Raquel Silva & Luciana Bareicha

1 - Introdução
O mundo
é belo. Magnífico é poder vê-lo: contemplar tal beleza.
Logo, a visão é indubitavelmente, muito importante para a
qualidade de vida. Por meio da visão é possível sanar a
necessidade de compreender o que acontece ao redor, perceber
as formas e o colorido das coisas, observar detalhes e
interagir-se com o outro facilmente.
Dessa maneira
consideramos a necessidade de conhecer a criança ou o
adulto, que não consegue desfrutar da sua visão com total
potencialidade. A visão ocupa um lugar de destaque em
relação ao tato, olfato, paladar e audição, pois, sem ela,
os outros sentidos recebem as informações de percepção com
maior dificuldade. Os sentidos funcionam de maneira
complementar e não isolada. É importante conhecer o
indivíduo sem dificuldade visual e aquele que não consegue
ver de maneira alguma, entretanto não se pode esquecer
aquele que possui baixa visão. Este é, pois, o tema desse
trabalho.
Dizemos que uma pessoa tem baixa visão ou visão
subnormal, quando os recursos tradicionais, como lentes de
contato, óculos comuns, intervenções clínicas e cirúrgicas,
não podem lhe dar uma visão nítida. Necessita-se, portanto,
de recursos especiais e orientações para que ela realize
suas atividades e melhore sua qualidade de vida.
Uma
pessoa manifesta baixa visão precisa de um pedagogo que a
auxilie em seu desenvolvimento cognitivo. É importante que o
educador facilite a aprendizagem do portador de baixa visão,
levando-o a conhecer e aprender a usar recursos pedagógicos
adequados ao estímulo de sua visão funcional. Muitas vezes,
por falta de preparo dos professores, dos familiares e da
sociedade, o portador de baixa visão deixa de usufruir de
seus direitos, o que dificulta sua inclusão social.
Essa
profissional da pedagogia servirá de estimulador para tal
pessoa ao lhe mostrar que é possível vencer os obstáculos. O
pedagogo aplica conhecimento advindo da sociedade,
filosofia, psicologia e técnicas pedagógicas. Ele
proporciona ao indivíduo com baixa visão a alegria de
aprender, o acesso ao conhecimento e ao mundo.
Spungin, em
1977, mostrou que as áreas de atuação dos pedagogos
especializados em deficiências visuais são: Avaliação;
Estratégias educacionais e instrucionais; Aconselhamento e
orientações; Atividades de supervisão; Conhecimentos
tecnológicos; Relação escola-comunidade; Pesquisa (apud
CASTRO, 1994, p. 155).
A intervenção pedagógica é de suma
importância para a pessoa com déficit de visão. Um professor
bem informado poderá auxiliar o crescimento intelectual e
profissional destas pessoas, por meio de auxílios ópticos,
não ópticos e/ou eletrônicos, todos indicados por
oftalmologistas em conformidade com a patologia que provocou
a baixa visão. Todos esses recursos necessitam de
treinamento para serem utilizados com eficiência a fim de
obter o resultado esperado, além de orientações sobre a vida
diária.
O professor muitas vezes poderá ser o primeiro a
observar problemas visuais em seu aluno, pois o convívio
diário na sala de aula o faz constatar dificuldades no
aprendizado e na socialização. Ao se perceber isso,
encaminha-se o aluno ao especialista, no caso, um
oftalmologista, a fim de que se faça um diagnóstico e
tratamento precisos e, posteriormente, receba a orientação
do pedagogo especializado nas condutas ao processo de
socialização e aprendizagem.
2 - Um pouco de teoria
Em nossa sociedade
é possível perceber nos comportamentos de grupos que
estabelecem o conceito de pessoas produtivas apenas àquelas
que estão dentro dos padrões físicos e psicológicos de
“normalidade” (REGEN; ARDORE, HOFFMANN, 1993).
Por esse
motivo, nosso trabalho visa mostrar que o acesso à escola, à
educação, à cultura e ao mundo deve ser disponibilizado
também às pessoas denominadas como deficientes, afinal elas
podem vencer o preconceito daqueles, os quais as julgam
incapazes de se realizarem como seres ativos e produtivos.
