
Cena de 'O
Grilo da Lareira' de Dickens: Caleb Plummer e a filha
cega estão sentados na
sua oficina onde ele faz e conserta
brinquedos - desenho de Frederick Barnard
-
RESUMO Atenção
Compartilhada (AC) é o título que se atribui à interação da
criança e do adulto guiada pelo interesse por um, mesmo
evento. A literatura sobre AC enfatizou a dimensão visual
das interações, o que enseja o questionamento sobre, a
ocorrência da AC quando se trata de crianças com deficiência
visual. O objetivo deste trabalho foi identificar as,
dimensões ou os componentes que caracterizam a AC de
crianças com deficiência visual na literatura especializada.
A, revisão sistemática da literatura foi realizada de acordo
com o Protocolo Preferred Reporting Items for Systematic
Reviews, and Meta-Analyses/PRISMA. Os artigos selecionados
apresentavam, no título ou nas palavras-chave, os
descritores elegidos:, “child blind” and “joint attention”;
“blindness” and “joint attention”; “children blind” and
“joint attention”; “children visual, impairment” and “joint
attention”. A análise dos 20 estudos selecionados permitiu
categorizar temas predominantemente, abordados em relação à
interação adulto-criança com deficiência visual: Definição
de Atenção Compartilhada; Limites, de Atenção Compartilhada;
Características da Interação Materna. Os principais
componentes destacados nas publicações, foram o tato/toque e
a comunicação oral quando da interação do cuidador com a
criança. As muitas descrições dos, componentes da atenção
compartilhada encontradas nas publicações sobre crianças com
deficiência visual dificultaram, identificar e caracterizar
as dimensões comportamentais. Entretanto, foi possível
elencar um conjunto de componentes, propostos pelos autores,
tais como: gestos, vocalizações, movimentos corporais e
expressão facial, por exemplo. A, observação e a descrição
das interações entre adultos e crianças com deficiência
visual aparecem como o recurso mais, apropriado para
caracterizar objetivamente os componentes da atenção
compartilhada nesta população.
1. Introdução
O desenvolvimento socioemocional da criança pequena, conforme defendido por
Trevarthen (1984) e Carpenter e Liebal (2011), é fortemente ancorado na
interação comunicativa,
da mãe e/ou responsável que cuida e educa. Nessa interação, os recursos
comunicativos iniciais são voz, expressões faciais e olhar (CARPENTER; LIEBAL,
2011; STERN, 1974). Na mesma,
direção, Tomasello (2014; 2003) afirma que as interações adulto-bebê promovem
uma sintonia,
social da criança com seu cuidador, sendo requisito primordial tanto para o
desenvolvimento,
social quanto cognitivo (pré-linguístico).
Várias abordagens do desenvolvimento das crianças pequenas consideram que o bebê,
e a criança pequena são competentes para a interação com os cuidadores desde que
nascem,
(BRUNER, 1975). As competências interativas dos bebês existem desde o
nascimento, mas a,
partir dos nove meses, ele é capaz de ampliar seu nível atencional. A atenção da
criança, que,
era dirigida prioritariamente para o adulto, passa a incluir objetos ou
acontecimentos do ambiente. Ela segue a direção do olhar da pessoa e engloba os
acontecimentos (BRUNER, 2014;, SCAIFE; BRUNER, 1975).
A atenção compartilhada (3)
é, portanto, a capacidade de o bebê formar relações entre,
ele, o adulto e eventos do ambiente. Esta habilidade se desenvolve
gradativamente através do,
contato face a face, olho no olho, isto é, o adulto por meio da fala e de suas
ações mobiliza o,
bebê a prestar atenção nele, relação diádica, para uma atenção mais sofisticada
em que o bebê,
passa a coordenar e monitorar o olhar do outro para uma situação do ambiente:
relação triádica (BARON-COHEN, 2014). Dito de outra forma, a atenção
compartilhada é uma habilidade,
humana fluida, requintada e altamente direcionada a identificar um marco de
referência comum no ambiente com outras pessoas (MUNDY, 2016).
