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 Sobre a Deficiência Visual

As Mãos compreendem

Lilli Nielsen
 

 

Como o título o indica, o desenvolvimento da capacidade de agarrar com as mãos é de uma importância fundamental, para que uma criança cega entre em contacto com o mundo que a rodeia e deste modo tenha a oportunidade de usar e desenvolver o mais possível os outros sentidos que possui. Além de incidir sobre os problemas ligados ao desenvolvimento da capacidade de agarrar, este artigo apresenta várias considerações metodológicas e propõe sugestões práticas sobre a maneira como o material e aquilo que nos rodeia podem ser adaptados em geral de modo a estimular e a encorajar as crianças cegas no seu desenvolvimento.

Este artigo destina-se em primeiro lugar às pessoas que trabalham em instituições de cegos e para outros membros do pessoal e escolas ou outros meios, que no seu trabalho do dia-a-dia estão em contacto com crianças cegas deficientes mentais. No entanto, este texto é vivamente recomendado para uso dos pais e parentes, podendo também ser utilizado como texto de apoio em reuniões de pais, cursos de pessoal, etc. É meu desejo que este artigo possa contribuir para o nosso objectivo; que as crianças cegas multi- deficientes possam receber a formação adequada, à qual têm um direito fundamental, para compensar as suas deficiências.

NOTA: Este artigo refere-se ao trabalho com crianças simultaneamente cegas e deficientes mentais. Uma vez que a deficiência visual destas crianças só foi detectada bastante tarde, por vezes já no fim da infância, torna-se difícil avaliar a sua capacidade mental inata.
 

Quando falamos sobre uma criança com deficiências múltiplas, dizemos, por exemplo, que essa criança é cega e deficiente mental. No entanto, se tentássemos dar uma ideia mais precisa dos problemas de desenvolvimento que estão em jogo seria talvez mais exacto pensar na deficiência dessa criança como cegueira multiplicada por atraso mental.

É difícil para uma criança lidar com o problema da cegueira se os seus recursos se encontram limitados devido a atraso mental. É extremamente difícil para uma criança lutar contra o atraso mental se os seus recursos são limitados pela cegueira. Todos estes problemas se apresentam ampliados muitas vezes por cada deficiência adicional também presente, por exemplo, espasticidade, epilepsia e deficiência auditiva.

Quanto maior é o número de deficiências, maior é o risco de a criança não ser capaz de utilizar totalmente as suas capacidades mentais, o que por sua vez, pode levar a esquemas de comportamento dominados pela ansiedade ou por reacções anormais e comportamento anormal.

Os problemas envolvidos deixam a sua marca no desenvolvimento da criança deficiente logo após o nascimento, e portanto deve ser dada à criança uma atenção especial o mais cedo possível de modo a assegurar que lhe sejam dadas as melhores condições possíveis para o seu desenvolvimento.

Este artigo contém informação detalhada sobre o modo como se deve dar a essas crianças a especial atenção de que necessitam. Durante estes últimos anos, o trabalho com crianças cegas deficientes mentais ensinou-nos muito, relativamente àquilo que podemos fazer para ajudar ao desenvolvimento destas crianças. O prosseguimento e a intensificação deste trabalho nos próximos anos melhorará e aumentará os nossos conhecimentos.

A criança deveria ser entregue à assistência especial o mais cedo possível, sendo esta detecção precoce de uma importância vital. Mesmo a mais leve suspeita de deficiência visual e mental deveriam levar a um exame médico.

As crianças deficientes devem poder aproveitar dos conhecimentos especializados de assistência que têm agora à sua disposição. Este tipo particular de assistência pode ser denominado de várias formas como por exemplo "Formação Compensatória de Deficientes", "Formação Pedagógica Especial" ou "Estímulos Reforçados", principal objectivo desta formação, seja qual for o nome que quisermos dar-lhe, é o conhecimento de como e por que meios o desenvolvimento humano se processa. Só assim será possível planear e levar a cabo um programa educacional especial para uma criança individual.

Em segundo lugar temos que estudar os problemas que a cegueira implica nas diferentes situações, a forma como a cegueira vai ser um obstáculo ou vai atrasar o desenvolvimento, e se será possível modificar os nossos métodos de trabalho e o ambiente de modo a que a cegueira limite o menos possível o desenvolvimento.

Além disso devemos interrogar-nos sobre o que é que significa o atraso mental no desenvolvimento da criança. O atraso mental significa, por exemplo, que o desenvolvimento da criança se processa a um ritmo mais lento, mas não significa, de maneira geral, que o corpo não se desenvolva normalmente. Por exemplo, uma criança pode ter o corpo de uma criança de 10 anos, enquanto que essa criança se comporta como um bebé de 1 ano.

O que é que nós devemos fazer? O que é que podemos fazer?

Nos últimos anos conseguimos em várias casos descobrir métodos para melhorar o desenvolvimento das crianças cegas deficientes mentais. Estes métodos serão agora explicados e discutidos.

A menos que se descubra qualquer coisa em contrário, uma criança cega é capaz de ouvir, de ter paladar, olfacto, tacto e de se mexer. Estas faculdades podem estar mais ou menos desenvolvidas, de acordo com a idade ou a receptividade da criança. O desenvolvimento depende também, no entanto, das circunstâncias e oportunidades que a criança teve de desenvolver estas faculdades.

Um certo número de crianças cegas deficientes mentais não desenvolve a capacidade de agarrar, que é de enorme importância para o estabelecimento de ligações entre as experiências resultantes das outras várias modalidades de sentidos. Se uma criança cega não é capaz de agarrar objectos, não será capaz de fazer um uso completo ou suficiente das impressões que experimenta. Quanto mais fraco for o grau de receptividade, mais importante será que os estímulos que a criança é capaz de registar sejam reforçados.

Para ser capaz de iniciar um desenvolvimento significativo da capacidade de agarrar numa criança cega e mentalmente atrasada, é necessário ter um conhecimento básico relativamente aos processos e padrões de desenvolvimento normal. Numa criança normalmente desenvolvida, o reflexo inato de agarrar desaparece por volta dos 2-3 meses e é substituído por uma acção consciente de agarrar que no fim de alguns meses atinge um grau tão elevado de desenvolvimento que a criança é capaz de ter uma actividade de brincar positiva e espontânea.

O bebé começa por mover as suas mãos em direcção à boca, num grau cada vez maior de consciência. Depois começa a agarrar os seus próprios dedos e a tentar alcançar objectos suspensos à sua frente. Começa a agarrar as roupas do seu berço, as suas próprias roupas, as roupas e o peito da mãe e/ou o biberão. Agarra o guizo e outros objectos que lhe são oferecidos. Começa rapidamente a utilizar as próprias experiências de agarrar os seus dedos para passar objectos de uma mão para a outra mão. E a criança não só chupa sobretudo a sua própria mão ou o dedo, mas também chupa ocasionalmente objectos que segura na mão. Simultaneamente desenvolvem-se novos padrões de movimentos coordenados logo que a criança, deitada sobre a barriga, é capaz de levantar a cabeça, começa a estender os dedos de forma que as mãos fiquem em posição de suportar o peso do corpo. A criança agora já não se limita a levantar a cabeça, mas também os ombros e o peito.

Esta capacidade de ser capaz de usar as mãos e os braços como suporte é necessária à criança para dominar operações como alcançar objectos, ficar na posição de gatinhar, rastejar, sentar-se, defender-se de cair e treinar a capacidade de conseguir o equilíbrio necessário à posição de pé e ser capaz de andar.

Quando a criança está deitada de costas e movimenta objectos de uma mão para a outra, ou tenta fazê-lo, muitas vezes os objectos caem e acabam por ficar mesmo ao pé da cabeça. A criança vira então a cabeça para um e outro lado, acaba por ver o objecto, e depressa será capaz de manter a atenção visual durante um intervalo de tempo suficiente para que lhe seja possível combinar as duas experiências elementares: "agarrar entre os dedos" e "passar os objectos de uma para a outra mão". A criança é agora capaz de alcançar com a mão direita um objecto que está do lado esquerdo e de agarrar com a mão esquerda objectos que se encontram à direita.

Desta forma a criança será levada a executar todos os exercícios preliminares necessários a que um dia se vire da posição de costas para a posição de borco (deitado sobre a barriga).

A visão é uma fonte de inspiração crucial para a totalidade deste processo de desenvolvimento. Quando falta a vista, será necessário fazer esforços especiais para garantir que o desenvolvimento da criança sofra o mínimo atraso possível.

