Ξ  

 

 Sobre a Deficiência Visual

Sofrimento Emocional na Deficiência Visual

Ana Sofia Teixeira

excerto
 

Blind Woman Mourning - fotografia de Sebastião Salgado, Mali 1985
Mulher cega - fotografia de Sebastião Salgado, Mali, 1985

 

RESUMO | Em Portugal são escassas as investigações que estudam o sofrimento emocional na população adulta com deficiência visual (DV). A presente investigação teve como principal objetivo estudar a associação da DV com o sofrimento emocional, avaliado através dos sintomas de ansiedade, de depressão e de dor psicológica. A amostra foi composta por 208 indivíduos com DV com idades compreendidas entre os 18 e os 73 anos (m=39.72, dp=13.66). Os participantes foram convidados através de Estabelecimentos de Ensino Superior, Centros de Reabilitação e Associações intervenientes na DV. Os instrumentos utilizados foram os seguintes: um Questionário Sociodemográfico; a Escala da Dor Psicológica (EDP); a Escala de Ansiedade e de Depressão Hospitalar (EADH); e o Questionário de Saúde do Paciente (PHQ-9). Os resultados indicaram que os indivíduos com DV adquirida apresentaram mais dor psicológica do que os indivíduos com DV congénita. Contudo, o mesmo não se verificou ao nível da ansiedade e da depressão. Constatou-se também que não existem diferenças significativas em algumas variáveis sociodemográficas (sexo, idade e nível de escolaridade) ao nível do sofrimento emocional. No que concerne ao estado civil, verificou-se diferenças estatísticas entre eles, sendo que foram os indivíduos solteiros os que registaram maior interferência dos sintomas de depressão na vida. Não se verificaram diferenças significativas em algumas variáveis clínicas e sociodemográficas (natureza da DV, idade, sexo, nível de escolaridade e estado civil) ao nível da perceção da interferência da DV na vida. Os resultados deste estudo pioneiro indicaram que os indivíduos que percecionaram que a DV interferia mais nas suas vidas apresentaram mais dor psicológica e sintomas de depressão. São referidas algumas implicações deste estudo nomeadamente ao nível da reabilitação, do apoio psicológico e da formação dos profissionais de saúde, educadores e docentes. Intervir precocemente no sofrimento emocional permitirá contribuir para a saúde mental e qualidade de vida das pessoas com DV.

 

A deficiência visual (DV) é uma redução severa na visão que não pode ser corrigida com óculos, lentes de contacto ou cirurgia (Dibajnia, Moghadasin, Madahi, & Keikhayfarzaneh, 2013). Falvo (2005) acrescenta ainda que qualquer desvio da visão normal é considerada como DV.

A DV é altamente prevalente em todo o mundo (Walker, Anstey, & Lord, 2006). O National Eye Institute menciona que a DV afeta 3.3 milhões de norte-americanos, sendo que em 2020 afetará cerca de 5.5 milhões (Dibajnia et al., 2013).

Segundo o censos de 2011 (Instituto Nacional de Estatística, 2011), a DV afeta 889578 pessoas da população adulta portuguesa, sendo que 64.5% são do sexo feminino. Esta população reside maioritariamente nas zonas centro (50%) e norte (33%), sendo que os arquipélagos da Madeira (2%) e dos Açores (2%) são as áreas que apresentam menor número de pessoas com DV (ver figura abaixo).

 

 Figura 1. Dados da distribuição da população com DV por região geográfica segundo o censos de 2011.
Figura 1. Dados da distribuição da população com DV por região geográfica segundo o censos de 2011.

 

Quanto à sua natureza, a DV pode ser congénita ou adquirida. Segundo o dicionário de Ciências da Saúde (Pinheiro, 1997), entende-se por doença congénita toda aquela que é adquirida antes do nascimento ou durante o primeiro mês de vida, independentemente da sua causa. Duranteau (1981) acrescenta ainda, que uma afeção congénita pode ser hereditária, proveniente dos pais, ou adquirida durante os primeiros meses da vida no interior do útero. Já a doença adquirida é aquela que é fomentada no meio em que se vive. Esta pode ser causada por um traumatismo (não transmissível) ou por infeções bacterianas ou virais. [ + info aqui ].

