológicos e, junto a Centros Especializados Educacionais, a realização da
avaliação funcional da visão para que se analise a eficácia visual, ou seja, a
forma como o aluno está usando sua visão para resolução de atividades escolares,
desta forma, poderá ser indicado o uso de recursos não ópticos e ainda
adaptações e mudanças no ambiente, como forma de possibilitar ao aluno maior
eficiência e conforto visual, reduzindo a fadiga e as dificuldades na realização
de tarefas e mobilidade.
Nesse sentido, Amiralian (2004) corrobora com a discussão quando diz que a
capacidade visual da criança com baixa visão, apresenta limitações que podem
variar
quanto à acuidade visual, ao campo visual, contraste, luz, cores e eficácia, mas
que pode ser melhorada, quando avaliada clínica e funcionalmente, pode fazer uso
de sua visão, através de atividades de estimulação visual, no atendimento do
AEE. Esta visão ainda que limitada, é de extrema importância para a exploração
do ambiente, na locomoção para identificar situações de risco e em aprendizagens
de leitura e escrita e que também ser melhorada, a partir da prescrição pelo
oftalmologista, de recursos ópticos, que são lentes de alto poder de
magnificação, sendo necessário o ensino e treino de como usar esses recursos.
Desta forma, os recursos ópticos podem ser para perto, como os óculos especiais
com lentes de aumento que melhoram a visão de perto (bifocais, lentes esfero
prismáticas, lentes monofocais esféricas); lupas (manuais e de mesa);sistemas
telemicroscópicos que são telelupas que podem ser acopladas em óculos
(monoculares, binoculares ou manuais).Ou para longe visando melhorar a visão da
imagem à distância, são eles os óculos especiais; telescópios, usado para
leitura na lousa; lentes de contato; telessistemas e telelupas. É bom enfatizar
que quanto maior a magnificação, mais se restringe o campo de visão. Para melhor
aproveitamento desses recursos é necessário que o aluno seja orientado e
treinado de como usar e quanto aos efeitos iniciais que poderão surgir, como
fadiga visual, dor de cabeça, enjoo, mas que com o uso correto, desaparecerão
(Sá, Campos, Silva (2007). Também o professor precisa ter conhecimento do
recurso que seu aluno de baixa visão utiliza, ou irá utilizar, assim como das
suas restrições e possibilidades para o melhoramento da eficiência visual de seu
aluno (Gasparetto, 2009).
Quanto aos recursos não ópticos, estes não dependem de lentes de aumento, são de
ordem mais simples, mas de grande valia para o funcionamento visual. Podem ser
usados em conjunto e ou complementando o auxílio óptico. Agrupam-se em três
categorias, que são: 1 - Modificações ambientais, quando se ajusta iluminação,
reflexo da luz e contraste. Esse ajuste precisa ser individualizado, atendendo
as especificidades de cada um; 2 - Ampliação da imagem que pode ser obtida
usando ampliação manual e ou impressos ampliados em máquina copiadora, sistemas
de magnificação e computadores e; 3 - Acessórios que ajudam no conforto físico e
realização de atividades cotidianas (Gasparetto, 2009).
1 – Modificações ambientais:
Tiposcópio que se apresenta na figura, serve para ajustar o reflexo da luz e o
contraste.Pode ser feito com papel-cartão preto com uma abertura retangular
recortada pode ser com 19 cm de comprimento por 1 cm de altura (não esquecer do
caráter individual do recurso), deve ser colocado sobre a página de leitura,
aparecendo as palavras na abertura retangular.
Figura: Tiposcópio
 
Nota. Disponível em: acessibilidadenapratica.com.br. Acesso em (2020).
2 – Ampliação da imagem pode ser realizada por:
Ampliação manual: quando se utiliza o lápis 6B ou caneta hidrográfica preta. É
necessário que se observe o contraste da escrita com o papel utilizado, além de
cuidados com os caracteres que devem ser uniformes e claros, sem muito
rebuscamento ou bordados, ter atenção com o espaçamento entre letras/palavras e
linhas e com o tamanho da fonte, pois crianças com limitação no campo visual
poderão ter dificuldades com material muito ampliado.
