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-prólogo-

L'Aveugle - Gustav-Adolf Mossa, 1907
PRÓLOGO
Deixar de ver
Ficou tudo escuro. Era como um luto. Depois, aqui e ali, surgiam pontuais
brilhos como as manchas que o sol produz nas nossas pálpebras fechadas quando
tentamos fixá-lo em vão ou quando fechamos os punhos para suportar uma dor ou
emoção.
Claro que ela não descreveu assim a situação. Na boca de uma pequena e inquieta
criança de dez anos, a angústia exprime-se secamente, sem floreados nem
lirismos.
— Mamã, ficou tudo escuro!
Mona pronunciara estas palavras numa voz sumida. Uma queixa? Sim, mas não só.
Apesar de tudo, soltara-as com uma voz envergonhada que a mãe levava a sério
sempre que a ouvia. Até porque, se havia algo que Mona nunca fingia, era a
vergonha. Quando surgia envolta numa palavra, numa atitude ou numa certa
entoação, os dados estavam lançados… Ocorrera algo muito inquietante.
— Mamã, ficou tudo escuro!
Mona cegara.
Parecia não ter havido motivo para aquilo. Nada se passara em concreto; a filha
fazia os trabalhos de matemática com uma caneta na mão direita e a mão esquerda
apoiada no caderno, num canto da mesma mesa em que a mãe cobria com alho um
muito suculento estufado. Naquele instante, Mona tirara com todo o cuidado do
pescoço um fio com um pendente que estava a incomodá-la por oscilar de um lado
para o outro por cima dos exercícios, mas também por ter adquirido o mau hábito
de se curvar quando escrevia. A pequena sentiu uma pesada sombra abater-se sobre
os olhos como se fosse castigada por serem tão azuis, grandes e puros. A sombra
não surgira do exterior, como quando a noite cai ou as luzes de um teatro
reduzem a intensidade; apoderou-se-lhe da visão a partir do interior do seu
corpo. Insinuara-se nela uma camada opaca, desligando-a dos polígonos desenhados
no caderno, da mesa de madeira castanha, do estufado pousado pouco mais adiante,
da mãe e do seu avental branco, do pai sentado na sala ao lado, do apartamento
em Montreuil, do céu cinzento de outono que toldava as ruas e do resto do mundo.
A criança mergulhara nas trevas como por feitiço.
Sobressaltada, a mãe ligou ao médico de família, descreveu confusamente as
pupilas bloqueadas da filha, esclarecendo, porque o médico a questionara, que
não parecia estar a sofrer de perturbações da linguagem ou de uma paralisia.
— Parece tratar-se de um AIT — soltou ele sem desejar pronunciar-se mais.
Prescreveu de imediato doses reforçadas de aspirina e, principalmente, o
encaminhamento urgente de Mona para o Hospital Hôtel-Dieu, onde entraria em
contacto com um colega para que se ocupassem imediatamente dela. O médico não
recomendara aquele colega por acaso. Era um pediatra formidável, além de tudo
reputado por ser muito bom oftalmologista e, inclusivamente, um talentoso
hipnoterapeuta. Disse ainda que, normalmente, a incapacidade visual não deveria
exceder os dez minutos e desligou. Mas passara já um bom quarto de hora desde o
primeiro alerta.
No automóvel, a menina chorava e batia nas têmporas. A mãe segurava-a pelos
braços, mas, no fundo do seu ser, também queria bater naquela pequena cabeça
redonda e frágil como quem bate numa máquina avariada esperando que as pancadas
a ponham a trabalhar. O pai, ao volante do seu velho e engasgado Volkswagen,
queria compreender o mal que atacara a filha. Estava irritado e persuadido de
que lhe esconderiam parte do que se passara na cozinha. Conjeturava toda uma
lista de possíveis causas, de uma lufada de vapor a uma queda em falso. Que não,
disse-lhe Mona dezenas de vezes.
— Foi de repente!
Mas o pai não conseguia acreditar:
— Não se fica cego de repente!
Mas pode acontecer. Também se pode cegar «de repente». Eis a prova.
Naquele dia, foi o que sucedeu a Mona, com dez anos e lágrimas de medo a
escorrerem-lhe duas a duas — lágrimas que talvez pudessem lavar a fuligem que se
colara às suas pupilas naquele domingo de outubro ao fim da tarde. Chegada à
entrada do hospital, ao lado da Catedral de Notre-Dame, na Île de la Cité, a
menina interrompeu bruscamente o choro e estacou:
— Mamã, papá, está a voltar!
No meio da rua, onde soprava um vento frio, começou a balançar a cabeça para
trás e para a frente tentando ajudar ao regresso da visão. À maneira de uma
persiana que se levanta, o bloqueio que lhe obstruía a vista desaparecia.