O diagnóstico de uma doença crónica envolve um impacto imediato frequentemente stressante, não sendo a DV um caso de exceção (Bambara et al., 2009). Silveira e Sequeira (2002) referem que a forma como o indivíduo sente a sua própria deficiência está relacionada com a natureza da DV. Rodrigues (2004) defende que a perda da visão é vista como a perda sensorial mais valorizada e temida, pois esta implica perder o controlo sobre o meio físico envolvente, social e económico, provocando incerteza e receio perante o futuro. Conforme defende Dibajnia e colaboradores (2013), esta condição propicia a existência de elevados níveis de sofrimento emocional. A World Health Organization (WHO, 2012) acrescenta ainda que a DV provoca limitações na capacidade das pessoas na execução das atividades da vida diária (AVD), com consequências negativas que resultam na maioria das vezes em sofrimento emocional. Note-se que no presente estudo se entende por sofrimento emocional a presença de sintomas de ansiedade e de depressão, bem como, de dor psicológica. Estudos mostram que existe uma forte relação entre a DV e o sofrimento emocional, sendo este último traduzido por variáveis clínicas (ansiedade, depressão e natureza da doença) (Bernabei et al., 2011; Capella-McDonnall, 2005; Dibajnia et al., 2013; Evans, Fletcher, & Wormald, 2007; Silveira & Sequeira, 2002; Walker et al., 2006), o que já não é tão evidente em relação à dor psicológica. É de notar que durante muito tempo as investigações desenvolvidas no âmbito dos fatores psicológicos se centravam exclusivamente no estudo da depressão e na natureza da doença, o que explica a escassez de estudos sobre a ansiedade e a dor psicológica em pessoas com DV.

No que se refere à influência da depressão na DV, a literatura mostra que existe uma grande associação entre a depressão e a DV (Dibajnia et al., 2013; Walker et al., 2006), sendo esta 2.11 vezes mais prevalente nas pessoas com DV em comparação com a população normovisual, estimando-se que a sua prevalência na população adulta com DV seja de aproximadamente 14% (Evans et al., 2007).

Estudos mostram que a depressão interfere negativamente na vida das pessoas com DV (Bandello, Bordeaux, & Lafuma, 2007; Dibajnia et al., 2013; Walker et al., 2006), sendo mesmo considerada como o preditor mais poderoso de incapacidade funcional (Walker et al., 2006). Tal pode dever-se  a vários fatores: ao aspeto funcional, pois as pessoas com DV têm mais dificuldade em realizar diversas tarefas do dia a dia (ler um livro/jornal, tirar notas, conduzir e andar na rua sozinha) (Crews & Campbell, 2004; Desai, Pratt, Lentzner, & Robinson, 2001; Renaud & Bédard, 2013; WHO, 2012); à diminuição de atividades de lazer, pois os estudos mostram que as pessoas com DV têm mais dificuldade em realizar atividades de lazer (Crews & Campbell, 2004; Dibajnia et al., 2013; Renaud & Bédard, 2013); e ainda ao aspeto das relações sociais, pois as pessoas com têm mais dificuldade em interagir com os outros, bem como, têm uma rede social pouco coesa (Crews & Campbell, 2004; Dibajnia, et al., 2013; Marques, 2011). Tais fatores contribuem para que a pessoa se sinta menos capaz, bem como para ter a mente menos ocupada, o que por sua vez a leva a ter pensamentos automáticos negativos e momentos de descrença (Crews & Campbell, 2004; Desai, Pratt, Lentzner, & Robinson, 2001; Renaud & Bédard, 2013; WHO, 2012). A presença de tais fatores, separadamente ou combinados, interfere negativamente aos seguintes níveis: bem-estar geral, pois as pessoas deprimidas com DV apresentam pior bem-estar geral (Dibajnia et al., 2013); qualidade de vida (QDV), pois a presença de depressão nas pessoas com DV é uma condição que contribui para uma menor QDV (Grilo, 2013; Rodrigues, 2004; e incidência da deficiência, pois os sintomas de depressão na DV são uma condição que provoca agravamento da DV, independentemente de fatores sócio-demográficos ou estado físico (Dibajnia et al., 2013).

Considerando a alta taxa de prevalência de depressão nas pessoas com DV, e ainda os efeitos incapacitantes evidentes aos vários níveis anteriormente apresentados, é essencial realizarem-se intervenções com vista à prevenção e ao tratamento da depressão (Renaud & Bédard, 2013). Deste modo, são necessários mais esforços em ambientes clínicos a fim de se treinarem profissionais de saúde, com o intuito de estes identificarem pessoas deprimidas com DV (Renaud & Bédard, 2013). Tal permitirá a possibilidade de se disponibilizar tratamento especializado a estas pessoas ao nível da depressão (Renaud & Bédard, 2013). Os estudos mostram que a implementação de programas de reabilitação e o apoio psicológico são as formas mais eficientes de se fazer face aos sintomas de depressão na DV, pois através destes a pessoa consegue melhorar as suas habilidades e o seu nível de autonomia (Crews & Campbell, 2004; Silveira & Sequeira, 2002). Estes programas deverão ter como objetivo: o treino no método de resolução de problemas para ajudar a ultrapassar as barreiras no quotidiano; a eliminação de pensamentos automáticos negativos; e ainda o aumento do apoio e suporte social (Williams, Brody, Thomas, Kaplan, & Brown, 1998). O tratamento desta problemática permite um melhor bem-estar a esta população e, consequentemente, maior otimismo para o futuro (Dibajnia et al., 2013).

