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excerto

The Blind Woman - Egon Schiele, 1911
[...]
Agora falava-me do quadro. Erguera-se, voltara para mim a grande tela,
sentara-se de novo. Como ficava longe da braseira (vestia um camisolão
preto de gola até às orelhas), estendia a perna esquerda para o estrado
- e eu sentia que era nele uma posição correcta essa estranha posição
desarticulada, que lhe figurava a perna como que partida, presa por um
cordel ao corpo magro, de face escaveirada, com barba tísica, de braços
como ripas, com dedos aracnídeos. E antes que eu acertasse a minha
reacção às mutações bruscas de Garcia, pôs-se a explicar-me a tela,
agora bem à vista.
Uma alegria aguda, uma espécie de ironia, vibrava-lhe
nos dentes, todos expostos à luz, nos gestos sibilinos, gestos absurdos
porque era como se se desencontrassem das palavras ou isso me parecia
talvez porque os gestos se atrasavam, se demoravam, e eram assim baixos,
se as palavras eram altas, perpendiculares, se as palavras eram
oblíquas, gestos ácidos pelo afilado dos membros, gestos metálicos e
totais, porque começavam nos olhos e radiavam até aos dedos, grandes de
excitação, de uma pesquisa sádica, até ao modo de dobrar e desdobrar as
pernas, de as cruzar, de as tornar independentes, atirando cada uma para
seu lado. Agora quedava-se extático, ainda com um gesto desaproveitado
no ar: atirara a mão ao ar com os dedos divergentes, espetados como
estacas, mas desistiu das palavras para os explicar.
Desconcertado,
olhei o quadro também. Era um plaino cinzento, talvez areia do mar, uma
fina linha azul na horizontal. E aos dois lados, em oposição, leques
amarelos (ou rosados) sugerindo-me reflexos de água. - A Irene não
gostou - disse-me ele. - Não gostou. Achou monótono. Talvez tenha razão.
Também achou que o quadro era comprido de mais. “Andar tanto para quê”?
- perguntou-me. Porque já vês: temos aqui apenas um acorde final. E o
resto da música? Bom: há aqui e aqui, nesta oposição, um diálogo breve,
talvez, de dois violinos. Mas é o fim, e o pior é que este fim não
resume tudo o mais. Há fins que são sínteses. Este talvez o não seja. E
depois, a gente chega ao começo do quadro e abre os braços como quem
respira. Mas o horizonte é longe de mais. Anda-se muito até lá. Virou-se
bruscamente para mim:
- Desculpa. Julguei que estava a falar com Irene. Tu não és cego.
- Eu
não sou cego? Cego como?
- Não és cego, tens olhos, podes ver. Estou-te a falar em espaço e som.
Irene é cega, como sabes.
- Cega? Irene? Cega como?
- Sei lá como! De nascença! Cega mesmo. Ninguém te disse isso?
Calei-me. Era impossível que ninguém mo
tivesse dito. Mas na realidade não me lembrava. E um vazio total, uma
desorganização súbita, calou-me como um murro. Cega? A amante dele?
Desde nascença? E que era o amor para eles - para ti? Que estava eu ali
a fazer? Um atropelo de ideias estrídulas gritam - que é que? como é
que? e a minha obstinação, porque uma vida é fantástica, como é que?
há-de haver um meio, é impossível que isto não signifique nada - é cega,
diz-me Garcia. Tomo a garrafa para encher de novo o cálice - está quase
vazia.
- Não faz mal - interveio Garcia, vendo-me olhar o fundo da garrafa. -
Tenho mais ali. E com efeito ergueu-se para o armário. Porém, diante da
tela, quedou-se ainda: - Mas não há arte só para os olhos. Ou para os
ouvidos. Imagina que tinhas só ouvidos, hem? Ouvias uma música, e que é
do verde dos prados, do pôr do sol e do mais? Mas a música existia e tu
apreciava-la. Os cegos apreciam-na. Ouvias uma música e o verde dos
prados podia ir ter contigo de outra maneira. Uma cor não são só os
olhos que a vêem. A Irene diz-me: tu és feio. E não há dúvida, não sou
bem um Apolo. Trouxe a garrafa, encheu primeiro o copo dele, passou-ma
depois. - Mas tu, tu - perguntei - como gostas dela?
- Hás-de conhecê-la. Extraordinária. Prefere Hartung a Rafael. Ela diz:
“um choque eléctrico na coluna até aos dedos”. É Hartung. Ou diz:
“Debussy mais infinitesimal, às revoadas” - o que é um bocado chato. Mas
acabou-se: é Monet, um certo Monet. Ou diz ainda: “um sabor ácido e
doce”. E é... Já me não lembra quem é. Talvez Gauguin. Extraordinária.
Põe todo o corpo que lhe resta a trabalhar. E governa-se muito bem.
Tenho a certeza que se pudesse um dia ver, reconhecia um azul, um
vermelho. Imaginas tu a beleza que ela descobre nos rumores nocturnos?