Voltava a ver as linhas, depois os contornos dos rostos, o relevo dos objetos
próximos, a textura das paredes e todos os cambiantes de cor, dos mais alegres
aos mais escuros. A criança voltava a poder contemplar a silhueta esguia da mãe,
o seu grande pescoço de cisne e os braços finos, bem como a figura mais robusta
do pai. Vislumbrou ainda, ao longe, um pombo cinzento a esvoaçar, o que a encheu
de alegria. A cegueira apoderara-se de Mona, libertando-a depois. Atravessara-a
como uma bala que penetra na pele por um lado e sai pelo outro, causando mal,
como é evidente, mas permitindo a cicatrização do organismo.
«Um milagre», pensou o pai, que contara escrupulosamente a duração do problema:
sessenta e três minutos.
No serviço de oftalmologia do Hospital Hôtel-Dieu, não permitiram a saída de
Mona sem que realizasse um conjunto de exames e obtivesse os respetivos
diagnósticos e algumas prescrições. A aflição poderia, certamente, ser posta de
lado, embora não se tivesse dissipado por completo. Um enfermeiro indicou-lhes
uma sala no primeiro andar do edifício. Era o gabinete do pediatra contactado
pelo médico de família. O Dr. Van Orst era mestiço e sofria de uma calvície
precoce. A sua enorme bata branca e radiosa contrastava com o verde esbatido das
paredes. Um enorme sorriso, que lhe esculpia no rosto pequenas rugas joviais,
tornava-o simpático. Não deixava, no entanto, de ser um recetáculo de inúmeros
dramas. Iniciou ele a conversa:
— Que idade tens? — perguntou com uma voz rouca do tabaco.
***
Mona tinha dez anos. Era filha única de uns pais que se amavam. Camille, a mãe,
estava perto dos quarenta. Não era muito alta, tinha um cabelo curto e
despenteado, e na voz ecoava uma longínqua e espirituosa entoação dos antigos
arrabaldes. O seu encanto residia num lado «levemente desconchavado», como dizia
o marido, mas sustentado por uma formidável determinação. Nela, a anarquia
andava sempre de braço dado com a autoridade. Era uma boa, empenhada e zelosa
funcionária de uma agência de trabalho temporário. Pelo menos, de manhã. À
tarde, a coisa era diferente. Esgotava-se no voluntariado. Todas as causas eram
boas, dos idosos solitários aos animais maltratados. Paul ultrapassara os
cinquenta e sete anos. Camille era a segunda mulher. A primeira desaparecera com
o melhor amigo dele. Usava gravata para ajudar a disfarçar as camisas com os
colarinhos desgastados e labutava bastante como pequeno negociante de
antiguidades principalmente fascinado pela cultura americana nos anos de 1950…
Jukeboxes, flippers, cartazes… e, como tudo começara na adolescência com uma
coleção de porta-chaves em forma de coração, possuía uma grande panóplia deles,
que não pretendia vender e que, de qualquer modo, pouco interesse poderia
despertar em alguém. Com o desenvolvimento da Internet, a sua loja, perdida no
meio de Montreuil, estivera quase a fechar as portas. Por isso, pôs mãos à obra
e aproveitou os seus conhecimentos para criar, precisamente, uma página
eletrónica, constantemente atualizada e também traduzida para inglês. Apesar de
um jeito para os negócios próximo do zero, contava com uma clientela de
colecionadores atentos que o salvava regularmente da ruína. No verão anterior,
adquirira uma máquina de flippers modelo Gottlieb «Wishing Well», de 1955, com a
qual arrecadara a bela soma de dez mil euros. Uma saudável transação após meses
de penúria… A seguir, outra vez o nada. Era a crise, diziam-lhe. Na loja, Paul
bebia todos os dias uma garrafa de vinho tinto, que depois guardava à guisa de
troféu naqueles expositores para garrafas em forma de ouriço que eternizaram
Marcel Duchamp. Sozinho, erguia o copo sem guardar ressentimentos por ninguém.
Na sua cabeça, brindava agora a Mona. À sua saúde.
***
Enquanto um enfermeiro conduzia a filha pelo labirinto do hospital para que
fosse submetida aos diferentes exames, o Dr. Van Orst, bem instalado num enorme
cadeirão, transmitiu um primeiro diagnóstico a Paul e Camille.
— AIT ou Acidente Isquémico Transitório.
Significava que o sangue parara momentaneamente de irrigar os órgãos e que seria
necessário identificar o motivo dessa disfunção. No entanto, prosseguiu ele, o
caso de Mona causava-lhe alguma perplexidade… Por um lado, aquela súbita
cegueira, raríssima numa menina da sua idade, pareceu-lhe revelar alguma
gravidade, já que ambas as vistas tinham sido afetadas durante mais de uma hora.
