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 Sobre a Deficiência Visual

Porque Sócrates, Tirésias e Platão Não Precisam de Bengala (Mas Eu Sim)

Ho-kei Dube

The Blind Tiresias and a boy - John Flaxman, c.18th
Tirésias, cego, com um rapaz - John Flaxman, séc. 18

Vamos falar a verdade, minha gente: a cegueira, assim como tantas outras peculiaridades humanas, sempre foi cercada de mitos, metáforas e aquela dose de drama que só os antigos gregos sabiam fazer. E quem melhor para personificar essa aura de mistério e sabedoria do que o cego mais famoso da mitologia grega, Tirésias?

Sim, aquele vidente que sabia de tudo, menos onde estava pisando, já que, né... ele era cego.

Agora, você me pergunta: "Mas o que tem Tirésias a ver com a minha vida moderna e cheia de tecnologia assistiva?" A resposta é simples: absolutamente nada. A menos, claro, que você ainda acredite que nós, cegos, somos portadores de algum tipo de visão sobrenatural. Porque, convenhamos, se eu tivesse um terço dos poderes de Tirésias, já teria ganhado na loteria umas cinco vezes e estaria escrevendo esse texto de uma ilha paradisíaca.

Tirésias é a personificação daquele clichê que nós, cegos, carregamos desde a Grécia Antiga: a ideia de que, quando se perde a visão física, automaticamente se ganha algum tipo de sabedoria superior. A pessoa pode ter dificuldade até para encontrar as chaves de casa, mas, na cabeça de muita gente, se você é cego, então você deve ter uma percepção aguçada sobre os mistérios da vida. Ah, se fosse assim tão simples, né?

Lembro-me de uma vez, na fila do banco (sim, porque quem é cego ainda tem que lidar com burocracia, para o seu choque e surpresa), uma senhora me perguntou se, já que eu não enxergava, sentia as coisas "com a alma". "Com a alma?", pensei. "Olha, eu sentir, até sinto... mas ultimamente só tenho sentido que estou com as contas atrasadas!" Mas, claro, ao invés de soltar essa resposta (porque sou educada, veja bem), eu apenas sorri e disse: "A alma anda ocupada ultimamente com a vida real, sabe como é." Agora, se você já leu Aristóteles, sabe que o cara adorava organizar as coisas. E com os sentidos humanos, não foi diferente.

Ele colocou a visão no topo do pódio, como se fosse a rainha dos sentidos. Logo em seguida, vem a audição, porque, segundo ele, é por meio dos ouvidos que adquirimos conhecimento. Olfato, gosto e tato? Esses, coitados, ficaram lá embaixo na hierarquia. E eu me pergunto: será que Aristóteles imaginava que, em pleno século XXI, ainda seríamos escravos dessa hierarquia sensorial?

Bom, para mim, o cheiro de café fresco pela manhã é muito mais reconfortante do que qualquer imagem bonita no Instagram.

Mas, claro, na cabeça das pessoas, se você não enxerga, então está "perdendo" o melhor da vida. Como se o cheiro do mar, o som da risada de alguém que amamos ou o toque reconfortante de um abraço valessem menos. Aristóteles, querido, sinto muito, mas sua hierarquia não cola mais por aqui.

E aí, claro, temos Platão, com sua famosa alegoria da caverna.

Para ele, a visão era o sentido que nos conectava com o mundo inteligível, a verdade, a luz. Ah, Platão, se você soubesse o quanto ainda estamos presos nas nossas cavernas modernas, achando que ver é saber de tudo! Se eu tivesse um real para cada vez que alguém achou que minha falta de visão significava ignorância sobre o mundo, eu também estaria naquela ilha paradisíaca que mencionei.

Parece que a ideia de que "ver" é sinônimo de "conhecer" continua a assombrar o imaginário coletivo. Já perdi a conta de quantas vezes alguém comentou sobre como era "admirável" que eu "entendesse tanto" do que estava acontecendo ao meu redor, mesmo sem ver. Como se o simples fato de eu estar sem visão me transformasse automaticamente em um ser isolado da realidade. Ou, pior ainda, como se o mundo fosse só visual e as outras formas de percepção não contassem para nada.

