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SOBRE A DEFICIÊNCIA VISUAL


O Caso da Testemunha Zarolha

Erle Stanley Gardner

The Eye (Vision) - Odilon Redon
The Eye (Vision) - Odilon Redon, 1881
 

Hamilton Burger chamou a testemunha seguinte, Mrs. Maynard.

Quando esta subiu ao estrado e se sentou na respectiva cadeira, parecia ter sofrido um acidente, visto apresentar o olho esquerdo completamente tapado por uma atadura de gaze, fixa por adesivos.

Hamilton Burger lhe fez algumas perguntas preliminares e depois inquiriu:

— Onde se achava no dia vinte e dois de setembro, deste ano?

— Primeiro, em Los Angeles e, depois em Sacramento.

— Como se deslocou, Mrs. Maynard, de Los Angeles para Sacramento?

— Num ônibus da Pacific Greyhound.

— Teve ocasião de se encontrar com a acusada, Myrtle Ingram Fargo?

— Sim, senhor.

— A acusada circulava nesse mesmo ônibus, desde Los Angeles, até Bakersfield?

— Não, senhor.

— Está certa disso?

— Estou absolutamente certa.

— Porque é tão firme nessa sua declaração?

— Se eu a tivesse visto subir no ônibus em Los Angeles, não teria deixado de reparar nela, pois observei todos os passageiros que iriam viajar comigo... Quando da escolha de lugares. De resto, vi-a chegar à estação de ônibus de Bakersfield, com um chapéu preto adornado por um espesso véu da mesma cor. Saiu de um táxi conduzido pelo motorista que acabou de depor, como testemunha. Correu para a estação de ônibus, sem aguardar o troco. Deixei de vê-la, apenas durante o instante em que atravessou o interior dessa estação. Apareceu depois sem o chapéu e o véu e entrou no ônibus em que eu estava.

Ao se calar, Mrs. Maynard olhou para Perry Mason, como que a desafiá-lo a desmenti-la.

— Falou com a acusada? Continuou Burger.

— Sim.

— Bastante tempo?

— Sim, senhor.

— Quer contar ao Tribunal como decorreram os fatos?

— Com todo o gosto. Quando vi que já não trazia o chapéu com o véu, me destaquei de todos os outros passageiros que tinham saído comigo do ônibus para esticarem as pernas e, ao retomarmos a fila a fim de reocuparmos os nossos lugares, me coloquei junto dela, para podermos ficar juntas e falar um pouco, durante a continuação da viagem.

— Perguntou-lhe porque se desembaraçara desse estranho chapéu?

— Não tive ocasião, respondeu Mrs. Maynard, contrariada. — Ela não teve vergonha em dizer que viera conosco, desde Los Angeles, de maneira que disse para os meus botões: "Que boa mentirosa você me saiu".

— Não interessa o que disse com os seus botões, Mrs. Maynard, interrompeu Burger, com um sorriso cortês de quem apreciava a intenção, mas se via forçado a bani-la, pelos limites das normas legais. — Deve ater-se aos fatos, Mrs. Maynard, e não emitir qualquer opinião pessoal... De que mais falaram?

— Da maneira como estava vestida. Na realidade, usávamos a mesma cor nas roupas exteriores... Sempre que tentei inquiri-la acerca da sua vida particular, ela mudava de assunto. Perguntei-lhe, então, ao lado de quem viajara, desde Los Angeles, e me respondeu que tivera, por companheiro de assento, um homem embriagado que a incomodava com o seu hálito detestável.

— Está certa do que afirma, Mrs. Maynard?

— Absolutamente certa.

— Que mais aconteceu, durante essa viagem?

— Bem... Ao chegarmos a Stockton, ela deixou o ônibus e entraram nele dois homens. Um deles tentou me convencer que a acusada entrara em Los Angeles e, nessa altura, compreendi que havia qualquer coisa esquisita, em tudo aquilo.

— Não interessa a sua conclusão, nem a intervenção desses homens. Fale-nos antes do modo como a acusada estava vestida.

— Usava um vestido de uma cor muito parecida com a do meu, mas, neste momento, não me recordo de outros pormenores.

— Muito obrigado. A Defesa pode contrainterrogar, se achar que vale a pena, disse Burger ironicamente.

— Sempre vale a pena, replicou Mason, se levantando da mesa e aproximando-se da cadeira onde se achava a testemunha. Com um sorriso amável, observou: — Vejo, Mrs. Maynard, que tem um problema qualquer com o seu olho esquerdo...