Antes de entrar numa descrição mais pormenorizada do treino especial que podemos oferecer à criança, será acertado fazer uma lista das várias etapas de desenvolvimento relacionadas com a capacidade de alcançar:

    • mão à boca
    • mão à mão
    • segurar objectos na mão
    • levar à boca objectos seguros na mão
    • deixar cair objectos
    • procurar objectos
    • bater com objectos na mesa
    • manejar objectos
    • atirar objectos
    • bater com dois objectos um contra o outro
    • "agarrar" - para principiantes
    • apontar para objectos
    • colocar objectos uns dentro dos outros
    • construir com objectos.

Se a criança cega não começa a agarrar as suas próprias mãos e dedos, o adulto deve "fazer o jogo" com os dedos da criança. É necessário ter cuidado em não segurar demasiado firmemente os dedos da criança, porque a criança deve experimentar a acção com as próprias mãos e não apenas a sensação de "mãos que ajudam".

Este "jogo" não deve ser jogado unicamente em "situações de consolação", mas em todas as situações em que haja interacção entre a criança e o adulto. É sobremaneira importante reparar se e quando a criança se torna capaz de tomar a iniciativa de começar a jogar o jogo sozinha.


Exemplo n.º 1

Alice tem 12 meses. É cega e está classificada como atrasada mental.

Quando está deitada de costas os seus braços ficam dobrados pelos cotovelos e os punhos cerrados (apertados) um de cada lado da cabeça. Não consegue sentar-se sozinha, e quando se senta com ajuda tem dificuldade em manter a cabeça aprumada. Sento-me numa cadeira de braços e pego nela ao colo com as costas encostadas a mim. Inclino-me para trás de forma que ela tenha o mesmo apoio que teria numa cadeirinha. Depois pego muito levemente nas suas mãos e junto-as dizendo: "Tu podes brincar com as tuas mãos", "Tu tens umas bonitas mãos", "Tu podes segurar as tuas mãos", etc.

Depois levo uma das suas mãos à sua boca, depois a outra, "brinco" com as suas mãos nos seus lábios e ao mesmo tempo falo constantemente sobre o que estou a fazer, ou o que ela está a fazer. Quando ela chupa a mão, aplaudo-a e digo-lhe que o que ela está a sentir dentro da boca são os seus dentes. Alice fica evidentemente encantada com esta actividade.

Depois ponho a sua mão numa caixa cilíndrica de escova de dentes com um berlinde dentro. (Podem usar-se outros tipos de guizos de tamanho apropriado à mão da criança). Ajudo a criança a segurar o guizo numa das mãos e depois guio a outra mão até à extremidade da caixa que está fora da mão que a segura. Deixo a criança decidir por si mesma qual das mãos largará primeiro.

Quando o guizo cai fora do alcance da criança, não comento "Bem, perdeste-o?", mas digo: "Bem, aqui o tens outra vez". Utilizo esta aproximação (introdução) positiva conscientemente, porque as crianças cegas têm o costume de espalhar as coisas à volta.

De cada vez que uma criança "perde" um brinquedo - e mais tarde atira fora um brinquedo - o som resultante do impacto do brinquedo com o chão, dar-lhe-á alguma informação a respeito daquilo que a rodeia. Estas experiências sonoras ajudarão a criança a ser curiosamente activa relativamente ao que está à sua volta. Assim a criança não fica apenas um auditor passivo, mas sim uma criança que tenta encontrar de novo os seus brinquedos, uma criança que vai estabelecer contacto com o que a rodeia por si própria. Só desta forma é possível desenvolver na criança a experiência do espaço.

As crianças cegas escutam atentamente as nossas vozes e muito especialmente as entoações que utilizamos ao falar. A frase "agora perdeste-o" pode facilmente soar como se o adulto estivesse a proferir uma declaração negativa. Isto pode desencorajar a criança de persistir em continuar o suficiente com um certo tipo de actividade de forma a criar as bases para a actividade na próxima etapa de desenvolvimento. A criança cega - incapaz de ver a expressão facial encorajadora do adulto - apenas pode reagir às impressões captadas à custa da voz, das palavras e das experiências físicas e de tacto disponíveis.

As crianças cegas que não usam as mãos têm frequentemente um controle subdesenvolvido ou fracamente desenvolvido dos movimentos de cabeça. Já que a primeira posição em que o bebé segura a cabeça é a posição de borco (deitado sobre a barriga), podemos dar às crianças cegas e deficientes mentais uma boa iniciação para desenvolver a capacidade de controlar a cabeça, deitando-as de barriga para baixo. Enquanto que a criança com visão normal é inspirada em elevado grau pelas impressões visuais para desenvolver o controle da cabeça, (levantando e virando a cabeça), é necessário que à criança cega seja proporcionada uma fonte de inspiração alternativa.

Um colchão de espuma amortece os ruídos e portanto reduz o impacto das deixas auditivas. Em vez disso poisar o bebé de barriga para baixo numa plataforma de contraplacado de 4 mm medindo 1,20 x 1,50 m. Esta plataforma deve estar 2-3cm acima do nível do pavimento. Desta forma qualquer movimento feito pela criança não só produzirá um ruído, mas o ruído será transmitido pelo contraplacado. Assim, a qualidade do som resultante da actividade da criança será amplificado, e há boas possibilidades de que a criança seja capaz de o sentir e de ser inspirada por ele para fazer mais movimentos. A criança irá percebendo a pouco e pouco que os sons que ouve são sons que ela própria está a criar.

0 desejo que a criança tem de mover e levantar a sua cabeça pode ser aumentado ainda mais se se colocarem debaixo da sua cabeça objectos que produzam sons. Se se colocar um prato plano de plástico debaixo dum prato de sobremesa e sobre os dois a cabeça da criança, produzir-se-á um som ao menor movimento da criança.

Se os pratos forem esfregados com casca de laranja ou polvilhados com açúcar de baunilha, a criança não só receberá um reforço das impressões sonoras pelos movimentos efectuados, mas também receberá impressões de cheiro e até de gosto se começar a explorar as proximidades chupando os pratos.

A criança com visão, deitada sobre a barriga, recebe um grande número de impressões visuais variáveis. A criança cega tem também necessidade de pontos de inspiração variáveis.

Assim, é indispensável sonorizar as mudanças das várias espécies de superfícies em que puderem colocar a cabeça da criança, por exemplo, um bocado de cartão canelado, um saco de pano contendo ervilhas ou arroz, ou um saco com papel de prata, bolas de plástico, bocados de espuma isolante, em resumo qualquer coisa serve desde que se alcance o objectivo - fazer sons quando a criança move a cabeça. Não são necessariamente precisos ruídos de elevada sonoridade. As crianças cegas têm necessidade de desenvolver uma sensibilidade e fazer a distinção entre sons mesmo muito discretos.

Temos portanto de pôr à disposição da criança uma série de objectos distintos sobre a superfície do contraplacado.

Se colocarmos bolas diferentes à volta do corpo da criança, o mais pequeno movimento de qualquer parte do seu corpo fará mover as bolas. A criança ficará, a saber gradualmente que ela própria é capaz de provocar uma série de sons.

Os efeitos de som produzidos podem também ser alternados. Por exemplo, a criança não tem necessariamente de usar sempre sapatos. Há uma grande diferença entre o som produzido pelos pés da criança, consoante ela está descalça, com meias ou com sapatos.

Se uma criança está normalmente em tensão e ou tem o hábito de virar os braços para dentro e encostá-los ao corpo, restringindo assim o uso dos braços e mãos, é possível colocar um par de pratos debaixo dos braços ou cotovelos das crianças; uma ou outra destas tácticas darão possivelmente o efeito desejado.

Ou talvez um pedaço de papel vegetal, amarrotado num dos cantos e colocado na mão da criança quando esta se move, poderá despertar a curiosidade da criança o suficiente para a fazer querer tentar continuar e reproduzir o ruído excitante.

A maior parte das crianças cegas deficientes mentais reagem aos sons das portas que se abrem e fecham, ao telefone a tocar, à aproximação e afastar de passadas, ao som de aviões, altifalantes; na realidade a todos os sons que podem chamar-se sons distantes. Mas certos sons não podem ser produzidos pela criança, se e quando ela gostaria de voltar a ouvi-las. A criança tem de esperar até que o som volte a estar presente. A ocorrência destes sons está desligada de qualquer acção empreendida pela criança e desta forma a criança é um ouvinte passivo.

Se, por outro lado a criança teve bastantes experiências com sons próximos, isto é, sons originados na "área do corpo", a área que a criança pode alcançar e envolver pelo uso do corpo, braços e pernas, há boas possibilidades de que a criança possa repetir e reproduzir as experiências sonoras e tornar-se assim um auditor activo. Isto também contribuirá para evitar o aparecimento da ansiedade.

