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 Sobre a Deficiência Visual

Orientação Profissional dos Cegos e Contribuição da Psicologia para a sua Formação Profissional

António Martinho do Rosário

Professor do Instituto de Orientação Profissional (1964)
 


Trabalhadora cega - foto de Aleksey Myakishev, 1995


Toda a orientação e selecção profissional reside, em última análise, num confronto entre profissiogramas e psicogramas.

Por profissiograma, entendemos o conjunto das aptidões necessárias ao exercício duma dada profissão; ao complexo das aptidões próprias dum indivíduo, chamamos por seu turno psicograma. Assim, tanto os profissiogramas, como os psicogramas, diferem uns dos outros por diferenças de aptidão física, de nível e tipo de inteligência, de aptidões específicas, de interesses profissionais e de personalidade. Na orientação profissional temos pois um ou mais psicogramas tantos quantos os examinandos — em confronto com vários profissiogramas: A profissão (ou grupo de profissões) cuja execução exija, como aptidões principais, precisamente as que fazem parte do psicograma do indivíduo a orientar, será, é claro, a que mais lhe convém.

Na selecção profissional, por outro lado, temos vários psicogramas — tantos, quantos os indivíduos a seleccionar — e um só, e sempre o mesmo, profissiograma.

De todos os concorrentes, o melhor será naturalmente aquele cujo psicograma mais se assemelhe ao profissiograma do trabalho em causa; neste caso, a entidade requerente — muitas vezes uma empresa Industrial - espera de nós, psicotécnicos, uma seriação, estabelecida segundo a ordem decrescente das aptidões exigíveis, nos indivíduos seleccionados, que lhe permitirá escolher os trabalhadores mais aptos para a execução da tarefa em que está interessada. E se é certo que a orientação e a selecção profissionais, tais como hoje as fazemos nos indivíduos visuais, não acerta sempre, deixando uma margem de erro à volta dos 20% e dos 30% (entrando já com os factores supervenientes e imprevisíveis, também é verdade que os 80%, ou mesmo os 70%, de êxitos que estamos a obter já constituem uma compensadora percentagem, sobretudo quando nos lembrarmos de que a nossa matéria de trabalho é o psíquico, e que este não pode ser directamente captável, tendo de ser antes inferido.

Orientação profissional dos cegos? Com certeza, é possível. É claro que, para tal, há certas medidas a tomar: Em primeiro lugar, será necessário reunir os profissiogramas respeitantes às profissões possíveis para os cegos, eliminando os outros; depois teremos de elaborar uma bateria de testes adequados às possibilidades e impossibilidades dos cegos para assim levantarmos os respectivos psicogramas. Neste sentido se tem vindo a ensaiar modificações em testes usados habitualmente com os visuais. Há testes que podem ser lidos pelo psicotécnico ao cliente cego, visto que já foram concebidos assim para as pessoas de visão normal, testes em que a comunicação oral é a usualmente utilizada, quer os examinados sejam ou não cegos.

Nestes casos há, naturalmente, correcções a fazer (por exemplo, se há marcação do tempo) quando se aplica o teste a um cego. É deste tipo um teste de nível mental, o Wechsler-Bellevue para adultos, que foi o escolhido pelos psicólogos dos dois centros de reabilitação de cegos actualmente existentes em Lisboa, e que é em regra aplicado a cada um dos candidatos ao estágio de recuperação, como elemento importante do exame psicotécnico de admissão. Simplesmente, quando aplicados a cegos, elimina-se a parte de «performance», utilizando apenas a escala verbal.

Outros testes podem usar-se com os cegos depois de impressos em Braille. Creio que, entre nós, esta forma não entrou ainda na rotina. Compreendemos no entanto as suas vantagens, para testes cuja concepção traz implícita a necessidade do examinado ler e pensar sobre as questões propostas. É claro que estes testes foram em regra criados, em primeira intenção, para uso dos visualmente normais. Todavia, os testes transcritos em Braille têm também os seus inconvenientes. Em primeiro lugar, não são muitos os cegos adultos capazes de lerem correntemente o Braille; depois, exigem um tempo de prova muito mais longo; por outro lado, dado que os caracteres do Braille são muito maiores que os da escrita normal, pode muito bem acontecer que esta conversão transforme um pequeno impresso num incómodo e considerável volume; por fim, não podemos esquecer que a aplicação de testes em Braille exige, por vezes, que o próprio psicotécnico, seu aplicador e intérprete, saiba também Braille.

Outro processo, também não divulgado entre nós, consiste em fazer gravações, em disco ou fita, com as perguntas do teste em questão. Este método terá sobretudo vantagens em provas de personalidade ou de interesses, quando se suspeite que a entrevista cara a cara do psicólogo com o cego possa, neste último, inibir a sinceridade das respostas.

É claro que os resultados dependem sempre, e muito, de quem aplica e interpreta os testes. É o que H. Wallon exprime da seguinte maneira: «O teste é uma experiência ou um instrumento de experiência: pela fecundidade da experiência podemos avaliar a competência do experimentador. Na aplicação dos testes podem observar-se todos os graus de sagacidade e todos os graus de tolice.» Se isto é verificadamente autêntico para os visuais é, com muitas e válidas razões a mais, verdadeiro quando se trabalha com cegos.