Vários estudos têm encontrado associação da DV à ansiedade e à depressão (Lotery, Xu, Zlatava, & Loftus, 2007; Silveira & Sequeira, 2002; Su-Ying et al., 2003; Walker et al., 2006), sendo evidente que a presença destes indicadores de sofrimento emocional tem um impacto negativo na vida das pessoas com DV (Silveira & Sequeira, 2002; Walker et al., 2006) e interfere negativamente no bem-estar geral (Foggitt, 2001). Neste seguimento, os estudos mostram que a ansiedade e a depressão são mais prevalentes em pessoas com DV do que em normovisuais, evidenciando-se que 13.5% das pessoas com DV se encontram deprimidas, em comparação com 4.6% da população sem DV, bem como, que 9.3% das pessoas com DV apresentam ansiedade em comparação com 7.4% da população normovisual (Evans et al., 2007). Os estudos comprovam ainda que a ansiedade, a depressão, o stress, e em menor medida, o estado de saúde são influências importantes sobre a gravidade da própria incapacidade relacionada com a DV (Walker et al., 2006). Lotery e colegas (2007) mostram que as pessoas com DV apresentam mais sintomas de ansiedade do que sintomas de depressão. Contudo não existe consenso, pois Bernabei e seus colaboradores (2011) mostram que as pessoas com DV apresentam mais sintomas de depressão do que de ansiedade. É de notar que o diagnóstico precoce de ansiedade e de depressão na DV permite que se realizem intervenções adequadas (Bernabei et al., 2011; Capella-McDonnall, 2005). Neste sentido, Silveira e Sequeira, (2002), referem a importância de avaliar/diagnosticar a saúde mental dos indivíduos com DV, no sentido de identificar os indivíduos com sintomas de depressão e/ou de ansiedade. Só assim se poderá realizar uma intervenção ajustada às necessidades e promover o bem-estar desta população (Bernabei et al., 2011; Capella-McDonnall, 2005; Silveira & Sequeira, 2002).

No que toca à associação da dor psicológica à DV, não se conseguiram encontrar estudos, o que se pode dever ao conceito de dor psicológica ser emergente (Shneidman, 1999, citado por Flamenbaum & Holden, 2007).

Em relação à natureza da DV, a literatura comprova que existe uma relação entre esta variável e o sofrimento emocional (Dibajnia et al., 2013; Hooper, Jutai, Strong & Russell-Minda, 2008; Silveira & Sequeira, 2002; Williams et al., 1998). Os estudos mostram que as pessoas com DV adquirida apresentam maior sofrimento emocional do que as pessoas com DV congénita, sendo este evidente ao nível da ansiedade e da depressão (Hooper et al., 2008; Williams et al., 1998). Tal pode dever-se à perda de visão que a pessoa vivencia, e ainda ao facto de a DV adquirida surgir como um acontecimento emocionalmente devastador (Hooper et al., 2008; Silveira & Sequeira, 2002). Quanto mais cedo esta surge (adquirida) ou agrava (congénita), mais facilidade há em as pessoas terem uma vida autónoma, e em lidarem bem com a DV (Hooper et al., 2008; Silveira & Sequeira, 2002), o que por sua vez permite que experienciem melhor bem-estar e tenham mais QDV (Bernabei et al., 2011; Grilo, 2013; Rodrigues, 2004). Os estudos também mostram que as pessoas com DV adquirida têm tendência a: desenvolver sentimentos de tristeza e de desesperança (Silveira & Sequeira, 2002); passar grande parte do tempo centradas na sua perda e no passado (Silveira & Sequeira, 2002); subestimar as suas capacidades e restringir atividades (Yoshimura, Yamada, Kajiwara, Nishiguchi & Aoyama, 2013); atribuir o sucesso à sorte e o insucesso a fatores estáveis internos (Silveira & Sequeira, 2002); ter mais dificuldade em voltar a ser independentes e em realizar as AVD e atividades de lazer (Dibajnia et al., 2013; Silveira & Sequeira, 2002); ter ausência de resiliência e de adaptabilidade em relação ao surgimento da doença (Folke et al., 2010); e ter reações emocionais negativas mais frequentemente (culpa, raiva, impotência e tristeza) (Yoshimura et al., 2013). Todos estes fatores são responsáveis por índices mais elevados de ansiedade e de depressão (Silveira & Sequeira, 2002).

