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excerto

Homem cego com o seu jovem guia em Oklahoma City -
fotografia de Lewis Hine, 1917
À tarde, o Jorge e o Joel voltaram às imediações do centro comercial. O Joel
queria voltar à exposição e mergulhar nos mistérios egípcios. Mas o Jorge só
queria varrer a zona à procura do rapaz que lhe levou a carteira a casa. Era
esse o único mistério que lhe interessava. [...]
Deram os dois várias voltas nas imediações do centro comercial à procura do tal
rapaz. Mas não havia rasto dele. Nem do pai. Por fim, o Joel foi ver a exposição
e o Jorge deu mais umas voltas por ali. Quando o Joel voltou, quase uma hora
depois, ele estava a descansar num banco do jardim.
– Então? – perguntou o Joel.
– Nada – respondeu ele, desanimado.
– Nada? – espantou-se o Joel. – Então tu não o viste ainda? És mesmo
ceguinho.
O Jorge levantou-se e disse:
– Eu? Porquê?
– Olha para ali, para o outro lado do passeio.
– Já olhei – disse o Jorge com a boca aberta.
– E não vês nada? Entre a churrascaria e a farmácia. Quem é que está lá?
– Um ceguinho – disse o Jorge.
– Eu é que uso óculos e tu é que és ceguinho. Não vês o puto que está com
ele?
– É ele! – gritou o Jorge, eufórico. – É o puto da carteira.
– Até que enfim – disse o Joel. – Agora fala baixo para não darmos nas
vistas.
Aproximaram-se mais do rapaz e do ceguinho e ficaram a observá-los mais
adiante, misturados com o pessoal que esperava o autocarro na paragem.
O ceguinho tocava acordeão com uma lata pousada a um palmo dos pés onde as
pessoas que passavam lançavam de vez em quando uma moeda e o rapaz aparentemente
só estava ali a fazer-lhe companhia. Lia um livro de banda desenhada já meio
rasgado e limitava-se a apanhar uma ou outra moeda que não caía dentro da lata.
Quando parou à frente do ceguinho um grupo de três rapazes, ele largou a
revista e levantou-se, preocupado, como se estivesse à espera do pior. Depois,
um dos rapazes atirou uma moeda para o chão.
– Deus o abençoe – agradeceu o ceguinho sem parar de tocar.
Só que, entretanto, o rapaz puxou uma linha que estava amarrada à moeda e fê-la
levantar voo e regressar ao bolso dele.
– Então? – disse o ceguinho, impaciente. – Não apanhas a moeda?
– Não há… – disse o puto. – Eram outra vez aqueles rapazes. Ó avô, eles
atiram a moeda mas depois puxam-na.
– Outra vez? – perguntou o cego, desconfiado. – Posso ser cego mas não sou
burro. Já é a terceira vez…
– Mas é verdade, são sempre eles… O avô não os ouve a rir?
Era verdade. Os três rapazes afastaram-se para a esquina e riam-se
perdidamente. O puto nunca mais se sentou nem pegou no livro, porque os outros
deram outra vez meia volta e voltaram a passar. E repetiram a cena.
– Olha esta! E não me digas que são eles outra vez… – avisou o cego.
Só que o neto disse mesmo:
– Foram eles outra vez, avô…
O ceguinho perdeu a cabeça e deu-lhe uma bengalada na cabeça.
– Malandro! Grande malandro!
O puto escondeu a cabeça entre os braços para se defender, como costumava
fazer com o pai, mas o avô batia cegamente e ainda lhe acertou mais duas vezes.
– Não tens vergonha? Roubar o teu próprio avô?
– Eu não roubei nada! – gritou o rapaz, afastando-se.
E os outros rapazes riram-se ainda mais alto.
– Onde vais? – perguntou o ceguinho, momentaneamente desamparado.
– Vou a casa buscar as minhas coisas e desaparecer – disse o puto a juntar
as coisas dele. – Estou farto!
– Anda cá que eu dou-te a fartura – ameaçou o velho cego.
Mas ele já ia pela rua abaixo, muito decidido.
– Vem buscar-me às sete – gritou ainda o ceguinho.
O Jorge e o Joel seguiram o rapaz a uma distância confortável durante algum
tempo. E não foi preciso esperar muito para o verem chegar a casa. Só que não
era bem uma casa. Era uma barraca de madeira com um telhado de chapas e oleados
esticados com pedras em cima.
