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Cego vendedor de lápis em Nova Iorque
I
O dístico da porta indicava: Cool & Lam - Investigações
Confidenciais. Contudo, o cego não podia lê-lo.
O ascensorista indicou-lhe o número do apartamento
e ele lá foi tacteando com a bengala, a partir da primeira
porta até ao canto do corredor, contando as seguintes,
pacientemente. A sua frágil silhueta acabou por recortar-se
na entrada envidraçada do escritório. Parou e abriu
a porta.
Elsie Brand ergueu os olhos da máquina de escrever,
observou o homem magro, os óculos escuros, o tabuleiro
suspenso dos ombros por correias, os lápis, as gravatas
e a lata para recolher o dinheiro. Parou de percutir o
teclado, mas o cego falou antes que ela tivesse oportunidade
de dizer qualquer coisa.
- Mrs. Cool?
- Ocupada.
- Então espero.
- Não ganha nada com isso.
Por um momento o homem pareceu ter ficado confuso,
mas logo um sorriso lhe aflorou aos lábios.
- Venho tratar de negócios... - e após um segundo
de hesitação, acrescentou - e tenho dinheiro.
- Nesse caso é diferente - declarou Elsie. Pegou
no telefone, reconsiderou, recuou a cadeira para trás da
mesinha de dactilógrafa, rodeou-a e pediu:
- Espere um instante! - Atravessou o escritório
de entrada e abriu a porta de acesso a um gabinete sinalizado
com B. Cool - Particular.
Bertha Cool, à roda dos cinquenta anos e setenta
e cinco quilos de frio realismo, sentada à sua secretária,
na sua cadeira giratória, observou Elsie Brand com
cépticos olhos cinzentos e inquiriu:
- Que se passa?
- Um cego.
- Novo ou velho?
- Velho. Vendedor ambulante, com um tabuleiro
portátil, uma lata e...
- Corra com ele.
- Quer vê-la... Vem em negócio.
- Tem algum dinheiro?
- Diz que sim.
- Que espécie de negócio?
- Não disse.
Os olhos de Bertha cintilaram.
- Para que diabo está aí parada à espera? Faça-o
entrar. Se vem tratar de negócios e tem dinheiro, que
mais queremos nós?
- Só queria ter a certeza - respondeu Elsie, e,
abrindo a porta, convidou: - Queira entrar.
A bengala tacteou o caminho através do escritório
e penetrou no santuário de Bertha. Lá dentro, o homem
parou inquiridoramente, virando a cabeça e ficando à
escuta atentamente. Os seus ouvidos captavam o mais
ligeiro ruído que Bertha fizesse. Virou-se para ela, mal
conseguiu localizá-la, e disse:
- Bom dia, Mrs. Cool.
- Sente-se - convidou Bertha. - Elsie, traga-me
essa cadeira para aqui, para ele se sentar. Está bem
assim. É tudo, Elsie. Sente-se Mr... Qual é o seu nome?
- Kosling. Rodney Kosling.
- Muito bem, sente-se. Eu sou Bertha Cool.
- Sim, eu sei. Onde está o jovem que trabalha consigo,
Mrs. Cool? Donald Lam, se não me engano?
O rosto de Bertha tornou-se duro.
- Diabos o levem! - resmungou.
- Como?... Onde está ele?
- Na Marinha.
- Oh!
- Alistou-se - esclareceu Bertha. - Eu tinha uns
assuntos entre mãos e ele levantou ferro! Assinou um
contrato de «guerra», como se não tivesse mais quem
lhe pagasse o soldo. Fez aquilo de cabeça no ar, de assobio.
Tinha-o aqui classificado como trabalhador indispensável, numa indústria essencial, e esse danado vadio foi
alistar-se na Marinha!
- Tenho sentido a falta dele - confessou Kosling,
com simplicidade.
Bertha franziu o sobrolho.
- Tem-lhe sentido a falta? Não sabia que o conhecia!
Ele sorriu brandamente.
- Creio que conheço todos os «do costume».
- Que quer dizer com isso?
- A minha paragem habitual, lá em baixo, fica a
meio quarteirão, em frente do edifício do Banco da
esquina.
- É verdade! Agora que penso nisso, lembro-me de
já aí o ter visto.
- Quase que conheço cada pessoa que passa.
- Ah! - exclamou Bertha. - Estou a perceber! E
riu-se.
- Não, não! - Apressou-se ele a corrigir. - Não se
trata disso. Eu sou cego de verdade. São os passos das
pessoas que as denunciam.
- Quer dizer que diferencia os passos das várias
pessoas, no meio da multidão?
- Certamente. Não há nada que as pessoas façam
mais distintamente. O comprimento dos passos, o seu
ritmo, um ligeiro arrastar de tacões, o... Ora, há dúzias
de coisas. Além disso, oiço as vozes ocasionalmente, o
que ajuda bastante. Por exemplo, a senhora e Mr. Lam
vão quase sempre a falar, quando passam por ali, quer
dizer, a senhora é que fala. De manhã, pergunta-lhe como
vão as diligências que efectuou no caso em que anda a
trabalhar e, à noite, insiste com ele para que apresse as
coisas e obtenha resultados para os clientes. Ele pouco
costuma dizer.
- Nem precisa - resmungou Bertha. - É um rapazinho
esperto como nunca encontrei outro, mas é um
errático! Pôr-se a andar e alistar-se na Marinha demonstra
o «chalado» que há lá dentro dele. Bem estabelecido,
com um ordenado rendoso, ainda recentemente associado
ao negócio e vai para a Marinha!
- Achou que o país precisava dele.
- E eu acho que preciso dele! - protestou Bertha.
- Sempre gostei de Mr. Lam - afirmou o cego.
Falava atinadamente e tinha consideração pelas pessoas.
Aposto que, quando começou a trabalhar consigo, as
coisas lhe corriam mal, não é verdade?
- Tinha tanta fome que as iniciais do cinto já se lhe
gravavam na espinha. Tomei-o ao serviço, dei-lhe oportunidade
de singrar numa vida decente, conseguiu ascender
a sócio da firma e, depois, levantou âncora e deixou-me
a ver navios!
A voz de Kosling tornou-se reminiscente:
- Mesmo quando andava na «mó de baixo», tinha
sempre uma palavra agradável para mim. Quando conseguiu
arranjar um pouco de dinheiro, começou a dar-me
algumas moedas... mas nunca o fazia quando a senhora
ia com ele. Quando mas dava, não falava comigo, como
se não quisesse que eu soubesse quem ele era. Eu conheço-lhe
os passos, como se estivesse a falar, mas ele
pensava que me causaria menos embaraço se eu ignorasse
quem me ajudava... como se um cego guardasse
ainda algum orgulho! Quando um homem começa a pedir,
recebe dinheiro seja de quem for que lho queira dar.
Bertha Cool endireitou-se na cadeira e cortou, asperamente:
- Muito bem! Já que falamos de dinheiro, que
deseja?
- Quero encontrar uma jovem.
- Quem é ela?
- Desconheço o nome.
- Como é ela?... Oh! Desculpe-me.
- Não tem importância. Eis o que sei acerca dela:
trabalha num local que se situa dentro de um círculo de
três quarteirões a partir daqui. É um emprego bem remunerado.
Tem cerca de vinte e cinco anos, é esbelta, pesa
cerca de 47 a 49 quilos e deve ter um metro e sessenta
de altura.
- Como pode saber isso tudo? - espantou-se
Bertha.
- Os meus ouvidos dizem-mo.
- Os seus ouvidos dizem-lhe onde é que ela trabalha?
- Pois dizem.
- Até apostava... Qual é o truque? - perguntou
Bertha.
- Não é truque nenhum. Sei sempre que horas são
porque há um relógio que as toca, ali perto.
- De que lhe serve isso?
- Ela passa por mim, entre cinco a três minutos,
antes das nove. Quando passa às nove menos três, caminha
apressada; quando faltam cinco minutos, vai mais
devagar. Os empregos que começam às nove horas são
mais bem remunerados. A maior parte das dactilógrafas
entram no trabalho às oito e meia. Posso calcular-lhe a
idade pela voz; qual a sua altura, pelo comprimento das
passadas e o peso, pelo som da sua marcha no pavimento.
Ficaria surpreendida, Mrs. Cool, se soubesse quanto os
seus ouvidos podem dizer-lhe, se aprender realmente a
servir-se deles.
Bertha Cool concentrou-se um momento e sussurrou:
- Sim, creio que sim.
- Quando se fica cego - explicou Kosling -, tem-se
a impressão de que fomos projectados para fora do
Mundo, que não poderemos fazer parte da vida e nela perdemos
o interesse; mas podemos manter esse interesse,
se decidirmos ir para a frente com o que temos e soubermos
aproveitar melhor o que nos resta.
Bertha Cool resolveu pôr de parte a oportunidade
de discutir filosofia e voltou ao assunto de dólares e
cêntimos.
- Para que quer que encontre essa moça? Não pode
achá-la sozinho?
- Ela ficou ferida num acidente de automóvel, numa
passagem de peões, ao atravessar a rua. Isto aconteceu
às seis menos um quarto da tarde de sexta-feira passada.
Tinha estado a trabalhar até tarde, no escritório, segundo
creio, e seguia apressada, quando passou por mim. Não
teria dado mais do que dois passos fora do passeio,
quando ouvi um chiar de pneus, um impacte e o grito de
sofrimento que ela soltou. Ouvi pessoas correrem. Uma
voz de homem inquiriu se ela se magoara e ela riu e disse
que não, mas estava muito contundida, certamente. Ele
insistiu com ela, para que fosse a um hospital verificar
como ficara, mas recusou. Finalmente o homem propôs
dar-lhe uma boleia. Quando ela entrou para o carro, queixou-se
de estar magoada na cabeça e concordou que talvez
fosse melhor ser examinada por um médico. Não
voltou a passar no sábado, nem na segunda-feira. Hoje é
terça e também não passou. Quero que a encontre.
-Qual é o seu interesse nela - inquiriu Bertha.
O sorriso do cego foi benigno.
- Pode considerar isso um impulso de caridade respondeu.
- Vivo de caridade e... talvez essa jovem
precise de ajuda.
Bertha olhou-o friamente.
- Eu é que não faço a minha vida por caridade. Isto
vai custar-lhe dez dólares por dia e um mínimo de vinte
e cinco dólares. Se não conseguirmos resultados, ao cabo
de esses vinte e cinco dólares estarem esgotados, poderá
desistir, ou decidir se quer ir para diante a dez dólares
por dia. Os vinte e cinco dólares iniciais são pagos adiantadamente.
O cego abriu a camisa e desafivelou o cinto.
- Que é isso? - alarmou-se Bertha Cool. - Um
striptease?
Mas o homem não se descompôs mais e explicou:
- É uma simples carteira-cinto.
Bertha observou-o atentamente, enquanto ele enfiava
o polegar numa das várias bolsas que se enfileiravam no
cinto. Logo que extraiu dela um maço de notas dobradas,
separou uma e estendeu-a a Bertha, informando:
- É só dar-me o troco. Não preciso de recibo.
Era uma nota de cem dólares.
- Não tem mais pequeno? - gaguejou Bertha.
O cego respondeu-lhe com um simples monossílabo:
- Não.
Bertha Cool abriu a sua bolsa de mão, tirou dela uma
chave, rodou-a na fechadura da gaveta da secretária e,
desta, sacou um cofrezinho metálico. Depois, puxando
por outra chave mais pequena, que trazia ao pescoço,
suspensa por um cordão de ouro, abriu o cofre, donde
extraiu sete notas de dez dólares e uma de cinco. Demonstrando
certo embaraço, perguntou:
- Onde e quando deseja receber os nossos relatórios?
- Pretendo que me sejam feitos oralmente, visto
não os poder ler. Basta-lhe parar perto do Banco, no passeio
onde estaciono, e relatar os seus progressos. Faça-o
disfarçadamente e em voz baixa. Tenha cuidado para que
ninguém a oiça. Pode fingir que está a olhar para uma
gravata.
- O.K.! - assentiu Bertha.
O cego ergueu-se, pegou na bengala, no tabuleiro, e explorou o caminho até à porta. Parou abruptamente,
virou-se para trás e advertiu:
- Estou praticamente retirado do negócio. Se não
fizer bom tempo, não irei trabalhar.
Bertha Cool, abismada, fitou Elsie Brand, abatendo a
sua indignação sobre a máquina de escrever.
- E tive de engolir isto! - protestou. - O tipo arregaçou
a camisa, desabotoou as calças e exibiu um cinto-carteira
que parecia um pneu. Estava cheio de bolsas.
Abriu uma, sacou de um molho de notas e apartou uma
«das de cem». Eu perguntei-lhe se tinha mais miúdo e
respondeu-me que não!
Elsie Brand parecia não achar, no facto, nada de
extraordinário.
- Um tipo - continuou Bertha - que se senta num
passeio, não tem que pagar renda, nem empregados, nem
taxas, nem contribuições. Traz em volta dele um cinturão,
que mais parece um salva-vidas, com uma fortuna, E eu
é que tive de fazer-lhe o troco e tive de ir ao cofre, onde
não havia mais do que cem dólares e uns níqueis. Ainda
por cima - e aqui a voz de Bertha cresceu a um alto
grau de emoção, imagine lá você... voltou-se ao pé
da porta para dizer-me que não irá trabalhar a menos
que o tempo esteja bom! Eu nunca pude ficar na cama,
nessas manhãs frias ou de nevoeiro húmido e viscoso.
Tenho de levantar-me e arrastar-me rua fora, patinhando
nas poças, com os tornozelos ensopados...
- É verdade - concordou Elsie Brand. - Eu faço o
mesmo; somente tenho de levantar-me uma hora mais
cedo do que a senhora e, se tiver necessidade de trocar
uma nota de cem dólares que me entreguem, não posso
fazê-lo porque...
- Está bem, está bem! - cortou Bertha Cool, rapidamente,
apercebendo-se de que a conversa estava a desviar-se
para terreno perigoso e que Elsie poderia, casualmente,
mencionar que o Governo estava a pagar às estenógrafas
vencimentos mais altos. - Não interessa o
resto. Vim apenas dizer-lhe que tenho de ausentar-me por uns momentos. Vou procurar uma rapariga que sofreu
um acidente de automóvel.
- Vai tratar disso sozinha?
- Para que iria eu pagar a um auxiliar? - resfolegou
Bertha. - Não vê que se trata de uma coisa simples?
A rapariga foi apanhada por um carro, na esquina da rua,
quando ia atravessá-la, na passada sexta-feira, às seis
menos um quarto. O homem que a atirou de «pantanas»
levou-a a um hospital. Tudo quanto tenho a fazer é ir ao
Departamento de Trânsito, verificar o acidente, tomar um
autocarro até ao hospital, perguntar à moça como se
sente e, depois, fazer ao homem o meu relatório verbal.
- Para que pretende ele essa informação? - interessou-se
Elsie.
- Sim, pergunta bem - comentou Bertha sarcasticamente.
- Para que a quer ele? Deseja unicamente
saber onde a queridinha está, para lhe mandar flores,
porque ela lhe trouxe ternura e luz à sua vida! Gosta de
ouvir-lhe os passos, saltitando no passeio, e sente a falta
deles. Por isso paga-me vinte e cinco dólares, para desencantar-lhe
a queridinha. Puf!
- Não acredita nisso?
- Não! - ripostou Bertha secamente. - Não acredito.
Não sou desse tipo. Você pode acreditar que tudo
aquilo é pura e doce caridade, mas a Bertha não vai em
histórias de fadas. A Bertha acredita, sim, em vinte e
cinco dólares. Por essa razão vai arrumar a coisa em
cerca de hora e meia. Se entretanto aparecer alguém e
quiser qualquer coisa, descubra do que se trata e marque
uma entrevista para depois do almoço... se pressentir
que há dinheiro a ganhar. Se for alguém a solicitar
uma contribuição, seja para o que for... e «estou-me nas
tintas» para o que quer que seja... diga-lhe que fui para
fora da cidade.
Bertha atravessou o escritório e bateu com a porta
violentamente, mas antes disso tivera a satisfação de
ouvir matraquear com rapidez a máquina de Elsie Brand.
Contudo, no Departamento de Trânsito, teve o primeiro
desapontamento. Não havia qualquer relatório referente
a acidente de viação ou atropelamento naquela
intersecção e data.
II
- Isso é uma lista dos diabos - protestou Bertha.
Então um homem atira com uma rapariga pelo ar e vocês
não têm nada, aí, acerca disso!
- Muitas vezes os motoristas não comunicam os
acidentes - explicou o oficial, pacientemente. - Não
podemos adivinhá-los. A lei determina que os condutores
o façam. Certamente que, se estiver um polícia presente,
não deixa de tomar nota da matrícula do carro e
de verificar se o motorista comunicou ou não o sucedido.
- Quer dizer portanto que, nessa intersecção, não
havia nenhum polícia?
- Nessa intersecção, o polícia sai de serviço às
cinco horas e quarenta, mas vai entrar de serviço dois
quarteirões mais abaixo, onde o trânsito se acumula.
Temos pouco pessoal e fazemos o que podemos.
- Escute lá - insistiu Bertha. - Eu pago os meus
impostos e tenho direito a essa informação. Quero que
ma prestem.
- Gostávamos muito de auxiliá-la, se pudéssemos.
- Bem, onde poderei obter essa história?
- Pode telefonar para os hospitais e inquirir se
entrou algum paciente para exame médico, entre as seis
e as sete horas de sexta-feira passada. Parto do princípio
que a senhora pode descrever o paciente. De maneira geral.
- Não sabe o nome?
- Não.
- Bem, sempre pode tentar - sugeriu o oficial de
trânsito, abanando a cabeça duvidoso.
Bertha tentou-o, enjaulada numa cabina pública, gastando
relutantemente uma série de moedas. Depois de
ter despendido trinta cêntimos, a paciência começara a
esgotar-se-lhe. Explicara e reexplicara o que pretendia
e apenas lhe respondiam: «um momento». Depois faziam
uma ligação para outra secção que ela tinha de informar,
no mesmo teor. Ao cabo de trinta e cinco cêntimos sem
resposta positiva, já estava irascível.
III
O trânsito tonitruava na movimentada intersecção da
esquina. Os peões, regressando do almoço, atravessavam
a rua em lufadas humanas intermitentes. A campainha do semáforo fazia-se ouvir com sistemática
regularidade estabelecendo os intervalos do trânsito.
Ocasionalmente, o som de claxons, de guinchar de pneus
e o de arranque e aceleração de motores juntava-se ao
ruído da multidão. O dia estava ensoalhado e quente e o
cheiro dos escapes erguia-se, do alcatrão, em nuvens
de vapor húmido.
Kosling achava-se sentado num pequeno banco, em
frente do edifício bancário, com as pernas dobradas sob
o corpo e com as suas bugigangas dispersas sobre o tabuleiro
suspenso dos ombros pelas correias.
À sua esquerda, numa caixa, alinhavam-se os lápis.
De quando em quando alguém deitava uma moeda na lata.
Menos frequentemente havia quem parasse e deitasse
uma vista de olhos para o sortido de gravatas.
Kosling conhecia a mercadoria pelo sentido do tacto
e a sua memória permitia-lhe fixar a posição dos objectos
no mostruário.
- Aqui tem, minha senhora, uma linda gravata para
um homem novo - proclamava, tocando numa delas, de
seda, de um vermelho-vivo, atravessada por uma faixa
branca cruzada de tiras negras. - E aqui está uma coisa
muito bonita, em azul-escuro... e aqui outra, de magnífico
efeito, que daria um belo presente. Esta, ficava muito bem
com um traje de desporto...
Calou-se, quando ouviu as passadas pesadas de
Bertha, aproximando-se ao longo do passeio.
- Sim, minha senhora. Creio que ficaria satisfeita
com uma delas. Sim, são apenas cinquenta cêntimos.
Basta deitá-los na lata. Muito obrigado.
Como não podia ver, não olhou para Bertha, que
parara junto dele, mas perguntou:
- Então?
- Ainda não fizemos quaisquer progressos - lamentou
ela.
O cego ficou calado, esperando que ela continuasse.
Bertha hesitou por um momento e depois decidiu dar
uma explicação:
- Verifiquei os acidentes no Departamento de Trânsito
e nos hospitais, mas sem resultado. Preciso de mais
indicações para ir para a frente.
Num tom monótono e calmo, para não chamar a atenção
dos transeuntes, o cego declarou:
- Eu já tinha feito tudo isso, antes de ir procurá-la.
- Ah, sim?! - exclamou Bertha. - Então por que
razão não mo disse?
- Eu não ia pagar vinte e cinco «pacotes» por umas
simples voltas! Não pensei que a senhora fosse fazer o
que qualquer pessoa poderia ter feito. Pensei ter contratado
um detective.
Bertha estremeceu indignada, com os olhos furiosos, mexendo os pés como se o pavimento escaldasse, e foi
para o escritório.
Quando entrou, Elsie Brand fitou-a e perguntou:
- Teve sorte?
Bertha limitou-se a abanar a cabeça e enfiou no seu
gabinete, batendo com a porta. Sentou-se a pensar no
caso. As suas cogitações levaram-na a redigir um anúncio
para ser publicado nos jornais diários:
«Pede-se às pessoas que assistiram a um acidente
na esquina da Crestlake com a Broadway, na passada
sexta-feira, por volta das seis menos um quarto, o favor
de comunicarem com B. Cool, Edifício Drexel. Sem comprometimento,
sem complicações ou implicação legal.
Apenas se deseja a informação. Recompensa de cinco
dólares pelo número de matrícula do automóvel que derrubou
uma jovem.»
Bertha recostou-se na cadeira giratória, releu o texto,
consultou a tabela de preços de anúncios e, com um lápis
começou a riscar palavras.
«Testemunha acidente Crestlake Broadway sexta-feira
comunicar B. Cool, Edifício Drexel, 3 dólares recompensa
número matrícula.
Estudou o novo texto e, com o lápis, riscou as palavras
3 dólares e substituiu-as por 2 dólares.
- É quanto basta! - murmurou. De resto, ninguém
se recordaria do número da licença, a menos que o tivesse
anotado, e se o fez é porque se trata do género de tipo
que gosta de ser testemunha. Dois dólares chegam muito
bem!
IV
Na tarde de quarta-feira, Elsie Brand abriu a porta
do gabinete particular de Bertha Cool.
- Está ali um cavalheiro que não quis dar o nome
- anunciou.
- Que quer ele?
- Diz que leu o jornal.
- Acerca de quê?
- Do acidente de automóvel.
- E depois?
- Quer receber dois dólares.
Os olhos de Bertha cintilaram.
- Mande-o cá.
O homem que Elsie Brand escoltou até ao gabinete
de Bertha Cool parecia ter tentado viver neste mundo
com o mínimo dispêndio de esforço. Tinha uma postura
cautelosa, como se o seu pescoço, ombros, ancas e pernas
receassem não poder suportar o próprio peso reduzido;
até o cigarro que lhe pendia da boca, indolentemente,
baloiçava enquanto falava.
- Olá - saudou. - É este o sítio onde queriam uma
informação acerca de um acidente de automóvel?
- Exacto! - respondeu Bertha polidamente. - Porque
não se senta? Nessa cadeira não; antes nessa, aí,
que é mais confortável; traga-a aqui, para ao pé da janela,
que está mais fresco. Como se chama?
O homem fez uma careta. Devia andar por volta dos
trinta e poucos anos, cerca de 1 metro e 75 e pouco
pesado; um andar indolente, tez amarelada e os olhos
tinham um brilho descarado.
- Nem pense nisso! - retorquiu. - Não julgue que
alguém vai arranjar-me implicações legais com a laracha:
«Você é uma testemunha, como está a ver!» Vai haver
uma data de conversa antes que isso aconteça.
- Que espécie de conversa? - interessou-se Bertha,
enquanto inseria um cigarro na sua longa boquilha de
marfim.
-- O género de «paleio» que começa com a discussão
de quanto há nisso para mim - respondeu o homem.
Bertha sorriu afavelmente.
- Bem, talvez eu possa arranjar as coisas a seu
contento, com um bom proveito para si, se você viu
aquilo que espero que tenha visto.
- Não tenha dúvidas irmãzinha, que vi tudo. Sabe
como é: há pessoas que não querem servir de testemunhas
e eu não as censuro; alguém embrulha-as num papel
legal, elas são forçadas a ir ao tribunal, aí umas cinco
vezes, e são informadas de que os advogados continuam
com o processo; à sexta vez, mete-se um outro processo
pelo meio e elas esperam mais dois dias até que o seu
caso volte à baila; então uma data de advogados atiram-lhes
com um monte de perguntas e fazem delas «gato-sapato»;
quando o caso acaba, o advogado despe a toga,
diz-lhes «muito obrigado» e deixa-lhes dez ou quinze
dólares pelo incómodo que tiveram como testemunhas.
O «gajo» que testemunhou arranjou-lhe matéria para uma
indemnização de quinze «das grandes» e o advogado
embolsa metade. A testemunha é que faz de anjinho...
Mas a minha mãe não teve um filho parvo.
- Estou a ver que não - respondeu Bertha elogiativamente.
- Você é exactamente o tipo de pessoa com
quem gosto de fazer um acordo.
- Catita! Prà frente com o acordo!
- Bem, estou particularmente interessada em descobrir
qualquer coisa acerca da identidade da...
- Um momento - interrompeu o homem. - Não
comece pelo meio. Vamos voltar ao começo.
- Mas eu estou a começar pelo começo!
- Oh, não! Lá isso é que não está. Não vai com essa
facilidade, irmãzinha. A primeira coisa que cá o rapaz
quer saber é quanto lhe toca.
- E eu estou a tentar explicar ao rapaz do que se
trata - retorquiu Bertha, com um sorriso cativante.
- Nesse caso, puxe do livro de cheques e arranje
um terreno como deve ser.
- Talvez você não tenha lido bem...
- Talvez você não tenha escrito bem!
Com um fluxo de súbita inspiração, Bertha declarou:
- Escute cá, eu não represento nenhuma das partes
nesse acidente.
O visitante pareceu abismado.
- Ah, não?
- Não!
- Então, qual é o seu ponto de vista?
- Apenas quero encontrar a moça que ficou contundida.
Ele fez outra careta, mas com uma expressão de
cínica compreensão.
- Não é nada disso - protestou Bertha. - Não me
interessa nada do que venha a acontecer depois de a
encontrar. Não vou encaminhá-la para qualquer advogado.
Tanto se me dá que ela processe o culpado como não,
nem que receba ou deixe de receber qualquer indemnização. A única coisa que me
interessa é saber onde poderei
encontrá-la.
- Porquê?
- Isso é outro assunto.
- Ah, sim?
- É a verdade.
- Nesse caso, aposto como você não é o sócio com
quem tenho interesse em falar.
- Você conseguiu ver a matrícula do carro que a
derrubou?
- Já lhe disse que tenho todos os elementos. Oiça,
irmãzinha, quando um pingo de sorte me cai no regaço,
estou logo pronto, de lápis e livro de notas em punho.
Está a ver? Tenho aqui tudo: como aquilo aconteceu, o
número do carro... o trabalhinho completo. - Tirara um
canhenho de apontamentos e abriu-o numa página toda
rabiscada que mostrou, de relance, a Bertha. - Este não
é o primeiro acidente a que assisti, e não vai ser, de
certeza, como foi o primeiro. Da primeira vez, deitei o
pescoço de fora e contei o que acontecera. A companhia
de seguros pagou dez «das grandes» ao advogado e eu
não fui sequer ao tribunal. O advogado apertou-me o
«bacalhau» e afirmou-me que eu era um cidadão às direitas.
Depois, raspou-se com o cliente. Eu fiquei com o
aperto de mão. Ora, «bacalhauzadas» não me dizem
grande coisa. Desde então, ganhei juízo. Ando com o meu
livrinho e não testemunho seja o que for, antes de haver
uma pequena fala com o interessado. Não se apoquente
com o receio de que eu não tenha visto a coisa. Está tudo
aqui escarrapachado, mesmo à mão. Está a topar?
- Estou a topar - confirmou Bertha, mas você
veio ao sítio errado e está a falar com a pessoa errada.
- Como é isso?
- Um homem pediu-me que localizasse essa mulher.
Nem sequer sabe o nome. Ficou, de certa maneira, preso
a ela e ela desvaneceu-se-lhe da vida - explicou Bertha,
com grave convicção.
O visitante tirou o cigarro da boca, sacudiu a cinza
na carpete de Bertha Cool, inclinou a cabeça para trás e
deu uma gargalhada.
Um lento fluxo de indignação começou a colorir o
pescoço carnudo de Bertha.
- Ainda bem que você acha graça - resmungou
azedamente.
- Graça? - exclamou o homem entre gargalhadas.
- É um espectáculo! Eh, rapazes! Ah! ah! ah! Ele só quer
mandar um telegrama à donzelinha e não sabe o endereço!
Boa piada! Você tem o número da matrícula do
carro que a sacudiu?
- Não está a perceber?! - quis explicar Bertha. -
O homem que a colheu ia levá-la a um hospital. O meu
cliente quer saber a que hospital a levaram.
O visitante, enfiado na estofada e confortável cadeira
junto da janela, estava congestionado de tanto rir.
Dobrou-se para a frente, esticou uma perna e ficou vermelho
como um tomate.
- Ah! ah! ah! Você dá cabo de mim, irmãzinha!
Você é um ponto!... grande ponto!
Tirou um lenço da algibeira, limpou o nariz e os olhos
lacrimejantes.
- Essa é de um tipo «marar». Diga-me cá «madama»
se lhe aparecem muitos desse estofo? Estou apenas interessado
porque, quando a gente topa um tipo que cai tão
facilmente numa dessas, há sempre a sorte de lhe sacarmos
qualquer coisa!
Bertha empurrou a cadeira para trás e interveio rispidamente:
- Muito bem! Agora oiça-me, você, seu pinto espertalhão.
Você tem miolos ou não? É o menino querido da
sua mamã. É o «crianço» brilhante da família. É o «vivaço»!
Todos os outros são trouxas! O que é que lhe deu? Olhe
para si. Com um fato comprado feito, de vinte e cinco
dólares, uma gravata de dólar, uma camisa com buracos
onde lhe assentam as pontas do colarinho, um par de
sapatos gastos, até às palmilhas... Esperto, hem? Tipo
avisado! Pois desde já lhe digo que é só meio esperto,
só tem a meia esperteza que lhe permite ver a luz, mas
fraquinha, porque vem sempre uma sombra que a tapa.
Pois bem, Mr. Esperteza-com-calças, deixe-me agora dizer-lhe uma coisa - Bertha
estava agora de pé, inclinada para a frente sobre a secretária: - Já que você é
tão esperto, fique sabendo que o meu cliente é cego, um pedinte cego que se
senta a uma esquina a vender lápis e gravatas. Chegou à idade de tornar-se
sentimental e essa carriçazinha passa e pára alguns momentos junto dele, dá-lhe
uma palmadinha nas costas e acarinha-o. Ele está apoquentado por ela não ter
vindo trabalhar nem na segunda, nem na terça-feira. Pediu-me que tentasse
localizá-la e porque é um velho simpático, a Bertha foi
na cantiga e aceitou o frete por um quarto do preço que
costuma levar a um cliente qualquer. Eu estava na disposição
de dar-lhe a si um arranjinho. Se você me tivesse
prestado a informação que lhe pedi, manejaria as coisas
de maneira que, se um advogado lhes pagasse, você
poderia embolsar qualquer coisa. Agora, já que você é
um espertalhão dos diabos, vá para diante e procure sozinho
esse advogado.
O visitante parara de rir. Nem sequer sorria. Fitou
Bertha Cool com uma expressão esgazeada, meio angustiada,
meio surpresa.
- Ponha-se a andar - ordenou Bertha. - Vá para
o diabo que o carregue, daqui para fora, antes que eu o
ponha na rua. - E começou a contornar a secretária.
- Eh, lá! Espere um momento, «madama»! Eu...
- Fora! - rugiu Bertha.
O homem deu um salto na cadeira, como se descobrisse
subitamente que estivera sentado em cima de
uma almofada de alfinetes.
- Um momento, «madama». Talvez possamos fazer
realmente negócio.
- Agora, nem que o Diabo me empurrasse. Não vou
sujar as minhas mãos com um espião barato, pelintra,
dez-réis de gente e capacho para limpar os pés. Já que
você é tão danadamente esperto, vá à procura de um
advogado que queira a sua informação.
- Bem, talvez...
Bertha Cool arrancou para ele como uma avalancha.
Com a sua mão agarrada pegou-lhe num bocado de
fazenda das costas do casaco, torceu-o numa rodilha e
começou a levá-lo de escantilhão para a porta.
Elsie Brand viu-os, espantada, atravessarem-lhe o
escritório, em marcha acelerada, na direcção da saída.
A porta bateu com violência e o vidro fosco partiu-se.
Bertha permaneceu junto dele, durante um ou dois segundos,
e depois virou-se para Elsie Brand.
- Atrás dele, Elsie, toca a andar. Vamos dar uma
lição a este oportunista.
- Não estou a perceber... - confessou Elsie.
Bertha passou para trás de Elsie, virou-lhe a cadeira
para o lado e empurrou-a através do escritório, até meio
caminho da porta, antes de a moça ter tempo de levantar-se.
- Siga-o! Descubra quem ele é e para onde vai.
Se tiver carro, tire-lhe o número de matrícula. Mexa-me
essas pernas!
Elsie avançou para a porta e Bertha aconselhou:
- Espere que apanhe o elevador. Não siga no mesmo.
Na rua, vá-lhe na peugada.
Depois de Elsie sair apressada, Bertha arrumou-lhe
a cadeira por trás da secretária, voltou para o gabinete
e, aí, enfiando um cigarro na boquilha, meteu-a entre os
dentes e atirou-se para cima da cadeira giratória.
Ficou arquejando de indignação e murmurou:
- E aquele pirata que se foi enfiar na Marinha! Meu
Deus, como me faz falta agora! Já tinha resolvido isto
com uma perna alçada!
V
Elsie Brand regressou ao cabo de meia hora.
- Caçou-o? - inquiriu Bertha.
Elsie abanou a cabeça. Uma expressão de desapontamento
sombreou o rosto de Bertha.
- Porque não?
- Porque eu não sou Donald Lam - retorquiu Elsie.
- Não sou detective; sou apenas uma estenógrafa. Ainda
por cima tive a impressão de que ele me vigiava durante
todo o percurso.
- Que diabo fez ele?
- Caminhou ao longo do passeio, parou em frente
do cego, nosso cliente, e deitou-lhe na lata, uma a uma,
cinco moedas de prata... cinco dólares!
«O outro ia dizendo ”obrigado, irmão” a cada uma
das moedas que ia ouvindo tinir e disse-o cinco vezes,
muito sério, com considerável dignidade.»
- Vá lá, diga o resto - impacientou-se Bertha.
- Então, atravessou a rua e começou a andar muito
depressa. Estiquei as pernas, tentando acompanhá-lo. Não abrandou, até se lhe
deparar um sinal de trânsito que ia fechar-se para os peões. Quando isso
aconteceu, deu uma corrida e atravessou para o outro lado. Tentei
ainda imitá-lo, mas o polícia que estava a meu lado segurou-me
por um braço. Aproximou-se um autocarro e o
homem saltou lá para dentro.
- E porque raios você não seguiu o autocarro? censurou
Bertha.
- Espere aí - interrompeu Elsie. - Estava um táxi
estacionado a meio do quarteirão. Fiz-lhe uma data de
sinais frenéticos, até que o motorista me viu e se aproximou. Saltei lá para
dentro e passámos pelo autocarro três vezes. Sempre que o ultrapassávamos,
examinei os passageiros, sem conseguir descobri-lo. Por isso, mandei
o motorista parar dois quarteirões à frente do autocarro,
paguei a conta, saltei para a rua e tomei o autocarro nessa
paragem. O nosso homem não estava lá dentro.
Com um profundo suspiro, Bertha resmungou:
- Macacos me mordam!
VI
Exactamente nove minutos para as nove,
quando Elsie abriu a porta do gabinete particular de
Bertha Cool. Procurava evidentemente esconder a sua
excitação até que a porta se fechou nas suas costas.
Então, com a respiração alterada, anunciou:
- Voltou!
- Quem é que voltou?
- A testemunha que viu o acidente.
Durante alguns segundos, Bertha entregou-se a íntimas
considerações, antes de comentar:
- O tipo quer entrar na coisa. É um sujo chantagista
e eu não deveria dar-lhe a satisfação de recebê-lo.
Elsie Brand aguardou, sem proferir palavra.
- Está bem - decidiu-se Bertha. - Mande-o lá
entrar.
O homem sorria afavelmente, quando penetrou no
gabinete.
- Duro de roer, hem? - começou o homem. Escuro
negócio esse em que a senhora me quis
meter! Mas não há ressentimentos entre nós, pois não,
Mrs. Cool?
Bertha não abriu boca.
- Tenho estado a pensar na coisa - prosseguiu ele.
- Talvez a senhora estivesse a falar verdade. Vou fazer-lhe
uma proposta: a rapariga não sabe quem a contundiu
e eu sou o único que está a par da coisa; mas, na verdade,
a informação não me serve de nada, aqui fechada
no livro de apontamentos, por isso vou dar-lhe o nome e a
morada da moça, e isso não lhe custará um cêntimo; vá
vê-la e fale-lhe na ideia de que tem um bom motivo para
um processo de indemnização; vinte e cinco por cento é
tudo quanto quero.
- Vinte e cinco por cento de quê? - inquiriu Bertha.
- De quanto se arrancar ao homem que guiava o
carro. Provavelmente não tinha seguro e cai que nem
pato!
- Não tenho nada com isso, como já lhe disse retorquiu
Bertha.
- Bem sei. A senhora disse-me isso e eu não vim cá
discutir, mas um tipo avisado vale por dois e agora sou
eu que lhe digo que, se a moça está interessada em descobrir
quem a virou de pernas para o ar, vai precisar de
um bom depoimento testemunhal. Falarei com um advogado
e arranja-se um processo que correrá que «nem
canja», ’tá d’acordo?
Bertha Cool apertou os lábios até os reduzir a uma
estreita linha e abanou a cabeça com firme obstinação.
- Não esteja a «reinar» comigo - riu o visitante,
’tá certo que concorda! Pode não estar agora, neste momento,
interessada em meter-se num processo, mas ficará
tentada, quando a coisa for para diante. Bem, sempre que
quiser contactar-me, bastar-lhe-á pôr um anúncio no
jornal.
- Como se chama?
- Oportunidade... Mr. John Q. Oportunidade.
- Desde já lhe digo... -começou Bertha Cool.
- Pois, pois, já sei - interrompeu-a ele, brandamente. - A rapariga chama-se
Josephine Dell e vive nos apartamentos da parte sul da Figueiroa Street... e não
foi
a nenhum hospital.
- Porque não? - interessou-se Bertha. - O homem
disse querer levá-la a tratamento.
- ’tá certo! Ia fazer isso. Queria que um médico a
examinasse para ter a certeza de que não ficara ferida,
mas, por qualquer razão, não o fez. O acidente ocorreu na
sexta-feira, ao fim da tarde; no sábado de manhã, a moça
levantou-se e sentiu-se dorida e estonteada; telefonou
para o sítio onde trabalha e disseram-lhe que se deixasse
ficar em casa; ficou todo o domingo de cama. Ora, sendo
assim, pode muito bem arranjar uma indemnização de
várias centenas de «palhaços»... só que não sabe onde ir
buscá-las.
O homem ergueu-se, acendeu um cigarro, deu uma
longa fumaça e, com os olhos semicerrados, fitou Bertha
especulativamente.
- Está a ver onde eu quero chegar?
Bertha Cool olhou, de relance, para a porta, ia
começar a dizer qualquer coisa, mas arrependeu-se e permaneceu
calada.
O visitante sorriu, divertido.
- Vai fazer o velho truque de mandar ver para onde
vou, mal desande, mas deixe-me que lhe diga que isso
não a leva a sítio nenhum que lhe interesse; andarei por
aí. Não levo nada pela informação. É o que pode chamar
uma amostra gratuita, do artigo. Quando a senhora quiser
a outra informação que realmente dá dinheiro, é só dizer.
Muito boa tarde.
E saiu do escritório.
Em menos de dez segundos, depois de o visitante ter
passado a porta, Bertha estava também pronta a sair.
Elsie Brand cobria a secretária onde tinha a máquina
de escrever, quando Bertha Cool saiu do gabinete.
Olhou-a, tentada a perguntar-lhe se conseguira a informação
que desejava, mas desistiu e Bertha não disse nada.
Os apartamentos Bluebonnet eram um típico edifício
do Sul da Califórnia, com divisões para pessoa só ou
casal, desde vinte e sete dólares e meio até quarenta
dólares por mês. Dos lados tinha os tijolos à mostra,
mas de frente exibia uma fachada estucada, com telhadinhos
sobranceiros às portas e janelas, forrados com a
convencional telha vermelha. Tinha três andares de altura
e quinze metros de largo. Não possuía átrio de entrada
e ao lado das caixas do correio, junto à porta, viam-se
campainhas com os nomes dos locatários.
Bertha Cool correu os olhos pela lista de nomes, e
deparou-se-lhe o de Josephine Dell a meio da fila. Com o
seu competente e gorducho dedo indicador premiu a campainha
e aproximou a boca do telefone exterior.
Uma voz de mulher nova inquiriu:
- Quem é?
- Uma pessoa que quer falar consigo acerca do seu
acidente.
- Está bem - aquiesceu a voz e, segundos depois,
o besouro da fechadura da porta anunciou a Bertha que
podia entrar.
Não havia elevador e subiu as escadas com a lenta
deliberação de conservar o fôlego e a energia, avançando
cautelosamente, como se negociasse com cada degrau,
parando a cada passo e dando com o corpo um balanço,
sempre que puxava para si o corrimão. Conseguiu assim
chegar ao patamar sem falta de ar e aí os seus dedos
fechados bateram autoritariamente à porta.
A jovem que lha abriu devia andar pelos vinte e
cinco anos. Era ruiva, com um nariz arrebitado, olhos
sorridentes e uma boca certamente habituada a distribuir
sorrisos.
- Olá! - saudou a moça.
- Olá! - retribuiu Bertha. - Você é Josephine Dell?
- Sim.
- Posso entrar?
- Entre lá.
Josephine Dell envergava um longo penteador sobre
o pijama e estava em chinelas. O interior do modesto
apartamento denunciava que ela devia ter estado, durante
algum tempo, vivendo apenas no quarto de cama. Junto
desta viam-se alguns jornais e revistas e o cinzeiro
achava-se cheio de beatas de cigarro cujo cheiro se espalhava
por todo o apartamento.
- Queira sentar-se - convidou a jovem. - Amanhã
já tenho alta.
- Tem sido assistida? - interessou-se Bertha.
- Tenho estado sob observação médica - esclareceu
Josephine Dell, rindo, e acrescentou: - Uma desgraça
nunca vem só!
Bertha Cool tentou amoldar-se confortável mente
numa cadeira e inquiriu:
- Aconteceu-lhe mais alguma coisa, além do acidente
de automóvel?
- Então não sabe? ;
- Não!
- Perdi o emprego.
- Quer dizer que a despediram por não poder ir
trabalhar?
- Deus do céu! Não! Quando Mr. Milbers faleceu, os
meus azares começaram. Creio que sabe o que se passou,
mas, já agora, diga-me quem é a senhora e o que pretende,
antes de começarmos a falar.
- Bem - explicou Bertha, não represento qualquer
companhia de seguros e não posso oferecer-lhe um
cêntimo, sequer.
O rosto de Josephine Dell espelhou desapontamento.
- Esperava que viesse de uma companhia de seguros!
- Pensei que esperasse isso.
- Bem vê, quando o homem me atingiu com o carro,
não pensei ter ficado magoada. Reagi bem, endireitei-me,
respirei fundo e decidi deixar as coisas como estavam,
mas, meu Deus, não percebi que não me achava em condições
de trabalhar e disse para comigo: «Não sejas
piegas; não tens ossos partidos; apenas umas nódoas
negras.»
Bertha sacudiu a cabeça, compreensivamente.
- E depois, sabe?, o rapaz foi tão simpático! Saiu
logo do carro, passou-me o braço em volta da cintura e
meteu-me no automóvel antes que eu desse por isso.
Começou a insistir por acompanhar-me a um hospital e
eu recusei, rindo-me da ideia, mas depois pensei que
talvez estivesse a propor-me isso para descargo da consciência
e sua própria protecção e acedi. Começámos a
tagarelar, e então, não sei porquê, convenci-me de que não
ficara magoada e que não haveria qualquer motivo para
reclamação por ofensas corporais. Disse-lhe que não tencionava
pedir uma indemnização e ele acabou por trazer-me
a casa.
Com um gesto compreensivo de cabeça, Bertha demonstrou
que as confidências podiam continuar.
- Depois de pensar que tudo corria bem, comecei
a sentir sintomas peculiares. Consultei um médico, e ele
declarou que não era, de forma alguma, anormal as
pessoas contundidas acharem-se sofrivelmente bem, durante
um dia ou dois, e passado esse período começarem
a sentir os efeitos dolorosos da contusão que evolui em
sintomas de séria gravidade. O doutor até se mostrou
optimista pelo facto de eu ter a sorte de poder permanecer
aqui em casa.
Bertha tornou a anuir com a cabeça.
- Nunca falei no número de matrícula do carro prosseguiu
Josephine, com uma pequena gargalhada,
nem tomei nota do nome do homem, pelo que não faço
a mais pequena ideia de quem seja. Não se dá o caso de
desejar processá-lo, mas, se está segurado contra terceiros,
certamente que eu poderia receber agora algum
dinheiro.
- Sim - concordou Bertha, isso compreende-se,
e, se você está interessada em descobrir quem ele é, há
uma possibilidade de...
- Estava a dizer que...? - perguntou Josephine,
quando Bertha interrompeu a frase.
- Nada! - cortou Bertha.
- Suponho que a senhora ia falar-me da sua ligação
com o caso, não?
Bertha Cool estendeu-lhe um cartão e apresentou-se:
- Sou directora de uma agência de detectives.
- Uma detective! -exclamou a moça, surpreendida.
- Sim.
Josephine riu com simpatia.
- Sempre pensei que os detectives eram pessoas
sinistras e a senhora parece-me muito humana!
- E sou.
- Porque está interessada em mim?
- Porque alguém me contratou para encontrá-la.
- Quem?
- Aposto que, nem que pensasse cem anos, seria
capaz de adivinhar - desafiou Bertha, sorrindo. - Trata-se
de um homem que está interessado em si. Soube
que tinha sofrido um acidente e deseja saber como vai.
- Porque não me telefonou?
- Não sabe onde poderia encontrá-la.
- Quer dizer que ignora onde trabalho?
- Exactamente.
- Oh! Aposto que é o cego!
Bertha sentiu-se um pouco irritada com o facto de
Josephine ter descoberto tão facilmente quem era o seu
cliente.
- Como adivinhou?
- Não o teria adivinhado, se a senhora se não tivesse
mostrado tão misteriosa. Ter-me-ia lembrado de outra
pessoa qualquer. Não sei se sabe que penso muito nele
e ainda hoje o fiz, lamentando não poder informá-lo de
como me sinto. - Riu-se, e prosseguiu: - Compreende
que não posso escrever a um cego, cuja direcção é o
passeio em frente do Banco, não é verdade?
- Certamente! - concordou Bertha.
- Vai comunicar-lhe quanto apreciei o seu interesse,
não vai?
Bertha anuiu, e Josephine insistiu:
- Diga-lhe que isso significa muito para mim e que,
provavelmente, me verá amanhã ou depois, se não houver
outras complicações. Ele é um «querido»!