Por outro, a capacidade de se movimentar e falar fora inteiramente poupada. A
imagem por ressonância magnética revelaria mais, sem dúvida. Teriam,
acrescentou, constrangido, de se preparar para o pior.
Mona deitar-se-ia numa espécie de estrado, que a faria deslizar para o interior
de uma máquina horrível, à qual ficaria obedientemente entregue sem poder
mexer-se. Pediram-lhe para tirar o fio com o pendente. Recusou. Era um delicado
fio de pesca com um minúsculo búzio que pertencera à sua avó e lhe servia de
amuleto. Tinha-o desde que se lembrava, e o seu Dadé adorado usava um igual. Os
dois amuletos uniam-nos, pensava ela, e não queria sentir-se longe do avô. Como
o pendente não tinha peças metálicas, pôde mantê-lo ao pescoço. Então, a menina,
com o seu bonito semblante, uma pequena e adorável boca arredondada e um belo
cabelo castanho não muito comprido e com brilhos arruivados, foi fechada numa
caixa digna de um ogre, que produzia o barulho de uma fábrica. Durante os quinze
minutos daquela tortura, Mona nunca deixou de entoar cantigas para a ajudarem a
suportar aquele sepulcro, introduzindo algum bom humor e ânimo. Cantarolou para
si uma cantiga de embalar um pouco piegas que a mãe lhe cantava ao aconchegá-la
ainda não passara muito tempo. Lembrou-se também de uma canção pop, uma música
que tocava constantemente nos supermercados e de que muito gostava do vídeo,
repleto de rapazes com belos penteados de gel. Recordou obsessivos jingles
publicitários. Também cantou O Ratinho Verde, recordando o dia em que se pôs a
gritar a letra para exasperar o pai, embora sem êxito.
Chegaram os resultados da ressonância magnética. O Dr. Van Orst chamou Camille e
Paul, que se apressou a tranquilizar. Nada ali via. Absolutamente nada. Nos
perfis do cérebro, a anatomia não revelava senão áreas homogéneas. Por ali, nada
de tumores, embora tivessem realizado um sem-fim de outros exames ao longo da
noite: à espessura das pupilas e ao ouvido interno, passando por análises ao
sangue, aos ossos, aos músculos e artérias. Também nada. A bonança depois da
tempestade. E teria esta realmente ocorrido?
O mostrador de um relógio perdido num corredor do Hospital Hôtel-Dieu indicava
cinco da madrugada. No espírito de Camille, surgiu uma canção de embalar.
Dir-se-ia, confidenciou ela ao marido, que um ser maléfico roubara os olhos de
Mona para logo os devolver. Como se se tivesse equivocado na vítima, acrescentou
Paul. Ou como se fosse um sinal, um aviso, e estivesse prestes a reiterar o seu
plano, pensaram um e outro em silêncio.
***
O toque da escola ecoou pelo pátio. O magote de crianças subia para o segundo
piso, encaminhado pela professora Hadji, que advertiu os alunos do quinto ano de
que Mona não voltaria à escola antes das tradicionais férias de la Toussaint,
entre finais de outubro e inícios de novembro. Acabava de ser avisada por
Camille ao telefone, que tudo lhe explicara, ou quase, acerca daquela noite
infernal sem lhe ocultar a gravidade dos acontecimentos. Como é evidente, os
alunos começaram a fazer perguntas. Teria a colega o direito de ir de férias uma
semana antes de toda a gente?
— Está adoentada — limitou-se a dizer a professora, com algum desconforto por
não poder aprofundar o assunto.
— Adoentada. Que sorte! — exclamou Diego, na terceira fila, e toda a turma
corroborou o que ele dissera na sua voz aguda.
Quase todas as crianças veem a doença como um caminho para a liberdade...
No fundo da sala, logo ao lado das cortinas polvilhadas de giz, Lili e Jade, as
duas melhores amigas de Mona, que conheciam todos os recantos do seu quarto,
salivavam mais do que os restantes. Ah! Como gostariam de estar com ela!
«Adoentada»? Sim, está bem, pensava Lili, mas decerto passaria alguns dias na
loja de antiguidades do pai. E Jade, com os olhos no lugar vazio de Mona,
imaginava-se deliciada na sua companhia, inventando todos os tipos de jogos e
histórias naquele modesto local cheio de velhos objetos a cheirar à América —
todo um cintilante, divertido e misterioso bricabraque que levava as crianças a
sonhar. Porém, Lili protestou:
— Não, não! Quando ela está doente, o seu avozinho Dadé vai tomar conta dela. E
ele assusta-me.