Segundo Regen; Ardore; Hoffmann (1993, p. 63): Essa fuga da
realidade, aliada ao desconhecimento em relação às
deficiências, faz com que o preconceito seja uma atitude
predominante nas mais variadas camadas sociais. Nem sempre
este preconceito é claro e explícito na maioria das vezes
ele é encoberto por atitudes super protetoras.
É possível
perceber que a exclusão social somada à desinformação de
como ensinar à pessoa de necessidades especiais a se
desenvolver melhor implicam prejuízos à sua qualidade de
vida. No entanto, a Constituição Federal de 1988, em seu
capítulo I, Art. 5º define que:
Todos são iguais perante a
lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos
brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a
inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade,
à segurança e à propriedade (BRASIL, 1988, p. 15).
Embora
existam vários tipos de deficiências, isso, felizmente, não
impede aos pedagogos auxiliem no desenvolvimento do portador
de baixa visão ou visão subnormal. Esse é o aspecto que se
pretende abordar neste projeto. Para compreendermos melhor
esse universo Sá; Campos; Silva (2007) consideram:
A baixa
de visão é complexa devido à variedade e à intensidade de
comprometimentos das funções visuais. Essas funções englobam
desde a simples percepção de luz até a redução da acuidade
visual e do campo visual que interferem ou limitam a
execução de tarefas e o desempenho. (SÁ; CAMPOS, SILVA,
2007, p. 16)
Entende-se que portadores de baixa de visão
não são portadores de cegueira total, mas que também não tem
uma resposta visual normal dentro das atividades propostas.
Sabe-se, claro, que qualquer limitação da capacidade do
indivíduo na realização de suas atividades diárias interfere
na sua integridade social, cultural e econômica. (SAMPAIO;
HADDAD; FILHO; SIALYS, 2010).
Em busca de qualidade de
vida, esses sujeitos com baixa visão têm como aliado o
pedagogo, profissional da educação que tem influenciado na
construção da compreensão do uso de instrumentos indicados
para cada especificação conforme considera Castro (1994) a
seguir:
O pedagogo, portanto, é um profissional habilitado
a realizar tarefas de avaliação, treinamento e orientação.
Desenvolve programas individuais, planejados com base nas
condições patológicas, objetivando proporcionar aos
deficientes visuais condições de pleno desenvolvimento
pessoal e social, para alcançar níveis de atuação consciente
e produtiva (CASTRO, 1994, p.155).
De acordo com Min,
Sampaio, Haddad (2001) referem que a genética tem grande
influência no desenvolvimento de problemas com a visão e tem
como consequência dificuldades que o uso do óculos corretivo
não corrigem adequadamente.
Sabe-se que existem vários
motivos os quais causaram à pessoa a baixa visão, o que
reforça ainda mais o papel do pedagogo como agente
facilitador para a aprendizagem ou reaprendizagem do
indivíduo com tal deficiência no seu meio familiar, escolar
e social.
Segundo Paulo Freire (1999, p. 110), “ensinar
exige compreender que a educação é uma forma de intervenção
no mundo”. Esta afirmação conclui-se devido ao grande
preparo no atendimento humanizado que o pedagogo recebe e
possui, conseguindo intervir e estimular a o portador de
baixa visão a superar os obstáculos para que sua educação em
todos os aspectos não seja frustrada.
Sampaio; Haddad;
Filho; Sialys (2010, p. 359) referem que: A educação do
aluno portador de deficiência será mais eficiente quanto
melhor for a integração e cooperação entre o aluno,
professor de classe comum e professor especializado.
Acredita-se, portanto, que a capacidade e a sensibilidade do
pedagogo no exercício de suas tarefas identifica-o como um
profissional capaz de levar seu aluno com necessidades
especiais a relacionar-se com o mundo, ao proporcionar-lhe o
desenvolvimento em diversas áreas. O pedagogo é o elo de
inclusão entre o aluno e a vida em sociedade. (CASTRO,
1994).
Entende-se que para um bom atendimento as pessoas
com baixa visão é necessário que se realize uma triagem,
para saber suas necessidades. Alves; José, (1996, p. 18),
referem que: A triagem pode ser definida como uma forma de
identificação presumida de defeito ou de doença desconhecida
pela aplicação de testes ou realização de exames que possam
ser aplicados rapidamente.