- Parece estar-lhe muito afeiçoado - confirmou
Bertha. - É um tipo realmente fora do comum... muito
observador.
- Por favor, transmita-lhe da minha parte que estou
bem e que lhe envio toda a minha afeição. É capaz de
fazê-lo?
- Certamente! - Bertha ergueu-se da cadeira e,
após uma breve hesitação, declarou: - Talvez eu seja
capaz de fazer alguma coisa acerca da... bem... de uma
compensação para si, mas terei de gastar algum dinheiro
para descobrir quem a atingiu. Não gostaria de encarregar-me
do caso, a menos que você não tenha outra maneira
de consegui-la.
- Quer dizer que a senhora seria capaz de encontrar
o homem que guiava o automóvel?
- Creio que sim, mas vai causar-me algumas despesas.
- Quanto?
- Ainda não sei. Talvez pudéssemos basear-nos
numa percentagem sobre a quantia que vierem a pagar-lhe.
Calculando por alto, talvez metade de quanto eu puder
obter da companhia, se você não o conseguir por outras
vias.
- É capaz de tratar de tudo isso por mim?
- Se houver um acordo com a companhia de seguros,
certamente, mas se o caso for para tribunal, então seria
assunto a considerar...
- Oh! Não quero ir para tribunal. O rapaz foi tão
amável! Mostrou tanta consideração por mim! Quero crer
que ele tenha seguro e que, se fizesse uma ideia do
estado em que estou... mas, na verdade, não foi nada de
grave. Só perdi três ou quatro dias de trabalho e, de resto,
já tinha perdido o emprego.
- Trabalhava para um tipo que morreu?
- Sim, para Mr. Harlow Milbers.
- O seu escritório deveria ser perto do local onde
o cego estaciona.
- Mais ou menos a dois quarteirões do Banco, num
estúdio antiquado daquele velho edifício que faz esquina.
Mr. Milbers tinha o seu escritório lá em cima...
- Que fazia ele?
- Um trabalho de pesquisa, relacionado com uma
sua preocupação particular. Tinha uma teoria acerca de
que as campanhas militares seguem uma certa linha
táctica e que a defesa é impotente contra a agressão,
até que esta se anule por si própria, isto é, que nenhuma
nação poderá manter permanentemente uma acção defensiva
contra uma ameaça de agressão, visto que, quando
o ataque se realiza, não há maneira de detê-lo, senão com
uma agressão oposta. Por mais esforços que se empreguem,
apenas se consegue atenuar o ímpeto da agressão,
até que, eventualmente, a defesa se torna vulnerável e
ter-se-á de atacar. Por mais poderosa que seja uma nação
no começo das hostilidades, por mais longe que a levem
as suas conquistas, por mais extensas que sejam as suas
fronteiras... Mas você não deve estar interessada em
nada disto!
- É uma teoria interessante! - comentou Bertha.
- Ele estava a escrever um livro acerca disso e
ditava-me uma série de notas... Era um bom emprego.
Bertha atalhou:
- Bem, se você se decidir e desejar que eu faça
qualquer coisa acerca do acidente de automóvel, comunique-me.
Penso que poderá obter entre quinhentos a mil
dólares. Houve traumatismo nervoso, contusões, etc.
- Oh! Não estou interessada em nada para o traumatismo
nervoso. Basta-me uma ligeira compensação
para os dias em que não pude trabalhar e para pagar a
conta do médico.
Bertha observou:
- -Quando receber a indemnização da companhia,
temos de considerar que houve um certo número de diligências
a efectuar e de pessoas envolvidas na obtenção
das informações, pelo que será necessário pagar algumas
despesas... Pense nisso, queridinha. Tem aí o meu cartão
e poderá, em qualquer altura contactar comigo.
- É na verdade muito amável, Mrs. Cool. Sábado e
domingo não contam, portanto, só perdi três dias, quando
muito. Ganho trinta dólares por semana, por isso os três
dias não excedem dezoito dólares e o médico só me
debitou sete. Apenas quero receber vinte e cinco dólares
da companhia.
Com a mão pousada no fecho da porta, Bertha aconselhou:
- Não seja «tansa»...-mas neste momento ouviu-se
alguém bater à porta timidamente, Josephine Dell pediu:
- Abra, se faz favor.
Bertha abriu a porta. Um homenzinho amaneirado, à
volta de cinquenta e sete, cinquenta e oito anos de idade,
com um bigode grisalho-amarelado, de ombros ligeiramente
curvados e olhos azuis sorriu para ela.
- A senhora é Miss Dell, não é verdade? Sou
Christopher Milbers. Não toquei à sua campainha da porta
da rua, porque me enganei no apartamento e abriram-ma
aqui do lado. Desculpe-me. Devia realmente ter tornado a
sair e perguntar-lhe se desejava receber-me. Só agora me
apercebi da incorrecção... Precisava de falar consigo
acerca do meu primo. Foi uma coisa tão súbita que...
- Não sou eu - esclareceu Bertha, afastando-se
para o lado de forma a permitir que o homem penetrasse
no compartimento. - Vim apenas falar com Miss Dell.
- Oh! - exclamou o visitante apologeticamente.
- Faça o favor de entrar - convidou Josephine
Desculpe não me levantar e estar assim vestida, mas
sofri um acidente de automóvel... nada de sério, mas o
médico aconselhou-me a movimentar-me o menos possível.
Na verdade, quase que o conheço, Mr. Christopher
Milbers, já que lhe escrevi várias cartas ditadas por
seu primo.
O homem avançou, cumprimentou Josephine e interessou-se
com solicitude:
- Teve então um acidente, Miss Dell?
- Coisa de pouca importância. Queira sentar-se.
- Bem, vou andando - anunciou Bertha, passando
para o lado de fora da porta.
- Só um momento - pediu Josephine. - Gostaria de
falar consigo um pouco mais acerca da possibilidade de
se obter essa compensação. Pode esperar mais um
bocado?
- Já lhe disse, minha amiga, tudo quanto sei e aconselho-a
a não ser tola, quanto ao que tenciona pedir à
companhia de seguros. Se realmente quer ir para a frente
com o assunto, entre em contacto comigo. O número do
telefone está nesse cartão.
- Fá-lo-ei e muito obrigada.
VII
Sentado à luz do sol matinal, com as costas apoiadas
nos blocos de granito do edifício do Banco, o cego parecia
ainda mais frágil do que quando Bertha Cool lhe falara,
na ocasião do seu primeiro relatório. Ao aproximar-se,
Bertha tentou confundi-lo, alterando o ritmo das suas
passadas.
- Olá, Mrs. Cool - saudou ele, sem levantar a
cabeça.
Bertha riu-se e confessou:
- Julguei poder enganá-lo, modificando a maneira
de andar.
- Ninguém consegue modificar eficientemente as
características pessoais dos passos. Percebi logo quem
era, embora caminhando disfarçadamente. Conseguiu descobrir
qualquer coisa?
- Sim, já a localizei.
- Ela está bem?
- Sim.
- Está certa disso? Não teria ficado muito contundida?
- Não, agora está perfeitamente.
- Tem a sua morada?
- Apartamentos Bluebonnet, na Figueiroa Street.
Andava a trabalhar para um homem que morreu.
- Quem era ele?
- Chamava-se Milbers e era escritor. Andava às
voltas com uma teoria que ia incorporar num livro, quando
morreu.
- O escritório era perto daqui, como eu previra?
- Sim, junto da esquina do próximo quarteirão, num
edifício velho.
- Lembro-me do sítio... quando eu via... antes de
ser cego.
Fez-se silêncio durante breves instantes e Kosling
pareceu tentar recordar antigas reminiscências. Abruptamente
declarou:
- Iria apostar que sei quem ele era.
- Quem?
- O patrão dela. Deve ter sido um homem de idade
que usava bengala e que caminhava com um ligeiro
arrastar do pé direito. Já me tenho preocupado com ele.
Foi há coisa de uma semana a última vez que o ouvi
passar. Um homem que guardava o que tinha para si
próprio. Durante mais de um ano passava por aqui, mas
nunca me dirigiu a palavra, nem deitou uma coroa na
lata. Devia ser esse Milbers. Disse-me que morreu?
- Sim.
-De quê?
- Não sei. Ela apenas me disse que ele tinha falecido,
parece-me que subitamente, segundo depreendi.
Kosling sacudiu a cabeça e comentou:
- Na verdade não andava com muita saúde. Cada vez
arrastava mais o pé direito e piorara nas últimas seis
semanas. Contou-lhe como aconteceu ter-me preocupado
com ela?
- Certamente - respondeu Bertha. - Você não
pediu segredo e pensei que podia dizer-lho. Ela pensava
que eu a visitara por causa do acidente de automóvel e da
possibilidade de conseguir-se uma indemnização da companhia
de seguros e tive de explicar-lhe como sucedeu
ter sido incumbida de descobri-la. Espero não ter cometido
um erro!?
- Fez muito bem. Como vamos de dinheiro?
- Quites. Você deu-me vinte e cinco dólares que é
o total da minha conta, visto não ter tido despesas extras.
- Está bem, muito obrigado. E agora que já me
conhece, espero que me venha falar, quando passar por
aqui. Tenho sentido a ausência do seu sócio. Tem recebido
notícias dele?
- Não.
- Gostaria que mas desse, quando souber alguma
coisa.
- Esteja descansado que o farei. Adeus, boa sorte.
Bertha dirigiu-se para a entrada do edifício do seu
escritório, subiu no elevador e ouviu Elsie Brand a matraquear
na máquina de escrever. Abriu a porta e saudou:
- Olá, Elsie. Acabo... - e calou-se a meio da frase.
O homem de olhos mortiços e de cigarro pendente
da boca estava sentado numa cadeira desconfortável,
com as pernas cruzadas e as mãos nas algibeiras. Ao fitar
Bertha readquiriu a expressão descarada e, em tom afável,
inquiriu:
- Que tal correu?
- A que se refere?
- Sabe muito bem a que me refiro. Conseguiu esse
acordo para sacar a massa à companhia de seguros?
- Não fui tratar disso - retorquiu Bertha.
- Pois, pois! Chegou a acordo, ou não?
- Mal foquei esse assunto.
- Vinte e cinco por cento, cá para o rapaz, está
bem?
Bertha irritou-se.
- Parece que você não entende o que digo, quando
falo inglês. Ficámos em que lhe daria vinte e cinco
dólares pela informação. Terei de falar chinês?
Ele começou a rir e Bertha prosseguiu:
- E fique sabendo que terei de pagar-lhos da minha
própria algibeira, porque ela não me encarregou de tratar
com o seguro. De resto, não deseja receber uma indemnização
total, mas apenas com que pagar a conta do médico
e uma compensação para os dias que ficou sem trabalhar.
Não quer mais do que vinte e cinco dólares.
- É tudo quanto ela quer?
- Exactamente.
- Esteve a combinar a «coisa» com ela?
- Não estive a combinar coisa alguma.
- Talvez a companhia de seguros queira comprar
o meu livro de notas.
- Porque não tenta?
- É muito possível.
- Estou convencida de que o vai tentar.
- Estou apenas a ver em que param as modas, mas
não alterarei o meu depoimento. É por essa razão que não
vou ter directamente com a rapariga para sacar-lhe
«algum». Qualquer advogado acabaria por enrolar-me.
Contudo, se houvesse uma combinação confidencial, as
coisas correriam de melhor maneira. Então, se algum
«fala-barato» me perguntasse se a queixosa me dera
qualquer coisa, mostrar-me-ia sincero e responderia:
«apenas o que as testemunhas costumam receber».
Bertha riu cinicamente e anunciou:
- Vinte e cinco dólares é o total que ela pretende
neste momento e será também o meu limite para si.
Coisa nenhuma é quanto tiro deste negócio.
- Vinte e cinco por cento - insistiu ele.
- Já lhe disse que, por enquanto, não há bolo de
onde se possa tirar qualquer talhada.
- ’tá bem! Talvez as coisas mudem com o tempo.
- Diga-me cá - pediu Bertha. - Como poderei entrar
em contacto consigo?
Com uma careta, levantou-se e respondeu:
- Não pode! - e saiu do escritório.
Bertha estacou junto da porta, mal esta se fechou
atrás dele.
- Parece que tenho de entrar no jogo do tipo! - resmungou. -
Raios o partam.
- Quer dizer que vai aceitar-lhe a proposta? - inquiriu
Elsie Brand.
- Eventualmente... se não arranjar outra melhor.
- Porquê? - insistiu Elsie, com curiosidade. - Porque
se vai misturar com gente desse estofo, quando não
gosta dela?
- Porque há dinheiro envolvido nisto - confessou
Bertha e enfiou-se no seu gabinete, mergulhando na leitura
do jornal da manhã.
Ia a meio da coluna desportiva, quando o telefone
interno zumbiu. Bertha levantou o auscultador e Elsie
Brand perguntou:
- Pode dispensar alguns minutos a um tal Christopher
Milbers? Ele diz que já esteve consigo.
- Milbers, Milbers... - repetiu Bertha, por uns segundos,
até que respondeu:
- Oh! Sim, já sei quem é. Que quer ele?
- Não disse.
- Diga-lhe que entre.
Christopher Milbers ainda parecia mais apagado no
gabinete de Bertha do que em casa de Josephine Dell e
disse, em tom de quem se desculpa:
- Espero não vir incomodá-la.
- Que deseja? - inquiriu Bertha.
- Miss Dell disse-me que a senhora era detective.
Fiquei espantado.
- Encarregamo-nos de investigações confidenciais
- esclareceu Bertha.
- A palavra detective soa muito mais romântica do
que o termo investigador, não acha?
Bertha fitou-o com um olhar frio.
- Não há romantismo nos negócios. É uma profissão
como outra qualquer e eu nunca descurei qualquer negócio.
Que pretende?
- Gostaria de contratá-la, Mrs. Cool, mas não sei
ainda quais são os seus honorários - explicou Milbers.
- Dependem da natureza da investigação e do montante
do dinheiro envolvido - esclareceu Bertha, agora
com o olhar denunciando agudo interesse.
- Não se importa que lhe roube o seu tempo, contando-lhe
a história desde o princípio?
- Diga lá.
- Bem... o meu primo Harlow era deveras excêntrico.
- Já percebi isso.
- Era muito individualista e teimava em viver a vida
à sua maneira. Não queria que o comandassem ou dominassem
e as suas relações com os parentes azedaram-se
com essa atitude.
Christopher Milbers uniu as palmas das mãos, abriu
os dedos, juntou as pontas e virou-as para o peito. Olhou
para Bertha, por cima da sua habilidade contorcionista,
manifestamente ansioso por que ela tivesse abrangido o
seu ponto de vista.
- Casado? - perguntou Bertha.
- A mulher dele morreu há dez anos.
- Filhos?
- Não.
- É o único parente?
- Sim.
- Quanto ao funeral, quem se encarregou disso?
- É amanhã. Estou cá a tratar dele. Só recebi o telegrama, comunicando o falecimento, na segunda-feira.
Estive fora da cidade e houve certa demora a fazer-mo
chegar às mãos. Apreciei devidamente a decisão de
terem-me confiado os cuidados do funeral.
Bertha começou a impacientar-se.
- Eu não percebo patavina de funerais. Por que razão
me quis falar?
- Sim, já lá vamos! Estava-lhe a dizer que o meu
primo era um excêntrico.
- Estava, pois.
- Entre outras excentricidades não tinha confiança
na segurança económica das empresas comerciais.
A expressão de Bertha denunciou espanto.
- Cos diabos! Isso não é nenhuma excentricidade!
Isso é bom senso!
Christopher Milbers fechou os dedos e juntou os nós
das falanges umas com as outras.
- Excentricidade ou bom senso, para o caso tanto
faz, Mrs. Cool. O que interessa é que andava sempre com
larga soma de dinheiro numa carteira de bolso. Eu próprio
presenciei esse facto, além do que me escreveu uma carta
informando-me de que esperava uma situação de emergência
e, mais ou menos, na quinta-feira, levantou, da
sua conta bancária, cinco mil dólares adicionais para aquisição
de certos livros raros, na sexta-feira, à tarde.
-E então?
- Quando cheguei para me encarregar do funeral e
me foram entregues os objectos que ele trazia consigo
no momento da morte, examinei-lhe a carteira e o porta-chaves
e...
- Deixe lá o resto. Quanto tinha a carteira?
- Só lá estavam uma nota de cem dólares, uma de
vinte, e três de um dólar: nada mais!
- Oh, oh! - exclamou Bertha, interessada.
- Pode imaginar a minha preocupação!
- Naturalmente! Fez logo uma reclamação?
- Aí é que está... uma pessoa não gosta de reclamar,
quando isso pode ser considerado uma acusação ainda
não totalmente comprovada...
- Quer portanto que eu o certifique da irregularidade,
não é assim?
- Não é bem isso. Neste momento já tenho a certeza
absoluta.
- Ah, tem?
- Tenho. Miss Dell... que a senhora conhece...
- Que houve com ela?
- Tem a certeza de que o dinheiro estava na posse
do meu primo.
- Como o soube ela?
- Foi secretária de Harlow durante mais do que um
ano e recorda-se da ocasião em que ele lhe ditou uma
carta na qual mencionava ir levantar cinco mil dólares
para os trazer consigo.
- Onde está a carta?
- Tenho-a em Vermont... isto é, espero que ainda
lá a tenha, pois às vezes destruo a correspondência...
- Considerava importante a correspondência que
trocava com o seu primo?
- Para falar francamente, Mrs. Cool... muito importante.
- Porquê?
- Era o meu único parente vivo. Sentia-me muito
ligado a ele... Sabe como é, quando uma família se vai
reduzindo a um círculo estreito e só restam duas pessoas
- explicou Milbers; tornando a virar os dedos estendidos,
agora para Bertha Cool.
- E agora só está um vivo! - comentou Bertha acidamente.
Milbers não disse nada.
- Há quanto tempo o não via? - prosseguiu Bertha.
- Bem... já há algum tempo... há cerca de quatro
ou cinco anos.
- Afinal, considerando os factos, não devia dar-se
muito bem com ele!
- Ele preferia as coisas assim. Gostava de escrever
mas, quanto a contactos pessoais... creio que pensava
ser mais conveniente o contacto epistolar, para manter
as relações familiares harmoniosas.
- Ora aí está o género de conversa adocicada que,
se não é trocada em miúdos, uma pessoa não consegue
entender onde se quer chegar... pelo menos até agora criticou
Bertha, impaciente.
- Acontece que numa conversa oral - explicou Milbers,
escolhendo cuidadosamente as palavras - surgiam,
entre nós, várias divergências. Ele era obstinado quanto
a certa política radical e teorias económicas. Contudo,
através da correspondência é sempre possível abordar
essas matérias com maior tacto e evitar certos assuntos
de controvérsia. Numa conversa, já não é fácil.
- Acho que pouparia uma data do seu tempo e do
meu, se fosse direito ao assunto e se chamasse pá
a uma pá.
- Ora aí está! - exclamou Milbers, com ardente
entusiasmo. - A senhora, Mrs. Cool, acaba de laborar no
mesmo erro que muitas outras pessoas. Uma pá pode
não significar uma pá. O termo pá não é mais que uma
palavra genérica de comum convencionalismo que não
designa qualquer objecto em particular e sim vários, para
diferentes utilidades. Por exemplo, tem a pá de jardineiro,
que serve para abrir a terra; a pá de pedreiro, completamente
diferente, para aplicar a argamassa; a pá de padeiro,
para introduzir o pão no forno, ainda mais diferenciada;
a pá da hélice de um avião, completamente alheia,
na sua forma física, às anteriores, todas elas pás para
diversos fins e, com efeito...
- Pare lá com isso! - gritou Bertha. - É fácil de
perceber o que seu primo sentia a seu respeito! Volte ao
assunto!
- À pá?
- Não, ao primo. Onde vivia ele? Hotel, casa alugada,
clube, ou?
- Não, Mrs. Cool, tinha casa própria mas, desafortunadamente,
não era capaz de dar conta dela.
- Quem a dirigia?
- Uma governanta.
Os olhos pestanejantes de Bertha convidavam Milbers
a prosseguir o seu relato.
- Uma tal Mrs. Nettie Granning, que anda aí pelos
quarenta e picos, se me desculpa a expressão. Tem uma
filha, Eva, e um genro, Paul Hanberry.
- Paul e Eva viviam na casa com eles? - interessou-se
Bertha.
- Exactamente, Mrs. Cool. Paul era o motorista que
conduzia meu primo, quando, raramente, ele ia a qualquer
lado de automóvel. Segundo creio. Eva actua, tecnicamente,
como assistente da mãe, lá em casa. Todos eles
auferiam largos salários e, se me perguntar a minha opinião,
não poderei esconder-lhe que sempre considerei o
facto um arranjo ineficiente e altamente dispendioso.
- Que idade tem Eva?
- Diria cerca de vinte e cinco.
- E o marido?
- Talvez dez anos mais velho.
- Que dizem eles acerca do dinheiro que se supõe
ter estado na carteira do falecido?
- Ora aí é que está a dificuldade - afligiu-se Mr.
Milbers. - Ainda não lhes mencionei essa falta.
- Porque não?
- Sou muito meticuloso, quanto a tudo que possa
parecer uma acusação, embora reconheça que teremos
de discutir o incidente.
- Pretende, por ventura, que eu averigúe a situação?
- inquiriu Bertha, animada por súbita inspiração.
- Exactamente, Mrs. Cool.
- Sou boa nisso!
- Pelo meu lado, vejo-me levado a confessar que a
minha fraqueza nesse campo é deplorável.
Olhando para Milbers, especulativamente, Bertha
observou:
- Sim. Imagino... se essa governanta é de um género
que eu conheço!
- Exactamente - confirmou Milbers, separando os
dedos para os tornar a juntar, com intervalos rítmicos
Ela é precisamente desse género!
- Agora, há o caso da carta que se referia aos cinco
mil dólares. Os outros cinco mil, como entram em cena?
- Como já tive ocasião de mencionar, o meu primo
desejava adquirir um lote de livros raros, numa venda de
emergência, e só não o fez porque se sentiu doente nesse
mesmo dia. Contudo, o seu Banco confirma que lhe descontou
um cheque nesse valor, além de que obtive
ulterior confirmação de que ele, nesse dia, transportava
consigo os habituais cinco mil, mais os destinados à
aquisição dos livros, portanto dez mil... na carteira... no
momento da morte.
Bertha apertou os lábios, reduzindo-os a uma estreita
linha e inquiriu semicerrando os olhos:
- Diga-me agora, o senhor, como vai de finanças...?
- Que tem isso a ver com o assunto?
- Sempre me dá uma ideia do quadro geral.
Depois de um momento de cautelosa deliberação,
informou:
- Tenho uma quinta, em Vermont, onde produzo
açúcar e xarope que vendo pelo correio. Dá-me para viver,
mas não posso dizer que tenha mais do que isso.
- O seu primo era seu cliente?
- Sim, costumava comprar-me xarope e gostava de
açúcar de maçã, mas preferia que lho enviasse para o
escritório em vez de para casa. De quando em quando,
também lhe enviava amostras de novos produtos que ia
lançando no mercado e até lhe enviei um, na semana
passada. É triste pensar que já não está vivo...
- Amostras grandes?
- De maneira nenhuma. No negócio de doces, nunca
se devem enviar quantidades que possam fazer o cliente
enjoar-se, por excesso; somente se lhes deve dar com
que adoçar a boca.
- Mandava-lhe a conta ou fazia-lhe ofertas?
- Debitava-lhe sempre a mercadoria, mas fazia-lhe
um desconto de trinta por cento... e ele, ao pagar, fazia-se
novo desconto de dois por cento!
Bertha ergueu a mão, espetando os dedos indicador
e médio, num V, bem destacados e concluiu sarcasticamente:
- Por outras palavras, vocês eram unidos um ao
outro, assim como isto!
Milbers sorriu.
- Devia ter conhecido o meu primo! Duvido que
houvesse qualquer coisa a que ele fosse unido... creio que
nem sequer à própria camisa.
- Agora, fale-me dessa governanta.
O rosto de Milbers tornou-se sombrio.
- É uma das coisas que me apoquenta. Indubitavelmente
ela mantinha-o na sua dependência, dominando-o
quanto podia. Confesso que me inspira certo receio.
- A mim, não! - afirmou Bertha. - Vamos lá.
VIII
Nettie Cranning, com os olhos vermelhos de pesar,
apertou a mão de Bertha Cool e convidou:
- Tenha a bondade de entrar. Desculpe-me recebê-la
neste estado, mas foi um terrível golpe para mim... para
todos nós. Esta é a minha filha Eva - apresentou,
e este o meu genro, Paul Hanberry.
Bertha invadiu a sala de entrada, com efervescente
competência, apertou a mão de todos e pareceu dominar
logo a situação.
Nettie Cranning devia andar pelos quarenta, dedicando
cuidada atenção à sua pessoa e cultivando um
maneirismo afectado que não passava de um verniz quebradiço,
com que pensava poder ser tomada por senhora
fina.
Sua filha Eva era uma morena, notavelmente bem-parecida,
de formas longas e regulares, delgada, com
delicadas sobrancelhas arqueadas, uma boca um pouco
petulante e grandes olhos negros amendoados que pareciam
capazes de mostrar-se emocionados se se lhes
facultasse ocasião.
Paul Hanberry dava a ideia de uma nulidade masculina,
ao sabor da vontade da personalidade mais forte
das duas mulheres. Era de altura e peso médios, conseguindo
não criar qualquer impressão favorável ou desfavorável
a quem o visse à primeira vista. Tal como Bertha
o descreveu na carta que enviou depois a Donald Lam,
era «um tipo para quem se olha duas vezes, sem o ver».
Christopher Milbers mal entrou, tratou logo de tornar-se
despercebido, passando para segundo plano, atrás
do volume de Bertha Cool, como um aluno se esconde
atrás da mãe, quando esta vai reclamar, junto do director
da escola, terem-lhe castigado o filho.
- Muito bem, meus senhores - começou Bertha. -
Isto não é o que se possa chamar uma visita de cortesia.
O meu cliente aqui presente, Mr. Milbers, deseja esclarecer
umas coisas.
- Seu cliente? -estranhou Mrs. Cranning, com fria
reserva. - Posso perguntar se a senhora é advogada?
- Não sou - retorquiu Bertha prontamente. - Sou
detective.
- Uma detective?
- Precisamente.
- Meu Deus! - exclamou Eva Hanberry admirada.
O marido decidiu-se a intervir, como a demonstrar
que tinha alguma coragem.
- Que diabo de ideia é essa de meterem uma detective
neste assunto?
- Porque desapareceram dez mil dólares - declarou Bertha...
- O quê?
- Ouviu-me, não ouviu?
- Está por ventura a acusar-nos de termos tirado
dez mil dólares? - interveio Mrs. Cranning.
- Não estou a acusar seja quem for... - especificou
Bertha, acrescentando ao cabo de uns breves segundos:
- por enquanto.
- Poderia ter a amabilidade de explicar-nos exactamente
o que quer dizer com isso? - pediu Eva Hanberry.
- Quando Harlow Milbers faleceu, trazia consigo,
na carteira, um maço de notas no valor de dez mil dólares.
- Quem disse isso? - inquiriu Paul Hanberry, hostilmente.
- Disse eu - anunciou Christopher Milbers saindo
de trás de Bertha Cool e colocando-se a seu lado -,
e acontece que estou em posição de provar esta minha
afirmação. Meu primo tinha a intenção de negociar a
compra de um lote de livros históricos, em condições
especiais. Em virtude de certas circunstâncias particulares,
essa transacção deveria ser efectuada em dinheiro
corrente que ele trazia consigo, na carteira.
- Nesse caso deve ter efectuado entretanto essa
transacção - deduziu Mrs. Cranning-, visto que essa
importância não se encontrava na carteira, quando morreu.
- Não, não se efectuou - cortou Milbers. - Ele
andava sempre com cinco mil...
Bertha Cool reduziu-o ao silêncio com um gesto de
mão autoritário e interrogou Mrs. Cranning: - Como sabe
que ele não trazia esse dinheiro na carteira?
Mrs. Cranning olhou de relance para os seus parentes
e, confusa, permaneceu calada. Eva Hanberry, depois
de com eles cruzar um rápido olhar, protestou indignadamente:
- Benza-nos Deus! Ia jurar que somos responsáveis
por quanto acontece nesta casa! Competia-nos ver tudo
quanto um morto deixa, não é verdade?
- Tínhamos de procurar saber quem eram os seus
parentes...-justificou Paul Hanberry - ou não?
- Não era dessa maneira que o descobririam observou
Milbers.
Bertha interveio beligerantemente:
- Não vim aqui perder o meu tempo a ouvir argumentações.
Queremos os dez mil dólares e é tudo!
- Provavelmente guardou-os no seu quarto - sugeriu
Mrs. Cranning. - Estou certa de que os não tinha na
carteira. Pelo menos, não estavam lá, quando eu a examinei
- concluiu, fitando o genro.
- Tenho pois razão ao afirmar que não os achei junto
do corpo, na casa mortuária - sublinhou Milbers, contrariado
por verificar que a táctica directa de Bertha Cool
colocara os outros na defensiva.
- Bem, já temos um ponto de partida - observou
Bertha. - Vamos lá ver o quarto onde ele morreu.
E quanto a outros quartos? Ele não costumava trabalhar
em casa?
- Oh, céus! Certamente que se fartava de trabalhar
na biblioteca - informou Mrs. Cranning. - Ficava lá até
altas horas da noite.
- Vamos então dar uma vista de olhos a essa biblioteca.
Qual das divisões fica mais perto?
- A biblioteca.
- Comecemos por aí.
- O quarto de cama já foi revistado - objectou
Paul. -Ele...
Mrs. Cranning fê-lo calar com um gesto de indignada
desaprovação, e, em voz baixa, Eva aconselhou:
- Deixa a mãe falar.
Com considerável dignidade, Mrs. Cranning indicou:
- Queiram seguir-me - e dirigiu-se ao escritório
onde se situava a biblioteca. À porta, descreveu um largo
círculo com a mão, como se o seu gesto significasse
que deixava a dependência ao cuidado dos visitantes e
que disso ilibava a sua responsabilidade.
Subitamente, Paul Hanberry consultou o relógio de
pulso, de forma a despertar a atenção geral, e informou:
- Cos diabos! Esqueci-me de fazer um telefonema!
- após o que se retirou para as traseiras da casa.
- Quase imediatamente a atitude das duas mulheres
modificou-se e Mrs. Cranning, numa voz mais conciliatória,
inquiriu:
- Estão absolutamente certos de que ele tinha o
dinheiro consigo?
- Provavelmente, na carteira - informou Milbers.
O banqueiro foi positivo no facto de ele lá ter introduzido
os cinco mil dólares que lhe entregara, na quinta-feira.
- Nettie Cranning e a filha entreolharam-se. Defensivamente,
Eva lembrou:
- Ele nunca ficou só, no quarto, com Mr. Milbers.
- Não, antes de morrer - frisou Mrs. Cranning.
- Oh, mãe! - protestou Eva.
- Está bem... mas foste tu quem trouxe esse assunto
à baila.
- Daí à mãe insinuar uma acusação...
Mrs. Cranning virou-se para Bertha, com um sorriso.
- Certamente Mrs. Cool compreende que tudo isto
foi um grande choque para nós e uma grande surpresa.
Estamos prontos a ajudar-vos em quanto estiver ao nosso
alcance.
Bertha respondeu secamente:
- Oh, certamente! E vai ficar realmente surpreendida
com quanto sou capaz de averiguar.
A biblioteca era uma sala espaçosa onde se alinhavam
prateleiras cheias de livros, alguns dos quais
encadernados em carneira que o tempo escurecera com
uma patina castanha. No centro da dependência encontrava-se
uma grande mesa e, sobre esta, achavam-se dispersos
vários livros abertos, uns sobre os outros. No
meio, um bloco-notas e um lápis. A primeira página do
bloco estava escrita numa caligrafia angular e inclinada.
Mrs. Cranning esclareceu:
- Não creio que alguém tenha mexido aqui, excepto
Mr. Christopher Milbers que me pedira que olhasse por
toda a casa. Está tudo exactamente da mesma maneira
que ele deixou. De resto, dera ordens para que ninguém
tocasse nos livros ou em qualquer outro objecto deste
escritório. Deixámos tudo tal como estava. Por vezes
passavam-se dias, sem que eu pudesse limpar a mesa,
visto estar tão cheia de coisas em que não se podia tocar.
- Não é, de forma alguma, um lugar onde uma
pessoa fosse deixar dez mil dólares - observou Bertha.
O silêncio de Mrs. Cranning demonstrava ser da
mesma opinião.
- Estive a examinar as notas que estão no bloco disse
Mr. Milbers. - Referem-se a uma campanha de
César. Não têm qualquer conexão com o assunto de que
nos ocupamos, mas o facto é que as considero deveras
interessantes...
- E eu considero, Mr. Milbers - cortou Bertha afastando-se
dele e começando a explorar o escritório -, que
devemos concentrar a nossa atenção na pesquisa do dinheiro
ou documentos, embora esteja quase convencida
de que será uma busca infrutífera.
- E quanto me diz respeito, considero que a busca é
meramente um preliminar necessário para se basear uma
acusação - comentou Milbers.
- Contra quem e com que base? - inquiriu Eva
Hanberry, com surda hostilidade.
Milbers torceu a questão, apressadamente:
- Isso fica inteiramente à discrição do detective.
- É apenas um detective privado - interveio Mrs.
Cranning. - Mrs. Cool não tem autoridade alguma.
- É a minha representante neste caso - retorquiu
Milbers, tentando dar à sua declaração a maior dignidade
possível.
Bertha Cool ignorou a discussão. Na pista do dinheiro
tinha mais faro do que um perdigueiro atrás da caça. Dera
a volta à mesa, passara uma vista de olhos aos livros
e ao bloco de apontamentos, leu o que lá estava escrito,
de relance, e comentou:
- Quem diabo daria um centavo por estas velharias?
Após um momento de silêncio, Milbers respondeu
defensivamente:
- Meu primo estava interessado nelas.
Decorrido outro momento de silêncio. Bertha perguntou:
- Não há nenhuma pasta para guardar documentos,
nesta mesa.
Aparentemente, não havia.
- Acho que devíamos passar ao quarto de dormir sugeriu
Milbers.
Bertha tornou a examinar as folhas de papel cobertas
de notas manuscritas e estranhou:
- Que aconteceu ao resto do trabalho anteriormente
escrito?
- Foi dado, certamente, à secretária que as transcrevia
à máquina. Depois Mr. Milbers relia o texto e
corrigia-o. Só depois o trabalho era arquivado. Há dúzias
de dossiers, devidamente datados, e...
- E estas folhas de papel, aonde ia ele buscá-las?
- Estão aqui - mostrou Mrs. Cranning, apontando
uma larga gaveta. - Tinha sempre uma série de lápis
afiados e papel...
Bertha examinou a gaveta e subitamente perguntou:
- Diga-me, Mrs. Cranning, porque desconfiou que
foi o seu genro quem tirou o dinheiro?
- Tirou o quê?
- Os dez mil dólares.
- Eu nunca pensei uma coisa dessas, Mrs. Cool.
A senhora está a ser simplesmente insultuosa. Não posso
acreditar que pense que Paul... um rapaz tão dedicado...
- Ele joga nas corridas?
Um rápido fulgor de apreensão espelhou-se no olhar
que mãe e filha trocaram entre si e foi quanto Bertha
desejara saber.
- Hum! Deve ser isso. Provavelmente está neste
momento a telefonar para o seu agente de apostas. Vou
dizer-lhe uma coisa. Se na realidade ele significa alguma
coisa para as senhoras, o melhor é fazerem com que lhes
diga a verdade. Se tirou a «massa», talvez tenha ganho
mais do que utilizou e...
Paul Hanberry entrou nesse momento, a tempo de
ouvir as últimas palavras.
- Quem é que ganhou mais do que utilizou? - perguntou
acerbamente.
- Nada, querido - interveio Eva, com tão perturbada
rapidez que denunciava um cúmplice e óbvio desejo de
mudar o rumo da conversa.
A expressão de Hanberry alterou-se.
- Oiçam bem - declarou indignado, não pensem
que podem transformar-me em bode expiatório desta
coisa. Há muito que todos sabem que não passo, aqui,
de um tipo supranumerário. Vocês duas têm um raio de
conversa doce que não me leva. Cos diabos, até deviam
ter casado uma com a outra. Suponho que nunca te
ocorreu, Eva, que quando casaste comigo era de esperar
que a tua mãe...
- Paul! - cortou Eva rapidamente.
Mrs. Cranning contemporizou, em voz suave:
- Não me parece serem o momento e o local adequados,
Paul, para tu e Eva se entregarem a divergências
domésticas.
Eva Hanberry achou oportuno desviar a atenção geral,
entregando-se a uma busca intensiva na gaveta dos papéis
e dos lápis.
- Apesar de tudo, ele deve tê-lo guardado aqui sugeriu,
com a rapidez de alguém que pretende atrair o
interesse dos presentes para um assunto, de maneira a
eliminar outro. - Era, afinal de contas, nesta sala que
passava quase todo o seu tempo. E é muito possível que...
- Se não se importa - atalhou Milbers, perdendo
toda a sua servilidade, sou eu quem vai examinar essa
gaveta.
Não lhe ligando atenção e abrindo caminho com os
pesados ombros, Bertha atravessou a sala e começou a
remexer os papéis.
- Está aqui uma pasta! - anunciou.
- Não é provável que ele tivesse posto aí o dinheiro,
no meio de toda essa papelada - observou Milbers.
Bertha abriu a pasta e os outros aproximaram-se.
Milbers inquiriu:
- Há aí alguma coisa?
- Alguns aparos para caneta, selos de correio e
um sobrescrito fechado - anunciou Bertha, apresentando-o. -
Vamos lá ver o que contém. Este sobrescrito
mostra-se comprometedor.
Abriu-o e retirou de dentro duas compridas folhas
de papel.
- Que é isso? - interessou-se Mrs. Cranning, perante
o calado interesse de Bertha Cool na leitura da
primeira delas.
- Tenho nas minhas mãos - declarou Bertha, um
documento datado de 25 de Janeiro de 1942; cujo conteúdo
permite presumir se trate do último testamento
de Harlow Milbers. Algum dos presentes tinha conhecimento
da existência deste documento?
- Um testamento! - exclamou Christopher, avançando
para Bertha.
- Esperem um momento - disse Paul Hamberry.-
De que data disse estar datado!... De vinte e cinco de
Janeiro? Por que razão... Ia apostar que...
- Ias apostar o quê, Paul - cortou Eva, num tom
abrupto que significava «cala a boca».
- O papel que me fez assinar como testemunha respondeu
Paul. - Não te lembras? Falei-te disso, no
domingo, quando Josephine Dell saiu daqui. Ele chamou-nos
a ambos, cá dentro, e pediu-nos que assinássemos
qualquer coisa, como testemunhas.
Bertha Cool virou a primeira página do documento,
inspeccionou as assinaturas da segunda página e confirmou:
- Não há dúvida! Assinaram duas pessoas, como
testemunhas: Josephine Dell e Paul Hanberry.
- Então era isso! Era o seu testamento.
- Porque não me disseram? - protestou Mrs. Cranning,
azedamente.
- Eu disse a Eva que ele nos tinha pedido que assinássemos
um papel e até pensei que mencionara tratar-se
de um testamento, mas Eva...
- Na verdade, nunca pensei que fosse um testamento
afirmou Eva, virando-se para a mãe. - Para
dizer-lhe a verdade, nem pensei muito no assunto. Lembro-me
de que Paul estava a lavar o carro, quando Mr.
Milbers bateu do lado de dentro da janela e lhe pediu
que viesse aqui e...
- Que diz esse testamento? - inquiriu Christopher
Milbers, impaciente.
Bertha, que estivera a ler o documento, olhou para
Milbers e declarou:
- Você não vai gostar disto!
- Vá lá! - disse Paul. - De que trata?
Bertha começou a ler o testamento:
«Saibam quantos lerem o presente documento que
eu, Harlow Milbers, de sessenta e oito anos de idade,
são de corpo e de espírito com perfeita memória, enfastiado
não da Vida (que muito aprecio) mas das pessoas
que insistem em viver ao mesmo tempo que eu, redijo
este meu testamento e exprimo as minhas últimas vontades,
nos seguintes termos:
«Tenho um único parente vivo, Christopher Milbers,
meu penteadinho-de-risco-ao-meio e hipócrita primo. Não
tenho, contudo, nada contra ele, a não ser o facto de
que me aborrece com a sua personalidade irritante, com
a mania de falar de mais acerca de coisas sem qualquer
importância, com demasiada frequência, e por reprimir
as suas próprias opiniões acerca de assuntos controversos,
só porque mantém a esperança de receber a prova
da minha bondade, quando eu morrer.
«Muito do desgosto com que antevejo a minha dissolução
final é devido à imaginária previsão do vampiresco
regozijo com que o meu polissilábico e loquaz parente
palrará acerca da santidade da família, dos verdadeiros
elos das relações pessoais e dos insondáveis trilhos da
Providência, tagarelando tudo isto sem deixar de pensar,
um só momento, nas vantagens materiais que lhe advirão
da aprovação do meu testamento.
«Tomando todas estas coisas em consideração e
compreendendo a necessidade de deixar alguma provisão
ao meu amado primo, em conformidade com as convenções
sociais e para não desapontar excessivamente o meu
dito amado primo porque, apesar de tudo, gastou muito
tempo a escrever-me longas e tedientas cartas, dou, lego
e beneficio o meu mencionado primo, Christopher Milbers,
com a soma de dez mil dólares ($10.000).»
Bertha virou a página e, antes de recomeçar a ler a
seguinte, observou os rostos dos ouvintes e disse para
Milbers:
- Você estava mesmo a pedir isto!
- É um ultraje! - protestou Milbers, com os lábios
brancos de indignação. - As últimas palavras de um
homem que se colocou sempre a si próprio acima de
qualquer crítica ou réplica, mostram-no desagradável e
cruel, mas, indubitavelmente...
Bertha Cool terminou a frase, quando ele se calou,
pensativo:
- ...indubitavelmente, dez mil «pacotes» são dez
mil «pacotes»!
- Uma mísera bagatela, para um homem com os
seus meios! - censurou Milbers. - É verdadeiramente
insultante!
Bertha Cool prosseguiu na leitura do testamento:
«Para minha fiel secretária, Josephine Dell, dez mil
dólares ($ 10 000). Para Nettie Cranning, minha dedicada
governanta; para sua filha Eva e para seu genro Paul Hanberry,
todo o resto de quanto possuo. Não quero que
Christopher Milbers tenha algo que interferir nas diligências
legais a efectuar junto do tribunal, pelo que nomeio
Nettie Cranning única executora das disposições testamentárias.
A fim de provar o que atrás destinei (com
caprichosa satisfação, já que esta distribuição postmortem me liberta dos deveres hipócritas deste mundo),
firmo com a minha assinatura e selo, nesta data de vinte
e cinco de Janeiro de mil novecentos e quarenta e dois
e na presença de duas testemunhas que chamei para
atestarem e legalizarem a minha assinatura e declararem
ser este o meu testamento, desde já certificando que ignoram
o conteúdo do mesmo.
(assinado) Harlow Milbers»
- Vou também ler isto - continuou Bertha Cool. -
É uma cláusula referente às testemunhas, redigida por
baixo do texto:
«O presente documento, consistindo numa página
anterior e nesta que foi executada na presença de cada
um de nós, aos vinte e cinco de Janeiro de mil novecentos
e quarenta e dois, por Harlow Milbers, sendo então
e ali declarado como seu testamento, vai ser por nós
assinado, a pedido do testador, como testemunhas, o que
fazemos, estando todos presentes, nesta mesma data de
vinte e cinco de Janeiro de mil novecentos e quarenta
e dois.
(assinado) Josephine Dell, (assinado) Paul Hanberry.»
O primeiro a quebrar o silêncio foi Paul Hanberry,
que exclamou:
- Que sorte bestial! O velho deixou-nos, a nós, a
propriedade! Porque raio, quando me pediu que assinasse
como testemunha, não fiz a mais pequena ideia do que
estava no testamento? Pensei que deixasse tudo ao
primo.
- Lembra-se da ocasião em que assinou esse testamento
como testemunha? - inquiriu Bertha.
- Claro que me lembro. Esqueci-me apenas de que
se tratava de um testamento. A coisa passou-se aqui,
na biblioteca, nesse domingo, à tarde. Ele mandara vir
Josephine, para ditar-lhe umas notas, e eu estava lá fora,
na rua, a lavar o carro, mesmo defronte da janela. Ela
chegou-se à janela e bateu nos vidros, fazendo-me sinal
para que entrasse. Quando aqui cheguei, o velho estava
sentado nessa mesa, empunhando uma caneta, e disse-me:
Paul, vou assinar o meu testamento e quero que
tu e Josephine o assinem também, como testemunhas, e
quero igualmente que se lembrem, no caso de alguém
perguntar-lhes, que não estou mais doido do que de
costume... ou qualquer coisa desse género. De qualquer
maneira, a ideia geral com que fiquei foi esta.
- Isto é, na verdade... A natureza deste documento
constitui um grande choque para mim! - confessou
Christopher Milbers. - Não consigo, de forma alguma,
imaginar Harlow, o meu bem-amado primo, adoptando
uma atitude destas! Contudo, mantém-se a situação de
que estávamos à procura de dez mil dólares que parece
terem desaparecido misteriosamente, em circunstâncias
altamente suspeitas.
- Um momento! - cortou Nettie Cranning subitamente. -
Não é ao senhor que compete dizer-nos isso.
Christopher Milbers sorriu com aquele tipo de sorriso
superior e desdenhoso de quem vai esmagar outro
mortal por meio de orgulhosa agilidade mental e
observou:
- Não fiz qualquer acusação específica, Mrs. Cranning.
O facto de a senhora parecer ressentir-se com os
meus comentários, indica claramente que, pelo menos,
na sua própria consciência...
Foi interrompido pelo toque de campainha da porta
exterior.
- Vai ver quem é - disse Mrs. Cranning para a
filha, que logo foi abrir.
Christopher Milbers lamentava-se, ao recordar os
termos do testamento.
- Nem quero crer! Foi deselegante! Foi injusto!
- Esqueça-se disso! - exortou Mrs. Cranning. -
O senhor ficou ainda com dez mil dólares e se pensa
que é uma ninharia, é porque é burro!
Paul riu-se aprovativamente mas, muito séria, Bertha
declarou:
- Continuam a faltar dez mil «pacotes».
Soaram vozes no átrio e Eva Hanberry entrou com
Josephine Dell.
- Olá a todos - saudou esta última, exultante. -
Imaginem que acabo de conseguir um emprego delicioso!
Vou trabalhar com um homem que é funcionário do
governo. Tem de voar por todo o país e vou viajar com
ele. É uma espécie de investigação sobre o trabalho.
Vamos para um sítio, demoramo-nos lá um ou dois meses
e, depois, voamos para outro sítio. Não acham isto a
coisa mais maravilhosa que me podia acontecer?
- Espere até ter ouvido todas as notícias - disse
Mrs. Cranning.
- Nem calcula! Vai receber algum dinheiro de
Mr. Milbers e aposto que não o esperava.
- O quê?!
- É assim mesmo! - confirmou Paul radiante. Lembra-se
de que havia um testamento que o patrão lhe
pediu que assinasse como testemunha?
- Oh! Refere-se àquela vez em que você estava a
lavar o carro e que eu o chamei da janela, para vir cá
dentro?
- Precisamente.
