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 Sobre a Deficiência Visual

A Descoberta da Pólvora

Francisco Alves

Blind child & friend play with a broken kite in Kabul
Menino cego e amigo brincam com um papagaio de papel quebrado em Kabul

Que invento verdadeiramente revolucionário, saído da mão do homem, não fez as suas vítimas?

O Xano, quatro anos e meio mais velho do que o Manel, com ou sem fundamento, tinha sempre resposta para tudo, o que o tornava um verdadeiro líder, que o pobre irmão se esforçava ingloriamente por emular.

- Ó Xano, porque é que a água, quando cai da presa para o poço da Boula, fica branca?

- Por causa do oxigénio... A água é constituída por oxigénio e quando entra em contacto com o ar, que tamém o tem, faz com que fique branca... - Respondia o irmão duma assentada, sem deixar qualquer espaço para dúvidas, entrando estes conhecimentos no cérebro do pequeno Manel, como se duma bíblia se tratasse. E como esta, tantas outras.

O Xano até gostava muito do irmão, mas porque sua excelência mal começava a correr logo se estendia ao comprimento nas lavradas, com certeza não queriam que ele andasse ao pé-coxinho!... Depois, fizesse o que fizesse era sempre dele a culpa. Custava alguma coisa correr pelo muro do adro e saltar o metro e pouco do cancelo? Pois o pimpão, também quis saltar, mas, como não podia deixar de ser, caiu e foi esmurrar os focinhos no cancelo de ferro, lá ficando com mais uma marca no queixo para toda a vida.

Um dia, desencantou o Manel, na vidraceira do quarto do pai, um pacote vermelho de cartão com uns grãos escuros que tinham um cheiro intenso não sabia a quê.

- Ó Xano, o que será isto? - Perguntou o Manel, pois ainda não sabia ler.

O irmão mal viu o pacote soube logo do que se tratava.

- Isso é pólvora e tamém deve haver aí rastilho... Serve para fazer rebentar as fragas nas pedreiras e para fazer bombas e foguetes...

E sem demoras, explicou tintim por tintim ao irmão o que era a pólvora. Ele mesmo tinha ajudado a fazer um dos buracos nas fragas na pedreira do Vale Torto, com brocas, guilhos e marretas. O furo tinha mais de dois palmos de homem que os palmos dos garotos não passavam de um furco, ou seja, da ponta do polegar até à ponta do indicador, enquanto o palmo, como todos sabem, vai da ponta do polegar à ponta do dedo mindinho. Depois meteram lá dentro uma das pontas do rastilho, atacaram-no de pólvora, enchumaçaram-no de jornais e chiscaram fogo à outra ponta com uma cerilha, tendo logo de seguida fugido para debaixo de uma fraga virada à outra cara do monte, enquanto gritavam:

- Foo-oo-goo-oo!...

Passados uns instantes ouvira-se o ribombar dum estrondo e estilhaços de pedra a voar pelos ares. Foi assim que tinham arranjado pedra para fazer a escola e a ponte.

Excitados com a importância da descoberta, pela aventura e pelo perigo do que o acaso lhes tinha colocado nas mãos, não mais pararam de sonhar e o Xano sugeriu:

- Nun podes dizer nada, mas nós podíamos fazer bombas...

E se assim o pensaram melhor o fizeram. Foram à procura de frascos pequenos de vidro e encontraram um vazio que tinha no rótulo um homem com grandes bigodes, que era do remédio do reumatismo e que cheirava muito mal.

Com o frasco aberto, verteram a pólvora para dentro e meteram depois uma ponta do rastilho, atacando tudo com jornais.

Feita a bomba, pensaram nos locais para proceder ao rebentamento, tendo-se-lhe afigurado a eira como o sítio mais seguro.

- Chamamos outros garotos? - Disse o Manel no auge do entusiasmo. 

- Nem penses, seu burro!... Isto agora é segredo. Se o pai vem a saber, mata-nos de pancada.

- E depois de lhe chiscar fogo, tamém gritamos como nas pedreiras: fooogooo?!...

- Só me fazia falta mais essa! Tu estás caladinho se não queres que eu te dê cabo dos focinhos!... - Vociferou o irmão chateado já com tanta imprudência.

Chegados à eira, deserta de gente nesse momento, enxotaram as galinhas e os perus, estudaram o melhor local para a deflagração, que tinha de ser longe dos medeiros por causa dos incêndios. Puseram a bomba no chão, ajoelharam-se e riscaram um fósforo...

- Olha que logo que vejas o rastilho a largar falmegas, temos que fugir!... Ouviste? - Aconselhou ainda o Xano.

Aproximaram o fósforo do rastilho e mal este começou a bufar, como estava combinado, deram às de Vila Diogo, saltando dois a dois os degraus das escaleiras, escondendo-se atrás duma parede à espera do rebentamento.

Como o Xano tinha dito, a coisa foi matemática: passados alguns segundos ouviram o estrondo. Depois aproximaram-se do local onde tinham colocado a bomba e não viram nada, sentindo apenas um cheiro forte a pólvora.

