Se a dona se banhou
Eu não estava lá
Por Deus Nosso Senhor
Eu não olhei Sinhá
Estava lá na roça
Sou de olhar ninguém
Não tenho mais cobiça
Nem enxergo bem
Para quê me pôr no tronco
Para quê me aleijar
Eu juro a vosmecê
Que nunca vi Sinhá
Por que me faz tão mal
Com olhos tão azuis
Me benzo com o sinal
Da santa cruz
Eu só cheguei no açude
Atrás da sabiá
Olhava o arvoredo
Eu não olhei Sinhá
Se a dona se despiu
Eu já andava além
Estava na moenda
Estava para Xerém
Por que talhar meu corpo
Eu não olhei Sinhá
Para quê que vosmincê
Meus olhos vai furar
Eu choro em iorubá
Mas oro por Jesus
Para quê que vassuncê
Me tira a luz
E assim vai se encerrar
O conto de um cantor
Com voz do pelourinho
E ares de senhor
Cantor atormentado
Herdeiro sarará
Do nome e do renome
De um feroz senhor de engenho
E das mandingas de um escravo
Que no engenho enfeitiçou Sinhá
ϟ
Escravo no pelourinho, sendo açoitado
- Jean Baptiste Debret, 1835.
'SINHÁ' embaralha a ficção e a vida real
Chico termina o disco em seu ápice, com a canção mais intensa e confessional -
Sinhá - em que adopta um tom de afro-samba à
maneira do parceiro João Bosco.
O narrador é um escravo no tronco, açoitado por ter espichado os olhos para
sinhá – o que ele nega (“por que talhar meu corpo?/ eu não olhei sinhá”), mas no
final confirma.
A última estrofe da canção “Sinhá” (e do disco “Chico”) embaralha de vez a
ficção e a vida real.
Pedro Alexandre Sanches
Chico se classifica como um cantor com voz de pelourinho e ares de senhor, uma referência às suas características físicas, com seus olhos azuis e, claro, a sua voz que é meio rouca e suja, como se diz no meio musical.
Chico buscou nos seus ancestrais o seu sangue sarará (mestiço de branco e negro), onde o branco era um senhor de engenho e a negra uma escrava, por quem ele se apaixonou e casou.
Do livro 'Buarque - uma Família Brasileira - Ensaio Histórico Genealógico' de Bartolomeu Buarque de Holanda:
“Eu quis mostrar estes personagens que foram marcantes na árvore genealógica da família. Acredito que, entre todas as ramificações, a mais curiosa é a que gerou a união de José Ignácio Buarque de Macedo (Senhor de engenho) e a escrava Maria José. Apesar de analfabeta, ela foi a primeira mulher na família a colocar o estudo como prioridade. Curiosamente, seus descendente fizeram jus à dedicação e geraram figuras como Aurélio Buarque, Chico Buarque e Cristóvam Buarque, entre outros”.
Alan Scipião
“E assim vai se encerrar/ o conto de um cantor/ com voz de pelourinho/ e ares
de senhor/ cantor atormentado/ herdeiro sarará/ do nome e do renome/ de um feroz
senhor de engenho/ e das mandingas de um escravo/ que no engenho enfeitiçou
sinhá”.
O drama do enredo da canção resolve-se: o escravo não apenas olhou
sinhá, mas tomou posse daquilo que lhe foi e continua sendo negado
sistematicamente, o prazer. Aqui, em vez de consenso, o que há é o convívio
atormentado de dois mundos inconciliados em um só corpo, em uma só arte. Não uma
celebração, mas a constatação desta dualidade: o escravo negro e o senhor de
olhos claros estão em Chico (...) forjados a ferro, fogo e sangue sobre uma divisão brutal e secular, mas também em uma fusão igualmente brutal e tabu, em que todos são
sarará, todos têm sangue crioulo e também sangue do sinhô; todo um país é, a um só tempo e há muito tempo, oprimido e opressor, herdeiro de uma relação de ódio e amor, desejo e castração, medo e fascínio mútuos e um difícil autorreconhecimento. Chico, corajosamente, traz para si a responsabilidade, para suas costas a carga desta herança renegada, desta prole bastarda, e, na impossibilidade de, por si, mudar a realidade ainda tão cruel, faz dela aquilo que melhor sabe fazer: torna-a canção.
Túlio Ceci Villaça