Compreende-se que a triagem é o
meio que o professor possa realizar em uma sala de aula com
a finalidade de orientar e/ou encaminhar os pais a
procurarem um oftalmologista para um diagnóstico preciso. O
sucesso da triagem visual é fundamental a fim de haver
entrosamento entre os pais, os professores e os
profissionais da saúde.
Observa-se que o papel do
professor em sala de aula é imprescindível. Muitas vezes,
ele consegue detectar as dificuldades de seu aluno em ler no
quadro ao cerrar as pálpebras na tentativa de ler, ao
aproximar o texto de leitura ou afastá-lo, além de poder
registrar sintomas como dores de cabeça constantes,
tonturas, sonolência de seu aluno após a leitura, torcicolo
para leitura (buscando um ângulo melhor para ler). Esses
registros são sinais de alerta para se constatar irritação
dos olhos (olhos vermelhos e lacrimejantes), dor nos olhos,
olhos opacos, com manchas, feridas e o estrabismo (visão
cruzada, estrábica) e nistágmo (tremulação involuntária dos
olhos).
Entende-se que apenas o portador de baixa visão
por conjuntivites bacterianas e virais tenha risco de
contágio, por isso nestas duas situações seja difícil a
possibilidade se socializar, as demais causas não há risco
podendo usufruir de todos os ambientes (JOSÉ; SAMPAIO;
OLIVEIRA, 2000).
Os professores desempenham um importante
papel no processo de integração da criança com baixa visão,
inicialmente preparando a classe para recebê-la e,
posteriormente, ajudando-a a se familiarizar com o meio
físico e com os colegas e com estímulos visuais ativados das
funções visuais. (SÁ; CAMPOS; SILVA 2007).
Entende-se que
o sucesso para a realização de uma estimulação visual é
necessário que o pedagogo seja orientado quando aos recursos
ópticos e não ópticos por um oftalmologista (JOSÉ; SAMPAIO;
OLIVEIRA, 2000).
Existem diversos tipos de recursos que
pode ser usado pelo paciente de visão que contribuem para
uma melhora de sua qualidade de vida, mas é necessário
conhecê-los e saber usá-los. Sá; Campos; Silva (2007, p.
19), considera que:
-
Recursos ópticos para longe: Telescópio: usado para leitura no quadro
negro, restringem muito o campo visual; telessistemas, telelupas e lunetas.
-
Recursos ópticos para perto: óculos especiais com lentes de aumento que
servem para melhorar a visão de perto. (óculos bifocais, lentes
esferoprismáticas, lentes monofocais esféricas, sistemas telemicroscópicos.
Compreende-se que a necessidade do uso destes recursos pelo portador de
baixa visão em uma sala de aula precisará da compreensão dos professores e
dos alunos para que seja utilizado com tranquilidade.
Sá; Campos; Silva (2007, p. 23), orienta que na sala de aula devem ser
disponibilizados na medida do possível:
-
Iluminação adequada;
-
Apoio adequado para leitura e escrita;
-
Cadernos com pautas ampliadas;
-
Lápis 6B ou 3B;
-
Canetas hidrográficas que permitem maior contraste;
-
Livros didáticos com tipos ampliados.
Informa como recursos não ópticos:
-
Tipos ampliados (ampliação de fontes, de sinais e símbolos
gráficos em livros, apostilas, textos avulso, jogos, agendas, entre
outros).
-
Acetato amarelo: diminui a incidência de claridade sobre o
papel.
-
Plano inclinado: carteira adaptada, com a mesa inclinada para
que o aluno possa realizar as atividades com conforto visual e
estabilidade da coluna vertebral.
-
Tiposcópios (guia de leitura), gravadores.
-
Softwares com magnificadores de tela e Programas com síntese de
voz.
-
Chapéus e bonés: ajudam a diminuir o reflexo da luz em sala de
aula ou em ambientes externos.
Entende-se que a utilização destes recursos poderá ser feita pelo
professor do ensino regular com o auxílio e a orientação do
professor especialista em deficiência visual, para uso dentro e fora
de sala de aula, conforme a necessidade.
Felippe; Felippe (1997, p 25), ressaltam que “... o aprendizado é
um processo contínuo que se estende por vivências além dos limites
da sala de aula ou de atendimento.” Castro (1994, p.158-159)
demonstra uma sequência do treinamento visual:
-
Explicar ao paciente as características do auxílio,
denominação, tipo de utilização, distância de trabalho
(distância entre o auxílio e o material), profundidade de foco,
campo de visão e vantagens e desvantagens.