— Sim. Consegui... Não sei como... Uma infecção e o médico me colocou esta atadura, de modo a preservá-la da poeira, durante alguns dias.

— Foi por esse motivo que não trouxe os seus óculos hoje?

— Exatamente. Com o volume desta maldita atadura, não posso colocá-los devidamente.

— Quer dizer que precisa usar óculos?

— Não preciso, mas quero usá-los, para ver melhor.

— Usa-os sempre? Desde quando?

— De dez anos para cá.

— E costuma usá-los sempre?

— Não.

— Em que ocasião os tira?

— Quando durmo ou lavo o rosto, replicou Mrs. Maynard azedamente.

Uma gargalhada ecoou estrondosamente pela sala de audiências. O Juiz impôs silêncio à custa de marteladas sobre a mesa e advertiu:

— A testemunha deve responder às perguntas que lhe são dirigidas, sem procurar se fazer de engraçada... Prossiga, Mr. Mason.

— Vê bem, quando usa os óculos?

— Perfeitamente.

— E quando está sem eles?

— Como é natural, já não vejo tão bem.

— Tem problemas visuais, quando não os usa?

— Problemas?... Não, de maneira nenhuma. Deixo de ver com a mesma nitidez... Nada mais.

— Nesse caso, vejamos. Temos ali um relógio, na parede da sala de audiências. É capaz de dizer ao Tribunal que horas são?

— Um momento, interveio Hamilton Burger, se erguendo prontamente da cadeira onde estivera roendo as unhas. — Meritíssimo, esta inquirição da Defesa tem apenas por objetivo torturar o espírito da testemunha, a quem já basta a enfermidade ocular, temporária, que a atormenta. Depreendo que Mr. Mason pretende insinuar que a testemunha não trazia óculos, quando da sua viagem a Sacramento.

— Essa é boa! Espantou-se Mrs. Maynard. — Nunca tirei os óculos, durante toda a viagem.

— Se o Tribunal me permite, insistiu Mason, — Considero importante para o caso que a testemunha responda à pergunta que lhe foi feita.

Após uma breve hesitação, o juiz inquiriu:

— Há algum motivo, Mrs. Maynard, que a impeça de responder à pergunta da Defesa?

— Não, senhor.

— Nesse caso, repetiu Mason, — É capaz de dizer ao Tribunal que horas são no relógio da parede desta sala?

A mulher ajeitou a atadura que lhe cobria o olho esquerdo e resmungou:

— Bem... Assim zarolha... E sem óculos, me sinto cega, como uma toupeira... Não, não é bem isso... Estou sob juramento, de maneira que devo responder com a maior precisão... Direi que, sem óculos, não consigo ver bem os objetos... Mas, quanto à minha viagem a Sacramento... Estava com os meus postos durante todo o percurso, desde Los Angeles, até ao meu destino.

— Devo depreender, admitiu Mason, — Que, não podendo passar sem óculos, traz um par, de reserva, na sua bolsa de mão?

— Que quer dizer com isso?

— Que tem constantemente consigo, na sua bolsa, um par de óculos sobresselentes, para o caso de se quebrar o de uso. Toma essa precaução?

— Que ideia é essa de eu já contar com quebrar os óculos?... É claro que não. Os óculos não são como um pneu de carro. Não temos de andar sempre a trocá-lo, quando fura.

— Quer dizer que só possui um par de óculos?

— E é quanto me basta. Também só tenho um par de olhos... Embora agora me sinta zarolha, retrucou com um risinho nervoso. — Não é por trazer dois pares de óculos, comigo, que vejo melhor.

— E não lhe aconteceu ter quebrado os seus óculos, Mrs. Maynard.

— Não.

— Tem certeza de que os seus óculos estavam em boas condições, no dia vinte e dois de setembro?

— Sim.

— São os mesmos óculos que traz agora consigo, nessa bolsa?

A testemunha hesitou.

— São os mesmos, ou não? Insistiu Mason.

— Há alguma razão para que não sejam? Perguntou Mrs. Maynard irritada.

— Não sei, e por isso pergunto: são os mesmos?

— Sim.

— Nesse caso, inquiriu Mason casualmente, — Como explica ter ido à loja do Dr. Carlton B. Radcliff, para mudar as lentes desses óculos, no dia vinte de setembro, dois dias antes da sua viagem?

A testemunha olhou em volta, como se procurasse qualquer saída por onde fugir do estrado. Humedeceu os lábios, com a língua, e finalmente respondeu:

— Não eram estes óculos.

— Mas, se acabou de declarar que não tinha outro par, além desse... Que óculos mandou consertar no Dr. Radcliff?

