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L'Aveugle - foto de Thomas Devaux
Os largos vidros embaciados era como se transpirassem de frio. Exactamente:
transpiravam de frio. Mas, lá dentro, as pequenas mesas, apesar de muito juntas
para aproveitar o espaço exíguo, não ajudavam a intimidade dos clientes entre
si. Somente os que se ajeitavam, num esforço, em cada uma delas, esses, tinham
de falar em voz baixa para não serem ouvidos pelo vizinho. Conspiração de
pastelaria, mais inofensiva decerto que a de café.
Mas ninguém conspirava de coisa nenhuma. Só que o português médio é
discreto, não gosta de dar nas vistas nem que os outros saibam da sua vida.
Não havia sequer jovens casais entendidos, que já dispensam hoje a conversa
de chá e bolos, o que se compreende. Média etária, como se usa dizer agora
dos frequentadores da Smarta naquela tarde? Aí dos quarenta anos para cima,
isto é, gente de idade, os mais velhos talvez ainda presos a hábitos, herdados
ou
adquiridos, dum certo tipo de conversa gratuita e nisso é que ela é diferente,
ali, da
de outros cafés ou pastelarias, seja a conversa idealista ou tumultuosa,
quezilenta
ou ressentida, frustrada ou desiludida.
Há uma dignidade sui generis na Smarta, com sua ambiguidade de freguesia
ou função. Um certo burguesismo inofensivo na plataforma do «five o' clock tea»,
senhoras serôdias, cansadas das compras nos saldos do bairro ou que, vindas da
Baixa, esperam ali o fim da hora de ponta para conseguirem um lugar no
autocarro
e lograrem uma espécie de comunicação humana nem que seja só nos olhos
curiosos, muito atentos aos outros, e que lhes falta na exiguidade dos dois
quartos
assoalhados onde vão enclausurarando seus dias sem cor. Lá em baixo, ao balcão,
é diferente, e rapazes ou raparigas muito novos ainda, ou jovens empregados na área, que emborcam a qualquer hora, num bom intervalo fugidio, o seu «galão»
nutritivo, que depois do trabalho virão ao encontro com o amigo exigente ou
à matinée das seis e meia e acabam as mais das vezes por jantar apenas outro
«galão», ou, em casa, a sopa de pacote. Na cave do restaurante, a maioria é
composta de turistas médios, estrangeiros que até no Inverno nos cobiçam o sol,
pessoas dotadas do bem inestimável de acharem graça a tudo, saborearem tudo.
A cave da Smarta, essa tem mais carácter, podia ter sido uma espécie de mini-Lipp lisboeta, com suas ceias nocturnas, depois do teatro ou do cinema, quando,
à
volta de 1960, ali se juntavam, noite fora, escritores ou artistas, uma certa
boémia
resignada a um certo conforto. Mas a ambição, modesta embora, acabou por ser
vencida pelas exigências dos horários de trabalho do pessoal.
Muito apertadas, pois, as mesas, naquela espécie de palco sem cenário
nem vedetas, figurantes apenas, e, junto da que eu escolhera, duas senhoras,
acima dos meus cálculos, falavam pouco uma com a outra e iam olhando os
circunstantes, para lá da pintura dos olhos, já cansada àquela hora. Noutra
mesa, três sujeitos incaracterísticos: dois liam desinteressadamente os
vespertinos,
enquanto o terceiro olhava o frio através dos vidros e, silencioso, pedia de vez
em
quando um dos jornais para ver, distraído, os principais títulos. E logo o
pousava
de novo sobre a mesa ou o restituía ao vizinho, esvaziando o resto da garrafa de
cerveja, esquecida. As duas senhoras da mesa contígua não se contentavam em
conversar muito; ambas faziam grandes gestos ilustrativos, exibindo feias unhas
demasiado vermelhas a rematarem fatigados dedos pré-gotosos. Um visco de fim
de dia sem imaginação.
O meu amigo chegara, procurara mesa, divisara-me de longe, numa alegria:
«Posso sentar-me aqui, contigo?» Podia, pois. Conhecemo-nos desde miúdos,
andamos juntos, adolescência fora, mas a verdade é que não o encontro muitas
vezes nos caminhos duma Lisboa tão dispersa e, por mim, também não faço
muito por isso. As amizades que foram um erro do tempo são às vezes as mais
perduráveis: não há hipótese de decepção ou atrito, por mais diferentes que
sejam
os gostos ou os caminhos da idade adulta. Sei vagamente que faz negócios, tem
mulher e filhos, vive bem. São outros os seus interesses, nunca indaguei muito
deles, mas quando nos encontramos ou me vê ao longe na rua e corre para mim,
para não me deixar fugir, é sempre, da parte dele, a mesma satisfação de íntimo
feliz, o mesmo tuteamento a que correspondo desajeitado, as mesmas evocações
dum passado que gosta de saber comum: «Lembras-te, pá, quando fomos uma
noite beber para aquela tasca das Portas de Santo Antão? Apanhámos um pifo!»