Segundo Tomasello (2014; 2003), a participação colaborativa entre o adulto e a
criança exige de seus integrantes intenções e objetivos comuns, ou seja,
intencionalidade compartilhada. Esse autor argumenta que a atenção compartilhada
provoca nos participantes um,
esforço cognitivo e uma mobilização interna à sua concretização. Nessa interação
ocorre o,
compartilhamento intersubjetivo, o qual é resultante da natureza do processo de
aprendizagem (TOMASELLO, 2014; TOMASELLO; CARPENTER, 2007; TOMASELLO, 2003).
Nas pesquisas empíricas e nos postulados conceituais sobre atenção
compartilhada,,
foram descritos componentes predominantemente visuais. Desde o início da
proposição do,
fenômeno e da sua conceituação, as avaliações realizadas dependiam do
comportamento visual do bebê (TOMASELLO, 2014; BUTTERWORTH, 2014; SCAIFE;
BRUNER, 1975). O aspecto visual da interação na atenção compartilhada também
predominou nos trabalhos que discutiram,
o início e as características do fenômeno realizados com crianças com
desenvolvimento típico.
Os componentes mais mencionados foram: contato visual, direcionamento do olhar,
alternância do olhar, movimento dos olhos, acompanhamento do olhar, seguimento
do olhar, olhar,
mútuo, olhar fixo, orientação visual, olhar na direção do olhar do outro,
monitoramento das,
intenções do outro através do olhar, mudança de direcionalidade do olhar,
observar a face do,
parceiro (MUNDY; NEWELL, 2007).
Diante do exposto uma questão se apresenta: seria possível identificar nas
pesquisas,
empíricas realizadas com crianças com DV os componentes da atenção compartilhada
nos,
momentos interacionais? Para Seibert, Hogan e Mundy (1982), é necessário
verificar se a condição da deficiência afeta o desenvolvimento da atenção
compartilhada de forma direta. Um,
outro aspecto a ser verificado é se a falta de habilidade e de interações
adequadas do cuidador,
contribuem, de forma indireta, para limitar o desenvolvimento da atenção
compartilhada. A,
questão de pesquisa neste trabalho foi orientada pela centralidade da aquisição
da atenção,
compartilhada no desenvolvimento de habilidades que são requisitos para
competências humanas, como o comportamento simbólico (TOMASELLO, 2003), e pelo
interesse em caracterizar a atenção compartilhada na interação da criança com
deficiência visual.
2. Objetivo
O objetivo deste trabalho foi identificar as dimensões ou os componentes que
caracterizam a AC de crianças com deficiência visual na literatura
especializada.
3. Método
Este foi um estudo conceitual empreendido pela revisão sistemática da literatura
sobre a atenção compartilhada em crianças pequenas (4)
com deficiência visual. Para o levantamento e análise da literatura foi
utilizada a recomendação do PRISMA – Principais Itens para
Relatar Revisões Sistemáticas e Meta Análise (GALVÃO; PANSANI, 2015)
(5)
. As buscas tiveram por
objetivo recuperar publicações que relatassem pesquisas realizadas com
participantes com
deficiência visual.
Os artigos selecionados apresentavam, no título ou nas palavras-chave, os
descritores:,
“child blind” and “joint attention”; “blindness” and “joint attention”;
“children blind” and “joint,
attention”; “children visual impairment” and “joint attention”.
Os critérios de inclusão dos artigos foram os seguintes: manuscritos completos,
disponíveis na íntegra online, publicados em qualquer período; pesquisas
realizadas com crianças,
com deficiência visual. Os critérios de exclusão foram: repetição do mesmo
manuscrito em,
periódicos diferentes; apenas título e/ou resumo disponíveis. Em caso de artigo
publicado em,
duas revistas diferentes, era mantido o manuscrito identificado em primeiro
lugar. Ademais,,
foi feito o levantamento da literatura publicada entre os anos 1980 e 2017.
