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Sobre a Deficiência Visual


A Abóbada

Alexandre Herculano

excerto

Anna e o Cego Tobias - Rembrandt, 1630
Anna e o cego Tobias - Rembrandt, 1630


O CEGO

O dia 6 de Janeiro do ano da Redenção 1401 tinha amanhecido puro e sem nuvens. Os campos, cobertos aqui de relva, acolá de searas, que cresciam a olhos vistos com o calor benéfico do Sol, verdejavam ao longe, ricos de futuro para o pegureiro e para o lavrador. Era um destes formosíssimos dias de Inverno mais gratos que os do Estio, porque são de esperança, e a esperança vale mais do que a realidade; destes dias, que Deus só concedeu aos países do Ocidente, em que os raios do Sol, que começa a subir na eclíptica, estirando-se vívidos e trémulos por cima da terra enegrecida pela humidade, e errando por entre os troncos pardos dos arvoredos despidos pelas geadas, se assemelham a um bando de crianças, no primeiro viço da vida, a folgar e a rolar-se por cima da campa, sobre a qual há muito sussurrou o último ai da saudade, e que invadiram os musgos e abrolhos do esquecimento. Era um destes dias antipáticos aos poetas ossiânico-regelo-nevoentos, que querem fazer-nos aceitar como cousa mui poética

Esses gelos do Norte, esses brilhantes
Caramelos dos topes das montanhas;

sem se lembrarem de que

Do sol do Meio-Dia aos raios vívidos,
Parvos! ― se lhes derretem: a brancura
Perdem co'a nitidez, e se convertem
De lúcidos cristais em água chilre;


destes dias, enfim, em que a Natureza sorri como a furto, rasgando o denso véu da estação das tempestades.

No adro do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, vulgarmente chamado da Batalha, fervia o povo, entrando para a nova igreja, que de mui pouco tempo servia para as solenidades religiosas. Os frades dominicanos, a quem el-rei D. João I tinha doado esse magnífico mosteiro, cantavam a missa do dia debaixo daquelas altas abóbadas, onde repercutiam os sons do órgão e os ecos das vozes do celebrante, que entoava os kyries.

Mas não era para ouvir a missa conventual que o povo se escoava pelo profundo portal do templo para dentro do recinto sonoro daquela maravilhosa fábrica; era para assistir ao auto da adoração dos reis, que com grande pompa se havia de celebrar nessa tarde dentro da igreja e diante do rico presépio que os frades tinham alevantado junto do arco da Capela do Fundador, então apenas começada. A concorrência era grande, porque os habitantes da Canoeira, de Aljubarrota, de Porto de Mós e dos mais lugares vizinhos, desejosos de ver tão curioso espectáculo, tinham deixado desertas as povoações para vir povoar por algumas horas o ermo do mosteiro. Aprazível cousa era o ver, descendo dos outeiros para o vale por sendas torcidas, aquelas multidões, vestidas de cores alegres e semelhantes, no seu complexo, a serpentes imensas, que, transpondo as assomadas, se rolassem pelas encostas abaixo, reflectindo ao longe as cores variegadas da pele luzidia e lúbrica. Atravessando a pequena planície onde avultava o mosteiro, passava o rio Lena, cuja corrente tinham tornado caudal as chuvas da primeira metade da estação invernosa.