— Um momento, interveio Hamilton Burger, para dar tempo à testemunha para se recompor. — Penso que este contrainterrogatório não é correto. Nada foi dito acerca dos óculos no interrogatório direto, e...

— Objeção rejeitada, decidiu o juiz, fitando a testemunha e fazendo um sinal ao procurador do distrito, para que se sentasse. — Vamos ouvir Mrs. Maynard. Pode responder à pergunta?

— Bem... Certamente... Posso responder a isso.

— Então responda, ordenou o juiz. — Que óculos levou para consertar, ao seu optometrista, se, como disse, não possui outros sobressalentes?

— Creio que eram... Uns óculos de um amigo meu.

— Quem é esse seu amigo? Inquiriu Mason.

— Eu... Eu... Não tem nada com isso.

— Quer, ou não, responder à pergunta?

— Meritíssimo, protestou Burger. — Isto está indo longe demais. A testemunha já declarou ter os seus óculos postos, durante toda a viagem. Esse é o único ponto circunstancial que interessa a este caso. As relações de amizade de Mrs. Maynard não se inserem no presente julgamento. Trata-se de uma testemunha e não de uma acusada. Essa sondagem acerca de outros óculos...

— Tem a finalidade de pôr em causa a declaração da testemunha, quando afirma que tinha os seus durante a viagem, interrompeu Mason.

— Bem, interferiu o juiz, — Creio que a defesa marcou um ponto, ao pôr em dúvida a declaração da testemunha. Se, efetivamente, mandou consertar os seus óculos, dois dias antes da viagem e, se não tinha outros de reserva, não se compreende como tenha podido usá-los durante a mesma... A menos que os tenham reparado, nesse período de vinte e quatro horas... Queira prosseguir, Mr. Mason.

— Diga-me, Mrs. Maynard: quando viu, pela primeira vez, a acusada, ela ainda trazia o rosto coberto por um véu?

— Sim.

— Portanto, não lhe pôde ver o rosto, não é?

— Nessa altura, não, mas vi depois.

— Se não viu antes, como pode estar certa de que a mulher que viu, depois, era a mesma que trazia a cara tapada?

— Bem... Creio que pelo vestido.

— Pode descrevê-lo?

— Já lhe disse que não... Em pormenor... Mas era da mesma cor que o meu.

— Quer dizer que, pelo fato de uma mulher, com o rosto velado, ter lhe parecido usar um vestido da mesma cor que o seu, concluiu que uma outra mulher, sem véu, mas com idêntica cor de vestido, teria de ser forçosamente a mesma pessoa?

— Sei que era a mesma, mulher, teimou Mrs. Maynard, vivamente,

— O véu cobria inteiramente as feições da mulher que saiu do táxi?

— Sim.

— Portanto só viu o rosto da acusada quando esta se dirigia para o ônibus, não é?

— Sim... E reconheci-a imediatamente.

— Como?

— Pelo vestido.

— Nesse caso, tem de descrevê-lo ao tribunal.

— Não quer mais nada, hem?... Se começar a descrevê-lo e me enganar, você aproveita logo para me fazer passar por idiota.

A audiência desatou às gargalhadas. Desta vez, ao impor silêncio aos espetadores, o juiz não pôde reprimir um sorriso.

— Continue, disse para Mason.

— Não pôde reconhecer a mulher, pelo rosto, por causa do véu; por outro lado, afirma que a identificou pela roupa, mas não consegue descrevê-la.

— Juro que era a mesma, teimou Mrs. Maynard, enraivecida.

— Se não trazia, os seus óculos, não podia fazer uma identificação correta, observou Mason.

— Mas eu os tinha comigo e estavam postos.

— Contudo, precisou Mason, — Se não os tivesse consigo... Se nessa altura estivessem, quebrados... Não teria podido fazer essa identificação, não é verdade?

— Nesse caso não... Mas eu os trazia...

— Nada mais, cortou Mason. — Muito obrigado, Mrs. Maynard.

— Bem, resolveu o juiz, consultando o relógio, — O tribunal estabelece dez minutos de intervalo, antes de a defesa apresentar a sua causa.

— Meu Deus, Perry! Exclamou Drake, em voz baixa, durante a pausa dos debates. — Conseguiu umas flores, mas não é com um ramalhete desses que se vence um caso de assassinato. A acusação já tem uma coroa fúnebre para lhe enfiar no pescoço.

— Nesta audiência preliminar, consegui estabelecer dúvidas suficientes, quanto à identificação da acusada.