-
Avaliar o desempenho visual conforme a tarefa: Rendimento de
leitura – usar apoio para o material de leitura, iluminação
adequada, ler em voz alta, devendo o pedagogo anotar o tamanho
do impresso. Entende-se que nesta avaliação o pedagogo poderá
verificar a velocidade da leitura, de acordo com o tamanho da
letra podendo mostrar a sua dificuldade e posteriormente a sua
evolução.
-
Treinar com Base na Avaliação inicial e no tipo de tarefa:
Leitura de perto ou de longe, localização da imagem a ser
visualizada (ensinar a encontrar o início da linha e a
movimentar o material de leitura, escrutinização, ensinar a
encontrar determinada palavra num texto, ler colunas). Em
revistas ou jornais, etc. Usando simultaneamente os auxílios não
ópticos como tiposcópio, iluminação, contraste, etc.
-
E a escrita, utilizando-se para treinamento os materiais
especiais como canetas de ponta porosa, papéis com pautas
ampliadas, tiposcópios para escrita e assinatura além de modos a
manter a boa postura do paciente.
-
Orientar o paciente nos seus afazeres do dia-a-dia. Conforme
a tarefa a ser executado, o pedagogo deve proceder ao
treinamento da forma mais pragmática possível. Exemplificando:
uma senhora, nas atividades de bordado e costura, deve ser
treinada com seu material pessoal e receber instruções sobre
materiais adaptados e auxílios não ópticos, como utilização de
contraste.
Ele conclui que o pedagogo por integrar uma equipe
interdisciplinar, coopera com seus membros, no processo
reabilitacional, informando-os sobre a função visual de seus
pacientes e fornecendo dados e instruções fundamentais para o
planejamento de programas individualizados. Felippe; Felippe,
(1997, p. 87) consideram que:
O professor também deve estar
consciente para a maleabilidade na correção ou orientação
dessas condutas. Deve-se levar em consideração a tolerância
aceitável para algumas situações que envolvam aspectos
educacionais, culturais e regionais da pessoa.
Entende-se
que o pedagogo sendo um profissional que ensina ao paciente
portador de baixa visão a se readaptar-se através da
estimulação visual conseguindo, além de uma inclusão social
uma melhora na qualidade de vida, por poder novamente
proporcionar através de suas orientações e técnicas, mostrar
suas potencialidades e superações em seus afazeres em geral,
melhorando a sua autoestima.
3 - Análise de dados
Tendo em vista o objetivo
principal desta pesquisa que é descrever o papel do pedagogo
no processo de reabilitação visual, foram coletados dados
através da pesquisa de cunho qualitativo, e como instrumento
de coleta de dados foi aplicada uma entrevista para dez
pacientes do Centro Brasileiro da Visão, sendo todos pessoas
com baixa visão, com objetivo de coletar as informações
sobre a temática proposta.
Conforme a coleta de dados,
100% dos pacientes consideram importante o papel do pedagogo
no processo de sua reabilitação visual, relatando fatores de
competência, atenção, orientação, aprendizado, conhecimento
e informações sobre sua função visual e na readaptação
visual. O sujeito 3 diz: “ela me ensinou a ler outra vez, eu
reaprendi a leitura, é movimentar a cabeça, encaixar,
procurar o foco, isso ai foi muito importante e orientador
para que eu pudesse retomar minha função de leitura. É
ensinar de novo. É reaprender”.
Pessoas com visão
subnormal apresentam sintomas de dificuldades de visão para
longe e/ou perto sendo importante reconhecê-la. O que vai ao
encontro de Sá, Campos, Silva (2007): A baixa de visão é
complexa devido à variedade e à intensidade de
comprometimentos das funções visuais.
Essa teoria foi
confirmada, através dos resultados de 50% dos sujeitos,
informando que sua visão era pior para longe e perto, antes
do início do treinamento. 30% dos sujeitos da pesquisa que
sua visão pior era para perto e 20% que a visão pior era
somente para longe, como exemplificada pelo sujeito 8 “Sei
que é pra ver coisas pequenas que eu tenho dificuldade e
para longe eu tenho mais dificuldade porque a visão fica
muito cortada, é difícil explicar”.