Na distribuição dos corredores e salas de uma casa, com os seus espaços
cheios e vazios? Ando a tentá-la a escrever um romance. Estás a ver: um
romance apanhado pelos quatro sentidos que lhe restam. Mas nela o tacto
é fantástico. Mesmo o cheiro. O cheiro é um sentido nobre. Nós é que não
sabemos, hem? O cheiro. Estupendo.
Calou-se, atirou a cabeça para trás, cerrou os olhos: - Às vezes passeio
aqui na sala e ela diz- me: “Porque andas de cabeça baixa”? Tu, por
exemplo, chegas, ela não te conhece; mas pega-te nas mãos e diz-te como
é que te penteias e se franzes o olho.
- Mas, tu, tu, como a amas? Que é ela para ti, para ti, se acaso o amor
te é um apelo a uma aliança, a um mais que tu, a uma presença na terra
habitada? E ele contou naturalmente, quase com gosto. Irene não tinha as
pálpebras cosidas ou coladas ao globo ocular ou sumidas dentro das
órbitas. Só ao fim de certo tempo se reparava mesmo que os olhos não
tinham muito brilho. Vivia com a mãe, ou uma tia, já velha e resignada,
tinham um seguro de vida que o pai lhes deixara. Garcia conhecera-a num
serão amigo qualquer, interessara-se por ela. E ela interessara-se por
ele, absolutamente alheia ao seu desastre de cega, porque organizara o
seu mundo em que a vista era um excesso, um luxo indispensável. Falou um
dia na cegueira, mas só talvez por protocolo. O orgulho de nós próprios
confunde- se-nos com a vida - morre quando morremos. Aliás, falou na
cegueira para se valorizar. Garcia propusera-lhe casamento - ela
recusara, ofendida, aludira à sua miséria: detestava a piedade, ou
parecia-o, justamente para o repelir? Falara no seu desastre, Garcia
aceitou essa base de entendimento.
- E é estupendo, hem? É perfeito. Amamos sem metafísica. A princípio era
perturbante. Tu estás a ver: ela olha-me, a gente quando fala
intensamente com alguém, olha para lá dos olhos e fala para dentro. A
Irene olha para ti e parece que te vê, parecia que o via. Tinha, por
exemplo, um sorriso na face, porque estava encantada, - e de repente eu
lembrava-me: “ela não me vê”. Mas parecia absurdo que não me visse
realmente, porque adivinhara as coisas mais subtis. E eu então tirava a prova. Por exemplo: fazia-lhe uma careta
medonha, deitava-lhe a língua de fora: ela continuava a sorrir...
Havia uma muralha entre ambos, hem? o sorriso não era para ele. Irene
tomava-lhe as mãos ou falava-lhe, mas havia uma parte deles que não
falava. Atirou o cálice à goela, baforou quase com tosse o lume que o
queimou, torcendo-se num arrepio - e calou-se. Eu, porém, pelo hábito da
minha obsessão, sinto-me a pessoa de Garcia, ponho-me a vivê-la, a
sê-la. Irene é alta, alta e loura, branca - Garcia o disse ainda, ou de
outra vez, quando? - agora que a recordo, através do que ele contou,
revejo-a assim. É alta e branca, mas sem majestade. Um íntimo receio
amortalha-a em timidez, apaga-lhe as formas esplendorosas. Vou para ela,
ela fita-me, viro a cara para o lado - ela continua a sorrir-me e a
fitar-me onde já não estou... Tomo-a nos braços, um vapor de sangue
incha-me nos membros e procuro ardentemente nos seus olhos a passagem
para ela do que me está acontecendo e desejo transmitir- lhe, e desejo
que ela saiba e receba e me diga que recebe: tudo se passa do lado de cá
do nosso encontro. Então falo-lhe e ela responde-me “querido”, “sim”...
Mas a união que nos reconhece é como a das pancadas no muro de uma
prisão. Garcia pareceu ouvir-me:
- Faz do amor o que ele é: um pequeno vício solitário para dois lados.
Porque é que se estima um cão senão porque não fala no limite do poder
falar? E que era tudo na vida, afinal? Bom, a arte. Talvez. Mas que era
a arte senão um prazer onanista? Saber que os outros gozam também, em
que é isso uma união? Um entendimento? Imaginasse eu uma mulher nua num
tablado e uma multidão de espectadores, curvados, metidos para dentro,
secretos, doentios, a masturbarem-se.
- Sim, a arte é decerto só de nós para nós como tudo na vida. Mas é ela
assim tão reles para ti?
Ele não sabia se era “reles”, dispensava ficheiros de moralista. Dizia
só que a “comunhão” na arte era um vigário. Amava a solidão absoluta,
porque amava a vida exactamente como ela era. Não a chorava, não cantava
o fado. Também ninguém chorava por não ter asas para voar ou por não ter
rabo para sacudir a mosca no verão. - ... E um rabo, vê tu, faz muita
falta. Mas não o tenho, que é que lhe hei-de fazer? De resto o amor, no
instante exacto...