Existem também estudos que avaliam a associação do sofrimento emocional nesta população com variáveis sociodemográficas, tais como a idade, o sexo, o estado civil e o nível de escolaridade.

Relativamente à idade, a literatura mostra que a DV é uma realidade muito presente na população idosa, estando a depressão muito presente na vida desta população (Renaud & Bédard, 2013). Deste modo, é importante olhar especialmente para o impacto dos sintomas de depressão na população desta faixa etária (Renaud & Bédard, 2013). Um estudo transversal demonstrou que as pessoas com DV com 65 ou mais anos apresentam mais sintomas de depressão (Evans et al., 2007). Resultados semelhantes foram observados num estudo com população Chinesa (Tsai et al., 2003, citado por Bernabei et al., 2011). Dibajnia e colaboradores (2013) afirmam que a taxa de prevalência da depressão na população adulta com DV é de 25% a 45%, sendo que na população normovisual ronda os 20%.

Já no que diz respeito a variável sexo, Evans e colegas (2007), mostraram que não se registaram diferenças significativas entre os grupos em relação aos sintomas de ansiedade e de depressão nas pessoas com DV. Porém, não existe consenso pois Su-Ying e colegas (2003) evidenciaram que a depressão na DV é mais frequente nas mulheres do que nos homens.

No que se refere ao estado civil, apenas se conseguiu encontrar um estudo que mostrou que tanto os homens como as mulheres casadas apresentam menos sintomas de ansiedade e de depressão do que as pessoas viúvas e solteiras (Leach, Butterworth, Olesen, & Mackinnon, 2013). Contudo, é necessário desenvolverem-se mais estudos epidemiológicos para se evidenciar melhor esta relação (Leach et al., 2013).

Relativamente ao nível de escolaridade, os estudos mostram que são as pessoas com menos escolaridade que apresentam mais sintomas de depressão (Capella-McDonnall 2005; Su-Ying et al., 2003).

Em Portugal ainda são escassos os estudos sobre o sofrimento emocional na DV. Neste sentido, surgiu a necessidade de se estudar a associação da DV com o sofrimento emocional na população adulta Portuguesa. Assim, o presente estudo teve como principal objetivo avaliar o sofrimento emocional (sintomas de ansiedade, de depressão e de dor psicológica) na DV, e como objetivos específicos: 1) caraterizar uma amostra de 208 pessoas pertencentes a população adulta Portuguesa com DV; 2) relacionar a natureza da DV e a perceção da interferência da DV com o sofrimento emocional, medido através de variáveis clínicas tais como a ansiedade, a depressão, a dor psicológica; 3) e relacionar variáveis sociodemográficas (idade, sexo, estado civil, nível de escolaridade e área de residência) com o sofrimento emocional em pessoas com DV, medido através dos sintomas de ansiedade, de depressão e de dor psicológica.

[...]

 

Discussão

Com base nos resultados obtidos, conclui-se que a amostra se caraterizou por estar igualmente representada em ambos os subgrupos da variável sexo (masculino vs feminino), o que não se revela muito comum, pois em vários estudos envolvendo indivíduos com DV (Cimarolli & Wang, 2006; Good, LaGrow & Alpass, 2008; LaGrow, Alpass, Stephens & Towers, 2011; Langelaan et al., 2007), o sexo feminino é o mais representado. As idades dos participantes compreenderam-se entre os 18 e os 73 anos, com uma média de 39.72 (DP = 13.66), o que se assemelhou às amostras recolhidas em outros estudos com adultos com DV (Boerner & Cimarolli, 2005; Cimarolli & Wang, 2006). Tendo em conta o estado civil, os resultados mostraram que o estado solteiro foi a condição que reuniu o maior número de participantes, o que vai de encontro ao estudo de Grilo (2013). No que diz respeito ao nível de escolaridade, pôde observar-se que a amostra em estudo foi composta maioritariamente por indivíduos com formação superior, contudo este aspeto não se mostra muito concordante com a literatura consultada (Grilo, 2013). Relativamente à área de residência a que a pessoa pertence, os resultados obtidos vão de encontro aos dados do censos 2011, pois em ambas as situações é evidente que grande parte das pessoas com DV residem na zona centro do país, seguida da zona norte, bem como que os arquipélagos dos Açores e da Madeira são as áreas com menos pessoas com DV. Deste modo, pode-se afirmar que a amostra integrada no estudo parece ser representativa da população adulta Portuguesa.