Notamos que uma das
maiores queixas dos pacientes com baixa visão é a
dificuldade em ler, o que interfere na qualidade de vida,
pois é algo que poderia nos proporciona prazer e
conhecimento. Relatou o sujeito 9 "mas agora não, vejo o
letreiro do ônibus, então facilitou muito minha vida, ganhei
independência. Independência é a verdade.”
O pedagogo em
seu treinamento visa trabalhar no sentido desta melhora da
leitura através de exercícios visuais com o uso de recursos
ópticos e não-ópticos para leitura de revistas ou jornais
(CASTRO, 2007).
De acordo com a coleta de dados 100% dos
pacientes revelam que sentiram melhora no acesso a leitura,
sendo 60% para leitura para perto, como jornal, revistas e
30% em ler para longe e letras grandes e 10% com um
percentual de melhora abrandada, como relata o sujeito 3
“Voltei a ler a revista Exame, antes tava recebendo nem
abria a revista, porque não tinha muita estimulação e nem
conseguia ler”.
Essas funções englobam desde a simples
percepção de luz até a redução da acuidade visual e do campo
visual que interferem ou limitam a execução de tarefas e o
desempenho (SÁ, CAMPOS, SILVA, 2007).
Apesar da baixa de
visão é possível a superação de limitações para que não se
perca o contato com a vida em sociedade e deixar de
participar de seus direitos como cidadãos. Em nossa coleta
de dados confirmamos que 60% dos entrevistados melhoraram
sua dificuldade da visão televisiva e da capacidade de
assinatura e 40% informam que não sentem essa dificuldade. O
sujeito 10 relata “(…) a televisão melhorou bastante também
por conta que eu já sei focar” e sobre a melhora na escrita
o sujeito 1 respondeu “Hoje depois desta reabilitação eu já
consigo escrever até sem aquele papelzinho que eles dão pra
gente. Sai reto, sai legal”.
Segundo Paulo Freire (1999,
p. 110), “ensinar exige compreender que a educação é uma
forma de intervenção no mundo”. Na qualidade de vida outros
fatores que interferem são a afetividade, relação social e
diversão. Relatos de 50% após as estimulações visuais
fizeram novos cursos e 50% continuam tendo as mesmas
atividades, conforme o sujeito 5 “Eu fiz o curso de
computador para analfabetos, eu era analfabeto em
computador”.
Relatos sobre a afetividade conforme o
sujeito 6 “Não tenho duvida, a gente fica mais apta a
conviver com as pessoas. Sobre aspectos da diversão
encontramos relatos do sujeito 3 ”eu estava com muita
dificuldade para dirigir, eu não conseguia ver a parte do
veículo da frente, então eu segurei um pouquinho, depois
voltei a dirigir.
Outro aspecto que interfere na qualidade
de vida é o reconhecimento de fisionomias nos grupos
sociais, 50% relatam que além de tudo visualizam melhor as
fisionomias das pessoas, 40% que não sentiram a mudança e
10% não responderam. Este aspecto relata algo de grande
importância na vivência dos sujeitos quanto o resgate da
memória afetiva em relação às pessoas de seu apresso
conforme sujeito 2: “para ver as pessoas de casa, vejo
melhor” e do sujeito 9 “Mas agora dá prazer quando a gente
sai porque vê melhor, porque as vezes as pessoas falavam
comigo e eu não sabia quem era, era preciso chegar muito
perto, ou então nem muito perto dava pra ver, mas graças a
Deus ta bem melhor.”
Apesar das dificuldades que ainda não
foram sanadas totalmente na visão subnormal, entende-se que
a reabilitação visual reflete grandemente na qualidade de
vida destas pessoas, que após persistência e disciplina do
treinamento oferecido pelo pedagogo, eles colhem resultados,
como relata o sujeito 5 “Melhora a visão, melhora sempre a
qualidade de vida”.
Esta forma de abordagem vai ao
encontro de Sampaio; Haddad; Filho; Sialys (2010, p. 359)
refere que: “A educação do aluno portador de deficiência
será mais eficiente quanto melhor for a integração e
cooperação entre o aluno e o professor.”
Diante dos dados
aqui expostos, ficou evidente a melhora da qualidade de vida
após a reabilitação visual, podendo mostrar a capacidade do
pedagogo em reabilitar uma pessoa com deficiência a viver
melhor e valorizar o que tem de resíduo visual.