... que era senão uma cegueira de pedra, a totalização na morte? A
pessoa da amada, e o seu espírito, até mesmo a beleza do seu corpo, que
era tudo isso no instante supremo, no instante preciso, exactamente no
momento que fala à máxima união? Estamos sós connosco mesmos, perdidos
na nossa loucura, no termo da nossa busca, do nosso ardor. Por isso nos
sentimos logrados ao vermos que alguém mais está ali, o nosso juiz,
diante do qual nos temos de justificar. Por isso nos sentimos apiedados
por nós, e o nosso mais profundo desejo é fugir.
- Mas diante de Irene não penso em fugir. Ela não me vê, eu estou à
vontade, e ela também. Cada um de nós, hem? está do seu lado. Ela do
lado de lá, eu do lado de cá. Olho para ela e sei que está longe. Demoro
os olhos nos dela, é como se olhasse uma parede. Tu porque julgas que se
faz amor às escuras? Há os que querem luz. São os devassos. Eu não sou
devasso. Sou um tipo normal. E vaidoso da sua normalidade, deu um
retoque à barba raquítica... Mas tinha ainda uma pequena observação a
fazer: mesmo após a violência, a apoteose da solidão, se um homem e uma
mulher não fogem, que é que dizem? Nada. Alguém lhe afirmara, talvez eu,
que a comunhão começa aí. Extraordinário: uma comunhão de estar ao pé.
Abriu em leque as duas mãos:
- Já reparaste quando é que dois tipos são mesmo amigos? Quando se
sentam um ao pé do outro sem já dizerem nada...
Mas eu mal o ouvia. Tinha uma pergunta desde há pouco, pergunta para ele
e sobre mim, talvez:
- Portanto, qualquer mulher te serve.
- Sei lá! Agora serve-me esta. Mas pode alçar quando quiser, que me não
faz diferença nenhuma. De modo que nada tenho a contar-te, amigo. Vinha
para isso, para contar - a ti ou a mim próprio? Porque contar-me a mim
próprio era pôr-me de fora, objectivar-me, desprender-me de mim. Ergo-me
a custo da cadeira de pau onde me sinto pregado para a noite. Mas Garcia
talvez “jogasse”, se inventasse ou pretendesse inventar o que não era:
acaso o que somos profundamente se exprime em palavras, em consciência?
Sobretudo se desejamos sê-lo? Acaso o que somos verdadeiramente nos não
é uma surpresa quando os outros no-lo revelam? Quem conhece os seus
tiques, os seus estribilhos? Imagina que eu te digo: um teu estribilho é
o “hem” ou o “ah”. O que se vê está diante dos nossos olhos; mas o que
nós somos são-no os nossos olhos também... Garcia talvez fingisse,
porque ao ver-me de pé:
- Mas tu que querias? E que horas são? Não tenho relógio, detesto o
relógio. - É uma hora. É tarde já, e a noite esmaga. Inverno longo.
Chego instintivamente à janela, olho a massa insondável do silêncio.
- Mas que é que me querias?
- Nada, nada.
Um catre ali - apetecia-me ficar. Com a braseira por companhia,
revolvendo as cinzas. O vento ressoa no telhado ou ressoa o espaço do
vale fundo, em frente, e que não vejo, e que é ao meu olhar uma súbita
mão na garganta.
- Mas o que tem piada é que ela ainda gosta de ti - disse Garcia
inesperadamente. - Quem?
- Mas já a não gramas então... Gostas mais da outra...
Lá... lá, lá,
ri... lá, lá... Retomara os pincéis e cantava. Cantava a degradação da
música de Irene, numa voz de sifílis e de aguardente. Desci a escada,
bati a porta. O nevoeiro enrolou-me nas suas vagas, foi-me arrastando
para longe. A voz de Garcia ia ficando para trás, solitária, perdida na
noite com o seu frémito de loucura, como a luz da janela suspensa na
névoa e que nela se apagou enfim como uma memória que se desvanece.
FIM

Vergílio Ferreira nasceu em 1916, em Melo (Gouveia), e morreu em 1996
em Lisboa. Estudou no Seminário do Fundão, licenciou-se em Filologia
Clássica na Universidade de Coimbra e foi professor do ensino
secundário. É um dos maiores romancistas e ensaístas portugueses do
século XX. É o autor de romances tão celebrados como Manhã Submersa
(1954) e Aparição (1959), com preocupações de natureza metafísica e
existencial. A sua prosa, que entronca na tradição queirosiana, é uma
das mais inovadoras da literatura portuguesa. Temas como a morte, o
mistério, o amor, o sentido do universo, o vazio de valores ou a
natureza da arte são recorrentes na sua produção literária, tanto de
ficção como de ensaio. Das suas últimas obras destacam-se Para Sempre
(1983), Até ao Fim (1997) e Na Tua Face (1993). Recebeu o Prémio Camões
em 1992. in Bertrand
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ESTRELA POLAR (1962)
VERGÍLIO FERREIRA
Bertrand Editora
4ª Edição, Lisboa 1992
excerto: p. 137 a 144
21.Jul.2026
Publicado por
MJA
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