Jade obrigou-se a um riso de desdém para demonstrar que nada a assustava,
designadamente o avô de Mona. Contudo, no fundo das suas entranhas, a menina
admitia… Sim, também não se sentia muito confortável ao pé daquele homem velho,
enorme, magro, com o rosto desfigurado e uma voz rouca e áspera…
***
— Alô? Pai, sou eu...
Era meio-dia quando Camille, com os membros ainda entorpecidos, telefonou ao
pai. Henry Vuillemin recusava-se a ter um telemóvel e respondia,
invariavelmente, às chamadas no telefone fixo com um lacónico e seco «sim» que
pouco espaço permitia ao entusiasmo. A filha detestava aquele ritual, recordando
sempre com saudade o tempo em que a mãe, quando era viva, atendia as chamadas. E
iniciou a conversa separando bem as sílabas.
— Pai, tenho de te dizer que ontem aconteceu uma coisa terrível!
E lá contou tudo, por ordem, procurando controlar as emoções.
— E depois? — perguntou Henry com uma pontada de impaciência. Camille contivera
de tal modo as lágrimas que, durante o relato, o corpo sucumbiu num gigantesco
soluço que a sufocou. Não foi capaz de lhe responder.
— E então, querida? — insistiu o pai.
Este inesperado «querida» proporcionou-lhe uma lufada de ar fresco. Recuperou o
fôlego e concluiu:
— Nada! Para já, nada! Está tudo bem, creio.
Henry libertou um longo suspiro de alívio, inclinou a cabeça para trás e passou
os olhos pelas sancas em gesso do teto com motivos alegres que representavam
frutos muito maduros, folhagens e flores primaveris.
— Deixa-me falar com ela.
No entanto, Mona dormitava, muito bem instalada num cadeirão da sala de estar,
enroscada numa manta com um padrão escocês entre o púrpura e o violeta.
Ovídio descrevera essa fase de entorpecimento da consciência como a entrada na
imensa caverna que abriga, lânguido e indolente, o deus Sono. Este poeta
imaginava-o numa gruta inacessível a Febo, senhor do Sol. Mona aprendera com o
avô que, na dimensão humana, não existem viagens mais frequentes do que as que
nos levam a misteriosos territórios em mudança… Por isso, é muito importante não
negligenciar estes lugares que vamos visitando ao longo da vida.
***
Nos dias seguintes, o Dr. Van Orst submeteu-a a novos exames no Hospital
Hôtel-Dieu, que continuaram a não revelar uma anomalia particular. Ainda não
havia explicação para aqueles sessenta e três minutos de cegueira, a tal ponto
que o médico se sentia relutante em adotar a nomenclatura «acidente isquémico
transitório», que supunha uma deficiência vascular de que não poderia ter
certeza absoluta. Na falta de diagnóstico definitivo, propôs a Mona — e aos pais
— o recurso à hipnoterapia, o que lhes suscitou uma muda estupefação. Quanto à
pequena, não sabia muito bem do que se trataria. Esta expressão levou-a a pensar
num qualquer «jogo do lenço» de que tinha vagamente ouvido falar na escola e que
a assustava bastante.
Para corrigir esta ideia errónea, o Dr. Van Orst
esclareceu que consistiria em transportar Mona para um estado hipnótico em que
ficaria momentaneamente sob sua influência. Esta experiência permitiria à filha
recuar no tempo, até ao instante em que perdera a visão, para voltar a
vivenciá-lo e, com alguma probabilidade, identificar a causa. Paul insurgiu-se.
Estava fora de questão, seria perigoso. O Dr. Van Orst não insistiu. Para
submeter uma criança à hipnoterapia, ela terá de se entregar com inteira
confiança. E, entre o preconceito de Mona e a reação exagerada do pai, o terreno
estava minado. Camille não se pronunciou.
O Dr. Van Orst prescreveu um receituário completo à jovem paciente. Análises ao
sangue, exames arteriais semanais, visitas ao oftalmologista e uma convalescença
de dez dias. Recomendou a Paul e Camille que se mantivessem atentos a «qualquer
surgimento de sinais subjetivos de carácter sintomático», o que significava que
deveriam mostrar-se extremamente atentos aos sintomas da filha. Sugeriu-lhes,
por isso, que consultassem um pedopsiquiatra:
— É mais uma questão profilática do que terapia propriamente dita —
garantiu-lhes.
Paul e Camille registaram confusamente as suas recomendações, embora, no fundo,
só tivessem uma pergunta na cabeça: «A Mona poderá vir a perder a visão?»
Curiosamente, o Dr. Van Orst nunca referira, em momento algum, a possibilidade
de uma recaída definitiva, e, apesar desta obsessão, os pais preferiram evitar o
assunto. Convenceram-se de que, apesar de tudo, o médico não tocara no assunto
porque não valia a pena falar nisso.