Para ler a informação dos produtos, uma cliente de um
supermercado usa uma lupa que está presa ao carrinho.
4 - Considerações finais
O papel do pedagogo se amplia com a complexidade humana e a
diversidade de ações sociais que visam a melhoria da vida da
população, especificamente relacionada a educação
brasileira.
No nosso trabalho de pesquisa constatamos que
o papel do pedagogo é reconhecidamente percebido como
importante para a reabilitação visual ao perceberem que o
profissional da pedagogia desempenha a função educacional
com competência particular que abrange a orientação,
capacidade de despender a atenção necessária ao processo de
reabilitação bem como tem o conhecimento necessário (com a
formação indicada em treinamentos anteriores) que alia a
informação e processo de ensino-aprendizagem.
As
dificuldades na leitura foram apontadas como queixa que
interfere diretamente no dia a dia dos sujeitos pesquisados
como mecanismo que, em revertendo essa dificuldade, poderia
ampliar os horizontes de comunicação social e
consequentemente usufruir de informações que transitam na
nossa sociedade necessárias para o convívio social
atualizado ao que diz respeito ao que acontece no mundo
contemporâneo. Para nosso deleite, o trabalho desenvolvido
pela pedagoga foi considerado com resultados de melhoria na
questão da leitura por 70% dos sujeitos (em diferentes
dimensões, com jornal, revistas, letras grandes) considerado
resultado relevante na nossa perspectiva.
Outras
habilidades foram recuperadas, no sentido da melhoria da
qualidade de vida em função da atividade de reabilitação com
o pedagogo como as dificuldades da capacidade de assinar,
reestruturando o sentido de identidade dos sujeitos ao
retomarem essa capacidade que desempenha a cidadania nos
seres humanos, bem como a possibilidade de melhorar a sua
forma de utilização da visão televisiva, hoje comunicação
essencial na maior parte dos grupos sociais do nosso país.
Ressaltamos que esse trabalho favoreceu a qualidade de vida
dos sujeitos que participaram de maneira ampla e com
repercussões desconhecidas quando a mudança de
comportamentos foram constatados ao se reconhecerem cidadãos
com direitos e deveres que podem experimentar processos de
convívio social antes não considerados “aptos” pelos
próprios sujeitos quando retomaram cursos, o convívio com
grupos de envolvimento afetivo significativos e a capacidade
de dirigir que retrata a “liberdade” de ir e vir com
consequências para a autoestima de qualidade importante e
marcante na vida dessas pessoas.
A memória afetiva está
relacionada a condição de poder ver melhor a fisionomia das
pessoas e dessa maneira poder reconhecer os seus pares de
maneira clara e com menos insegurança, o que poderia ocorre
antes da reabilitação visual. É significativa a importância
de dar ao sujeito a possibilidade de melhorar a sua forma de
se comunicar com as outras pessoas reconhecendo a memória
visual associada a memória dos afetos ligados aos
reconhecidos, antes “desconhecidos”.
Essas repercussões
estão associadas às relações afetivas, a possibilidade de
vínculos de prazer social e permanência nos grupos da
sociedade com laços de aprendizagem e de desenvolvimento em
todos os setores da vida das pessoas com baixa visão.
Conclui-se que o papel do pedagogo nesta área de atuação é
de grande relevância, pois através de sua orientação e
capacidade, pode ajudar na reabilitação de pessoas
portadoras de baixa visão ao auxiliar essas pessoas a
conviver socialmente, apesar das limitações visuais.
Percebe-se que através de seu conhecimento advindo da
sociedade, filosofia, psicologia e técnicas pedagógicas, o
pedagogo pode estimular o indivíduo a valorizar as
qualidades humanas específicas de cada pessoa por intermédio
da aprendizagem e assim continuar a fazer parte do mundo que
vive, vivendo com qualidade de vida.
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Cultura Médica: Guanabara Koogan, 2010.
ϟ
O papel do
pedagogo no processo de reabilitação de pacientes com baixa
visão:
reflexões a respeito da melhoria da qualidade de vida
Raquel Rosendo da Silva & Luciana Câmara Fernandes Bareicha
Δ
22.Set.2015
publicado
por
MJA |
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