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Carmen Seganfredo & Ademilson Franchini

Jacob é abençoado por Isaac - Marc Chagall, 1956
Isaac envelhecera assustadoramente em seus últimos anos de vida.
Transformado num velho praticamente cego, vivia recluso em sua tenda.
Rebeca, sua esposa, apesar de também ter se transformado numa velha, ainda
guardava intactos os sentidos.
– Preciso vigiar todos os atos de meu amado Isaac, antes que ingresse
também na caverna de Makpelá – dizia ela, todo dia, ao levantar-se.
Um dia, então, escutou o velho Isaac chamar por seu filho dileto.
– Esaú, venha até mim! – berrava ele, de dentro da tenda.
O filho peludo surgiu no mesmo instante.
– Aqui estou, meu pai – disse ele, pressuroso.
– Vá até ao campo, mate um animal e faça para mim um assado saboroso
– disse o velho. – Sinto que o momento de minha morte se aproxima com
celeridade e quero, antes de partir, dar a você minha bênção.
Esaú tomou do arco e das flechas e saiu campo afora, como um
alucinado.
Rebeca, contudo, escutara tudo do lado de fora, e tão logo vira o filho
sumir-se, correu até Jacob, que estava a meditar, e lhe disse, não sem rudeza:
– Jacob, venha até à minha tenda!
Jacob seguiu a mãe, e, sob o abrigo das espessas lonas, ela disse:
– Chegou a hora de endireitarmos as coisas por aqui – disse ela, com
determinação. – Vá agora até o redil e mate dois cabritos. Depois prepararei
um belo assado que você levará ao seu pai, que se ensaia já para deixar este
mundo.
Assim que Jacob cumpriu as ordens, ela o tomou novamente pelo braço e
o fez vestir as vestes de seu irmão.
– Mas minha mãe – disse o atônito Jacob –, como poderei enganar as
mãos videntes de meu pai?
Rebeca, que já havia pensado no caso, tomou de alguns pedaços de
pêlo de cabra e prendeu-os ao redor dos braços e do pescoço do filho.
– Pronto – disse ela, cheirando-o e apalpando-o. – O cheiro é o mesmo,
e a pele é a mesma. Vá e cumpra o seu papel, que é o de ser Esaú.
Jacob, carregando nas mãos a terrina com o alimento, caminhou de
maneira vacilante até a entrada da tenda do velho Isaac.
– Pai, posso entrar? – disse, engrossando um pouco a voz.
– Quem está aí? – disse o velho, inclinando a orelha direita para a
entrada.–
Sou Esaú, seu filho, que retorna com a caça olorosa.
– Entre, de qualquer modo, ainda que eu saiba que não é meu filho
Esaú.
Jacob paralisou-se. Por um instante sentiu vontade de jogar a terrina para
o alto e sair correndo. Mas agora era tarde, não podia mais recuar, e assim,
avançou.
– O que diz, meu pai? – falou, fazendo um grande esforço para tornar
sua voz parecida com a do irmão.
– Como você caçou tão rápido? – disse o velho, sem lhe dar ouvidos.
– A caça veio até mim, por obra de Deus.
Isaac silenciou. Depois disse:
– Largue tudo e venha até mim.
Jacob obedeceu.
– Vejamos se você é mesmo meu filho Esaú – disse o velho, tomando as
mãos de Jacob, recobertas pelo pêlo espesso da cabra.
Depois de alisar longamente as mãos e de espichar alguns fios
enovelados, o ancião quase cego pareceu convencido.
– Está bem. O cheiro também me parece o mesmo – acrescentou ele,
dilatando as grandes narinas avermelhadas.
– Dê-me, agora, a comida, pois o cheiro está delicioso.
Jacob deu de comer ao pai e baixou reverentemente os olhos ao ver os
pedaços de carne serem consumidos pela velha boca.
– Estava muito bom – disse o velho, ao fim. – Agora dê-me de beber.
Jacob serviu-lhe um grande copo de vinho, que o velho repetiu.
Depois que esteve novamente recostado sobre os travesseiros, Isaac
disse:
– Agora, Esaú, aproxime sua cabeça peluda da minha destra, eis que
vou abençoá-lo.
E assim o fez, vertendo sobre a cabeça do falso Esaú a sua bênção
poderosa e fazendo deste o último herdeiro legítimo e senhor da casa dos
descendentes de Abraão.
– Que os filhos de sua mãe se prostrem diante de você! – disse ele,
encerrando a bênção fatal.
Jacob, então, se retirou, e o fez em boa hora, pois nesse instante Esaú
retornava trazendo a sua caça, que ainda precisava cozinhar.
Durante um bom tempo preparou a carne até que, estando tudo pronto,
dirigiu-se com a sua terrina à tenda do pai.
– Com licença, meu pai – disse ele. – Cá estou com a delícia
prometida.
– Esaú, outra vez? – disse o velho, suspendendo a cabeça. – O que você
ainda quer? Já não lhe dei a minha bênção?
– Desculpe, meu pai, mas não o entendo.
Rebeca viu ao longe o pano da entrada da tenda descer. Um ligeiro e
abafado altercar de vozes soou e então ela compreendeu que o filho enganado
já era sabedor de sua constrangedora e irremediável situação.
– Traído! – berrou Esaú, arrancando os cabelos avermelhados. –
Miseravelmente enganado!
Ainda assim tentou arrancar uma benção do velho pai, mas este não
podia tornar atrás.
– Você viverá desde hoje sob o jugo do seu irmão, até que ele, em suas
andanças, se rompa naturalmente.
Foram estas as palavras mais suaves que Isaac encontrou para dizer ao
filho mais amado.
Depois disso Esaú silenciou, pois sabia que, enquanto o pai vivesse,
ele não poderia tirar a desforra – que outra não era senão matar o irmão
usurpador.
Rebeca, no entanto, sabia perfeitamente dos propósitos do Ruivo. Por
isso chegou até Isaac e disse:
– Isaac, não é bom que Jacob esteja a misturar-se com essas mulheres
daqui. Faça como seu pai fez com você: não permita que seu filho se case com
uma cananéia.
– Jacob não desposará nenhuma filha de Canaã, como Esaú – disse o
velho cego.
Na verdade o Ruivo casara-se havia tempos com duas mulheres do
lugar, as quais, desde então, infernizavam a vida de Isaac e Rebeca.
– Mande Jacob à terra de Abraão para que lá tome por esposa uma das
filhas de seu irmão Labão – disse Isaac.
E assim Jacob partiu escondido, a fim de evitar a ira de Esaú. Quanto a Rebeca,
a causadora de tudo, despediu-se do filho sem saber que jamais tornaria a
revê-lo.
FIM
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excerto de
ESAÚ E JACOB
in 'As 100 melhores histórias da Bíblia'
Carmen Seganfredo & Ademilson Franchini
Porto Alegre | L&PM, 2011.
26.Jun.2020
Maria José Alegre
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