— Sim, mas, no julgamento imediato, as provas policiais vão lhe destruir definitivamente, na opinião do júri. Que diabo vai fazer com a sua constituinte?

— Confesso que ainda não sei. Se a mantenho calada, Burger enterra-a, sob um monte de provas; se a ponho no estrado, e desata a contar a sua história inverosímil, ela se enterra, por si... E ainda mais depressa. Julgo que a única hipótese que me resta é contar a minha versão dos fatos, alegando legítima defesa.

— E ela está disposta a corroborar essa sua versão, Perry?

— Não. Apenas espero que se mantenha de boca cerrada... O pior é o seguro.

— Que seguro?

— De vinte e cinco mil dólares de que é beneficiária, pela morte do marido. Burger é muito capaz de lançar isso, como motivação para o assassinato.

— Já explicou à sua cliente que o seu álibi não vale um centavo?

— Já. A minha única esperança era arrasar o depoimento dessa Maynard. Talvez consiga jogá-lo por terra, quando chamar o Dr. Radcliff a testemunhar.

Neste momento, Della Street se aproximou de Mason e anunciou:

— Descobri um novo fator que talvez interesse, chefe.

— Que foi?

— Que Mrs. Ingram usa o mesmo perfume que a filha.

Mason pensou um pouco nesse novo dado e confessou:

— Não vejo aonde isso nos leva. Mesmo que fosse a mãe e não Myrtle quem nos enviou o dinheiro, como se explica que Clark Sellers tenha identificado a caligrafia do envelope, como sendo a da filha?

— Mrs. Fargo contínua a negar ter enviado esse envelope? Perguntou Drake.

— Aí vem o juiz, avisou Della.

Efetivamente o juiz Keith subiu para o seu estrado, sentou-se à grande mesa e inquiriu:

— A causa da defesa tem testemunhas a apresentar para inquirição?

— Sim, Meritíssimo. Quero chamar uma testemunha, disse Mason.

O rosto de Hamilton Burger se iluminou de satisfação, ao ver que Mason declinava de voltar à carga contra Mrs. Maynard, mas logo a sua expressão se sombreou ao ouvir o advogado nomear:

— Dr. Carlton D. Radcliff, testemunha de defesa. Quer subir ao estrado?

Ouviu-se um grito estrangulado e todos se viraram na direção de Mrs. Maynard. Esta pôs-se de pé e gritou:

— Não podem fazer isso. Não têm o direito de divulgar a minha vida privada.

Com uma forte martelada, o juiz Keith bradou:

— Silêncio. Ordem, no tribunal. As pessoas presentes estão proibidas de se manifestar. Os direitos das partes serão preservados pelo tribunal.

Mrs. Maynard, com uma mão sobre a atadura que lhe cobria o olho e outra, na boca, teve um ataque de tosse e sentou-se, furiosa.

Depois de ter feito ao oftalmologista as usuais perguntas preliminares, Mason inquiriu:

— Além de optometrista é médico especializado em oftalmologia?

— Sim, senhor.

— Sabe quem é Mrs. Maynard, que testemunhou há pouco?

— Sim, senhor. Já tive ocasião de conversar com ela, uma vez, pessoalmente.

— Faz parte da sua profissão prescrever o uso de lentes?

— Sim, naturalmente.

— Prescreveu algumas lentes a Mrs. Maynard?

— Não. Com certeza consultou um outro colega.

— Agora, me diga, doutor: viu Mrs. Maynard no dia vinte e um de setembro deste ano?

— Não, senhor.

— Não? Admirou-se Mason, aparentemente.

— Não. Vi-a no dia vinte e dois.

— No dia vinte e dois! Exclamou Mason. Em seguida, virando-se para o juiz, informou: — Esta testemunha, não é hostil, mas se recusa a prestar declarações que, de acordo com a ética médica, possam trair o segredo confidencial dos seus pacientes. Por esse motivo, a única maneira que esteve ao meu alcance, para obter certas informações, foi lhe entregar uma contrafé.

— Muito bem, murmurou o juiz, se inclinando para a frente, interessado.

— A que horas do dia vinte e dois viu Mrs. Maynard? Prosseguiu Mason.

— Por volta das oito da manhã.

— Costuma abrir a sua loja a uma hora tão matutina?

— Não, mas Mrs. Maynard me telefonara um pouco antes, dizendo, se tratar de um caso de emergência e perguntando quanto tempo eu levaria para lhe conseguir um par de lentes.

— Que respondeu?

— Que seria impossível substituir um par de lentes, nesse mesmo dia, mas que talvez conseguisse para o dia seguinte. Pediu-me então que mandasse para a sua casa, logo que estivessem prontas.