- É verdade. Era um testamento...! Tenho uma leve
ideia de que ele disse isso mesmo.
- Pode gritá-lo bem alto a toda a gente. Você foi contemplada
com dez mil dólares.
- Com quanto? - exclamou Josephine incredulamente.
- Dez mil dólares - confirmou Paul.
Bertha Cool meteu-lhe o documento debaixo do nariz
e inquiriu:
- É a sua assinatura, não é verdade?
- É sim, porquê?
- E este é o testamento que você assinou como testemunha?
- Sim.
Milbers interveio:
- Discutiremos isso mais tarde mas, entretanto,
continuemos a averiguar onde param os dez mil dólares
que o meu primo tinha consigo no momento da morte.
Quero saber o que lhes aconteceu.
- Um momento - cortou Paul, com um brilho matreiro
no olhar. - Você quer saber onde está essa
«massa», mas não tem nada que fazer barulho a esse
respeito. Está a falar como se tivesse algum direito a
esses dez mil dólares.
- Certamente que tenho! Sou primo dele.
- Pró diabo com o primo! Segundo o testamento,
você tem direito a dez mil dólares, ora somos nós que
iremos tratar disso. Não é de sua conta o que aconteceu
a essa «massa» e não se esqueça de que foi Mrs. Cranning
quem Mr. Milbers nomeou executora do testamento.
Asseguro-lhe que não vamos agora virar a casa de pernas
para o ar à procura desses dez mil «palhaços» que você
anda para aí a insinuar que roubámos. Faremos um inventário
de quanto cá se encontra, ordenadamente, e, se
acharmos a «massa», achámo-la e pronto! Se não dermos
com ela, a perda é nossa e não sua!
Christopher Milbers fitou-lhes, atónito, os rostos,
um a um, e a sua expressão reflectia crescente desapontamento.
- Você e a sua detective já fizeram aqui tudo
quanto tinham a fazer - continuou Paul Hanberry.-
É pois altura de «desampararem» a loja!
- Paul! - cortou Mrs. Cranning, censuradoramente.
- Não precisa de ser ordinário. De qualquer maneira,
naquilo que me diz respeito, Mr. Milbers já ouviu ler o
testamento e entendeu claramente: sou eu a executora.
- Esse testamento é ilegal - protestou Milbers,
desesperado. - Foi produzido sob influência estranha.
Rindo às gargalhadas, Paul Hanberry desafiou motejador:
- Experimente prová-lo, se for capaz.
- É uma falsificação! - acusou Milbers.
- Tenha cuidado com o que afirma, Mr. Milbers advertiu
Mrs. Cranning.
Josephine Dell interveio:
- Lamento, Mr. Milbers. Ignoro o que contém o
testamento, mas quanto ao documento, posso assegurar-lhe
que é absolutamente genuíno. Lembro-me de Mr. Milbers
nos ter chamado, em Janeiro; era um domingo e
Paul Hanberry estava a lavar o carro, do lado de fora da
biblioteca. Recorda-se desse dia, Paul? Eu ouvia nitidamente
o ruído da mangueira... do jacto de água batendo
a chapa metálica, mesmo por debaixo da janela, do lado
de fora desta sala. Mr. Milbers dirigiu-se à gaveta dos
papéis e tirou duas folhas. Disse-me que desejava que
eu assinasse um documento, como testemunha, e que
era necessária uma outra pessoa. Perguntei-lhe quem preferia
e respondeu-me que tanto se lhe dava. Então falei-lhe
de si, que estava na rua a lavar o carro, e ele mandou-me
bater no vidro da janela e lhe fizesse sinal para
que viesse ter connosco.
- Foi isso mesmo - confirmou Paul. - E quando
entrei, o velho declarou que queria fazer um testamento
e desejava que eu assinasse como testemunha. Não liguei
muita atenção à coisa porque... bem, sabe, como é...
nunca pensei que houvesse ali qualquer «cheta» para
mim.
Os olhos de Josephine fulgiram com súbita reminiscência
e declarou:
- Lembro-me até que você não lavara as mãos com
que estivera a mexer no automóvel e só as enxugara e
que, ao assinar, deixou uma ligeira marca de gordura no
papel.
Christopher Milbers agarrou no documento e
afirmou:
- Pois não está aqui qualquer marca de gordura!
Mrs. Cranning espreitou por cima do ombro dele e
fez-se um silêncio de desolada tensão.
- De qualquer forma - interveio Eva Hanberry,
uma marca de gordura não constitui nem anula um testamento
e pode dar-se o caso de Josephine estar enganada.
- Não! - contrariou Josephine firmemente. - Não
me interessa quem possa ficar prejudicado, mas tenho
de dizer a verdade. Estava no papel uma nódoa de gordura,
não de óleo negro, mas do que fica nas camurças
de limpeza e unta as mãos das pessoas, mesmo depois
de as terem enxugado num pano. Era uma nódoa quase
incolor...
- Não poderiam ter limpo essa nódoa, depois? objectou
Mrs. Cranning.
- Não - respondeu Josephine. - Eu própria tirei
um lenço de papel da minha bolsa e limpei a nódoa, mal
a vi, mas não consegui fazê-la desaparecer por completo.
- Nesse caso - sugeriu Mrs. Cranning-, ponham
o papel contra a luz. É a única maneira de verificarem se
havia ou não uma nódoa de gordura e se foi absorvida
ao fim de todo este tempo.
Bertha Cool pegou no documento, afastou a segunda
página, colocou-a contra a luz e distinguiu uma pequenina
nódoa de gordura.
- Ora aí está! - apontou Josephine Dell, aliviada.
- Já me sinto melhor, pois tinha a certeza de que a
nódoa existia.
- Bem! Vou dizer-lhes agora uma coisa - anunciou
Bertha. - Vou mandar vir um fotógrafo e fazer cópias
exactas de tudo quanto aqui está, na frente de todos
os presentes. É uma prova legal, e creio que ninguém se
opõe, já que Mr. Milbers tem direito a essa precaução.
- Pessoalmente - declarou Mrs. Cranning, com
uma dignidade subitamente adquirida, mas procurando
fazer a audiência acreditar que já nascera com ela e que
não se esforçava por parecer uma «senhora», mau grado
a sua relutante consciência - penso que é uma admirável
sugestão, absolutamente compatível.
- Quer dizer, «recomendável» - corrigiu Eva.
Mrs. Cranning virou-se para a filha, como se a sua
dignidade tivesse sido levemente arranhada por uma
impertinência, e confirmou com superior tolerância:
- Eu disse «compatível», minha querida.
Bertha Cool estivera a puxar pela cabeça e argumentou:
- Não sei se sabe, Mrs. Cranning, que as testemunhas
de um legado não podem ser contempladas por esse
mesmo legado.
Nettie Cranning endireitou-se bruscamente, como se
desse um salto, e anunciou:
- Não vamos agora ter ideias estreitas sobre o
assunto. Eva, Paul e eu tomaremos conta de tudo quanto
aqui existe e dividiremos as coisas da maneira que Harlow
Milbers determinou no seu testamento. Não vamos
perder tempo com uma data de técnicas legais. Amávamos
Harlow Milbers e faremos quanto estiver ao nosso
alcance para que as suas últimas vontades sejam cumpridas,
não é assim, Eva?
- Sim, mãe.
IX
Bertha Cool, dirigindo-se para o seu gabinete, fez
uma pausa para desabafar com Elsie Brand: ;
- «Metemos água!»
- Quer contar-me o que se passou? - animou Elsie,
afastando a cadeira da secretária.
- Não! - decidiu Bertha. - Não quero falar disso a
ninguém. Sou uma «tansa»! Estive metida num caso que
era uma autêntica baixela de prata e saí dele sem uma
colher de chumbo sequer! Toda a gente «abichou» qualquer
coisa, excepto a Bertha! Como me faz falta, aqui,
aquele pirata! Teria sabido tirar um trunfo daquele baralho
e sacar umas fichas para a Bertha.
- Veio um postal dele, no correio da tarde - anunciou
Elsie. - Está em São Francisco, onde espera permanecer
dois ou três dias.
- O quê? Donald Lam está em São Francisco?
- Sim.
- Vou meter-me num avião e falar com ele.
- Não lhe serviria de nada. O postal diz que não
pode ver ninguém, mas que recebe correio.
Bertha Cool avançou o queixo num gesto que denunciava
ter tomado súbita e irrevogável decisão.
- Vou escrever a esse camarãozinho inteligente.
Espero que saiba o que se poderá fazer neste caso. Vai
puxar pelos miolos e há-de ajudar-me. Pegue no seu
bloco, Elsie, pois vou escrever a esse bastardozinho
espertalhão, tintim por tintim, quanto se passou.
Passando para o seu gabinete particular, Bertha sentou-se
na cadeira giratória e advertiu Elsie Brand:
- Olhe que esta carta irá por avião, registada, com
entrega especial. Ponha urgente, no sobrescrito, pessoal
e particular.
O lápis de Elsie Brand começou a agitar-se sobre o
papel.
- Bem, vamos começar desta maneira - indicou
Bertha: - Querido Donald... foi tão bom termos notícias
suas e temos sentido tanto a sua falta! Bertha tem tentado
ir para a frente com o negócio e feito o melhor que
pode para você encontrar alguma coisa, quando a guerra
tiver acabado... Espere um momento, Elsie. Acho que não
devo dizer isso.
Elsie levantou os olhos do papel para consultar a
expressão de Bertha.
- Na! - comentou esta. - Isso vai dar-lhe uma certa
superioridade «oficial» sobre mim.
- Mas não quer que ele volte para a firma?
- Como posso eu adivinhar se ele volta, diabos o
levem! - resmungou Bertha irritadamente. - O fim da
guerra ainda pode levar muito tempo. Risque isso e
escreva antes assim: Donald adorado... Já que deixou
a Bertha desamparada, tem que arranjar-se de maneira
a ajudá-la a resolver um problema... Não, Elsie, não pode
ser assim. Isso soa como se eu não pudesse passar sem
ele. Corte, corte isso.
Durante alguns segundos Bertha manteve-se silenciosa
e pensativa. Depois, abruptamente decidiu-se:
- Escreve lá agora: Querido Donald... Bertha esteve
ocupadíssima todo o dia de hoje, mas sempre arranjou
algum tempo para escrever-lhe uma longa carta, pois sabe
quanto carinho precisam os rapazes que estão nas forças
armadas. Sentem-se isolados das pessoas que os amam
e gostam que estas lhes escrevam... Aqui, Elsie, faça um
parágrafo. Já basta de lamechice e vamos para diante...
Não há muito para contar-lhe a não ser que tenho continuado
activa e também não quero incomodá-lo com problemas,
visto você, decerto, já ter aí alguns com que se
preocupar. Apenas lhe vou referir um caso em que a
firma se ocupa actualmente e é deveras interessante.
Bertha parou uma vez mais, para pensar longamente
e, depois, recomeçou com um sorriso de satisfação nos
lábios:
- Ora aqui está a forma conveniente, Elsie. Tenho
oportunidade de contar-lhe o problema que me aflige, sem
me colocar numa posição subalterna de gratidão para
com ele e ele, por outro lado, não deixará de fazer-me
as sugestões de que careço, até aposto!
- Mas, suponha que ele não tem tempo para fazê-las!?
- admitiu Elsie.
- Bem, nesse caso, porei o preto no branco acerca
do que quero e ele não deixará de me mostrar uma saída.
Certamente que não vou dizê-lo desta maneira, mas sim
informá-lo do que se passa e lembrar-lhe que poderia
enviar-me telegramas com as sugestões que se lhe oferecerem
sobre o assunto de que continuarei a esclarecê-lo
por correspondência.
- Se a carta vai ser longa - observou Elsie, seria
melhor que, em vez de eu estenografá-la, a senhora ma
ditasse directamente para a máquina, isto se pretende
que siga ainda no correio desta noite.
- Tem de ir mesmo! - decidiu Bertha, enervada.--
Em último caso, mando essa danada carta por telegrama...
Não! Vai sair muito caro! Vamos para a máquina, Elsie, e
aqui tem uma fotocópia do documento que quero juntar.
Faça três cópias extras para o nosso arquivo.
X
O homem alto e bem vestido que falava calmamente,
num tom modelado de diplomado universitário, aproximou-se
da secretária de Elsie Brand.
A pasta que trazia na mão direita era de um modelo
elegante, de cabedal preto e metal brilhante, e a outra
mão que pousara sobre o canto da secretária parecia
macia, bem tratada, de unhas cuidadosamente manicuradas
e polidas.
- Mrs. Cool? - inquiriu com suave inflexão.
- Ainda não chegou.
O visitante olhou para o relógio de pulso, não para
saber as horas, mas para dar a entender a sua estranheza
por Bertha chegar tão tarde ao escritório.
- São nove e um quarto - comentou.
- Às vezes não vem antes das dez e meia - informou
Elsie.
- Francamente?
Elsie não respondeu e o homem declarou:
- Pertenço à Companhia Inter mutual de Indemnizações.
Creio que Mrs. Cool foi a pessoa que publicou no
jornal um anúncio no sentido de obter uma informação
testemunhal sobre um acidente de automóvel.
Elsie fitou-o nos olhos e respondeu:
- Não posso informá-lo acerca disso.
- Quer dizer que não sabe? - inquiriu, erguendo as
sobrancelhas.
- Quero dizer que não posso. Estou aqui para escrever
à máquina. Mrs. Cool tem a seu cargo a actividade
da firma e é ela quem dá as informações. Eu...
A porta abriu-se, de empurrão, e Bertha entrou no
escritório, pestanejando com a luz ofuscante da lâmpada
que iluminava o trabalho de Elsie.
- Teve já notícias de Donald? - perguntou.
Entretanto os seus olhos adaptaram-se à luz do
ambiente e notaram o visitante. Este avançou para Bertha
e saudou:
- Mrs. Bertha Cool, se bem presumo?
- Presume bem - confirmou Bertha. Examinou o
olhar lânguido do homem e, com desembaraçada eficiência,
convidou:
- Bem, diga lá que mais presume.
- Estava apenas a usar uma mera expressão coloquial -
justificou-se ele. - Venho da Companhia Intermutual
de Indemnizações.
- Como se chama?
- Mr. P. L. Fosdick - enunciou, rolando o nome na
língua, como se recitasse algo muito agradável. Com a
mão manicurada tirou da algibeira do casaco uma carteira,
de onde extraiu quase automaticamente um cartão-de-visita.
Num gesto lento, estendeu-o a Bertha Cool. Esta
pegou-lhe, examinou-o, passou o polegar sobre as letras
em relevo que lhe proporcionaram uma agradável análise
de nível financeiro e perguntou:
- Que deseja?
- Segundo creio, Mrs. Cool, tem estado a investigar
um caso de acidente e procurando uma testemunha, não
é verdade? A minha Companhia tem, como é natural, o
seu ponto de vista próprio, no que se refere a esse facto.
- Que facto?
- Julga poder deduzir que a senhora está preparando
um processo de pedido de indemnização.
- E depois? - perguntou Bertha, beligerantemente,
com a sua quadrangular personalidade contrastando com
o suave e paternal esplendor da do visitante. - Que há
de errado nisso? Tenho o direito de preparar os processos
que entender, não?
- Sim, certamente, Mrs. Cool. Por favor, não me
entenda mal. Não será necessário qualquer desentendimento.
Tornava-se evidente que Bertha se recusava a convidar
o homem a entrar no seu gabinete particular. Manteve-se-lhe
na frente, perscrutando-o com olhos críticos.
A porta do corredor abriu-se e fechou-se e Elsie fitou
Bertha significativamente. Bertha não se virou logo e o
homem, num tom que pretendia ser impressivo, esclareceu :
- Pode não ser necessária qualquer acção judicial.
Pode ser possível que a Companhia Intermutual de
Indemnizações que segura o condutor envolvido no acidente,
aceite a responsabilidade do segurado, admitindo
a sua culpabilidade e estabelecendo um acordo adequado.
Elsie Brand fez novo sinal com os olhos e, como
Bertha se não virasse para a entrada, disse:
- Mrs. Cool está, neste momento, ocupada. Porque
não vem um pouco mais tarde?
Desta vez o seu tom de voz alertou Bertha Cool que
olhou por cima do ombro e viu, de relance, o tipo macilento
que respondera ao seu anúncio, oferecendo-se para
testemunha, mas recusando identificar-se, e que agora
escutava muito interessado o curso das conversações.
- Venha para o meu gabinete - convidou Bertha,
dirigindo-se ao representante da Companhia. Voltando-se
para a testemunha declarou:
- Lamento não poder atendê-lo hoje.
- Espero de qualquer maneira - decidiu este, com
um sorriso brejeiro e sentando-se confortavelmente numa
cadeira do escritório.
- Mas não terei nada a dizer-lhe.
- Não faz mal, eu espero.
- Estou definitivamente desinteressada.
- ’tá bem, Mrs. Cool! ’tá bem! - aquiesceu ele complacentemente.
Pegou numa revista que estava sobre a
mesinha da entrada do escritório, abriu-a ao calhar e pareceu
instantaneamente muito interessado na leitura.
Fosdick abriu a porta do gabinete de Bertha, com
uma galante mesura para esta passar, e, depois de
fechá-la, ficou de pé, junto da cadeira perto da janela,
aguardando que ela se sentasse. Bertha atirou-se para
o seu poiso giratório. Como não fosse convidado a imitá-la,
Fosdick, já irritado por achar-se de pé, começou a
expor, num tom forçadamente amável.
- Certamente compreende, Mrs. Cool, que quando
disse «ser possível» não queria significar com isso que
a Companhia Intermutual de Indemnizações admita, desde
já, culpabilidade do seu segurado. Estamos apenas iniciando
uma conversação preliminar com vista a um
futuro compromisso de desistência de reclamação. Suponho
que esteja a par de que há decisões do Supremo Tribunal
que anulam e invalidam um depoimento baseado
em certas circunstâncias de aliciamento de testemunhas.
Bertha não emitiu uma palavra. Fosdick prosseguiu,
agora mais melifluamente-, enquanto abria a pasta e dela
retirava um molho de impressos:
- Tentamos ser justos, Mrs. Cool. Muita gente pensa
que uma companhia de seguros é uma organização sem
coração e sem alma, cujo único escopo reside em colher
altos prémios, com a mão direita, e pagar compensações
tão módicas quanto possível, com a mão esquerda. Aparentemente,
a pessoa que Mrs. Cool representa, deve ter
atravessado a rua sem ter tomado as precauções necessárias.
É até muito provável que o tenha feito sem observar
a luz vermelha que interditava a passagem dos peões.
Em tribunal, natural será que a defesa alegue negligência
e, sendo assim, quase certo é que mantenha essa teoria,
com êxito. Contudo, é política da Companhia Intermutual
de Indemnizações procurar conceder o benefício da
dúvida a qualquer sinistrado num acidente cujo presumível
causador fosse um seu segurado, e também evitar
demandas judiciais, embora em tribunal, se a isso compelida,
seja forçada a defender os seus interesses, sem
dar quartel à parte contrária. Nestas circunstâncias e sem
considerar o facto evidente de que o acidente não teve
a menor gravidade e foi, por assim dizer, puramente nominal,
a companhia de seguros oferece-lhe, generosamente,
uma compensação de mil dólares, em dinheiro.
Fosdick tornou a meter os papéis na pasta, fechou-a,
ajeitou-a debaixo do braço e permaneceu em frente de
Bertha, na atitude de alguém que acabou de realizar um
belo gesto e aguarda que aplaudam.
- Mil dólares nada significam para uma pessoa que
sofreu o que sofreu a sinistrada - alegou Bertha.
- Mil dólares são uma muito generosa oferta de
compromisso.
Dirigiu-se para a porta, abriu-a, parou ainda na
entrada e acrescentou:
- Esta foi não só a nossa primeira proposta, mas
também a última. A Companhia Intermutual de Indemnizações
não acrescentará um só cêntimo que seja à oferta
apresentada.
Não conseguindo reprimir por mais tempo a irritação,
Bertha explodiu, erguendo-se e dirigindo-se também para
a porta do gabinete:
- Muito bem! Façam lá o raio de ofertas que quiserem,
mas escusam de empregar esse fraseado erudito.
Fechou-lhe a porta nas costas e voltou para a cadeira
giratória. Mal se sentara lembrou-se do outro visitante.
Tornou a levantar-se, abriu a porta do gabinete e viu a
do escritório fechar-se nesse mesmo momento. Notando
que a cadeira onde a testemunha se sentara se achava
agora vazia, perguntou:
- Onde está o «molengas»?
- Saiu logo a seguir ao representante dos seguros
e alcançou-o no corredor.
O rosto de Bertha sombreou-se ao abranger o significado
dessa escapada, fora do seu controle.
- Raios partam esse «alma desidratada». Já é a
segunda vez que me atraiçoa e corta as voltas, mas vou
travar-lhe as pernas. Vou já procurar Josephine Dell e
amarrá-la a um acordo, de forma que esse tipo não possa
mais meter o nariz no assunto.
Bertha agarrou no chapéu, enfiou-o firmemente na
cabeça, de cabelo cinzento-prateado, e ia justamente abrir
a porta de saída, quando um boletineiro fardado se preparava
para entrar com um espesso sobrescrito.
- Telegrama para Bertha Coll - anunciou o rapaz.
- Para ser pago no local de entrega.
- Quem remete? - inquiriu Bertha.
O mensageiro dos telégrafos leu no seu livro de
registos:
- Donald Lam, de São Francisco.
Bertha arrancou-lho das mãos, trocou um olhar animado
com Elsie Brand e disse para o rapaz:
- Ela paga-lhe - e acrescentou, para Elsie: - Dê-lhe
uns trocos da gaveta da escrivaninha.
Voltou para o gabinete, abriu a tarjeta-selo, ainda
húmida, do sobrescrito, retirou lá de dentro a mensagem
impressa e começou a ler:
-
«CARTA RECEBIDA TAMBÉM FOTOCÓPIA TESTAMENTO CHAMO
ATENÇÃO PARA NÍTIDA MUDANÇA ESTILO LITERÁRIO DE CERTO
TEXTO PRIMEIRA PÁGINA INDICANDO EXPRESSÃO PESSOA CULTA
DE SENTIMENTO INDIVIDUALISTA. SEGUNDA PÁGINA CONTÉM
ALGUMA MATÉRIA DUVIDOSA COPIADA DE QUALQUER OUTRO
DOCUMENTO, MAS LINGUAGEM USADA EM RELAÇÃO BENEFÍCIOS
PARA DELL, CRANNING E HANBERRYS DENUNCIA EXPRESSÃO
PESSOA ILETRADA TENTANDO DISPOR DA PROPRIEDADE E NOMEAR
EXECUTORA. ESTE TEXTO UNTUOSO SENTIMENTAL CONTRASTA
COM SECA INDIFERENÇA EGOÍSTICA PRIMEIRA PARTE
DOCUMENTO. INVESTIGAR PERITO ANALISTA TINTA DIFERENTE
NAS DUAS PARTES DO TESTAMENTO. MUITOS CUMPRIMENTOS
E FELICIDADES.
DONALD LAM»
Bertha ficou pasmada, contemplando o telegrama, e
murmurou:
- Macacos me mordam! Como este bastardozinho
tem miolos!
A porta abriu-se e Elsie perguntou:
- Tem resposta?
- Sim - disse Bertha com indignação. - Escreva já
a Lam e pergunte-lhe que disparate foi esse de gastar
dinheiro em «muitos cumprimentos e felicidades» e, ainda
por cima, de mandar o telegrama à cobrança no destinatário.
XI
Bertha Cool premiu o polegar sobre o botão da campainha
marcada com o nome de Josephine Dell, encostou
o ouvido ao auscultador e aproximou o queixo do bocal
telefónico, pronta a responder, mal ouvisse uma voz. Passados
alguns segundos repetiu a campainhada. Como não
obtivesse qualquer resultado, a sua expressão tornou-se
sombria.
Quando verificou que ninguém respondia à terceira
pressão do botão, resolveu tocar para o que indicava
Porteira. Momentos depois, uma mulher pesadona, cuja
carne não aparentava maior consistência do que um
pudim de gelatina sobre um prato raso, abriu a porta e
sorriu para Bertha.
- Temos alguns vagos, muito lindos - começou
logo a despejar de jacto, numa voz monótona e desagradavelmente
aguda. - Há um muito lindo, exposto ao lado
sul, e um outro apartamento virado para o nascente.
Ambos são cheios de sol e...
- Não quero nenhum apartamento - cortou Bertha.
- Vim à procura de Josephine Dell.
A cordialidade do rosto da porteira desapareceu subitamente,
como se tivesse retirado uma máscara.
- Está aí uma campainha com o nome dela - apontou
irritadamente. - Não sabe ler? Toque para lá.
- Já fiz. Não está em casa.
- Se assim é, não posso fazer nada - respondeu,
com enfado, virando as costas.
- Espere aí! - pediu Bertha. - Preciso de algumas
informações acerca dela.
- Que deseja saber?
- É realmente muito importante que eu entre em
contacto com ela, muito importante.
- Não posso fazer nada para isso.
- Não poderá informar-me onde ela se encontra
agora, ou para onde poderei comunicar com ela... ou
como deixar-lhe um recado? Não lhe deu qualquer
direcção?
- Nada. Vivia com uma outra rapariga, no mesmo
apartamento, Myrna Jackson, e se alguém sabe onde a
outra pára é essa Miss Jackson.
- Nesse caso, onde posso encontrar Myrna Jackson?
- Ela não está lá em cima?
- Ninguém responde à campainha.
- Então é porque também não está. Que quer que eu
lhe faça? Bom dia!
Quando a mulher balofa lhe fechou a porta na cara,
Bertha começou a escrever um recado nas costas de um
dos seus cartões-de-visita:
Miss Dell, entre em contacto comigo imediatamente.
É muito importante. Há dinheiro para si.
Meteu o cartão na caixa do correio e ia voltar para
trás, quando um táxi descreveu uma curva e parou junto
ao passeio. O homem sem nome que se oferecera para
testemunha do acidente saiu do carro e virou-se de costas
para Bertha, enquanto consultava o taxímetro, pagava
e recebia o troco.
Bertha avançou, de propósito, direita a ele e o motorista,
vendo-a aproximar-se e pensando tratar-se de uma
cliente para nova corrida, saiu de trás do volante, deu a
volta ao táxi e veio abrir-lhe a porta.
Bertha estava a três passos do passageiro, quando
este se virou e deu de cara com ela. Com evidente satisfação,
Bertha dirigiu-se-lhe:
- Já esperava que você viesse fazer isto mesmo.
Não lhe vai servir de nada. Cheguei primeiro.
O rosto do homem espelhava consternação.
- Para onde vamos? - impacientou-se o motorista.
Bertha entrou no táxi e indicou-lhe a direcção do
escritório. Depois, correndo o vidro, disse triunfalmente
ao molengão.
- Com que então pensava que me «passava a perna»,
hem?
- Quanto é que eles lhe ofereceram? - perguntou
ele.
- Não tem nada com isso!
- A senhora obteve esta morada por meu intermédio,
na condição de não vir a representar Miss Dell no
acidente - protestou o homem.
- Não tenho culpa de que uma companhia de seguros
decida procurar-me para atirar com o caso para o meu
regaço.
- Não acho isso correcto.
- Baboseiras! - exclamou Bertha. - Você pôs-se a
jogar com um pau de dois bicos.
- Eu tenho o direito de entrar no jogo.
O motorista do táxi virou-se para Bertha e perguntou:
- Quer seguir, ou ponho a contar aos minutos?
- Estou pronta a seguir -disse Bertha recostando-se
no assento.
- Alto lá! - reclamou o magricelas. - Este táxi é
meu. Fui eu que vim nele.
- Não é nada! - contrariou Bertha. - Você já pagou
a sua corrida.
- Conseguiu que ela assinasse um acordo? - inquiriu
o homem.
Bertha dirigiu-lhe uma careta de inteira satisfação.
E então o homem meteu-se subitamente no carro, sentou-se
ao lado de Bertha e declarou:
- Muito bem! Nesse caso, volto para trás. Mas hei-de
falar com ela. Vamos embora.
O motorista sentou-se ao volante e Bertha disse para
o intruso do lado:
- Não quero ter conversas consigo.
- Acho que deve ter.
- Eu não.
- A senhora nunca estaria metida nisto se não fosse
a minha ajuda.
- Baboseiras! Eu fiz-lhe uma proposta e você pensou
que podia ganhar mais, jogando por fora. Andou sempre a
esquivar-se como uma enguia, para ganhar a dois carrinhos.
- Eles ofereceram-lhe mil, não foi?
- -O quê é que o faz pensar isso?
- Foi o que o representante da companhia me disse.
-- Com que então, seguiu-o à saída do meu escritório
para tirar nabos do púcaro, hem?
- Desci, por acaso, no mesmo elevador.
- Já era de esperar.
- Veja lá, a senhora não me pode fazer uma coisa
dessas!
- Porque não?
- Se jogar como deve ser, é capaz de arrancar mais
de mil. Aposto como conseguiria dois mil e quinhentos,
dentro de dez dias.
- Mil bastam-me e bastam à minha cliente - respondeu
Bertha. - Vendo bem as coisas, mil «palhaços»
por uma apalpadela de um guarda-lamas não são para
desprezar.
- Mas ela poderia receber muito mais do que isso.
Eu vi tudo quanto se passou.
- Que falta grave cometeu ele?
- Isso é comigo e a senhora não me leva assim. Ela
tem direito a uma maior indemnização. Ficou muito
contusa.
- Quem lhe disse isso?
- A parceira do quarto.
- Paciência. O acordo está feito e você já não tem
nada com que apoquentar-se.
- Acho que tenho o direito de ganhar alguma coisa.
A senhora não ficaria muito prejudicada se me desse uma
fatia de cem dólares do bolo.
- Corte-a você, se for capaz.
- Ainda posso tentar.
- Bem, vou dizer-lhe o que farei - esclareceu
Bertha. - Far-lhe-ei exactamente a mesma proposta que
lhe fiz no princípio. Dou-lhe vinte e cinco dólares e você
esquece todo o negócio e some-se da paisagem.
- O. K.! - decidiu ele contemporizando e recostando-se
também no assento. - É o que se chama ladroeira,
mas sempre é um acordo.
Bertha Cool entrou com ele no escritório e disse para
Elsie Brand:
- Elsie, faça um recibo para este homem assinar:
vinte e cinco dólares, total absoluto, livre de quaisquer
reclamações e de futuras pretensões resultantes de contingências
de ulterior desenvolvimento do caso. Siga o
formulário que consta do recibo que Donald Lam redigiu
para aquele homem assinar no caso que encerrámos, há
alguns meses atrás.
Elsie Brand meteu um papel na máquina, ajustou o
químico ao de cópia e perguntou:
- Em que nome dirijo?
- Sei lá - disse Bertha voltando-se para o homem.
- Como se chama?
- Jerry Bollman.
- Sente-se - convidou Bertha. - Vou buscar-lhe os
vinte e cinco dólares.
Entrou no seu gabinete particular, abriu a gaveta da
secretária, tirou o cofre para fora, abriu-o, retirou vinte
e cinco dólares, mas esperou que Elsie parasse de matraquear
na máquina. Então levantou-se, voltou para o
escritório de entrada, pegou no recibo que Elsie lhe estendeu
e leu-o; pô-lo na frente de Jerry Bollman e disse:
- Aí tem. Assine aqui.
Ele leu o recibo e exclamou:
- Meu Deus! É como se assinasse a venda da minha
alma ao Diabo!
- Mais do que isso - observou Bertha, trocista. -
O Diabo não lhe dava vinte e cinco «pacotes».
- Está convencida de que é uma espertalhona danada,
não está? - criticou ele, com uma careta maliciosa,
pegando na caneta que Bertha lhe estendia. Assinou o
recibo, com um floreado, entregou-lho com a mão esquerda
e estendeu a direita para receber os vinte e cinco
dólares da mão dela.
Bertha estendeu o recibo a Elsie e ordenou:
- Arquive.
- Se trabalhasse para si, até falia! - comentou
Bollman olhando para Bertha.
- A maioria das testemunhas declaram o que sabem,
sem qualquer interesse, só porque são pessoas decentes
- retorquiu Bertha.
- Sei isso - disse Bollman azedamente, mas há
muito que me curei. Agora vou-me embora e comprar um
maço de cigarros. Os vinte e cinco dólares deram-me
para as despesas que fui forçado a fazer e para este maço
de tabaco! Talvez um dia possamos tornar a fazer negócio.
- Talvez! - respondeu Bertha, vendo-o sair, ligeiramente
desconfiada com o sorriso sarcástico do homem.
Depois, virando-se para Elsie, desabafou:
- Graças a Deus, o tipo não quis dar apertos de
mãos! Agora, ligue para a residência de Harlow Milbers
e pergunte por Mrs. Nettie Cranning. Diga-lhe que Bertha
Cool quer falar-lhe ao telefone e passe-me a ligação para
o gabinete, quando a apanhar.
Foi para o gabinete, sentou-se, enfiou um cigarro na
boquilha de marfim trabalhado e, quando o besouro do
telefone interno soou, levantou o auscultador e saudou:
- Olá, Mrs. Cranning!
- Olá, Mrs. Cool.
Imediatamente Bertha pareceu irradiar cordialidade:
- Como está a senhora, Mrs. Cranning? Estou muito
incomodada por vir aborrecê-la, mas gostava de entrar
em contacto com Miss Dell imediatamente. Pensei que
estivesse aí. Espero não a ter desviado dos seus afazeres...
- De maneira nenhuma - respondeu Mrs. Cranning
com idêntica cordialidade. - Acontece que ela esteve
aqui até há coisa de meia hora. Um homem telefonou-lhe
pedindo-lhe para se encontrar com ela. Não consegui
perceber quem ele era, mas sei que se tratava de qualquer
coisa de muito urgente, acerca de um acidente de automóvel.
- Um homem?
- Sim.
Bertha Cool franziu o sobrolho e insistiu:
-Não ouviu realmente mencionar-lhe o nome? :
- Não... mas espere... espere um momento... Ouve
lá, Eva, qual era o nome da pessoa que quis falar com
Josephine? Como foi isso? O. K., obrigada. Mrs. Cool está
interessada em saber - virando-se para o bocal, Mrs.
Cranning informou: - Parece que Miss Dell anotou o
nome num papel... Ora aqui está o nome, Mrs. Cool.
Foi um tal Mr. Jerry Bollman. Josephine foi encontrar-se
com ele a qualquer lado.
- Muito obrigado - agradeceu Bertha, desligando o
telefone e correndo para a porta. A meio do gabinete compreendeu
a futilidade da corrida e abrandou.
- Que aconteceu? - interessou-se Elsie.
- Diabos o levem, o porco traidor do magrizela-«molengas»!
O tipo é tão patife que devia ter ganho a medalha
de ouro da patifaria! - barafustou Bertha.
- Que fez ele?
- O que fez? - respondeu Bertha chispando chamas
geladas do olhar. - Esse escroque investiu vinte e cinco
cêntimos num táxi, para chupar-me vinte e cinco «palhaços».
O malandro sabia onde eu tinha ido. Naturalmente
seguiu-me. Como o vi sair do táxi e rondar o ninho
da rapariga, pensei que ele andasse um degrau, atrás
de mim, quando o estupor andava mas era dois patamares
à frente.
- Não estou a perceber - confessou Elsie.
- Neste momento, o tipo está a obter a assinatura
de Josephine Dell e a talhar para si uma fatia de quinhentos
dólares. Pensei que o tinha ludibriado, dando a entender
que saía de casa de Josephine Dell e que ela já tinha
assinado um acordo comigo. Mas o grandessíssimo filho...
já devia saber que ela não estava no apartamento. Viu-me
ir para lá, fingiu deixar-se burlar por mim e chupou-me
a «massa». O grandessíssimo burlão!
XII
Os sensitivos ouvidos do cego detectaram os passos
de Bertha, no meio dos outros ruídos. Não virou a cabeça
na direcção dela, mas aflorou-lhe um sorriso aos lábios
e saudou:
- Olá! Estava desejando que passasse por aqui. Olhe
o que tenho para mostrar-lhe.
Abriu um saco e tirou para fora uma caixa-de-música,
de madeira, que manuseou com extremo cuidado. Abriu a
tampa e, com notável clareza e doçura de tom, a caixa-de-música
começou a tocar «Campânulas da Escócia».
O rosto do velho mostrava terna comoção.
- Eu tinha-lhe dito, certa vez, que gostava destas
velhas caixas-de-música, fora de moda, e que tivera, em
tempos, uma que tocava as «Campânulas da Escócia».
Aposto como lhe custou bastante dinheiro. Agora não é
fácil encontrarem-se estas coisas em boas condições.
Não falta uma única corda e sinto como a madeira é fina.
Não acha um encanto?
- Foi Josephine Dell quem lha mandou? - perguntou
Bertha Cool.
- Certamente. Foi um portador quem ma trouxe,
explicando ter recebido instruções para entregar-ma da
parte de uma pessoa amiga, mas eu descobri logo quem
era a pessoa amiga. E não foi tudo. Também me mandou
flores.
- Flores? - estranhou Bertha Cool.
- Sim.
Bertha ia a dizer qualquer coisa, mas calou-se.
- Reconheço - continuou o cego - que é de estranhar
que alguém mande flores a uma pessoa que não pode
vê-las, mas, de qualquer maneira, sempre posso gozar
o aroma. Penso que ela desejava mandar-me uma notazinha
e serviu-se das flores, para introduzi-la no ramo, e
não escreveu nada na caixa, porque esta é um objecto
dispendioso e não quis que eu me apoquentasse com o
que gastou por minha causa.
- Onde está a nota? - perguntou Bertha.
- Tenho-a aqui - tirou um cartão da algibeira e
estendeu-o a Bertha que leu:
«Querido Amigo,
Muito obrigado por ter pensado em mim e também
por ter feito despesas com Mrs. Cool para me encontrar.
Envio-lhe estas flores como pequenina lembrança do meu
apreço e amizade.»
A nota estava assinada por Josephine Dell.
Subitamente, Bertha Cool tomou uma decisão e pediu
ao cego.
- Desejava que me prestasse um favor.
- O que é?
- Que me deixasse ficar com esse cartão.
- Sabe, sempre é uma lembrança. Não posso lê-lo,
mas gostava de...
- Torno a dar-lho.
- Nesse caso está bem, mas devolva-mo logo que
possa. Pode mandá-lo para o «cantinho» onde vivo, na
Fairmead Avenue, 1672, se não se importa.
- Certamente - prometeu Bertha afavelmente. Esteja
descansado de que não me esquecerei.
Meteu o cartão na bolsa, despediu-se e apressou-se
a ir mostrá-lo a um perito caligráfico que conhecia.
- Note bem o que lhe digo - começou ela acauteladamente. -
Não quero que me comam por «tansa» e
não pretendo que você comece para aí a fazer uma data
de fotografias e um relatório com uma data de opiniões.
Desejo apenas que olhe para esta fotocópia de um testamento;
uma das testemunhas que o assinou chama-se
Josephine Dell. Aqui está uma outra assinatura com o
mesmo nome, neste cartão. Quero somente descobrir
se alguma dessas assinaturas foi falsificada. Já agora,
repare na primeira e segunda páginas do testamento.
Não lhe parecem escritas numa linguagem diferente uma
da outra?
O perito de caligrafia pegou nas fotocópias, como se
lhes tomasse o peso e depois examinou-as cuidadosamente.
Depois, comentou:
- Humm! Dactilografadas! Parece terem-no sido na
mesma máquina de escrever. Na assinatura nota-se um
espacejamento desusado e um método particular de traçar
o «D». O mesmo acontece no cartão. Se é uma falsificação,
foi muito perfeita. Gostaria de ver o original do testamento
para poder pronunciar-me com maior segurança,
porque, com uma fotocópia...
- Não posso arranjar o original - lamentou Bertha.
- Tem que trabalhar a partir disto.
- Está bem. Vá para o seu escritório que depois lhe
digo qualquer coisa. Será apenas uma opinião e, se tiver
que jurar, em tribunal...
- Não será preciso. Só desejo uma opinião que fica
entre nós.
- Então está bem.
- Venha ao meu escritório, dentro de uma hora.
- É cedo de mais.
- De qualquer maneira, telefone-me - pediu Bertha.
Foi para o escritório e uma hora depois atendeu o
telefone.
- Ambas as assinaturas foram feitas pelo mesmo
punho - informou o perito.
Bertha ficou pensativa.
- Está lá? - perguntou o perito estranhando o silêncio.
- Sim.
- Não a ouvia e pensei que tivesse desligado.
- Estou a pensar. Se esse testamento está O. K.,
fico numa «alhada»!
- Está O. K.! - confirmou o perito.
Bertha desligou e chamou Elsie Brand.
- Prepare-se para escrever uma carta para Donald
Lam. Vou relatar-lhe os mais pequenos pormenores do
que me está a acontecer. Há qualquer «trafulhice» em toda
esta «geringonça». Estão a chover notas de mil e eu, em
vez de estar a colhê-las num cesto de padeiro, já arranjei
um déficit de vinte e cinco «pacotes».
Tinha Bertha acabado de ditar a carta para Lam,
quando Christopher Milbers entrou no escritório.
- Olá! - saudou Bertha. - Queira entrar ali para
dentro. - E virando-se para Elsie, indicou: - Vai registado
por avião, com entrega especial.
Christopher Milbers encaixou-se na cadeira dos
clientes, juntou as pontas dos dedos e dirigiu-se a Bertha:
- Vim fazer contas.
- Quer dizer que acabaram as complicações? Fez
um acordo com eles?
Milbers arqueou as sobrancelhas.
- Acordo? Acerca de quê?
- Do testamento.
- Não vejo que acordo possa ser feito quanto ao
que já me foi legado.
- Bem, porque não espera que a coisa vá até ao
fim? - perguntou Bertha.
- Mas - observou Milbers - isso não iria afectar
os seus honorários? Eu contratei-a para encontrar os dez
mil dólares e, em vez deles, achámos um testamento.
É o que se pode chamar uma saída pelo lado.
- Estou a ver - declarou Bertha friamente.
- Creio que a senhora gastou coisa de meio dia de
expediente - calculou Milbers, premindo as mãos de
maneira que os dedos ficaram arqueados para trás. -
Contudo, não quero deixar de ser generoso. Como não
deve querer dividir um dia ao meio, estou na disposição
de pagar um dia inteiro.
- Cem dólares - disse Bertha.
- Como cem dólares? Isso é ultrajante!
- Porquê?
- Porque as tarifas de qualquer outra firma de
similar actividade são muito mais módicas, de resto controladas
por tabelas legais... Nunca pensei numa quantia
dessas... Sempre considerei que a sua conta não excederia dez dólares e até tinha preparado uma pequena surpresa
para si.
Milbers tirou da algibeira um cheque passado a
Bertha Cool no valor de vinte e cinco dólares. Nas costas
do cheque fora dactilografado:
«Este cheque foi oferecido e aceite para total liquidação
de trabalhos prestados, estabelecendo-se que nenhuma
espécie de reclamação futura por parte do recepiente
ao pagador será válida, a partir da data de endosso
do presente cheque.»
- Feito por um advogado? - interessou-se Bertha.
- Bem - confessou Milbers. - Tive naturalmente
de consultar um advogado para proteger os meus interesses
em relação aos factos.
Bertha sabia quando estava apanhada Pegou no
cheque, examinou-o uma segunda vez e disse:
- Está bem, vou depositá-lo.
Milbers pôs-se de pé, estendeu a mão e despediu-se:
- Tive muito prazer em conhecê-la, Mrs. Cool.
Bertha apertou-lhe os dedos rechonchudos e disse-lhe
sarcasticamente:
- Melhor sorte, para a próxima vez.
Quando Milbers deixou o escritório, Bertha foi entregar
o cheque a Elsie Brand e ordenou-lhe:
- Ponha um pós-escrito na carta para Donald. Diga-lhe
que se isto continua assim, o maldito caso leva-me
a falência. Paguei vinte e cinco dólares e recebi vinte e
cinco dólares! Graças a Deus que recuperei o que empatara,
mas com que é que vivo?
XIII
-
VALLEJO, CALIFÓRNIA 1942 AGOSTO 29
(TELEGRAMA-CARTA PAGÁVEL DESTINATÁRIO)
BERTHA COOL, INVESTIGAÇÕES CONFIDENCIAIS
EDIFÍCIO DREXEL- LOS ÂNGELES CALIFÓRNIA
QUANTO MAIS PENSO NO CASO MAIS TENHO IMPRESSÃO POSSÍVEL
SIGNIFICADO NA MUDANÇA ESTILO LITERÁRIO DA PRIMEIRA
PARA SEGUNDA PÁGINAS TESTAMENTO. OUTRA COISA NÃO
COMPREENDO PORQUÊ COMPANHIA SEGUROS PROCUROU BERTHA
PARA OFERECER ACORDO TANTO MAIS QUE CONHECIA IDENTIDADE
SINISTRADA. VOCÊ NÃO É ADVOGADO NEM TEM ACORDO
COM SINISTRADA, ASSIM NÃO HA RAZÃO PARA COMPANHIA
NÃO PROCURAR DIRECTAMENTE SINISTRADA A NÃO SER DESCONHEÇA
IDENTIDADE VÍTIMA. CONDUTOR AUTOMÓVEL DEVE
TER INDICADO IDENTIDADE DELA. SE NÃO INDICOU HÁ QUALQUER
COMPLICAÇÃO MERECENDO INVESTIGAÇÃO. CUMPRIMENTOS.
-
DONALD LAM
XIV
Bertha Cool tinha a mão espalmada em cima do telegrama,
como se receasse que este lhe fugisse, quando
tocou o besouro para contactar com Elsie Brand.
- Escreva-me uma carta, Elsie:
«Querido Donald.
Você tem estado tanto tempo na Marinha que até já tem
a cabeça cheia de feijões. Bertha consultou o melhor
perito em grafologia da cidade para que comparasse as
assinaturas. São genuínas. Não lhe deve ter ocorrido que
a peculiar mudança de estilos se verifica na segunda página
que é, exactamente, a que contém as assinaturas.
Portanto, não pode haver nada errado nessa página, a não
ser que as três assinaturas tivessem sido falsificadas.»
Já escreveu isso, Elsie?
- Sim, Mrs. Cool.
- Bem, agora vou dar-lhe outra barrela: «Aparentemente,
a sua estada na Marinha deixou-lhe os miolos à
razão de juros. Não interessa nada à Bertha que a segunda
página do testamento tenha sido falsificada, ou não, e
não há a mais pequena hipótese de tê-lo sido. Admito que
Paul Hanberry me parece qualquer coisa que o gato fez
no tapete e não lhe confiaria sequer o meu caixote do
lixo, mas Josephine Dell é catita. Quando você estiver no
oceano e não tiver nada de importante em que pensar,
a não ser em bombardeiros, torpedos, submarinos e
minas, perceberá que o que o cliente de Bertha recebe
está na primeira página. Por isso a Bertha está-se nas
tintas para o que acontece na segunda. Se você persiste
na intenção de debitar-me o custo dos telegramas, ao
menos mande neles qualquer coisa de construtivo.
A Bertha sente a sua falta, mas a maneira como você falha
redondamente nos pontos mais importantes deste caso
tem o mesmo efeito que obteríamos se dissolvêssemos a
nossa sociedade. Obrigada, da mesma maneira, por ter
tentado ajudar. Bertha vai encarregar-se sozinha do caso.
Você agora concentre-se no inimigo. Felicidades.»
Bertha amarrotou o telegrama e atirou-o para o cesto
dos papéis. Depois, olhou para a bola amarrotada, tirou-a
novamente para fora, alisou o papel e disse para Elsie.