A orientação profissional de que aqui falamos é uma das aplicações possíveis duma ciência e exige, naturalmente, pessoas especializadas para nela trabalharem. Tanto mais que a aplicação de testes a indivíduos cegos pressupõe, além das prevenções e da finura interpretativa geralmente exigidas, capacidade e formação profissional para o estudo dos problemas inerentes à cegueira, como sejam o tipo de comunicabilidade a escolher, marcação de tempos, capacidade para interpretar e integrar os resultados à luz da personalidade básica e da forma reactiva à cegueira do examinado, etc.

Uma das causas de erro que é preciso ter sempre presente para a evitar, especialmente quando se trabalha com cegos, é o chamado efeito de «halo»: Na verdade, é facílimo que qualquer técnico de recuperação, dirigente de asilo, professor, etc., se deixe enternecer pela história e situação psicológica-sócio-económica deste ou daquele cego entregue aos seus cuidados; isto é bom, desejável mesmo. Mas já não será bom se este vicia, por efeito da simpatia particular que sente, a sua apreciação do caso, exagerando-a no sentido positivo e furando assim o critério de interpretação justa e equitativa, não influenciável. E também o psicólogo, talvez sobretudo o psicólogo deve lutar contra o efeito de «halo».

Determinados ensinamentos, dados pela psicologia aplicada, são úteis tanto ao técnico que faz orientação profissional de cegos,  como a todo e qualquer técnico de recuperação: Assim, duma maneira geral, sabemos, baseados em dados experimentais, que os outros sentidos dos cegos não estão mais desenvolvidos que os das pessoas normais de visão. Embora, principalmente em relação ao tacto esteja divulgada uma ideia oposta. Foi Griesbach quem, já em 1899, publicou na Alemanha o primeiro estudo de comparação entre a descriminação sensorial dos cegos e dos visuais.

Mais tarde, novos trabalhos de Sheashore, de Hayes e Jastrow vieram confirmar e ampliar estas noções. Tanto na localização dos sons, como na descriminação da sua intensidade, não há realmente diferenças significativas entre cegos e visuais.

Como também os cegos não têm vantagem sobre os visuais quanto à capacidade de reconhecer o conteúdo de caixas, servindo-se do tacto e de estímulos auditivos. Quanto à capacidade para discriminar pesos diferentes, Sheashore e Hayes provaram que o cego é de facto inferior ao visual. Na descriminação táctil do espaço, se alguma superioridade se revelou nos cegos, ela deve-se com certeza aos resultados da prática. Também o gosto e o olfacto não são nativamente mais diferenciados no cego.

É pois a partir desta base que psicólogo orientador tem de seguir, tal como os técnicos de recuperação, Apesar de ser muito curta ainda a minha prática de psicólogo na Fundação Sain, tenho constatado que raro é o cego, vindo das várias organizações de tipo asilo, que não tenha sido guiado no sentido de aprender a tocar pelo menos um instrumento de música. Porquê? Será que estas organizações partem do princípio, aliás geralmente difundido entre o nosso povo, de que o cego, pelo facto de o ser, tem mais «facilidade» para a música que o não cego? Se assim é, partem dum princípio errado. Na verdade não há qualquer diferenciação musical do cego relativamente ao indivíduo visual; entre eles, observa-se toda a gama de casos, desde a negação mais completa até à mais segura afirmação; e observa-se na mesma proporção em que se constata nos indivíduos visuais. O mais que poderá haver, e só nos cegos antigos, é uma maior aplicação sensorial do ouvido, pela força do hábito e da necessidade, que só muito grosseiramente terá que ver com a interpretação musical. Não sendo então a partir desta premissa, que é errada, a que atribuir esta preocupação, quase rotina, de encaminhar os cegos para as aprendizagens musicais? Será para lhes facilitar a aviltante actividade de mendigos a que desgraçadamente tantos cegos ainda se dedicam entre nós, encobrindo-a com a carapaça tragicamente clownesca da pobre música que tocam nas ruas? Mas esta segunda hipótese é ainda pior, mais errada ainda, porque força o cego no sentido de «comercializar» a sua cegueira, o que constitui a pior, a mais inferiorizante de quantas reacções são possíveis no homem, ante a mutilação brutal da cegueira. A actividade de intérprete musical, para qualquer um, e também para o cego, só é aceitável, à luz da sua real e vitoriosa potencialidade de recuperação profissional, quando esse cego for, ou puder vir a ser, um caso de virtuosismo autêntico. Doutro modo será rebaixá-lo, forçá-lo a ficar aquém das suas, reais possibilidades, impedi-lo na sua ascensão, difícil mas viável (até estatisticamente, mesmo já entre nós!) para a situação do homem válido socialmente, livre e autodeterminado, responsável e determinante da situação económica e moral da família de que é, e pode ser de facto!, o chefe. É pelo menos neste sentido que trabalhamos em recuperação.

Aliás, sabe-se que o cego pode realmente executar muitos trabalhos profissionais, com perfeição e rendimento, em perfeita concorrência com os visuais: trabalhos de artesanato, na indústria (montagem, empacotamento, em radiologia, em laboratórios, etc.), como telefonistas, como estenodactilógrafos, até como vendedores ao público, etc. Entre as carreiras universitárias, as mais viáveis são a de direito e o professorado.