Henry Vuillemin abordou-o frontalmente com a filha. Não era do género de fugir
às questões, por mais graves que fossem. Habitualmente parco em telefonemas,
quanto mais não fosse para ouvir a neta, desmultiplicou-se em chamadas naquela
semana. Martirizava Camille com a sua voz terna e dedicada. Sim ou não, a
querida neta, o tesouro da sua vida, ficaria cega? Henry insistia em estar com
Mona, e Camille não poderia, obviamente, recusar. Sugeriu-lhe que a visitasse no
domingo de la Toussaint, exatamente uma semana depois da cegueira súbita. Paul,
que ouvira a conversa, resignou-se e engoliu praticamente de uma assentada um
copo de vinho seco da Borgonha. Quando estava com o sogro, sentia-se um
miserável imbecil. Mona, pelo contrário, quando soube, deu saltos de
impaciência.
Adorava aquele avô com tantos anos e energia. Gostava também muito de ver todos
quantos se cruzavam com ele e se deixavam encantar pela sua imperturbável figura
por trás de uns pesados óculos com aros grossos e praticamente quadrados.
Sentia-se protegida a seu lado. E arrebatada. Henry sempre comunicara com a neta
como se fosse uma pessoa crescida. Ela exigia-lhe este tratamento, e,
divertindo-se com isso, sabia-lhe bem. Mona nunca tivera receio de não o
compreender e ria-se com os enganos e mal-entendidos, pois também dava muita
atenção ao que dizia. Como é evidente, era mais um jogo do que um jugo.
Henry não queria transformá-la num macaquinho amestrado. Não pretendia ser um
daqueles avôs parodiantes que procuram os defeitos dos jovens para melhor os
corrigir na sua voz douta. Não estava na sua natureza. Nunca a obrigava a fazer
os trabalhos de casa nem se intrometia nas notas escolares. Além disso, adorava
o modo como Mona se exprimia. Sentia-se fascinado com a sua forma de compor as
frases. Porquê? Não sabia. Nunca soubera o motivo. Sempre se sentira obcecado,
assombrado por algo da sua linguagem infantil. Seria por ter algo a mais ou a
menos? Uma qualidade ou um defeito? Esta sensação era ainda mais perturbadora
por não ser recente. A «singela musicalidade» de Mona sempre ocultara um enigma
que Henry se dispusera a descobrir à força de tanto a escutar.
Por vezes, Camille admitia espantar-se com aquela relação que julgava «demasiado
bela para ser verdadeira», embora reconhecesse que corria maravilhosamente e que
a filha era feliz. E depois Henry, que costumava citar com prazer A Arte de Ser
Avô, de Victor Hugo, lembrava a quem quisesse escutá-lo um dos princípios
fundamentais da transmissão de conhecimento: pouco importa que compreendamos
logo tudo o que alguém nos diz, como se fosse obrigatório que cada nova palavra
se tornasse logo uma árvore florida no imenso pomar do cérebro. Desde que
tivessem sido abertos os sulcos e plantadas as sementes, o desabrochar ocorreria
na altura certa.
No caso de Henry Vuillemin, estes sulcos e sementes correspondiam a um fluxo de
palavras ricas e seguras que se colavam aos seus ouvintes na primeira vez que as
pronunciava para nunca mais os abandonarem. Tinha um falar muito simples, embora
com uma envergadura tal que entusiasmava. Um pouco como o ritmo de um contador
de histórias que por vezes acelera para depois abrandar e, entretanto, colorir a
história com uma doce emoção. O seu falar resultava do rolo compressor da
experiência de vida e de uma tranquila erudição.
Por isso era tão especial a relação com este Dadé. Dos avós para os netos e dos
netos para os avós, surge muitas vezes um vínculo milagroso devido a uma espécie
de curva existencial em que os mais velhos regressam, do alto da sua idade
avançada, às sensações da infância, compreendendo melhor do que ninguém a
primavera da vida.