No campo contíguo ao edifício, aqui e acolá, alevantavam-se casarias irregulares, algumas fechadas com suas portas, outras apenas cobertas de madeira e abertas para todos os lados, à maneira de simples telheiros. As casas fechadas e reparadas contra as injúrias do tempo eram as moradas dos mestres e artífices que trabalhavam no edifício: debaixo dos telheiros viam-se nuns pedras só desbastadas, noutros algumas onde se começavam a divisar lavores, noutros, enfim, pedaços de cantaria, em que os mais hábeis escultores e entalhadores já tinham estampado os primores dos seus delicados cinzéis. Mas o que punha espanto era a inumerável porção de pedras, lavradas, polidas e prontas para serem colocadas em seus lugares, que jaziam espalhadas pelo terreiro que, ao redor do edifício, se alargava por todos os lados: mainéis rendados, peças dos fustes, capitéis góticos, laçarias de bandeiras, cordões de arcadas, aí estavam tombados sobre grossas zorras ou ainda no chão, endurecido pelo contínuo perpassar de trabalhadores, oficiais e mais obreiros desta maravilhosa fábrica. Quem de longe olhasse para aquele extenso campo, alastrado de tantos primores de escultura, julgara ver o assento de uma cidade antiquíssima, arrasada pela mão dos homens ou dos séculos, de que só restava em pé um monumento, o mosteiro. E todavia, esses que pareciam restos de uma antiga Balbek não eram senão algumas pedras que faltavam para o acabamento dum convento de frades dominicanos, o Convento de Santa Maria da Vitória, vulgarmente chamado a Batalha!

Um quadrante de pedra, assentado em um canto do adro, apontava meio-dia. A igreja tinha sorvido dentro do seu seio desmesurado os habitantes das próximas povoações, e de todo o ruído e algazarra que poucas horas antes soava por aqueles contornos, apenas traspassavam pelas frestas e portas do templo os sons do órgão, soltando a espaços as suas melodias, que sussurravam e morriam ao longe, suaves como pensamento do Céu.

Não estava, porém, inteiramente ermo o terreiro da frontaria do edifício. Assentado sobre um troço de fuste, com os pés ao sol e o resto do corpo resguardado dos seus ardentes raios pela sombra de um telheiro, a qual se começava a prolongar para o lado do oriente, via-se um velho, venerável de aspecto, que parecia embrenhado em profundas meditações. Pendia-lhe sobre o peito uma comprida barba branca: tinha na cabeça uma touca foteada, um gibão escuro vestido, e sobre ele uma capa curta ao modo antigo. A luz dos olhos tinha-lha de todo apagado a velhice; mas as suas feições revelavam que dentro daqueles membros trémulos e enrugados morava um ânimo rico de alto imaginar. As faces do velho eram fundas, as maçãs do rosto elevadas, a fronte espaçosa e curva e o perfil do rosto quase perpendicular. Tinha a testa enrugada, como quem vivera vida de contínuo pensar, e, correndo com a mão os lavores da pedra sobre que estava assentado, ora carregando o sobrolho, ora deslizando as rugas da fronte, repreendia ou aprovava com eloquência muda os primores ou as imperfeições do artífice que copiara à ponta de cinzel aquela página do imenso livro de pedra a que os espíritos vulgares chamam simplesmente o Mosteiro da Batalha.

Enquanto o velho cismava sozinho e palpava o canto, subtilmente lavrado, sobre que repousava os membros entorpecidos, à portaria do mosteiro, que perto dali ficava, outras figuras e outra cena se viam. Dois frades estavam em pé no limiar da porta e altercavam em voz alta: de vez em quando, pondo-se nos bicos dos pés e estendendo os pescoços, parecia quererem descobrir no horizonte, que as cumeadas dos montes fechavam, algum objecto; depois de assim olharem um pedaço, encolhiam os pescoços e, voltando-se um para o outro, travavam de novo renhida disputa, que levava seus visos de não acabar.

― Oh homem! ― dizia um dos dois frades, a quem a tez macilenta e as barbas e cabelos grisalhos davam certo ar de autoridade sobre o outro, que mostrava nas faces coradas e cheias e na cor negra da barba povoada e revolta mais vigor de mocidade. ― Já disse a vossa reverência que el- -rei me escreveu, de seu próprio punho, que viria assistir ao auto da adoração dos reis e, de caminho, veria a Casa do Capítulo, a que ontem mestre Ouguet mandou tirar os simples que sustentavam a abóbada.