— Isso aconteceu às oito horas da manhã?

— Sim, mais minuto, menos minuto. Tinha começado, nesse momento, a tomar o meu café-da-manhã, o que faço sempre às oito em ponto.

— E ela lhe trouxe os óculos quebrados, pessoalmente?

— Não. Foram entregues por um mensageiro.

— Quem era esse portador?

— Um rapaz. Nunca o tinha visto antes. Entregou-me um par de óculos, embrulhado num papel.

— Quando foi que devolveu os óculos consertados a Mrs. Maynard?

— No dia vinte e três, como prometera.

— Segundo posso concluir, disse Mason triunfalmente, — Mrs. Maynard lhe enviou os óculos pouco depois das oito horas do dia vinte e dois e não os recebeu senão no dia vinte e três... Pelo menos. Ora, Mrs. Maynard declarou peremptoriamente que não tinha óculos sobressalentes. Portanto, não podia ter levado os seus óculos na viagem que fez a Sacramento. Creio que pode contrainterrogar, Mr. Burger.

— Perdão... Um momento, interveio a testemunha. — Eu sei que não me fez esta pergunta, mas não vejo impedimento para o fato de Mrs. Maynard levar os seus óculos nessa viagem, no dia vinte e dois.

— Como não? Espantou-se Mason, enquanto Hamilton Burger sorria radiante.

— Os óculos que Mrs. Maynard me enviou para conserto, elucidou o Dr. Radcliff, — Eram completamente diferentes daqueles que ela usa.

— Está certo disso?

— Não tenho a menor dúvida. Esses óculos devem pertencer a uma pessoa de cerca de sessenta anos. As dioptrias não são idênticas às de Mrs. Maynard.

— Como pode saber Isso, se desconhecia as dioptrias prescritas para Mrs. Maynard?

— Porque me bastou olhar uma vez para ela, para deduzir, pelos seus olhos e pela construção das lentes que usava, que a sua deficiência visual era completamente diferente daquela que deveria afetar o possuidor dos óculos que me pedira para consertar. Mrs. Maynard possui pupilas caracteristicamente dilatadas e uma íris muito clara... Ou "olho branco"... Que se associa à deficiência visual denominada miopia, ou "vista curta". Ora, os óculos a que substituí as lentes devem pertencer a um indivíduo com uma deficiência totalmente diferente, geralmente detectável em pessoas de idade superior a sessenta anos... Vulgarmente dita, "vista cansada".

— Pode avaliar a idade de uma pessoa pela natureza dos seus óculos?

— Geralmente, sim, salvo em casos de anomalias particulares. Mesmo pelo formato da armação e dos aros, podemos determinar se se trata de óculos para mulher, ou para homem, pela medida do cavalete do nariz... Quando os óculos são feitos sob medida, evidentemente, como era o caso daqueles a que nos referimos. A pessoa que mandou executar a armação deve possuir uma cana de nariz do tipo eslavo, aquilina e bulbosa, além de que os olhos, pela disposição dos aros, devem se achar muito afastados, em relação aos de um sujeito ocidental-saxônico. Também pela inclinação dos braços que vão das orelhas, aos aros, que denuncia maçãs do rosto um pouco proeminentes...

— Consegue imaginar o rosto de uma pessoa e a sua origem étnica, só pelos seus óculos? Indagou Mason, perdendo todo o seu ar de triunfo.

— Se forem feitos sob medida, podemos ter uma ideia bastante aproximada, na maioria dos casos... O conjunto das lentes e da armação, ajudam muito.

— Porque demonstrou um tão particular interesse por esses óculos?

— Não por esses, em particular, mas por todos em geral. Compreenda, é a minha profissão.

FIM

 

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Perry Mason é um advogado fictício criado por Erle Stanley Gardner, aparecendo em mais de 80 histórias onde tem de defender seus clientes de acusações de assassinato. O personagem tornou-se mais conhecido através da série de televisão homônima, estrelada pelo ator Raymond Burr, entre 1957 e 1966 para a rede CBS, e vendida para o mundo todo. Foi também personagem de rádio e filmes para cinema e televisão. Os livros originais venderam mais de 130 milhões de exemplares só nos Estados Unidos, até 1970, ano da morte de Gardner.
 

O Caso da Testemunha Zarolha de Erle Stanley Gardner - Manuseado

excerto de:
O Caso da Testemunha Zarolha
Erle Stanley Gardner
Perry Mason, n.º 36
título original: The Case of the One-Eyed Witness (1950)

 

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14.Jun.2021
Maria José Alegre