Henry Vuillemin habitava num belo apartamento da avenida Ledru-Rollin, mesmo por
cima do Le Bistrot du Peintre, um estabelecimento estreito e ornamentado com
canteiros de plantas ao estilo Arte Nova. Ali descia todas as manhãs e dava azo
aos seus hábitos. Um café e um croissant, a leitura da imprensa nacional e uma
conversa ao acaso com este ou aquele, entre clientes e o pessoal nas pausas do
serviço. Sentia-se pertença de um velho mundo e costumava dar a sua caminhada
ritual, em passo muito vagaroso, até à praça da Bastilha, apreciava o mobiliário
nas montras da rua do Faubourg-Saint-Antoine, subia até à praça da República
pelo terrapleno do boulevard Richard-Lenoir e regressava pelo boulevard
Voltaire. Ao fim da tarde, em casa, folheava os livros de arte empilhados até ao
teto. Henry, um centímetro mais alto do que o general de Gaulle, alcançava sem
degrau nem escadote os mais inacessíveis, e, por curiosa coincidência, eram
geralmente estes que mais atraíam a sua atenção. Era dono de uma memória
prodigiosa, embora soubesse distinguir entre a sua propensão para falar do que
sabia e as próprias memórias, que protegia debaixo de camadas de pudor. Mona
conhecia a regra. O único assunto proibido com o avô era Colette Vuillemin, de
quem enviuvara havia sete anos. À imagem do pai, Camille nunca falava dela. Por
mais que, de vez em quando, a criança tentasse abrir uma brecha, a mãe
remetia-se sempre a um profundo silêncio. Não se falava de Colette. Nunca. Como
única exceção a este tabu, Henry trazia ao pescoço um pendente em memória da sua
desaparecida esposa. Era um pequenino búzio aplicado num fio de pesca que,
juntos, tinham apanhado nos areais da Côte d’Azur, no verão de 1963. Não se
recordava do dia exato, mas do calor abrasador e de ter prestado muitas juras a
Colette. Mona, como vimos, usava um pendente idêntico, herdado da avó.
Cada um tem um modo próprio de prestar juramentos. Henry Vuillemin jurava por
«tudo o que há de mais belo no mundo». Esta expressão surpreendia Mona e, quando
a ouvia, encolhia sistematicamente os ombros com um leve e baralhado riso. Tudo
o que há de mais belo no mundo era um pouco de tudo e um pouco de nada ao mesmo
tempo. Então, questionava-se se o seu venerado avô estaria incluído. Tudo levava
a crer que Henry fora um jovem atraente, continuando a ser imponente, encantador
e fora de série. A sua figura de macilento e austero octogenário exalava um
vigor e uma inteligência intensamente sedutores. Mas tinha uma cicatriz. Uma
cicatriz que lhe atravessava a face, do lado direito, da parte inferior da maçã
do rosto à sobrancelha, uma ferida que teria sido muito dolorosa. Não só lhe
deixara um sulco na pele como também arrancara parte da córnea. Era uma
reminiscência da guerra. Uma terrível recordação…
No dia 17 de setembro de 1982,
durante uma reportagem fotográfica ao Líbano para a Agência France-Presse, fora
esfaqueado por um falangista para o impedir de avançar. Aproximava-se do
acampamento de Chatila, tendo surgido rumores de que ali estariam a ser
perpetrados massacres, de que os refugiados palestinianos seriam executados
arbitrariamente, sem julgamento, como represálias pelo assassínio do presidente
Bachir Gemayel. Henry quis informar-se, testemunhar. Barraram-lhe o caminho com
uma violência desumana. Perdera muito sangue e uma vista. Este problema,
associado a uma grande estatura e a um emagrecimento cada vez mais acentuado com
o avançar dos anos, acabaram por revestir a sua aparência de uma aura
sobrenatural. Aquele belo repórter, que dava ares a Eddie Constantine,
transformara-se numa lenda.
***
No dia de la Toussain, Mona já estava em boa forma. Os pais esforçaram-se por
desanuviar as sombrias condições climáticas de novembro.
Jade e Lili, duas colegas da escola, visitaram-na para verem juntas parte de Toy
Story, o filme de animação em que os brinquedos ganham vida, e fizeram alguma
algazarra. Sobretudo Jade. Era uma menina traquina e bonita, com uns olhos
orientais muito finos, uma pele lisa e os cabelos muito penteados. No entanto,
animava-a o espantoso hábito de fazer caretas. Sabia transformar o seu
harmonioso rosto num caótico e desconjuntado teatro ambulante, em que exibia
insólitas e burlescas expressões como se fosse um desfile de atores enfurecidos.
Mona, divertida, pedia-lhe sempre mais.
Pelas sete da tarde ouviu-se a campainha. Paul franziu os lábios e ergueu o
sobrolho. Camille carregou no botão do intercomunicador:
— Pai?
Era, precisamente à hora combinada. Paul cumprimentou-o e ausentou-se para
deixar Jade e Lili nas respetivas casas. Mona, a mãe e o avô ficaram no
apartamento. Após uma indomável eclosão de alegria, a pequena, que tivera o
cuidado de não contar a sua desventura às amigas, iniciou um relato
pormenorizado dos sessenta e três minutos de calvário e dos exames a que fora
submetida no hospital. Camille não a interrompeu.