(O meu amigo não tem só uma memória incómoda, esforça por manter-se jovem
e aprendeu a terminologia dos filhos). Sentou-se, mandou vir uma cerveja,
passou
revista à sala, inquiridor, como se isso lhe fosse um ritual. E, realmente,
era-o, pois logo me disse, sem mais nem menos, com experiência de conhecedor desiludido:
«Isto hoje está fraco. Mas naquela mesa lá em baixo, já viste...» Não percebi.
«Naquela mesa lá em baixo», desconcertava-me. Mas entendi pouco depois, era a
assistência que estava «fraca», muitos homens, a maioria das senhoras acima da
tal média dos quarenta anos. «Fraco.» Mas já ele insistia: «Repara bem, naquela
mesa lá em baixo, à esquerda.» Reparei, fiz-lhe a vontade. Era efectivamente a
única senhora ali, naquela tarde, que valia a pena olhar... Jovem ainda,
esbelta,
duma elegância simples, nem se tornaria notada, apesar da sua juventude, a quem
fosse ali, ao contrário dele, apenas para fugir ao frio ou entreter o estômago
até
ao jantar. No entanto, eu conhecia-a de a ver na pastelaria, notara mesmo logo à
primeira vez que os óculos escuros e a natural discrição lhe davam certo ar de
mistério e sobretudo reparara no carinho com que se entendiam, ela e o miúdo de
nove ou dez anos, não mais, que a acompanhava sempre no rápido chá e bolos que
iam ali tomar. O meu amigo pensou o mesmo porque nem me deixou dizer nada,
tocou-me no braço, confidente: «Já me notou, não tira os olhos de mim, logo que
me sentei dei por ela, é natural. Deve ser mãe e filho, ou então irmã mais
velha,
mas é bem que se farta!» (Eis um sintoma da idade que lhe escapou, pensei eu.
Estava à espera de que ele a achasse gira, muito gira. Foi mais ou menos na
nossa
juventude — ia refl ectindo porque ele não me deixava falar — que se começou a
dizer que uma mulher estava ou era «muito bem». E era agora a nossa juventude
que, despaisados verbais, vinha agora ali, de repente, à superfície da conversa.
Felizmente ele não percebeu, tinha mais em que pensar.
A partir de então foi a antiga manobra, nem sequer discreta, uma espécie
de desporto fora de moda, e eu, entre envergonhado e aborrecido assistindo
à cena. Abrira o jornal à frente dos olhos para disfarçar ou para, baixando-o
de vez em quando, chamar a atenção da jovem para o manejo quase ingénuo,
decerto ingénuo. No entanto, com alguma curiosidade, eu esperava o desfecho do
episódio.
Dez, vinte minutos, correram na tarde mole, de anonimato e pastelaria. Os
olhos do meu amigo iam inchando, gulosos, conseguira tudo o que pretendia:
reduzir-me à condição obscura de espectador do seu êxito, da sua juventude, de
como, afinal, o tempo nada tinha mudado, pelo contrário tudo lhe continuava
fácil.
Insistia: «Não olhes para lá, não vá ela julgar que eu te chamei a atenção, mas
quando puderes repara que não tira os olhos de mim...» Hesitou, foi diplomata:
«Ou pelo menos da mesa... Mas do lugar onde está não te vê, não é para ti que
ela
olha. É para mim, já percebi, até já mandou o pequeno ao balcão buscar qualquer
coisa para ficar mais à vontade. Não a conheces?» — «Só de vista, daqui, vem cá
muitas vezes.»
Pouco depois a nossa vizinha levantou-se, deu a mão ao pequeno, atravessou
serenamente a sala para sair. O meu amigo acenava para o empregado, dispunha-se,
também ele, a retirar-se, a não perder a oportunidade de abordá-la, falar-lhe,
ajudá-la, decerto, a encontrar um táxi, o resto seria fácil, ele não mo dizia
mas
eu ia-lhe lendo na expressão nervosa. Aliás, confirmou-mo quando me pediu: «Se
não te importas, paga-me a despesa, não posso perder isso... E o empregado, que
não há maneira de vir!» Perguntei-lhe, severo:
— Onde vais, com tanta pressa?
