Cego com o seu Cão - OIsaak van Ostade -
óleo sobre madeira, s. XVII
1352
Em pleno seculo XIV. O sol brilhante, num céu sereno e límpido de um dia
de alegria, derramava-se em torrentes sobre a catedral de Estrasburgo. Voltada
para o oriente, segundo o rigor do simbolismo religioso, recebia a luz do alto,
como um cenáculo em que as línguas de fogo vinham revelar os mistérios da
vida e a serenidade, que ela havia de infundir aos tristes que se acolhessem, corridos das tempestades do mundo, na tranquilidade do seu recinto. A luz
refletia-se coruscante das vidraças, que ostentavam um rosicler das cores mais
caprichosas e vivas; cada pedra, cada ângulo, cada saliência destacava-se
mostrando os rendilhados e lavores esquisitos; a torre parecia então mais
altiva, não topetava com as nuvens, perdia-se na profundeza do espaço
azulado e puro. Era um belo dia de primavera.
Diante da catedral majestosa foram-se agrupando pouco a pouco alguns
vultos ociosos; e, atraída na razão direta das massas, instantes depois a
multidão flutuava impaciente, como quem espera um prodígio anunciado, um
eclipse. Não era nenhum eclipse, nem tampouco o aparecimento de um
cometa, que então fazia tremer os pontífices e os reis. Não era mesmo
procissão esplêndida, que o povo e os amadores de tertúlias estavam
esperando com ansiedade. O que seria então?
Uma figura estranha, embuçada num tabardo escuro, chapéu emplumado ao
uso da corte, vinha montado, a passapelo, num cavalo fouveiro; custava-lhe a
romper por entre a turba apinhada; estrangeiro ali, não quis atropelar
ninguém, e resolveu esperar que o concurso fosse diminuindo.
— O que está toda esta gente aqui a fazer, num dia de trabalho? — perguntou o desconhecido para um rapaz, que parecia esconder-se entre o
vulgo, com um ar de tristeza e de uma dor indizível. — Há alguma procissão
ou festa de jubileu? Ainda as portas da catedral estão fechadas.
— É certo que vindes de bem longe, — volveu-lhe vivamente o pobre
rapaz — pois que ainda vos não chegou a fama do grande Relógio de
Estrasburgo. É uma maravilha da Alemanha. Não vedes aquela estatuazinha
da Virgem? Diante dela, vêm ao bater do meio dia os três Reis Magos com
seus presentes, e o Galo autómato, que lá está, sacode as asas logo que o sol
toca o zénite.
O cavaleiro não teve tempo para compreender o que ouviu, porque um
sussurro imenso, repentino, burburinhou por toda a praça. O carrilhão de
Estrasburgo dava meio dia. Ficaram boquiabertos, atentos esperando o
aparecimento dos Reis Magos. Sentiu-se primeiro o ruido estrepitoso de umas
asas pesadas, depois o clangor de uma voz énea, soturna. O cavaleiro estava
pasmado com o que via. A fama do Relógio de Estrasburgo correra as
partidas do mundo. Os palácios, os mosteiros, os castelos desejavam uma
maravilha igual. Ignorava-se o nome do artista. O cabido da catedral ufanava-se
com tão magnífico e singular artefacto.
— Oh! diz-me, — acudiu o cavaleiro, saindo do espasmo da admiração — diz-me quem fez esta obra prodigiosa, que é a inveja de todas as cidades do
mundo! Porque se não fala no nome dele? Onde está o artista? Venho de
França para vê-lo.
— Perguntais, nobre cavaleiro, como se eu pudesse violar tal segredo!
Mal sabeis que as vossas palavras acordam na minha alma uma dor profunda
como um eco num páramo aziago. Quem fez o Relógio, perguntais vós, e a
glória tenta-me, precipita-me, impele-me a arriscar a vida! Foi o meu pai! — E
as lagrimas de alegria e pesar foram-lhe arrasando os olhos, até que rompeu
num choro insofrido de criança. O cavaleiro apeou-se e estreitou-o nos
braços.
— É a saudade do teu pai, que te lava o rosto com esse pranto de
ingenuidade e amor? Não soube a morte respeitar tão preclaro engenho? E eu
que vinha da parte de Carlos V, de França, para visitá-lo e falar-lhe!
— Ele ainda vive, senhor. Mas que vida! Oh! antes a morte o tivesse
envolvido nas suas trevas geladas; antes houvesse nascido sem aquela luz do
talento, que é sempre a predestinação do martírio.