Enquanto Mona falava e continuava a falar, Henry pôs-se a observar com um grande
distanciamento clínico o espaço em que a neta vivia. O próprio quarto, apesar de
uma decoração encantadora, pareceu-lhe muito tristonho. O papel de parede com
grinaldas, objetos com lantejoulas em forma de coração ou de animais, peluches
cor-de-rosa ou castanhos, cartazes grotescos com vedetas mal saídas da
adolescência, joias de brincar, um mobiliário igual ao das princesas dos
desenhos animados… As cores acres de toda aquela balbúrdia sufocavam-no. Num
conjunto transbordando de mau gosto, não se viam senão duas clareiras de beleza.
Um robusto candeeiro industrial norte-americano dos anos de 1950, com um braço
articulado, que Paul descobrira algures, oferecera à filha e instalara na sua
pequena secretária; mas também, por cima da cama, um cartaz que anunciava uma
exposição, reproduzindo uma tela. Crepitava de cores extraordinariamente subtis
em tonalidades frias. Representavam uma mulher nua, de perfil, inclinada para a
frente, sentada num banquinho estofado com um tecido branco e o tornozelo
esquerdo apoiado no joelho direito. Num canto, podia ler-se: «Museu de Orsay,
Paris — Georges Seurat (1859–1891).»
Apesar destas exceções, Henry constatava, aterrado, que, por uma qualquer
conveniência, a maior parte da infância vive repleta de objetos fúteis e
desengraçados. E Mona não era exceção. A beleza, a verdadeira beleza da arte,
entrava no seu quotidiano pouco mais do que clandestinamente. O que era
absolutamente natural, notava Henry, pois o aprimorar do gosto e o
amadurecimento da sensibilidade vêm mais tarde. No entanto — e foi sufocado por
este pensamento —, Mona quase perdera a vista e, se os seus olhos se fechassem
de vez nos dias, semanas ou meses seguintes, só poderia levar consigo, nos
confins da memória, a lembrança de coisas triviais e vãs. Toda uma vida passada
no escuro, a compor ideias com o que o mundo produz de pior, sem poder fugir
para as boas memórias? Seria impossível. Aterrador.
Para grande aborrecimento da filha, Henry mostrou-se taciturno e distante
durante o jantar. Mona acabou por ir deitar-se, e, para abafar a conversa,
Camille subiu resolutamente o som do saxofone de Coltrane, que tocava numa velha
jukebox cromada, garantindo que a filha nada escutasse.
— Pai, por agora, a Mona parece estar a lidar bem com… — hesitava nas palavras —
o que sucedeu. Mas o médico recomendou que consultasse um pedopsiquiatra. Como
talvez seja estranho para ela, pensei que pudesses acompanhá-la às consultas
para a tranquilizares...
— Um psiquiatra? Será isso que a impedirá de ficar cega?
— A questão não é essa, pai!
— Eu creio que é! E não deixará de ser enquanto não tiverem coragem para
questionar o médico! Afinal, como se chama ele?
— É o doutor Van Orst e é muito bom — respondeu atabalhoadamente Paul,
procurando juntar-se à conversa.
— Pai, espera — retomou Camille. — Ouve-me. Eu e o Paul faremos tudo para que
nada aconteça à Mona. Compreendes? Mas ela tem dez anos, e não podemos fingir
que nada se passou. O médico diz que o seu equilíbrio psíquico é uma prioridade.
Pergunto-te apenas se podes ocupar-te disso, pois sei que a Mona confia em ti.
Entendes, pai?
Henry entendia perfeitamente. Porém, naquele preciso instante, acendera-se-lhe
no espírito uma magnífica ideia, que guardou zelosamente para si. Não levaria a
neta a consultas de pedopsiquiatria, não… Em vez disso, submetê-la-ia a uma
terapia muito distinta, capaz de compensar a adversidade que se lhe apoderara da
infância.
Teria de levar Mona, que confiava inteiramente em si, que lhe dava um crédito
como a mais nenhum adulto, a lugares que encerram tudo o que o mundo proporciona
de mais belo e humano. Teria de a levar a visitar alguns museus. Se, por algum
infortúnio, a neta viesse a cegar para sempre, pelo menos passaria a dispor de
uma espécie de reservatório, no fundo do cérebro, onde procurar os esplendores
visuais que nele arquivara. Era esse o plano do avô… Uma vez por semana, segundo
um ritual imutável, levaria a neta pela mão a contemplar uma — e só uma — obra
de arte. De início, num longo silêncio, para que o infinito deleite das cores e
das linhas pudesse imiscuir-se no seu espírito, acompanhada depois por palavras,
a fim de superar a fase de deslumbramento visual e compreender os processos em
que os artistas nos falam da vida e de como a iluminam.
Assim, concebeu para a sua pequena Mona algo melhor do que um tratamento médico.