O psicotécnico que faz orientação profissional de cegos, como aliás todo e qualquer técnico desta recuperação, tem de previamente aprender certas normas, psicologicamente estudadas e seleccionadas, a usar com os seus clientes invisuais. Assim, quando caminha e conversa com um cego, o técnico nunca deve:
 

  • Agarrar o braço do cego, para o guiar; ou empurrá-lo à sua frente. Deve antes oferecer-lhe o braço, para que o invisual apoie a mão sobre ele; deste modo, o cego seguirá o guia facilmente.
  • Falar num tom mais alto do que aquele que empregaria se o interlocutor visse.
  • Dirigir-se ao cego através doutra pessoa.
  • Alterar as expressões orais, evitando termos relacionados com a visão.
  • Usar penosas circunlocuções à volta da palavra «cego».
  • Exprimir compaixão ou expressões de excessiva admiração.
  • Mostrar-se surpreendido por ele ser capaz de fazer coisas que os visuais fazem.

É preciso termos presente, nós que trabalhamos com cegos, que quando falhamos nas nossas relações com eles, isso deve-se não à cegueira em si, mas ao nosso próprio sentimento de desconforto, ao medo que sentimos, ou à nossa autoridade excessiva e protectora.

A generalizarem-se os exames de orientação profissional para cegos, julgo que eles terão de ser feitos, naturalmente, com os estagiários dos dois centros de reabilitação especializados, existentes em Lisboa. Pelo menos, de início. É certo que nestes Centros existe já, como rotina, um exame de admissão com vista a despistar os elementos inibitórios para uma recuperação autêntica: Deste exame constam a observação de clínica geral, a de clínica oftalmológica e sensorial, o inquérito sócio-económico-ético visando o cego no seu meio ambiente e também um exame psicotécnico. Neste último, o psicólogo do Centro aplicará um teste de nível mental - em geral, o Wechsler -  discriminará a capacidade táctil do cego e a sua capacidade de orientação no espaço e, por fim, submetê-lo-á a uma prova de habilidade manual - quase sempre o «Minnesota Rate of Manipulation». Deste exame psicotécnico, consta ainda uma entrevista oral com o cego, na qual o elemento mais importante visa captar as características básicas da personalidade do examinado, registando-se ainda o tipo especial da sua reacção psicológica perante a cegueira, não esquecendo nunca a análise da sua inserção nos meios familiar e social. Esta entrevista indicar-nos-á o grau da adaptação interna do indivíduo aos problemas da sua cegueira, elemento fundamental, sem o qual não será possível levantar conscientemente um plano de autêntica reabilitação profissional. Até agora, na prática, estes elementos colhidos na admissão, juntamente com o somatório de opiniões que os técnicos de recuperação vão registando a propósito da evolução de cada estagiário nas várias áreas ensinadas e ainda sem esquecer o valor das repetidas entrevistas que, através do estágio, o psicólogo terá com cada estagiário e que permitem traçar a sua evolução psicológica durante este período, todos eles elementos, dizia eu, permitem aos técnicos, sempre de acordo com o psicólogo, emitir uma opinião final sobre cada cego do curso, encaminhando-o para este ou para aquele emprego, tanto quanto possível de acordo com as suas possibilidades aferidas deste modo, É claro que isto já é alguma coisa, tendo no seu conjunto o valor duma orientação profissional ainda que pouco especificada e sobretudo muito pouco aprofundada. Mas podemos, de facto ir mais longe nesta via da orientação profissional dos cegos. Não nos devemos no entanto esquecer de que, até agora, a reabilitação de cegos tem atravessado a sua fase heróica, a de luta inquebrantável para moldar um meio social, indiferente ou, o que é pior, viciado por preconceitos de toda a ordem, entre os quais a caridade mal entendida não tem sido dos menos inibidores. Conseguir pois abrir as portas das fábricas, escritórios, etc., para a colocação de trabalhadores cegos, não foi tarefa fácil.

Aproveito aqui a ocasião para manifestar aos extraordinários pioneiros que o conseguiram - porque conseguiram! - a expressão sincera e profunda da minha admiração. Aos colocadores e também aos técnicos que prepararam os cegos profissionalmente, de modo que eles puderam vencer o receio, a tibieza e os pruridos estético-económicos das entidades patronais. Bem hajam, pois!

Mas até agora, nesta fase inicial, tem sido praticamente impossível colocar o cego no trabalho que mais especificamente lhe corresponde: mais que os valores positivos da sua inteligência, aptidões e personalidade, tem sido necessário pesar os factores negativos, aqueles que o impossibilitariam para esta ou aquela tarefa.

Mas julgo que chegámos à altura de avançar um pouco mais, neste campo de orientação profissional! O meio social está mais maleável, trabalhado, mais apto a permitir uma realização profissional dos cegos mais profunda e específica, o que redundará, está claro, num maior somatório de alegria pessoal para o trabalhador e num maior rendimento social do mesmo. Fazer orientação profissional dos cegos implica ter antes resolvido, pelo menos nos seus vértices mais agudos, o problema da sua inserção social: isto exige o concurso do psicólogo e também o auxílio psiquiátrico mais ou menos duradoiro.

A recuperação profissional dum cego adulto é tanto mais difícil e morosa quanto mais antiga for a sua cegueira. Compreende-se que a recuperação, orientação e formação profissionais terão de ser encaradas de modos diferentes consoante se trate dum cego recente que já recebeu educação como visual, dum cego congénito, ou da primeira infância, sem prévia educação especializada, ou dum cego destes mas educado em escola própria e que deve já ter conseguido o ajustamento emocional aos problemas da sua cegueira.