Computadores com softwares e programas acessíveis. Reúnem a possibilidade de
ajuste e configuração de fonte e tamanho de letra, espaçamento entre letras e
linhas, contraste e brilho da tela e ainda programas com sintetizadores de voz,
como o DosVox, Virtual Vision, Jaws, NVDA, e outros. E por copiadoras, no
entanto, esse possui muitas restrições, haja vista, não permitir ajustes, para
atender as especificidades individuais do aluno.
Também podem ser utilizados recursos eletrônicos na ampliação, a exemplo do
Circuito fechado de televisão com sistema de ampliação (CCTV), com esse aparelho
é possível trabalhar o contraste e a magnificação do material impresso (livros,
textos e outros). Magnifica em até 60 vezes a imagem.
3 – Acessórios:
Todos os recursos com potencial para auxiliar o desenvolvimento de tarefas
escolares, como o plano inclinado, que possibilita melhor acomodação visual e
conforto físico. Alguns recursos que estão presentes na ampliação manual, também
podem ser tidos como acessório é o caso do caderno com pautas larga, canetas de
ponta porosa, lápis 4B e 6B, tiposcópio e outros.
Também existe uma série de objetos que podem atender alunos com baixa visão em
tarefa do cotidiano, como luminárias, relógios, telefones e outros, por já
possibilitarem na sua configuração original, o seu uso e acessibilidade.
Assim, a seleção do recurso óptico e ou não óptico, dependerá da Avaliação
Clínica, realizada pelo médico oftalmologista, de caráter mais quantitativo, que
busca saber a causa, o tempo e o percentual de visão que a criança possui? E a
Avaliação Funcional, realizada por uma equipe multiprofissional, de caráter mais
qualitativo, que busca responder a pergunta o que, como e de que forma
determinada criança com baixa visão enxerga? São estes profissionais que, após a
avaliação, farão a prescrição dos recursos, mediante a necessidade e a
individualidade de cada aluno resultado da avaliação (Mendonça etal., 2008).
II Orientações curriculares a serem consideradas no ensino da criança com
baixa visão
Desta forma, toda a intervenção educacional será mais eficaz se estiver ancorada
em respostas provenientes ou obtidas nas avaliações, funcional e clínica, que
mostrará de forma mais clara como o aluno utiliza da visão que possui e quais as
estratégias necessárias para sua aprendizagem usando a visão. A observação,
imitação e exploração, se constituem em ações limitadas pela criança com baixa
visão, pois a informação lhes chega de forma fragmentada e ou distorcida, no
entanto, o fator mais
limitante ocorre pela falta de experiências e estímulos sensoriais e ainda
quando há carência de profissionais para mediar a aprendizagem. Essa falta de
interação com o ambienta poderá ser causa de atrasos motores, cognitivos e
sociais (Mendonça etal., 2008).
A família e a escola, no desenvolvimento dos seus papéis que são distintos, mas
que se complementam, precisam criar condições de exploração e interação da
criança com baixa visão com o mundo que cerca, para que esta possa construir
repertórios conceptuais captados pela percepção de todos os seus sentidos,
inclusive a visão, possibilitando ao cérebro romper com a fragmentação e formar
o todo do objeto em estudo, pois para formar competências literárias e
linguísticas e necessário expandir o nível conceitual. A não nitidez da imagem,
frequentemente interfere na realização de tarefas escolares, confundem letras
como “m e n”, apresentam dificuldades para discriminar e ou colher informações
em imagens que apresentam muitos detalhes, alémda dificuldade no uso da
comunicação não verbal, também serão causas dos atrasos na competência social e
na inter-relação destas com seus pares (Mendonça, 2008).
Nesse sentido,a proposta pedagógica a ser desenvolvida não pode se distanciar do
currículo desenvolvido na classe comum e deve propiciar a essas crianças,
riqueza intrumental, ambiental e conceitual. A partir do uso de recursos ópticos
e não ópticos; controle e organização dos elementos que compõem o ambiente
escolar e da sala de aula e vivências explorativas sensoriais e motoras.