A consulta de artigos sobre pesquisas realizadas com participantes com DV foi
realizada nas bases de dados: Directory of Open Access Journals (DOAJ); Academic
Search Premier - ASP,
(EBSCO); Educational Resources Information Center – ERIC; Educational Resources
Information,
Center – ERIC (ProQuest) e Wiley Online Library. Nessas bases de dados, foram
recuperados,,
especificamente, os trabalhos que tratassem da deficiência visual.
Nessa busca foram encontrados quatro artigos que tratavam da deficiência visual:,
dois trabalhos na Academic Search Premier - ASP (EBSCO) (N= 2); um artigo na
Wiley Online,
Library (N=1) e um artigo na Educational Resources Information Center - ERIC
(N=1). Nenhuma,
publicação foi recuperada no Directory of Open Access Journals (DOAJ) nem na
Educational,
Resources Information Center - ERIC (ProQuest).
Um aporte adicional e inesperado veio de um artigo de revisão dos autores Van
Den,
Brock, Van Eijden, Overbeek, Kef, Sterkenburg, Schuengel (2017), encontrado na
busca. A publicação consistia em um levantamento sistemático de literatura, a
fim de identificar os temas,
que deveriam ser abordados para adaptar um instrumento às pessoas com
deficiência visual, denominado Vídeo-Feedback Intervention to Promote Positive Parenting (VIPP). O
instrumento,
deveria nortear os cuidadores e as buscas auxiliariam o desenvolvimento de eixos
a serem,
abordados com vistas à intervenção precoce em crianças com deficiência visual.
Para construir,
o instrumento, uma etapa antecedeu a busca, ou seja, os autores tiveram contato
com 13 profissionais no campo da deficiência visual para selecionar os temas
relacionados à intervenção,
precoce. Foram identificados seis temas essenciais, a saber:
interação/comunicação, intersubjetividade, atenção compartilhada, exploração,
toque e comportamentos específicos. Dentre,
esses temas, os pesquisadores destacaram como imprescindíveis aos programas de
intervenção os eixos: interação, intersubjetividade e atenção compartilhada. Na
sequência, os estudiosos realizaram um levantamento sistemático da literatura
para cada tema.
Na lista de referências do artigo de Van Den Brock et al. (2017), foram
selecionados 24,
textos que tratavam da atenção compartilhada. Dos textos selecionados, foram
excluídos dois,
duplicados e dois não localizados na íntegra online, o que resultou em 20
manuscritos.
4. Resultados
Na análise dos artigos observou-se que, frequentemente, alguns temas eram
retomados nos textos. Os temas foram agrupados em três categorias denominadas:
Definição de Atenção Compartilhada, Limites de Atenção Compartilhada e Interação
Materna. É importante,
destacar que as questões abordadas em alguns manuscritos poderiam ser
classificadas em,
mais de um tema.
O elenco de componentes apresentados foi organizado em função das
características,
específicas de atenção compartilhada dos participantes, descritas nos artigos,
tais como: fala,,
toque, etc. (e. g. ALS; TRONICK; BRAZELTON, 1980). Em outras publicações, os
autores referiram-se às classes de ações ou respostas e deram exemplos das ações
que as compunham. É,
possível recuperar exemplos no caso de “diretiva materna” proposta por Campbell
(2003), (“olhe”;,
“preste atenção”) e Conti-Ramsden e Perez-Pereira (1999), como, por exemplo,
“olhe aqui!”,
“olá, docinho!” “pegue esses blocos!”.
A categoria definição de atenção compartilhada foi desmembrada entre as ações
maternas e as ações infantis. Os manuscritos destacaram diferentes estratégias
que as mães utilizaram para engajar a criança em cenas de atenção compartilhada.