Quanto ao sofrimento emocional, verificou-se que os participantes apresentaram mais sintomas de ansiedade do que de depressão, o que vai de encontro ao estudo de Lotery e colegas (2007).

No que concerne à natureza da DV, os resultados encontrados mostram que as pessoas com DV adquirida apresentaram mais dor psicológica do que as pessoas com DV congénita, pois as primeiras pontuaram com maior significâncea na EDP, tendo estes resultados ido de encontro ao esperado. Contudo, na literatura consultada, não se encontraram estudos centrados na avaliação da dor psicológica em pessoas com DV, o que se pode dever à emergência do conceito de dor psicológica (Shneidman, 1999, citado por Flamenbaum & Holden, 2007). Este aspeto impossibilitou uma maior discussão de tais resultados. Ainda assim, aprecia-se que o facto de as pessoas com DV adquirida terem mais dor psicológica se pode dever às seguintes razões: enfrentarem a doença como um acontecimento emocionalmente devastador, traumático e stressante (Bambara et al., 2009; Hooper et al., 2008; Silveira & Sequeira, 2002); criarem sentimentos de tristeza e de desespero ao sentirem que não voltam a ver (Silveira & Sequeira, 2002); passarem por um processo de luto, no qual experienciam sentimentos de raiva, de desespero, de negação e de tristeza (Silveira & Sequeira, 2002); ficarem centradas na sua perda durante grande parte do tempo (Hooper et al., 2008); tenderem a subestimar as suas capacidades, o que resulta muitas vezes na restrição de atividades (Yoshimura et al., 2013); terem ausência de resiliência e de adaptabilidade em relação ao surgimento da doença (Folke et al., 2010); atribuirem o sucesso à sorte e o insucesso a fatores estáveis internos (Silveira & Sequeira, 2002); e terem mais dificuldade em voltar a ser independentes e em realizar as AVD e atividades de lazer (Dibajnia et al., 2013; Silveira & Sequeira, 2002). Dado que se entende por dor psicológica uma dor sentida introspetivamente, esta é caraterizada por ser uma dor aguda intensa, associada sempre a um sentimento de culpa, de desamparo, de vergonha, de humilhação, de angústia, de desespero, de solidão, de pânico, e dado que esta é um construto com um elevado valor cognitivo, o que faz com que a mente esteja preocupada com questões sem resposta, esperanças e medos não expressos (Flamenbaum, 2009), sugere-se que as pessoas com DV adquirida fiquem mais vulneráveis a sentir dor psicológica. Existe uma grande associação entre a natureza da DV e o sofrimento emocional (Dibajnia et al., 2013). Diversos autores defendem que as pessoas com DV adquirida têm mais sofrimento emocional do que as pessoas com DV congénita (Dibajnia et al., 2013; Hooper et al., 2008; Silveira & Sequeira, 2002; Wilians et al., 1998). Os estudos mostram também que as pessoas com DV congénita conseguem olhar para a vida de uma forma mais positiva, bem como de terem uma vida mais estável (Bernabei et al., 2011; Grilo, 2013). O facto de as pessoas com DV congénita viverem desde sempre com a doença sugere um sofrimento emocional mais atenuado pois as dificuldades experienciadas devidas à sua DV são acompanhadas por uma adaptação gradual e natural a essa mesma realidade (Williams et al., 1998). Esta realidade explica os valores menos elevados que os participantes com DV congénita apresentaram na EDP. Os resultados encontrados mostram também que não existe nenhuma relação entre os subgrupos da natureza da DV (congénita vs adquirida) e a perceção que a pessoa tem sobre a interferência da DV na sua vida. Tal pode-se dever ao facto de em ambas as condições da doença (congénita vs adquirida) as pessoas terem desenvolvido competências, tais como a resiliência e a adaptabilidade (Good, et al., 2008; Silveira & Sequeira, 2002).