Repetição, repetição e mais repetição criam as condições necessárias para o início da experimentação com ruídos e o desejo de experimentar mantém vivo o sentido de curiosidade assim como dá à criança ainda mais exemplos de experiência.

É impossível prever em que é que uma determinada criança estará mais interessada. Não há nenhum método melhor do que fornecer o maior número e variedade de oportunidades para a actividade de forma que o padrão pessoal de reacções da criança nos mostre a direcção e o rumo de desenvolvimento dos interesses da criança.

Mesmo que seja certo que um interesse especial está de facto a surgir, devemos apresentar à criança objectos diferentes dos que ela própria escolhe. Existe um risco constante de que a criança adquira um comportamento rotineiro e estereotipado que impeça e não favoreça um crescente desenvolvimento.

Por outras palavras devem sempre dar-se à criança oportunidades para que amplie o seu campo de interesses. Na devida altura, quando a criança vira a sua cabeça dum lado para o outro, os objectos que estão debaixo da sua cabeça serão mexidos para um lado e a criança começará a perceber que os objectos estão muito próximos. E como a criança cega não pode deslocar-se para chegar aos objectos - a menos que tenha aprendido por um sem número de repetições que os objectos estão ao alcance da mão - teremos de colocar a criança, quando está acordada, em situações em que tenha tantos objectos ao alcance da mão que não possa deixar de tocar em alguns.

A criança cega está interessada unicamente em coisas com as quais está em contacto. Todas as outras coisas simplesmente não existem antes de a criança entrar em contacto com elas. Assim, não é de todo verdade a objecção possível de que a criança cega possa ser "sobrealimentada" ou sobre estimulada.

Para serem capazes de alcançar objectos que produzem sons, as crianças cegas devem ter atingido um nível de desenvolvimento correspondente ao nível de 10 meses duma criança normal. Podem aparentemente estar a ouvir com toda a atenção, mas não procuram chegar a um objecto antes que este as tenha tocado.

Se a criança aprender a brincar aos jogos de "mão para mão" e "mão para boca", poderá eventualmente utilizar estas experiências quando está deitada sobre a barriga. Por este meio chegará a empurrar com a mão objectos para debaixo da cabeça e por este meio as experiências da proximidade de objectos serão adicionalmente reforçadas. Finalmente a criança agarrará objectos e em vez de simplesmente empurrar objectos, puxa-os de novo para junto de si.

A criança experimenta agora a ligação entre os próprios movimentos e os sons provocados por esses movimentos. O fazer de certos movimentos passará a ter um significado. Se a variedade de objectos disponíveis for suficientemente grande é possível à criança experimentar as seguintes correspondências:

  • movimento - som;
  • movimento consciente - sons;
  • movimento consciente - sons - impressões de tacto;
  • movimento consciente - sons - impressões de tacto - impressões de gosto e olfacto.

Assim, quando uma criança cega toma conhecimento de objectos na sua proximidade, objectos que pode alcançar, não deverá nunca deixar de se lhe proporcionar uma oportunidade razoável de êxito, quando começa a "olhar" para as coisas próximas.

É portanto imperativo que haja sempre próximo da criança não unicamente um par de "brinquedos", mas sim duas ou três dúzias de objectos. Assim uma simples tentativa de "olhar para" alguma coisa terá probabilidades de ser recompensada com êxito.

As experiências seguintes inspirarão à criança uma maior actividade, isto é, a criança nem sempre precisa, e de facto nem sempre terá presente um adulto que a ajude a ser activa. Há demasiadas crianças que somente são activas quando têm um adulto ao lado; logo que o adulto se vai embora, a criança deixa de ser activa.

Isto não significa que a criança não tenha necessidade de brincar activamente com adultos. Com um adulto a criança pode receber informação falada a respeito das suas actividades, dos objectos que está a manejar, e da relação entre essas actividades e os sons produzidos.

Também é importante que o adulto seja capaz de notar se a criança, enquanto ocupada em uma actividade, está consciente e presta atenção aos sons que não são produzidos por ela própria, para que a criança receba informação verbal relativamente a esses ou outros tipos de sons. As crianças cegas não podem saber que nós também ouvimos os sons que elas ouvem, se não lhes dissermos que nós estamos a registar os mesmos sons.

A criança com vista vê que o adulto olha em direcção às fontes de som, por exemplo, portas que se abrem ou fecham, um relógio a dar horas, etc. Desta forma, a criança que vê, apercebe-se do que o adulto é capaz de ouvir. A criança cega deve receber informação verbal, confirmação e impressões de tacto juntamente com um adulto, para perceber itens de informação com a mesma clareza.

Isto significa que a criança, ao mesmo tempo que o adulto explica o que está acontecendo, deve de facto participar no abrir e fechar de portas, correr cortinas, pôr a chaleira no fogão, empurrar e puxar cadeiras e bancos, apagar e acender luzes, abrir e fechar torneiras - em suma, em todas as actividades ruidosas que se encontram durante o dia numa situação normal do dia-a-dia da vida de casa.

Mesmo à criança que não é ainda capaz de andar sozinha devem ser dadas as mesmas oportunidades de experimentar essas situações.

Quando a criança está deitada de costas e perdeu um objecto que segurava na mão, é melhor guiar a mão da criança na direcção do lugar onde o objecto agora está e então colocar-lhe lá o objecto na mão, do que trazer o objecto ao alcance imediato da mão da criança. Guiando a mão da criança na direcção do objecto "perdido" a criança aprenderá gradualmente a aumentar a variedade das suas actividades. Aprenderá alguma coisa acerca do lugar para onde podem ter ido os brinquedos, e terá de aprender estratégias de movimento para recuperar objectos perdidos.

Temos de admitir no entanto que a teoria e a prática nem sempre se ajustam tão facilmente uma à outra. As crianças cegas e deficientes mentais são exactamente tão individualmente diferentes como as outras crianças "normais". Mesmo que crianças com deficiências possam estar, psicologicamente falando, ao mesmo nível de desenvolvimento, podem diferir em idade. Esta diferença de idade significa por exemplo que os seus corpos têm tamanhos e proporções diferentes. Por esta razão poderemos ter de trabalhar para o desenvolvimento da capacidade de uma criança agarrar, usando jogos e técnicas que não se ajustam exactamente ao tamanho do corpo da criança. Os exercícios devem portanto ser adaptados ao corpo.

Se por exemplo uma criança tem um corpo que corresponde à idade de 7 anos, enquanto que por outro lado o seu desenvolvimento corresponde ao de uma criança que apenas aprendeu a levantar e segurar a sua cabeça para cima numa posição de borco, ser-lhe-á difícil dominar a etapa seguinte de desenvolvimento. O seu corpo é demasiado pesado e as pernas compridas demais. A criança terá dificuldade em se suportar sobre os cotovelos e não tem força suficiente para elevar o pesado tronco.

Quando não consegue elevar o tronco, a criança será incapaz de alcançar objectos ou fazer ruídos com objectos que agarrar com as mãos.

A criança não consegue possivelmente coordenar os movimentos dos braços e pernas e os músculos da espinha não podem fortalecer-se. Se a criança tenta puxar uma perna que está sob o estômago, as suas pernas são demasiado compridas para conseguir fazê-lo com êxito. Vemos muitas vezes que as crianças nesta situação tentam tirar ao mesmo tempo ambas as pernas debaixo do estômago, e isto leva a um falhanço completo. Não há nada mais desmoralizante nem mais capaz de bloquear o desenvolvimento do que a experiência de insucessos. Devemos portanto ajudar a criança para que as condições para o desenvolvimento possam ser melhoradas.

Se colocarem a criança de costas em cima de uma caixa (de tamanho adequado à criança) a criança será capaz de descobrir os processos preliminares de desenvolvimento do movimento que gradualmente lhe permitirão virar-se (da posição de costas para a posição de borco). A criança passará a ser uma criança capaz de rastejar em vez de pular como um canguru.

Rastejar ajuda a criança a desenvolver umas costas tão fortes que conseguirá sentar-se direita sem apoio em vez de ter a posição sentada de corcunda que vemos tantas vezes em crianças mentalmente atrasadas. Também pode aprender a balançar os braços para os lados tanto que este movimento possa ser usado para manter o equilíbrio logo que seja capaz de ficar em pé - e mais tarde começar a andar. É sobretudo importante que a criança cega se habitue a ter os braços levantados e separados do corpo, pois que a criança deve conseguir usar esta capacidade, em parte para investigar as redondezas, em parte para lançar objectos a alguma distância. Estas capacidades aumentam o sentido de espaço da criança e mais tarde são úteis para evitar chocar com obstáculos e para encontrar objectos, mesas, cadeiras, etc.