- Arquive lá isto. Foi a primeira vez que aquele
maroto falhou e se ficarmos com uma prova disso, por
escrito, não fará mal a ninguém.
Em seguida, acrescentou num desabafo:
- O. K.! É sábado e tivemos uma semana dos diabos!
Vamos fechar a loja até segunda-feira.
XV
-
VALLEJO, CALIFÓRNIA 1942 AGOSTO 30
(TELEGRAMA-CARTA, TARIFA NOCTURNA PAGÁVEL DESTINATÁRIO)
BERTHA COOL, INVESTIGAÇÕES CONFIDENCIAIS
EDIFÍCIO DREXEL -LOS ANGELES CALIFÓRNIA
ESCAPOU-LHE UM PONTO: A REGRA É RECÍPROCA: MUDANÇA
DE ESTILOS SÓ INDICA QUE AS DUAS PÁGINAS NÃO FORAM ESCRITAS
MESMA PESSOA. SE SEGUNDA PÁGINA TESTAMENTO
É GENUÍNA ENTÃO ALGUÉM SUBSTITUIU FRAUDULENTAMENTE
PRIMEIRA PÁGINA PROVAVELMENTE LEGADO BENEFICIANDO SEU
CLIENTE FOI ALTERADO. DUAS POSSIBILIDADES A CONSIDERAR.
-
UMA PRÓPRIO MILBERS CONTEMPLADO SÓ COM UM DÓLAR
FALSIFICOU PRIMEIRA PÁGINA TRANSFORMANDO EM DEZ MIL
DÓLARES. SEGUNDA ALTERNATIVA MILBERS CONTEMPLADO SOMA
MUITO SUPERIOR DEZ MIL DÓLARES NESSA PRIMEIRA PÁGINA.
-
NESTE CASO ALTERAÇÃO FEITA POR ALGUM DOS OUTROS HERDEIROS.
-
SE SEGUNDA PÁGINA É GENUÍNA ENTÃO PRIMEIRA PÁGINA
FOI FALSIFICADA POR PESSOA COM FÁCIL DOM DE EXPRESSÃO
LITERÁRIA. SUA DESCRIÇÃO CHRISTOPHER MILBERS
PREENCHE SUSPEITA. INVESTIGOU CAUSA DA MORTE HARLOW
MILBERS? INTERROGUE PESSOAS DESCREVAM SINTOMAS. VOTOS
MELHOR SUCESSO SOLUÇÃO CASO.
-
DONALD LAM
XVI
Walton A. Doolittle, advogado e procurador da justiça,
examinou a fotocópia que Bertha lhe entregara.
- Segundo julgo dever compreender, Mrs. Cool, a
senhora pretende conhecer qual o efeito legal de uma
falsificação parcial?
- Isso mesmo!
Doolittle pegou na primeira página do testamento.
- Suponhamos que esta primeira página é genuína começou
Ele, e que a segunda página, contendo as assinaturas
e a atestação da cláusula final, foi falsificada.
- Não há hipótese disso - disse Bertha.
- Compreendo, mas estou a considerar o problema
segundo a ordem natural. Agora, note que um testamento
pode ser revogado por qualquer um de vários motivos.
Um desses motivos reside na destruição do testamento,
por parte do testador. Mas tenha em mente, Mrs. Cool,
que se qualquer outra pessoa, não autorizada, destruiu
o testamento, este não fica invalidado. Vamos portanto
começar por admitir que a primeira página deste testamento
é genuína e que a segunda página consiste numa
falsificação. Por outras palavras, a primeira página foi
extraída de um testamento genuíno, cuja parte final foi
destruída, sendo-lhe junta uma segunda página, fraudulenta
e falsificada.
- O doutor lembra-me o tipo que queria coçar o
cotovelo com o polegar do mesmo lado - comentou
Bertha. - Farta-se de andar à roda, para dizer-me o que
eu já lhe disse com menos uma data de palavras.
- Quero apenas ficar certo de que a senhora compreende
a situação - explicou Doolittle.
- Compreendi. Pode andar para diante.
- Nessas circunstâncias - prosseguiu Doolittle-,
o testamento foi destruído, mas essa destruição não implica
revogação. Portanto, o inteiro conteúdo do testamento
poderia vir a ser provado por um testemunho oral,
independente, se se conseguisse encontrar esse testemunho.
Agora, se a primeira página do testamento é
genuína, isso constitui a melhor prova de que o seu
conteúdo também é genuíno, independentemente do que
consta na segunda página.
- Quer dizer que Christopher Milbers recebe dez
«das grandes», não é assim?
- Exactamente.
- Muito bem! Vamos ao que interessa. Suponhamos
que a primeira página foi falsificada, que é o mais provável.
- Nessas circunstâncias, é aplicável a mesma regra
da lei. A destruição de uma parte do testamento não
implica uma revogação parcial. O conteúdo da primeira
página do testamento poderia ser provado por um testemunho independente, aquilo a que chamamos, juridicamente,
testemunho oral.
- Sendo assim, se na primeira página de testamento
estivessem cem mil dólares em vez de dez mil dólares,
Christopher Milbers teria direito a recebê-los? - inquiriu
Bertha.
- Sim, se pudesse provar que era esse o montante
do legado no testamento genuíno.
- Suponhamos que podemos provar que a primeira
página do testamento foi falsificada, mas nos é impossível
provar quanto estava na primeira página original
e genuína? - considerou Bertha.
- Nessas circunstâncias, segundo a minha opinião
pessoal, todo o testamento teria de ser anulado, já que o
tribunal não disporia de meios para determinar a percentagem
da propriedade do testador a distribuir pelos restantes
contemplados pela cláusula final.
- E se o testamento for anulado, que acontece?
- Nessas circunstâncias, admitindo que não existem
quaisquer provas testemunhais do conteúdo do testamento
original e genuíno, o efeito seria o mesmo que se
verificaria se Mr. Harlow Milbers tivesse falecido sem
testamento.
- Dessa maneira, Christopher Milbers receberia toda
a propriedade, excepto os dez mil dólares legados a Miss
Josephine Dell, não é verdade?
- Se ele é o único parente vivo e, portanto, o único
herdeiro perante a lei, sim.
- E Nettie Cranning, Eva Hanberry e Paul Hanberry
não viam nem «cheta»?
- Pois não.
- Nem mesmo provando que a página, em que lhes é
legado todo o resto, é absolutamente genuína?
- Não é essa a questão, Mrs. Cool. Pela segunda
página do testamento, é-lhes legada não uma quantia específica,
mas, a cada um deles, um terço de um quantitativo
residuário, isto é, do que restou após a satisfação dos
anteriores legados. Um deles, nosso conhecido, contemplando
Miss Dell, é de dez mil dólares, mas o outro é
desconhecido, em virtude da falsificação da primeira página;
aquele que contemplaria Mr. Christopher Milbers.
Desta maneira, supondo que o que restava da propriedade
após a contemplação daqueles dois legados, se situava
na ordem de três milhões de dólares, a cada um dos restantes
contemplados caberia um milhão; se a cláusula
residuária se referisse a um resto de três dólares, receberiam
um dólar, cada um deles. Ora como o tribunal não
tem meios de averiguar quanto restava da propriedade,
após a distribuição dos primeiros legados (porque um
deles é desconhecido, por destruído o conteúdo da primeira
página), não pode atribuir os respectivos terços
constantes da cláusula residuária.
- É isso o que está na lei? - inquiriu Bertha Cool,
afastando a cadeira e pondo-se de pé.
- É essa a minha opinião, ou melhor, é essa a minha
interpretação da lei - satisfez Doolittle. - É um ponto
muito interessante que forneceria matéria para uma magnífica
discussão, em processo.
- Bem - disse Bertha -, é natural que saia alguma
coisa disto tudo. Se sair, farei o possível para que o
doutor fique com a causa, na defesa do meu cliente.
Doolittle esboçou um sorriso gelado e disse:
- São tantos os meus clientes que me fazem essa
promessa, Mrs. Cool, que achei preferível considerar o
assunto sob um outro ângulo: os meus honorários de consulta
são vinte e cinco dólares; entretanto, se, como
sugeriu, houver qualquer seguimento que implique a
minha intervenção, esses vinte e cinco dólares serão
creditados para desconto nos honorários adicionais.
Bertha Cool abriu a bolsa e resmungou:
- Parece que toda a gente recebe dinheiro, neste
caso, menos eu!
XVII
O quarteirão da Fairmead Avenue, onde se situava a
morada que o cego indicara a Bertha Cool como sendo o
seu «cantinho», estava ainda só parcialmente construído,
com terrenos vagos e muitas casas inacabadas e, por
isso, ainda não numeradas, e a ocultação de luzes imposta
pelo regime de guerra obrigava o motorista do
táxi a tactear o caminho, parando repetidas vezes para
consultar um roteiro que tirava da algibeira.
- O 1672 deve ser muito perto daqui - disse Bertha
com a cabeça fora da janela. - Algures do outro lado da
rua, um pouco para além do meio do quarteirão. Deixe-me
sair aqui. Posso achar melhor a casa a pé, do que a
darmos voltas e mais voltas.
- Olhe que é mais conveniente procurarmo-la por
este meio - aconselhou o motorista.
- E mais dispendioso - desfechou Bertha. - Deixe-me
sair.
O motorista encostou o carro ao passeio, em obras;
largou o volante e veio abrir a porta, para Bertha sair,
aconselhando:
- Veja onde põe os pés, «madama».
Bertha tirou da bolsa uma pequena lanterna eléctrica
cujo facho luminoso se projectava através de um filtro
vermelho-escuro.
- Não se preocupe, mas não se vá embora. Espere
por mim! - disse Bertha, acendendo a lanterna e caminhando
ao longo do quarteirão, pesquisando os números,
até que deu com o 1672; era um típico «bungalow», construído
antes da recente urbanização local e bastante recuado
em relação à avenida.
O caminho que conduzia ao bangaló fora cimentado
e a todo o seu comprimento via-se um carril de ferro, do
lado direito do piso, cuja superfície interior fora polida
pelo repetido atrito da bengala do cego, até à porta da
casa.
Bertha subiu os dois degraus de madeira que davam
acesso à entrada e premiu o botão da campainha. Ouviu
o timbre repercutir dentro de casa, com uma sonoridade
invulgarmente potente, como se tivesse sido colocado
fora da porta. Só então reparou que a porta estava parcialmente
aberta, bloqueada por calços de borracha, mantendo
uma fresta de cerca de três centímetros. Por isso a
campainha soara com tão forte intensidade.
- Olá! Está alguém em casa? - perguntou Bertha,
elevando a voz pela abertura da porta. Ninguém respondeu.
Decidiu-se a entrar e procurando um interruptor na
parede, manipulou-o. Nada aconteceu e o compartimento
permaneceu em total obscuridade. Então projectou o seu
facho de luz vermelha para o tecto e descobriu um candeeiro
de braços, com globos de vidro. Encontrou outro
interruptor eléctrico que deveria acender aquele, mas
tudo continuou imerso em absoluta escuridão. Bertha,
sentindo-se confusa, tornou a acender a pequena lanterna
portátil e subitamente compreendeu que um cego não
tem necessidade de luz eléctrica. Repetiu o chamamento:
- Sou Bertha Cool. Não está ninguém em casa?
Neste momento, ouviu um movimento qualquer dentro
da sala e uma sombra informe deslizou rapidamente
pelo tecto e desvaneceu-se na treva. Bertha saltou para
trás ao sentir algo agitar-se junto do rosto e, então, silenciosamente,
um objecto poisou-se-lhe no pescoço.
Com um sacão violento e um gesto rápido do braço,
Bertha sacudiu o estranho objecto. Com uma raiva resultante
do terror, soltou uma enorme praga. Abruptamente,
a coisa soltou-a. Por um momento, a luz irreal da sua
lâmpada de pilhas iluminou um morcego de asas abertas;
um morcego cuja sombra projectada na parede do quarto
atingia dimensões monstruosas, lembrando um animal
horrendo, ameaçador.
- Macacos me mordam! - rugiu Bertha, esbracejando
furiosamente contra o morcego que, escapando-se
sem dificuldade, se diluiu na sombra.
Decorreram alguns segundos, antes que o pulso de
Bertha readquirisse a normalidade e ela pudesse entregar-se
a um exame do aposento. Satisfeita por verificar
que o quarto estava vazio, virou-se para a entrada e avançou
guiada pelo foco da sua lanterna.
Foi então que notou uma mancha negra, alongada,
como que escorrendo pelo sobrado. À primeira vista pareceu-lhe
uma nódoa do sobrado, mas com um sobressalto
que lhe acelerou o coração, compreendeu tratar-se de
uma espécie de líquido, formando uma poça, depois
ziguezagueando, para formar outra poça. Seguindo o curso
da sinistra mancha, Bertha descobriu o cadáver.
Estava deitado de borco, com a face encostada ao
chão, estendido perto da janela do quarto. Aparentemente
o homem teria sido atingido a tiro, quando se achara à
entrada da porta, virado para o interior do compartimento.
Imediatamente Bertha compenetrou-se da possibilidade
de o assassino se achar escondido em qualquer outro
quarto, esperando não ser descoberto, mas preparado
para abrir caminho a tiro se a tal fosse forçado, para sair.
A sala achava-se completamente às escuras, apenas cortada
pelo estreito braço de luz proveniente da lanterna de
Bertha. Esta observou atentamente a área adjacente ao
facho, luminoso numa áurea vermelha de semiobscuridade, mas receou dirigir aquele para todos os recantos,
não fosse incidir no local onde o assassino pudesse estar
oculto, pronto a disparar.
Com competente determinação, Bertha encaminhou-se
cautelosamente para a porta. O seu pé esquerdo
tocou num arame, embateu num objecto duro e ouviu-o
mover-se, como que arrastado ligeiramente no chão. Com
a luz da lanterna incidindo sobre ele, identificou um tripé
sobre o qual haviam instalado uma espingarda a cujo
gatilho se prendia o arame. Os passos de Bertha iniciaram
uma retirada, depois uma fuga. Ecoaram rápida e pesadamente
no sobrado de madeira da entrada, atravessaram
a porta e martelaram o piso cimentado, enquanto o facho
luminoso da lanterna se agitava, para cima e para baixo,
conforme Bertha balançava os braços na corrida acelerada.
O motorista do táxi apagara os faróis. Ela sabia que
ele deveria estar, algures, ali perto, e continuou correndo,
olhando para trás por cima do ombro, e tropeçando, na
corrida ao longo do passeio em construção.
Subitamente, as luzes do táxi acenderam-se e o motorista,
fitando-a com evidente curiosidade, perguntou:
- Já acabou o que tinha a fazer?
Bertha não quis responder, nessa altura, com a voz
alterada. Enfiou-se no táxi, fechou a porta e tomou
fôlego. O homem ligou o motor, arrancou e descreveu
uma volta em U.
- Não, não! - contrariou Bertha. - Volte para trás.
O motorista virou-se para ela, mirando-a atentamente.
- Está ali... Tenho de ir à Polícia - explicou Bertha.
- Que aconteceu?
- Está um homem morto naquela casa.
A curiosidade que os olhos do motorista haviam
demonstrado transformou-se num frio assentimento, cheio
de suspeita, e fixou atentamente a lanterna que Bertha
ainda empunhava. Nervosamente, esta meteu-a na bolsa
e ordenou:
- Não se ponha assim a olhar para mim. Onde fica
a próxima esquadra?
O táxi começou a rodar rapidamente, mas Bertha
notou que o motorista continuava a examiná-la pelo espelho
retrovisor, mais interessado na emoção que se lhe
espalhava no rosto, do que na estrada.
Quando chegaram a uma mercearia, o homem não a
deixou ir sozinha ao telefone, seguindo-a e encostando-se
à cabina, enquanto ela falava para o Comando da Polícia.
Esperaram ali até ouvirem a sereia do carro que trouxe
ao local o sargento Sellers.
Bertha conhecia-o não só pela sua larga reputação,
mas também por anteriores encontros profissionais.
Sellers não apreciava particularmente os detectives privados
e sempre considerara a colaboração destes com
as maiores reservas. Um dia um colega definira o seu
cepticismo da seguinte maneira: «Sellers fica-se a olhar
para si, mascando o charuto, com os olhos a chamarem-na
mentirosa, mas com os ouvidos a ouvirem-na tagarelar,
e a senhora verá como ele não abre a boca a não ser para
levá-la a dar mais com a língua nos dentes.»
O sargento Sellers não se mostrava apressado em
dirigir-se ao local do crime, parecendo unicamente
ansioso em escutar a história de Bertha, até ao seu
ínfimo pormenor.
- Agora, vamos lá a ouvir isso por ordem - disse
ele, passando o charuto apagado, para um canto da boca.
-A senhora foi lá para falar com o cego?
- Sim.
- Conhecia-o?
- Sim.
- Ele tinha-a procurado para encomendar-lhe uma
investigação?
- Sim.
- E realizou-lha?
- Sim.
- Nesse caso, para que foi visitá-lo?
A pergunta apanhou Bertha desprevenida.
- Isso é um outro assunto.
- Que assunto?
- Queria trocar com ele algumas impressões sobre
o caso.
- Mas a senhora já concluíra a missão que ele lhe
confiara?
- Sim, de certo modo.
- Que quer dizer com isso? Que foi que não chegou
a fazer?
- Fiz tudo quanto ele queria, mas havia um assunto
para o qual eu precisava do seu auxílio. Um pormenor
que desejava que ele comprovasse.
- Estou a ver - comentou Sellers, com um sorriso
incrédulo. - A senhora queria que o cego a ajudasse a
resolver alguns dos seus próprios problemas, não é isso?
- Queria falar com o homem - disse Bertha, readquirindo
a sua costumeira beligerância, e não lhe vou
dizer, a si, acerca de quê lhe queria falar. Tratava-se de
um assunto completamente diferente e posso pôr as
mãos no fogo, como isso é verdade. As coisas estão
agora bem claras ou não?
- Claríssimas - declarou Sellers, como se acabasse
de decidir-se a considerar Bertha o suspeito principal
do caso. - E o cego está agora jazendo, morto, lá
dentro?
- Sim.
- De bruços, com a cara no chão, não foi o que
disse?
- Sim.
- Morto a tiro?
- Creio que sim.
- Não sabe?
- Não. Não fiz um exame postmortem ao corpo.
Estava lá uma pequena espingarda. Não parei para analisá-la.
Vi a coisa e pus-me a andar dali para fora.
- Acha que se arrastou ao longo da carpete, desde
o ponto onde foi atingido até ao ponto onde morreu?
- Sim.
- Que distância percorreu?
- Não sei. Três ou quatro metros.
- De rastos?
- Sim.
- E morreu enquanto rastejava?
- Pode ter morrido quando já estava parado - respondeu
Bertha irritada.
- Bem sei, mas achava-se na posição de arrastar-se,
com o estômago sobre a carpete, não é assim?
- Sim.
- Com a cara movendo-se de um lado para o outro?
- Penso que não. Tinha a face contra o chão e eu
só lhe via a parte detrás da cabeça.
- Nesse caso, como sabe que se trata do seu cego?
- Essa é boa! Pelo prédio. O cego vivia ali.
- Não virou o corpo para cima?
- Não. Nem lhe toquei. Não toquei em nada. Pus-me
a andar logo dali para fora e corri a chamá-lo a si.
- Está bem - disse Sellers. - Vamos lá. Tem um
táxi lá fora?
- Sim.
- É melhor vir comigo. Isso de saber que se trata
do cego, quando não lhe viu o rosto, ainda torna as coisas
mais interessantes.
O sargento Sellers virou-se para o motorista do táxi
e perguntou:
-Como se chama?
- Harry Simms.
- Que sabe você acerca disto?
- Não sei nada. Levei esta senhora à procura da
morada. Tinha um papel com o número da casa, mas não
sabia onde ficava. Por causa da ocultação de luzes, não se
via nada. Eu tenho um roteiro e descobri, mais ou menos,
em que zona do quarteirão o número deveria ficar. Estava
escuro «à brava» e ela pegou numa pequena lanterna de
pilhas. Quis dar a volta com o carro, mas ela disse-me
que preferia procurar a casa, pelo seu pé. Saiu do carro
e demorou-se... não sei bem... aí uns cinco a dez minutos.
- Não tinha o taxímetro a contar o tempo?
- Não. Foi muito cautelosa acerca disso. Eu disse-lhe
que não esperaria mais de quinze minutos, sem o
pôr a contar. Se se demorasse mais do que isso, teria
de pagar-me o tempo extra. Fazemos sempre isso, quando
temos a certeza de que o cliente volta para o centro da
cidade.
O sargento Sellers sacudiu a cabeça, concordante,
e inquiriu:
- Você ficou dentro do carro?
- Sim.
- Que ficou a fazer?
- Nada. Deixei-me estar sentado à espera.
- Tem telefonia?
- Sim.
- Ligou-a?
- Sim.
- Programa musical?
- Hum-hum!
- Poderia ter ouvido um tiro?
- Não creio que pudesse ouvi-lo. À distância a que
ela me mandou parar, não seria possível distinguir o som
de um tiro, com a música a tocar.
Como o interrogatório tendesse a implicar Bertha
cada vez mais no caso, esta protestou exasperada:
- Que raio estão para aí a dizer? Não houve tiro
algum.
- Como é que sabe?
- Tê-lo-ia ouvido se o houvessem dado.
Os olhos de Sellers poisaram-se nela, satisfeitos,
mas sem o mínimo sinal de simpatia. Uma ideia qualquer
transmitia-lhes secreta satisfação.
- É tudo quanto sabe? - perguntou ainda ao motorista
do táxi.
- É tudo.
- Chama-se Simms, hem?
- Sim, senhor.
- Deixe cá dar uma olhadela à sua licença.
O motorista mostrou-lha e Sellers anotou o número
do táxi, declarando:
- Não há razão para fazê-lo voltar outra vez. Pode
ir-se embora. A senhora, Mrs. Cool, vai no meu carro.
- A corrida são oitenta e cinco cêntimos - anunciou
o motorista.
- São o quê? - gritou Bertha, discordante. - Marcava
apenas setenta e cinco cêntimos, quando saí do
carro.
- Tempo de espera.
- Não sabia que mo estava a contar.
- Lá, não lho contei, mas sim, quando telefonou à
Polícia e ficou à espera que ela aparecesse.
- Pois não lho pago! - declarou Bertha indignadamente.
- Essa ideia de contar-me tempo sem me avisar...
- Que esperava que eu fizesse? Queria que ficasse
aqui, sem ganhar a minha vida, fora da circulação? Foi a
senhora quem me mandou parar e...
- Dê-lhe lá os oitenta e cinco - interveio o sargento
Sellers.
- Eu seja danada se lhos dou! - revoltou-se Bertha.
Tirou setenta e cinco cêntimos da bolsa, estendeu-os ao
motorista e declarou:
- É pegar ou largar! Comigo é assim!
O motorista hesitou por um momento, olhou para o
sargento da Polícia e pegou no dinheiro. Depois de o ter
bem guardado na algibeira, disse:
- Olhe, sargento. Ela esteve um bom bocado lá dentro
de casa. Quando saiu, vinha a correr, mas mesmo
assim demorou-se lá um grande pedaço.
- Obrigado - respondeu Sellers e, virando-se para
Bertha, convidou: - Vamos lá.
Ela sentou-se ao fundo do banco de trás, com Sellers
a seu lado. No da frente ia um outro homem, junto do
polícia motorista. Bertha não os conhecia e Sellers não
fez o menor esforço para apresentá-los.
O carro dirigiu-se para o bairro vizinho da costa,
toda mergulhada na obscuridade e o motorista apagou os
faróis, apenas utilizando os mínimos.
- Creio que é já no próximo cruzamento - indicou
Bertha.
O carro abrandou o andamento perto da curva e
Bertha anunciou:
- É ali.
Os homens saíram da viatura e Bertha perguntou:
- Eu não tenho que ir lá dentro, pois não?
- Não. Por enquanto não. Pode esperar aqui.
- Está bem, espero.
Abriu a bolsa, tirou a cigarreira e inquiriu:
- Vão demorar muito?
- Ainda não lho posso dizer - respondeu Sellers,
jovialmente. - Estarei sempre a vê-la, esteja descansada.
Os homens entraram na casa e um deles voltou outra
vez ao carro para buscar uma máquina fotográfica, um
tripé e projectores. Alguns minutos mais tarde regressou
resmungando:
- Não há sequer um cheiro de corrente naquela
maldita casa.
- O homem era cego - explicou Bertha. - Não precisava
de luzes.
- Mas preciso eu e venho buscar uma bateria do
carro.
- Porque não usa bolbos de «flash», de disparo automático?
- Por acaso trouxe-os comigo, mas não me servem
para o que quero. Não posso regular a luz como me interessa
e geralmente as imagens ficam cheias de reflexos.
Momentos depois, carregando com a bateria, resmungou:
- Que raio de vida a minha!
O sargento Sellers também voltou para o carro,
alguns minutos mais tarde.
- Bem, vamos entrar em alguns pormenores - propôs. -
Como é que o homem se chamava?
- Rodney Kosling.
- Sabe alguma coisa acerca da família dele?
- Não, e duvido que a tenha. Pareceu-me sempre
muito solitário, abandonado.
- Sabe há quanto tempo vivia aqui?
- Não.
- Vendo bem, não sabia grande coisa acerca dele?
- Pois não.
- Que queria ele que a senhora fizesse? Como sucedeu
entrar em contacto consigo?
- Pretendia que eu encontrasse uma pessoa.
- Quem?
- Uma pessoa a quem ele se afeiçoara.
- Mulher?
- Sim.
- Cega?
- Não.
- Nova?
- Sim.
-Achou-a?
- Sim.
- E então que aconteceu?
- Fiz-lhe um relatório.
- Quem era a mulher? ; !
Bertha ergueu os ombros.
- Não era parente dele? Não teriam qualquer espécie
de relações íntimas?
- Não.
- Está certa disso?
- Absolutamente.
- Não se daria o caso de ela estar relacionada com
ele e um outro homem ter aparecido na vida dela? Não
teria o cego pretendido averiguar esse caso?
- Não.
- Não está a dar uma grande ajuda, Mrs. Cool.
- Cos diabos - explodiu Bertha -, eu disse-lhe ter
encontrado o cadáver, não disse? Podia ter-me posto a
andar e deixá-lo a si, em palpos de aranha.
- Estou convencido que seria isso mesmo que teria
feito, se não fosse a presença do motorista. Foi isso que
a meteu na embrulhada. A senhora sabia, muito bem,
que depois de descoberto o cadáver, aquele tipo lembrar-se-ia
de que a trouxera até aqui e daria uma perfeita
descrição da sua pessoa.
Bertha manteve-se num silêncio cheio de dignidade.
- Nunca lhe passou pela cabeça que esse tipo era
um aldrabão? - perguntou Sellers.
- Que está para aí a dizer?
- Estou a falar do cego que nunca foi cego na vida
dele.
- Ah!, isso é que era! Tenho a certeza - afirmou
Bertha.
- Como é que tem?
- Por muitas coisas que me disse acerca das pessoas...
pelas deduções que fazia, a partir dos sons, das
vozes, dos passos... Só um cego poderia ter desenvolvido
as suas faculdades dessa maneira, e... olhe para a casa.
Não tinha luz.
- Com que então, também deu por isso?
- Certamente.
- Teve que utilizar uma lanterna, não é verdade?
- Sim.
- Mas não é seu costume andar a passear por casas
alheias, pois não?
- A porta estava aberta.
- Se está a falar-me verdade, pode dar graças a
Deus por o cego ter ido para casa, antes da senhora.
- Que quer dizer com isso?
- Alguém tinha montado ali uma armadilha e se
qualquer pessoa tivesse entrado em casa, antes do morto,
teria embatido no arame e puxado o gatilho de uma espingarda
de calibre quatrocentos e dez. A moral da história
é que as pessoas não devem entrar em casas alheias, só
porque encontram as portas abertas.
- Isso significa que alguém conseguiu «cozinhar»
um rico álibi - considerou Bertha, apreensiva.
- Bem, a senhora tem que ir lá dentro, comigo,
para fazer uma identificação. Que idade é que disse que
tinha o cego?
- Não disse, mas devia ter cerca de cinquenta e
cinco, sessenta anos.
- Não me pareceu tão velho como isso e, de resto,
os seus olhos parecem-me sãos.
- Há quanto tempo está morto?
- Há quanto tempo saiu a senhora daqui? - inquiriu
Sellers, com uma careta.
- Talvez há trinta ou quarenta minutos.
Sellers aquiesceu com um movimento de cabeça e
concordou:
- Bate certo. O tipo deve ter sido morto por volta
dessa mesma hora.
- Quer dizer que...
- Quero dizer - interrompeu Sellers - que o
homem foi morto há menos de uma hora. Se a senhora
esteve lá, como disse, há coisa de quarenta minutos, isso
significa que a armadilha liquidou-o, aproximadamente, na
altura em que a senhora lá esteve. Não se incomode a
dizer seja o que for, Mrs. Cool. Venha comigo lá dentro
e olhe para o cadáver.
Bertha seguiu-o até à casa. Aparentemente, os
homens da Polícia tinham acabado o seu trabalho de
investigação e estavam sentados num banco de madeira,
no extremo oposto da entrada. Bertha apercebeu-se da
sua localização pelos dois pontos móveis, luminosos,
dos cigarros.
- Venha por aqui - convidou o sargento Sellers,
acendendo uma potente lanterna de cinco pilhas que
transformava a escuridão numa esteira brilhante.
- Não é para aí - corrigiu, quando Bertha se virou
de costas. - Vá lá, deite uma olhadela.
O corpo fora colocado sobre uma mesa e parecia
ainda mais inanimado do que antes, na sua imobilidade
rigidamente exposta.
Sellers fez incidir o facho luminoso, primeiro sobre
as roupas do morto, depois sobre o orifício tinto de sangue,
por onde a bala penetrara e, finalmente, no rosto.
A surpresa que Bertha denunciou deu ao sargento a
resposta que já esperava.
- Não é Kosling, pois não? - certificou-se.
- Não.
A lâmpada de Sellers saltou do rosto do cadáver para
o não menos pálido de Bertha.
- Muito bem - prosseguiu Sellers, quem é ele?
Sem pensar, Bertha respondeu exaltada:
- É um patife, um sujo troca-tintas, que dava pelo
nome de Bollman. Teve a morte que merecia e você tire
essa maldita luz de cima de mim, ou parto-lhe a lanterna
na cabeça.
XVIII
Por um breve momento, o sargento Sellers hesitou
e depois, desculpou-se, afastando o foco luminoso:
- Desculpe. Com que então, chama-se Bollman?
- Sim.
- Há quanto tempo o conheceu?
- Mais ou menos há uma semana.
- Ah, sim? E há quanto tempo conhece Kosling?
- Há seis ou sete dias.
- Por outras palavras, a senhora conheceu ambos,
mais ou menos na mesma altura?
-Sim.
- Hoje é noite de domingo. Agora faça-me o favor
de pensar com cuidado. Conheceu ambos no domingo
passado?
Sim.
- Que espécie de relação há entre eles?
- Não há nenhuma.
- Mas conheceu Bollman devido ao assunto que
levou Kosling a contratá-la para uma investigação?
- Bem, apenas indirectamente.
- E Bollman tentou meter o nariz na coisa?
- Não nesse assunto, mas numa outra coisa.
- Em quê?
- Em nada que esteja relacionado com Kosling e em
nada que tenha contribuído para a sua morte.
- Em que foi?
-Ainda não estou certa se lho deva dizer.
- Penso que vai estar, Mrs. Cool. Que foi?
- Tratou-se de um acidente de automóvel, em que
estou ainda a trabalhar, e não creio que os meus clientes
desejem que eu preste informações na presente altura.
Quaisquer declarações públicas seriam inconvenientes...
- Mas não está a prestá-las ao público; está a prestá-las
a mim.
- Pois é, mas acontece que os polícias têm de fazer
relatórios e os relatórios são publicados nos jornais.
- Isto é um caso de homicídio, Mrs. Cool.
- Bem sei, mas o assunto de que trato nada tem
a ver com o crime.
- Mas a senhora disse-me que ele era um «sujo
troca-tintas» e que «teve a morte que merecia», permitindo-me
deduzir que se tratava de um chantagista.
- Pois disse.
- O que a levou a dizer isso?
- Os métodos que empregava.
- Que tinham eles de especial?
- Tudo.
- Muito bem. Vamos lá para fora, conversar um
bocado no carro - propôs Sellers. - Foi este o endereço
que lhe deu Rodney Kosling?
- Sim.
- Há alguma coisa que lhe permita pensar que esse
tal Bollman também vivesse aqui?
- Não.
- Não sabe onde ele morava?
- Certamente que não - respondeu Bertha, impaciente.
- Porque me faz todas essas perguntas escusadas?
Não lhe viu já o bilhete de identidade? Não lhe viu
já a carta de condução? Não lhe viu já...
- Não, não vi e a questão é exactamente essa.
Alguém o revistou e lhe limpou das algibeiras todos os
documentos de identificação. Apenas lhe deixaram o
dinheiro que, aparentemente, não foi subtraído, embora
tivesse sido tirado da carteira e enfiado num bolso, apressadamente.
O que desapareceu foi a carteira. A senhora
não sabe mesmo nada acerca dessa carteira e desses
documentos escamoteados?
- Como quer que eu saiba?
- Não sei. O que sei é que o assassínio foi cometido
por meio de uma espingarda armadilhada, o que
indica que o assassino pretendia abater a sua vítima,
quando ele próprio estava afastado do local do crime,
forjando assim um álibi irrefutável, ou, pelo menos, colocando
uma data de pessoas em idênticas circunstâncias
de suspeição. E o que também não há dúvida é que
alguém, depois de o homem estar morto, foi fazer-lhe uma
limpeza aos documentos de que era portador, porque
não é de crer que a vítima, antes de ser assassinada por
uma armadilha, tivesse tido o cuidado de deitar fora a
sua documentação. E acontece ainda que, entre a morte
do homem e o momento em que o seu corpo foi revistado,
não pôde decorrer muito tempo. Ora a senhora
reconhece que esteve aqui pouco tempo depois do crime.
Portanto, tenho de perguntar-lhe se sabe alguma coisa
acerca do que se achava nas algibeiras do morto.
- Não, não sei.
- Bem, vamos então lá para o automóvel - tornou
a propor o sargento Sellers. - Venham daí, rapazes. Charlie,
você pode ficar por aqui, a tomar conta do local, da
maneira do costume: ninguém poderá aproximar-se, antes
de a rapaziada das impressões digitais ter terminado o
seu trabalho; depois deixe a malta dos jornais meter
o nariz, sem mexer em nada, e, a seguir, mande remover o
cadáver. Muito bem, Mrs. Cool, venha connosco.
Durante o percurso, Bertha Cool respondeu às perguntas
de Sellers, quer por monossílabos, quer com um
determinado mutismo. Recusou-se teimosamente a fornecer
qualquer informação acerca das suas relações com
Jerry Bollman, nem do motivo que a levara a caracterizá-lo
como chantagista.
Finalmente, o sargento Sellers desistiu e declarou:
- Bem, Mrs. Cool, eu não posso forçá-la a responder
às minhas perguntas, mas um grande júri terá poderes
para fazê-lo.
- Não, não tem. Eu tenho o direito de guardar sigilo,
quanto a certas informações de natureza confidencial.
- Não me parece, da maneira como encaro este caso.
- Eu também estou a trabalhar num caso. Dirijo
uma agência de detectives. As pessoas confiam-me certos
problemas que, se quisessem confiar aos tribunais,
iriam logo badalar à esquadra de Polícia mais próxima justificou
Bertha.
- Se a senhora pensa em prosseguir com a sua
actividade, no futuro, não se esqueça de que, por um
lado, a Polícia pode ser de grande ajuda para uma agência
de detectives privados e que, por outro lado, sem essa
ajuda, pode acontecer que a agência não consiga fazer
nem mais um chavo.
- Eu disse-lhe absolutamente tudo quanto sabia e
que podia ajudá-lo a esclarecer o caso. As coisas de que
guardei sigilo são confidenciais e não têm nada a ver
com o crime.
- Eu preferia que tivesse respondido a todas as
minhas perguntas e me deixasse, a mim, ser o juiz
daquilo que é pertinente e relativo ao homicídio, porque
é de assassínio que se trata, Mrs. Cool.
- Eu sei, mas prefiro fazer as coisas à minha maneira.
O sargento Sellers recostou-se no assento e contemporizou:
- Muito bem, vamos levar Mrs. Cool a casa - disse
para o motorista. - Telefonarei para a esquadra a ordenar
uma busca geral, do cego, pela Rádio. Certamente
que ele poderá fazer alguma luz, quanto ao que aconteceu.
Bertha Cool manteve-se em discreto silêncio até que
o sargento Sellers a depositou à porta do apartamento.
- Boa noite - desejou ele.
- Boa noite - correspondeu Bertha, mas caminhou
com ostensiva hostilidade até à entrada do prédio. O carro
da Polícia arrancou.
Quase instantaneamente Bertha voltou para trás e
correu para a mercearia da esquina, mandou aí parar um
táxi, saltou para dentro dele e ordenou ao motorista:
- Leve-me aos Apartamentos Bluebonnet, na Figueiroa
Street. Não tenho tempo a perder.
Quando lá chegou premiu peremptoriamente o botão
da campainha de Josephine Dell e já começava a desesperar,
quando a voz da rapariga se fez ouvir.
- Quem é?
- Mrs. Cool.
- Lamento não poder atendê-la. Estou a fazer as
malas.
- Preciso de falar consigo.
- Arranjei um novo emprego e estou a fazer as
malas para tomar um avião ...
- Falarei consigo, enquanto faz as malas - insistiu
Bertha Cool. - Não lhe tomarei mais do que alguns
minutos.
- Nesse caso, suba.
O besouro da fechadura automática indicou a Bertha
que a porta se abrira. Subiu e foi encontrar Miss Dell no
meio de uma enorme confusão de roupas, gavetas abertas
e malas de viagem. Um malão, no meio do quarto,
estava já meio cheio e um saco de viagem, sobre a cama,
transbordava. Havia roupa interior e alguns vestidos espalhados
por toda a parte e uma caixa de cartão mostrava-se
atulhada de uma miscelânea de objectos e utensílios
para todos os fins.
Enfiada num pijama de seda azul, Josephine achava-se
no meio de toda aquela tralha.
- Olá! - saudou ela, mal viu Bertha. - Tenho de
emalar tudo isto, antes da meia-noite e não quero deixar
coisa alguma, pois vou largar o apartamento. Nunca pensei
o trabalho que isto dá. Vou encaixar as coisas de
qualquer maneira, tomar um duche e, depois, correr para
o aeroporto, para apanhar o avião da meia-noite. Não
quero parecer grosseira, mas se a senhora começar a
andar por aí, calculará o transtorno que me faz.
- Calculo como se sente mas não a incomodarei
mais do que um minuto.
Olhou em volta, à procura de uma cadeira vaga.
Josephine Dell percebeu o que ela queria, soltou uma
pequena gargalhada nervosa e, com um seco «Desculpe»,
correu a tirar uns casacos de cima da cadeira junto da
janela.
- Vou directa ao assunto - anunciou Bertha. - Gostaria
de receber quinhentos dólares, em dinheiro?
- Gostava de quê...? Mas, certamente.
- Posso arranjar-lhos.
- Como?
- Basta-lhe assinar um acordo comigo e...
- Oh, isso!
- O que é que isso tem de mal?
- É que a senhora já é a segunda pessoa que me
vem com isso - riu Miss Dell, constrangida.
- Quer dizer que já assinou um acordo?
- Não.
- Quem foi a primeira pessoa?
- Uma testemunha que assistiu ao acidente. Conseguiu
caçar-me para informar-me de que realmente a culpa
não fora minha e que eu poderia receber uma indemnização
da companhia. Explicou-me que, se eu assinasse um
contrato com ele, trataria de tudo, a suas expensas, e
dar-me-ia cinquenta por cento de quanto conseguisse
obter, o que não seria menos de quinhentos dólares. Pensei
que era, na verdade, uma oferta muito generosa.
Bertha permaneceu calada.
- Porém, sabe - prosseguiu Josephine Dell, eu
não podia aceitar a oferta. Simplesmente, não podia. Respondi-lhe
que tinha estado a pensar no assunto e que
chegara à conclusão de que houvera no acidente muita
culpa de minha parte, talvez mais ainda do que do homem
que guiava o automóvel. Ele esclareceu-me que não haveria
necessidade de entrar em pormenores dessa natureza,
pois o que a companhia queria era arrumar o assunto e
que tudo quanto eu teria a fazer seria limitar-me a cooperar...
e a meter o dinheiro na algibeira, tão fácil como
isto... - e Josephine deu um estalinho com os dedos.
- E não quis fazê-lo?
- Limitei-me a rir-me para ele. Disse-lhe que o
assunto estava fora de questão, porquanto, se o fizesse,
sentir-me-ia como se tivesse roubado aquele dinheiro; que
o homem que me tocara com o carro fora muito gentil
e que eu só gastara sete dólares com o médico.
- Conseguiu saber o nome do homem que conduzia
o automóvel?
- Não, não cheguei a saber. Nem sequer sei o
número da matrícula do carro. Fiquei tão contundida
e desnorteada naquele momento que...
A campainha da porta da rua começou a tocar e Josephine,
com um olhar de exasperação, comentou:
- Deve ser alguém à procura de Myrna Jackson.
- É a sua companheira de apartamento? - interessou-se
Bertha. - Eu gostava realmente de conhecê-la.
- E também uma data de pessoas.
- Onde é que ela pára?
- Só Deus o sabe! Não era o que se podia dizer
uma boa parceria, a nossa. Mr. Milbers era amigo dela
e sugeriu-me que poderíamos viver juntas, dividindo as
despesas a meias. Eu não estava muito inclinada a isso,
mas a senhora compreende como as coisas são, quando
é o patrão a fazer as sugestões. Bem, tentámos viver em
comum, mas ela é impossível de aturar. Deixei uma nota
para ela, ontem, informando-a de que a renda teria de
ser paga amanhã, isto é, segunda-feira. Disse-lhe que
tinha de fazer as malas para partir esta noite, e a senhora
calcula o que essa menina me respondeu?
- O quê? - perguntou Bertha, enquanto a campainha
continuava a tocar.
- Disse-me que tinha vindo cá, esta tarde, e que
se tinha mudado. Conseguiu operar a mudança em muito
pouco tempo, pois quase nada tinha que emalar, e deixou
por pagar uma conta de cinco dólares, da limpeza do
apartamento, sem entrar com a parte dela, e eu, na altura,
nem me lembrei disso.
Só então Josephine foi ao telefone da portaria e
inquiriu:
- Quem é? - e logo respondeu aborrecida. - Não.
Aqui fala a companheira do apartamento. Não sei onde
ela está. Mudou-se esta tarde. Exactamente. Eu também
me vou embora. Não, não posso ver ninguém agora. Não,
não posso falar consigo. Não tenho nada que ver com as
contas dela. Estou a fazer as malas, estou despida e tenho
de apanhar um avião à meia-noite. Não me interessa quão
importante isso é para si, nem quem o senhor é. Não sei
para onde foi, nem me interessa, e tenho mais que fazer
do que passar o dia a atender à porta, para falar às pessoas
que andam à sua procura.
Josephine Dell desligou o telefone da portaria e postou-se
no meio do quarto, com os braços caídos e uma
expressão desorientada.
- Não posso preocupar-me com as relações que ela
mantinha com agentes artísticos e muito menos com o
que fazia com Mr. Milbers, nem com quem lhe pagará,
agora, as contas. Somente me aborrece que tenha feito
de mim uma tola, durante todo o tempo que aqui viveu.
Há duas semanas, desapareceu o meu diário. Depois
tornou a aparecer, mas num sítio desabitual, debaixo de
uns lenços, quando eu já não pensava nele. Ora, ela era
a única pessoa que podia ter-lhe mexido. Sou capaz de
imaginar um certo tipo de rapariga que se interessa em
ler o diário de uma outra, às escondidas, mas não vi
quando o fez, nem onde o fez.
- Perguntou-lhe se fora ela?
- Não. Achei que a coisa já passara e que não podia
provar nada contra ela. Portanto decidira já mudar-me
para um outro apartamento, mais pequeno, onde pudesse
viver sozinha, afastada de problemas comuns.
Depois, mudando abruptamente de assunto, declarou:
- Só há uma coisa a fazer: acabar de emalar tudo
isto de qualquer maneira. Sinto-me doente e cansada.
Vamos a isto.
Pegou ao calhar numas roupas e meteu-as no malão.
- Quer que a ajude? - prontificou-se Bertha.
- Não - e segundos depois, agradeceu: - Obrigada -
mas a voz com que o fez significava que o melhor
que a visitante tinha a fazer para ajudá-la era deixá-la
sozinha e pôr-se a andar dali para fora.
- Que vai fazer acerca do testamento? Terá que dar
o seu testemunho.
- Oh, virei cá, quando for preciso. Disseram-me que
seria provável que tivesse que ir para os trópicos, o que
é diferente do que fazer uma excursão de fim-de-semana;
por isso levo o malão, já que deverei viver numa moradia,
mas ainda não sei como o transportarei, visto que grande
parte das viagens serão aéreas e será caríssimo transportá-lo
de avião. Mas é tão maravilhoso pensar que...
Bertha Cool, fitando Josephine, pensativamente,
interrompeu:
- Há uma coisa que poderia fazer por mim.
- O que é?
- Queria que me dissesse qualquer coisa acerca
da maneira como Harlow Milbers morreu.
- Foi de repente, embora já se sentisse mal, havia
dois ou três dias.
- Pode relatar-me mais qualquer coisa, acerca dos
sintomas?
- Certamente... porquê? Aquilo começou uma hora
depois de ter entrado no escritório. Sentiu uma grande
dor de cabeça e depois sentiu-se nauseado. Sugeri-lhe
que se deitasse num sofá, para ver se melhorava. Creio
que dormiu durante alguns minutos, mas depois sofreu
outra náusea que o acordou. Começou a queixar-se de
um terrível ardor na boca e na garganta e, então, aconselhei-o
a chamar o médico. Disse-me que o faria, mas
que preferia já estar em casa nesse momento. Por essa
razão, telefonei ao Dr. Clarge e disse-lhe que Mr. Milbers
se sentia muito mal e que ia de táxi para casa; pedi-lhe,
pois, que fosse vê-lo imediatamente.
- Acompanhou Mr. Milbers a casa?
Sim.
-Que aconteceu?
- Foi agoniadíssimo, no táxi, durante todo o percurso,
queixando-se do estômago e dos intestinos. Vomitou
e o motorista começou a protestar, convencido que
Mr. Milbers estivera a beber, para festejar qualquer
coisa. Quando chegou a casa, tivemos de ajudá-lo a andar
e a deitá-lo na cama.
-E depois, que aconteceu?
- Chegou o Dr. Clarge, que o examinou durante
cerca de meia hora e lhe deu uma injecção hipodérmica.
Mr. Milbers sentiu-se um pouco melhor, embora continuasse
a queixar-se do ardor na boca e na garganta.
Depois ficou modorrento. Por volta das quatro horas, o
Dr. Clarge regressou e deu-lhe outra hipodérmica, aconselhando
a presença de uma enfermeira do hospital, junto
do doente, para o caso de não sentir melhoras durante
a noite. Deu ainda algumas instruções e receitou medicamentos,
ficando de voltar a vê-lo, às nove horas da manhã
do dia seguinte.
- E depois?... Que sucedeu?