As experiências continuaram nos dias seguintes, descobrindo mais tarde que se colocassem uma lata por cima da bomba, com o rebentamento esta voava pelos ares, fazendo um enorme estrépito.

Nessas experiências já intervieram outros amigos, o Berto, o Tino, o Ché e o Lito, mas tinham-se comprometido a manter segredo total sobre as suas atividades subversivas.

Com a pólvora a desaparecer a olhos vistos do pacote e com o medo que o pai desse com o ratoneiro, decretaram tréguas nas suas atividades revolucionárias e, como sempre, partiram em busca de outros divertimentos com que matar as detestáveis rotinas.

* * * * *

Passados tempos após estes sucessos, o Manel encontrou de novo um cartucho com pólvora. O irmão estava na cidade a estudar e ele tinha de brincar sozinho, sem mestre nem conselheiro. 

Uma das primeiras coisas em que pensou, como é natural, foi no antigo fabrico artesanal de bombas.

Sem grandes preocupações de rigor, pois das remotas aventuras apenas recordava vagos pormenores, verteu a pólvora numa folha de prata dum chocolate, fez um rolo e apertou-lhe as pontas como se fosse um rebuçado, colocou-a no chão da sala e correu à cozinha em busca dum tição. Chegado à sala deitou-se de bruços com a cara por cima da sua bomba enquanto ia soprando a brasa para a avivar. E como a prata não ardesse de imediato, mais ele soprava no tição até que de repente a pólvora se incendiou e explodiu, envolvendo-lhe o rosto numa nuvem de fogo e fumo.

Assustado perdidamente, começou a gritar desesperado, acorrendo apavoradas as irmãs e a mãe que o puseram debaixo da bica da vinha, enquanto a Maria se empertigava a dizer que tinham de prometer uma cara de cera a São Sebastião, para que o irmãozinho não ficasse cego.

Mandaram chamar o pai, albardaram a burra e foram durante duas horas a caminho da cidade e do médico, levando o garoto a cara tapada com um lenço.

Foram necessários oito dias de internamento hospitalar para o pequeno Manel sarar os ferimentos, pelo menos ao nível exterior, porque o incidente deixar-lhe-ia ao nível interno graves lesões que seriam responsáveis por uma redução substancial da visão que se iria acentuar ao longo da vida.

Uma das causas do desfecho trágico destes sucessos talvez se possa encontrar na separação da equipa revolucionária, o Xano na cidade e o Manel a sonhar sozinho no avoengo casarão. Não é precisamente esse o sentido da máxima pessoana quando defende que a intuição sem o hábito se esfuma no nada? Que seria do Gama sem o Velho do Restelo?

Com o acidente os pequenos deram-se conta de que a revolução que decidiram empreender para romper com pasmaceiras e rotinas, com bruxarias e mistérios, com as fronteiras acanhadas do mundo medievo e fechado em que viviam sufocados, apenas podia prosseguir pela via pacífica, abandonando a partir desse dia todas as atividades que implicassem o recurso a processos violentos.

FIM
 

Fotografia de Francisco Alves

Francisco Manuel Rodrigues Alves nasceu em 1950, na aldeia de Varge, Bragança.
É deficiente visual desde a juventude.
Estudou os primeiros anos nos Seminários de Vinhais e de Bragança, concluindo o ensino secundário no Liceu Camões, em Lisboa. Estudou Filosofia na Faculdade de Letras de Lisboa, onde concluiu a Licenciatura em 1981 e o Mestrado em 2003. Foi professor de Filosofia e de Psicologia na Escola Secundária Pedro Alexandrino da Póvoa de St.° Adrião.
Participou ativamente na fusão das Associações de Cegos que levou à criação da ACAPO (Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal) em 1989, tendo sido o Presidente da Comissão Instaladora e o Presidente dos dois primeiros mandatos da Direção Nacional, desta Associação.
Foi um dos responsáveis pela organização do desporto para cegos em Portugal e, em 1988, foi eleito Presidente da Federação de Desporto para Deficientes. Na qualidade de Presidente desta Federação integrou as Delegações de Portugal aos Jogos Paraolímpicos de Atlanta de 1996, e de Sidney, em 2000.
Foi fundador e diretor da revista da ACAPO, «Luís Braille», revista que reflete o associativismo dos cegos e onde criou, entre outras, a rubrica «Humor Cego», protagonizada pela personagem Jeremias Bengaladas.
Em 1989 ganhou o prémio Branco Rodrigues com o trabalho «Depoimento dum Professor Cego: O meu itinerário intelectual e vivencial e a alegria de viver», publicado na revista «Diálogo» do Ministério da Educação, tendo ainda conquistado o primeiro prémio de um concurso organizado pela Associação de Cegos Luís Braille com o conto «Viagem no Tempo», publicado em «Poliedro», revista editada em braille.
 
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A estória 'A DESCOBERTA DA PÓLVORA' faz parte da obra

"Trás-os-Tempos - O que resta dum pote desasado"
Autor: Francisco Manuel R. Alves
Lema d’Origem — Editora, L.da (editora@lemadorigem.pt)
Janeiro 2014
 

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1.Fev.2026
Publicado por MJA