É preciso experimentar, ensaiar mais adaptações de testes aos cegos, levar mais longe a exploração das suas aptidões e personalidade, especificando-as mais: O exame de orientação profissional dum cego deve aproximar-se, o mais possível, do que se faz aos indivíduos normais: igualmente completo, igualmente científico.

Tal como no visual, a personalidade é que domina a adaptação profissional: a orientação dum cego só se aproximará da de qualquer indivíduo não cego, quando o orientando cego aceita as suas limitações e acredita nas suas possibilidades.

Para a realização desta indispensável fase de experiências, podemos desde já contar com todo o apoio técnico do Instituto de Orientação Profissional, de acordo com o seu Exm.o Director, Senhor Dr. Almada Araújo.

Entre os vários testes de inteligência para adultos, a Escala de Wechsler-Bellevue é, sem dúvida, uma das melhores. A sua adaptação para cegos - e dela temos já uma estatística apreciável, dá-nos, de facto, bastantes garantias. Nesta adaptação, aplicamos os seis subtestes verbais: informação, compreensão, memória imediata de números, aritmética e vocabulário. Seria interessante focar agora os elementos mais técnicos deste e doutros testes, mas fora da linha de vulgarização a que deve obedecer esta breve comunicação. Um outro teste de inteligência que poderíamos ensaiar entre nós (o que já se fez na América) seria o de Hayes-Binet. Embora para os visuais este teste seja apresentado por escrito, verificou-se que algumas das questões poderiam ser comunicadas aos cegos oralmente, sem que isso trouxesse desvantagens; no entanto, outras teriam de ser aplicadas em Braille.

Também o Otis, o Pintner e o Kuhlmann-Anderson, depois de devidamente modificados, poderiam ser experimentados nos cegos.

Interessante e necessário seria adaptar também para cegos um ou outro «questionário de interesses profissionais», tanto mais que estes têm vindo a merecer cada vez mais valimento em orientação profissional, pois sabe-se hoje que o êxito profissional depende não só das aptidões de cada um, mas também e muito do seu grau de motivação para este ou aquele trabalho.

Poderíamos tentar, por exemplo, o questionário de Kuder, que nos permite avaliar os interesses dum indivíduo em dez sectores, relativamente independentes, ou o questionário de Strong, que engloba quatrocentas questões, cada uma das quais implica uma resposta do tipo «gosto», «não gosto» ou «não sei».

É claro que na aplicação deste questionário aos cegos, além da indispensável adaptação no que respeita ao tipo de comunicação (Braille, em regra), devemos ter sempre presente que em muitos deles se fazem referências a ocupações que não são possíveis para as pessoas que não vêem.

Quanto aos testes de manipulação e «performance», além do já citado Minnesota, poder-se-ão ensaiar o «Pennsylvania Bi-manual Worksample», ou o «Learning Test», entre outros. São testes de habilidade manual em que o examinado manipula certas peças, muitas vezes blocos de madeira ou plástico, segundo várias combinações possíveis. Põem à prova a maior ou menor facilidade com que se fazem as coordenações psico-motora e bimanual, a maior ou menor resistência do examinado para criar automatismos. Nestes testes, quando aplicados aos cegos sobretudo, é muito importante o treino, o tempo de preparação, acertar no número de vezes óptimo para a execução das provas de treino, fazer com que as instruções a dar tenham um cunho prático (isto é, o psicotécnico deve guiar, com as suas, as mãos do examinando cego).

Sabendo-se como, à luz da psicotecnia moderna, o factor personalidade é, de facto, um elemento-base em orientação e selecção profissionais, nele se integrando todos os outros, compreende-se a importância de tentar aplicar aos cegos alguns dos «inventários de personalidade», hoje tão em voga, de entre os que mais resultaram na sua aplicação aos indivíduos normais.

Seria, por exemplo, de experimentar com os cegos o «inventário de Bell», que é um questionário multifásico de adaptação ao meio ambiente, visando os sectores seguintes: meio familiar, problemas de saúde, meio social em geral, adaptação emocíonal e profissão (se é que já a tem).

Entre estes questionários de adaptação, há um, o «inventário de Cornell», empregado na armada americana durante a última guerra, e depois largamente entre os civis, que se nos afigura também cheio de interesse: É um questionário unifásico, compreendendo questões capazes de discriminar entre os indivíduos normais (bem adaptados) e os neuróticos (mal adaptados). Nos inventários deste tipo existem limites entre normalidade e anormalidade, limites esses que podemos fixar mais acima ou mais abaixo, consoante o objectivo em questão: Assim, se fixarmos esse limite muito baixo, eliminamos seguramente todos os indivíduos anormais, mas também certamente alguns normais; e, pelo contrário, se escolhermos o limite mais alto, despistaremos um lote seguro de indivíduos normais, mas entre os considerados anormais ficarão também alguns normais.

Também o «inventário multifásico de Minnesota» tem conhecido larga aplicação e grande sucesso: Referenciado a um sistema psicológico derivado da nosología psiquiátrica, sistema em que os síndromas psiquiátricos são considerados como exageros mórbidos dos traços normais, este inventário compreende nove escalas patológicas correspondentes às seguintes tendências: hipocondria, depressão, histeria, tendência psicopática, masculinidade-feminidade, paranóia, psicastenia, esquizofrenia e hipomania. É mais destinado à aplicação em indivíduos anormais. Ao contrário deste, «o questionário de Humm-Wadsworth» embora também baseado numa nosología psiquiátrica, destina-se aos indivíduos normais, avaliando as tendências histeróide, ciclóide, esquizóide e epilectóide.