- Cerca de vinte minutos após o Dr. Clarge ter
saído, Mr. Milbers falecia.
- Quem estava no quarto, nesse momento? Também
lá estava?
- Não estava, porque subira ao andar de cima, a
fim de comer umas sanduíches e beber um copo de leite,
mas ficara tão enervada que quase não tomei nada. Foi
Mrs. Cranning quem ficou junto dele. Nessa altura ainda
pensávamos que iria restabelecer-se.
- Que fizeram depois dele morrer? Chamaram o Dr.
Clarge?
- Sim. Tornou a examiná-lo e declarou, como era
natural, que nada havia a fazer. Chamou o cangalheiro e
disse-nos para avisarmos Christopher Milbers, pelo que
lhe enviei um telegrama.
- E então?
- Então, com toda aquela excitação e a quantidade
de coisas a fazer, já era muito tarde quando saí e tive
ainda de voltar ao escritório, para fechar o cofre e as
portas. Sentia-me apoquentada e exausta e foi então que
me aconteceu ser apanhada pelo automóvel. Só tinha,
praticamente, no estômago, uma chávena de café que
tomara ao pequeno-almoço.
- Que disse o médico a respeito da causa da morte?
- Oh! A senhora sabe como são os médicos! Recitou
uma série de termos científicos e pareceu satisfeito
com as suas conclusões. Pessoalmente, não creio que
ele tivesse dado com a doença certa. Lembro-me das palavras
que empregou: perturbação gastroentérica, resultante
de qualquer coisa do fígado e de uma outra causa, cujo
nome terminava em «ite».
- Nefrite? - tentou precisar Bertha.
- Se quer que lhe diga, não sei ao certo. Era parecido
com isso, mas o que o doutor mencionou como causa
primária foi gastroenterite; o resto foi uma lengalenga
que não fazia sentido para mim e também não devia fazer
muito sentido para ele.
- Onde é que Mr. Milbers tomara o seu pequeno-almoço?
- insistiu Bertha.
Josephine Dell fitou-a, surpreendida.
- Porquê? Em casa dele, como habitualmente,
segundo suponho. Era para isso que lá tinha Mrs. Cranning
e Eva e, se mo perguntar, Mrs. Cool - acrescentou
Josephine, com um sorriso desaprovador, dir-lhe-ei
que, pelo preço que lhes pagava, deveriam tratá-lo nas
«palminhas», em vez de obrigá-lo a esperar pelas refeições.
Contudo, são coisas que me não dizem respeito e
já tudo acabou. Só me custa pensar que deixou quase
tudo o que tinha àquela gente.
- Sempre lhe deixou dez mil dólares - lembrou
Bertha.
- Se estava realmente na disposição de deixar a
herança, praticamente, a pessoas fora da família, creio
que eu tinha o direito de ser contemplada. Aturei-o muito
e mereci os dez mil dólares.
- Quanto tempo trabalhou para ele?
- Cerca de três anos.
- Quanto ganhava?
- Quinhentos dólares por ano! - respondeu Josephine
com algum azedume. - Parece uma compensação
muito generosa, não parece? Se a senhora pudesse fazer
uma ideia do que era trabalhar com ele... Bem, o que
lá vai, lá vai e... por favor, Mrs. Cool, vá-se agora embora
e deixe-me acabar de fazer as malas.
Bertha anunciou:
- Jerry Bollman morreu.
- Jerry Bollman? Aquele homem que fora testemunha
do acidente e que me propôs um acordo?... Bem declarou
Josephine Dell, fechando devagar o saco de
viagem e pegando nele gentilmente, uma coisa é certa.
Tenho de partir com um único par de sapatos! - Subitamente
virou-se para Bertha e inquiriu admirada: - Que
diabo disse há bocado?
- Que Jerry Bollman morreu.
Josephine sorriu.
- Creio que deve estar enganada, Mrs. Cool. Falei
com ele ontem à tarde e ainda me telefonou há coisa de
duas horas. Agora, deixe-me ver: se eu puser estes
sapatos...
- Assassinado - precisou Bertha, há coisa de
uma hora.
Primeiro Josephine deixou cair um sapato; depois o
outro também lhe escorregou das mãos, para o chão.
- Assassinado, há coisa de uma hora! Como aconteceu
isso?
- Não sei, mas ele ia falar com o seu amigo cego...
Isso não lhe diz qualquer coisa?
- Sim, efectivamente, eu disse a Mr. Bollman que
receava que a luz verde para peões tivesse mudado,
quando atravessei a rua, e ele afirmou-me que conhecia
uma testemunha que ouvira o som do embate, antes da
campainha do semáforo. Nunca pensara que o cego
pudesse servir de testemunha. Ele é um «querido», tão
amável, tão terno! Sabe?, mandei-lhe um pequeno presente.
Está certa de que Mr. Bollman foi assassinado?
- Sim. Foi morto quando ia visitar o cego.
- Mas está absolutamente certa, Mrs. Cool, de que
foi assassínio?
- Certíssima. Fui eu quem descobriu o cadáver.
- Já sabem quem o matou?... Já o apanharam?
- Ainda não. Andam à procura do cego.
- Que estupidez! Ele não seria capaz de fazer mal
a uma mosca!
- É o que penso.
- Como lhe aconteceu descobrir o corpo?
- Fui até lá para falar com o cego.
- Gosta dele, não gosta?
- Sim.
- Também eu. Acho que é um indivíduo maravilhoso.
Quando o vir, quero falar-lhe de Myrna Jackson, porque
a vi a tagarelar com ele, na semana passada. Realmente
é estranho eu saber tão pouco acerca da vida dela, além
das suas aspirações a actriz. Quanto a esse Bollman, a
senhora não acha...? Sei que não fica bem falarmos dele,
agora que está morto... mas não acha que...?
- O diabo me leve, se não acho! Não me interessa
nada que tenha morrido. Era um patife!
- Meu Deus! O céu é testemunha de que tenho de
acabar de fazer as malas. Desculpe, Mrs. Cool, mas já
lhe disse o que sinto acerca do acidente e não lhe vale
de nada estar aqui, até à meia-noite, pois não mudarei
de opinião.
Lenta e relutantemente, Bertha pôs-se de pé e caminhou
para a porta.
- Boa noite e muita sorte no seu novo emprego.
- Muito obrigada, Mrs. Cool. Boa noite e boa sorte.
- E se pensas que eu não era capaz de arrancar uma
carrada de «massa», daquela «panada» que levaste, és
uma «tansa»! - resmungou Bertha, ressentida quando já
ia a meio do corredor.
XIX
Um táxi conduziu Bertha à residência do Dr. Howard
P. Rindger. Tocou à porta e, quando o próprio médico lha
abriu, disse:
- Espero que ainda se lembre de mim, doutor. Eu
sou...
- Oh, sim, Mrs. Cool... das Investigações. Tenha a
bondade de entrar.
- Desejava consultá-lo, doutor, profissionalmente.
Ele fitou-a com um ar astuto e perguntou:
- Sente-se rija? Parece sã como um pêro.
- Oh, estou catita! Unicamente pretendo que me dê
uma opinião profissional.
- Está bem, venha por aqui. Tenho um pequeno consultório
cá em casa, para tratamentos de emergência.
Alguns dos meus pacientes vêm à noite. Agora, sente-se
e diga-me em que posso ser-lhe útil.
- Lamento vir importuná-lo em sua casa, mas trata-se
de um assunto verdadeiramente importante.
- Não me incomoda nada. Aos domingos, fico sempre
acordado até tarde a ler. Vá lá, diga-me o que a
preocupa.
- Preciso de descobrir qualquer coisa acerca de um
veneno.
- Que quer saber?
- Há algum veneno que faça efeito, digamos, uma
hora ou duas depois do pequeno-almoço, se nele foi ingerido,
causando enjoo e ardor na garganta e resultando em
colapso que se mantenha até sobrevir a morte?
- A que horas morreu a vítima?
- Por volta das quatro da tarde.
O Dr. Rindger abriu a porta envidraçada de uma
estante e inquiriu:
- Cãibras nas barrigas das pernas?
- Não sei dizer.
- Diarreia?
- Sim, provavelmente, mas não lho posso dizer
positivamente.
- Náusea persistente até ao momento da morte?
- Sim, intervalada.
- Fizeram-lhe algum tratamento?
- Sim: injecções hipodérmicas.
- Cólicas estomacais e intestinais?
- Sim. Queixava-se muito disso.
- Tez acinzentada? Transpiração?
- Pelo que sei dele, devia ter sempre a pele
cinzenta!
- Ansiedade? Depressão?
- Não sei.
O Dr. Rindger correu a ponta dos dedos ao longo de
uma prateleira da estante, parou sobre uma lombada
encadernada e extraiu um livro intitulado Medicina
Forense. Abriu-o e, depois de ler algumas páginas,
fechou-o e pô-lo de lado.
- Isto é um assunto só entre nós dois, ou vou ser
citado numa publicação oficial?
- É só entre os dois. Ninguém o vai citar.
- Envenenamento por arsénico - respondeu o médico.
- São esses os sintomas?
- É um caso típico. O ardor da garganta e as cólicas
estomacais e do abdómen superior são peculiares desse tipo de envenenamento. Se quiser ter a certeza, verifique
a diarreia, as cãibras nas barrigas das pernas, o estado
de depressão e note a natureza do vomitus. No caso de
envenenamento por arsénico, este terá a aparência de
água de arroz.
Bertha levantou-se e, com evidente hesitação, perguntou:
- Quanto lhe devo?
- Não é nada, já que não vou ser citado literariamente,
nem chamado a depor como testemunha. Se for
esse o caso, terá de pagar alguma coisa - respondeu
sorrindo, matreiramente.
- Desculpe tê-lo incomodado a uma hora tão tardia
- disse Bertha, apertando-lhe a mão, mas tratava-se,
realmente, de um caso de emergência e eu tinha de obter
esta informação, hoje mesmo.
- Não tem importância. De qualquer maneira eu
ainda não estaria deitado. A propósito, como está o seu
sócio, Mrs. Cool... Como é que ele se chama?
- Donald Lam.
- É verdade, já me lembro. É um moço com muito
interesse. Parece possuir um notável discernimento.
Fiquei deveras impressionado com as suas conclusões
acerca de um caso de envenenamento por monóxido de
carbono. Eu conhecia pessoalmente ambas as partes
envolvidas no processo e uma delas era um indivíduo
muito proeminente nos círculos médicos.
- Lembro-me disso - disse Bertha.
- Que é feito dele?
- Está na Marinha.
- Isso é esplêndido! Mas suponho que lhe faz
alguma falta.
- Bem, eu cá me ia governando antes de ele trabalhar
comigo - respondeu Bertha acidamente, e cá
continuarei a governar-me sozinha.
- Mantêm a sociedade de pé?
- Estará à espera dele, até que volte. Raios! Espero
que nada lhe aconteça. É um bastardozinho muito inteligente.
- Tudo correrá bem - vaticinou o Dr. Rindger. Muito
boa noite, Mrs. Cool.
- Boa noite.
Bertha Cool regressou, preocupada, para o táxi.
- Para onde agora? - perguntou o motorista.
- Para o Metro Hotel - indicou Bertha enquanto
encaixava a sua rechonchuda figura no assento do carro.
- E, para o caso de você não ter dado por isso, já estou
a bordo. Levei algum tempo com a estiva, mas já embarquei.
Faça-se ao mar.
- Chegada ao Metro Hotel, Bertha Cool foi directamente
às cabinas telefónicas e perguntou para a recepção:
- Têm cá um tal Christopher Milbers hospedado?
- Sim «madama». Quarto trezentos e dezanove.
- Ligue para lá, se faz favor.
Momentos depois ouvia a voz ensonada de Milbers,
bocejando:
-Está lá? Sim! O que é?
- Descobri uma coisa importante para si - anunciou
Bertha. - Estou aí em cima dentro de um minuto.
- Quem é que fala?
- Bertha Cool - disse e desligou.
Atravessou deliberadamente o átrio, entrou no elevador
e ordenou:
- Terceiro andar.
O ascensorista olhou para ela inquiridoramente, na
disposição de perguntar-lhe se estava registada no hotel,
mas depois desinteressou-se. Com um ar de quem sabia
exactamente o que queria, Bertha saiu para o patamar,
localizou a porta 319, fez uma ligeira pausa e ia bater a
sua segunda pancada na porta, quando Milbers a abriu.
- Não repare - desculpou-se ele. - Estava na cama
há já uma hora e não estou correctamente vestido para
receber visitas.
Vestia um roupão de seda por cima do pijama e calçava
chinelas. Os seus olhos inchados de sono e o cabelo,
habitualmente muito bem esticado, para tapar a careca,
e agora esgadelhado e caído sobre uma orelha e pescoço,
davam-lhe um aspecto caricato.
- Não são horas para estarmos com rodeios -
começou Bertha -, nem para conversa fiada.
- Se me permite, Mrs. Cool, direi que considero a
sua opinião, neste caso, altamente pertinente.
- Vamos ao que interessa: o seu primo deixou uma
herança no valor de quanto?
- Desconheço o quantitativo total exacto, Mrs. Cool.
Isso interfere na minha situação actual?
- Sim.
- Eu avaliaria a fortuna de Harlow em cerca de um
milhão, ou talvez mais.
- E a si coube-lhe uma migalha de dez mil?
- Exactamente, tal como a senhora muito bem sabe,
e permita-me que lhe diga que essa notícia não justifica,
pela sua relevância, que me venha acordar a meio da
noite. Já tínhamos, infelizmente, conhecimento dela, em
anterior encontro.
- Estou apenas a avaliar o montante da propriedade
legada, antes de começar.
- A mim, o que me interessa, neste momento, não é
calcular quanto os outros se habilitam a receber, mas a
maneira como se combinaram para consegui-lo.
- Tanto eu como o senhor ignoramos como obtiveram
aquele testamento. Pessoalmente, não acredito que seu
primo tenha redigido tal coisa, de sua livre vontade. Parece
claramente ter sido forçado, de qualquer maneira
a escrever aquela segunda página, de forma a satisfazer
os interesses de outra pessoa, ou pessoas. Provavelmente
foi constrangido por qualquer espécie de chantagem.
- Isso dificilmente concorda com o testemunho de
Miss Josephine Dell e de Paul Hanberry.
- Depende do argumento que utilizaram contra ele
- observou Bertha. - A espécie de chantagem a que me
refiro exigiria mútua cumplicidade. Essa Myrna Jackson
que vivia no mesmo apartamento que Josephine Dell, fora
virtualmente imposta, pelo seu primo Harlow, o que demonstra
terem estreitas relações. Ora, essa mesma
Myrna conhecia a governanta. Esta inter-relação desperta-me
a curiosidade. Note que Myrna é, segundo
depreendi, uma rapariga muito interessante e está, certamente,
misturada no negócio, de qualquer maneira, e
quanto a Paul Hanberry, confio tanto nele, como num gato
que eu pendurasse pela cauda.
- Efectivamente, Mrs. Cool, concordo consigo, mas
a senhora declarou que iria directamente ao âmago da
questão e, confesso, permita-me que lho diga, que estamos
francamente com rodeios.
Então, Bertha desfechou:
- Seu primo foi assassinado.
O rosto de Milbers espelhou profundo pasmo. Precisou
de alguns momentos para readquirir a compostura.
Aclarou a voz, mas titubeou:
- Isso é uma acusação muito forte, Mrs. Cool.
- Pois é muito forte, mas foi envenenado. Foi-lhe
ministrado veneno com o pequeno-almoço e todos os
sintomas indigitam intoxicação arsenical.
- É incrível! Está certa disso, Mrs. Cool?
- Praticamente.
- Tem provas?
- Cos diabos! Ainda não, mas se nos deitarmos ao
trabalho poderemos obtê-las.
- Oh! - exclamou Milbers, mudando subitamente
de entonação. Pensei que me estava a dizer já ter uma
prova.
- Não. Disse-lhe que estava praticamente certa de
que ele fora envenenado. Mas apesar de a minha suspeita
não ser mais do que circunstancial, já tenho o direito de
levar o Procurador de Distrito a exumar o cadáver de seu
primo e averiguar a causa da morte, quanto mais não
seja, para provar que não foi o arsénico que o matou.
- Ora, Mrs. Cool - contrariou Milbers, desiludido!
Deixe-se disso. Está a andar com a carroça adiante dos
bois. Gostaria que apreciasse o meu ponto de vista de
que não há a menor vantagem em dar um passo, seja
ele qual for, no sentido de envolver a lei numa acusação
tão grave, a menos que se possuísse, já, uma prova definitiva,
tangível, que eu considerasse absolutamente inamovível.
- Estou certa de arranjar uma prova, em menos
tempo do que o senhor expôs o seu ponto de vista. Vou
interrogar Nettie Cranning e os Hanberrys. Vai-me dar
algum trabalho, mas espero, dentro de quatro ou cinco
dias, ter as meadas todas juntas para atirar para o colo
do Procurador de Distrito.
- Na realidade, achamo-nos numa situação fora de
comum. Qual é precisamente a sua ideia, Mrs. Cool? interessou-se
Milbers, preocupado.
Bertha explicou, maternalmente:
- Se eles o mataram, não podem herdar. Mesmo que
só um deles o tivesse feito e os outros se tivessem
limitado a esperar o resultado, nenhum deles poderá
receber «cheta» daquele testamento. Sendo você o único
parente vivo, achar-se-á numa magnífica posição para
apanhar o bolo. E já que falamos nisso e estamos de faca
na mão, dir-lhe-ei que quero uma fatia de dez por cento,
depois de terminado todo o meu trabalho de detective
e de lho entregar numa bandeja.
Christopher Milbers juntou as pontas dos dedos,
virou-as contra o peito e fitou Bertha Cool meditativamente.
- Então? - impacientou-se Bertha.
- Estamos perante uma nova e muito peculiar situação,
Mrs. Cool.
- Pois estamos! Por que razão pensa que me dei ao
trabalho de vir até cá e de fazê-lo levantar da cama?
- Certamente que, se meu primo foi assassinado,
tem que fazer-se justiça.
- Já agora não se esqueça do milhão de dólares que
receberá, se a justiça for feita.
- Não estou a esquecer-me desse pormenor, mas...
- Mas o quê? Vamos para diante.
- E acha que vai perder, efectivamente, muito tempo
para esclarecer o assunto?
- Não é o tempo que está em jogo, mas a ideia e o
trabalho. Não se caça uma prova de envenenamento, no
ar, como uma mosca na parede.
- No ar? Mas a senhora já tem alguns dados comprovativos,
segundo depreendi.
- Alguns.
- E pretende que eu a contrate novamente, para
reunir o resto?
- «Favas» para esse contrato! Quero é um acordo
firme sobre a percentagem de dez por cento de quanto
o meu trabalho lhe proporcionar.
- Devo anunciar-lhe - declarou Milbers -que tive,
esta tarde, uma conversa muito interessante com Mrs.
Cranning e confesso que se me afigurou uma pessoa diferente
daquela que me parecera no nosso primeiro contacto.
- E a filha?
- Uma mulher muito formosa e cativante. ?
- Estou a ver a coisa! E que pensa do genro?
Christopher Milbers torceu a cabeça e fez uma
careta.
- Na minha opinião, é um homem deveras anti-social,
em manifesta oposição ao actual esquema de entendimento
e causando, de certa maneira, um desajustamento...
- Eu não precisaria de tantas palavras para defini-lo
- cortou Bertha. - Bastavam-me três palavras com que
explicar-lhe a filiação.
- Quero dizer que, no princípio, a minha posição era
contrária à dele, mas, no presente momento, os meus
contactos para negociação são estabelecidos apenas com
Mrs. Cranning.
- O.K., O.K.! - interrompeu Bertha, impaciente. -
Ao princípio representei-o para tratar de um pequeno
caso, mas agora, se provarmos que mataram o seu primo,
a coisa torna-se muito diferente.
- Assim parece.
- Pois bem, esta é a bandeja com o bolo que estou a
oferecer-lhe.
- Infelizmente, Mrs. Cool, isso não altera a minha
posição, em relação à propriedade.
- Como não? - inquiriu Bertha atónita.
- Acontece que toda a anterior situação se alterou.
No fim da tarde de hoje, concluí um acordo com as outras
partes envolvidas no caso, acordo esse que considero
altamente aceitável. Como é natural, não sou obrigado a
relatar-lhe os termos específicos em que o lavrámos,
mas, em virtude das circunstâncias peculiares supervenientes
e na certeza de que posso contar com a sua
discrição, Mrs. Cool, vou divulgar-lhe as suas bases
gerais: Miss Dell receberá o que lhe foi legado; por outro
lado, para se evitar um litígio judicial, que implicaria
ressentimentos, recriminações, demora e sobretudo perdas
para ambas as partes litigiantes, acordámos em que
o quantitativo residual da propriedade, seja ele qual for,
após deduzidas as despesas do funeral, taxas legais de
transmissão e a parte legada a Miss Dell, seria dividido
por nós quatro, equitativamente. Por outras palavras,
foi-me concedido o direito a receber um quarto de toda a
propriedade residual. Posso adiantar-lhe que isso representará,
para mim, qualquer coisa como cem mil dólares.
Não parece tão simples à primeira vista, mas os advogados
já estão a tratar das coisas e...
- Já assinou esse acordo? - inquiriu Bertha, ainda
na esperança de uma negativa.
- Já todos assinámos esse acordo.
- Isso só se refere à contestação do testamento,
mas, se eu puder provar que Mr. Harrow Milbers foi
assassinado...
- Não, Mrs. Cool. Tente compreender a situação.
O acordo contém uma cláusula pela qual nenhuma das
partes pode fazer seja o que for que venha a prejudicar
os direitos de qualquer outra parte, directa ou indirectamente,
privando-a ou reduzindo o seu benefício do testamento.
Não posso, portanto, violar essa disposição...
pelo menos, o espírito do acordo. Lamento, Mrs. Cool,
ter de afirmar-lhe não poder acreditar que Mrs. Cranning
ou sua filha, Eva, estejam envolvidas na acusação que a
senhora acaba de formular, embora admita que Paul Hanberry,
sem o conhecimento delas, tenha utilizado algum
expediente para também ser contemplado no testamento.
No que respeita a qualquer tipo de cumplicidade das
demais pessoas, isso está completamente fora de
questão. Admito, Mrs. Cool, que as pessoas são impulsivas
e, por vezes, bastante agressivas, mas essa suposição
de que Mrs. Cranning, ou a sua filha, Eva, tenham
envenenado o meu primo... não, Mrs. Cool... é absolutamente
inadmissível.
- Mas suponha que Paul Hanberry o envenenou e
elas só tiveram conhecimento do facto, ulteriormente,
e que...
- Não, Mrs. Cool. Ainda não compreendeu a situação.
Se as autoridades iniciassem uma investigação, por
sua iniciativa, as coisas seriam diferentes, mas, se
qualquer das partes tomasse essa iniciativa, em relação
a uma investigação dessa natureza, o acordo estabelecido
teria sido violado, o que implicaria uma diferente divisão
da propriedade residual. Se nada se provasse, quanto a
causa criminosa da morte de meu primo, só eu seria
prejudicado e, devo confessar-lhe, Mrs. Cool, que considero
o acordo, no que me diz respeito, muito vantajoso.
- Estou a ver que sim! - retorquiu Bertha, rudemente. -
Quando uma quadrilha de assassinos quer im-
pedir uma pessoa de investigar o envenenamento de um
parente...
Milbers estendeu a mão aberta, como o faria um polícia,
detendo o trânsito.
- Um momento! - interveio. - Por favor, Mrs. Cool!
Eu estou apenas a referir-me à inconveniência de contratá-la
para essa investigação. Contudo, se as autoridades
tomarem essa iniciativa, já não poderei ser alvo de qualquer
acusação de violação do acordo estabelecido com as
outras partes. Agora, estabelecer eu um contrato consigo,
pelo qual me responsabilizaria a entregar-lhe, a si, dez
mil dólares... Não, Mrs. Cool, não posso conceber isso,
nem por um momento, e estou certo de que o meu advogado
me reprovaria estar a discutir esse assunto consigo.
- Tudo isso é uma maquinação imunda! Exercem
chantagem sobre um tipo, até o forçarem a redigir um
testamento conveniente; depois assassinam-no e, a seguir,
fazem um acordo consigo, de maneira a comprometê-lo
e a impedir que toda a trama seja descoberta.
É um raio de uma canalhice!
- Francamente, não penso que tenham exercido
chantagem, nem tão-pouco o tenham assassinado. Para
dizer-lhe a verdade, estou certo de que aquele testamento
foi escrito por ele. As suas críticas eram características
e, embora eu me tivesse mostrado ressentido, sei que
nunca me deixaria mais do que dez mil dólares... nem
um centime! E o acordo que assinei é-me muito vantajoso.
- Foram eles que vieram procurá-lo, ou foi o senhor
que os procurou?
- Vieram ter comigo.
- Está visto! Roubam um homem, matam-no e,
depois, com cem mil «pacotes» impedem qualquer investigação.
Raio de acordo!
- Mas, Mrs. Cool, nada a impede de expor o assunto
às autoridades.
- Balelas! - exclamou Bertha, irritada. - As autoridades
não se lançam numa investigação sem mais nem
menos... e quanto é que eu ganho com isso?
- Evidentemente... se a senhora está na posse de
qualquer prova...
- O que tenho, é comigo. Ganho a vida a vender
«conhecimento de causa» - disse Bertha, erguendo-se
da cadeira.
- Se a senhora tem qualquer base para uma acusação,
creio que é seu dever comunicá-la às autoridades...
- Pois! Por outras palavras, você quer que eu vá
tirar-lhe castanhas do lume, sem pôr os dez mil na lareira?
Vou à Polícia e ponho-lhe a si um milhão no regaço, na
base de um «muito obrigado» por cento!
- Limitei-me a expor o assunto, na base dos deveres
de um cidadão honesto, no conhecimento de um crime,
ou mesmo na sua simples suspeita...
- Vou sair daqui e fazer um telefonema, da mercearia
da esquina, enquanto você se veste.
- Não estou a compreender - disse Milbers, friamente.
- O diabo é que não está! - explodiu Bertha, rudemente.
Daqui a dez minutos, a Polícia receberá um telefonema
anónimo, indicando que Harlow Milbers foi envenenado
e sugerindo que verifiquem a certidão de óbito,
interroguem o médico e ordenem a exumação do cadáver,
para obtenção da prova. Você vem comigo, para certificar-se
do meu telefonema. Então debito-lhe cinco mil
dólares e você já pode voltar para a cama. Percebeu?
- Minha querida Mrs. Cool! Vejo que não compreendeu...
Bertha alcançou a porta, em duas passadas, saiu e
atirou com ela, a meio do discurso de Milbers.
O táxi que a trouxera estava ainda à espera, na curva,
junto do hotel, com o motorista do lado de fora. Este
levou a mão ao chapéu e avisou, com um sorriso:
- O navio está à espera!
- O navio, o navio! Eu é que ainda fico a ver navios,
com um milhão à vista!
XX
-
VALLEJO, CALIFÓRNIA 1942, AGOSTO 31
(TELEGRAMA-CARTA NOCTURNO
PAGÁVEL DESTINATÁRIO)
BERTHA COOL, INVESTIGAÇÕES CONFIDENCIAIS
EDIFÍCIO DREXEL
LOS ANGELES, CALIFÓRNIA
CHAVE PARA RESOLVER SITUAÇÃO É FACTO COMPANHIA INTERMUTUAL
INDEMNIZAÇÕES PROCURAR SOLUÇÃO ATRAVÉS NOSSA
AGÊNCIA. ISSO INDICA IGNORAREM NOME E MORADA DA SINISTRADA.
-
DE ACORDO COM TESTEMUNHA, DELL DEU NOME E
MORADA AO CONDUTOR AUTOMÓVEL CAUSADOR ACIDENTE
E PERMITIU-LHE A CONDUZISSE A CASA. SITUAÇÃO PARECE
IMPOSSÍVEL A MENOS QUE CONDUTOR EMBRIAGADO. MAS ISTO
IMPROVÁVEL POR SEU COMPORTAMENTO POSTERIOR. TERIA DELL
SAÍDO DO CARRO ANTES DE CHEGAR FRENTE DE CASA? SÓ
ASSIM SE EXPLICA AMNÉSICA IGNORÂNCIA CONDUTOR. INVESTIGAR
ESTE PONTO. SUGIRO FAÇA «BLUFF» COM COMPANHIA
SEGUROS DIZENDO CONDUTOR TOTALMENTE EMBRIAGADO E VEJA
QUE ACONTECE. POR QUALQUER RAZÃO DELL NÃO LHE DISSE
TODA A VERDADE. CUMPRIMENTOS.
-
DONALD LAM
XXI
Indignada, Bertha Cool ordenou a Elsie Brand:
- Mande um telegrama ao Donald: «Sua sugestão
disparatada. Falei com Josephine que disse condutor ter
gentilmente levado a casa. Não vou pagar mais mensagens
contendo teorias idiotas. Sugiro devote atenção exclusiva
ganhar a guerra. Abandone caso. Partes fizeram acordo,
deixando Bertha de fora.»
- Leia-me isso, Elsie - disse Bertha, suspendendo o
ditado.
Elsie leu. Então Bertha decidiu:
- Passe isso à máquina e assine o meu nome. Em
seguida...
Calou-se porque, nesse momento, a porta abriu-se
para dar entrada ao homem alto, circunspecto e elegante
da Companhia Intermutual de Indemnizações.
- Bom dia, Mrs. Cool - saudou.
- Você, outra vez! - exclamou Bertha, surpreendida.
- Verificou-se uma muito infeliz alteração da situação,
Mrs. Cool. Pode dar-me atenção, por uns momentos?
- Entre cá para dentro - convidou Bertha, passando-lhe
à frente.
- Mando o telegrama? - inquiriu Elsie.
- Vá passando-o à máquina, mas não o envie, antes
de eu o ler outra vez.
Fosdick, representante da companhia de seguros,
sentou-se confortavelmente, colocou a pasta sobre os
joelhos, rodeou-a com os braços, como se fossem um
escudo para defendê-la e repetiu:
- Uma situação insólita acaba de se manifestar no
caso em curso.
Bertha não tugiu nem mugiu.
- Conhece, porventura, um homem chamado Jerry
Bollman? - prosseguiu ele. - um homem que...
- Que tem ele a ver com isto?
- Acontece que nos prometera obter um depoimento
completo sobre o acidente, por um total de mil dólares
de indemnização para a sinistrada, e que não pretendia
qualquer outra importância, embora estivesse em posição
de conseguir uma quantia muito superior, se disso quisesse
convencer a pessoa lesada. Nesta base, afirmou
poder conseguir uma declaração legal de abstenção,
quanto a qualquer outra diligência no sentido de processamento
judicial, ou de exigência de indemnização superior.
A sinistrada dividiria com ele essa importância de mil
dólares, se assim o entendesse. Mr. Bollman parecia estar
absolutamente certo de poder apresentar essa declaração,
assim como de conseguir receber a sua parte, em
virtude de um acordo já estabelecido com a outra parte.
Segundo declarou, estava intimamente ligado à companheira
de apartamento da lesada, com quem ia casar
muito em breve.
- Ah! Ele disse isso?! - inquiriu Bertha interessada.
Fosdick aquiesceu.
- Indicou-lhe nomes?
- Não. Apenas se referiu à companheira de apartamento
da sinistrada, mas a sua história foi muito convincente.
-E você foi nisso?
Fosdick franziu o sobrolho. Bertha Cool prosseguiu:
- Você é muito novo. Acaba de sair de Harvard, ou
de qualquer outra universidade de Direito, e isso deu-lhe
um complexo de superioridade. Julga que sabe tudo, mas
bem pode tirar daí a ideia.
Fosdick adoptou um ar de mártir, querendo exprimir
que «o cliente tem sempre razão» e que não tencionava
defender-se de tão pertinente crítica. Aparentemente desmoralizado,
confessou:
- Não tenho dúvida quanto à possibilidade de Mr.
Bollman nos ter mistificado com a sua história. Infortunadamente,
porém, lemos no jornal da manhã que Mr.
Bollman foi morto na noite passada. O facto é, na verdade,
lamentável, no que se refere aos interesses da companhia...
- Não quanto a quem tinha de lidar com ele! observou
Bertha. - Mas desde já lhe digo que essa calamidade
é inconsistente. Não creio que Bollman fosse
capaz de obter qualquer acordo da sinistrada. Limitou-se a
dar-vos «corda» e a seguir o papagaio no ar, a ver se
«abichava» alguma coisa dos laçarotes da cauda. E os
senhores bem sabiam que não podiam encerrar um caso
daqueles, por uns míseros mil dólares.
- Porque não?
- O vosso homem ia tão bêbado que não se apercebeu
que derrubara uma linda rapariga, que lhe causara
uma contusão cerebral... e a companhia queria arrumar
isso com mil «pacotes»! - comentou Bertha, rindo sarcasticamente.
Fosdick retorquiu:
- Não estamos admitindo seja o que for, mas desde
já refutamos essa acusação de que o nosso cliente conduziria
intoxicado.
- O vosso homem - prosseguiu Bertha com trocista
determinação - estava a cair de bêbado, a tal ponto que
nem foi capaz de fixar o nome e a morada da rapariga
que atropelou.
- Perdão, Mrs. Cool, mas a jovem ficou tão aturdida
e histérica que nem consentiu que ele a conduzisse
a um hospital ou a casa e nem lhe deu a mínima indicação
quanto a nome e morada, quando saltou do carro para
fora.
Elsie Brand entrou no gabinete e anunciou:
- Desculpe a interrupção, mas está lá fora o boletineiro
e podíamos aproveitar o ensejo para enviarmos o
telegrama, imediatamente. Se a senhora quisesse fazer o
favor de revê-lo...
- Bertha agarrou no papel que Elsie lhe estendia,
virou-o para baixo, meteu-o na gaveta e decidiu:
- Dê dez cêntimos ao rapaz dos correios. Não vou
mandar ainda este telegrama.
- Dez cêntimos? - estranhou Elsie.
- Bem - concedeu Bertha, dê-lhe então quinze.
Estou ocupada e não quero ser interrompida. Expediremos
o telegrama mais tarde.
Voltou-se para Fosdick e continuou:
- Para que raio vos serve andarem às voltas?
O vosso homem estava «grosso». Tão «toldado» que nem
devia guiar um automóvel, naquele estado. Não só virou
a beldade de pernas para o ar, mas também denunciou,
tão claramente, estar incapaz de levá-la fosse onde fosse,
que ela preferiu ir a pé, mesmo contusa como se achava.
Pessoalmente, dir-lhe-ia que teriam muita sorte se conseguissem
sair da encrenca apenas com vinte mil e quinhentos
dólares.
- Vinte mil e quinhentos!
- Digamos vinte mil.
- Mas, Mrs. Cool! Perdeu a cabeça?
- Não perdi coisa nenhuma. Sei muito bem o que
um júri decidiria. Aparentemente, vocês não sabem!
«Um júri talvez atribuísse uma indemnização de cinquenta
mil. Não sei... e vocês também não sabem.»
- Ora, ora, Mrs. Cool, deixe-se disso! - riu Fosdick.
- A sua cliente não ficou seriamente traumatizada.
- Ai, não? O que o leva a pensar isso? Neste
momento, Bertha teve a certeza de que Fosdick
estava preocupado.
- Nessas circunstâncias - objectou ele, considero
necessário que o nosso médico tenha oportunidade
de observar a sinistrada.
- Cada coisa na devida altura - afirmou Bertha,
com segurança.
- Que quer dizer com isso?
- Terá que obter uma requisição do tribunal.
- Mas nós não queremos ir para o tribunal.
- Quero dizer que, depois de o caso estar no tribunal,
podem requisitar esse exame médico.
- Tem pois a intenção firme de ir para tribunal?
- Com certeza que vocês não pensam, nem por um
minuto sequer, que conseguem livrar o vosso homem de
sarilhos, com uma simples caixa de bombons e um cartão
de boas-festas!
- Não acha, Mrs. Cool, que está sendo pouco razoável?
- Não acho.
- Oiça cá - propôs Fosdick, conciliatoriamente,
suponhamos que estabelecemos um acordo em bases que,
efectivamente, conferem à senhora uma justa compensação.
As lesões da sua cliente não são graves e não
podem ascender àquela exorbitante quantia que mencionou,
mas, por razões óbvias, não agradaria à companhia
envolver-se num processo judicial. Suponha que propomos
três mil dólares, a pronto e a dinheiro, agora
mesmo?
Bertha inclinou-se para trás, na cadeira, e soltou uma
gargalhada.
- Bem - concedeu Fosdick-, digamos cinco mil?
Bertha receou que os seus olhos traíssem o que pensava.
- Você não consegue aperceber-se do ridículo dessa
proposta?
- Mas, Mrs. Cool, concordará que cinco mil dólares
constituem uma enorme oferta?
- Acha?
- Quanto espera conseguir?
- O que cair na rede é peixe.
- Creio que chegou a altura de a senhora fazer uma
proposta - anunciou Fosdick, pondo-se de pé. - Atingimos
o nosso limite. Eu... só estava autorizado a acordar,
hoje, uma entrega de três mil dólares, procedendo-se à
entrega dos dois mil remanescentes, após a conclusão
das negociações. Eram essas as minhas instruções. Foi
da minha inteira responsabilidade que apresentei a proposta
final.
- Foi muito decente da sua parte - apreciou Bertha.
- Tem o meu cartão - anunciou Fosdick, com dignidade.
- Poderá telefonar-me, quando entender conveniente
aceitar a nossa proposta.
- Não perca tempo ao pé do telefone, à espera que
eu lhe ligue.
- E escuso de sublinhar - finalizou Fosdick - que
se trata unicamente de uma proposta de compromisso;
não poderá ser utilizável em tribunal; não constitui
admissão de culpa por parte do nosso segurado e, a
menos que só decorra um prazo razoável, poderá ser
considerada prescrita e ultrapassada.
Com elaborado carinho, Bertha sussurrou:
- O prazo que prescreva agora mesmo, se assim o
entenderem. Para mim está O. K.!
Fosdick saiu do gabinete, tão imperturbável quanto
possível.
Bertha Cool deu-lhe tempo a que chegasse ao elevador,
após o que correu para junto de Elsie, ordenando:
- Mande um telegrama ao Donald:
- Outro?
- Sim.
Elsie pegou no lápis, pronta a estenografar. Bertha
ditou:
-
QUERIDO DONALD. VOCÊ TEM SIDO MUITO LINDO E ÚTIL
MANDANDO À BERTHA AS SUAS ESPERTAS SUGESTÕES. MEUS
MELHORES AGRADECIMENTOS. DONALD ADORADO EXPLIQUE
POR QUE RAZÃO TERIA JOSEPHINE MENTIDO ACERCA ACIDENTE?
PORQUE TERIA SACRIFICADO BELO ACORDO MONETÁRIO SÓ PARA
NÃO CONTAR EXACTAMENTE QUE ACONTECEU MOMENTO ACIDENTE?
BERTHA PAGA TELEGRAMA. MONTES DE AMOR E MAIORES
FELICIDADES PARA SI.
- É tudo? - perguntou Elsie. - Tudo?
- É tudo.
- E aquele outro telegrama que ficou, se não me
engano, na gaveta da sua secretária? Também quer que o
envie?
- Deus me valha! Não! -exclamou Bertha. - Tire-o
para fora, rasgue-o em pedaços, meta-o no cesto dos
papéis... E rasgue-me também o rascunho que fez dele
a lápis. Eu devia estar terrivelmente zangada e fora de
mim, quando ditei uma coisa daquelas. O querido Donald
é, realmente, um diabinho muito esperto.
O sorriso de Elsie era enigmático, quando se informou:
- Mais alguma coisa?
- Mais nada.
XXII
-
VALLEJO, CALIFÓRNIA 1942, AGOSTO 31
(TELEGRAMA URGENTE PAGÁVEL DESTINATÁRIO)
BERTHA COOL, INVESTIGAÇÕES CONFIDENCIAIS ’
EDIFÍCIO DREXEL
LOS ANGELES, CALIFÓRNIA
SUGIRO INTERROGUE COMPANHEIRA APARTAMENTO.
-
CUMPRIMENTOS.
-
DONALD LAM
XXIII
A porteira dos Apartamentos Bluebonnet abriu a porta
e começou a desfiar:
- Muito boa tarde. Temos alguns apartamentos, de
primeira qualidade, com... - interrompeu a ladainha, mal
reconheceu Bertha Cool, e ia fechar a porta, quando Bertha
a impediu, declarando:
- Um momento, por favor. Posso arranjar-lhe maneira
de ganhar dinheiro.
- Diga lá - anuiu a porteira, depois de hesitar.
- Ando à procura de uma pessoa e, se me ajudar a
encontrá-la, creio que o meu cliente saberá mostrar-se
agradecido... com dinheiro, é claro.
- Quem? - interessou-se a mulher.
- A jovem que se mudou ao mesmo tempo que
Josephine Dell.
- Refere-se a Miss Myrna Jackson?
- Sim.
- Que lhe quer?
Bertha abriu a bolsa, extraiu um cartão e entregou-o
à porteira.
- Ela foi testemunha de um acidente de automóvel
e eu dirijo um escritório de investigações.
- Quanto?
- Dez dólares.
- Quando?
- Logo que a encontre.
- Taça pequena, para jogo comprido!
Bertha brindou-a com o seu melhor sorriso.
- Não lhe dá muito trabalho. Diga-me apenas o que
sabe acerca dela.
- ’tá bem, entre.
A porteira conduziu Bertha a um andar térreo, indicou-lhe
uma cadeira, abriu um armário contendo uma fila
de cartões e seleccionou um, com nomes e moradas.
- Faz exactamente um mês que veio morar para
aqui - explicou. - A criada que faz a limpeza contou-me
que tinham escrito um outro nome junto da campainha
da porta de Miss Dell. Quando esta apareceu, perguntei-lhe
quem era a outra e ela respondeu que se tratava de
uma amiga que se mudara para o seu apartamento. Tive de
lembrar-lhe que o contrato de aluguer só se referia a um
hóspede e ela começou logo a barafustar comigo, perguntando
que mal é que tinha se duas pessoas juntas gastavam
mais as paredes do quarto do que se fosse só uma.
Eu achava que ela tinha razão, mas não sou eu quem faz
as regras do prédio; só me cabe fazê-las cumprir. É um
Banco que dirige esta coisa e, de lá, disseram-me que
aumentasse cinco dólares no próximo pagamento da
renda e que devia notificar a locatária com trinta dias de
antecedência. Tenho uns impressos para isso, onde anoto
o número do apartamento, o custo da renda e a assinatura
do hóspede. Ela ficou «bera como a ferrugem», mas pagou
os cinco dólares.
- Disse-lhe que se ia embora?
- Nessa altura, não. E, depois, nunca mais a vi.
Só falei com a outra.
- Durante quanto tempo morou cá Miss Dell?
- Fez ontem cinco meses.
- Chegou a conhecer, portanto, essa tal Myrna
Jackson?
- Sim. Vi-a duas vezes. A primeira quando veio cá
falar acerca do aumento da renda e que eu lhe disse que
eram regras da casa e que eu não dirigia isto.
- E a segunda vez?
- Na noite passada. Veio dar-me a chave e explicou-me
que Miss Dell ia trabalhar com um homem que
andava sempre a viajar, pelo que não podia manter o
apartamento. Há uma cláusula no contrato de arrendamento
que obriga quem se muda a pagar cinco dólares
para despesas de limpeza e Miss Jackson declarou que não ia pagar dois dólares e meio, quando só cá tinha
estado quatro semanas e que a outra é que era a inquilina
que vivia cá há mais tempo. Penso que as duas discutiram,
uma com a outra, por causa disso e que Miss Dell
entrou com quatro dólares e Miss Jackson só com um.
Fiquei com a impressão de que aquilo as deixou de «candeias
às avessas». Miss Jackson entregou-me um sobrescrito
com as chaves e com os cinco dólares da limpeza.
Pareceu-me uma rapariga muito agradável, atravessando
algumas dificuldades, pois ambiciona seguir a carreira
artística. Eu disse-lhe que se ela quisesse ficar no apartamento,
pagaria menos cinco dólares, pois seria uma só
locatária.
- E ela ficou?
- Não quis - respondeu a porteira, rindo. - Imagine
que teve a «lata» de dizer-me que nada tinha contra mim,
pessoalmente, mas que eu podia dizer ao Banco que dirige
isto que não ficaria aqui, nem que fosse o único apartamento
do mundo. Julgo que fez as malas e partiu esta
tarde. Depois voltou, à noite, para acertar as contas com
Miss Dell. A esta, nunca mais a vi...
- E Miss Jackson deixou-lhe alguma indicação do
local para onde ia?
- Há nisso dez dólares para mim? - quis certificar-se
a porteira.
- Sim.
- Quando eu der a morada?
- Não. Quando eu encontrar Miss Jackson.
- Como posso ter eu a certeza de que a senhora
volta cá a dizer-me que a encontrou?
- Não sei - respondeu Bertha.
- Bem, arrisco. Fica no Edifício Maplehurst, na Grand
Avenue. Miss Jackson é, na verdade, uma rapariga encantadora.
Disse que as regras do prédio eram injustas, mas
que eu não tinha culpa disso. Agora Miss Dell era diferente.
Embirrava comigo. Se um dia precisar que eu dê
informações a seu respeito, para alugar um outro apartamento,
eles que venham cá falar comigo, que vão bem
aviados.
- Tem alguma coisa contra ela?
- Nada de especial, mas, primeiro, foi aquela questão
por causa do aumento da renda e, depois, não sei se sabe que ela trabalhava para um homem muito mais velho
do que ela….
do que ela... Sabe quem era, um tipo meio Coxinho, de
bengala? ’;
- Sim, creio que sim.
- Pois bem, ele veio cá uma ou duas vezes. Não
tenho nada de especial contra ela a não ser ter «refilado»
comigo por eu cumprir as ordens do Banco. Mas nós
estávamos a falar do Maplehurst... Não diga a Miss Jackson
que fui eu quem lhe deu a direcção, pois ela pediu-me
que não dissesse a ninguém para onde se mudava...
fosse a quem fosse.
Impaciente, Bertha Cool tentou abreviar a conversa.
- Logo que consiga localizá-la, o meu cliente manda-lhe
um cheque.
- Já pode mandar-me, porque a morada é essa.
- O meu cliente funciona de outra maneira. Só me
paga resultados, depois de obtê-los.
- Bem, não se esqueça. Nunca diga a Miss Jackson
quem lhe deu a informação.
- Disso pode estar descansada.
Com o brilho do caçador nos olhos, Bertha Cool tomou
um autocarro para os apartamentos Maplehurst, na Grand
Avenue. A mulher que olhava pelos apartamentos era uma
ruiva angulosa, desenxabida, que examinou Bertha suspeitosamente.
Nunca ouvira falar de Myrna Jackson, na sua
vida; tinha alguns apartamentos vagos e, se essa jovem
fosse morar para lá, dentro de dias, poder-lhe-ia entregar
uma mensagem.
Bertha Cool pressentiu que a mulher lhe mentia, mas
como, de momento, nada pudesse fazer, adiou essa investigação
para um futuro plano de campanha.
Os jornais da tarde anunciavam, em grandes parangonas:
Pedinte Cego Procurado pela Polícia.
A pedido de Bertha Cool, um tipógrafo, usando uma
tinta que secava rapidamente, imprimiu uma dúzia de
sobrescritos e folhas para correspondência em papel caro,
com o timbre: BANCO NOCTURNO SUPERSORTEIO,
S. A. R. L. Edifício Drexel, Los Angeles, Califórnia.
Bertha levou os impressos para o escritório e combinou
com o ascensorista que lhe entregasse a ela,
pessoalmente, qualquer correspondência que viesse para
aquele endereço. Depois, já no seu gabinete particular,
chamou Elsie Brand e ditou-lhe uma carta que deveria ser,
posteriormente, dactilografada no papel timbrado.
