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 Sobre a Deficiência Visual

O Último Habitante da Aldeia do Calvo

Amílcar Rôlo

Foto VortexMag identificada como pertencendo ao último habitante do Calvo.
fotografia não identificada | VortexMag


O Calvo é uma pequena aldeia abandonada anexa a Santa Valha. Situa-se a aproximadamente três quilómetros para poente da Freguesia. Está rodeada em parte por uma serra, a serra Santa Cristina, encosta que divide o território da freguesia de Santa Valha com a de Vilarandelo, num sítio que era conhecido pelos locais por “fraga das sete-saias”.

Como o próprio nome indica, é banhada pelo rio Calvo. Actualmente está toda em ruínas, onde noutros tempos e pelo número de casas, acolheria cerca de sete ou oito famílias e uns sessenta a setenta habitantes, incluindo os residentes nos moinhos por perto que lhe pertenciam e que também faziam parte da pequena comunidade.

A sua posição geográfica a sopé da serra indica-nos que um dos trabalhos dessas famílias, e avaliando o número de moinhos, também em ruínas, seria o de moer cereal. Se bem que a lavoura e o gado também tivesse a sua importância, tendo em conta os mais de trinta hectares de terras férteis estendidas pelo vale das duas margens até um pouco a jusante da ponte do Calvo e da estrada que se situam a cerca de dois quilómetros abaixo.

Em 1953 houve um incêndio que consumiu uma parte do povoado, sendo provavelmente o motivo do início da sua desertificação. Mas foi em finais dessa década ou no início de 60 que o abandono das habitações mais se acentuou.

Paraíso apreciável de um belo passeio, são as fragas lisas. Seguindo o caminho principal e a uns 150 metros acima do povoado, encontramos três moinhos em ruínas, é um dos locais favoritos de muita gente. Descendo então pela encosta até ao leito do rio, aí podemos apreciar o silêncio das montanhas, as enormes fragas lisas por onde a água do rio passa tranquila sem pressa de chegar ao destino, e os desgastes da rocha a indicarem milhares de anos de cumplicidade.

O antigo caminho vicinal, que liga a aldeia próxima de Agordela a Santa Valha, fica logo a seguir na outra margem do rio.

E é isto um pequeno pedaço da história e do passado desta antiga aldeia ou povoado medieval, hoje já bastante delapidado do seu património construído, onde o último morador, com cegueira total, por teimosia própria, quis morar sozinho.

O último habitante a residir no povoado Calvo foi o Senhor Mário António (Teixeira) -pessoa generosa e solidária para com todos - respeitosa e carinhosamente conhecido por “Mário Cego”. Residiu lá até ao início da década de 80 do século XX, um pouco antes de falecer.

A cegueira total do Senhor deu-se aos dezasseis anos de idade ao perder a última vista numa queda para cima de um carro de bois, tendo batido com o olho num dos estadulhos.

Era um homem alto, bem constituído, culto e vivia sozinho. Ao domingo vinha quase sempre à missa a Santa Valha e visitar familiares e amigos, como, por exemplo, a família de Gualdino Nogueira (do Br. do Sobreiró), seu primo; Fernando de Castro do (Bairro dos Ciprestes) e a família de Laudemira Ferreira da Cunha (Cagigal), entre outros.

Não obstante a idade já ser bastante avançada, por teimosia própria, continuava a resistir e a viver isolado dentro do telhado e das paredes que o viram nascer.

Apesar de ser completamente cego, solteiro e a viver sozinho, fazia por mão própria, todas as tarefas pessoais e domésticas incluindo lavar a roupa, fazer fumeiro, ir à fonte (de mergulho que fica junto à parede do casario virada para o rio) buscar água e ainda pequenos serviços agrícolas como a poda da vinha, cava e outros.

Contou-me uma pessoa o seguinte: quando o senhor Mário se deslocava a Santa Valha, Vilarandelo e Agordela, deixava/guardava a chave da porta da entrada de casa em três buracos diferentes da parede, conforme o local da deslocação, para quando algum familiar o fosse visitar e estivesse ausente, pelo buraco, ficava a saber onde se tinha deslocado.