Dentre as recorrentes,
destacavam-se o tato/toque e voz/comunicação (ALS; TRONICK; BRAZELTON, 1980;
ROGOW,
1982; PREISLER, 1991; 1995; BIGELOW, 2003; RATTRAY; ZEEDYK, 2005; SOUSA; BOSA;
HUGO,
2005; FONTE, 2013a; 2013b). As ações infantis proeminentes foram toque,
expressão facial,
movimento corporal e vocalizações (MEDEIROS; SALOMÃO, 2012a; 2012b; SOUZA; BOSA;
HUGO,
2005; PREISLER, 1995; 1991).
Sobre os limites da atenção compartilhada, foram verificadas as restrições
vinculadas,
à ação materna e à ação da criança. De modo geral, as restrições maternas
referiram-se à dificuldade que as mães videntes tinham em decifrar as expressões
faciais e corporais do filho,,
assim como o excesso de diretivas e rótulos (LOOTS; DEVISE; SERMIJIN, 2003;
MOORE; McCONACHIE, 1994; TRÖSTER; BRAMBRING, 1992; PREISLER, 1991). As crianças
com deficiência visual têm muita dificuldade em compreender a linguagem
referente aos objetos, dificuldades,
importantes de observar estados emocionais (expressões, gestos e posturas
corporais) e de,
envolvimento no universo compartilhado (BRANBRING; ASBROCK, 2010; DALE; SONKSEN,
2002;
HOBSON; LEE; BROWN, 1999).
Nas pesquisas a respeito das interações maternas, os parâmetros de destaque
foram o,
tempo e a duração das cenas de atenção compartilhada (início e término das
interações) e as,
estratégias de mediação do adulto, como, por exemplo, feedbacks,
questionamentos, direcionamento do comportamento e suporte pedagógico (MEDEIROS;
SALOMÃO, 2014).
Cada uma das categorias foi examinada em relação à possibilidade de indicar
componentes da atenção compartilhada. Cada artigo, examinado em relação às
categorias identificadas, permitiu detalhar as respostas específicas que os
autores incluíam em títulos mais gerais,
de classificação dos comportamentos maternos e infantis.
5. Discussão
Os temas tratados nos estudos sobre a atenção compartilhada envolvendo uma
criança com deficiência visual foram agrupados em três categorias: definição da
atenção compartilhada, limites da atenção compartilhada e a interação materna.
As definições da atenção compartilhada apresentadas nos artigos analisados
ancoraram-se nos elementos de seus componentes, por exemplo: voz/comunicação,
toque, gesto,
tátil, repetição da informação, contato corporal, solicitações, diretivas de
instrução e estimulação auditiva (ALS; TRONICK; BRAZELTON, 1980; ROGOW, 1982;
PREISLER, 1991; 1995; BIGELOW,
2003; RATTRAY; ZEEDYK, 2005; SOUSA; BOSA; HUGO, 2005; FONTE, 2013a; 2013b;
MEDEIROS;
SALOMÃO, 2012b). Os componentes propostos referem-se à topografia das respostas,
bem
como às categorias amplas sobre a participação dos atores da interação, sem
distinguir o papel
de um ou de outro.
A lacuna na definição da atenção compartilhada está na ausência de uma análise
da,
função que os componentes exerceriam de modo a se identificar a relação entre as
condições,
oferecidas por um participante da díade para o outro, e pelos eventos físicos do
ambiente, mais,
do que pela descrição de respostas ou ações como exemplificado. Os resultados
dos estudos,
empíricos sobre a atenção compartilhada que envolvem crianças com deficiência
visual podem,
contribuir para aprimorar a definição, quando se trata de crianças cegas ou com
baixa visão.
Na literatura que investigou a atenção compartilhada da criança com deficiência
visual foram descritos alguns limites para estabelecer ou promover esta
competência das crianças.