-
Cara Miss Jackson
Na intenção de manter vivo o interesse por este
Banco Nocturno, organização de investimentos cinematográficos
e teatrais, foi criado um fundo para produções
artísticas, com um prémio a sortear de dois em dois
meses. Torna-se, contudo, necessário tomar precauções
extraordinárias, na verificação de que as pessoas contempladas
se tenham, efectivamente, inscrito num dos
nossos agrupamentos teatrais, durante os últimos três
meses. Se Miss Jackson se encontra nessas circunstâncias,
teremos a honra de poder oferecer-lhe uma oportunidade
que, indubitavelmente, lhe proporcionará grande
satisfação. Sublinhamos, porém, que sendo a habilitação
a este supersorteio integralmente gratuita, sem qualquer
desembolso por parte dos concorrentes, não poderão
estes aspirar a qualquer outro prémio além daquele atribuído
a um único contemplado, na extracção bimensal.
-
Com os nossos melhores cumprimentos, :
-
BANCO NOCTURNO SUPERSORTEIO, S. A. R. L
- Agora, Elsie, assine isso - ordenou Bertha. - Não
tenha receio, pois já tratei do assunto do recebimento do
correio, com o ascensorista.
- Não está a utilizar, ilegalmente, os Serviços Postais,
para cometer uma fraude?
- Lérias! Quando essa Myrna aparecer por aí, meto-lhe
vinte e cinco dólares nas unhas, como compensação.
- E espera que ela apareça?
- Ia jurar que sim. Logo que leia a carta, vai pensar
que se trata de um prémio de quinhentos dólares e que,
se não vier logo reclamá-los, alguém correrá a abotoar-se
com eles. Segundo creio, ela tem razões de débito financeiro
para não desejar mostrar-se muito em evidência,
pelo que certamente não irá levantar a lebre junto das
autoridades postais e, quando eu a caçar na minha frente,
você verá, Elsie, como se vai mostrar uma linda menina,
mansinha como um cordeirinho.
Elsie Brand dactilografou a carta, pegou numa caneta
de tinta permanente e assinou, comentando:
- Cá está... à sua ordem e responsabilidade.
- Exactamente - confirmou Bertha, com mal dissimulada
relutância. - À minha responsabilidade.
XXIV
O sargento Sellers sentou-se confortavelmente no
gabinete particular de Bertha Cool e fitou-a com um frio
cepticismo que ela sentia dificuldade em enfrentar.
- Sabe onde pára esse cego, Rodney Kosling? começou
ele por perguntar.
- Não faço ideia.
- É seu cliente?
- Foi. Como já lhe disse, fiz um trabalho para ele.
- Satisfatoriamente?
- Espero que sim.
- Nesse caso, se ele pretendesse outro trabalho
qualquer, teria voltado a procurá-la?
- Julgo que sim.
- A circunstância de a senhora estar a trabalhar para
um cego torna-se um problema peculiar. Não sabe exactamente
se vai ou não tornar a lidar com ele.
- Que quer dizer com isso?
- Geralmente, um homem que é procurado pela
Polícia e cujo nome vem no cabeçalho de todos os jornais
e que, mesmo assim, não aparece, seria de esperar que
voltasse a procurá-la para solicitar o seu auxílio. Ora, com
um cego o caso é diferente porque, não podendo ler os
jornais e ignorando o que se passa, a senhora não tem,
para já, possibilidade de contactar com ele, como seu
cliente, nem ele motivo para procurá-la.
- Provavelmente é o que está a suceder - comentou
Bertha, com exagerada despreocupação, mas arrependendo-se
no mesmo instante em que as palavras lhe saíam
da boca.
Sellers, sorrindo, dava a entender que aquele comentário
lhe agradara.
- Penso que há uma probabilidade em vinte...
- ... de ele saber que devia contactar comigo?
- Não. De ele saber que não deveria, de forma
alguma, contactar consigo.
- Não vejo aonde quer chegar.
- Tente então seguir o meu raciocínio. Eliminámos
quase todos os vendedores ambulantes cegos que investigámos
e que andam pelas ruas com as suas bugigangas
ou tocando viola, o que de resto, não sei se sabe, é um
grande negócio. Caçámos quase todos, excepto uma
dúzia deles que têm auxiliado a Polícia, de vez em quando,
como informadores. Essa gente tem locais definidos, na
cidade, onde lhe é permitido trabalhar. Quando morrem,
não autorizamos que outros os substituam e assim temos
conseguido limpar a cidade, ou, pelo menos, temos tentado
fazê-lo.
- E depois?
- Não creio que esse cego consiga arranjar agora um
sítio onde possa instalar-se com o seu negócio.
- Não faço a menor ideia. Nunca pensei nisso.
- Eles têm um pequeno clube, uma espécie de
cooperativa - prosseguiu Sellers, tranquilamente. Utilizam
um carro de aluguer que vai buscá-los a casa, de
manhã, para distribuí-los pelos locais de trabalho, e volta,
à noite, a recolhê-los, levando-os regularmente para
casa da mulher do motorista que lhes fornece um belo
jantar quente. Nessa rotina regular, comem, pagam e o
motorista torna a repô-los nas respectivas casas.
- Deve ser isso. Se tivesse pensado no caso, também
teria chegado à conclusão de que deveriam ter uma
organização desse género, tanto mais que não podem
guiar um carro e que lhes é difícil utilizarem os transportes
públicos e pararem precisamente no local do
costume. Mas, quem lhes trata das casas onde vivem?
- A mulher do motorista. Vai a casa de cada um
deles fazer a limpeza, uma vez por semana. Nos outros
dias eles próprios lá se vão arranjando como podem e a
senhora, Mrs. Cool, ficaria espantada se soubesse como
se bastam a si próprios.
- Quem é esse motorista?
- Um tipo chamado Thinwell, John A. Thinwell. Ele e
a mulher têm óptimas referências. São boas pessoas e portam-se correctamente. Contaram uma história muito
interessante.
- Qual?
- Que esses cegos não trabalham aos domingos.
Reúnem-se em casa dos Thinwells, sentam-se a conversar
e a ouvir música no rádio e por volta das sete horas
jantam, após o que o motorista torna a levá-los às casas
respectivas. Ora, no último domingo, cerca do meio dia,
Thinwell recebeu um telefonema de Kosling que parecia
muito excitado e falou rapidamente avisando-o de que não
estaria em casa, nesse dia, e que não iria ao clube. Por
essa razão, Thinwell não foi buscá-lo como de costume.
Porém, como tinha de passar por lá, para recolher um
vizinho, parou no local, por volta das três horas da tarde
e notou que efectivamente tudo estava deserto e que a
porta ficara aberta uns centímetros para o morcego poder
sair e entrar, como lhe apetecesse.
- Thinwell não espreitou lá para dentro? - inquiriu
Bertha.
- Ele diz que só se chegou à porta, porque achou
qualquer coisa estranha que lhe atraiu a atenção. Vira o
morcego de Kosling esvoaçar junto da frincha da porta e
ouviu-o continuar a voar lá dentro. Ora, os morcegos só
voam durante o dia se forem perturbados no seu sono
diurno. Por isso se pergunta: porque andaria o morcego
de Kosling a voar, às três da tarde?
- Fora incomodado - concluiu Bertha, encolhendo
os ombros, perante a facilidade da pergunta.
- Exactamente - confirmou Sellers. - E quem o
teria incomodado?
- Calculo, mas diga lá.
- Deve ter sido a pessoa que estava a montar a
armadilha com a espingarda. Ora, isto leva-nos a outra
conclusão interessante.
- Qual?
- Penso que a armadilha foi montada pelo próprio
cego.
- O que o leva a admitir isso?
- Pela forma como ela fora colocada. A coisa estava
tão visível como um elefante, mesmo num sítio onde
poderia ser topada por qualquer pessoa que entrasse.
Depois, ao apontar a espingarda, quem o fez não agiu
como alguém que tivesse vista. Estendeu um fio do gatilho ao tripé e deste, ao longo do cano, directamente ao
que estava estendido perpendicularmente, para quem
viesse ir embater nele. Ninguém, com vista, faria uma
coisa tão mal disfarçada.
Sellers fez uma ligeira pausa, meteu um charuto
apagado na boca e prosseguiu:
- Ordinariamente, quando alguém é assassinado,
fazemos uma investigação junto das pessoas com quem
está relacionado e, em noventa por cento dos casos,
quando o motivo do crime não foi roubo, o assassino é
alguém com quem a vítima tinha íntimo contacto. Ora,
noventa por cento das relações de Kosling eram cegos.
Acontece que todos os seus amigos se achavam, às
três e quarenta e cinco, em casa de Thinwell e não resta
dúvida que a armadilha fora montada antes das três, visto
o morcego andar a voar a essa hora.
- As persianas e janelas estavam fechadas? - interessou-se
Bertha.
- Sim. Parece que o cego tem a mania de ter tudo
sempre fechado.
- Como sabe isso.
-Disse-me Thinwell que foi lá várias vezes.
- E Kosling telefonara a Thinwell antes das três?
-Sim.
- Tê-lo-ia feito de uma cabina pública.
- Sim.
- Como diabo marcou o número?
- É fácil. A senhora não imagina como os cegos
são sensitivos. Mal sabem o número, são capazes de
discá-lo tão depressa como a senhora. De resto, não
sabendo o número, dão a morada à empregada dos telefones
e ela faz-lhes a ligação.
O sargento Sellers fez nova pausa e perscrutou friamente
o olhar de Bertha. Depois continuou, calmamente:
- Temos duas teorias a considerar: uma delas, segundo
a qual esse Jerry Bollman queria falar com Kosling,
ou queria tirar-lhe qualquer coisa de casa, e foi até lá,
encontrou a porta, deixada aberta por causa do morcego,
e começou a explorar o interior...
- E a outra teoria?
- A outra leva-nos a admitir que Kosling se encontrou
com Bollman e este o levou a almoçar. Depois conduziu-o
a casa, levando-o provavelmente pelo braço e, chegados a casa, Bollman passou-lhe à frente, para abrir-lhe
a porta e «bang»!
- Parece-me uma dedução muito razoável - assentiu
Bertha.
- Também me inclino para ela, admitindo que
Bollman pretendia qualquer informação de Kosling, acerca
de um determinado assunto. A senhora faz alguma ideia
acerca da natureza desse assunto?
Bertha hesitou e ficou calada.
- Algo que estivesse relacionado com a missão que
Kosling lhe confiara, Mrs. Cool - apressou-se Sellers a
acrescentar, como se pressentisse que Bertha estivera
quase a morder a isca. - Qualquer coisa relacionada
com uma mulher.
- Que género de mulher? - inquiriu Bertha apressadamente.
- Aí é que a senhora me deixa às escuras. Poderia
ser uma mulher que estaria interessada nele, num aspecto
amoroso, a menos que se tratasse de um coraçãozinho
generoso e puro.
- Vá pelo puro - aconselhou Bertha. - O outro é
disparate.
Sellers fez uma careta de incredulidade e Bertha
inquiriu:
- E depois?
- Depois voltamos à teoria de que Kosling estava na
posse de uma informação que Bollman desejava obter.
Elsie Brand entreabriu a porta do gabinete, enfiou a
cabeça e interrompeu:
- Quer atender uma chamada, Mrs. Cool?
- Desculpe-me por um momento - pediu Bertha a
Sellers, depois de ter apreendido um ligeiro sinal no
olhar de Elsie. Pegou no telefone e escutou.
Uma empregada dos serviços centrais anunciou:
- Está na linha uma chamada de São Bernardino e
pretende que seja paga na recepção.
- A resposta é simples - respondeu Bertha -,
muito curta e gentil: aqui não se pagam chamadas que
venham de fora.
Ia desligar quando Elsie, que estava na linha, interveio:
- Tive a impressão de que era Mr. Kosling que desejava
falar-lhe, Mrs. Cool.
Bertha olhou rapidamente para Sellers, receando que
ele tivesse ouvido o aviso de Elsie e, como o sargento
não evidenciasse qualquer desconfiança ou interesse,
anuiu:
- Ligue lá. Nessas circunstâncias, é diferente.
Ouviu um «clique» e imediatamente a voz peculiar e
inconfundível do cego, certificando-se:
- É Mrs. Cool?
- Sim.
- Não permita que saibam onde estou, nem mencione
nomes ao telefone, está a perceber?
- Sim.
- Tive conhecimento de que a Polícia anda à minha
procura.
- Sim.
- É mau?
- Creio que sim.
- É capaz de vir ter comigo, sem que ninguém dê
por isso?
- Vai ser muito difícil.
- É muito importante.
- Onde?
- Hotel Sequoia, em São Bernardino.
- Nome?
- Não sei. Não posso ler e não posso ver o registo.
Devo estar registado no meu próprio nome.
- Isso é mau - disse Bertha.
- Mas posso dar-lhe o número do quarto.
- Qual?
- Quatrocentos e vinte.
- Isso basta-me. Espere, até ter notícias minhas.
- Está bem, espero aqui.
Bertha desligou.
- Parece andar muito atarefada - comentou Sellers.
- O diabo é que anda! - resmungou Bertha, desgostosamente.
- Quando as pessoas me telefonam pedindo-me
que eu pague a chamada, é sinal de que se trata
de um negócio com que os tipos das contribuições não
chegam a gastar tinta.
- Geralmente é assim - concordou Sellers, sorridente. -
Bem, a questão é a seguinte: temos motivos
para acreditar que Jerry Bollman esteve com Rodney
Kosling, ontem à noite. Pode ajudar-nos nesse assunto?
- Nada posso fazer a esse respeito. Tenho as mãos
atadas.
- Quer dizer que não tem qualquer informação para
nos dar ou que se encontra impossibilitada, por uma
questão de ética profissional, de trair as confidências de
um cliente?
Bertha hesitou por um momento e respondeu:
- Creio que satisfiz todas as suas perguntas e lhe
prestei toda a informação possível... que tinha, no momento
em que ma solicitou.
O sargento aquiesceu, mas não esboçou o menor
movimento para retirar-se. Deixou-se estar sentado a
olhar para ela, calmamente.
- Bollman guiava automóvel? - inquiriu Bertha, subitamente
interessada.
- Sim. Parou o carro dois blocos mais adiante da
casa de Kosling. Só demos com ele na manhã seguinte.
Está registado em nome dele.
- Suponha então que Bollman conduziu Kosling a
casa. Suponha que a sua teoria está certa e que Bollman
recebeu o tiro que fora destinado a atingir Kosling. Que
teria acontecido a este? Para onde poderia ir um cego?
- Lá no Departamento há quem pense que talvez a
senhora o tenha escondido em qualquer lado.
- Pensam que fui eu!? - exclamou Bertha, incrédula.
- Pensam, sim.
- Estão «chalados»! Diga-lhes isso da minha parte.
- Está bem, digo. Mas, cá para nós, não o levou para
qualquer lado, Mrs. Cool?
- Não.
- E aquela incursão, de táxi, a casa de Kosling, não
era a sua segunda ida, lá, nesse mesmo dia?
- De maneira nenhuma!
- Kosling era seu cliente. Não deixaria de pedir-lhe
auxílio se estivesse em apuros. Não estará a senhora a
tentar protegê-lo?
- O senhor tem muita piada!
- Ai, tenho?
- Bem, não tem, mas está a tentar ter.
- Por acaso, quando a senhora foi a casa do cego,
não iria a um encontro com ambos, isto é, com Kosling e
Bollman? E não teria encontrado o primeiro aterrorizado
por o outro ter sido atingido por um tiro da espingarda armadilhada? E não teria aconselhado o cego a fugir, pelas
traseiras, e a esconder-se num local que lhe indicou?
- Oh, céus! Não.
Sellers poisou as mãos espalmadas nos braços da
poltrona, ergueu-se com rapidez e fitando Bertha Cool,
de sobrolho franzido, ameaçou:
- Não lhe passe pela cabeça andar a esconder criminosos
procurados pela Polícia, ou mesmo apenas testemunhas
de um crime. Vou agora começar a pôr as coisas
a limpo e, se na varredela a encontrar a si, Mrs. Cool,
entre a vassoura e a solução deste caso, não espere que
eu me mostre muito sociável.
-Nunca o espero.
- Ficámos entendidos?
- Perfeitamente.
Sellers saiu e Bertha foi atrás dele. Acompanhou-o
à porta e só a fechou, quando o viu entrar no elevador.
Então virou-se para trás e ordenou a Elsie Brand:
- Telefone para a garagem onde guardo o meu carro.
Depressa, Elsie.
Elsie rodou os dedos rapidamente no disco do telefone
e anunciou:
- Aqui a tem, Mrs. Cool.
Bertha pegou no telefone e informou:
- Daqui fala Mrs. Cool. É um caso de emergência.
Têm aí um rapaz, de serviço, que possa vir entregar-me
o carro?
- Sim, Mrs. Cool, mas porquê? Fica só a meio quarteirão
do escritório.
- Pois fica, mas não quero receber o carro aqui à
porta. ,
- Estou a perceber.
- Vou descer a rua, até à Seventh Street, e aí tomarei
um autocarro da linha Oeste. Deixo o escritório neste
mesmo instante. Quero que o seu empregado me apanhe
na rua, seguindo lentamente, ao longo da Seventh Street.
Achar-me-á, mais ou menos, entre a Grand Avenue e a
Figueiroa Street. Logo que me vir, parará só o tempo de
eu saltar para o banco de trás e continuará por mais dois
ou três quarteirões. Então passar-me-á o volante e voltará
para a garagem de autocarro. Entendeu?
- Sim, Mrs. Cool.
- É esse o género de serviço que aprecio - elogiou
Bertha. - Saio já.
- O carro sairá daqui, dentro de três minutos.
- Leve cinco. Quero certificar-me de que o campo
está livre e não haja desencontros.
Bertha desligou, agarrou no chapéu, enfiou-o na cabeça
e ordenou a Elsie Brand:
- Feche o escritório às cinco horas em ponto. Se
alguém lhe perguntar onde me encontro, responda-lhe
que não sabe, que supõe que fui falar com uma testemunha.
Não esperou que Elsie dissesse qualquer coisa e
correu para o ascensor. Apressadamente, palmilhou a rua
até à paragem do autocarro da linha Oeste, entrou no
primeiro que passou e apeou-se entre a Grand Avenue e
a Figueiroa Street. Aparentemente ninguém olhou para
ela, senão de relance, e não viu carros suspeitos nem
transeuntes interessados nos seus movimentos. Esperou
dois minutos assegurando-se de que não era seguida nem
espiada, até que viu o rapaz da garagem conduzindo o seu
carro, lentamente, no meio do tráfego. Fez-lhe um sinal,
enfiou pela porta traseira, mal ele a abrira, de dentro, e
indicou-lhe:
- Siga em frente.
O arranque do carro fê-la desequilibrar-se no encosto.
Endireitou-se e logo a seguir informou:
- Quero que volte à direita, na Figueiroa. Volte à
esquerda, na Wilshire, siga em frente durante quatro ou
cinco quarteirões, volte novamente à esquerda e pare a
meio do quarteirão.
Enquanto o empregado cumpria as suas instruções,
Bertha tirou um espelho da bolsa e começou a arranjar
o rosto. Através do vidro da retaguarda vigiou, por meio
do espelho, todos os carros que a seguiam, até se assegurar
de que ninguém se preocupava com ela. Quando o
rapaz virou à esquerda, na Wilshire, Bertha mandou-o
parar, saiu do carro e disse:
- Muito bem! Agora tomo conta dele. Você vai até à
Seventh Street e apanha um autocarro. Há uma paragem
mesmo à esquina.
Bertha estendeu-lhe dez cêntimos mas, vendo a expressão
com que ele a fitou, juntou-lhes mais vinte e
cinco.
- Obrigado, Mrs. Cool.
A resposta de Bertha pareceu um rugido sufocado.
Sentou-se ao volante, puxou as saias para cima, até sentir
os joelhos livres, ajustou o espelho retrovisor e esperou,
atentamente, cinco minutos. Então, descreveu uma volta
em U e regressou à Wilshire; virou à direita, para a Figueiroa,
depois à esquerda, desenhou um oito, em volta
de dois quarteirões e, finalmente, dirigiu-se à Union Station.
Arrumou o automóvel, entrou na estação, olhou em
volta perscrutadoramente, e voltou para trás. Retomando
o carro, desceu a Macy Street.
Já a caminho de São Bernardino, Bertha Cool estava
moralmente certa de que ninguém a seguira. Chegou a
Pomona, no momento em que as lojas começavam a
fechar, e fez uma breve paragem, apenas para comprar
uma mala barata, mas avantajada, um vestido de saia e
casaco que serviria a uma mulher alta e magra, um
casaco comprido de tecido leve e preço módico e um
chapéu de abas largas, fora de moda. Juntou esta nova
mala à que trazia no porta-bagagem e partiu.
Quando chegou a São Bernardino, teve o cuidado de
certificar-se de que não era seguida, antes de arrumar
o carro em frente do hotel. Tocou a buzina para chamar
a atenção do bagageiro, entregou-lhe as malas, no balcão
da recepção, registou-se como sendo B. Cool, de Los
Angeles. Pediu um quarto interior, mais económico, e
deram-lhe o 214. Estudou a sua localização e objectou
não gostar dela, pelo que acabou por escolher o 381.
Explicou então que teria de fazer um telefonema para
confirmar se deveria ficar ou não na cidade, pelo que
desejava, entretanto, lhe guardassem na portaria a mala
já usada, até saber se a faria subir ou se viria buscá-la.
Declarou desejar pagar, de qualquer maneira, um dia
adiantado. Entregou o dinheiro, com visível sacrifício,
guardou, cuidadosamente, o recibo e consentiu que o paquete
transportasse a mala nova. O rapaz desempenhou
magnificamente o seu papel, abrindo as janelas, acendendo
as luzes, correndo cortinas e verificando se havia
toalhas limpas nos toalheiros.
Bertha deixou-se ficar junto da cama, observando as
actividades do diligente paquete e, quando este terminou
o espectáculo, acercando-se dela com um sorriso de evidente
intenção, não teve outro remédio senão extrair da bolsa uma moeda de dez
cêntimos e espetá-la na mão do
rapaz. Como o sorriso deste se mantivesse tão estendido
como a mão, Bertha, após um momento de hesitação,
juntou-lhe mais cinco cêntimos. Compreendendo que daquela
cliente não levaria mais nada, o paquete inquiriu:
- Deseja mais alguma coisa?
- Nada. Vou tomar um banho e descansar um pedaço.
Por favor dê lá em baixo recado de que não quero ser
incomodada de forma alguma, nem sequer receber telefonemas.
Pendurando do lado exterior da porta o letreiro «Não
incomodar», apagou as luzes, saiu para o corredor, fechou
a porta à chave e, carregando com a mala recentemente
adquirida, procurou as escadas e subiu-as até ao quarto
andar, imediato, onde procurou o quarto 420. Também ali
estava dependurado um idêntico letreiro «Não incomodar».
Bertha bateu levemente.
- Quem é? - ouviu-se a voz de Kosling perguntar.
- Mrs. Cool.
Ouviu o tactear da bengala, o som de correr os
fechos de segurança e deparou-se-lhe um Kosling mais
velho e abatido, recortado na abertura da porta.
- Queira entrar.
Bertha penetrou no aposento, onde pairava o cheiro
de ocupação humana. O cego fechou a porta e ela exclamou:
- Meu Deus! Abafa-se aqui dentro! Você tem todas
as janelas e cortinas fechadas.
- Bem sei. Tinha medo de que alguém me visse.
Bertha dirigiu-se para as janelas, correu as cortinas,
levantou os estores e abriu as vidraças.
- Ninguém pode vê-lo. Este quarto é interior.
- Desculpe - disse o homem numa voz paciente.
- É o inconveniente de ser cego. Nunca podemos saber
se não haverá uma outra janela, em frente da nossa,
mesmo sendo um quarto interior.
- Tem razão - concordou Bertha. - Como conseguiu
saber o que se passava?
- Estava a ouvir música, no rádio, quando começaram
a dar o noticiário. Foi então que soube o que sucedera.
- E o que fez?
- Telefonei-lhe.
- E esteve aqui todo esse tempo, até decidir telefonar-me?
- Sim.
- Porquê?
- Porque Bollman assim me aconselhou.
- Bollman! - admirou-se Bertha. - Muito bem, conte-me
tudo o que aconteceu.
- Não tenho nada para contar. A senhora é que deve
informar-me do que se passa.
- Diga-me primeiro tudo quanto sabe.
- Bem, eu tenho um motorista, isto é, não sou só eu
mas somos vários a utilizarmos os seus serviços...
- Sei disso - cortou Bertha. - Comece por relatar
como foi que contactou com Bollman.
- A primeira vez que veio ter comigo, não sabia
quem ele era. Deitou cinco dólares na lata, um após
outro e...
- Também sei disso. Conte o resto.
- Como é natural, fiquei a lembrar-me dele pelo som
dos seus passos e pelo odor peculiar do seu tabaco,
bastante desagradável.
- Está bem, lembrou-se dele. E depois, quando tornaram
a encontrar-se?
- Ontem.
- Quando?
- Por volta do meio-dia.
- Que aconteceu?
- Veio a minha casa, por volta do meio-dia e
disse-me: «Você não sabe quem eu sou, mas desejo
fazer-lhe algumas perguntas. Se responder correctamente,
pode fazer um bom negócio.» Ele pensava que eu não
sabia quem ele era e eu não quis dar-lhe a entender que
o reconhecera como sendo a pessoa que me deitara os
cinco dólares na lata. Se alguém não deseja ser identificado,
faço-lhe sempre a vontade. Portanto limitei-me a
sorrir e perguntei-lhe:
- Muito bem, que deseja?
Então ele falou-me de si e inquiriu se eu a tinha contratado
para fazer uma investigação. Naturalmente não
me alarguei muito e mostrei-me vago nas respostas. Não
gosto de falar nos meus assuntos privados a pessoas
estranhas e eu só o conhecia por ter deitado o dinheiro
daquela única vez. Respondi-lhe que se quisesse saber do que se tratava, bastar-lhe-ia pôr-se em contacto consigo.
- E depois?
- Disse-me que a jovem que me mandara um presente
desejava falar comigo mas que, infelizmente, não
podia deslocar-se até mim, pelo que muito apreciaria se
eu pudesse ir até onde ela se encontrava. Disse-me que
poderíamos almoçar juntos e que depois, me levaria ao
encontro dela e, finalmente, me conduziria a casa.
- Adiante, adiante.
- Talvez a senhora não imagine como é aborrecida
a vida de rotina que levamos. É um tipo especial de solidão.
Vivemos numa grande cidade, ouvimos a multidão
passar por nós e conhecemos algumas pessoas pelos seus
passos e vozes, quase como se as pudéssemos ver, mas,
trocar algumas palavras, não é conversar. Quando nos
falam, limitam-se a trocar connosco algumas expressões
de simpatia. Às vezes até preferíamos que não falassem.
Bertha anuiu com um gesto de cabeça, mas lembrando-se
de que Kosling não podia vê-lo, murmurou:
- Compreendo. Continue a relatar-me os factos, tão
pormenorizadamente quanto puder.
- Como é natural, aproveitei essa oportunidade de
quebrar a rotina e gozar um pouco de companhia humana.
Bertha, mudando bruscamente de assunto, comentou:
- Você trazia uma data de «massa» quando veio ao
meu escritório. Essa actividade a que se dedica é lucrativa?
Kosling sorriu.
- Acontece que a mendicidade permite acumular
alguns lucros. Não temos escrita contabilística e estamos
livres de qualquer espécie de encargos comerciais, nem
pagamos impostos. Ao fim de algum tempo podemos
alcançar a nossa independência.
- Nesse caso, por que razão continua a ir sentar-se
no seu banquinho, a mendigar, se já não tem verdadeira
necessidade disso?
- Simplesmente por uma necessidade de companhia,
para poder sentir-me fazendo parte das coisas que
me rodeiam. Comecei a pedir quando não tinha outra
alternativa. Não possuía qualquer educação ou instrução
especial e não podia conquistar amigos entre as pessoas
com que gostaria de conviver.
- Desculpe, Kosling, mas custa-me a crer que todo
o seu dinheiro provenha da mendicidade. Houve mais
alguma coisa?
- Bem, sim. Mas isso é uma longa história.
- Faça-a mais curta.
- Havia um homem que se mostrava bastante generoso
comigo, alegando que eu lhe dava sorte. Certo dia
deu-me algumas acções de uma companhia de petróleo
do Texas. Limitou-se a enfiar um certificado dessas
acções na minha lata. Eu não podia ler. Aceitei a sua palavra
como verdadeira e pu-las de parte. Para falar sinceramente,
ao fim de algum tempo, esqueci-me delas, até
que um dia, outro homem veio ter comigo declarando que
andara à minha procura, mas que eu não respondera às
suas cartas. Para abreviar, parece que tinham encontrado
petróleo, rios dele, nos terrenos a que o meu certificado
de acções se referia. O homem fez-me uma oferta e eu
não vendi. Preferi guardá-las. Isso passou a dar-me uns
juros certos, todos os anos, e como não posso assinar
cheques nem manipular uma conta bancária, trago sempre
o dinheiro comigo. Gosto de senti-lo aqui. Quando se não
é fisicamente normal, o facto de sentirmos uma avultada
soma de dinheiro connosco dá-nos maior segurança. Um
rolo de notas das grandes fortalece o moral.
- Estou a ver, mas falemos de Bollman.
- Fomos almoçar muito cedo. Conversámos um
pouco e ele informou-me de que a rapariga que desejava
falar comigo estava fora da cidade. Tinha combinado
levar-me a vê-la, por volta das duas horas. Eu não tinha
qualquer motivo para desconfiar dele, sentei-me no carro
e deixei-me conduzir.
- Falaram acerca de quê?
- Coisas várias, filosofia, política... um pouco de
tudo.
- E do acidente de automóvel?
- Mencionou-se o caso.
- Acerca do trabalho que eu fizera para si?
- De uma maneira geral. Nessa altura ele já ganhara
a minha confiança.
- E quanto aos presentes que você recebeu da Josephine?
- Também lhe falei neles.
- E depois?
- Trouxe-me para aqui. Nem sequer sabia em que
cidade me achava. Disse-me que precisava de fazer alguns
telefonemas e pediu-me que esperasse no carro. Assim
fiz. Voltou, mostrando-se muito decepcionado e explicando
que só à noite, bastante tarde, ou no dia seguinte, poderia
encontrar-me com Miss Dell. Acontecera qualquer coisa e
ela lamentava imenso o que estava a suceder comigo.
Teríamos ainda tempo de jantar e Bollman trouxe-me para
este quarto. Comemos qualquer coisa e ele despediu-se,
justificando ter algumas coisas a fazer, pelo que viria
buscar-me de manhã. Tenho um relógio pelo qual posso
saber as horas. Tiro-lhe a lente e verifico a posição dos
ponteiros com os dedos. É a única maneira que me permite
avaliar o tempo, quando estou isolado. E tenho de
tomar certa atenção para não confundir, por exemplo, as
onze horas da manhã com as da noite. Dormi até às nove;
então acordei, levantei-me e esperei; depois tomei um
banho, vesti-me e tornei a esperar. Este quarto era-me
estranho, pelo que tive de explorá-lo. Fixei o local de
todos os objectos e houve uma coisa que me aborreceu.
Não consegui saber se as luzes do tecto estavam acesas
ou apagadas. Não me recordava se Bollman as acendera,
quando tínhamos entrado, ainda com luz do dia a avaliar
pela hora. Ora um homem abomina estar a dar espectáculo
e, como não sabia se havia um quarto fronteiro ao meu,
por cuja janela pudessem observar-me, fechei as persianas
e corri as cortinas. Quando achei que já era tarde,
peguei no telefone e pedi que me ligassem ao quarto de
Bollman. Responderam-me que não estava ninguém registado
no hotel com aquele nome. Isso aborreceu-me. Não
tinha comido coisa alguma, mas hesitei em encomendar
o pequeno-almoço, que, de resto, é refeição que nunca
tomo. Liguei o rádio, pus-me a ouvir música e creio que
adormeci. Quando acordei fiquei preocupado com a ausência
de Bollman. Subitamente o programa musical deu lugar
ao noticiário e foi então que soube do que lhe acontecera.
Quanto a mim, não sabia que fazer.
- E decidiu telefonar-me?
- Só depois de decorridas cerca de duas horas. Sentia-me
completamente perdido, abandonado.
- Nunca saiu deste quarto?
- Não, nem mandei vir comida. Limitei-me a colocar
lá fora o letreiro para não ser incomodado e verifiquei que
as letras, ligeiramente em relevo, estavam viradas para
o exterior. A Rádio anunciava que a Polícia andava à minha
procura e...
- Agora vamos a esse assunto. Por que razão você
não quer que a Polícia o encontre?
- Não me importo que me descubram, mas só depois
de a senhora, Mrs. Cool, ter averiguado o que realmente
aconteceu. Segundo o relato da Rádio, a armadilha fora
postada em minha casa, na intenção de matar-me, a mim.
- Parece que foi montada por um cego.
- Como sabe isso?
- Pela maneira como foi armada. O sargento Sellers
informou-me acerca das conclusões da Polícia. Estão
quase certos de que foi um cego o autor do aparelho que
matou Bollman.
- Não posso acreditar que isso seja possível. Nenhum
dos meus associados seria capaz de uma coisa
dessas.
- E quanto a uma outra pessoa qualquer?
- Não. Os meus associados conhecem a minha casa
assim como os outros que vão ao clube e que não são
cegos. Um deles não tem as duas pernas e um braço.
Cegos somos só sete.
- Isso deixa seis de fora. Eles estão realmente familiarizados
com a sua casa?
- Sim, todos têm lá estado e conhecem «Freddie».
- Quem diabo é «Freddie»?
- É o meu morcego domesticado.
- Ah! Já percebo. Tem-no há muito tempo?
- Há já bastante tempo. É por causa de «Freddie»
que deixo a porta entreaberta.
- O sargento Sellers pensa que a armadilha foi montada
por um cego. Isso deixa-nos perante seis suspeitos,
não é assim?
- Suponho que sim.
- Porque teria Bollman ido a sua casa?
- Não posso fazer a menor ideia. Deve ter lá ido,
mal me deixou aqui, no hotel.
- Exactamente! - aprovou Bertha, interessada. Isso
explica que ele planeara tudo com antecedência.
- Com que antecedência?
- Não sei, mas certamente antes de tê-lo trazido
para aqui. Arquitectara já a coisa em Los Angeles.
-Porquê?
- Só antevejo uma razão. Foi qualquer coisa que
você lhe disse, em Los Angeles, que o levou a considerar
importante ir a sua casa. Por isso o trouxe para longe.
Restam apenas dois objectos que me causam estranheza.
- Quais são?
- As flores e a caixa-de-música.
- Oh! Espero que nada tenha acontecido à caixa-de-música.
- Não lhe deve ter acontecido nada. Diga-me uma
coisa, Kosling: falou a Bollman acerca do seu morcego
domesticado?
- Não me lembro.
- O «Freddie» vive sempre lá em casa?
- Sim. É-me muito afeiçoado. Quando entro, vem
esvoaçar junto do meu rosto e poisa-me no pescoço.
Gosto muito de morcegos, já que não posso ter um cão
ou um gato.
- Porque não?
- Porque não podem bastar-se a si próprios e eu
não posso tratar deles. Dão muito trabalho, se realmente
gostamos de animais. Não devemos tê-los sempre fechados
e temos o problema da sua alimentação. Depois, se
se trata de um cão somos obrigados a dar-lhe algum exercício
e, com o perigo do trânsito, não o podemos soltar,
o que nos força a caminhar bastante. Com um gato
há o problema de o deixarmos sair e... sabe como é...
com um morcego não há quaisquer dificuldades. São auto-suficientes.
Há um bosquezinho, nas traseiras, e
«Freddie» vivia lá. Depois começou a entrar-me dentro
de casa e a caçar-me os insectos que poisavam nas paredes,
creio eu. A pouco e pouco habituou-se à minha presença
e aproximou-se de mim sem receio. Um dia consegui
acariciá-lo e, bem... domesticou-se, ficando a viver
lá dentro, que é mais abrigado do que as árvores. Deixo-lhe
a porta aberta de forma que pode ir auto-abastecer-se
e viver à sua maneira, livremente. Volta sempre...
Bertha mudou de assunto, abruptamente, e inquiriu:
- Você disse a Bollman que eu conseguira localizar
Josephine Dell a seu pedido?
- Sim.
- E disse-lhe que já tinha a morada dela?
- Creio que sim.
- E está certo de que também lhe disse ter recebido
a caixa-de-música e o ramo de flores?
- Sim.
- E acha que isso lhe causou um interesse especial...
uma certa excitação na voz?
- Não sei. Nada lhe notei na voz e, como sabe, não
podia ver-lhe a expressão do rosto.
- Mas certamente que houve qualquer coisa que o
preocupou. Trouxe-o para aqui e foi a sua casa buscar
qualquer coisa, ou fazer qualquer coisa. Foi então que
tropeçou na armadilha que alguém montara contra si.
- Isso é o que não consigo compreender.
Bertha olhou para o tecto e resmungou:
- Raios partam esta situação dos diabos!
- A que se refere?
- A todo este negócio exasperante. Você deve estar
na posse da informação que me falta.
- Qual é ela?
- Não sei e o diabo é você também não saber.
É qualquer coisa que não lhe ocorre agora, mas deve ter
mencionado a Bollman...
- Sobre que assunto, mais ou menos?
- Talvez sobre o acidente de automóvel.
- Julgo já lhe ter contado tudo a esse respeito.
- Ora aí está. Você julga que me contou tudo o que
disse a Bollman, mas a verdade é que ficou qualquer coisa
por contar, qualquer coisa que vale uma data de dinheiro
para uma data de pessoas.
- E agora, que vamos fazer? Pormo-nos em contacto
com a Polícia e contar-lhes a história do princípio ao fim?
- E deixar a Polícia escarrapachar tudo nos jornais?
Nem por um instante! -contrariou Bertha alarmada.
- Porque não?
- Porque estou na pista de um negócio que me vai
render cinquenta por cento de, pelo menos, cinco mil
dólares... E se você pensa que vou atirar pela janela fora
dois mil e quinhentos dólares, está maluquinho de todo.
- O que não vejo é que relação tem isso comigo?
- Bem sei que não vê! É a parte «chata» da coisa!
Vai ficar aqui sentado comigo, a falar... Só a tagarelar,
tentando reconstituir toda a conversa que teve com
Bollman... Ora comece lá.
- Mas, Mrs. Cool, eu tenho de comer qualquer
coisa... Quero ir-me embora daqui para fora e não posso...
- Qual não pode! Pode, sim senhor! - cortou Bertha
animosa. - Venha até ao meu quarto. Arranjei um traje
de mulher com que poderá disfarçar-se. Vai sair daqui
como se fosse minha mãe. Sofreu um ligeiro ataque e
caminhará lentamente, apoiado no meu braço. Não precisará
da bengala que irá na mala.
- Acha que serei capaz de me sair bem?
- Vamos tentar.
- Não seria melhor que todos soubessem... isto é,
que eu pudesse provar que estive aqui...
- Provar como?
- No caso de a Polícia me acusar de ter morto Bollman,
poderia demonstrar que estive neste hotel, enquanto
o assassinaram.
Bertha juntou os lábios, emitiu um surdo assobio de
desaprovação e exclamou:
- Macacos me mordam! Nem pensar!...
- Porque não?
- Esse seu álibi não tem ponta por onde se lhe
pegue.
- Porque não? Ser-me-ia absolutamente impossível
ter saído daqui a guiar um carro, ir a Los Angeles, matar
Bollman e regressar ao hotel.
- Não, mas a armadilha que «limpou» Bollman fora
lá posta com antecedência e, de resto, não precisaria de
guiar um carro. Qualquer outra pessoa poderia tê-lo conduzido.
- Mas se foi Bollman quem me trouxe até cá e se
partiu sozinho, quem mais poderia conduzir-me a Los
Angeles?
- É nisso que tenho estado a pensar e até me arrepio,
quando imagino quem o sargento Sellers acusará de
ter sido o seu cúmplice.
- Quem?
- Eu! - desvendou Bertha, com o desespero nos
olhos. - Dei o meu nome no registo do hotel.
XXV
Bertha Cool afastou-se da cadeira para onde fizera
subir Kosling e recomendou:
- Agora faça por manter o equilíbrio. - Tornou a aproximar-se e, depois de uma rápida avaliação, pediu:
- Agora ponha aqui a sua mão. Essa não, a outra. Isso
mesmo, segure-se, por momentos, ao candelabro. Agora
aguente-se assim um só instante. Consegue manter-se,
um pedacinho, nessa posição?
Gentilmente retirou as mãos das ancas do cego.
Este tranquilizou-a:
- Esteja descansada que não caio.
Bertha tornou a observar o efeito da sua obra, reconsiderou
quanto ao esforço que Kosling era obrigado a
fazer para sustentar-se naquela posição e decidiu:
- Não posso forçá-lo a continuar com o braço estendido
dessa maneira. Espere um segundo. Vou buscar
qualquer coisa onde apoiar-se.
Arrastou uma cadeira de costas altas, para junto
daquela que servia de pedestal ao cego e disse-lhe:
- Dê cá a sua mão. Segure-se ao espaldar desta
«calmeirona». Está firme? Agora deixe-me baixar essa
bainha.
Tirou vários alfinetes de um papel dobrado, segurou-os
entre os lábios pelas cabeças e começou a colocá-los
em redor da saia que Kosling provava. Quando
terminou a volta, deu alguns passos à retaguarda para
apreciar a bainha improvisada, rente aos pés.
- Parece-me perfeito. Agora desça daí.
Ajudou-o a pisar de novo a carpete, enfiou-lhe o
casaco do «tailleur», fechado quase até acima, passou-lhe
um lenço em volta do pescoço para cobrir a camisa e
sentou-o na borda da cama.
- Não acha que seria mais conveniente, para mim,
contactar com a Polícia? - insistiu Kosling, apreensivo.
- Quando ouvi aquela notícia na Rádio, fiquei realmente
sem saber que fazer, mas agora, quanto mais penso no
caso, sinto que seria talvez preferível...
Denunciando certa exasperação na voz, Bertha
retorquiu:
- Oiça-me com atenção, uma vez por todas: você
está na posse de uma informação que vale exactamente cinco mil dólares e desses cinco mil dólares, vou arrancar
dois mil e quinhentos para mim. Qualquer coisa que disse
a Bollman deu-lhe a «deixa». Ele foi a sua casa e caiu na
armadilha que alguém preparou para matá-lo a si. Estou
danada por descobrir que raio é que Bollman lhe ouviu
dizer, para se pôr em campo e ir ao encontro de uma
morte que lhe não era destinada. Por outro lado, se a
Polícia lhe deita as unhas, mete-o num saco de onde lhe
vai ser muito difícil sair. E cos diabos, para mim, vinte
e cinco mil «pacotes» são vinte e cinco mil «pacotes».
Percebeu?
- Mas não faço a menor ideia de que informação
foi essa!
- Também eu não - admitiu Bertha, mas você é
uma mina de oiro ambulante e, raios me partam, se não
vou andar colada a si, como irmãos siameses, até conseguir
pôr a coisa a limpo. Está a perceber?
- Estou a perceber, sim, mas...
- Pois bem, é tudo quanto você tem de perceber.
Agora vamos sair daqui, enquanto a maré está alta e não
corremos risco de encalhar. Você é minha mãe; teve um
ligeiro ataque e vamos dar um pequeno passeio. Apoia-se
em mim, caladinho e mesmo que alguém lhe dirija a
palavra, a sua única contribuição na conversa vai limitar-se
a um doce sorriso. Fixe? Vamos a isto.
Bertha deu ainda uns retoques no conjunto, enfiou
o braço de Kosling no seu e recomendou:
- Quero que siga a meu lado, tranquilamente. Não
dê a ilusão que estou a guiá-lo. Ampare-se apenas no
meu braço, como uma pessoa fraca das pernas. Entendeu?
- Creio que sim. Desta maneira? - tentou Kosling.
- Não. Parece que engoliu um espeto. Incline-se um
bocadinho sobre o meu ombro. Ora aí está! Muito bem!
Agora vamos.
Bertha guiou Kosling através da porta e fechou-a à
chave.
- Como o meu quarto fica no andar de baixo informou
-, teremos de descer um lance de escadas.
É capaz de fazê-lo?
- Certamente.
- Pois, pois, mas cuidado com a saia. Desci a bainha
e está apenas segura com alfinetes. Embora quase arraste no chão, é necessário que dê passos muito curtos, pois
não quero que lhe vejam os sapatos. Atenção aos degraus.
Atingiram sem novidade o terceiro andar. Aí Bertha
compôs o chapéu que enfiara na cabeça de Kosling,
levou-o ao longo do corredor e, quando, por acaso, o
ascensor parou nesse andar, antes que ela tivesse tocado
a campainha, aconselhou com carinho:
- Cuidado, mãe, não tropece... - e virando-se para
o ascensorista, solicitou: - Desça devagar, por favor.
O rapaz riu-se:
- Oh, «madama», esta coisa só tem uma velocidade,
como a lesma.
Chegaram ao átrio e o recepcionista saudou solicitamente
a «mãe» de Bertha, que, por instinto, sorriu.
O ascensorista que acumulava as funções de paquete
abriu a porta do hotel, enquanto o porteiro que se achava
no exterior abria a porta do carro. Bertha, cuidadosamente,
ajudou a «mãe» a sentar-se, aconchegando-lhe a
saia, de forma a ocultar-lhe os sapatos; deu aos amáveis
servidores o benefício de um sorriso, sentou-se ao
volante e arrancou.
- Para onde vamos! - perguntou Kosling.
- Para Riverside -elucidou Bertha. - Instalar-nos-emos
num hotel, em dois quartos anexos.
Começava a escurecer. Bertha acendeu os faróis e
abrandou a marcha. Chegados a Riverside, dirigiram-se
para um dos mais velhos hotéis, onde Bertha escolheu
dois quartos com casa de banho comum, registando-se
como Mrs. L. M. Gushing e filha. Com extremoso carinho,
enfiou a «mãe» num dos quartos, a coberto de vistas
alheias e a salvo.
- Agora - anunciou Bertha, toca a falar.
Ao cabo de uma hora, quando Kosling achou que já
tinha falado tudo e uma fome danada, Bertha encomendou
um almoço, para dois, a ser servido no quarto. Uma hora
mais tarde, saiu, procurou uma cabina pública e ligou
para o hotel de São Bernardino.
- Daqui fala Mrs. Cool - informou. - O que eu
receava que acontecesse, aconteceu. Minha mãe sofreu
novo ataque. Não poderei, tão cedo, voltar aí. Por favor
guardem a minha mala na arrecadação, até que eu possa
ir buscar as minhas coisas. Já paguei a conta, adiantadamente, e podem verificar que não fiz telefonemas, nem
despesas extras.
O recepcionista assegurou a Bertha que lamentava
profundamente a natureza do motivo que a impedia de
regressar ao hotel e fez os seus melhores votos para
que a mãe se restabelecesse rápida e completamente,
afirmando que não teria que preocupar-se com a segurança
da mala deixada em depósito.
Bertha agradeceu-lhe, voltou para o hotel e, durante
mais duas horas bombardeou Kosling com perguntas,
tentando extorquir-lhe o pormenor informativo, numa
monótona repetição sem resultado.