A caixa a usar deve ter largura igual à distância que vai do sovaco à anca da criança. A altura deve ser igual à distância entre o sovaco e o meio do antebraço da criança, e comprimento ao ombro da largura do seu tronco. Para evitar que a criança caia pelos lados da caixa, se a criança começa a rodar sobre as costas, os lados podem ser um pouco mais altos que a própria caixa. Também poderão colocar-se colchões à volta da caixa para que a criança se não magoe, caso saia pelo lado da caixa.

Se a criança começar a rastejar para sair para baixo da caixa, isto deverá ser encarado como um sinal positivo de progresso. Recompenso a criança com aplausos se isto acontecer, mesmo se a criança choramingar ou tiver outras expressões de ansiedade ou infelicidade. É demasiado fácil encorajar uma criança a continuar a chorar ou, ainda pior, levá-la a deixar de fazer esforços para um desenvolvimento posterior, se simpatizarmos com o seu choro. Ao contrário o elogio e o encorajamento verbal estimularão a criança a tentar de novo.

Assim, torne a colocar a criança no alto da caixa, pronta para voltar a tentar. Terá de rastejar para baixo inúmeras vezes até ser capaz de rastejar para cima sozinha.

Muitas das nossas crianças têm uma ou outra espécie de actividade auto-mutilante, por exemplo uma actividade que dá qualquer forma de gratificação (do tipo negativo). Isto pode ver-se quando uma criança retesa constantemente os músculos, ou se morde logo que consegue tirar as luvas de restrição. Ou quando uma criança cobre os ouvidos para se proteger dos sons desagradáveis do mundo assustador ou mete constantemente os dedos nos olhos.

Existem evidentemente crianças que têm defeitos físicos, falta de alguns dedos ou sofrem de deficiências ou padecimentos que nos obrigam a adaptar as nossas teorias a cada caso individual.

É evidente que quanto mais tempo uma criança retardada mental viver sem usar as suas mãos, mais difícil será e mais tempo demorará a desenvolver a capacidade de agarrar.

Poderá o nosso apoio ser de alguma utilidade?

Uma criança que se auto-mutila é uma criança com um comportamento inapropriado. Se conseguirmos forma de proporcionar a essa criança períodos de comportamento apropriado (e em termos de contacto - um comportamento mais satisfatório para todos os interessados), por exemplo duração de 5 minutos 2 a 3 vezes por dia, será então possível aumentar esses períodos, de forma que a criança mantenha um comportamento adequado durante várias horas. Então esta criança tornar-se-á uma criança capaz de um melhor nível de funcionamento.

Só viremos a saber se uma ajuda especial deste tipo pode levar a resultados se começarmos e persistirmos na tentativa.

Quando oferecemos a uma criança cega actividades deste tipo, geralmente esperamos resultados. É óbvio que ficamos muito contentes quando a criança começa a levantar a cabeça e à medida que passam mais e mais segundos e minutos até que a criança volte a "perder de novo" a cabeça.

Mas também é razoável sentir que as nossas expectativas se satisfazem se passamos pela experiência de una criança estender o punho fechado e colocar a palma da mão aberta no chão. E também podemos considerar um resultado positivo se uma criança deitada de costas começar a dar pontapés com as suas pernas.

Nesta altura não podemos ainda esperar que a criança dê pontapés com as pernas e mova os braços ao mesmo tempo. No dia em que isso acontecer, podemos de novo alegrar-nos com os progressos da criança.


Exemplo n.º 2

João tem sete anos. Está deitado de costas num colchão, com os braços esticados um para cada lado. Nunca foi visto a juntar as suas mãos ou a levar a mão à boca.

Sento-me a seu lado, começo a falar-lhe e a pôr a sua mão na minha, isto é, tento certificar-me de que ele sabe que eu estou presente, em parte por ouvir a minha voz, em parte pelo contacto físico. Ponho na sua mão um brinquedo que faça ruído e ele segura-o mas não faz qualquer movimento quer com a mão ou com o braço. Abano e viro para um e outro lado a sua mão com o brinquedo para fazer o brinquedo produzir um som. A criança reage como uma criança auditor (audição passiva), mas não parece estar a ouvir muito intensamente. Contudo esta atenção obviamente aumenta um pouco mais tarde quando a porta se abre e uma pessoa entra na sala, poisa uma caixa e volta a sair. Isto significa que João é uma criança que já tem a capacidade de registar sons feitos pelos outros, mas que ainda não é capaz de registar sons que ele próprio faz.

Agora começo a dizer ao João que o vou pôr no chão, mas logo que o seguro para o levantar, o seu corpo retesa-se e fica rígido. Porquê esta reacção? Provavelmente porque nos seus sete anos de vida experimentou muitas vezes que, quando alguém pega nele, ele "perde a sua cabeça". João não é muito bom a segurar a sua cabeça levantada.

Quando os pais de crianças com desenvolvimento normal tomam conta dos bebés até à idade de 3 ou 6 meses, usam parte de uma mão para segurar na cabeça do bébé. Mas é difícil dar o mesmo apoio a crianças mais velhas, apesar que de facto elas precisam dele. Isto é provavelmente o que o João sentiu, e assim descobriu que pode tornar todo o corpo rígido e assim evitar o desconforto.

Nos anos que passaram, contudo, isto leva João a pôr-se completamente hirto sempre que é tocado em qualquer parte do corpo, com excepção das mãos.

Viro-o de barriga para baixo. Ao fim de alguns segundos descontrai-se, não levanta a sua cabeça e os punhos ficam cerrados.

Pego agora nos pratos que mencionei antes e coloco-os debaixo da cabeça. Move a cabeça ligeiramente e os pratos respondem com um ruído. Ele ainda não levanta a sua cabeça, mas começa a fazer um certo número de sons que não soam como se estivesse a protestar. Certamente, os gritos não são de alegria mas não faz resistência corporal; pelo contrário, vejo a sua mão direita a abrir-se, os dedos a estenderem-se e a palma da mão está muito próxima da superfície em que ele está deitado. Agora está deitado completamente à vontade com a cabeça e as mãos em descanso enquanto mexe as pernas para um lado e para o outro. Não há razão para pensar que tem medo dos pratos. Faz todas as coisas que podem possivelmente ser feitas quando uma criança não está mais desenvolvida do que ela está. Mas ao mostrar-nos de que é capaz de se defender retesando os músculos e já que é capaz de escutar atentamente os sons produzidos por outros, temos a informação de que pode ser útil dar-lhe condições de meio ambiente que lhe possibilitem um desenvolvimento posterior em outros campos.

Viro-a agora de costas, ponho-lhe um brinquedo que faça ruídos na mão direita e começo a guiar a sua mão em direcção ao ouvido esquerdo. Ela retesa-se e eu abano a sua mão e ao mesmo tempo suporto o seu braço direito numa posição superior, o que faz com que o brinquedo caia da sua mão e fique em repouso perto do seu ouvido esquerdo. Falo com ela durante todo o tempo, as minhas frases descrevem o que ela tem na sua mão direita, o que estou fazendo com ela, e vou explicando os sons que estamos a produzir. Logo a seguir levanto-a para uma posição sentada e jogo com ela o jogo descrito no primeiro exemplo.

Estes novos movimentos com jogos de som em que a criança foi agora iniciada, não são jogos que a criança possa desfrutar sozinha, mas continuando a repetir diariamente os exercícios acabaremos por saber se ela consegue fazê-los sozinha.

Algumas das nossas crianças cegas e deficientes mentais são completamente incapazes de agarrar um objecto, ainda que sejam capazes de segurar a cabeça direita ou de estarem sentadas, quer sozinhas quer com apoio. As suas mãos são completamente inactivas e não se observa qualquer reacção quando se colocam objectos nas suas mãos. Mesmo fazendo fechar e abrir a sua mão sobre objectos não possibilitará à criança a imitação desta actividade.

Talvez seja possível despertar o reflexo de agarrar nestas crianças dando-lhes uma bacia de lavar a cara ou uma bacia redonda de plástico contendo variedades diferentes de bolas de berlindes, bolas de madeira, bolas de ping-pong, etc. A bacia é colocada à frente da criança, de forma que toque no peito da criança e/ou nas coxas. Pegar na mão da criança e usá-la para andar com as bolas à volta.