No que toca à perceção da interferência da DV na vida das pessoas, os resultados mostraram que as pessoas que percecionaram que a DV interfere muito na sua vida, apresentaram mais sintomas de depressão do que as que percecionaram que a DV interfere pouco. Tal aspeto vai de encontro com um estudo de Boerner e Cimarolli (2005) que evidenciou que os indivíduos que relataram uma maior interferência da DV na vida mostraram uma maior tendência para terem mais sintomas de depressão. Como hipóteses explicativas que fundamentem os resultados obtidos, consideram-se as seguintes: terem mais dificuldade em realizar diversas tarefas do dia a dia (ler um livro/jornal, tirar notas, conduzir e andar na rua sozinha) (Crews & Campbell, 2004; Desai, Pratt, Lentzner, & Robinson, 2001; Renaud & Bédard, 2013; WHO, 2012); não conseguirem ter uma rede de suporte social coesa (Crews & Campbell, 2004; Dibajnia, et al., 2013; Marques, 2011); terem mais dificuldade em realizar atividades de lazer (Crews & Campbell, 2004; Dibajnia et al., 2013; Renaud & Bédard, 2013); e ainda terem mais dificuldade em interagir com os outros (Crews & Campbell, 2004; Dibajnia et al., 2013; Marques, 2011). O presente estudo também mostrou que as pessoas que consideraram que a DV interfere mais na sua vida apresentaram mais dor psicológica do que a restante amostra. Contudo, e dado que não foram encontrados estudos referentes à dor psicológica na DV, não é possível fundamentar tais resultados. Ainda assim, apresentam-se como hipóteses explicativas as seguintes: vivenciarem com regularidade sentimentos de revolta e de negação por causa de não se conseguirem aceitar como são (falta de autoaceitação) (Hooper et al., 2008; Silveira & Sequeira, 2002); terem muita dificuldade em realizar atividades de lazer (Dibajnia et al., 2013; Silveira & Sequeira, 2002); e não conseguirem ter um bom suporte social e familiar (Grilo, 2013; Yoshimura et al., 2013). De notar que os resultados obtidos foram de encontro aos resultados esperados.

Em relação aos resultados obtidos ao nível das variáveis sociodemográficas, no que se refere à idade, evidenciou-se não existir correlação entre esta variável e o sofrimento emocional. Este resultado não vai de encontro aos resultados previamente esperados. Apontam-se assim como hipóteses explicativas para os resultados obtidos a presença de resiliência e de aceitação transversal da DV em todas as faixas etárias (autoaceitação) encontradas no estudo de Folke e colaboradores (2010), bem como, a existência de uma boa rede social e familiar em todas as faixas etárias encontrada em diferentes estudos (Good, et al., 2008; Silveira & Sequeira, 2002). Os estudos mostram que são as pessoas idosas com DV que mais apresentam sintomas de depressão (Evans et al., 2007; Renaud & Bédard, 2013; Tsai et al., 2003, citado por Bernabei et al., 2011), o que não foi encontrado no presente estudo. Este estudo mostrou também que não existe nenhuma associação entre a idade e a perceção que a pessoa tem da interferência da DV na vida.

Quanto à relação entre os subgrupos da variável sexo (masculino vs feminino) com o sofrimento emocional, os resultados mostraram que não existe nenhuma associação entre ambas as variáveis. Parte da literatura mostra que não existem diferenças nos níveis de sofrimento emocional entre homens e mulheres (Evans et al. 2007). Tal pode-se dever ao facto de em ambos os subgrupos as pessoas terem desenvolvido competências, tais como a resiliência e a adaptabilidade (Folke et al., 2010). Porém, não existe consenso, pois outros autores defendem que as mulheres apresentam níveis mais elevados de sofrimento emocional do que os homens (Su-Ying et al., 2003). Também relativamente à relação entre os subgrupos da variável sexo com a interferência da DV na vida da pessoa por ela percecionada, os resultados mostraram não haver diferença entre homens e mulheres. Tal pode dever-se ao facto de em ambos os subgrupos as pessoas terem desenvolvido competências, tais como a resiliência e a adaptabilidade (Folke et al., 2010). Todavia, os estudos também mostram que é no sexo masculino que a DV causa menos interferência (Grilo, 2013).

Relativamente à relação entre os subgrupos do nível de escolaridade (1º ciclo, 2º ciclo, 3º ciclo, secundário, licenciatura, mestrado e doutoramento) com o sofrimento emocional, não se constatou nenhuma associação entre ambas as variáveis, sendo que os resultados encontrados não foram de encontro com o esperado. Como hipóteses explicativas que fundamentem os resultados encontrados, apontam-se: grande parte dos indivíduos da amostra ter um curso superior, condição esta que possibilita sentirem valorização social pelo grau académico que possuem (Grilo, 2013); grande parte da amostra poder estar a realizar atividades de lazer; e ainda por poder estar a ter um bom suporte social e familiar (Grilo, 2013). A literatura mostra que são as pessoas com menos escolaridade que apresentam mais sintomas de depressão (Capella-McDonnall 2005; Su-Ying et al., 2003). Os resultados encontrados mostraram que também não existe nenhuma relação entre os subgrupos relativamente ao nível de escolaridade (1º ciclo, 2ºciclo, 3ºciclo, secundário, licenciatura, mestrado e doutoramento) com a interferência da DV na vida das pessoas por elas percecionada. Grilo (2013) mostra que as pessoas com maior escolaridade percecionam uma menor interferência da DV na sua vida.