Integrado num sistema psicológico mais clássico, oferece-nos interesse o «inventário multifásico de Bernreuter», muito conhecido, e que permite medir as seguintes dimensões: Tendência neurótica, tendência para a auto-suficiência, introversão-extroversão, domínio-submissão.

Também, ainda neste campo da personalidade, valeria a pena aplicar aos cegos certas técnicas projectivas que dispensam o sentido da visão, tais como o «teste tridimensional de Twitchell-Allen» em que o examinado trabalha com figuras sólidas imperfeitas que, servindo-se do tacto, deverá interpretar, «projectando-se» assim nesta interpretação com os traços mais importantes da sua personalidade.

Gostaria ainda de ver aplicado aos cegos o «Tautofone de Skiner», baseado em estímulos de natureza auditiva: O cego reagiria à emissão de sons próximos de palavras dele conhecidas, mas não iguais, sendo convidado a dar-nos as equivalências nele sugeridas por esses sons. Este teste, a ser aplicado entre nós, exigiria uma prévia tradução-adaptação do inglês, língua em que foi concebido.

Na base destes métodos projectivos de complemento, está o «teste de associação de palavras de Jung» que, depois de um período do descrédito, volta a estar em voga: Muito simples de concepção, consiste em  lançar ao examinado um certo número de palavras indutoras, pedindo-lhe que responda rapidamente com outras que aquelas lhe sugiram. As palavras indutoras são escolhidas de maneira a induzirem no entrevistado outras previsíveis. Se ele hesita, aumentando anormalmente o tempo de resposta, ou se se desvia da palavra induzida substituindo-a por outra qualquer de disfarce, isso tem significado, focando a atenção do examinador para a esfera correspondente à palavra indutora em questão: esfera sexual, esfera familiar, etc., que será possivelmente sede de um complexo. Aliás, podia levar ainda muito mais longe esta simples enumeração de testes; preferi no entanto referir apenas aqueles que, mais num país, mais noutro, já foram experimentados com cegos.

Tudo isto constitui pois uma vasta matéria de experimentação que se impõe, pois só assim poderemos chegar a fazer uma orientação profissional autêntica dos cegos.

Começada durante o estágio de recuperação, esta não acabará com ele, na maioria dos casos: deve prolongar-se, em novos exames, até que o psicotécnico ache conveniente, o que variará, bem entendido, de caso para caso. Iniciada no Centro, a orientação profissional do cego deve, na maioria dos casos, prolongar-se por um espaço de tempo maior ou  menor (três anos), seguindo o cego na sua actividade profissional fora do Centro de Recuperação: entrevistas, aplicação de testes, etc.

Não queria deixar de referir aqui ainda algumas normas, produtos do pensamento e da experimentação psicológica, que são na verdade indispensáveis a quem trabalha com cegos - orientadores e seleccionadores, técnicos de recuperação e de formação profissional. Estas noções constituem um contributo dado pela Psicologia à recuperação e à formação profissional dos cegos, tanto ou mais importante que o da orientação. Sem elas, sem a acção interpretativa e profundamente preventiva do psicólogo, sem a sua acção integradora de todos os elementos colhidos, quer técnicos, quer do comportamento, sem a possibilidade que ele tem de os coordenar segundo uma hierarquia estabelecida à luz da personalidade e das particularidades reactivas da mesma quando mutilada pela cegueira, sem a Psicologia, não há, nem pode haver verdadeira recuperação, ou formação profissional.

Ê  muito importante, repetimos, que o psicotécnico averigue desde quando o indivíduo está cego e também a maneira como a cegueira se instalou, se brusca ou gradualmente.

Nas pessoas que cegaram em criança, encontramos necessariamente certos conceitos alterados; entre estes, a cor é dos mais geralmente tocados. Tem-se tentado dar aos cegos os equivalentes da noção que os visuais têm da cor, por meio de palavras, de tonalidades musicais, de sensações tácteis, mas todos estes processos são insuficientes. Também certos adjectivos, não directamente referidos a cores e comummente usados pelos visuais, tais como «sombrio», «luminoso», «matizado», «gracioso», são em parte impotentes.

Do mesmo modo, certas palavras significando entidades materiais mas que não podem ser apreendidas pelo ouvido, ou pelo tacto, tais como «nuvem», «lua», «estrelas», «montanha», «ilha», oceano», etc., podem, é claro, ter um sentido impreciso para o cego congénito ou de criança. Este pode usar estes termos, pode mesmo dar-nos uma definição aceitável deles, mas de qualquer forma nunca podemos ficar convencidos de que o seu conceito coincida de facto com os dos não cegos. Compreendemos a importância que isto pode ter quando temos que avaliar a resposta a inquéritos, etc.

No que diz respeito à capacidade para relacionar no espaço, percebemos também que o cego recente tenha grandes dificuldades, emitindo assim frequentemente juízos errados neste campo.