Por exemplo, foram encontradas as instruções que solicitavam o emprego de
recursos visuais e,
parte delas era constituída por diretivas de atenção visual que são usuais para
crianças videntes, mas não são apropriadas para crianças com deficiência visual.
Em relação ao uso de diretivas incluindo o acesso visual, Tadic, Pring e Dale
(2009),
destacaram que as mães de crianças com DV, mesmo reconhecendo a condição dos
filhos,,
fizeram uso de pistas verbais recorrendo ao sentido da visão como, por exemplo,
“olhe o que,
eu tenho aqui”. Campbell (2003) também observou o uso de elementos visuais
(“olha” e “veja”),
e destacou, entretanto, que as mães, ao realizarem esse tipo de diretiva, tinham
o objetivo de,
alertar a criança para o objeto e para explorar o objeto ou perceber os detalhes
do brinquedo.
O excesso de uso de diretivas pela mãe foi correlacionado ao menor interesse da
criança pelo brinquedo alvo, de acordo com Souza, Bosa e Hugo (2005), e se
traduziria em menor,
frequência de atenção compartilhada. Nesse aspecto, há uma divergência na
literatura, pois
em outras pesquisas (PEREZ-PEREIRA; CONTI-RAMSDEN, 2001; CONTI-RAMSDEN;
PEREZ-PEREIRA, 1999), essa atitude da mãe foi interpretada como uma resposta
funcional condizente,
com as especificidades que a falta de visão da criança impõe ao cuidador.
Os resultados e discussões apresentados nas pesquisas indicaram também alguns
limites da criança com DV em relação a requisitos para a atenção compartilhada:
estabelecer a,
permanência do objeto e atender comandos simples (p. ex., “me mostra”), o que
pode estar
relacionado, também, à dificuldade simbólica (TRÖSTER; BRAMBRING, 1992); atender
comandos que envolvam a visão (“olhe” - “veja”) e gestos (“apontar”, “mostrar”)
(PREISLER, 1991);
manter e alternar a atenção entre o objeto/evento e o cuidador (TADIC; PRING;
DALE, 2009);
compreender a linguagem simbólica e o significado das palavras (LOOTS; DEVISE;
SERMIJN,
2003; DALE; SONKSEN, 2002); compreender a relação causa e efeito; obter,
manipular e aprender sobre as propriedades desse objeto (BIGELOW, 2003);
partilhar as experiências sobre o objeto com o outro e atraso no desenvolvimento
na tomada de perspectiva, em decorrência da
dificuldade de compreender que vivemos em um mundo compartilhado (BRAMBRING;
ASBROCK, 2010; HOBSON; LEE; BROWN, 1999; FARRENKOPF; DAVIDSON, 1992).
Algumas problemáticas foram identificadas em relação à idade do desenvolvimento,
da atenção compartilhada em crianças com deficiência visual. Bigelow (2003) e
Preisler (1991)
foram unânimes em afirmar que esta chega tardiamente nas crianças com
deficiência visual.
No entanto, Als, Tronick e Brazelton (1980) afirmaram que a atenção
compartilhada pode ser,
iniciada aos quatro meses e meio.
De acordo com Bigelow (2003), o estabelecimento da AC em crianças com DV é um,
desafio. O atraso e a dificuldade que essas crianças têm para estabelecer a
relação triádica têm,
função importante do componente visual para este tipo de interação. Entretanto,
a autora,
destaca que um ambiente social rico e estruturado pode favorecer a interpretação
dos sinais,
perceptivos das crianças pelos cuidadores. Considera, ainda, que os adultos
podem aprender,
as formas como devem proceder para estimular o desenvolvimento social, cognitivo
e linguístico destas crianças.