Isto não só dará à criança uma impressão auditiva e uma impressão de movimento, mas também uma impressão de tacto. A impressão auditiva será reforçada pelo facto de as reverberações da bacia serem transmitidas ao corpo da criança (peito ou coxas) e assim ser reforçada a impressão de tacto. A criança não se limita à experiência de remexer as bolas.

Em diversos casos conseguimos com êxito que crianças com mãos inactivas remexessem as bolas ao redor da bacia, após o que começaram a agarrar uma única bola. Por este meio receberam através das mãos as impressões de tacto que são o ponto de partida essencial para desenvolver a capacidade de levar objectos à boca e para atirar objectos ao chão. O som de objectos que caem ao chão facilita a orientação relativamente ao tipo de sala em que estão. Os sons ajudam a criança a desenvolver um sentido de espaço e de direcção.

As experiências ganhas e as habilidades exercitadas na situação de jogo, tanto com um adulto ou sem a participação directa de um adulto, devem ser transferidas para as situações dos cuidados diários e de rotina - comer, tomar banho, vestir-se, de forma que se estabeleça uma relação natural entre o João e a situação do dia-a-dia.

Por exemplo seria aconselhável que a criança ajudasse a tirar o seu próprio chapéu sempre que é preciso tirar-lho. A criança deveria participar em descalçar as meias - talvez ao princípio o adulto tirar-lhe as meias até passar o calcanhar, e então a criança pode facilmente completar a tarefa.

Quanto mais tarde a criança começar com este tipo de actividades, maior será o intervalo de tempo até à idade em que a criança começa normalmente a agarrar os próprios pés, geralmente, aos 5 ou 6 meses. As crianças agarram os pés e levam-nos à boca. Esta actividade desenvolve na criança o conhecimento do próprio corpo e aumenta a força dos músculos envolvidos, das mãos e dos pés. Os pés são torcidos e virados pela própria criança o que dá como resultado o desenvolvimento das articulações principais e secundárias do pé. Estes movimentos são básicos para se atingir a capacidade para estar de pé e andar.

Algumas crianças cegas e deficientes mentais nunca passaram por esta fase de desenvolvimento e assim falta-lhes a experiência básica para tirarem as meias e os sapatos. É necessário iniciar e fazer praticar estas crianças nestas actividades por um longo período, até que vejamos que elas tomam a iniciativa elas próprias.

O banho pode também ser utilizado para aumentar a consciência do próprio corpo e para estabelecer relações entre as situações de brincar e as experiências dos processos usados nos cuidados do dia-a-dia. Quando a criança está no banho, podíamos por exemplo concentrar a atenção no estômago. Enquanto o estamos a lavar o estômago da criança, segurando com a nossa mão a mão da criança que segura a esponja, dizemos: "agora estamos a lavar o teu estômago". Quando a criança, durante esta actividade começa a agarrar a esponja, dizemos: agora estás a lavar o teu estômago. Depois incluímos nesta actividade outras partes do corpo. De facto toda a criança deveria ter a sua própria esponja logo que possa segurá-la sozinha. Isto é a única forma da criança poder de facto aprender a imitar as actividades do adulto. A criança é cega, e portanto não tem possibilidades de deitar a mão à esponja do adulto. Exactamente como qualquer criança normalmente desenvolvida jogará os jogos de "mão para a boca" com a esponja por um grande período até começar a usar a esponja para se lavar.

Nas situações de alimentação, a criança deveria ser encorajada a segurar a caneca sozinha quando está a beber. Ao princípio será necessário ao adulto conduzir toda a actividade, mas se segurarmos a mão da criança na caneca ao menos durante as primeiras goladas, ela aprenderá a lição entre a experiência de beber e a experiência de segurar a caneca. Depois ela ficará gradualmente com a ideia de que uma caneca é algo mais do que o bordo da caneca em contacto com os lábios.

Deveremos também dar à criança oportunidades de colocar alimentos na sua própria boca com os dedos, em parte porque todas as criaturas humanas começam a comer com os dedos, e em parte porque a criança deve receber informações tácteis do alimento através de outras partes do corpo para além da boca.

Estamos a usar a experiência "objectos para a boca" ao mesmo tempo que uma necessidade básica está a ser satisfeita.

Quando temos que limpar a boca da criança, a sua mão deverá tomar parte na acção. Lembrar-se de acompanhar a acção com palavras tais como "Agora vamos limpar a tua boca".

O sinal dum prato vazio e dos movimentos da mão do adulto são sinais que para uma criança com vista significam que a seguir terá de limpar a boca; a criança cega precisa de ter a informação acerca do que vai acontecer. Se, além disso, a criança percebe que as suas mãos são colocadas à volta do guardanapo ou da esponja, irá gradualmente percebendo que a coisa que vai acontecer a seguir será que a sua boca será limpa. Desta forma evitaremos dar à criança atrasada uma das muitas experiências provocadoras de ansiedade a que as crianças deficientes mentais cegas estão muitas vezes sujeitas. É também possível que um dia chegue em que a criança seja capaz de limpar sozinha a boca.

É importante que não se façam tentativas para aumentar as capacidades numa área ou num sentido, sem também encorajar as actividades em outras áreas de desenvolvimento correspondente. Se se exercita uma habilidade sem qualquer ligação com habilidades em outros campos, a criança é impedida de experimentar todas as possíveis relações para fazer as ligações das experiências por associação. Estas ligações associativas são muito difíceis de criar se uma criança é cega ou mentalmente atrasada, e infinitamente mais se a criança é amplamente atrasada.

Relativamente ao desenvolvimento da capacidade de agarrar, o quadro seguinte pode ajudar a decidir qual das actividades pode ser encorajada para assegurar que a criança esteja mais bem preparada para fazer a ligação das experiências individuais e produzir um conjunto de experiências "totais" compreensivas e significativas:

Desenvolvimento da capacidade de agarrar em relação a:

    • estar deitado de costas
    • estar deitado de barriga
    • ser capaz de receber mensagens faladas
    • estar sentado ao colo
    • estar sentado numa cadeira de rodas
    • ter as mãos à volta duma tijela ou bacia contendo bolas
    • receber uma informação táctil com a boca
    • agarrar os próprios dedos
    • passar objectos de uma mão para a outra mão
    • agarrar os próprios pés
    • receber impressões de gosto e cheiros
    • fazer jogos de som com a boca e contactar objectos com outro objecto
    • jogar jogos de som deixando cair objectos
    • jogar jogos de som agitando um chocalho
    • chegar a objectos na posição deitada de costas
    • chegar a objectos na posição deitada de borco
    • chegar a objectos na posição sentada
    • empurrar e puxar objectos
    • empurrar objectos que fazem ruído
    • agarrar/apertar objectos que fazem ruído
    • comer
    • vestir-se/despir-se

Só é possível saber se uma criança é capaz de estabelecer relações entre as suas experiências, se as redondezas fornecem oportunidades para estruturar e usar o material relacionável disponível.

Iniciando a criança em experiências e actividades deste tipo, a experiência daquilo para que as suas mãos podem ser usadas constituirá um investimento com significado. A imagem que a criança tem do próprio corpo e o seu sentimento de identidade serão assim aperfeiçoados. A criança tem a oportunidade de começar a ser um participante activo e não somente um participante passivo.

Uma criança de oito meses é capaz de distinguir e comparar dois aspectos diferentes duma experiência. Assim devemos dar à criança cega objectos que nas suas mãos não sejam apenas susceptíveis de produzir um único som, mas também sons diferentes.

Ninguém sonharia em perguntar a uma criança de oito meses se compreendeu os conceitos de "idêntico" e "diferente", e é evidente que não podemos sujeitar crianças cegas e deficientes mentais a "exames" ou "testes" baseados na aquisição de tais habilitações. Mas, de facto, é isto que na realidade fazemos quando, por exemplo, damos a uma criança um tabuleiro com dois cubos de tamanhos diferentes e pedimos à criança para "os escolher" ou para "empurrar o maior para o chão". Problemas deste tipo não deveriam de forma alguma ser apresentados à criança, a não ser relativamente ao manuseamento de objectos vulgares e reais encontrados nas situações diárias da vida real.

As crianças começam a classificar e a diferenciar objectos quando estão realmente interessadas em certos brinquedos ou objectos, facto que nos demonstra pela sua selecção de objectos da "caixa dos tesouros". Estes objectos não serão postos de lado mas colocados à mão, isto é, a própria criança mostra aquilo em que está especialmente interessada na ocasião presente ao fazer a sua própria selecção.