Também era do conhecimento geral, que em dias de maior invernia quando a água do ribeiro crescia, não podendo atravessar a pé o ribeiro pelas pedras das poldras/alpondra para a outra margem, fazia-o, num velho pontão, passando por cima do tronco de uma árvore caída que servia de tabuleiro, por uns anos antes a água ter levado a madeira e nunca ter sido reposta; situação presenciada por várias pessoas que o conheciam. Contaram-me ainda, que durante muitos anos teve uma cadela como companheira e que lhe fazia companhia nessa muito arriscada travessia.

Foi um homem muito bondoso e generoso como hoje já é difícil de encontrar referiu Adriano da Mata, acrescentando: – lembro-me de muito jovem ter ido com o meu primo Amadeu (dos Reis) Moreiras, - Pedreiro, como era conhecido -, algumas vezes ao Calvo, comprar uns cordeiros e ser a casa dele que iamos parar. A comida era feita por ele e pelo Amadeu e, ainda me recordo também dele descer umas escadas que ligavam à adega e trazer vinho para o almoço. Acrescentou ainda, que era um homem muito honesto e toda a gente lhe levantava o chapéu…. Também Artur Feijão e outros(as), que o conheceram pessoalmente, nos falaram de várias peripécias passadas , de um homem de bom coração, tendo a casa sempre aberta a todas as visitas.

Benvinda da Cunha Cagigal, minha mãe, para além de me contar, que o senhor Mário perdeu a vista muito jovem, primeiro uma e um pouco tais tarde a outra numa queda ao bater num estadulho de um carro de bois, era muito amigo da sua família; visitava muitas vezes a casa de seus pais, onde também por vezes almoçava, quando vinha à missa. Relatou-me também algumas memórias compartilhadas com esse bom e confidente amigo.

Cândida C. Nogueira Rocha Santos e sua irmã Madalena, que também fizeram parte da história da comunidade e que receberam de herança, “penso de sua mãe”, parte de uma matriz dessas casas e moinho(s), também me descreveram algumas lembranças e me ajudaram a esclarecer algumas dúvidas.

O Dr. Agostinho Alves Nogueira contou-me, que antes de falecer “por volta de meados da década de 1980”, se aborreceu com o seu pai, Gualdino Nogueira, primo e ex-regedor da freguesia, por este ter interferido junto da Santa Casa da Misericórdia de Valpaços para o levar para essa instituição de acolhimento, (o) que chegou a acontecer. Por convicção, teimou em morar no Calvo quase até à sua morte que aconteceu em 1984. Tinha nessa data 80 anos de idade. Referiu ainda, ser uma pessoa com os sentidos muito apurados, em particular o da orientação, bom conversador e postura na vida irrepreensível.

Na Certidão-Assento de Óbito consta só possuir o nome de “Mário António”, ser filho de António José Teixeira e Zeferina da Assunção, ter nascido na Freguesia de Santa Valha no ano de 1904 e de ter falecido em Valpaços no dia 23 de Março de 1984.

Nos vários contactos pessoais que fiz para esta pesquisa de memórias e recordações, todos me disseram, sem excepção, ter sido um homem com uma integridade fora do comum, assim como excelente pessoa em todos os aspectos…, – daqueles que já é difícil encontrar – e, é nesse sentido, pela maneira de ser da sua pessoa, e ainda, como amou até à morte o local onde nasceu e viveu, que o recordo e lhe presto aqui esta singela homenagem póstuma.


Nota: A maior parte destes dados foram colhidos junto de familiares/parentes, alguns já bastante afastados e de outras pessoas mais idosas de Santa Valha. | Amílcar Rôlo
 

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Santa Valha - Histórias e memórias colhidas entre os anos de 2008 e 2018
autor: Amílcar Rôlo
-excerto-
in Freguesia de Santa Valha
Histórias e Memórias
https://santavalha.com/calvo/

 


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5.Set.2026
Publicado por MJA