Lembra que eu mencionei Aristóteles colocando a audição como o segundo sentido mais importante? Pois é, ao menos nesse ponto, o filósofo acertou. Mas não sem tropeços. Audição é mesmo uma parte fundamental da minha vida, mas não da maneira mística que Aristóteles imaginava. Não, eu não sou capaz de ouvir uma conversa a três quarteirões de distância ou captar um sussurro no meio de uma tempestade (apesar de isso ser muito útil, não vou mentir).

O que eu faço, com bastante frequência, é usar os ouvidos para entender o ambiente ao meu redor. O som dos passos, o ruído do tráfego, a conversa no ônibus — tudo isso me ajuda a criar um mapa mental do mundo. Mas, claro, esse meu "radar auditivo" não tem nada de sobrenatural. Ele é apenas o resultado de anos de prática. E, quer saber? Às vezes, meu radar falha. Porque, assim como você pode perder o foco visual, eu também posso perder um som ou outro.

Agora, saindo um pouco do sarcasmo por um momento, preciso dizer que a vida das pessoas cegas na Grécia Antiga (e em muitas outras civilizações) não era exatamente um mar de rosas. Em Esparta, por exemplo, as crianças nascidas com deficiências muitas vezes eram abandonadas para morrer. Não havia lugar para "fracos" numa sociedade que valorizava tanto a força física e a perfeição. E, se você sobrevivesse à infância, suas opções de trabalho não eram muito melhores. Muitos cegos acabavam em ocupações degradantes, como mineradores em condições absurdas.

Hoje, felizmente, as coisas mudaram. Não que vivamos num paraíso de inclusão, mas, pelo menos, não somos jogados em cavernas ou usados para girar moinhos subterrâneos. Ao invés disso, temos acesso a tecnologias que melhoram nossa mobilidade e comunicação. E, claro, temos direitos (não que isso impeça algumas pessoas de se esquecerem disso de vez em quando).

Mesmo assim, os antigos estigmas e mitos sobre a cegueira ainda persistem. Desde Tirésias, passando por Homero e Édipo, até as representações mais modernas, a cegueira ainda carrega esse peso simbólico de "tragédia" ou "superação". Ou você é um gênio oculto, como Homero, ou um herói trágico, como Édipo. Nada de espaço para a normalidade, para o simples fato de viver a vida com uma condição diferente.

E, claro, com esses estigmas vêm as expectativas. Ah, as expectativas! Esperam que você seja ou superpoderoso ou completamente dependente. E é exatamente nesse intervalo entre a superestimação e a subestimação que a gente se perde. Como se a cegueira fosse tudo o que define quem somos.

E, no fim das contas, o que aprendemos com tudo isso? Que a cegueira, assim como qualquer outra condição, não é uma metáfora. Não é um castigo divino, não é uma passagem para a sabedoria superior, e muito menos uma condenação. É apenas uma parte da vida, uma característica entre tantas outras que fazem de mim quem sou.

Então, da próxima vez que você encontrar alguém cego, evite a tentação de colocá-lo num pedestal ou de tratá-lo como uma tragédia ambulante. Porque, sinceramente? Estamos apenas vivendo, do jeito que sabemos, exatamente como você. E, não, eu não consigo prever o futuro — a não ser que você esteja prestes a dizer que sou "uma inspiração". Aí, sim, eu posso garantir que sei o que vem a seguir.
 

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Ho-kei Dube — mulher que perdeu a visão aos 44 anos e ganhou uma lucidez feroz — alterna contos emocionais e ensaios racionais para desmontar mitos sobre cegueira, acessibilidade e o teatro da pena. Entre depilação desastrosa, cozinhas em chamas, filas “preferenciais” tratadas como favor, sermões que confundem fé com tutela e aplicativos que prometem inclusão e entregam labirintos, a autora costura humor ácido, ironia elegante e crítica social que incomoda — no bom sentido. in Amazon

Imagem de capa do livro "Olha por Onde Anda" de Ho-kei Dube
“OLHA POR ONDE ANDA — Coletânea de Contos Inconvenientes Entre a Razão e a Sensibilidade na Cegueira”
Autora: Ho-kei Dube
1ª edição, setembro, 2025
Versão ebook aqui.

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17.Dez.2025
Publicado por MJA