Mais tarde, quando a criança atingir o estádio de "colocar coisas dentro doutras coisas", vemos que objectos que não podem ser utilizados numa situação dada serão rejeitados sendo postos de lado. E quando a criança começa a "construir", colocando coisas umas em cima das outras, objectos irrelevantes serão de modo semelhante atirados fora.

É desta forma que as chamadas crianças normais exercitam e aperfeiçoam as suas capacidades de seleccionar objectos e que as crianças cegas e deficientes mentais usam exactamente o mesmo método se tiverem oportunidade de o fazer. Isto pode ser feito desde que os adultos não dêem às crianças tarefas facilmente resolúveis, tarefas para as quais os adultos já tinham preparado as soluções. Se por exemplo se dá à criança um jogo de pirâmide - uma haste e blocos com orifícios no meio - deverá haver blocos que tenham furos demasiado grandes e demasiado pequenos. Se o jogo consistiu em meter bolas em latas, garrafas, etc., deverá haver algumas bolas demasiado grandes para entrarem no recipiente.

Nos "jogos de construir" deverão incluir-se bolas e outros objectos irregulares para que a criança tenha a experiência de que um processo de construção exige objectos com propriedades semelhantes. Se desde o início os materiais foram correctamente escolhidos para estimular a capacidade de seleccionar, então os objectos não utilizáveis serão depressa rejeitados pela criança.

Quando a criança é capaz de seleccionar blocos, bolas, etc. ou objectos com o mesmo tamanho mas com diferentes tipos de superfície, então já não terá sentido continuar a exercitar exactamente este tipo de faculdade. A faculdade de seleccionar objectos pode ser ampliada e combinada com outras tarefas. Por exemplo: "Aqui está a tua camisola - hoje vamos vestir a de lã". "Aqui estão alguns garfos e colheres. Põe um garfo e uma colher em cada prato". "Aqui estão as varas. Pega nas de madeira, são as melhores para usar neste jogo". "Está aqui um cesto com ovos. Vamos usar os ovos maiores para ovos cozidos; os mais pequenos para fazer bolos. Pega em todos os mais pequenos porque hoje vamos fazer bolos".

Se nós usarmos unicamente exercícios de selecção tradicional duma forma estereotipada, podemos com facilidade chegar a extinguir o espírito criador de qualquer criança.

Quando as crianças têm mais ou menos dez meses começam a imitar as acções das outras, por exemplo acenando adeus, batendo palmas experimentando fazer novos sons, batendo com coisas na mesa, alcançando objectos, isto é, fazendo movimentos de braços semelhantes às acções dos adultos. A aparência do desejo de imitar, e a manutenção e ampliação desta actividade são de importância vital para ganhar experiência e conhecimento através da vida.

O despertar do interesse na actividade imitadora é contudo baseado no início em impressões visuais. O desenvolvimento da criança cega será seriamente retardado se não for dada à criança a assistência que a leve a iniciar essa actividade. Por exemplo devemos amarfanhar papel com as nossas próprias mãos e depois com as mãos da criança. Devemos bater objectos uns contra os outros com as nossas próprias mãos e depois com as mãos das crianças. Devemos imitar os sons palradores da criança e depois palrar sons novos à criança. Desta forma damos à criança experiências tácteis - cinemáticas - auditivas. Ou, usando expressões menos técnicas, proporcionamos à criança experiências de apalpar, ouvir e fazer movimentos; experiências que estimulam a necessidade de imitar da criança.

A nossa capacidade de fornecer estímulos à criança cega é necessária em todas as fases de desenvolvimento se nós pretendemos manter a necessidade de imitar. A criança de 12 meses repete actividades que provocam o riso. E nós podemos fazer com que as crianças cegas repitam as suas actividades se nos rirmos e mostrarmos que desfrutamos as suas realizações e se acompanharmos o seu riso quando eles riem espontaneamente.

A criança de 12 meses é capaz de despertar a atenção conscientemente. Utiliza o som que é capaz de produzir: rir, choramingar, dar pequenos gritos e palrar num tom especial de voz. Todos os adultos percebem quando uma criança de um ano está de facto a dizer: "vem cá", "olha para mim". As nossas crianças cegas também tentam atrair a atenção fazendo os sons de que são capazes, mas o problema está em se são capazes de despertar a atenção que desejam. Diferentes gritos ou gemidos podem significar: "Tenho sede", "Quando vamos comer?", "Quero companhia", "Quero alguma coisa para brincar", ou "Quero estar noutro lugar".

É evidente que devemos acompanhar as nossas acções com palavras em todas as nossas actividades com a criança. Devemos dizer-lhes o que estamos a fazer com elas, o que elas estão a fazer, o que está a acontecer à sua volta. A linguagem só se desenvolverá quando a criança ouvir palavras que se relacionem com as nossas e as suas actividades numa determinada situação e com os resultados dessas actividades. Tratar de programas de trabalho, de planos de tratamento, de reuniões profissionais não tem qualquer significado para estas crianças. "É claro que nós sabemos isso", responderá talvez o leitor. Mas uma coisa é saber o que é correcto fazer e outra coisa é fazê-lo. Conversas deste tipo entre o grupo de pessoas que trabalham com as crianças numa instituição podem acontecer com facilidade, mas é essencial que façamos um esforço especial para evitar este tipo de conversa quando lidamos com crianças com dificuldades de falar tão grandes como aquelas de que sofrem as nossas crianças

É claro que podemos decidir que agora vamos falar com a criança e contar-lhe o que se está a passar. Mas pode acontecer que fiquemos perplexos e não consigamos encontrar a palavra certa para dizer. Então devemo-nos lembrar que para uma criança que nunca recebeu quaisquer descrições ou mensagens enquanto estava a ser alimentada, a tomar banho ou a brincar com alguém, qualquer simples frase é completamente nova. Muitas cabeças de crianças foram levantadas enquanto se lhes dava de beber, sem que se lhes tenha dito ao mesmo tempo: "Levanta a cabeça e terás alguma coisa para beber".

Quando a criança já é capaz de agarrar e segurar um brinquedo, podemos encorajar a habilidade de agarrar e de largar conscientemente o objecto, jogando o jogo do "toma lá, dá cá". Enquanto dizemos: "agora vou tirar-to", puxamos o objecto que a criança está a segurar na mão. Quando a mão da criança está a abrir-se, empurra-se o objecto contra a palma da mão da criança e diz-se: "segura-o". Este jogo pode ter lugar numa atmosfera feliz e descontraída e é igualmente valioso para crianças que não conseguem soltar e portanto tem sempre as mãos e os punhos tensos e apertados.

Com crianças que têm realmente grandes dificuldades em agarrar, pode melhorar-se muito a qualidade da experiência da criança se o "objecto" consiste numa corda na qual estão enfiadas alternadamente contas e botões. Os botões devem ser suficientemente grandes para poderem passar entre os dedos da criança. Ao mesmo tempo devem exercer uma certa pressão nos dedos quando se puxa a corda para "a tirar" e isto anima a criança a forçar a sua mão e a "segurar firmemente".

As crianças com visão normal usam as impressões visuais como uma fonte de inspiração quando agarram objectos que se lhes encostam. Às crianças cegas devem dar-se fontes de inspiração semelhantes baseadas no sentido do tacto e de audição. Logo que a criança cega seja capaz de segurar um objecto ou um brinquedo durante mais que alguns segundos não devemos persistir em colocar objectos completamente dentro da mão da criança.

Devemos começar a deixar a mão da criança tocar o objecto de forma a que possa começar a agarrar o objecto por si própria. Mais tarde o objecto pode ser apresentado à criança, fazendo ruído com ele, ou dando pancadas leves no objecto com um dedo antes de o oferecermos de facto à criança. Isto deverá fazer-se para desenvolver o sentido de orientação pelo ouvido e para investigar quando é que a criança é capaz de chegar a um objecto que faz ruído.

Estudos feitos por David Freedman mostraram que as crianças são capazes de procurar na escuridão objectos que produzem ruído antes da idade de dez meses.

Só por meio duma observação cuidadosa seremos capazes de saber se uma criança cega atrasada é capaz de alcançar objectos unicamente por efeito de um estímulo auditivo. Se e quando a criança for capaz de fazer isto, será importante assegurar-se de que o ambiente da criança lhe proporcione oportunidades para exercitar e desenvolver esta actividade, o que é o factor básico para o desenvolvimento futuro da criança.

Quando escolhemos objectos e brinquedos, devemos dar atenção ao tamanho e força da mão da criança. Mas também devemos apresentar objectos que desafiem a criança. Podemos ver crianças de todas as idades e em todos os estádios de desenvolvimento fazendo esforços enormes para levantar ou mover coisas, que de facto são demasiado grandes e pesadas para serem por elas manuseadas.