Finalmente o cego manifestou-se exausto e irritado.
- Já lhe disse tudo quanto sabia. Não tenho mais
nada para relatar-lhe e vou dormir. Desejava nunca a ter
visto na minha vida e nunca me ter interessado naquela
rapariga. Na verdade...
Neste momento a sua voz tornou-se amargurada e
Kosling calou-se como se se arrependesse antecipadamente
daquilo que ia proferir.
- Na verdade, o quê? - saltou Bertha inquiridoramente.
- Nada.
- Diga lá o que estava a pensar.
- Oh! Nada, excepto que fiquei desapontado com ela.
- Com Josephine Dell?
- Sim.
-Porquê?
- Pela simples razão de que nunca mais parou junto
de mim, nem sequer para me dizer «olá».
- Estava a trabalhar noutro lugar - justificou
Bertha. - Enquanto Harlow Milbers viveu, ela trabalhava
no velho edifício da esquina e tinha de passar por si, à
ida e vinda do escritório, mas depois de o patrão morrer,
creio que passou a trabalhar em casa dele, para
arrumar alguns assuntos...
- Continuo a não perceber porque não veio ver-me.
- Mas mandou-lhe um lindo presente, não é verdade?
Até dois se fizermos bem as contas.
- Exactamente! Essa caixa-de-música... Ela sabia
quanto isso significava para mim! Mais uma razão para
permitir-me que eu lhe agradecesse pessoalmente.
- Porque não lhe escreveu?
- A minha caligrafia não é boa e não posso escrever
à máquina. Tenho dificuldade em redigir com um
lápis e...
- Então, porque não lhe telefonou?
- E fi-lo. Essa é que é a questão. Mas ela não quis
perder tempo comigo.
- Alto lá! - interrompeu Bertha, excitada. - Aí está
uma coisa que você não me tinha dito. Ela não queria
perder tempo consigo?
- Sim. Telefonei-lhe e não estava. Atendeu uma
mulher a quem expliquei quem eu era. Respondeu-me que
Miss Dell estava ocupada naquele momento, mas que eu
podia deixar-lhe qualquer recado. Disse-lhe que desejava
agradecer-lhe os presentes que me enviara e que ficaria
junto do telefone de onde fazia a chamada, até Miss Dell
poder comunicar comigo. Dei-lhe o número.
- E depois?
- Bem, esperei, esperei, mais de uma hora! E ela
não telefonou.
- Para onde foi que telefonou? Para casa dela?
- Não, para a residência desse tal Milbers, para
quem tinha trabalhado.
- Como diabo descobriu esse número de telefone?
- Foi ela que mo deu.
- Quando parou para falar-lhe, na rua, uma das
vezes?
- Sim.
- Não tiveram muita oportunidade para estabelecerem
uma íntima amizade - comentou Bertha meditativamente.
- Falámos bastante, um com o outro, embora só
trocássemos breves palavras de cada vez. Ela era um
dos meus melhores momentos de alegria, senão o único
que eu tinha, durante o dia e... ela sabia-o. Por isso,
quando vi que não me telefonava tornei a ligar para lá,
uma outra vez. A pessoa que me atendeu quis saber
quem eu era e declarou-me que ela estava ocupada nesse
momento. Lembro-me de ter querido fazer espírito e
respondi ser um homem que nunca a tinha visto na vida
e que não esperava jamais vê-la. Então chamaram-na ao
telefone e ela atendeu. Eu disse-lhe:
«Olá, Miss Dell.
Sou o seu amigo cego e venho agradecer-lhe a caixa-de-música
que me enviou.» Mostrou-se admirada e perguntou: «Que caixa-de-música?» Expliquei-lhe que me referia
à caixa-de-música que ela enviara ao seu amigo pedinte
e cego. Respondeu-me que apenas me mandara flores e
que estava demasiado atarefada, para perder tempo ao
telefone, e desligou. Fiquei apreensivo a pensar se o acidente
de automóvel não lhe teria afectado a memória
e depois admiti que, por qualquer razão, simulava não se
lembrar das coisas, para dar a entender a outra pessoa
que estivesse junto dela que ficara amnésica. Talvez se
tratasse de uma testemunha do acidente, para estabelecer
um acordo, ou talvez ela já soubesse...
- Um momento - interrompeu Bertha. - Está certo
de que foi ela quem lhe enviou essa caixa-de-música?
- Absolutamente! Foi a única pessoa a quem falei
no assunto e referi quanto apreciava esse género de instrumentozinho.
Convenci-me de que provavelmente ficara
mais afectada com o choque do que ela própria se apercebia
e foi então que decidi ir ao seu encontro.
- Como soou a voz dela ao telefone? - interessou-se
Bertha. - Era a sua fala habitual?
- Não. A voz parecia-me dura e entrecortada. Não
me pareceu que estivesse bem, mentalmente. E a sua
memória...
- Contou isso a Bowman? - cortou Bertha.
- O quê?
- Essa história do telefonema e da caixa-de-música
e o facto de Josephine ter perdido a memória.
- Deixe-me ver... Sim, creio que contei.
Bertha mostrou-se muito excitada.
- Ora você recebeu a caixa-de-música depois de
ela ter sofrido o acidente, não é verdade?
- Sim, um ou dois dias depois.
- E como é que o presente lhe chegou às mãos?
- Trouxe-mo um portador.
- E ele disse-lhe de que loja vinha?
- De um antiquário onde fora comprado; não me
recordo do nome. O rapaz disse-me que recebera instruções
para entregar-me o embrulho e que fora uma menina
quem deixara um depósito para que ele fizesse o recado...
- Contou isso a Bollman? A quem mais falou nisso?
- Contei a Thinwell, o motorista que costuma transportar-me.
- Macacos me mordam! - exclamou Bertha, pondo-se
de pé, num salto.
- Que aconteceu? - inquiriu Kosling, sentindo-lhe o
movimento brusco.
- É preciso uma pessoa ser estúpida e não ver o
que se mete pelos olhos dentro!
- Quem?
- Eu! - confessou Bertha, indignadamente.
- Não estou a perceber.
- A caixa trazia uma etiqueta, qualquer indicação
da casa onde fora comprada?
- Como quer que saiba? Só tenho consciência da
natureza das coisas através do tacto. É estranho que me
pergunte se falei a mais alguém nesse assunto. Bollman
fez-me a mesma pergunta.
- E você disse-lhe que contara o facto a Thinwell?
- Sim. Tenho um médico amigo e Thinwell sugeriu
que eu devia procurar Miss Dell, pessoalmente, com esse
médico para que a examinasse, mas que deveria primeiro
assegurar-me se fora efectivamente Miss Dell quem me
ofertara a caixa-de-música. Thinwell achava que devia
ter sido outra pessoa quem ma enviara, mas eu não vejo
quem pudesse ser, e não falei a mais ninguém no assunto.
- Não havia um cartão com uma nota a acompanhar
a caixa?
- Não. A nota vinha com as flores. A caixa foi entregue
tal e qual como lhe contei.
Bertha começou a andar para a porta, parou excitada,
voltou para trás, e bocejou deliberadamente.
- Bem, afinal de contas você deve estar cansado.
Que diz a irmos repousar um pouco?
- Que foi que descobriu naquilo que eu disse que
a deixou tão excitada? - perguntou Kosling, desconfiado.
- Nada. Por um momento, pensei que havia qualquer
coisa, mas... - interrompeu-se para tornar a bocejar
audivelmente, não passou de um falso alarme. Não
sabe quanto é que ela pagou pela caixa?
- Não, mas calculo que lhe tenha saído muito cara.
É uma peça muito bonita e tem uma espécie de pintura
a óleo na tampa.
- Alguém lhe descreveu o que estava pintado?
- Não, mas senti-o com os meus dedos.
Bertha soltou um outro bocejo prodigioso.
- Bem, vou para a cama. Quer ficar a dormir até
tarde?
- Sim, se puder ser.
-Nunca me levanto antes das nove, nove e meia declarou
Bertha. - Então, até amanhã.
Conduziu Kosling ao quarto anexo, ajudou-o a despir
o trajo feminino, guiou-o através do aposento e da casa
de banho, para que se familiarizasse com o local e disposição
dos objectos e tirou a bengala da mala, colocando-a
junto da cama do cego para que ele pudesse tê-la à mão.
Finalmente, despediu-se:
- Boa noite e durma bem. Vou também «ferrar» no
sono.
Voltou para o seu quarto, fechou a porta à chave,
deslizou suavemente sobre a carpete, saiu para o corredor
e entrou no ascensor. Minutos depois, guiava o carro
ao longo da estrada para Los Angeles.
Só quando passou por Pomona se apercebeu, subitamente,
de que estava a fazer exactamente o que Jerry
Bollman fizera vinte e quatro horas antes e, provavelmente,
com o mesmo propósito. E, neste momento, Bollman
jazia numa sepultura.
XXVI
A ocultação de luzes estava em vigor junto da costa.
Ao atingir o alto de um outeiro, Bertha apagou os faróis
e arrastou-se à luz dos mínimos, durante cerca de um
quilómetro, a trinta à hora. Parou o carro junto da curva
do quarteirão onde vivia Kosling, extinguiu as luzes, desligou
o motor e escutou. Nada se ouvia, a não ser os
últimos ruídos da noite e o cantar dos grilos, o longínquo
coaxar das rãs e outros sons misteriosos da Natureza
que nunca se ouvem nas cidades populosas.
Tirou a lanterna da bolsa e, com a ajuda do pálido
luar, encontrou o caminho até à casa. Experimentou a
fechadura e verificou que não se abria. Com certa dificuldade
centrou a luz no buraco da fechadura e notou que
não havia chave do lado de dentro. A Polícia deveria ter
colocado um ferrolho, ou simplesmente fechado a porta
e levado a chave.
Então, decidiu-se. Tirou da bolsa um molho de chaves-mestras, que em seu poder constituía uma transgressão
perigosa, e começou a servir-se dele. Quando Bertha
desejava intensamente uma coisa, nada havia que a
fizesse recuar. À terceira tentativa achou a chave que
lhe franqueou a porta. Empurrou-a, aguardou alguns instantes
do lado de fora, perscrutando o interior, e assegurou-se
de que nada insinuava uma ameaça. Então, ouviu
um som. O facho de luz da lanterna não descobriu algo
de anormal, embora, instintivamente, ela o desviasse para
o lado esquerdo no intuito de verificar se ainda lá estava
a mancha sinistra na carpete. Estava.
Arrepiada, desviou a lanterna e subitamente pressentiu
uma coisa que avançava na sua direcção. Tentou
detectá-la com a luz, mas logo os pequeninos dedos se
lhe fixaram na garganta.
Bertha saltou para trás, sacudiu os braços, em frente
do rosto e levou a mão ao pescoço, onde já não encontrou
coisa alguma. O seu grito irreprimível ainda mais a aterrorizou.
Teve então consciência de que tinha de recuperar
a serenidade. Ouviu esvoaçar em sua volta e com a lanterna
projectou, por um instante, a sombra do morcego
na parede.
- «Freddie»! - exclamou. - Maldito morcego.
Percorreu todo o aposento com a luz avermelhada e
certificou-se de que não havia qualquer engenho mortífero.
Mesmo assim não conseguia libertar-se da ideia
de que poderia existir um perigo invisível. Tornava-se-lhe
agora evidente o que teria acontecido na noite fatídica:
Bollman entrando na casa, apressado, para apoderar-se
da caixa-de-música e sair de lá, antes que alguém se
apercebesse da sua incursão; depois, embatendo no arame
da armadilha que lhe enviara a bala fatal.
Bertha procurou controlar-se e evitar esse erro de
precipitação. A casa estava bem mobilada, embora modestamente.
Kosling possuía seis confortáveis cadeiras de
braços, estofadas, certamente para receber os seus amigos.
Estavam dispostas em volta de uma mesa redonda.
Na parede via-se um armário de portas de vidro, sem
qualquer livro lá dentro e, sobre a mesa, também não
havia revistas. Numa prateleira, junto da janela, um
objecto atraiu-lhe vivamente a atenção. Avançou para ela
e logo os seus dedos ávidos o seguraram. Com uma concentração
quase microscópica, Bertha analisou a caixa-de-música no seu mais pequeno pormenor. A pintura da
tampa fora envernizada, mas sob a camada de verniz
distinguiam-se ínfimos pedacinhos de tinta que haviam
já caído com o tempo. A madeira era de muito fina qualidade,
o trabalho perfeitamente acabado e percebia-se que
fora um objecto que alguém conservara carinhosamente,
como se fora um tesouro de família. De certa maneira,
até era de lamentar que tivesse vindo parar à posse de
um mendigo cego.
Com a luz da lanterna a poucos centímetros da caixa,
Bertha explorou-lhe a superfície exterior, onde não conseguiu
encontrar qualquer marca ou etiqueta. Desapontada,
abriu a tampa e, quase instantaneamente, a caixa começou
a tocar a melodia das «Campânulas da Escócia»,
enchendo a sala com a sua suavidade.
Mesmo por debaixo da tampa encontrou o que procurava.
Fora aí colada uma pequenina etiqueta oval com
o indicativo: «Britten G. Stellman, Antiguidades Raras».
Tornou a poisar a caixa no seu lugar e a tampa, ao
fechar-se, extinguiu as notas musicais. Então Bertha voltou-se,
dirigiu-se para a porta, mas reconsiderou, tornou
atrás e, cuidadosamente, apagou as impressões digitais.
Depois virou o foco luminoso para a porta e notou que
a escuridão que a envolvia dava-lhe a impressão de que
vários seres invisíveis se lhe aproximavam, procurando
agarrá-la. Tornou a ouvir esvoaçar e compreendeu que o
morcego devia sentir a falta de companhia humana, mas
Bertha decidiu que não era Kosling e que devia pôr-se a
andar dali para fora, quanto antes. Correu para a porta,
mas, aí, pensou que o morcego desejaria sair para a noite.
Manteve-a aberta por momentos e esperou até começar
a duvidar se o bicho não preferiria ficar lá dentro. Começou,
então, a emitir ligeiros ruídos com os lábios, como
que a chamar um gatinho ou um pássaro e, não obtendo
resultados, exasperou-se:
- Anda cá, «Freddie», meu palerma! Vai lá para
fora. Vou sair e fechar a porta e se ficas cá dentro, arriscas-te
a morrer de sede. «Bich-bich», «Freddie»!
Talvez por tê-la compreendido, ou simplesmente por
ouvir voz humana, o morcego tornou a esvoaçar em volta
da cabeça de Bertha.
- Vai-te embora - ordenou Bertha enervada, enxotando-o com a mão. - Fazes-me nervos e se tornas a
poisar-me no pescoço, eu...
- Exactamente, matava-o - ouviu-se a voz do sargento
Sellers concluir. - Não era isso o que faria, Mrs.
Cool? Começa agora a interessar-me, finalmente.
Bertha saltou para trás como se tivesse sido picada
por um alfinete, virou-se e, à primeira tentativa, não conseguiu
descobrir o lugar onde o sargento se achava escondido.
Depois viu-o encostado a uma pequena latada, ao
canto da entrada exterior, com os cotovelos apoiados
no carril de ferro e o queixo enfiado na concha das mãos.
No sítio onde se encontrava, Sellers parecia mais baixo
meio metro de que Bertha, como uma raposa espiando um
canário.
Olhando-o de cima, Bertha arvorou um sorriso de
triunfo, enfrentando o sorriso confiante do sargento.
- Vá lá - desafiou ela. - «Desembuche».
- Assalto é um crime muito sério - observou
Sellers.
- Isto não é nenhum assalto - ripostou Bertha.
- Ah, não? Talvez a senhora tenha em seu poder
uma portaria especial ou um novo decreto do Supremo
Tribunal que altere a antiga lei, mas pelo que sei, penetrar
com chave falsa numa propriedade privada, como a
senhora fez...
- Acontece que há uma ligeira partícula legal que
parece ignorar - interrompeu Bertha. - Para que seja
considerado assalto, torna-se necessário que a entrada
com chave falsa tivesse por objectivo o cometimento de
qualquer furto, grande ou pequeno, ou outro tipo de
felonia.
Sellers pensou um momento e soltou uma gargalhada.
- Côa breca! Acredito que tem razão.
- Sei que tenho razão. Não estive associada com
o melhor cérebro de Direito deste país, durante vários
anos, para nada.
- Isso traz ao de cima uma questão interessante:
qual era a sua intenção ao penetrar nessa casa?
Bertha pensou com rapidez e explicou:
- Tinha de pôr o morcego cá fora.
- Ah, sim, o morcego! Admito que isso me iludiu.
A senhora deu-lhe um nome... «Freddie», se não me
engano?
- Exactamente.
- Cada vez mais interessante! E veio cá para o pôr
na rua?
- Sim.
- Porquê?
- Sabia que acabaria por morrer à sede, se ninguém
o pusesse em liberdade.
O sargento Sellers deu a volta à pequena latada do
canto, subiu as escadas de acesso à entrada e parou no
mesmo piso em que se achava Bertha.
- Não pretendo fazer-me engraçado, Mrs. Cool. Limito-me
a tentar ser polícia. Peço-lhe que se lembre de que
não lhe faço perguntas por um mero motivo de frívola
curiosidade, mas na minha capacidade de representante
da autoridade.
- Sei disso. Expôs a coisa com uma data de palavras
escusadas, mas percebi. Se há coisa com que
embirre é um «chui» polissilábico!
Sellers riu e Bertha comentou:
- Desde que começaram a meter universitários nas
Forças da Polícia, começaram a arruiná-la.
- Então, Mrs. Cool. Não foi tão mau como isso.
- Foi pior.
- Bem, não vamos, de momento, discutir em
abstracto as Forças policiais. Estou interessado em morcegos
e, em particular, num chamado «Freddie».
- Que quer que lhe diga acerca de «Freddie». Já
lhe expliquei o que me trouxe aqui.
- Queria libertar «Freddie». Portanto sabia que ele
estava lá dentro.
- Pensei que devia estar.
- Porquê?
- Kosling deixava sempre a porta aberta para que
ele pudesse entrar e sair. Lembrei-me de que os inteligentes
da Polícia tinham cá estado e concluí que não
deixariam de fazer a asneira de fechar a porta, com ele
cá dentro.
- Estou absolutamente certo de que o não fechámos
aí dentro. Resta-me pois concluir que entrou depois
de si, Mrs. Cool.
-Talvez.
- E que lhe meteu um grande susto. A senhora
gritou e...
- O senhor também apanharia um grandessíssimo
susto, se uma coisa viesse das profundezas da noite para
se lhe agarrar à garganta.
- E o morcego fez-lhe uma coisa dessas?
- Fez.
- É muito interessante. Sabe, Mrs. Cool, que é o
primeiro caso que conheço, em que um morcego está
directamente envolvido. Creio que é a primeira vez em
que ouço falar de um homem que possui um morcego
domesticado.
- Não é de estranhar. É ainda muito novo.
- Muito obrigado.
- E como explica - perguntou Bertha, achar-se
aí sentado à espera que eu soltasse o bicho?
- Isso - explicou Sellers -, foi uma daquelas estranhas
coincidências... Tenho andado cada vez mais preocupado
com a necessidade de corrigirmos a nossa teoria
sobre o que aconteceu naquela noite. Inclino-me para
outra, que admite a possibilidade, se não a quase certeza,
de que o seu amigo Jerry Bollman teria «apertado» com
Rodney Kosling, até lhe espremer uma informação, tão
interessante que o levou a pensar na urgência de vir até
aqui buscar qualquer coisa que pertencia ao cego. Em
vez de vir cá com ele, levou-o para qualquer lado e voltou
sozinho, para roubar o que queria. Obviamente, não
levou nada... e, se não levou coisa alguma, isso significa
que ainda cá está. O que não há dúvida é que tropeçou
numa armadilha mortal que o abateu, logo que entrou;
uma espingarda armadilhada por um cego, para matar
outro cego.
- Continue - incitou Bertha, sarcasticamente. -
Não se preocupe comigo, pois tenho «montes» de tempo.
- Então - prosseguiu Sellers, comecei a pensar
se não teria sido demasiado crédulo. Estava esta tarde
no seu escritório, quando a senhora recebeu um telefonema
interurbano...
- Que há de notável nisso? - interrompeu Bertha.
- Nunca lhe aconteceu receber telefonemas de fora da
cidade?
- Ora aí é que está - continuou Sellers, com um
brilho de triunfo no olhar. - O que foi notável foi a senhora ter recusado a chamada, antes de saber quem
falava, e tê-la mandado pagar, quando lhe disseram quem
a fazia. E mais notável ainda se me deparou a circunstância
que logo a seguir apreendi. Depois de ter desligado
o telefone, Mrs. Cool, continuámos a falar de
Rodney Kosling, durante um bom pedaço. Ora, a senhora
dissera-me que não sabia onde ele se achava, antes de
receber aquela chamada, mas não me disse que ignorava
o seu paradeiro, depois de ter desligado. Usou até de
uma forma peculiar, na construção da frase, quando me
afirmou que «respondera a todas as minhas perguntas,
com total veracidade, no momento em que lhas fizera».
Não foi assim?
O rosto de Bertha manteve-se inexpressivo e ela não
confirmou nem negou.
- Pois bem, Mrs. Cool - prosseguiu o sargento
Sellers, admito que não pensei no facto até depois
de jantar. Só então me veio à ideia uma interessante
possibilidade. Diga-se de passagem que não desejava
ridicularizar-me, perante os meus subordinados, mandando
um deles para aqui sem qualquer resultado e, por
outro lado, não gostaria de incumbir outra pessoa de uma
investigação que conduzisse a uma boa pista, quando a
inspiração fora minha. E olhe, Mrs. Cool, que se tratava
de uma interessante possibilidade: suponha que Bollman
veio aqui para buscar qualquer coisa e que, entretanto,
a senhora vinha visitar Kosling; suponha também que
descobriu o que Bollman procurava e que foi a senhora
quem ficou com o tal objecto. Concordará que é uma
hipótese deveras interessante!
- Eu não levei nada daqui - afirmou Bertha peremptoriamente. -
Não tirei nada, desta casa.
- Como compreenderá, essa é uma afirmação que
teremos forçosamente de verificar - afirmou Sellers. -
Embora me desgoste imenso fazê-lo, vejo-me na obrigação
de pedir-lhe, Mrs. Cool, que suba para o meu carro e
me acompanhe à esquadra, onde uma matrona... uma
mulher-polícia, desempenhará as funções de apalpadeira
e revistá-la-á. Se, efectivamente, se verificar que a
senhora não tirou coisa alguma, bem... nesse caso tudo
muda radicalmente de feição. Mas se, pelo contrário, se
provar que a senhora levou qualquer coisa desta casa,
certamente compreenderá que se tornou culpada de
crime de assalto. E, na condição de uma pessoa apanhada
em flagrante delito de assalto, Mrs. Cool, não
poderei deixar de ordenar a sua detenção. Ficará detida
até que nos preste um depoimento, muito claro, muito
preciso, muito completo, acerca daquilo que a senhora
anda para aí a tentar fazer.
- O senhor não pode fazer-me uma coisa dessas! protestou
Bertha, indignada. - Não pode...
- Palavra que posso - respondeu Sellers, afavelmente.
- E vou fazê-lo. Se a senhora não trouxe nada
consigo ao sair desta casa, suponho que não posso manter
de pé uma acusação de assalto, a menos que consiga
provar que entrou numa propriedade alheia com intenção
de cometer uma outra espécie de felonia. Espero que
tenha dado uma vista de olhos pela lei, antes de ter
vindo até cá, ou não?
- Por acaso não dei.
- Isso é outra faceta do seu comportamento que
teremos de verificar. Por enquanto, não sei ainda o que
vou provar contra si. Apenas me limito a detê-la e penso
que Mrs. Cool, como estudante de Direito, saberá que
qualquer atitude ou gesto seu, tendente a interferir ou
a resistir à detenção, só por si constitui crime.
Bertha Cool pensou no que Sellers acabava de expor-lhe,
fitou-o nos olhos, reconheceu a inflexibilidade dos
seus propósitos, por detrás da máscara sorridente, e
cedeu:
- O. K., ganhou!
- Vamos deixar o seu carro arrumado onde está decidiu
Sellers. - Não quero que a senhora se desfaça
de qualquer objecto, no trajecto entre este local e a
esquadra e, como ouvi a tilintante melodia das «Campânulas
da Escócia», deduzi que a senhora examinara a
caixa-de-música e lhe abrira a tampa. Torna-se evidente
que o objecto que teria subtraído da caixa-de-música,
seria de dimensões muito reduzidas e, portanto, muito
fácil de escamotear. Por essa razão, não me levará a
mal, Mrs. Cool, se eu voltar lá dentro consigo, a fim de
trazer a caixinha-de-música para a esquadra.
- Pronto, apanhou-me! Vá para diante e regale-se!
- resmungou Bertha.
- Não me regalo de maneira nenhuma. Não há qualquer
regozijo no que sou legalmente forçado a cumprir.
Trata-se de uma simples formalidade. E agora, como terá
de caminhar lá para dentro, à minha frente, Peço-lhe que
o faça de mãos no ar, de forma que eu possa vigiá-las.
Essa sua lanterna não presta para nada! Estou certo de
que vai achar a minha muito mais eficiente.
Como um projector cortando as trevas, o facho luminoso
da lanterna de cinco pilhas de Sellers iluminou brilhantemente
o caminho, até à porta do pequeno bangaló.
XXVII
A matrona escoltou Bertha até à porta do gabinete
do sargento Sellers e bateu com os nós dos dedos. Lá
de dentro, filtrando-se através da madeira da porta,
ouvia-se o tilintar melodioso das «Campânulas da
Escócia».
- Entre - autorizou Sellers.
A matrona abriu e, afastando-se para deixar passar
Bertha, indicou:
- Por aqui, queridinha.
Bertha fez uma pausa à entrada, virou-se, e mirou
a mulheraça: ambas entroncadas, com arcaboiço de
buldogue, fitaram-se hostilmente. Depois Bertha ripostou:
- Está bem, queridinha!
- Encontrou alguma coisa? - inquiriu Sellers.
- Nada - respondeu a apalpadeira.
O sargento Sellers franziu o sobrolho.
- Bem, Mrs. Cool. Não venha agora dizer que foi
até lá, apenas pelo gosto da experiência.
- Esquecem-se de «Freddie» - lembrou Bertha,
prosseguindo venenosamente: -Tem um cigarro? Aquela
sua amiga «fanou-me» o maço de tabaco.
- Oh, desculpe. Esqueci-me de devolver-lhe os
cigarros - lamentou a mulher-polícia. - Pu-los em cima
daquela...
- Não tem importância, queridinha. Fique com eles,
com os meus cumprimentos.
A matrona vislumbrou um olhar de Sellers e mostrou-se
embaraçada.
- Devia ter-me falado neles, lá em cima, Mrs. Cool.
- Não sabia que me seria necessário fazê-lo - retorquiu
Bertha. - Pensei que fosse um privilégio do seu
serviço, assim como é hábito os polícias tirarem maçãs,
ao passarem pelos tabuleiros das frutarias.
- Não preciso de mais nada, Mrs. Bell - disse
Sellers.
A matrona lançou a Bertha um olhar fulminante e
saiu calmamente.
- Sente-se - indicou Sellers, dirigindo-se a Bertha.
- Queria um cigarro, não é verdade? Aqui tem um.
Abriu um maço, ainda por encetar, e fez salientar-se
um cigarro que estendeu a Bertha. Depois extraiu do
bolsinho de lenço, um charuto molhado, cortou-lhe a
ponta empastada, meteu-o na boca, com esforço evidente
para não o acender de momento.
- ...qualquer coisa acerca da caixa-de-música começou
ele.
- Que coisa?
- Pegou-lhe, abriu-a, fechou-a e largou-a. Não tirou
nada lá de dentro. Aposto como pôs lá qualquer coisa.
Sellers pegou numa lente magnífica que estava em
cima da secretária, segurou na caixinha com enorme
cuidado e estudou-a minuciosamente, procurando uma
prova de que fora «plantado» ulteriormente qualquer indício.
Como não visse nada de suspeito, estudou a pintura
exterior e declarou:
- Creio que é isto - anunciou, apontando para o
retrato de uma jovem que ilustrava a tampa.
- O quê?
-O retrato. Não será de uma herdeira de que anda
à procura?
Bertha, sentindo-se notavelmente melhor depois da
vitória verbal que alcançara sobre a matrona, recostou-se
na cadeira e soltou uma gargalhada.
- Onde está a graça? - perguntou Sellers, calmamente.
- Estou a pensar nessa beleza do século dezanove.
Uma cara enfarinhada, com boquinha de morango, por
cima de uma «proa» volumosa, estrangulada por um espartilho
que rebentaria à primeira piada. E o senhor pensa
que fiz todo aquele trajecto, desde...
- Diga, diga - incitou Sellers, quando Bertha se
calou bruscamente. - Estava agora a interessar-me. Todo
o trajecto desde onde?
Bertha contraiu os lábios com determinação.
- Quase que mo esteve a dizer - comentou Sellers.
Bertha teve a consciência do perigo que correra.
- Todo o percurso desde Riverside - completou
ela, expirando lentamente o fumo do cigarro e alertando-se
intimamente para não se arriscar a novo deslize.
Sellers olhou para o relógio que tinha sobre a secretária
e murmurou, pensativamente:
- Duas horas menos dez. É muito tarde, mas isto
pode ser considerado um caso de emergência.
Examinou a etiqueta colada ao interior da caixa-de-música,
consultou uma lista telefónica e pegou no telefone.
- Dê-me uma linha exterior - pediu e discou um
número.
Alguns momentos depois, dizia suavemente:
- Lamento imenso ter de telefonar-lhe a esta hora.
Daqui fala o sargento Sellers do Comando-Geral da Polícia
e a razão do meu telefonema é a seguinte: estou a
seguir uma pista importante, num caso de homicídio.
Estou a falar com Britton G. Stellman? Precisava que me
informasse se se recorda de uma caixa-de-música, de
estilo antigo, com uma escala de metal e um cilindro...
e com uma paisagem num dos lados e um retrato de
rapariga no outro; toca as «Campânulas da Escócia»...
Ah, estou a ver! Lembra-se? Muito bem. Como é que ela
se chama? Josephine Dell, hem?
Durante alguns segundos, o sargento Sellers manteve-se
silencioso escutando a voz que parecia uma
mosca a zumbir no telefone. Depois fez um sumário das
informações colhidas e pediu a Mr. Stellman que lhas
confirmasse.
- Vamos lá ver se apanhei tudo bem. Essa Josephine
Dell foi à sua loja há cerca de um mês, viu a caixa-de-música,
disse-lhe que desejaria comprá-la, mas que não
tinha dinheiro suficiente para levá-la, nesse momento.
Então deixou um depósito para que lhe reservassem a
caixa, durante noventa dias. Porém, na quarta-feira passada,
telefonou-lhe a comunicar que já tinha aquela quantia
disponível e enviou-lha depois, por vale telegráfico.
Pediu-lhe que mandasse um portador entregar a caixa-de-música
a um cego, sem qualquer outro recado que não
fosse: «é um presente de uma pessoa amiga». Foi isso?
O sargento Sellers tornou a escutar o que lhe dizia
o seu informador e pediu:
- Deixe-me fazer-lhe mais uma pergunta. Lembra-se
de onde esse vale telegráfico fora expedido? De Redlands,
hem? Mas não sabe a morada de Redlands? Ah,
ela vive em Los Angeles e pensa que passou acidentalmente
por Redlands. Não sabe se ela mantém qualquer
relação peculiar com esse cego, se é parente...? Ela não
falou nisso? Só a viu uma vez, quando pagou o depósito!
Não lhe disse onde trabalhava? Estou a ver. Bem, muito
obrigado. Asseguro-lhe que a sua colaboração foi preciosa.
Sim... sargento Sellers, dos «Homicídios». A próxima
vez que passar por aí irei agradecer-lhe pessoalmente.
Entretanto, se acontecer alguma coisa relacionada
com essa venda, ficar-lhe-ia grato se me telefonasse.
Uma vez mais, obrigado... Adeus.
Sellers desligou o telefone, virou-se para Bertha
Cool e olhou-a como se a visse pela primeira vez.
- Muito esperta!--comentou ele.
- Porquê? - admirou-se Bertha.
- Aposto que aquele telefonema que a senhora teve
que pagar, esta tarde, foi feito de Redlands, não?
- Pode estar certo de que não foi - assegurou
Bertha.
- Não me leva a mal que eu faça uma investigaçãozinha
nesse sentido?
- Avance! Faça as investigaçõezinhas que entender.
- Receio, Mrs. Cool, que não esteja a compreender-me.
Durante a investigação que sou forçado a levar
a cabo, vai-me ser necessário mantê-la, a si, num local
onde possa encontrá-la, de certeza absoluta.
- Que quer dizer com isso?
- Exactamente o que disse.
- Insinua que vai manter-me sob vigilância? - perguntou
Bertha indignada.
- Oh, não! - esclareceu Sellers, como se a solução
escolhida fosse tranquilizante. - Isso constituiria
uma despesa desnecessária para os contribuintes, Mrs.
Cool. Nunca me passaria pela cabeça uma medida dessa
natureza. De resto, isso causar-lhe-ia, certamente, grandes
inconvenientes, não é verdade?
- Então que medida vai adoptar?
- Por outro lado, se a senhora andar por aí, a sirigaitar de um sítio para outro, causar-nos-á uma data de
trabalho para a encontrarmos.
- Quer dizer que vai obrigar-me a manter-me fechada
no meu escritório? - inquiriu Bertha, com crescente
indignação.
- Não, Mrs. Cool! Não seria correcto. Talvez antes
no meu.
- O quê - explodiu Bertha.
- Bem, penso que, se a senhora permanecer aqui
mais algum tempo, será ouro sobre azul e simplificará o
sistema.
- Tem pretexto legal para me manter sob custódia?
- inquiriu Bertha, com evidente hostilidade. - Não pode
fazer-me isso!
- Certamente que não, Mrs. Cool. Sou o primeiro a
reconhecê-lo.
- Então, como é? - desafiou ela, triunfante.
- Um momento, um momento - disse Sellers ao ver
que ela se pusera de pé com a nítida intenção de ir-se
embora. - Realmente não posso mantê-la sob custódia,
como suspeita de um caso de homicídio, mas tenho que
considerar o facto de a senhora ter assaltado uma propriedade
privada, esta noite, e isso é felonia.
- Mas eu não tirei nada.
- Não podemos estar absolutamente certos disso,
Mrs. Cool.
- Mas eu fui revistada.
- Pode ter-se desfeito do que tirou, durante o percurso
até aqui, e pode ter tido a intenção de cometer
felonia... crime frustrado. Como vê, Mrs. Cool, temos
«pano para mangas» nesta matéria e há ainda um par de
coisas que tenho de verificar, acerca das suas «andanças».
-Tais como?
- Por exemplo, a maneira como a senhora deixou
hoje o seu escritório. Desceu apressada, tomou um autocarro
na Seventh Street, seguiu nele até à Grand Avenue
e desceu perto da esquina. Os dois homens que eu tinha
incumbido de a seguirem convenceram-se de que se tratara
de um rebate falso. A senhora seguia a pé, portanto
na dependência do serviço de autocarros. Por precaução,
ultrapassaram-na, e mais adiante voltaram para trás, lentamente,
até que viram o seu automóvel particular rodar
na sua direcção e «pescá-la» do passeio lá para dentro.
Os meus homens não puderam virar naquele ponto da
artéria, mas ficaram certos, e eu também, de que a senhora
acabara de operar uma «manigância» para furtar-se
a qualquer vigilância... o que é suspeito, num caso de
investigação de homicídio.
O sargento Sellers premiu um botão de campainha.
Momentos depois, a matrona entrava no gabinete.
- Mrs. Bell - disse Sellers -, Mrs. Cool vai ter o
gosto de ficar connosco, pelo menos até amanhã de
manhã. Seria capaz de proporcionar-lhe todo o conforto
possível?
O sorriso da mulher-polícia denunciou um frio e
malicioso triunfo.
- Será um grande prazer, sargento - e virando-se
para Bertha, ordenou-lhe: - Venha comigo, queridinha.
XXVIII
Passos lentos e metódicos ecoaram ao longo do
corredor de chapas metálicas e Bertha Cool, incandescente
de indignação, como um ferro ao rubro, ouviu o tinir
de um molho de chaves e a introdução de uma delas na
sua fechadura. No instante imediato, a porta abriu-se
e surgiu uma outra matrona, de olhar inexpressivo, que
numa voz mortiça saudou:
- Olá!
- Quem é você? - perguntou Bertha.
- Uma funcionária.
- Que é que quer?
- Mandaram-me levá-la para o escritório.
- Para quê?
- É tudo quanto sei.
- Raios os partam! Não vou. Fico aqui.
- Se fosse você, não fazia isso - aconselhou a
mulher.
-Porque não?
- Não lhe serve de nada.
- Deixe-os vir cá buscar-me.
- Não se iluda a si própria. São capazes de vir, se
lhes der na «gana», mas se eu fosse você - tornou a matrona a aconselhar, não lhes dava esse gosto e» de
resto, também podem «esquecer-se» de si, aqui...
- Muito bem. Fico onde estou.
- Durante quanto tempo?
- Até ver.
- Não ganha nada com isso. Muitas presas têm essa
«birra», mas não perturbam ninguém com ela. Você não
pode ficar aqui eternamente e terá de sair a certa altura e,
então, vai ouvi-los rir às gargalhadas.
A funcionária falava, como se recitasse, numa voz
monótona, sem timbre nem expressão de qualquer sentimento
e como se receasse que ao falar se escoasse
grande parte da sua já ínfima vitalidade.
- Lembro-me de uma presa - continuou, brandamente,
que afirmou não sair daqui nem no dia do
Juízo Final. Eles mandaram-me deixar a porta aberta para
ela ir-se embora, quando quisesse. Ficou cá dentro toda
a manhã e só ao meio da tarde se decidiu a sair: então,
a «malta» toda recebeu-a com um «ha-ha-ha» que nunca
mais acabava.
Sem uma palavra, Bertha levantou-se da tarimba de
ferro e seguiu a matrona ao longo de um corredor que
conduzia à porta metálica, fechada à chave, de um
ascensor. Momentos depois estava num escritório, em
frente de outra matrona desconhecida que examinou uns
papéis e inquiriu:
- Esta é a Bertha Cool?
- Esta é a Bertha Cool, e é melhor que me dê uma
boa vista de olhos, porque não será a última vez que me
vê. Eu vou...
A mulher-polícia abriu um armário, tirou lá de dentro
um grande sobrescrito de papel grosso e declarou:
- Estes são os seus «pertences» pessoais que lhe
foram confiscados, ontem à noite, quando a «meteram
dentro». Por favor, Mrs... Cool, examine-os e declare se
estão aí todos.
- Vou virar este maldito lugar de pernas para o ar ameaçou
Bertha. - Ninguém pode fazer-me uma coisa
destas. Sou uma mulher respeitável, com um decente e
honesto meio de vida, e...
- Sim, mas entretanto é favor conferir os artigos
que lhe pertencem.
- Vou limpar esta cidade. Vou limpar esse sargento
Sellers de uma «figa». Vou...
- Eu sei, Mrs. Cool. Sem dúvida que fará tudo isso,
mas fora da minha secção. Aqui, só lhe peço o favor
de verificar as suas coisas...
- Pensa que será fora da sua secção, mas quando eu
começar a varrer isto tudo, verá como a coisa irá dentro
de todos os departamentos. Hei-de...
- Quando tenciona levar por diante o seu processo,
Mrs. Cool?
- Logo que possa contactar com um advogado.
- Muito bem. Ora a senhora não poderá contactar
com um advogado, enquanto estiver cá dentro e não
quiser verificar o que é sua propriedade, não será assim?
Bertha Cool rasgou o sobrescrito, espalhou as coisas
sobre a secretária, abriu a bolsa e meteu-as lá dentro,
com as mãos tremendo de fúria incontida.
- E agora? - inquiriu, raivosamente.
A matrona fez um sinal de cabeça à outra funcionária.
- Por aqui, «madama».
Bertha parou ainda, um instante, em frente da secretária
e rugiu:
- Tenho ouvido falar de muitos ultrajes perpetrados
contra os direitos de um cidadão, mas este ultrapassa...
- A senhora foi detida, na noite passada, por suspeita
de assalto a uma propriedade privada, Mrs. Cool.
Ignoro se a acusação terá prosseguimento. Apenas sei
que lhe foi concedida ordem de soltura, pendente de ulterior
investigação.
- Estou a ver! - ripostou Bertha. - Agora ameaçam-me.
Quer dizer que se eu intentar qualquer acção
judicial, vão buscar essa inventada acusação de assalto
de propriedade, não é isso?
- Não sei nada acerca disso. Limito-me a transmitir-lhe
o que está aqui escrito na sua ficha. E faço-o,
porque é do regulamento informarmos os presos, no momento
da sua soltura, quando se trata de suspeitos de
crime grave. Muito bom dia, Mrs. Cool.
Bertha não arrancou.
- Sou uma mulher de negócios. Tenho muita coisa
importante a fazer relacionada com esses negócios. Desviarem-me
dos meus afazeres, manterem-me aqui uma
noite inteira e «ferrarem-me» com uma acusação dessa
natureza...
- O seu tempo é precioso?
- Certamente que é precioso e não posso perdê-lo...
- Nesse caso, Mrs. Cool, eu não perderia mais
tempo aqui dentro.
- Ainda não me vou embora - refilou Bertha, furiosa.
- Quero deixar uma mensagem para o sargento
Sellers. Diga-lhe que o seu truque não lhe serviu de nada.
Diga-lhe que vou pôr o seu escalpe no meu cinto e...
BOM DIA!
Bertha virou-se para a porta.
- Mais uma coisa, Mrs. Cool - disse a matrona.
- Que é?
- Não consegue bater com a porta. Pusemos uma
mola automática, com essa finalidade... e muito bom dia,
Mrs. Cool.
Bertha achou-se lançada para fora da porta de barras
de aço, à luz intensa da manhã, como qualquer criminoso
vulgar. Mas sentiu que o ar fresco matinal lhe proporcionava
uma maravilhosa noção de liberdade e, quando
Bertha gostava de uma coisa, gostava mesmo. Teve a
sensação de que o dia lhe vaticinava os maiores êxitos,
como nunca lhe acontecera.
Eram oito horas e quarenta e cinco, quando entrou
no escritório. Elsie Brand abria a correspondência. Bertha
enfiou no seu gabinete, como um furacão, atirou com a
bolsa para cima da secretária e, numa voz tremente de
fria indignação, ordenou a Elsie:
- Ligue-me para o sargento Sellers. «Estou-me nas
tintas» para que ele esteja a dormir, ou na casa de banho,
ou no que quer que for! Ponha-me na linha.
Elsie apressou-se a cumprir o que lhe era indicado
e discou um número.
- Comando-Geral da Polícia? Desejava falar imediatamente
ao sargento Sellers, por favor. É muito importante.
Sim... Fala do escritório de Mrs. Bertha Cool... Um
momento, sargento. Vou ligar.
- Tenho uma coisa a dizer-lhe - começou Bertha,
iradamente. - Estive a pensar nela durante imenso tempo,
sentada no raio daquela cela. Quero apenas avisá-lo de
que vou...
- Não vá - disse Sellers, no extremo do fio, interrompendo
à gargalhada.
- Vou... - repetiu Bertha.
- Vai ficar muito quietinha - interrompeu Sellers,
segunda vez, numa voz fria de onde se sumira a vontade
de rir. - A senhora utilizou-se abusivamente das vantagens
de uma licença concedida a uma agência de detectives
e, agora, está sentada numa poltrona de dinamite.
Há muito que Donald Lam e a senhora têm andado para aí
a cortar-me as voltas. Houve ocasiões em que o conseguiram
e outras em que a coisa lhes correu mal comigo.
Como Lam é esperto, têm-se saído sempre bem das
«enrascadas», mas agora a senhora está sozinha e meteu-se
numa «alhada» superior às suas possibilidades. Foi apanhada
com a «boca na botija» a assaltar uma residência.
Tudo quanto a Polícia tem agora a fazer é informar a
Imprensa e a Rádio da acusação de felonia que impende
sobre a vossa agência e «caçar-lhe» a licença. Depois...
- Não pense que pode intimidar-me, seu vagabundo
dos diabos! - cortou Bertha, desvairada. - Só desejava
ser um homem, suficientemente «calmeirão», para ir aí
agarrá-lo pelos colarinhos, arrancá-lo dessa cadeira para
fora e puxar-lhe as compridas orelhas para a frente dos
olhos. Agora já sei como há pessoas que enlouquecem
ao ponto de cometerem um assassínio. Só queria que estivesse
aqui, para deitar-lhe as mãos aos «fagotes». Eu...
Bertha engasgou-se, espumando de raiva. Então a voz
de Sellers soou tranquilamente:
- Lamento que se sinta dessa maneira, acerca do
que aconteceu, Mrs. Cool, mas pensei ser necessário
mantê-la afastada e quietinha, esta noite, enquanto procedíamos
a algumas investigações. E o caso é que essas
investigações tiveram, como resultado, um êxito substancial
para esclarecimento do crime.
- Não dou um chavo por aquilo que vocês tenham
descoberto - trocou Bertha, ainda furiosa.
- E - prosseguiu Sellers, no caso de a senhora
estar preocupada e com pressa de voltar a Riverside, para
buscar a sua velha «mãe» que sofreu um ataque, posso
desde já poupar-lhe esse trabalho, porque a sua «mãezinha»
está aqui, neste momento, no meu gabinete. Estou
fazendo-o assinar um depoimento, relatando tudo quanto
aconteceu. Depois disso, o Procurador de Distrito lerá
este depoimento e a senhora poderá passar um novo e,
desta vez, longo período de encarceramento. Espero que,
com o tempo, Mrs. Cool, compreenda quanto custa desafiar
a lei, desrespeitar as regras judiciais, ocultar testemunhas
essenciais num processo-crime e recusar-se a
colaborar com a Polícia. Lá dentro terá imenso tempo
para pensar. A propósito, trouxemos o seu carro para
a garagem onde costuma arrumá-lo. Da próxima vez que
deseje dirigir-se a algum lado, Mrs. Cool, quando já
estiver cá fora, aconselho-a a ir directamente à garagem
buscar o carro, em vez de andar a saltar de autocarros,
pois pode magoar-se e, embora isso não seja da minha
lavra, acho que devo adverti-la de que um júri é muito
capaz de convencer-se de que essas viagens curtinhas
de autocarro e habilidades com um automóvel se destinam
a ocultar uma intenção criminosa, tal como aconteceu
quando, ontem, a senhora se dirigiu a São Bernardino.
Saiu-se muito mal, sabe? Foi mesmo muito mal! Adeus!
O sargento Sellers desligou. Desesperada. Bertha fez
duas tentativas infrutíferas para poisar o telefone no
descanso, até que o conseguiu.
- Que aconteceu? - espantou-se Elsie Brand, olhando-lhe
para o rosto.
Mas, gradualmente, a raiva de Bertha dissipava-se.
Uma reacção emocional mostrava-a agora pálida e abatida.
- Estou numa «alhada»! - murmurou, dirigindo-se
para a cadeira mais próxima e deixando-se cair no assento.
- De que se trata?
- Saí e fui buscar o cego. «Encafuei-o» num hotel e
fiquei convencida de que a Polícia era incapaz de seguir-me
a pista. Enterrei-me até ao pescoço! Agora que
me caçaram, estou bem caçada! Aquele brutamontes,
... aquele coriáceo sargento da Polícia tem razão! Meteu-me
numa barrela!