Primeiro, visitariam o palácio do Louvre, depois, o Museu de Orsay e, por fim, o
Beaubourg. Ali, sim, nesses lugares destinados a conservar o que a humanidade
proporcionou de mais audacioso e belo, iria ao encontro de um tónico para a
neta. Henry não era daqueles amantes da arte que, afastados do mundo, se
satisfazem com o brilho de uma pele pintada por Rafael ou com o ritmo compassado
dos desenhos a carvão de Degas. Adorava as qualidades quase incendiárias das
obras. Dizia, por vezes, que «a arte é pirotecnia ou vento». E muito gostava ele
que, no todo ou num pormenor, uma tela, uma escultura ou uma fotografia tivesse
a capacidade de atiçar o sentido da vida.
Por isso, no instante em que Camille lhe pedia ajuda, Henry sentiu-se inundado
por centenas de imagens: os volumes rochosos por trás de Gioconda; o macaco da
escultura O Escravo Moribundo, de Miguel Ângelo; a alarmada expressão da criança
de caracóis louros em Juramento dos Horácios; os estranhos lombos gelatinosos de
Cabeça de Cordeiro, de Goya; os torrões de terra em Lavoura no Nivernais, de
Rosa Bonheur; a assinatura de Whistler em forma de borboleta no retrato da mãe;
o vacilante absidíolo da igreja de Van Gogh… Ou ainda as cores de Kandinsky, as
desconstruções de Picasso e o outrenoir de Soulages. Todas emanam sinais
reclamando as atenções, pedindo para serem contempladas, escutadas,
compreendidas e amadas. Como contrafogos das chamas que ameaçavam os olhos de
Mona.
Por fim, Henry exibiu um enorme sorriso:
— Entendido, levarei a Mona comigo todas as quartas-feiras à tarde. A partir de
agora, serei eu, e somente eu, a tratar do acompanhamento psiquiátrico. Será
algo só nosso. Estamos de acordo?
— Conseguirás encontrar alguém que saiba o que faz, pai? Vais pedir conselhos
aos teus velhos amigos?
— Acordamos neste princípio? Tratarei de tudo sem perguntas ou a interferência
de quem quer que seja.
— Mas não podes escolher um pedopsiquiatra ao acaso, compreendes? Terás de estar
muito atento.
— Confias em mim, minha querida?
— Sim — disse Paul com autoridade para contrariar uma eventual hesitação de
Camille. — A Mona admira-o e respeita-o. Adora-o como a mais ninguém. Por isso,
sim, confiamos em si.
Perante as palavras firmes do marido, Camille assentiu ternamente, nada
acrescentando. Henry sentiu um fulgor levemente humedecido trespassar-lhe a
vista funcional. As paredes estremeciam com o saxofone de Coltrane. No quarto,
Mona dormia acautelada por Georges Seurat.
FIM do prólogo
ϟ
Historiador de arte, Thomas Schlesser é também diretor da Fundação Hartung-Bergman, professor e autor de vários ensaios. O seu romance de estreia, Os Olhos de Mona, tornou-se um dos maiores fenómenos da literatura francesa dos últimos anos, vendendo mais de meio milhão de exemplares e tendo sido publicado em 37 países.
Mona, uma menina de 10 anos, está a perder a visão. E o avô tem 52 semanas para lhe mostrar toda a beleza do mundo. Cinquenta e duas semanas:
foi esse o tempo que o seu avô - erudito e excêntrico - se deu para apresentar a Mona uma obra de arte; todas as quartas-feiras depois da escola, antes
de ela perder, talvez para sempre, o uso dos olhos.
Juntos, eles farão um tour pelo Louvre, o Orsay e o Beaubourg. Juntos, eles se maravilharão, se emocionarão e se questionarão , envolvidos pelo espetáculo de uma pintura ou
de uma escultura. Através dos olhos de Botticelli, Vermeer, Goya, Courbet, Claudel, Kahlo e Basquiat, Mona descobre o poder da arte e aprende sobre dom, dúvida, melancolia e revolta, um tesouro precioso que
o seu avô quer gravar nela para sempre.
Um grande romance de iniciação à arte e à vida, a história de uma relação solar
entre uma menina e o seu avô. Les Yeux de Mona
teve um destino fabuloso: traduzido em mais de vinte países antes mesmo de sua
publicação na França, é um fenômeno internacional . Foi selecionado para o Grand
Prix RTL-Lire Magazine Littéraire 2024 .

Os Olhos de Mona
-Prólogo-
Título original: Les Yeux de Mona
Autor: Thomas Schlesser
Copyright © Editions Albin Michel, Paris, 2024
Editorial Presença, Lisboa, 2025
Tradução: João Cardoso
9.Jul.2022
Publicado por
MJA
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