Mendonça et al. (2008) apresenta como orientação algumas estratégias que
considerando a necessidade e a visão funcional da criança, poderão ser
utilizadas por professores da classe comum e do AEE, como por exemplo: ler em
voz alta; informar o aluno qualquer mudança no ambiente da sala de aula; usar
cores contrastantes ao escrever no quadro; Colocar o aluno no lugar na sala de
aula que não incida a luz em seus olhos, lhe proporciona um melhor campo de
visão; observar no aluno sinais de fadiga, olhos lacrimejantes ou vermelhos;
sinalizar com cores contratantes áreas perigosas na escola, como escadas. A
autora também sugere que na elaboração de materiais em formato impresso
ampliado, se evite letras cursivas com muitos detalhes; tamanho de letra
adequado a fonte que o aluno enxerga; espaçamento entre linhas; ao utilizar
imagens eliminar detalhes desnecessários.
Lueck (2004) chama atenção para a importância de se desenvolver junto à criança
com baixa visão o programa de treino das competências visuais, que objetiva
ensiná-la a ver, possibilitando-lhe o uso mais eficiente e melhorias na sua
funcionalidade visual. Esse treino da visão envolve atividades que estimularão o
desenvolvimento de competências visuais, como a fixação (fixating), quando se
olha para um objeto; a mudança do olhar (shifting gaze); localização
(localizing), tido como a consciência de um objeto no espaço, a partir de pistas
que podem ser visuais, cinestésicas ou auditivas; seguimento (tracking) que é a
capacidade de sustentar a fixação em um objeto que esteja em movimento;
varrimento (scanning) sucessivas fixações para examinar visualmente uma área e
por último o traçado (tracing) movimentos sacádicos/rápidos de um ponto e ou
objeto para outro.
É necessário que a família tenha acesso e conheça o programa de treino visual,
para que possa estender suas estratégias para além dos muros da escola, ou seja,
ainda que as atividades e tarefas escolares seja o foco, mas é possível de forma
significativa realizar o treino em outros contextos. Assim, a escola organiza o
planejamento que deve apresentar de forma clara os objetivos, as atividades,
estratégias de ensino, os responsáveis pela ação e o contexto onde irão
acontecer. No caso da aprendizagem da leitura e escrita é importante que a
criança seja levada a observar a presença da escrita dentro do ambiente familiar
(livros, produtos, outros), e no uso que os mesmos fazem, seja enfatizando os
eventos de letramento dentro de casa (contação de histórias, mensagens de
celular, listas de compras, outras) por componentes familiares, seja pela
exploração do letramento no ambiente social, conforme a tabela 1 que mostra
exemplos de rotinas diárias.
Quadro 1
- Rotinas diárias e atividades

Nota. Fonte: Mendonça et al. (2008, p. 25).
No ambiente escolar, o foco das atividades do treino, deve ser a realização das
atividades demandadas pelos componentes curriculares, dentre esses e para
exemplificar o objeto desse trabalho, cita-se a leitura e o ato de ler pela
criança com baixa visão. Vale ressaltar que a exigência de muitas competências
visuais (fixação, localização, movimentos sacádicos, varrimentos, entre outras)
elevam o nível de dificuldades e exigências visuais na realização da tarefa por
essas crianças. Todavia, o treino tem exatamente essa missão, possibilitar
aprendizagens de como movimentar os olhos em busca da eficiência visual, levando
em consideração se as funções visuais prejudicadas, se encontram na zona central
da retina ou na zona periférica (Mendonça et al., 2008).
FIM
A partir do momento que é a minha mão que está pintando o quadro e não a sua, a
diferença e a subjetividade já está imposta. Não existe objetividade na criação
das ditas representações. Além disso, a representação no fundo não pode ser
fiel, porque foram meus olhos que viram a paisagem a ser pintada e não os seus.
Como saberemos qual dos dois olhos é o que enxerga a verdadeira paisagem?
(Wertheim, 2001, p. 57)
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Excerto da Tese
"Alfabetização e letramento da criança com deficiência visual: um estudo crítico e colaborativo junto às professoras da classe comum e do atendimento especializado"
apresentada à Universidade Fernando Pessoa como parte dos requisitos para obtenção do grau de Doutoramento em Desenvolvimento e Perturbações da Linguagem, sob a orientação da orientadora Doutora Ana Rodrigues da Costa.
autora: Rosinete dos Santos Rodrigues
Universidade Fernando Pessoa
Porto, 2022
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