Quando o indivíduo perde a visão aos poucos, a longo prazo, progressivamente, em muitos casos vai aceitando também gradualmente os problemas que a sua crescente cegueira lhe vai criando e, assim, o ajustamento interno ir-se-á fazendo aos poucos, mas seguramente. Mas também há casos de perda progressiva da visão, em que o indivíduo se recusa a aceitar o diagnóstico, agarrando-se a qualquer poder natural ou sobrenatural, convencido de que a vista voltará, e não aceitando a sua mutilação. E se o indivíduo é muito emotivo, pode chegar a recusar formas de educação e empregos compatíveis com o grau da sua visão, nega-se a usar bengala e a aprender Braille e prefere as mentiras esperançadas dos charlatães, às verdades nuas dos melhores oftalmologistas. Quando, pelo contrário, a cegueira surge bruscamente, o indivíduo sofre um choque tremendo, com sintomatologia somática e psíquica de duração maior ou menor, mas em regra, perante o inevitável, acaba mais facilmente por aceitar a situação, por conseguir o ajustamento interno.

Importante é também conhecer o grau de visão que o indivíduo ainda possui: ele pode ver ainda bastante para seguir o movimento do psicotécnico que administra o teste, ou para distinguir o material da prova, ou para ler os caracteres de imprensa (em regra, com ritmo muito lento, o que nos impede de usar com estes indivíduos testes com tempos marcados)?

Deve procurar-se também saber a «causa» da cegueira, pois esta pode ser de molde a provocar no indivíduo ainda outras limitações, com que devemos contar se quisermos fazer reabilitação ou formação profissional: É o caso da sífilis, da diabetes, de certos tumores, etc.

Também o prognóstico da cegueira tem importância, nestes campos: os métodos a seguir serão diferentes, consoante o indivíduo conserva estavelmente o grau que lhe resta da visão, ou progride rapidamente para a cegueira total.

Deve ainda inquirir-se do grau e tipo de escolaridade do cego: frequentou uma escola de visuais, ou já estudou em escolas para cegos? Sabe, ou não Braille? Fez a aprendizagem de alguma profissão?

O registo do passado de trabalho do cliente tem importância: No caso de ele ter trabalhado, numa certa profissão, durante o tempo em que ainda via, os nossos esforços devem orientar-se no sentido de o fazer voltar a essa profissão, ou outra semelhante, pois assim aproveitaremos a experiência passada do indivíduo e evitar-lhe-emos o choque que sofrerá ao ter que se adaptar a um trabalho diferente, sobretudo se já tem certa idade. Interessa ainda averiguar da sua anterior capacidade de trabalho, da qualidade das suas relações humanas no emprego, da sua estabilidade, etc. Como tem significado avaliar os esforços que o indivíduo fez, já como cego, para conseguir trabalho, e daqui tirar conclusões sobre o seu espírito de independência, a sua capacidade de iniciativa, a sua motivação para o emprego, etc.

Neste capítulo, embora trabalhando há muito pouco tempo com cegos, já me foi possível constatar um problema, de certa importância, verificável nos centros de reabilitação: Refiro-me aos estagiários que tentam a recuperação, depois de terem passado os anos da sua adolescência e primeira juventude nos estabelecimentos de assistência para cegos.

Quando são encaminhados para os estabelecimentos-escolas da especialidade, seguindo aí os estudos primários e até secundários, bem vai, pois são estimulados ao nível mental, adquirindo um apreciável caudal de vocábulos, desenvolvendo a aptidão matemática e outras, especificando certos interesses profissionais, etc. Mas quando assim não é, surgem-nos marcados por anos duma quase ociosidade, sem que as aptidões tenham sido verdadeiramente estimuladas, desfocados do real, mal ou viciosamente inseridos na sociedade. Esta má inserção social é aliás muitas vezes comum aos da outra categoria, os cegos estudantes. Nestes últimos, observa-se ainda com frequência um quase abandono de estímulos na área das aptidões mecânicas, o que nos parece perigoso quando fazemos a análise dos profissiogramas adaptáveis à cegueira, e nos lembramos dos condicionamentos sociológicos do nosso meio. E quase sempre, nestes estagiários, estudantes ou ociosos (nos segundos, sobretudo) podemos constatar uma motivação mais passiva, menos capaz de dinamizar aptidões; tudo neles é menos intenso: a dificuldade inicial de adaptação às condições do Centro de recuperação (que tanto custa a alguns estagiários), o tipo de relação humana com colegas e técnicos, o espírito de competição.

Habituados longamente à exteriorização condicionada das suas aptidões, notamos neles um certo embotamento da afectividade, que em relação aos superiores toma em geral uma forma de subserviência, tendo o psicólogo alguma dificuldade para vencer, na entrevista, a barreira convencional dos «isto é bom, aquilo é mau», «deve responder-se assim e não assim», «assim é que é bonito, doutro modo é feio», etc.

Sobretudo as mulheres surgem-nos, muitas vezes, após anos de asilo, com a personalidade marcada por dois pólos: dum lado a aceitação auto-enternecida da sua situação de «vítimas»; do outro, as exigências e incapacidades dum tipo de educação no estilo «menina prendada». Compreende-se quanto isto, esta má inserção na sociedade, dificulta, com estes estagiários, os trabalhos de recuperação.

Parece-nos evidente a urgência duma mais íntima ligação entre estes centros de assistência e os centros de recuperação já existentes: no sentido de que a reabilitação venha de futuro a fazer-se quando os cegos estejam na idade óptima; no sentido ainda de tornar possível uma acção de tipo docente, em que técnicos especializados procurarão difundir certas normas e princípios, visando um mais profundo e inteligente aproveitamento das possibilidades do cego no asilo: educação geral, algo já de orientação profissional, etc.