― E nego eu isso? ― replicou o outro frade. ― O que digo é que me parece impossível que el-rei venha, de feito, conforme a vossa paternidade prometeu em sua carta. Há muito que lá vai o meio-dia: daqui a pouco tocará a vésperas, e às duas por três é noite. Não vedes, padre-mestre, a que horas virá a acabar o auto? E este povo, este devoto povo que aí está, que aí vem, há-de ir com o escuro por esses descampados e serras, com mulheres, com raparigas...

Tá, tá ― interrompeu o prior. ― Temos luar agora, e vão de consum. O caso não é esse, padre-procurador, o caso é se está tudo aviado para agasalharmos el-rei e os de sua companha.

― Oh lá, quanto a isso, nada falta. Desde ontem que tenho tido tanto descanso como hoste ou cavalgada de castelhanos diante das lanças do Condestável; o pior é que, segundo me parece, e dizei o que quiserdes, opus et oleum perdidi (1).

― Não falta quem tarda: el-rei não quebrará a palavra ao seu antigo confessor. O que quero é que todos os noviços e coristas que têm de fazer suas representações no auto estejam a ponto e vestidos, para ele começar logo que sua senhoria chegue.

― Nada receeis, que tudo está preparado; do que duvido é de que comecemos, se por el-rei houvermos de esperar.

O frade mais velho fez, a estas palavras, um gesto de impaciência e, sem dar resposta ao seu pirrónico interlocutor, estendeu outra vez o gasnate para a banda da estrada, fazendo com a extremidade do hábito uma espécie de sobrecéu para resguardar os olhos dos raios do Sol, que, já muito inclinado para o ocidente, batia de chapa no portal onde os dois reverendos estavam altercando.

Porém, meio descoroçoado, o dominicano logo abaixou os olhos: nem o mínimo vulto se enxergava no horizonte; e neste abaixar de olhos viu o cego, que estava ainda assentado sobre o fuste da coluna.

Para escapar, talvez, às reflexões do seu confrade, o reverendo bradou ao velho:

― Oh lá, mestre Afonso Domingues, bem aproveitais o soalheiro! Não vos quero eu mal por isso; que um bom sol de Inverno vale, na idade grave, mais que todos os remédios de longa vida que em seus alforges trazem por aí os físicos.

Dizendo e fazendo, o reverendo desceu os degraus do portal e encaminhou-se para o cego.

― Quem é que me fala? ― perguntou este, alçando a cabeça.

― Frei Lourenço Lampreia, vosso amigo e servidor, honrado mestre Afonso. Tão esquecida anda já minha voz em vossas orelhas, que me não conheceis pela toada?

― Perdoai-me, mui devoto padre-prior ― atalhou o velho, tenteando com os pés o chão para erguer-se, no momento em que Frei Lourenço Lampreia chegava junto dele, seguido do seu confrade Frei Joane, procurador do mosteiro. ― Perdoai-me! Foi-se o ver, vai-se o ouvir. Em distância, já não acerto a distinguir as falas.

― Estai quedo; estai quedo, mestre Afonso ― disse Frei Lourenço, segurando o cego pelo braço. ― O indigno prior do Mosteiro da Vitória não consentirá que o mui sabedor arquitecto e imaginador Afonso Domingues, o criador da oitava maravilha do Mundo, o que traçou este edifício, doado pelo virtuoso de grandes virtudes rei D. João à nossa Ordem, se alevante para estar em pé diante do pobre frade...

― Mas esse religioso ― interrompeu o cego ― é o mais abalizado teólogo de Portugal, o amigo do mui excelente doutor João das Regras e do grande Nun’Álvares, e privado e confessor de el-rei; Afonso Domingues é apenas uma sombra de homem, um troço de capitel partido e abandonado no pó das encruzilhadas, um velho tonto, de quem já ninguém faz caso. Se vossa caridade e humildosa condição vos movem a doer-vos de mim e a lembrar-vos de que fui vivo, não achareis nisso muitos de vossa igualha.