A praça estava já deserta, e os dois partiram enleados nesta conversação.
Chegaram à oficina do relojoeiro. Era um velho; tinha o rosto escondido entre
as mãos, como quem se abismara numa abstração intensa, ou numa grande e
entranhável agonia. O estrangeiro permaneceu hirto sob a soleira da porta;
não se atrevia a interromper os processos misteriosos daquela mente
perscrutadora. A criança aproximou-se com familiaridade, e segredou-lhe
longamente umas palavras mal articuladas e confusas. O velho ergueu então a
fronte banhada numa alegria suave, e voltou-se para a porta:
— Buscam-me da parte de el-rei Carlos V de França? — perguntou ele
com um ar afável e indicando um assento ao desconhecido.
— Em verdade, el-rei me envia aqui.
— E o que pretende de mim, que nada posso, el-rei, que tudo manda?
— Conhecendo a vossa boa fama, vendo que enriquecestes a Alemanha
com essa maravilha do Relógio de Estrasburgo, ele quer também colocar na
torre do palácio da Justiça uma máquina, que dividindo com justeza as doze
horas do dia, ensine a observar a justiça e as leis.
— Como o não serviria eu de boa vontade, se me não houvessem apagado
para sempre o lume dos olhos. Não vedes estas órbitas vazias?
Cegaram-me. Há já dezasseis anos que vivo mergulhado nestas sombras
cerradas, que me antecipam a escuridão tétrica do sepulcro, mas que me
prolongam a vida, no abandono da desgraça, para sofrer a cada instante as
mais excruciantes provações. Eu vivo ao desamparo; nem sei já trabalhar.
Nesta solidão do espirito, para esquecer o tédio e a desesperação que me
pungem, eu invento maquinismos complicados, que o meu pobre filho
executa. É ele o herdeiro do meu engenho. Cada pancada do relógio no
carrilhão da catedral, é uma palavra de sarcasmo, um insulto vibrado por uma
língua satânica, só entendida por mim. Vou contando as horas na mudez das
noites de insónia, e cada uma me descreve com mais feias cores esta morte
onde fui precipitado em vida.
Havia nas palavras do velho um misto de resignação e dor, uma
conformidade, uma santidade admirável. A fronte, enrugada pelos anos e o
estudo, pendia-lhe sobre o peito; o filho ainda imberbe, engraçado, ingénuo,
estava de pé ao seu lado, mudo, com os olhos no chão.
— Como houve mãos tão barbaras, que ousaram pôr diante do vosso
espirito, para sempre, a sombra eterna da morte? Foi o acaso? Foi a malvadez
que vos despenhou nessa desgraça? Seria a inveja quem vos suplantou à
traição, vendo-se obrigada a admirar os artefactos que não podia exceder? Oh,
contai-me. Não! não! tenho horror de ouvir; deve custar-vos muito isso. El-rei
há de sabe-lo e acudir-vos.
O velho ergueu lentamente a fronte; poisou as mãos sobre a cabeça loira do
filho, brincando distraído com os cabelos anelados. Depois de um momento
de indecisão, começou:
— O bispo João de Lichtenberg encomendou-me um relógio grande para
a torre de Estrasburgo. Era preciso que as horas canónicas fossem observadas
com escrúpulo; as irregularidades na divisão do tempo causavam graves
inconvenientes às rezas e ofícios divinos do coro. Eu trabalhei dois anos
consecutivos; tinha empenhado naquela obra a minha fama. Inventei um
calendário em que representava as indicações das principais festas móveis: ao lado pus-lhe um quadro em que estavam escritas em verso as principais
propriedades dos sete planetas; ao meio coloquei-lhe um astrolábio, em que os
ponteiros notavam o movimento do sol e da lua, as horas e os quartos. Ao
alto estava uma estátua da Virgem, perante a qual se inclinavam, ao dar do
meio dia, as figuras dos três Reis Magos. Ficaram espantados com a maravilha
da obra; soou por toda a parte a fama dela. O povo aglomerava-se na praça
para ver. O cabido receou que os outros mosteiros ou as cortes da Europa
quisessem ter um monumento igual. Como impedi-lo? Uma noite, estava eu
descansando do trabalho assíduo, improbo que levava, quando me bateram à
porta. Vieram dizer-me que o relógio estava parado. Levantei-me à pressa,
aterrado, confuso, e dirigi-me para a torre. Quando ia subindo, e já a uma
altura vertiginosa, apagaram-se de repente os archotes; os que me
acompanhavam, lançaram mão de mim para me precipitar; as unhas
prenderam-me ás fendas da cantaria, com a tenacidade do amor à vida. Por
fim, cansados, agarraram-me, arrancaram-me os olhos. Aos meus gritos, os
malvados respondiam que me desse por feliz em não ser queimado vivo na
praça publica, exposto à irrisão da plebe, por feiticeiro; que eu tinha pacto
com Satanás, que o evocava com linhas cabalísticas com que formava as rodas
denteadas.