- As coisas estão assim tão más?
- Estão piores! - suspirou Bertha. - Mas, já agora,
não vale a pena parar. Temos que nos manter em movimento.
É como irmos patinar para o meio de um lago e
começar o degelo. Se paramos, é mergulho certo. Temos
pois que pormo-nos já a andar.
- Nós? Para onde?
- Eu e agora mesmo, para Redlands.
- Porquê para Redlands? Não estou a perceber.
Bertha narrou-lhe as aventuras nocturnas com a
caixa-de-música e o interrogatório de Sellers que degenerara
em prisão.
- Bem! - exclamou Bertha levantando-se da cadeira
com esforço evidente. - Não ferrei olho durante toda a
noite. Estava como doida e nunca lamentei ter perdido
peso, na minha vida, como na noite passada.
- Porquê? - perguntou Elsie.
- Porquê? Já lhe digo porquê. Estava lá uma matrona,
dura como um raio, que começou parvamente a chamar-me
queridinha. Era grande e ombruda como um estivador,
mas antes de ter-me metido a emagrecer, era
muito capaz de deitá-la ao chão e sentar-me em cima dela.
E era exactamente o que eu devia ter feito: ter-me sentado
em cima daquele lombo, durante toda a noite. Estou
numa «papa», Elsie, completamente desfeita! O que eu
devia fazer era sair daqui e ir descansar, até as coisas se
aclararem. Os tipos caçaram o cego e ele vai contar-lhes
a história toda. O Sellers tinha razão, quando afirmava
que eu devia deixar os negócios continuarem na antiga
rotina, mas a culpa foi do Donald, sempre a bulir, com
aquela cabeça espertalhona a fervilhar de ideias e a
incutir-nos maus hábitos. Olhe, Elsie, vou sair daqui,
emborcar um uísque e... bem, vou a Redlands.
XXIX
Um sol quente, abrasador, caía sobre Redlands e os
laranjais verde-escuros contrastavam com o azul-claro do
céu, sem nuvens, e com os picos róseos dos montes que
se elevavam a três mil metros de altitude acima do nível
do mar. Contudo, Bertha, roída de preocupações, não tinha
oportunidade para apreciar a beleza do cenário.
Saiu do carro, lançou-se ao longo do passeio, em
marcha acelerada, balançando os braços militarmente,
e enfiou pelo átrio do sanatório. Numa voz ligeiramente
fatigada, perguntou à enfermeira da recepção:
- Têm cá, porventura, uma Josephine Dell?
- Um momento - disse a empregada, consultando
um ficheiro e dele extraindo um cartão. - Sim. Quarto
particular dois-zero-sete.
- Está lá uma enfermeira?
- Não. Aparentemente a internada está apenas a
completar o seu período de convalescença, em repouso.
-Obrigada - soprou Bertha e, retomando fôlego,
transportou os seus setenta e cinco quilos, corredor fora,
até ao ascensor, que a levou ao segundo andar. Chegada
ao 207, bateu gentilmente à porta de dobradiças de mola
e empurrou-a. Numa cadeira, junto da janela, viu uma
jovem loira, de cerca de vinte e sete anos, de olhos azul-escuros
e lábios sorridentes. Vestia um négligé de seda
e lia um livro que parecia agradar-lhe, quando ergueu os
olhos e viu Bertha atravessar o quarto na sua direcção.
Tinha os calcanhares apoiados numa almofada, colocada
sobre a cadeira fronteira, e o livro no colo.
- Assustou-me! - disse, oferecendo a Bertha o
encanto dos seus grandes olhos azuis.
- Bati - justificou-se Bertha.
- Estava «enfronhada», cheia de interesse, numa
história de detectives. Costuma ler este género de literatura?
- De vez em quando - satisfez Bertha.
- Eu nunca o tinha feito, antes de entrar para o
hospital. Nunca pensei que tivesse tempo para me interessar
por eles, mas agora creio que me tornarei numa
ardente aficionada. Acho que a investigação de um crime
é uma das coisas mais interessantes, mais fascinantes
do mundo, não está de acordo?
- É exactamente como diz - concordou Bertha.
- Bem, queira sentar-se. Diga-me em que lhe posso
ser útil.
Bertha sentou-se numa cadeira estofada, a um canto,
e perguntou:
- É Josephine Dell?
- Sou.
- E era amiga de um cego?
- Refere-se ao pedinte que estaciona, à esquina,
junto do Banco? - inquiriu a jovem, sorridente.
Bertha anuiu, perscrutadoramente.
- Acho-o um «querido». Vê melhor esta vida, do que
muita gente. E não é nada infeliz. Muitas pessoas que
vêem perfeitamente, conhecem pior as coisas deste
mundo, de que esse homem que não pode ver. Apesar de
a sua existência ter ficado mais circunscrita... mais limitada,
creio que consegue ser feliz, à sua maneira. Refiro-me à sua actividade psicológica, por aquilo que sei
dele.
- Também o creio - admitiu Bertha, sem entu-
siasmo.
Josephine Dell persistiu no assunto:
- Certamente que não recebera uma educação esmerada
e era pobre e, se tivesse aprendido a ler pelo tacto,
se tivesse estudado e conseguido adquirir um melhor
grau de instrução... mas não pôde, coitado. Não tinha
um centavo de seu.
- Compreendo.
- Mas, sabe? Depois teve sorte e fez um feliz investimento
num negócio de petróleo e, agora, podia viver
como lhe agradava; simplesmente, achava que isso lhe
acontecera já muito tarde e que era demasiado velho...
- Também o creio - concordou Bertha, pacientemente. -
Foi a menina quem lhe ofereceu uma caixa-de-música?
- Sim, mas não quis que ele o soubesse. Pretendia
que ele julgasse que fora um amigo qualquer. Receava
que se recusasse a aceitar um presente dispendioso de
uma rapariga que precisava de trabalhar, mas agora, não
tenho problemas de dinheiro. Porém, quando comecei a
juntar, para pagá-la, cheguei a pensar que não poderia
consegui-lo.
- Compreendo--repetiu Bertha, levemente entediada.
- Estou a ver que tenho andado despistada, todo
este tempo. Diga-me uma coisa. Não sabe nada acerca
de uma outra Josephine Dell que sofreu um acidente?
- Que acidente - perguntou a jovem, atónita.
- Um acidente que ocorreu na esquina, junto do
Banco, numa sexta-feira, por volta das seis menos um
quarto. O condutor de um automóvel derrubou essa rapariga,
na passagem para peões. Na altura, ela não pensou
ter ficado gravemente contundida, mas depois...
- Mas eu sou essa rapariga! -exclamou Josephine
Dell, ainda mais admirada.
Bertha endireitou-se, subitamente, na cadeira, como
se o espaldar da mesma a tivesse empurrado para diante.
- Você é quem?
- Sou a rapariga que foi atropelada.
- Uma de nós está «pírulas»! - murmurou Bertha.
Josephine riu, com uma gargalhada cristalina.
- Mas sou eu própria! Foi, na verdade, uma experiência
nova para mim. O homem colheu-me com o guarda-lamas
e derrubou-me nessa passagem. Pareceu-me uma
pessoa encantadora. Naquele momento pensei não ter
ficado muito magoada, mas no dia seguinte comecei a
sentir-me confusa e com dores de cabeça. Chamei um
médico e ele disse-me que se tratava de uma contusão
cerebral, ligeira, mas que eu devia manter-me em absoluto
repouso e...
- Aguente aí, um momento - pediu Bertha. - O condutor
levou-a a casa?
- Assim o quis e eu consenti. Na altura, pensei que
aquilo não era nada; somente um pequeno encontrão,
sem importância e, embora eu tivesse atravessado quando
devia, em relação ao sinal para peões... ou talvez não...
não sei bem. Talvez não tivesse reparado, com o necessário
cuidado... Francamente não me lembro, ia muito
preocupada, naquele dia. O homem insistiu em que devia
levar-me a um hospital, para um exame médico, e como
eu recusasse, ofereceu-se para me levar a casa, de qualquer
modo.
Bertha Cool fitava-a como se estivesse a olhar para
um fantasma.
- Depois, que sucedeu?
- Bem, o homem parecia-me muito correcto, muito
cavalheiro. Contudo, ao cabo de alguns momentos de
seguir a seu lado, pensei que ele tivesse bebido uns
copos e, de repente, começou a mostrar-se realmente
intoxicado. Começou a dirigir-me piropos desagradáveis
e acabou por me apalpar as pernas. Dei-lhe uma bofetada,
ele travou o carro e eu saltei para a rua e tomei um autocarro,
para ir para casa.
- Não chegou a dizer-lhe onde vivia?
- Não. Só lhe indiquei a direcção que devia tomar.
- E ele não sabe o seu nome?
- Eu disse-lho, mas compreendo agora que estava
demasiado embriagado para tê-lo fixado. Estou absolutamente
certa disso.
Bertha fechou os olhos, com força, para tornar a
abri-los escancaradamente.
- Já agora, para embaralharmos mais as coisas,
diga-me se vivia nos Apartamentos Bluebonnet.
- Embaralharmos...? Não percebo! Mas é aí que eu vivo!... nos Bluebonnet da Figueiroa Street. Como
é que sabe?
Bertha levou a mão à cabeça.
- Mas, que se passa? - preocupou-se Josephine
Dell.
- Macacos me mordam! - exclamou Bertha. - Nem
precisam de anzol, que eu vou logo no engodo! Sou mais
«tansa» que um peixe!
- Não estou a perceber! - confessou Josephine,
pestanejando confundida.
- Siga para diante, conte-me o resto.
- Pouco mais há a contar. Levantei-me no dia seguinte,
como que desnorteada e chamei o médico. Ele
aconselhou-me repouso absoluto. Eu não tinha dinheiro
comigo, mas estou em vésperas de receber algum, de
forma que telefonei a Mrs. Cranning, que é uma governanta
e pode dispor do dinheiro para o governo da casa
do meu patrão, e pedi-lhe que me adiantasse... Pressinto
que estou a ser pouco explícita... Não cheguei a explicar-lhe
que o meu patrão faleceu...
- Sei tudo a esse respeito - cortou Bertha. Fale-me
acerca do dinheiro.
- Bem, procurei Mrs. Cranning e ela não tinha
dinheiro suficiente que pudesse dispensar-me, mas
disse-me que viesse para aqui, pois trataria do internamento
e que depois se veria. Estou certa de que se desembaraçou
esplendidamente, visto que a companhia de seguros
chegou a um magnífico acordo...
- Que espécie de acordo? - interrompeu Bertha.
- Concordou com o médico em que eu carecia de
completo repouso, durante um mês ou seis semanas, e
que depois deveria ir para um local onde nada me preocupasse,
completamente afastada das pessoas que me
rodeavam, para evitar aborrecimentos. O meu patrão
morreu, mas tratariam de arranjar-me outro emprego.
A companhia de seguros paga-me todas as despesas do
internamento neste hospital e ainda me concede o salário
de dois meses de inactividade. Quer dizer que, além
disso, quando sair daqui, recebo um cheque de quinhentos
dólares e a garantia de me arranjarem trabalho. Não
são generosos?
- Assinou qualquer documento? - inquiriu Bertha.
- Sim, um acordo completo.
- Meu Deus! - exclamou Bertha.
- Desculpe, mas não estou a percebê-la. Tudo quanto
digo parece causar-lhe confusão.
- A companhia de seguros era a Intermutual de Indemnizações?
- prosseguiu Bertha. - O agente com
quem tratou chamava-se P. L. Fosdick?
- Porquê? Não!
- Quem diabo era?
- Era um automóvel clube qualquer. Não me lembro
do nome exactamente, mas creio que se tratava do Segurança
Autoclube. Foram eles que trataram de tudo. Recordo-me
de que o agente se chamava Milbran.
- Entregaram-lhe um cheque?
- O documento do acordo foi feito em termos que
correspondiam a um cheque. Isto passou-se num sábado
e os Bancos estavam fechados. Mr. Milbran veio ver-me
e declarou que, em virtude das circunstâncias, tinham
sido muito generosos comigo. Desde já se responsabilizavam
pelas despesas totais do internamento e, visto eu
assinar aquele acordo, não haveria qualquer problema.
E sabe o que me contou depois de ter assinado o documento?
- Não faço ideia - confessou Bertha, cada vez mais
confusa.
Josephine riu e explicou:
--Que o seu cliente estava tão bêbado que, neste
momento, não se lembra sequer de ter tido o acidente.
Admite que estivera a beber imenso e que viera no carro
para casa, mas não se recorda de ter passado naquela
zona da cidade, nem de ter atropelado uma pessoa. Foi
um choque para ele, quando lhe deram a notícia, e...
- Um momento - cortou Bertha. - Nesse caso,
como conseguiu pôr-se em contacto com a companhia
de seguros?
- Foi através de Mrs. Cranning.
- Já sei, mas como conseguiu ela entender-se com
eles?
- Eu lembrava-me do número de matrícula do carro.
- Conseguiu anotá-lo?
- Não. Não o escrevi, na altura, mas lembrei-me
dele, mais tarde, e disse-o a Mrs. Cranning. Na verdade,
tinha apontado o número, mal chegara a casa e ditei-lho
ao telefone.
- Você fez a coisa pior que podia ter feito! - comentou
Bertha.
- Fiz? Não percebo.
- Copiou mal o número da matrícula. Foi por pura
coincidência que esse número correspondia à matrícula
do carro de um outro tipo que o guiava em estado de
embriaguez, nesse mesmo dia e mais ou menos à mesma
hora.
- Quer dizer que o homem... que o automóvel
clube...
- É exactamente isso que quero dizer. Essa matrícula
calhou ser de um carro guiado por um tipo que se
embriagara e que admitiu poder ter atropelado uma
pessoa. Quando Mrs. Cranning lhe telefonou a relatar o
acidente, ele pegou na apólice do seguro e comunicou a
ocorrência à companhia, que tratou do resto.
- Meu Deus! Nesse caso, esse homem não me fez
nada?
- Não. Foi um outro, contra quem ninguém reclamou...
por enquanto.
- Mas isso é impossível!
- Não só é possível - observou Bertha, asperamente -
como tenho a certeza de que aconteceu.
- E aonde é que isso me leva? - inquiriu Josephine
abismada e levemente receosa.
- Aos píncaros da Lua! - afirmou Bertha com entusiasmo.
- Não estou a perceber.
Bertha Cool abriu a bolsa, tirou um dos seus cartões
da agência e entregou-lho com o seu melhor sorriso.
- Aqui tem: Cool & Lam - Investigações Confidenciais.
Eu sou Bertha Cool.
- Quer dizer que é detective?
- Exactamente!
- Oh! Que excitante!
- Nem por isso.
- Mas a senhora deve ter aventuras extraordinárias,
uma data de horas de trabalho violento, noites sem dormir...
- Lá nisso acertou em cheio. Tive ontem uma aventura
dos diabos e passei a noite completamente em
branco. Mas agora, encontrei-a.
- Tem andado à minha procura?
- Vou arranjar-lhe uma data de dinheiro. Se o fizer,
você dá-me cinquenta por cento?
- Dinheiro para quê?
- Dinheiro da companhia de seguros, por ter sido
atropelada por um condutor embriagado.
- Mas já o recebi, Mrs. Cool. Já assinei um acordo.
- Não da companhia seguradora do tipo que a atropelou.
Quanto é que disse que lhe pagavam?
- Refere-se a Mr. Milbran?
- Sim, a esse autoclube, para o qual assinou um
depoimento.
- Disseram-me que pagariam todas as despesas com
o hospital e dois meses de salário, no valor de duzentos
e cinquenta dólares. Não sei quanto é que isso soma, mas
calculando a cerca de dez dólares por dia de internamento,
talvez chegue a seiscentos dólares, mais quinhentos
dólares, em dinheiro, quando tiver alta. Meu
Deus, Mrs. Cool, imagina quanto é que isso representa?
Cerca de mil e trezentos dólares!
- Muito bem. Vai agora assinar uma declaração pela
qual iliba esse cliente de qualquer responsabilidade no
seu acidente e liberta a companhia da obrigatoriedade de
pagar-lhe qualquer indemnização, comprometendo-se a
não apresentar uma reclamação ulterior. Em seguida apresenta
a sua reclamação, pertinente e justa, à Companhia
Intermutual de Indemnizações. Vou explicar-lhe melhor
o que vai fazer: deporá essa reclamação nas minhas mãos
e elas saberão arrancar uma carrada de «massa» à Intermutual.
Depois promete pagar-me metade de quanto eu
conseguir obter-lhe e garanto-lhe que não será menos
de dois mil dólares.
- Quer dizer dois mil dólares, em dinheiro?
- Sim, querida. Isso será a sua parte e não haja confusões.
Eu sacarei outros dois mil para mim. E refiro-me
a um mínimo. Talvez possa conseguir-lhe três mil dólares,
para si.
- Mas, Mrs. Cool, isso seria desonesto!
- Porquê desonesto?
- Porque já assinei uma declaração para outra companhia
de seguros.
- Mas tratou com a companhia errada, seguradora
do condutor errado.
- Bem sei, mas, de qualquer maneira, já aceitei esse
dinheiro.
- Se o têm estado a pagar, o azar é deles.
- Não. Não posso fazer isso. Não seria correcto considerou
Josephine.
- Oiça cá - insistiu Bertha. - As companhias de
seguros têm montes de dinheiro. Vivem à grande. Esse
homem ia a guiar um carro e tão bêbado que nem se
lembra se foi ou não autor de um atropelamento. Mrs.
Cranning telefonou-lhe a informá-lo de que ele atirara
com o carro para cima de si e ele acreditou. Estava seguro
contra acidentes e comunicou à companhia que conduzia
embriagado, tivera o azar de atropelá-la e que você ficara
com uma contusão craniana e perturbações cerebrais.
Pelo amor de Deus, ponha as coisas a limpo e deixe-me
andar para diante.
- Não sei que faça.
- Tome atenção. Não foi ele quem lhe causou essa
contusão. O facto de você ter assinado um documento
pelo qual se compromete a não apresentar qualquer reclamação
contra a sua seguradora, não quer dizer nada.
Na verdade, não vai reclamar coisa alguma dessa companhia.
Se ela foi completamente «saloia» ao oferecer-lhe
mil dólares para que você a não processasse, isso é lá
com ela, e não a impede de receber a indemnização que
lhe é devida, com razão de causa, dos cofres da companhia
seguradora do tipo que, efectivamente, a atropelou.
Na fina pele da testa de Josephine Dell desenhou-se
uma ruga. Um raio de sol resplandeceu no seu cabelo
loiro, quando ela virou a cabeça e olhou para a janela a
meditar na proposta. Por fim, tomou uma decisão, sacudiu
a cabeleira, numa negativa, e respondeu com determinação:
- Não, Mrs. Cool. Não posso fazer isso. Não seria
decente.
- Nesse caso, se quer ser absolutamente decente,
telefone para esse automóvel clube que caiu na «esparrela»
e diga que foi tudo um engano, pois forneceu, por
lapso involuntário, um número de matrícula errado. Essa
é a verdade.
Nos olhos de Josephine cintilou um fulgor de suspeita.
- Não creio ter-me enganado no número.
- Afirmo-lhe que errou - insistiu Bertha.
- Como é que sabe?
- Porque conheço a companhia de seguros que está
actualmente preocupada com o caso.
- Muito bem, Mrs. Cool. Se está tão certa do que
diz, vá para a frente, explique-me qual foi o meu erro
quanto à matrícula do carro que não me atropelou e, já
agora, diga-me qual a do carro que efectivamente causou
tudo isto.
Bertha Cool tentou desviar a resposta.
- Tenho estado em contacto com o representante
da companhia de seguros responsável pelo acidente. Ele
assegurou-me que...
- Qual é o número de matrícula do carro que me
atropelou? - persistiu Josephine.
- Não sei - confessou Bertha.
- Já esperava isso. Ignoro quais os propósitos que
a levaram a procurar-me, Mrs. Cool, mas receio que a sua
proposta não seja a que mais poderá favorecer os meus
interesses. Pelo que me toca, estou absolutamente satisfeita
com a actual situação.
- Mas dessa maneira não recebe o dinheiro da companhia
que...
- Pois não.
- E está a receber dinheiro da companhia que não...
- Pois estou. Foi a senhora mesmo quem me disse
que as companhias de seguros andam a nadar em dinheiro
e que seria correcto da minha parte recebê-lo.
- Isso é o que eu faria dadas as circunstâncias, mas
já que pretende respeitar a ética...
- É exactamente o que farei, dadas as circunstâncias.
- Mas, depois, reclamará junto da companhia responsável?
Josephine abanou a cabeça.
- Por favor - suplicou Bertha. - Deixe-me tratar-lhe
disso. Arranjar-lhe-ia o dinheiro, tão simples como
isto! - e Bertha deu um estalido com os dedos.
Josephine Dell sorriu e declarou, com uma sombra
de suspeita no olhar.
- Receio, Mrs. Cool, que esteja a tentar... Bem,
tenho ouvido muita coisa acerca da maneira como as
companhias de seguros procuram tirar vantagem da situação em que as pessoas se encontram. Eu fiquei realmente
muito admirada com a gentileza e generosidade de Mr.
Milbran. É-me lícito supor que a companhia que ele representa
tenha ficado contrariada com o acordo que ele me
propôs. Quem me diz a mim que a senhora não foi enviada
pela administração, para tentar convencer-me a repudiar
o acordo assinado? É esse o caso?
- De maneira nenhuma! - protestou Bertha. Passa-se
tudo como lhe expus. Você anotou mal o número
da matrícula.
- Pode dizer-me qual foi o meu erro?
- Não.
- Sabe, ao menos, um só algarismo dessa matrícula?
-- Não. Nada sei acerca do carro. Só sei acerca da
companhia de seguros.
- Portanto, não sabe sequer o nome do homem que
me atropelou?
- Nada sei acerca do «raio» desse homem! --retorquiu
Bertha desesperada.
Josephine Dell tornou a pegar no livro e declarou:
- Lamento muito, Mrs. Cool, mas não creio que
valha a pena perdermos mais tempo a discutir esse
assunto. Bom dia.
- Oiça uma coisa - tentou ainda Bertha, persuasivamente. -
Tem conhecimento de que Myrna Jackson
anda a fazer-se passar por si? Sabe que ela...
- Tenho muita pena, Mrs. Cool, mas não quero discutir
mais qualquer assunto. Bom dia!
- Mas...
- Muito bom dia, Mrs. Cool.
XXX
Só na quarta-feira de manhã, Bertha Cool regressou
ao escritório.
- Onde é que tem estado? - interessou-se Elsie
Brand.
O rosto de Bertha, recentemente bronzeado do sol,
mostrou-se sarcástico.
- Tenho estado a fazer uma coisa, em que realmente
sou boa.
- Que coisa?
- A pescar.
- Quer dizer que andou à pesca todo o dia de ontem?
- Sim. Fiquei tão desesperada, na segunda-feira,
que me sentia em riscos de explodir. Ontem, terça, já
devia andar aí com uns duzentos e oitenta de tensão sanguínea,
de forma que resolvi enfiar-me no carro, deslizei
até à praia e, lá chegada, aluguei uma cana de pesca.
Ao menos diverti-me. Já sabe o que aconteceu? Uma
incrível combinação de circunstâncias, uma inacreditável
coincidência, como não aconteceria outra num milhão.
- Qual foi?
- O homem que atropelou Josephine Dell estava
bêbado. Começou com atrevimentos e ela saiu do carro.
Julgou que conseguira fixar o número da matrícula, mas
enganou-se e trocou os algarismos, com tanta sorte,
porém, que o condutor do carro a que pertencia a matrícula
errada também ia a guiar em igual estado de embriaguez
de tal maneira que, neste momento, nem refuta a
acusação de tê-la atropelado. Portanto, Josephine acha-se
na invejável posição de poder receber duas indemnizações,
cada uma de sua companhia de seguros, mas não
tem o suficiente bom senso para...
- Talvez fosse bom, primeiro, ler a carta de Donald
- advertiu Elsie.
- Chegou uma carta do Donald?
- Ele próprio ma ditou.
- A si?
- Sim.
- Quando?
- Na noite passada.
- Onde?
- Aqui, no escritório.
- Está a querer dizer-me que Donald Lam esteve
aqui?
- Sim. Concederam-lhe uma licença de trinta e seis
horas, tomou o avião até cá e correu a ver-nos. Meu Deus!
Como lhe fica bem o uniforme! Está mais forte, ganhou
peso e parece mais...
- Mas porque raio não o pôs você em contacto
comigo?
- Fiz tudo quanto me era possível, Mrs. Cool. Como
avisara que ia a Redlands, contei a Donald o que sabia do
caso, e ele seguiu para lá, à sua procura, talvez apenas meia hora depois de a senhora ter partido. Como não
podíamos adivinhar que, ontem, tinha ido à pesca... Mas
não quer ler a carta?
Bertha arrancou o sobrescrito da mão de Elsie, correu
para o gabinete particular, estacou à porta e disse, por
cima do ombro:
- Não quero ser perturbada; não quero telefonemas,
nem visitantes, nem clientes, nem NADA!
Uma vez mais vibrando de indignação, agora maldizendo
a pesca, Bertha atirou-se para a cadeira, rasgou o
topo do sobrescrito e começou a ler a longa missiva.
Querida Bertha:
Tenho muita pena de a não ter encontrado. Interessei-me
muito pelo caso por correspondência e quando,
inesperadamente, me concederam trinta e seis horas de
licença, decidi vir por aí abaixo e ver se poderia ajudá-la.
Você não estava no escritório e a Elsie informou-me de
que fora a Redlands, onde julgava que Josephine Dell se
achasse ou tivesse estado instalada. Por essa razão,
aluguei um carro e fui até lá.
Em virtude de certas circunstâncias peculiares, eu já
chegara à conclusão de que Josephine Dell deveria encontrar-se
hospitalizada fora da cidade. O facto de terem sido
oferecidos ao cego dois presentes - um denunciando
muito tacto, por parte de uma simpática rapariga, tentando
alegrar um homem naquela condição, sem qualquer mensagem
redigida a acompanhar a oferta, e outro, sem tacto
algum, desajeitadamente acompanhado por uma nota levaram-me
a pensar que poderiam existir duas Josephines
Dell: uma verdadeira e outra impostora.
A conversação que manteve com a porteira dos Apartamentos
Bluebonnet deveria ter-lhe despertado a suspeita
de que a rapariga que aquela conhecia como sendo
Myrna Jackson era a mesma a quem você entrevistara
e se apressava a fazer as malas. Tente recordar-se das
declarações da porteira e das que lhe prestou a rapariga,
nessa noite em que se preparava para partir, e chegará
a essa conclusão.
Não me foi difícil encontrar Josephine Dell, mal
cheguei a Redlands. Entrei no sanatório, quarenta minutos depois de você ter saído. Disse a Miss Dell quem eu era
e achei-a num terrível estado de espírito de hostilidade
e suspeita, mas comecei a falar-lhe e consegui que respondesse
a algumas perguntas e ouvisse as minhas explicações.
Acho que cometeu um erro, perdoe-me que lho diga,
ao ter-se mostrado tão ávida e insistente. Apresentou-lhe
o caso sob o seu ponto de vista e, na ânsia de defender
o seu interesse nos vinte e cinco mil dólares, na ideia
de que toda a gente seria capaz de aceitar duas indemnizações,
uma das quais ilegítima, não cuidou em reforçar
a sua proposta, de acordo com a formação moral de Miss
Dell. Quando tentou corrigir a sua táctica, já era tarde.
Pelo meu lado, tentei evidenciar a faceta da injustiça
que resultaria de explorar-se a generosa credulidade de
algumas pessoas e uma companhia de seguros, não responsáveis
pelo acidente, o que degenerava em fraude,
e a honestidade de reclamar-se à companhia verdadeiramente
responsável pelas consequências do acto praticado
pelo seu segurado a devida e legítima indemnização.
Claro que não me esqueci de evidenciar a enorme diferença
das quantias em jogo, provando assim que uma
atitude justa e honesta compensa. Logo que Miss Dell
começou a falar confiante e abertamente, desvendou-se-me
a solução do nosso caso.
Comecei por convencer-me de que Harlow Milbers
utilizava os serviços de Josephine Dell exclusivamente
no escritório, como secretária, e não em sua casa. Interroguei-a
acerca da ocasião em que servira de testemunha
do testamento e declarou-me lembrar-se disso perfeitamente.
Explicou que a segunda testemunha não fora, de
forma alguma, Paul Hanberry, mas um tal Dawson, que
possui um laboratório fotográfico ao lado do escritório
de Harlow Milbers, e que fora neste escritório e não na
residência do patrão que haviam assinado o testamento.
Então pedi a Miss Dell que me fizesse a sua assinatura
e verifiquei ser esta completamente diferente da
que testemunhava o documento de que tenho a fotocópia.
De resto já deduzira a existência de fraude quando,
há dias, tive a precaução de verificar, no nosso arquivo
meteorológico da Marinha, qual fora o estado do tempo
no dia vinte e cinco de Janeiro de 1942, uma coisa que,
aparentemente, você negligenciou fazer, consultando um
jornal do dia imediato ao daquela data. Se se tivesse dado
a esse incómodo, examinando a coluna dedicada à meteorologia,
no arquivo de qualquer dos nossos diários,
ter-se-ia certificado de que, nesse dia vinte e cinco de
Janeiro, estivera a chover, contínua e ininterruptamente,
desde a manhã até à noite. Portanto, Paul Hanberry não
poderia ter-se dado ao trabalho de lavar o carro, à mangueira
e em plena rua, frente às janelas da residência de
Harlow Milbers, sob um autêntico aguaceiro.
Também interroguei Miss Dell acerca dos sintomas
da doença do patrão, naquele dia fatídico e obtive a confirmação
de que se queixava de cãibras nas barrigas das
pernas. Nestas circunstâncias, os sintomas de envenenamento
por arsénico tornam-se tão evidentes que fácil será
apresentar à Polícia um diagnóstico convincente.
Para abreviar, concluí que Harlow Milbers foi envenenado
na manhã de sexta-feira. Viria a morrer ao fim da
tarde do mesmo dia. Ao regressar a casa, Josephine Dell
foi colhida por um automóvel e sofreu uma ligeira contusão
cerebral. Chamou um médico, na manhã seguinte,
quando sentiu sintomas anormais. Foi esse médico que
a aconselhou a manter-se em repouso absoluto ou, de
preferência, internar-se num sanatório. Como não tivesse
dinheiro suficiente consigo, Miss Dell recorreu telefonicamente
a Mrs. Cranning, admitindo que ela poder-lhe-ia
emprestar algum dinheiro do governo da casa do patrão.
Posteriormente, foi mesmo falar com Nettie Cranning,
à residência de Harlow Milbers, a fim de expor claramente
a sua situação. Foi então que Mrs. Cranning deu
provas de possuir um engenho invulgar. Em vez de telefonar
à pessoa que atropelara Josephine Dell, procedeu
de maneira a apoderar-se de uma fortuna. Pediu a um
seu amigo pessoal, chamado Milbran, que se apresentasse
a Miss Dell, como representante de uma companhia
de seguros inexistente. Entretanto, convenceram
Miss Dell a internar-se num sanatório fora da cidade, o
que a manteria afastada de quaisquer contactos, durante
um período de um ou dois meses. Isso proporcionava-lhes
uma ampla oportunidade para falsificarem o testamento.
Tal como eu suspeitara e tive o cuidado de a informar
por escrito, a primeira página do testamento era
genuína; a segunda era completamente falsa. Lembrar-se-á
de que Myrna Jackson fora viver com Josephine Dell cerca de três semanas antes do acidente. Nessa
altura ainda não albergavam propósitos sinistros, mas
não se esqueça de que Myrna Jackson era amiga de
Mrs. Cranning e de sua filha Eva, possuindo todas elas
um mesmo calibre mental e moral.
Logo a seguir à morte de Harlow Milbers, Nettie
Cranning descobriu o testamento que legava ao primo do
morto uma quantia de dez mil dólares. De facto, repito,
essa primeira página do testamento é absolutamente
genuína. Só no dia seguinte, a possibilidade de operarem
uma alteração no testamento, ocorreu a Mrs. Cranning,
a Eva Hanberry e a Paul Hanberry. A ideia deve ter partido,
evidentemente, de Nettie Cranning. Aproveitando a
convalescença de Josephine Dell, por um período aproximado
de dois meses, e o seu intencional afastamento
da circulação, fora da cidade e longe dos seus habituais
contactos, tiveram oportunidade de substituir a segunda
página do testamento, de maneira a legarem-se,
a si próprios, a parte mais substancial da propriedade.
Lembrar-se-á de que cheguei a indigitar essa possibili-
dade no meu telegrama.
Tornava-se apenas conveniente, para o caso de
alguém ter conhecimento das intenções testamentárias
de Harlow Milbers, que uma outra pessoa tomasse o
lugar de Miss Dell e assinasse por ela o documento. Paul
Hanberry substituiu a segunda testemunha e, provavelmente,
também falsificou a assinatura do falecido Milbers.
Posteriormente, com o fito de evitarem qualquer impugnação
do testamento por parte do primo contemplado e
único parente vivo, Christopher Milbers, aliciaram-no com
uma proposta tentadora que lhe proporcionaria um legado
muito mais vantajoso do que aquele que lhe fora atribuído,
bem para além de toda a expectativa.
Quanto à herdeira - a real - Josephine Dell, essa
estaria afastada e alheia aos acontecimentos, durante
sessenta dias. A companhia de seguros imaginária prometera
arranjar-lhe um emprego, a partir do momento em
que deixasse o sanatório. Sem dúvida, essa ocupação
levá-la-ia para a América do Sul, ou para outro local ainda
mais distante, onde jamais pudesse ouvir falar de Milbers.
O único borrão na pintura surgia agora na pessoa do
homem que atropelara Josephine Dell e que, embora suficientemente
intoxicado e amnésico, ao tempo do acidente, poderia, quando posteriormente sóbrio, comunicar a ocorrência
à sua companhia de seguros. E foi o que aconteceu.
Contudo, coibiram-se de informar as autoridades,
em virtude do estado de embriaguez do condutor, e procuraram
resolver o problema mediante um acordo entre
as partes, responsável e sinistrado. O único óbice residia
no facto de o responsável não se recordar do nome da
sinistrada.
Quando leram o seu anúncio no jornal, em busca de
uma testemunha do acidente, apressaram-se em contactar
consigo na esperança de poderem comunicar com a
interessada e abreviarem, por um simples acordo, as
possíveis implicações judiciais inerentes. É nesta altura
que entra um novo personagem em cena, Jerry Bowman.
Subsequentemente, este oportunista entrou em acção
e tê-la-ia suplantado, a si, na obtenção de um acordo
assinado por Myrna Jackson, em nome de Josephine
Dell, se a impostora não tivesse receado uma confrontação
com o condutor da viatura, causador do sinistro,
que certamente se recordaria da personalidade física da
vítima, e também a possível imprescindibilidade da sua
identificação documental. Na realidade, Myrna Jackson
não poderia provar ser Josephine Dell e se o homem
em causa se defrontasse com ela, desvendar-se-ia a
impostura.
Um dos indícios mais significativos surgiu no facto de
Josephine Dell não ter voltado a ver o cego, depois
de «restabelecida», como todos a julgavam, na pessoa de
Myrna Jackson. Era uma atitude de áspera insensibilidade
que não se coadunava com a feição moral de Miss
Dell e muito feria Kosling, sobretudo depois da diligência
que fizera, demonstrativa do apreço que votava à rapariga,
quando do acidente.
O seu amigo Jerry Bollman foi, neste caso, mais
arguto que a Bertha. Começou a «apertar» o cego com
perguntas e obteve informações que lhe cheiraram intensamente
a esturro. Lembre-se que tomou a iniciativa de
telefonar para a residência de Harlow Milbers a informar-se
se Josephine Dell trabalhava lá, e note que o fez
como uma pessoa que lhe era totalmente estranha. Isto é
muito significativo, visto que não era permitido qualquer
contacto com «Josephine Dell», por parte de alguém que
a conhecesse. Logo que se encontrou com ela, compreendeu que não se tratava da pessoa que ele vira ser derrubada
pelo automóvel e, para um oportunista como Bollman,
não lhe foi difícil descobrir uma magnífica pista.
Aquilo que deduziu do seu encontro com a fictícia
Miss Dell e do que conseguira depreender das informações
do cego, permitiram-lhe discernir as linhas gerais
e a natureza da conspiração em que aquela estava
envolvida.
E agora, Bertha, ressalta um novo e magistral erro
de concepção: Bollman não foi a casa de Kosling, em
busca de qualquer prova ou indício, mas sim com o determinado
propósito de preparar uma armadilha com a espingarda
que deveria matar o cego. E isto, porque Kosling era
a única testemunha capaz de desmantelar toda a maquinação.
Logo que fosse eliminado, nada se interporia entre
os conspiradores e a herança. Christopher Milbers, tendo
recebido a sua parte, regressaria, naturalmente, a casa,
em Vermont. Quanto a Jerry Bollman, o caso era mais
complexo.
O seu temperamento oportunista decidira-o a montar
a armadilha mortífera, após ter conduzido o cego a São
Bernardino. Logo que este estivesse isolado, Bollman
correria a casa de Harlow Milbers e declararia a Nettie
Cranning, a Eva Hanberry e a Paul que vinha, merecidamente,
partilhar do bolo, exigindo uma choruda talhada.
E a pseudo Miss Dell, Myrna Jackson, também teria de
comparticipar em qualquer acordo de compromisso e
segurança. Não se esqueça, Bertha, de que havia várias
centenas de milhares de dólares em jogo e que Jerry
Bollman era o género de tipo para quem o valor do
dinheiro estava acima de tudo.
Se eles cometessem o erro de recusar, Bollman
voltaria a casa de Kosling, desarmaria o engenho homicida
e servir-se-ia do cego como testemunha, já que este
possuía todos os elementos esclarecedores, podendo
denunciar a impostura de Myrna Jackson. Ele já desconfiara
da voz da falsa Miss Dell e tivera oportunidade de
confidenciar a sua estranheza a Thinwell. Procuraria o
médico que examinara a verdadeira Josephine e a Polícia
faria o resto. Era pois necessário que Kosling fosse
eliminado.
Por sua vez, Sellers e os seus minuciosos peritos
incorreram num erro magistral de raciocínio: partiram do
princípio de que a armadilha fora montada por um cego,
só porque não fora habilmente disfarçada, e negligenciaram
analisar o facto, sob o ângulo de que fora, efectivamente,
preparada para matar um cego, pelo que qualquer
disfarce ou ocultação seriam prescindíveis. Quanto à
morte de Bollman ninguém possui elementos concretos
que permitam defini-la para além de uma simples especulação
racional.
Com base nas suas informações epistolares e no
relato que fez a Elsie, referente à incursão nocturna a
casa de Kosling, tornou-se-me aparente que Jerry Bollman
engenhara a armadilha de maneira que quem pressionasse
o arame, estendido à entrada do interior da casa, provocaria
a percussão do cartucho e receberia a bala em pleno
peito. Ultimada a sua obra, Bollman deve ter recuado um
pouco, para verificar a direcção do cano e, muito provavelmente,
como sucedeu com a Bertha, o morcego começou
a esvoaçar em sua volta, procurando-lhe o pescoço
ou o rosto, como se habituara para receber os afagos
do cego. O que realmente aconteceu dever-se-á considerar
uma obra-prima de justiça poética. Bollman recuou
um pouco mais, ou correu contra o arame.
Voltando ao testamento, creio existir uma possibilidade
de Josephine Dell se recordar do contexto da
segunda página. Isso permitirá uma reconstituição substancial
da matéria constante no documento genuíno e se
ela estiver na disposição de prestar um depoimento oral,
aceite como prova, talvez as sentenças contra Nettie
Cranning, Eva Hanberry e Paul Hanberry possam ser consideravelmente
atenuadas.
O sargento Sellers «espalhou-se» redondamente, ao
fixar a hora da morte de Bollman, por volta das três da
tarde, partindo do princípio que os morcegos só voam à
noite, a menos que tenham sido perturbados durante
o dia. Ora, em casa do cego, as cortinas estavam corridas
o que tornava o ambiente bastante escuro. Os morcegos,
querida Bertha, não voam na escuridão, mas na semiobscuridade,
num lusco-fusco. Os morcegos voam ao
anoitecer.
Se Sellers tivesse sabido isto não teria errado quanto
ao elemento tempo. Admitiria que Bollman montara a
armadilha, depois de ter isolado Kosling em São Bernardino,
e fora então por ela fulminado.
Agora tratemos da morte de Harlow Milbers. É óbvio
que Nettie Cranning não poderia prever o acidente que
Miss Dell viria a sofrer, depois da morte de Milbers. Portanto
dificilmente se pode conceber que tenha planeado
esse homicídio, no curso normal dos acontecimentos,
estando as testemunhas do testamento vivas e sãs. Ser-lhe-ia,
nessas circunstâncias, impraticável substituir a
última página do documento testamentário.
Falando com Miss Dell, descobri que Harlow Milbers
era doido por açúcar de maçã e que gulosamente apreciava
o que seu primo Christopher lhe enviava da quinta
de Vermont. Na manhã do dia em que morreu, recebera,
no escritório, uma embalagem, vinda pelo correio. Abriu-a
e comeu quase todo o seu conteúdo. Afirma Miss Dell
que restou ainda um pouco desse doce, no fundo da embalagem
que se encontra numa gaveta da secretária do
falecido patrão.
Estou certo, Bertha, de que a análise desse resto de
açúcar de maçã constituirá prova suficiente de que Christopher
Milbers procurou, por esse meio, antecipar a
herança do seu excêntrico primo.
Como não me foi possível encontrá-la, enquanto aqui
estive, e porque urgia libertar o seu cliente, transmiti
estes factos ao sargento Sellers, dando-lhe uma oportunidade
de resolver dois misteriosos homicídios e de enfeitar,
com mais uma pluma, o seu capacete (* No original, «cap», no
sentido de chapéu de penas dos peles-vermelhas, em que cada pluma inserida
representa um acto valoroso praticado. (N. do T.)). Dizer que
o sargento ficou radiante é exprimir-me modestamente.
É verdade, quase me esquecia! Josephine Dell ficou
verdadeiramente grata por tudo quando fizemos. Incumbiu
um advogado de fazer cumprir um contrato pelo qual a
nossa firma receberá metade de quanto conseguir obter
da companhia de seguros. Além disso, concordou em
conceder-nos uma percentagem de dez por cento do total
da herança de Harlow Milbers - de que é única herdeira
- desde que provemos... o que já provámos.
Penso que isto cobrirá todo o assunto e... as suas
despesas. Encontrará, inclusos, os dois contratos mencionados
que eu próprio redigi, para estar certo da sua
legalidade.
Parece que ninguém sabe onde a Bertha pára. Vou
esperar aqui, até ao último minuto possível, antes de
tomar o avião de regresso a São Francisco. Tenho de estar
no Quartel de Marinha de Mare Island a tempo e horas.
Compreenderá, Bertha, que estamos em guerra e que a
disciplina tem de ser mantida. Embora só lho possa dizer
confidencialmente e nada tenha sido ventilado pelos
órgãos oficiais, tenho motivo para acreditar que estamos
em vésperas de partir, o que sem dúvida alguma constituirá
uma extremamente desagradável surpresa para o
inimigo.
Tenho, na verdade, muita pena de a não ver, mas a
Elsie entrega-lhe esta carta e espero que encontre nela
matéria que lhe permita contar com a futura cooperação
do sargento Sellers.
Muitos cumprimentos do
Donald Lam
Bertha Cool deixou cair a carta sobre o tampo da
secretária, agarrou no sobrescrito e «pescou» lá de dentro,
com visível emoção, os dois contratos, assinados por
Josephine Dell e testemunhados por duas enfermeiras do
sanatório.
- Macacos me mordam! - exclamou.
Quis tirar um cigarro, mas os seus dedos trementes
procuraram-no desastradamente na caixa dos «clips».
Neste momento ouviu-se uma breve discussão no escritório
exterior. A porta abriu-se de chofre, enquanto o
sargento Sellers protestava:
- Que disparate, Elsie! Certamente que ela me quer
ver. Meu Deus! Depois de tudo quanto fez por mim, até
sinto que pertenço à firma.
Sellers parou à porta do gabinete de Bertha, com o
seu vasto tronco encolhido de humilde amabilidade.
- Bertha! Quero que me perdoe! Fui um bocado rude
consigo e você, agora, meu Deus, faz-me sentir como um
cordeirinho. Já tinha os miolos a arder e você apagou-mos.
Deu-me a possibilidade de resolver os dois mais brilhantes
casos da minha carreira e você e o seu parceirozinho
«geniquento» deixam-se ficar na sombra, para que eu
tenha o mérito da investigação. Quero apenas apertar-lhe
a mão.
Em dois enormes passos, Sellers atravessou o gabinete
e estendeu a manápula. Bertha pôs-se de pé e agarrou-lha.
- As coisas estão a correr bem? - perguntou.
- Como se tivessem sido você e o Donald a resolverem
o assunto para mim. Oiça, Bertha, se houver
alguma coisa que você queira do Departamento da Polícia,
se eu puder ser-lhe útil em qualquer assunto... é só dizer.
Penso que compreende porque diabo... raios... vim aqui!
Então, inesperadamente, o sargento Sellers passou
o longo braço em volta dos maciços ombros de Bertha,
levantou-lhe o queixo com a sua mão do tamanho de um
presunto e beijou-a na boca.
- Ora aqui tem! - exclamou, fitando-a e deixando-a
libertar-se. - Ora aqui tem como eu me sinto!
Bertha caiu sentada na cadeira, murmurando debilmente:
- Nem preciso de anzol! Caio logo no engodo!
FIM
ϟ
-
Erle Stanley Gardner
nasceu
em 1889, em Maiden, no
Massachusetts. Como seu
pai fosse perito na exploração
de minas de oiro, o jovem
ERLE acompanhou-o através
do território americano,
desde o Klondike até à Califórnia.
Foi pugilista profissional,
atirador ao arco, à
carabina e à pistola e velejador.
Sentindo vocação pela
advocacia, formou-se em Direito
aos 21 anos. O notável
jurisconsulto norte-americano Jerry Leisler afirmou
a respeito do autor: «Gard-
ner teria sido um dos maiores advogados do nosso país
se tivesse prosseguido na
sua carreira legal».
E. Gardner justificou o seu
afastamento do foro casuístico, confessando: «Confiavam-me tantos casos que
teria de ficar amarrado
a um único ponto da terra;
por isso comecei a escrever».
E assim criou as fabulosas
personagens de heróis
detectivescos: Perry Mason,
Douglas Selby, Gramps
Wiggins, Terry Clane e
outros, entre os quais – escrevendo sob o pseudónimo
de A. A. Fair - Donald Lam
e Bertha Cool.
A obra de ERLE STANLEY
GARDNER é um testemunho
indiscutível da capacidade
de criação ficcionista nos
domínios do raciocínio, da
psicologia criminal e do comportamento
do indivíduo no
seio de uma sociedade em
ebulição. E, nessa condição,
permanecerá no património
cultural internacional, como
um padrão inesquecível.
ϟ
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Os morcegos voam ao anoitecer
-texto integral-
AUTOR: A. A. FAIR
Pseudónimo de ERLE STANLEY GARDNER
TÍTULO ORIGINAL: BATS FLY AT DUSK
by Erle Stanley Gardner, 1942
Tradução de MASCARENHAS BARRETO
COLECÇÃO: Vampiro Gigante
Livros do Brasil
Lisboa
EDITORA
24.Fev.2016
Publicado por
MJA
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