Seguindo a recuperação profissional dum cego — e eu baseio-me na minha experiência de psicólogo da Fundação Sain - pode acontecer, e acontece algumas vezes, o seguinte: Após os três meses de estágio, estabelecidos entre nós como suficientes para a reabilitação profissional do cego, o indivíduo é dado como tecnicamente apto para a realização dum certo trabalho remunerado, mais ou menos diferenciado, e vai ocupar o seu primeiro lugar numa fábrica, num escritório, etc. Começa a trabalhar, cumpre bem do ponto de vista técnico, excedendo mesmo às vezes os prognósticos acerca dele feitos, mas... a certa altura um qualquer contratempo - um problema económico, ou relacionado com a locomoção-orientação, ou de natureza afectivo-sexual surge inesperadamente, e o cego-operário não aguenta a tensão interior, não «encaixa» o desagradável inevitável, abandona tudo, e foge... Porquê? Na verdade o homem estava tecnicamente recuperado, era bom operário, e todos, a começar pelos patrões o reconheciam. Porquê, então, o seu real fracasso? É que este cego, embora reabilitado e apto do ponto de vista técnico, não estava de facto reabilitado psicologicamente, não estava internamente bem ajustado aos problemas da sua cegueira, não tinha ainda alcançado uma boa inserção social. E não admira: três meses não chegam, nos casos mais difíceis, para obrar esta recuperação psicológica. Repetir o estágio? Pode ser (em cada estágio há, em geral, um ou dois repetentes) mas não nos devemos esquecer das coordenadas sociológicas do meio em que vivemos, da urgência, às vezes dramática, dos problemas económicos dos nossos cegos. Deste facto, nasceu o acordo de todos os técnicos da Fundação Sain em, para de algum modo prevenir estes casos (e até que seja possível encarar os problemas de reabilitação em programas mais profundos e, por isso, mais longos) como que desdobrar a função da assistente social, criando-se um outro lugar de técnico cuja função seria precisamente esta: dominantemente em serviço exterior, esta trabalhadora social, em cuja preparação haveria uma pequena especialização psicológica - suficiente para ela diagnosticar certos sintomas de alarme -percorrerá todos os locais de emprego dos nossos cegos dados como reabilitados, do Norte ao Sul do país, analisando as suas condições de vida, os seus problemas internos, etc.

Esta técnica estará, naturalmente, na dependência directa do psicólogo do centro.

É claro que esta medida tem um mero significado transitório de terapêutica sintomática, momentânea, não indo de modo algum ao fundo do problema. De facto, os nossos centros de recuperação foram criados para cegos recentes; simplesmente, nesta fase actual de desbravamento, por causa do número de cegos abandonados e ainda por causa das urgências referidas, estes centros vêem-se obrigados a receber cegos congénitos e da primeira infância com todos os inconvenientes implícitos. No dia (esperamos que próximo) em que os problemas dos cegos forem tratados a fundo, aqui em Portugal, a sua recuperação dos ??? far-se-á por escalões no tempo e idades ideais; e os centros do tipo dos nossos destinar-se-ão apenas aos casos para que serão indicados — cegos recentes — ou modificar-se-ão substancialmente. Assim, necessário se torna desenvolver a instrução, por técnicos especializados, das mães normais de crianças cegas que aprenderão, deste modo, a educar os seus filhos na idade anterior aos três anos, porque os pequenos cegos precisam absolutamente do estímulo psíquico que só as mães lhes podem dar, mas estas não estão em regra preparadas para a necessária estimulação por meio de imagens sonoras ou tácteis, ligadas à palavra, e destinadas a pôr a criança cega em relação com o mundo em que vive. É preciso também difundir os jardins-escolas para as crianças cegas acima dos três anos, onde o seu manancial de experiências se alargará, por meio de estímulos adequados. Depois virá, naturalmente, o ensino primário, em classes normais de visuais para tal preparadas. A seguir, o ensino secundário, ou técnico, integrado nas classes de visuais, etc.

Desta maneira, a orientação profissional dum cego far-se-ia, na altura própria, a par das crianças normais da sua idade, sem grandes problemas especiais. Entretanto, procuraremos aproveitar o melhor possível as possibilidades que os vários condicionamentos inibitórios nos deixam livres, embora com a consciência de que não partimos da raiz.

Na análise destes factos, ressalta, naturalmente, a importância que temos de dar os problemas da personalidade do estagiário cego, ao estudo do tipo da sua reacção psicológica à mutilação da cegueira, à análise da evolução que vai tendo a sua, às vezes morosa e difícil, adaptação interna e social. Indispensável, para o psicólogo e secundariamente para todos os técnicos de recuperação e formação profissional, será estudar o tipo de reacção familiar ao cego, o grau e o modo da inserção do cego na sua família, o tipo de reacção que uma certa sociedade tem relativamente ao cego, o grau em que este está inserido nessa sociedade. Sem isto, não há recuperação profissional autêntica. Estes temas fazem parte da comunicação da Senhora Dr.a Aida Nunes, e por isso não me detenho com mais pormenores neles.