O pobre velho permaneceu um instante silencioso refletindo no assombro
daquela noite infernal; depois mudando de conversa, o embaixador pediu-lhe
para levar o filho, que havia de fazer por certo o relógio para o palácio da
justiça. Não faltaram negações e hesitações. O velho conhecia o talento do
filho, e temia um igual desastre. O cavaleiro jurou protegê-lo com a vida, e
trazê-lo incólume a casa do seu pai, logo que tivesse findado o trabalho.
O relógio foi posto na torre do palácio da Justiça, e, ele que aconselhava a
observância da justiça e das leis, foi o mesmo que, dois séculos mais tarde deu
o sinal para a execranda carnificina da noite de S. Bartolomeu.
Quando o filho do relojoeiro de Estrasburgo voltou à pátria, ainda o pobre
velho vivia. Estava no meio da sua desgraça, possuído de uma alegria infinita.
Na solidão do espírito em que ficara, procurara constantemente vingar-se.
Vingou-se afinal. Um dia conseguiu aproximar-se do Relógio, e tocou numa roda de
tal forma, que não voltou mais a regular, apesar de todos os esforços; em 1574,
intentou restaura-lo Dasípodes, outros em 1669, em 1731, até que cessou de
trabalhar em 1789, como uma relíquia última da Idade Média que
arrebatava a Revolução. O desgraçado levava esta única consolação do
mundo. A mesma lenda se conta dos relógios de Nuremberga, de Auxerre e
Lyon, em que as versões parecem filhas da compreensão de uma mesma
verdade.
FIM
Relógio astronómico da Catedral de Estrasburgo (vídeo)
ϟ
A Idade Média está completamente caracterizada nas suas lendas; porque se
não há de por elas recompor a história, animá-la com essas cores vivas, dar-lhe
movimento. A mais extensa, a que absorveu todas as imaginações rudes e
criadoras, foi a lenda do Diabo, reprodução do dualismo persa, que aparece
fatalmente no período instintivo da génese religiosa. Desta idealização do mal
provém, na arte, a realização anónima do grotesco, muitos dos velhos
fabulários, e na ascese divina a tentação de que estão cheios Ribadaneiras e
Boulangistas.
A ciência, nos primeiros séculos da Igreja, foi desprezada, amaldiçoada como
inútil e perigosa, porque tornava o espirito rebelde, orgulhoso; a alma perdia
com ela a simplicidade, que a elevava até Deus. A observação das leis físicas
do mundo era uma impiedade; Bacon e Silvestre II foram olhados como
feiticeiros. É um martirológio interminável o desenvolvimento da razão.
Foi
um dos algozes Sam Paulo:
«Eu destruirei a sabedoria dos sábios e rejeitarei a ciência dos eruditos. O que
é feito dos sábios? O que é feito destes espíritos curiosos das ciências do
seculo? Não os há convencido Deus da loucura das ciências deste mundo?» A
Igreja não se contentou com a acrimónia da invectiva, quis encarnar este verbo
do obscurantismo. As lutas e as agonias que se seguiram estão perpetuadas
num sem número de lendas sobre as revoltas do espírito, que vieram a
sintetizar-se no tipo do Fausto. Teófilo Braga
"Foi esta paixão flagrante que fez com que esses Contos não ficassem
esquecidos no Jornal do Comercio de 1865; voltando então de umas férias
para Coimbra, felicitou-me Eça de Queirós, afirmando-me que nos cafés em
Lisboa cortavam-se os folhetins, quando traziam algum conto meu".
"Foram reunidos em volume em 1865 os 'Contos Fantásticos' no meio das
refregas da conhecida Questão de Coimbra; publicara a maior parte deles no
Jornal do Comércio, em cuja colaboração literária auferia uns tantos réis com
que ia seguindo o meu curso na Universidade".
O Relógio
de Estrasburgo
TEÓFILO BRAGA
in CONTOS FANTÁSTICOS
1865