No que toca ao estado civil, o presente estudo mostrou que os indivíduos solteiros pontuaram de forma mais significativa no item do PHQ-9B, o que mostrou que estes apresentam uma maior interferência dos sintomas de depressão na vida do que a restante amostra. Tal vai de encontro com o defendido por Leach e colegas (2013) que mostraram que as pessoas viúvas e solteiras apresentam mais sintomas de depressão do que as pessoas casadas. Como hipótese explicativa para os resultados obtidos, apresentam-se o facto de estas pessoas não terem um(a) parceiro(a) com o/a qual possam ter uma relação de cumplicidade (Marques, 2011). É ainda de referir que os resultados obtidos foram de encontro ao esperado.

Através da discussão dos resultados acima apresentados, conseguiu-se verificar uma associação da DV com os sintomas de ansiedade na população adulta Portuguesa, tendo-se mostrado também que: foram os indivíduos com DV adquirida que apresentaram mais dor psicológica; que foram as pessoas que percecionam que a DV interfere muito na sua vida que apresentaram mais dor psicológica e que foram os solteiros que apresentaram uma maior interferência dos sintomas de depressão na vida. Estes resultados apontam para a necessidade de se realizarem campanhas de prevenção ao nível do sofrimento emocional, bem como, para a necessidade de se reforçarem medidas de reabilitação e de apoio psicológico junto das pessoas com DV, dirigidos de modo especial aos grupos de pessoas com DV adquirida, às que percepcionam que a DV interfere muito na sua vida e às solteiras. No que toca à reabilitação, esta deve promover a independência e a autonomia da pessoa com DV (deslocar-se sozinha na rua, aprender a ir sozinha às compras, e efetuar sozinha operações bancárias), e ainda a realização de AVD (tarefas domésticas e higiene pessoal), porque verificou-se que a maior interferência da DV na vida está associada a mais sintomas depressivos. Os estudos mostram que a implementação de programas de reabilitação e o apoio psicológico são as formas mais eficientes de se fazer face ao sofrimento emocional, pois através destes a pessoa consegue melhorar as suas habilidades e o seu nível de autonomia (Crews & Campbell, 2004; Silveira & Sequeira, 2002), sendo assim possível que tenham um melhor bem-estar e, consequentemente, maior otimismo no futuro (Dibajnia et al., 2013). Relativamente ao apoio psicológico, este deve ser centrado nos seguintes aspetos: aceitação da doença (autoaceitação); eliminação de sintomas de depressão e de ansiedade, bem como de dor psicológica (reestruturação cognitiva, treino autoinstrucional, respiração diafragmática e relaxamento muscular progressivo) (Jacobson, 1938, citado por Ito, Roso, Tiwari, Kendall, & Asbahr, 2008; Knapp, 2004); melhoria da autonomia com o método de resolução de problemas (D’Zurilla & Nezu, 2010); e aumento da rede social de apoio e da participação em atividades culturais e de lazer, através do treino de competências sociais e de assertividade (Rowa & Antony, 2005).

Como limitações do estudo, apresentam-se as seguintes: a pouca literatura disponível sobre a associação da DV com o sofrimento emocional, tendo-se assim recorrido à dedução de hipóteses explicativas e a estudos relacionados com o tema em estudo; o método de aplicação do questionário (on-line), o que não permitiu o controlo do ambiente onde o questionário foi preenchido; o não se ter distribuido os participantes por tipos de patologias oftalmológicas e por condição de deficiência (cegueira ou baixa visão), de forma a se diferenciarem os sintomas de sofrimento emocional nas diferentes condições, o que se prendeu com o aspeto de inicialmente não se estar à espera de um número tão elevado de participantes; o não se ter avaliado o tipo de ocupação da pessoa (empregada, desempregada, reformada); e a inexistência de estudos centrados na DV com os instrumentos utilizados, o que dificultou a comparação dos resultados obtidos com a literatura existente.