A categoria ‘interação materna’ manteve uma expressão adotada na maior parte dos,
estudos, a despeito da denominação algumas vezes tratar da interação entre os
adultos e a,
criança com deficiência visual. Por exemplo, Moore e McConachie (1994),
destacaram a importância, tanto dos pais de crianças com baixa visão, quanto dos
pais de crianças cegas, descreverem as propriedades dos objetos. Os autores
ressaltaram outras tendências dos pais de crianças,
com DV. Esses pais fazem pedidos de ação para estimular as crianças a
participarem e para,
ensiná-las a usar os brinquedos de uma maneira particular; além disso, verificam
a compreensão das instruções pela criança, exigindo que apresentem uma resposta
ativa.
Como destacado por Mundy e Newell (2007), nos momentos interacionais maternos, o,
aspecto visual (olho no olho e a observação face a face) é fortemente
identificado para o,
desenvolvimento da AC em crianças típicas. Em relação aos comportamentos
maternos na,
interação com crianças com DV, os mais frequentemente destacados nas pesquisas
foram o,
toque/tato e a fala/linguagem nos momentos de atenção compartilhada. Esses
comportamentos foram considerados essenciais para o desenvolvimento da criança
com deficiência visual,
(BISHOP; BARRAGA; DENZLER; BROUSSARD, 2004). Para ampliar a capacidade
interacional da,
criança, outros componentes foram mencionados como relevantes: olfativo
(BARON-COHEN,,
2014); gustativo e cenestésico (COLUS, 2019). Embora houvesse a recomendação em
recorrer,
ao toque/tato, componentes olfativo, gustativo e cenestésico, nenhum desses
foram observados ou medidos em qualquer dos artigos recuperados no levantamento.
Além do recurso da linguagem, o toque desempenhou uma função precisa na
interação mãe e criança com DV. Um dos trabalhos iniciais que examinaram a
importância do toque,
foi realizado por Als, Tronick e Brazelton (1980). Os pesquisadores orientaram a
mãe a interagir,
com a filha com cegueira. Nas primeiras três semanas, a criança apresentava
imobilidade, rigidez corporal e rosto sem expressividade. Os pesquisadores
relataram que quando a mãe deixava a criança sozinha, os movimentos dos membros
superiores e inferiores eram mais bruscos.
Em situação diferente, observava-se que, quando a mãe entrava no ambiente e
conversava,
suavemente com a criança, a expressão corporal assumida pela criança era de
reconhecimento,
da voz materna e, após períodos de envolvimento com o bebê, a mãe parecia ter
interpretado,
os sinais da criança como disponível para a interação.
Várias outras pesquisas (FONTE, 2013ª; 2013b; PREISLER, 1991) ratificaram a
importância do contato corporal na interação com a criança DV. Alguns
comportamentos que envolvem,
o toque materno visavam engajar a criança em cenas de atenção conjunta, tais
como: a mãe,
segura o bebê, acaricia o bebê, toca o corpo do bebê. O toque e a fala são
recursos que mobilizam a atenção dos outros, de acordo com Fonte (2013b);
argumento que se soma à compreensão apresentada por Bigelow (2003) e Baron-Cohen
(2014), da necessidade que as crianças,
com deficiência visual apresentam de obter informações auditivas e táteis para
compartilhar a,
atenção com o adulto.
A importância de se observar a postura corporal da criança com DV foi
documentada por Rogow (1982), quando ressaltou que as vocalizações e expressões
corporais são,
sinais indicativos de estabelecimento de interação social. Quando o adulto
identifica as,
vocalizações e os movimentos corporais das crianças, facilita a sua resposta, o
que contribui para que a criança comece a experimentar a interação com o outro e
com o ambiente,
(ROGOW, 1982).
Os achados de Preisler (1995; 1991) são compatíveis com o postulado de Rogow
(1982).
Para o pesquisador, no período de três a seis meses, os bebês são mais propensos
a manifestar,
atividade motora quando são abordados pelas mães, principalmente quando elas
recorrem ao,
canto e ao toque no corpo da criança. Em contrapartida, a resposta da criança
sinaliza o maior,
engajamento na atividade de atenção compartilhada (PREISLER, 1995).