Estes desafios - normalmente auto-impostos - ajudam a desenvolver os músculos e são estas actividades que estimulam a criança a começar a resolver problemas. Deste modo a criança pode usar o desenvolver a sua reserva de experiências para explorar e estabelecer novas relações e assim ganhar novas experiências.

As crianças cegas não podem encontrar por si próprias um número suficiente de objectos que as desafiem. Não podem começar sozinhas a puxar ou empurrar uma pesada carteira de senhora, uma grande caixa de cartão, uma escova, uma vassoura mecânica de tapetes ou uma mangueira de um aspirador - para referir apenas alguns dos objectos comuns relativamente aos quais vemos as crianças experimentar as suas forças em tenra idade.

Se não estimularmos a criança cega oferecendo-lhe objectos que a desafiem a exercitar-se ao máximo, o seu desenvolvimento será prejudicado. Comerão e dormirão mal e o seu comportamento dará igualmente sinais de perturbações.

Uma criança deve ter braços e dedos fortes para poder começar n sentar-se, a estar de pé, a vestir e tirar as roupas, a abrir e fechar portas, a ligar e desligar rádios e gravadores. Estas habilidades não se desenvolvem por si mesmas na devida altura: atingem-se por actividade.

O desenvolvimento dos movimentos da mão é de importância decisiva para a futura capacidade da criança cega ser capaz de "ver". Todas as actividades ou todos os períodos diferentes de idade devem conter possibilidades para o desenvolvimento posterior - e máximo - desses movimentos de mão.

Muitas crianças cegas deficientes mentais têm muito pouca força nos seus dedos, mesmo que o seu nível geral de funcionamento possa não estar muito atrasado. A lista de actividades seguinte, para desenvolver os movimentos dos dedos e a fortaleza dos dedos, é dada como sugestão e não pretende ser exaustiva:

  • Amarrotar bocados grandes de papel (jornal, papel de embrulhos).
  • Amarrotar bocados pequenos de papel (papel de seda).
  • Espremer uma seringa de ouvidos (com e sem água).
  • Fechar fechos de correr.
  • Esmagar bolas de barro com as mãos e punhos.
  • Esmagar bolas de barro com um bocado de madeira plano.
  • Enrolar bolas de barro com um rolo de massas.
  • Carregar em botões de arranque (que possam produzir ruídos diferentes).
  • Rodar chaves em fechaduras.
  • Tirar tampas de latas.
  • Fazer buracos com os dedos em massas de barro.
  • Espetar fósforos e diversas espécies de hastes em barro.
  • Espetar alfinetes em cartão e em bocados de madeira macia/dura.
  • Cortar com tesouras - primeiro, no ar, depois palhas de beber, papel, cartão.
  • Usar um furador e um agrafador.
  • Abrir e fechar pastas de arquivo.
  • Colocar molas de roupa, em cartão, tabuinhas de madeira, cordas.
  • Emparelhar meias virando-as de dentro para fora.
  • Enrolar elásticos à volta de objectos (rolos de cartão, caixas).
  • Colocar elásticos em rolos de cartão, tubos, etc.
  • Esticar elásticos entre e à volta de estacas, ganchos, pernas de um banco, etc.   
  • Abrir e fechar bolsas, carteiras com diferentes tipos de fechos, fechos de correr, etc.
  • Apertar e desapertar cintos.
  • Partir macarrão, galhos de árvore, paus de gelados.
  • Jogar ao jogo da pulga.
  • Abrir pequenos embrulhos de uvas passas.
  • Abrir pequenos frascos de cosméticos, tubos, boiões e esfregar o conteúdo nos dedos, pernas e cara.
  • Esfregar com escovas.
  • "Coser" arame através de furos em cartão prensado.
  • Coser com agulha e linha através de furos em cartão prensado.
  • Pôr coisas nos bolsos e tirá-las.
  • Fazer rodar um moinho de pimenta (usar sal), uma caixa de música, brinquedos de roquete, rolos para salsa (vazios e depois cheios).
  • Usar o pano de pó e a escova.
  • Encher câmaras de ar ou bolas com uma bomba.
  • Arrancar erva.
  • Espremer água de esponjas, roupas.
  • Regar com regadores de brinquedo, e regadores pequenos e grandes.
  • Descascar laranjas.
  • Ralar cenouras, maçãs.
  • Aparafusar e desaparafusar parafusos e porcas grandes e pequenas (começar com porcas de orelhas).
  • Dar corda a despertadores de cozinha e a relógios despertadores.
  • Puxar papel de rolos de papel de cozinha, etc.
  • Usar cornetas de bola de borracha.
  • Tocar campainhas de bicicleta.
  • Dar corda a brinquedos musicais.

Logo que a criança cega atrasada é capaz de se sentar sozinha ou sem apoio, deverá ter oportunidade de esvaziar a "caixa dos tesouros". Um certo número de crianças cegas deficientes mentais não são capazes de sentar-se sozinhas e devemos fazer esforços para que consigam fazê-lo.

Já na idade de 3-4 meses a criança normalmente desenvolvida começa a sentar-se sem apoio. Tanto as costas como a cabeça são amparadas pelos braços e mãos do adulto.

Logo que a criança é capaz de segurar a cabeça direita, podemos diminuir o apoio. A criança então senta-se com apoio parcial muitas vezes por dia até à idade de 7-8 meses, idade em que é capaz de sentar-se sem apoio. É natural que o adulto veja constantemente que o apoio dado é regulado de acordo com a capacidade de o bebé se conservar em equilíbrio. Logo que a criança se senta sem apoio, será capaz de brincar duma maneira mais variada e experimental. Pode manejar coisas grandes, coisas leves e pequenas, gosta de bater com coisas e de esvaziar a caixa dos tesouros contendo brinquedos. É capaz de se concentrar por períodos mais longos, continuar numa actividade específica e não precisa que o adulto participe tanto, especialmente quando o adulto de facto participou no "jogo" de quando em quando.

As crianças cegas deficientes mentais que não conseguem sentar-se sozinhas têm necessidade de se sentar diariamente com ajuda de um adulto, de forma que recebam o apoio diferenciado correspondente que é dado a um bebé normalmente desenvolvido de 4 a 8 meses.

Esta espécie de apoio não é dada por uma cadeira de rodas. Mas como não podemos segurar nos nossos braços uma criança de 7 anos da mesma forma que seguramos um bébé de 6 meses, temos de encontrar outra forma de proporcionar o apoio necessário, de forma que a nossa criança diminuída de 7 anos possa receber os diferentes tipos de apoio que necessita, enquanto se desenvolve a aptidão para se sentar sozinha. Podemos evidentemente pôr esta criança ao nosso colo, mas como esta criança é cega isto não será a coisa correcta a fazer. Esta criança precisa de receber impressões e experiências novas de som e tacto ligadas com estar sentado de forma a fortalecer a sua motivação para se sentar sozinha sem suporte.

Se a criança é colocada na posição de "alfaiate" ou deitada no chão na placa de contraplacado então o adulto será capaz de dar à criança o suporte necessário ao mesmo tempo que se jogam jogos de som, por exemplo esvaziar a caixa de tesouros.

É conveniente brincar com a criança a "jogos de baloiçar" de forma que esta possa experimentar que o tronco pode ser estendido para a frente, mas não tanto para trás sem tombar.

Se a criança procura pôr-se numa posição deitada, isto significa que precisa de descanso. Este deve naturalmente ser-lhe dado, após o que pode voltar a colocar-se na posição sentada.

Quanto maior for a criança, tanto mais difícil será para ela manter o equilíbrio enquanto está sentada, se nunca fez isso antes. São precisamente estas crianças cegas e deficientes mentais mais velhas que nós vemos com os braços apertados contra o tronco, de tal forma que a possibilidade de conservar o equilíbrio é grandemente reduzida. Devemos proporcionar a estas crianças a possibilidade de estarem sentadas, suportadas por um adulto, durante um longo período até que possam sentar-se sozinhas.

Quando a criança está quase capaz de se sentar sozinha, devem fazer-se jogos de balançar, pois de outra forma a criança cega não aprenderá a estender os braços quando cai. A nossa criança não tem a possibilidade de aprender que o chão existe para ser usado a não ser que se lhe chame a atenção para isso. Se o adulto oferece suporte a una criança colocada diante da caixa dos tesouros, o adulto poderá tirar coisas da caixa juntamente com a criança. Desta forma a criança experimenta que pode alcançar coisas quando está na posição sentada.