Em futuras investigações será pertinente continuar-se a estudar a associação da DV com diversas variáveis, tais como a ansiedade, a dor psicológica, o nível de escolaridade, o estado civil, a ocupação profissional e a QDV, pois os estudos desenvolvidos neste sentido são escassos. Do mesmo modo, será relevante realizarem-se estudos onde se avalie a associação do sofrimento emocional com a perceção da interferência da DV na vida das pessoas. Sugere-se também que se estude a associação do sofrimento emocional com as diversas patologias oftalmológicas de forma diferenciada através de estudos comparativos, sendo assim possível averiguar se o sofrimento emocional é mais prevalente em alguma patologia oftalmológica específica, o que por sua vez poderá possibilitar a criação de um plano de intervenção psicológica direcionado em especial para tal população. Do mesmo modo, propõe-se que se realizem estudos comparativos entre pessoas com DV reabilitadas e pessoas com DV não reabilitadas, através dos quais se compreenderá quais os benefícios da reabilitação ao nível do sofrimento emocional e da interferência da DV na vida que a pessoa perceciona. Será de igual modo pertinente realizarem-se estudos comparativos entre pessoas com baixa visão e pessoas cegas, a fim de se perceber se existem diferenças entre ambos os grupos ao nível do sofrimento emocional e da interferência da DV na vida que a pessoa perceciona.

Tendo em conta a literatura consultada, faz-se notar que este estudo se poderá revelar um grande contributo para a investigação, para o contexto clínico e para o contexto social. Do conhecimento de que dispomos, este estudo é inovador na associação da DV com a dor psicológica, bem como fortalece o estudo centrado na associação da DV com o sofrimento emocional medido através dos sintomas de ansiedade e de depressão. No contexto clínico, este estudo apresenta diversos contributos: urgência de se reforçarem as intervenções centradas na prevenção do sofrimento emocional nas pessoas com DV; necessidade de se disponibilizarem mais programas de reabilitação e mais medidas de apoio psicológico, dirigidas de modo especial às pessoas com DV adquirida e às pessoas que percecionam uma maior interferência da DV na vida e às pessoas solteiras, sendo assim possível que estas consigam melhorar as suas habilidades e o seu nível de autonomia, pois tal como os resultados deste estudo mostram, é nestes 3 grupos que coexiste mais sofrimento emocional; urgência de os profissionais de saúde, educadores e docentes terem formação especializada, o que por sua vez permitirá a possibilidade de se disponibilizar tratamento especializado a estas pessoas ao nível do sofrimento emocional; importância de se desenvolverem estudos que avaliem a associação da interferência da DV na vida da pessoa por ela percecionada com variáveis clínicas (ansiedade, depressão e dor psicológica) e com variáveis sociodemográficas (idade, sexo, nível de escolaridade e estado civil); e necessidade de se encaminhar prioritariamente para tratamento as pessoas que percecionam que a DV interfere negativamente na sua vida, pois estas apresentam um sofrimento emocional mais elevado. Ao nível social, aprecia-se que é necessário aumentarem-se os apoios do estado na aquisição de materiais de auxílio (lupas, telescópios, máquinas de calcular e bengalas), na aquisição de equipamentos eletrónicos (equipamentos informáticos, softwares de ampliação, de sintetização de voz e de conversão de texto), bem como, é necessário uma maior realização de atividades culturais e de lazer de caráter inclusivo (cinema e teatro com áudio-descrição), com vista à diminuição da interferência da DV na vida das pessoas e, consequentemente, à diminuição do sofrimento emocional. Deste modo, preconiza-se que se deve intervir precocemente no sofrimento emocional, pois tal como anteriormente apresentado, o diagnóstico precoce de ansiedade e de depressão na DV permite que se desenvolvam intervenções adequadas (Bernabei et al., 2011; Capella-McDonnall, 2005), devendo-se assim avaliar e diagnosticar a saúde mental dos indivíduos com DV, no sentido de se identificar as pessoas com sintomas de ansiedade e/ou de depressão (Silveira & Sequeira, 2002). Propõe-se que se esteja mais atento à presença de sofrimento emocional na DV, nomeadamente, através da prevenção, da disponibilização gratuita de reabilitação e de apoio psicológico, e ainda através de uma melhor prestação de serviços de saúde. Só assim se poderá realizar uma intervenção ajustada às necessidades da pessoa com DV (Bernabei et al., 2011; Capella-McDonnall, 2005; Silveira & Sequeira, 2002). Deste modo, será possível que a pessoa consiga ser mais resiliente e autónoma, o que por sua vez melhorará o bem-estar geral (Dibajnia et al., 2013), a QDV (Grilo, 2013; Rodrigues, 2004) e a diminuição da insidência da DV (Dibajnia et al., 2013).

 

fotografia de Ana Sofia Teixeira


ϟ

excerto de

SOFRIMENTO EMOCIONAL NA DEFICIÊNCIA VISUAL
autora: Ana Sofia Gonçalves Teixeira
Dissertação apresentada à Universidade de Aveiro para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Psicologia, especialização em Psicologia Clínica e da Saúde
Universidade de Aveiro (2014)

texto integral da dissertação: http://hdl.handle.net/10773/13488

 

 

Δ

23.Set.2016
publicado por MJA