― De merencório humor estais hoje ― disse o prior, sorrindo. ― Não só eu vos amo e venero: el-rei me fala sempre de vós em suas cartas. Não sois cavaleiro de sua casa? E a avultada tença que vos concedeu em paga da obra que traçastes e dirigistes, enquanto Deus vos concedeu vista, não prova que não foi ingrato?

― Cavaleiro!? ― bradou o velho. ― Com sangue comprei essa honra! Comigo trago a escritura. ― Aqui, mestre Afonso, puxando com a mão trémula as atacas do gibão, abriu-o e mostrou duas largas cicatrizes no peito. ― Em Aljubarrota foi escrito o documento à ponta de lança por mão castelhana: a essa mão devo meu foro, que não ao Mestre de Avis. Já lá vão quinze anos! Então ainda estes olhos viam claro, e ainda para este braço a acha de armas era brinco. El-rei não foi ingrato, dizeis vós, venerável prior, porque me concedeu uma tença!? Que a guarde em seu tesouro; porque ainda às portas dos mosteiros e dos castelos dos nobres se reparte pão por cegos e por aleijados.

Proferindo estas palavras, o velho não pôde continuar: a voz tinha-lhe ficado presa na garganta, e dos olhos embaciados caíam-lhe pelas faces encovadas duas lágrimas como punhos. A Frei Lourenço também se arrasaram os olhos de água. Frei Joane, esse olhou fito para o cego durante algum tempo, com o olhar vago de quem não o compreendia. Depois, a ideia da tardança de el-rei e da tardança do auto, que, entrando pelas horas de cear e dormir, iria fazer uma brecha horrorosa na disciplina monástica, veio despertá-lo como espinho pungente. Começou a bufar e a bater o pé, semelhante ao corredor brioso do Livro de Job e da Eneida. Entretanto, o arquitecto havia-se posto em pé: um pensamento profundamente doloroso parecia reverberar-lhe pela fronte nobre e turbada, e houve um momento de silêncio. Por fim, segurando com força a manga do hábito de Frei Lourenço, disse-lhe:

― Sois letrado, reverendo padre: deveis ter visto algum traslado da Divina Comédia do florentino Dante.

― Li já, e mais de uma vez ― respondeu o prior. ― É obra-prima, daquelas a que os Gregos chamavam epos, id est, enarratio et actio, segundo Aristóteles; e se não houvesse nessa escritura algumas ousadias contra o papa...

― Pois sabei, reverendo padre ― prosseguiu o arquitecto, atalhando o ímpeto erudito do prior –, que este mosteiro que se ergue diante de nós era a minha Divina Comédia, o cântico da minha alma: concebi-o eu; viveu comigo largos anos, em sonhos e em vigília: cada coluna, cada mainel, cada fresta, cada arco, era uma página de canção imensa; mas canção que cumpria se escrevesse em mármore, porque só o mármore era digno dela. Os milhares de favores que tracei em meu desenho eram milhares de versos; e porque ceguei arrancaram-me das mãos o livro, e nas páginas em branco mandaram escrever um estrangeiro! Loucos! Se os olhos corporais estavam mortos, não o estavam os do espírito. O estranho a quem deram meu cargo não me entendia, e ainda hoje estes dedos descobriram nessa pedra que o meu alento não a bafejara. Que direito tinha o Mestre de Avis para sulcar com um golpe do seu montante a face de um arcanjo que eu criara? Que direito tinha para me espremer o coração debaixo dos seus sapatos de ferro? Dava lho o ouro que tem despendido? O ouro!... Não! O Mestre de Avis sabe que o ouro é vil; só é nobre e puro o génio do homem. Enganaram no: vassalos houve em Portugal que enganaram seu rei! Este edifício era meu; porque o gerei; porque o alimentei com a substância da minha alma; porque necessitava de me converter todo nestas pedras, pouco a pouco, e de deixar, morrendo, o meu nome a sussurrar perpetuamente por essas colunas e por baixo dessas arcarias. E roubaram me o filho da minha imaginação, dando me uma tença!... Com uma tença paga se a glória e a imortalidade? Agradeço vos, senhor rei, a mercê!... Sois em verdade generoso... mas o nome de mestre Ouguet enredar se á no meu ou, talvez, sumirá este no brilho de sua fama mentida...