O puto entrou e saiu dez minutos depois com uma mochila pequena às costas,
seguido por um cão rafeiro preto e branco, baixo e magro, com os ossos todos à
vista. O cão abanava a cauda freneticamente, louco de alegria, e rodopiava à
volta das pernas do puto, que vinha abatidíssimo a dar pontapés nas pedrinhas do
chão. Nem era para menos. Com onze anos e uma família daquelas!…
– Vais viajar? – perguntou-lhe o Jorge, aproximando-se.
O puto olhou para eles, muito espantado. E o cão também.
– O que é que vocês têm com isso? – disse ele.
Depois, calou-se porque os reconheceu, sobretudo ao Jorge, que o tinha
perseguido de manhã.
– Porque levaste a carteira a minha casa? – avançou o Jorge.
– Estava lá a morada – explicou ele. – Achei-a.
– O cão não ferra? – perguntou o Joel a despropósito.
– Onde é que a achaste? – insistiu o Jorge.
– Na rua. Perto da entrada do centro…
– Pois. Onde tu estavas a levar porrada do teu velhote. E o dinheiro?
– Já estava sem dinheiro. Foi alguém que a roubou e a deitou fora. Posso ir
embora? Não querem mais nada?
– Desculpa – disse o Jorge. – Eu até queria agradecer-te. Porque fugiste de
mim? És assim tão modesto?
O rapaz virou os olhos para o chão, envergonhado de qualquer coisa.
– O cão não ferra? – voltou o Joel.
– Só quando fecha a boca – respondeu o rapaz.
– Então segura-o. Ele está a olhar para mim.
– Deixa lá a porcaria do cão – disse o Jorge. E baixou-se para falar com o
rapaz, olhos nos olhos. – Olha lá! Nós já vimos como é a tua família e a tua
vida. E a tua casa. Tu ajudaste-me e nós também queremos ajudar-te. Diz lá a
verdade…
– Foi o meu pai que te tirou a carteira – disse por fim o rapaz, muito
sério. – É a especialidade dele.
– O teu pai? Como?
– Quando tu foste desapartar. Eu bem te disse para não te chegares…
– Mas então?…
– Pois, aquilo de ele me bater é um truque. Ele bate-me e faz aquele
chinfrim para as pessoas se chegarem. Elas agarram-no e ele agarra-as a elas.
Não há maneira mais fácil de gamar carteiras.
– Esta agora! – disse o Joel. E por momentos até se esqueceu do cão.
– Estão a ver? É esta a minha profissão. Levar porrada – disse o puto muito
tristemente, a acariciar a cabeça do cão. – Ando sempre cheio de nódoas.
– Por isso eu vi ele bater-te duas vezes e depois já estavam a falar muito
bem…
– Muito bem nunca estamos. E às vezes levo também sem ser em serviço. Ele
bebe.
– Então e depois?
– Depois ele tira o dinheiro, dá-me um gelado ou um bolo e manda-me meter
as carteiras numa caixa do correio.
FIM

A Rosa do Egipto
| No Natal, os três Jotas envolvem-se num mistério egípcio: um quarto
com cheiro a canela, uma plantação de rosas azuis, um cadáver desviado
do seu funeral, um túmulo secreto, uma “fábrica” de múmias e uma
pirâmide invisível onde repousam os faraós do nosso tempo. Desta vez,
eles investigam uma associação secreta, o “Clube da Rosa Azul”, que
guarda os seus sócios, depois de mortos, como se fossem cofres. Para
quê? Em pleno século XXI, pode haver ainda múmias, sarcófagos, faraós? E
poderá repetir-se a maldição de Tuthankhamon...
Fnac
Álvaro Magalhães nasceu no Porto, em 1951, e publicou o seu primeiro livro em 1982. A sua obra para crianças e jovens, que integra poesia, conto, ficção e textos dramáticos, repartindo-se por mais de 120 títulos, caracteriza-se pela originalidade e invenção, quer na escolha dos temas quer no seu tratamento.
Foi várias vezes premiado pela Associação Portuguesa de Escritores e pelo Ministério da Cultura. Em 2002, um livro seu foi integrado na
Honour List do Prémio Hans Christian Andersen, em 2004, venceu o Grande Prémio Calouste Gulbenkian e, em 2014, o Prémio Autores, atribuído pela Sociedade Portuguesa de Autores. Várias das suas publicações integram o Plano Nacional de Leitura e constam do corpus das metas curriculares de Português.
Almedina
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Título: A Rosa do Egipto
-excerto-
Autor: Álvaro Magalhães
Colecção Triângulo Jota
Edições ASA, uma chancela do grupo LeYa
22.Out.2026
Publicado por
MJA
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