— Pois onde hei-de ir? Ter com ela, falar-lhe, perguntar-lhe o número do
telefone...
— Deixa-te disso! Temos muito que conversar ainda — e comecei a pensar em
assuntos possíveis, não encontrei nenhum para exemplo –, coisas importantes!
Indignou-se:
— Nada pode ser mais importante do que isto, desculpa! Não viste como ela
estava interessada?
— Não vais. Sou bastante teu amigo, percebes?, para não te deixar ir. Se
perderes esta oportunidade terás outras, bem melhores, asseguro-te!
Devo ter sido categórico, porque voltou a tirar o sobretudo que já tinha
vestido,
pô-lo outra vez na cadeira do lado, e inquiriu-me, com certa inquietação?
— Tu conhece-la? Não me pareceu... Desculpa se fiz asneira... Devia ter pensado
que ela estava a olhar para ti, mas com o miúdo ao lado, não podia falar-te.
Desculpa.
Estava realmente perturbado, esvaziava o resto da cerveja no copo, para cobrar
ânimo.
Hesitei, por simples piedade, se devia, ou não dizer-lhe tudo — tanto mais que
tudo era afinal tão simples.
Foi a minha vez, mas por outras e bem diferentes razões, de abrir o jornal,
de percorrer os títulos sem sequer os ler, de procurar certa naturalidade pouco
fácil. Mas vi-o tão desassossegado, tão inquieto que lhe expliquei com a maior
simplicidade que conhecia muito bem de a ver ali, como já lhe dissera, a esbelta
senhora; que os empregados me tinham dito em tempos que ela ia lá quase
todos os dias com o pequeno e que este a acompanhava sempre, filho ou irmão,
nem o sabiam, porque ela era cega e por isso usava óculos escuros assim tão
carregados. E acrescentei que não podia queixar-se de não o ter avisado, pois,
no
seu entusiasmo, ele nem me deixara dizer nada.
Despediu-se daí a pouco, embaraçado. Desde então não voltei a encontrá-lo.
Ou antes: não voltou a encontrar-me.
FIM
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LUÍS FORJAZ TRIGUEIROS
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É na crónica, no ensaio literário e na crítica, sempre com largas aberturas
ao desenho de figuras finamente matizadas, à inserção de autores e obras nos
seus peculiares espaços de vida e à descrição de paisagens em que se enquadrou
humanamente experiência histórica, que Luís Forjaz Trigueiros tem assumido
lugar de maior relevo na literatura e na cultura portuguesas contemporâneas.
Esse
predomínio de géneros não-ficcionistas tem contribuído para deixar em injusta
sombra, sobretudo para públicos leitores mais vastos, a qualidade relevante do
contista que em Caminhos sem Luz (1936), Ainda há Estrelas no Céu (1942),
Boa Noite, Pai (1955) e 'O Carro do Feno' (1974) deixou demonstradas notáveis
virtualidades, passando-as à realização escrita, de composição e de estilo. Numa
linha que, sob aspectos fundamentais, pode apontar-se como marcadamente
queirosiana, caracterizada pela elegância, em que se infiltra com frequência
uma
discreta ironia, a criação narrativa deste escritor consegue penetrantes
efeitos.
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São eles revelados, de modo mais flagrante, na condensação em breves traços
duma situação, de um caso humano ou de um episódico relance de personagem.
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Como apontou João Gaspar Simões, a clareza do estilo, a desenvoltura de
ideias, o traço concreto, o comentário irónico, a profundidade subjacente à
aparência superficial, constituem a específica atmosfera em que se move a
personalidade criativa de Luís Forjaz Trigueiros. Nesses aspectos, foi
aparentado
também à «maneira» novelística do grande escritor brasileiro Machado de Assis
e da estirpe que o tem continuado. E se a sua prosa de contista se apresenta
acentuadamente intelectual na expressão comunicada, com o crítico e o cronista
observador a subjugarem o contexto ficcional, nem por isso se desvanece através
dela a sensibilidade que se conjugou na sua origem, imprimindo vibração e
contida emoção aos «casos» narrados. Sem confinamentos optados de escola
ou corrente literária, a obra de Forjaz Trigueiros testemunha nos seus traços
fundamentais uma das vertentes da moderna novelística portuguesa: a mais voltada
para um espírito e um gosto isentos de provincianidade, na representação
de ambientes citadinos em que o circunstancial e o local podem ser mais
prontamente universalizáveis.
por Álvaro Salema
in 'Antologia do Conto Português Contemporâneo'
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DESPORTOS DE INVERNO
in 'O Carro do Feno' (1974)
Luís Forjaz Trigueiros
1.Jan.2016
Publicado por
MJA
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