Sala do Capítulo do Mosteiro da Batalha
Sala do Capítulo do Mosteiro da Batalha


O cego tremia de todos os membros: a veemência com que falara exaurira lhe as forças: os joelhos vergaram lhe, e assentou se outra vez em cima do fuste. Os dois frades estavam em pé diante dele.

― Estais mui perturbado pela paixão, mestre Afonso ― disse Frei Lourenço, depois de larga pausa –, por isso menoscabais mestre Ouguet, que era, talvez, o único homem que aí havia capaz de vos substituir. Quanto a vós, pensaram os do conselho de el rei que deviam propor lhe vos desse repouso e honrado sustentamento para os cansados dias. Ninguém teve em mente ofender o mais sabedor e experto arquitecto de Portugal, cuja memória será eterna e nunca ofuscada.

― Obrigado ― atalhou o velho ― aos conselheiros de el rei pelos bons desejos que em meu prol têm. São políticos, almas de lodo, que não compreendem senão proveitos materiais. Dão me o repouso do corpo e assassinam me o da alma! Acerca de mestre Ouguet, não serei eu quem negue suas boas manhas e ciência de edificar: mas que ponha ele por obra suas traças, e deixem me a mim dar vulto às minhas. E demais: para entender o pensamento do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, cumpre ser português; cumpre ter vivido com a revolução que pôs no trono o Mestre de Avis; ter tumultuado com o povo defronte dos paços da adúltera(2); ter pelejado nos muros de Lisboa; ter vencido em Aljubarrota. Não é este edifício obra de reis, ainda que por um rei me fosse encomendado seu desenho e edificação, mas nacional, mas popular, mas da gente portuguesa, que disse: não seremos servos do estrangeiro e que provou seu dito. Mestre Ouguet, escolar na sociedade dos irmãos obreiros (3), trabalhou nas sés de Inglaterra, de França e de Alemanha, e aí subiu ao grau de mestre; mas a sua alma não é aquecida à luz do amor da pátria; nem, que o fosse, é para ele pátria esta terra portuguesa. Por engenho e mãos de portugueses devia ser concebido e executado, até seu final remate, o monumento da glória dos nossos; e eis aí que ele chamou de longes terras oficiais estranhos, e os naturais lá foram mandados adornar de primorosos lavores a igreja de Guimarães. Sei que não seriam nem eles nem eu quem pusesse esse remate; mas nós deixaríamos sucessores que conservassem puras as tradições da arte. Perder se á tudo; e, porventura, tempo virá em que, nesta obra dos séculos, não haja mãos vigorosas que prossigam os lavores que mãos cansadas não puderam levar a cabo. Então o livro de pedra, o meu cântico de vitória, ficará truncado. Mas Afonso Domingues tem uma pensão de el rei...

Em uma das casas que ficavam mais próximas, daquelas de que fizemos menção no princípio deste capítulo, ergueu se a adufa de uma janela no momento em que o cego proferia as últimas palavras, e uma velha, em cuja cabeça alvejava uma toalha mui branca, gritou da janela:

― Mestre Afonso, quereis recolher-vos? Está pronta a ceia, e começa a cair a orvalhada, que a tarde vai nevoenta.

― Vamos lá, vamos lá, Ana Margarida; vinde guiar-me.

E Ana Margarida, ama de mestre Afonso Domingues, saiu da porta com a roca ainda na cinta, e o fuso espetado entre o linho e o ourelo que o apertava. Chegando ao pé do velho, tocou- -lhe com o braço, em que ele se firmou, tornando a erguer-se.

― Boas tardes, padre-prior ― disse a ama, fazendo sua mesura, seguida de um lamber de dedos e de dois puxões nas barbas da estriga quase fiada.