Aprender a antecipar as ações para o filho é uma outra habilidade sugerida para
as,
mães de crianças com DV, além da capacidade observacional. Nas pesquisas de
Perez-Pereira e,
Conti-Ramsden (2001) e Moore e McConachie (1994), as mães das crianças com DV
foram mais,
proativas para iniciar e manter a atenção compartilhada quando comparadas com as
mães de
crianças sem DV. As mães de crianças com DV também demonstraram maior uso do
contato,
físico (toque) e verbal do que de mães de crianças normovisuais (RATTRAY;
ZEEDYK, 2005;,
CONTI-RAMSDEN; PEREZ-PEREIRA, 1999; TRÖSTER, BRAMBRING, 1994).
6. Considerações finais
Para atender ao objetivo deste estudo, encontrou-se nas publicações examinadas
forte sustentação sobre a questão levantada anteriormente. A atenção
compartilhada é considerada um marco importante no desenvolvimento infantil. A
AC é tratada, em especial, como,
condição para a aquisição da linguagem e das habilidades sociais e as definições
priorizaram,
o olhar e os gestos, modalidades que requisitam o sentido da visão. Diante da
importância da,
aquisição da criança e da ênfase aos aspectos visuais do desempenho, é
imprescindível reorientar a discussão para destacar a AC na população de
crianças com deficiência visual. Evidencia-se que a integração dos sistemas
sensoriais no acesso da criança ao ambiente é fator de,
desenvolvimento da AC, fato que precisa ser destacado para os adultos que
convivem com,
essa população.
Como detectado na literatura sobre atenção compartilhada, o estímulo principal
para,
a criança que enxerga é a visão e, secundariamente, a audição. Para as crianças
com DV, as,
respostas auditivas são fundamentais, assim como o perceber propiciado pela
integração dos,
modos de acesso ao ambiente. Dessa forma, é fundamental levar em conta os
elementos que,
compõem a apropriação do mundo: a preensão, em geral; os elementos cenestésicos
pelo tato/,
toque e verificação da temperatura e textura; sensoriais (olfato, luminosidade e
paladar) e,
proprioceptivos (noção da posição e orientação do seu corpo ou partes dele no
espaço e força,
muscular para posicioná-lo, base para o equilíbrio postural). Sendo assim, a
comunicação oral,
do cuidador da criança com DV, composta por comentários, verbalizações,
vocalizações e perguntas, seria um antecedente ao engajamento na atenção
compartilhada, e os demais elementos seriam complementares para que esta
interação fosse frutífera, dinâmica e harmoniosa,
entre os pares.
O refinamento da análise das publicações selecionadas poderá ser completado por,
pesquisas futuras. Isso decorre do fato de, ao verificar as referências
bibliográficas das publicações consideradas, termos priorizado os periódicos em
lugar dos livros. Incluir esta opção em,
estudos futuros pode contribuir para ampliar a discussão sobre o desenvolvimento
da criança,
pequena com deficiência visual.
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Notas
-
1 Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro),
Doutora em Educação Especial pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar),
E-mail: miriamadalgisa@terra.com.br,
-
2 Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Doutora
em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP), E-mail:
mscagil@ufscar.br
-
3 Neste texto estamos mantendo a terminologia adotada
pelos autores.
-
4 Compreende-se como criança pequena o período que
corresponde a primeiríssima infância – de 0 a 3 anos.
-
5 Tradução em português da declaração “The PRISMA
Statement”. Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and
MetaAnalyses. Disponível em:
www.prisma-statement.org,
ϟ
A Atenção Compartilhada em Crianças Pequenas com Deficiência Visual: uma revisão
sistemática
Miriam Adalgisa Bedim Godoy &
Maria Stella Coutinho de Alcantara Gil
Benjamin Constant, Rio de Janeiro, v. 27, n. 63, e276302, 2021
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