O que, no nosso país, já se fez pelos cegos é na verdade — afirmo-o sinceramente — extraordinário. Mas muito mais ainda se pode fazer. E a obra é apaixonante. Ao terminar esta memória, estou a lembrar certa estagiária da Fundação Sain, exemplo vivo e maravilhoso do quanto pode a reabilitação, generosa e abnegada, sim, mas firmemente técnica e científica, na transformação, eu ia a dizer na humanização dos nossos cegos.

Vinda duma  pequena aldeia açoriana, esta rapariga, já com 27 ou 28 anos, apareceu-nos no início dum dos últimos estágios. Era a primeira açoriana que tentava a recuperação. No dia da chegada, e antes do começo dos trabalhos, os estagiários encontraram-se pela primeira vez ao almoço. Os mais desembaraçados riam, brincavam, trocavam impressões de toda a ordem. A certa altura, um deles tocou o problema do amor, do casamento. Os outros encorajaram-no. A nossa açoriana, tímida, bichito amedrontado, chegados a este ponto, não se conteve mais: indignada, perguntou se todos quantos estavam ali eram cegos como ela. Obtida a resposta afirmava, a rapariga, com lágrimas nos pobres olhos cegos, explodiu: Nesse caso, estavam a troçar dela! E isso era feio, era ruim. Os outros olhavam-na admirados: «Um cego não é como as outras pessoas, um cego não se casa! Ninguém o quer, e ele também não deve querer os outros!» Neste grito, a pobre rapariga, exprimia tudo sobre o meio social donde vinha, sobre a educação que tivera, sobre a mutilação psicológica da sua cegueira. Lá na sua terra, o cego era uma espécie de intocável, de ser excluído, ser de marginália social, objecto da piedade e também dum certo receio com o seu quê de mágico, de sacral.

Aos poucos, dolorosa, dificilmente, a nossa açoriana foi «crescendo», foi consciencializando as suas possibilidades — a pobre nunca tinha feito nada, absolutamente nada, no quotidiano da sua vida, as suas aptidões estavam todas por desenvolver — foi substituindo o seu medo por segurança crescente, a sua agressividade defensiva por uma bela e serena afirmação, expressão da esperança, da confiança crescente que a ia recuperando para a Vida. Frequentando agora o segundo trimestre de estágio (e eu queria que ela ficasse até uma reabilitação autêntica, em todas as áreas) esta rapariga é hoje uma das nossas esperanças mais válidas. Em chegando o seu tempo, partirá para os Açores: para lutar, para trabalhar, para ocupar, contra todos os preconceitos ancestrais, o seu lugar na sociedade. Para servir de exemplo vivo aos outros, cegos como ela. E nós, enternecidamente, contamos com ela. É «nossa», fomos nós que a gerámos para uma Vida humana. Ela está a corresponder maravilhosamente, com uma coragem comovente. E vencerá. Há-de Vencer, lá nos Açores. Estamos contentes e orgulhosos. Para terminar, só uma pergunta: Digam-me, minhas Senhoras e meus Senhores, não é verdade que vale a pena?


FIM
 

António Martinho do Rosário/Bernardo Santareno

António Martinho do Rosário / Bernardo Santareno (1920-1980) nasceu em Santarém e faleceu em Lisboa. Licenciou-se em Medicina pela Universidade de Coimbra, tendo-se especializado em psiquiatria. Radicou-se em Lisboa. Fez duas viagens à Terra Nova, como médico embarcado em navios bacalhoeiros. Desempenhou funções no Instituto de Orientação Profissional e na Fundação Raquel e Martin Sain, destacando-se no trabalho de reabilitação e integração de invisuais.
Bernardo Santareno - seu pseudónimo literário - é considerado um dos maiores dramaturgos portugueses do século XX, cuja obra se costuma dividir em dois ciclos: No primeiro, domina a reivindicação do direito à diferença e do respeito pela liberdade e dignidade do ser humano face a todas as formas de opressão e preconceitos morais e sociais da época, enquanto o segundo se caracteriza por um tipo de teatro mais interventivo no processo de transformação da sociedade até à queda do regime fascista e que se dirige contra todo o tipo de discriminação, política, racial, económica, sexual ou outra.
Peças integrantes do primeiro ciclo: A Promessa, O Bailarino e A Excomungada, publicadas conjuntamente em 1957; O Lugre e O Crime de Aldeia Velha, 1959; António Marinheiro ou o Édipo de Alfama, 1960; Os Anjos e o Sangue, O Duelo e O Pecado de João Agonia, 1961; Anunciação, 1962.
Segundo ciclo: Inicia-se a partir de 1966, com a "narrativa dramática" O Judeu, seguido de O Inferno (1967), A Traição do Padre Martinho (1969) e Português, Escritor. O drama autobiográfico 45 Anos de Idade (1974) seria o primeiro original português a estrear-se depois da revolução. Mais tarde publica ainda Os Marginais e a Revolução (1979).
Santareno publicou não só textos dramáticos, como também poesia e prosa, tendo sido distinguido três vezes com o Prémio Imprensa. in Estudos Lusófonos
 


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ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL DOS CEGOS E CONTRIBUIÇÃO DA PSICOLOGIA PARA A SUA FORMAÇÃO PROFISSIONAL
António Martinho do Rosário
Professor do Instituto de Orientação Profissional de Lisboa
Comunicação apresentada pelo IOP
in Separata do Boletim do Instituto de Orientação Profissional
(texto integral)
Lisboa, 1964

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12.Jan.2013
publicado por MJA