― Vá na graça do Senhor, filha ― respondeu Frei Lourenço, e acrescentou, dirigindo-se ao cego:

― Meu irmão, Deus aceita só ao homem, em desconto da grande dívida, a dor calada e sofrida. Resignai-vos na sua divina vontade.

― Na dele estou eu resignado há muito: na dos homens é que nunca me resignarei.

E Ana Margarida, que tinha a ceia ainda no lume, foi puxando o cego para a porta de casa.

― Ai, Afonso Domingues, Afonso Domingues! Vai-se-te após a vista o siso. Aborrecida cousa é a velhice. Não vos parece, Frei Joane?

Isto dizia o prior, voltando-se para o outro frade, que supunha estaria atrás dele; mas Frei Joane tinha desaparecido dali manso e manso. Alongando os olhos ao redor de si, Frei Lourenço viu-o em pé sobre uma pedra a alguma distância.

O prior ia a perguntar-lhe o que fazia ali, quando o reverendo procurador saltou a correr, bradando:

― Ganhastes, padre-prior; ganhastes!... Eis el-rei que chega.

E, com efeito, Frei Lourenço, volvendo os olhos para o cimo de um outeiro, viu uma lustrosa companhia de cavaleiros, que, com grande açodamento, descia para o vale do mosteiro.

FIM

 


NOTAS:

[1] Perdi o azeite e o trabalho: expressão proverbial.
[2] D. Leonor Telles, mulher d'el-rei D. Fernando.
[3] Arquitectos sarracenos espalharam-se pela Grécia, Sicília, e outros paises, durante certo tempo: um avultado número de artífices cristãos, principalmente gregos, juntaram-se a eles, e formaram todos uma corporação, que tinha as suas leis e estatutos secretos, e cujos membros se reconheciam por sinais. Esta foi a origem da Maçonaria. [in Conversation's Lexicon].

 

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A Abóbada é uma das Lendas e Narrativas de Alexandre Herculano. Localiza-se no ano de 1401, tendo por assunto a construção do Mosteiro da Batalha, mais concretamente, a construção da abóbada da casa do capítulo do Convento, pelo arquitecto Afonso Domingues, que a delineou, e que, apesar de cego, a concluiu, depois das obras terem sido entregues ao arquitecto Huguet e de este não ter conseguido o seu intento.


A lenda está dividida em cinco capítulos:

I - O Cego,
II - Mestre Huguet,
III - O Auto,
IV - Um Rei Cavaleiro,
V - O Voto fatal

Segundo esta lenda, Afonso Domingues quis morrer na célebre sala, em cumprimento de um voto fatal, embora não sem antes concluir com a célebre frase: “A Abóbada não caiu, a abóbada não cairá!”

Alexandre Herculano que, além de insigne escritor, foi também um notável historiador, conhecia um relato mais antigo que o inspirou. Na sua História de S. Domingos, de 1623, Frei Luís de Sousa regista uma história que os frades da Batalha então contavam: a abóbada da casa do capítulo fora levantada por três vezes; das primeiras duas vezes, caiu com grande perda de vidas, ao serem retirados os cimbres; da terceira, o rei mandou chamar, de várias prisões do reino, criminosos sentenciados a penas pesadas, com o compromisso de os libertar, caso a abóbada não os consumisse.

Herculano acrescentou um ponto a este conto, distinguindo o arquitecto português do estrangeiro, num momento de afirmação nacionalista da cultura portuguesa. Na verdade, sabe-se hoje que a abóbada da Casa Capitular não é da autoria de Afonso Domingues, mas sim de Huguet, tendo podido ser, eventualmente, reconstruída por Martim Vasques pois acredita-se que a lenda tenha um fundo de verdade.
in Mosteiro da Batalha


 

 

O Cego
1.º capítulo de:

A ABÓBADA
Alexandre Herculano
[publicada pela 1.ª vez em 'O Panorama' em 1839]
in Lendas e Narrativas (Tomo I), 1851


 

Δ

[18.Dez.2011]
publicado por MJA