A criança é agora capaz de usar as experiências que teve relativamente a mover objectos de uma mão para a outra, o da mão para a boca, mas uma vez por outra o adulto deve esticar os braços da criança para fora e ajudar a criança a largar o objecto que segura na mão, de maneira a mostrar à criança a maneira de esvaziar a caixa de tesouros. Esta actividade - esvaziar a caixa dos tesouros - é muito importante se queremos desenvolver a capacidade de equilíbrio da criança. É a impressão do som de um objecto que se deixa cair que inspira a criança a continuar a actividade, e estes sons também dão à criança informações a respeito dos arredores.

Quando a criança cega atrasada consegue sentar-se sozinha por este processo e começa a esvaziar a caixa dos tesouros sem ajuda, a criança necessita de continuar com esta actividade por um longo período de tempo. Pode parecer que nenhum desenvolvimento se está a processar, mas se mudarmos constantemente um pouco o conteúdo da caixa dos tesouros, então as brincadeiras não serão nunca estereotipadas, e veremos que a criança começa a manipular objectos individuais antes de os atirar para o lado.

Este jogo de esvaziar a caixa dos brinquedos é um jogo de "desmontar em peças" quando a criança começar a manipular objectos individuais, e então deverão estar disponíveis objectos que de facto possam desmontar-se em peças - começando com coisas que se separem facilmente quando são manipuladas.

No contacto individual com a criança, o adulto pode agora jogar jogos de "desmontar em peças" que envolvam movimentos bastante mais complicados do que aqueles que são requeridos para a simples manipulação. Da mesma forma o adulto pode de vez em quando - juntamente com a criança - começar jogos simples de "pôr dentro". É contudo necessário todo o tempo para utilizar continuamente a mesma coisa mas de maneira diferente em todas as espécies de actividades.

A criança cega não pode desenvolver-se se adquirir a ideia de que os únicos objectos que podem desmontar-se são, por exemplo, as pirâmides e os copos. Ou se em consequência de variações muito pequenas nos materiais disponíveis recebe a ideia de que "pôr dentro" se limita a colocar alguns blocos dentro duma caixa preparada para tal. Neste aspecto, o adulto deve ser muito cônscio acerca do conteúdo real da caixa de tesouros colocada diante da criança. A caixa deve conter uma parte de coisas que a criança aprenda a manusear, e uma parte de coisas que a criança começa a manejar. Em cada estádio do desenvolvimento deve conter objectos ligados com os acontecimentos do dia a dia. Por exemplo, quando a criança, está no estádio de manipulação deve haver também colheres, escovas de dentes, pentes, pratos, etc. Quando a criança chegou ao estádio de "desmontar em peças", deve haver por exemplo conjuntos de 5-6 pratos, uma caixa de sabonete com sabonete dentro, embrulhos de uvas passas, etc. Se a criança chegou ao estádio de "pôr dentro", deve haver por exemplo, calçado de tamanhos suficientemente grandes para que a criança possa ser bem sucedida. Os primeiros sapatos que a criança normal experimenta são os sapatos e botas dos adultos. As crianças cegas só podem fazer isto se os adultos "puserem a mesa" por assim dizer.

Quando a criança chega à altura de manusear objectos, devemos fornecer objectos que mudem de forma quando manuseados. Por exemplo uma câmara de ar de bicicleta ligeiramente cheia, uma bata alta de tamanho grande (8-9), um molho de chaves, uma pasta de arquivo com "páginas de plástico (cortadas de recipientes de plástico grandes), etc.

Estas espécies de artigos postos à disposição da criança dar-lhe-ão sensações e portanto experiências que são o ponto de partida para mais tarde ter a experimentação mais consciente, por outras palavras, o jogo construtivo.

No fundo da caixa dos tesouros deverá haver alguns objectos pequenos - botões, bocados de mosaico, pérolas, elásticos, etc.

A única forma de uma criança desenvolver a habilidade de agarrar-apanhar é ter materiais próprios para a desenvolver. Quando a criança começa a colocar coisas perto, ao alcance da mão, temos o sinal de que é capaz de começar os "jogos de montar, pôr dentro". Devemos pôr ao seu alcance uma caixa vazia para ela pôr coisas dentro. Evidentemente a criança não começará imediatamente a fazer uso da oferta logo da primeira vez que a caixa lhe é apresentada, mas algumas crianças cegas deficientes mentais podem começar depois de umas dez demonstrações no decorrer de uma semana, enquanto outras precisam talvez de 100 demonstrações no decorrer de três meses.

O encorajamento do desenvolvimento em crianças cegas deficientes mentais pelo método aqui descrito requere que exista sempre uma caixa de tesouros completa, e é uma tarefa do adulto encher a caixa com novos objectos, e jogar aqueles jogos que a criança tem maturidade para começar a jogar, de forma a que se mantenha o desejo de imitar da criança.

A criança com visão normal começa muito cedo a imitar padrões de movimento feitos pelo adulto. A criança de 8 meses olha intensamente para a boca do adulto quando o adulto se dirige à criança com sons. Se o adulto move os lábios sem de facto emitir sons, a criança começa a imitar esses movimentos. A criança de 10 meses sentada no braço de um adulto que anda à volta de casa ou do andar, imitará os movimentos feitos pelo adulto com o braço que está livre. Quando a criança tem 18 meses, a criança imitará muito seriamente nos seus jogos as actividades do adulto. A criança usará um pano de lavar ou o babeiro para jogar ao jogo de "dobrar roupas", transportará os seus brinquedos à volta da sala ao mesmo tempo que brinca a "arrumar coisas", e na idade de cerca de 20 meses estas imitações de actividades de movimento estarão muito desenvolvidas e extremamente variadas. Isto significa que as expressões visuais inspiram a criança a executar todas as diferentes espécies de movimentos que são o ponto de partida para as funções construtivas.

Este método consciente de usar o aparelho motor é também chamado "cinestesia" (kinesthesis).

A cinestesia refere-se ao sentido de posição e movimento das partes do corpo, especialmente dos membros. Os tecidos de e próximos das articulações e os seus tendões contêm receptores que são estimulados quando o tecido circundante é deformado pelo movimento do membro (para outros pormenores, ler R. H. Day: Perception).

O desenvolvimento do sentido cinestésico é baseado em alto grau nas impressões visuais. A primeira vez que uma criança faz uso de determinado padrão de movimentos, fá-lo de uma forma muito vaga. Logo que esse movimento é repetido várias vezes, os membros que foram usados para executar esse movimento acabam por "conhecer" esse movimento tão bem que ele pode ser executado mais conscientemente e mais precisamente. Quando este movimento estiver suficientemente aperfeiçoado pela prática, será o ponto de partida para novos e mais difíceis padrões de movimentos, que por sua vez devem ser também repetidos muitas vezes antes que sejam firmemente adquiridos.

As crianças cegas têm também necessidade de desenvolver o seu sentido cinestésico. Na realidade, podemos dizer que quanto maior for o número de padrões de movimento adquiridos, melhor funcionará a criança. As crianças cegas deficientes mentais só podem começar a imitar padrões de movimento se forem iniciadas nos movimentos dos adultos. Isto só pode ser feito se o adulto que está a iniciar as crianças nos movimentos necessários para jogar jogos e tomar parte em outras actividades, fizer os movimentos juntamente com as crianças. Ninguém sabe quantas experiências "vagas" são necessárias a uma criança cega até que ela consiga conhecer a fundo cada movimento separado, de forma a ser capaz de o executar sozinha.

A criança cega só é capaz de estabelecer contacto com o que a rodeia pelo uso do seu aparelho muscular e cinestésico. Isto por sua vez tornará a criança capaz de fazer o melhor uso possível dos seus outros sentidos.

Finalmente deverá notar-se que as sugestões propostas descrevendo o tratamento pelo som, e julgadas adequadas para as crianças cegas se aplicam também a todas as crianças com visão inferior a 1/10 (0,1) e não só às crianças totalmente cegas.

Aproximadamente 90 por cento das pessoas que nós incluímos sob a designação de "os cegos" têm alguma visão, mas a visão residual é de muito pouca utilidade para a imitação. Nem tão pouco a visão residual é suficiente para servir como factor principal no desenvolvimento da coordenação mão/olhar. Por esta razão todas as crianças deficientes mentais com diminuição de visão e acuidades inferiores a 1/10 (0,1) deveriam ter uma assistência educacional especial do tipo aqui discutido.

 

Apêndice

Sugestões para o conteúdo da caixa dos tesouros

  • Pratos de plástico (de sopa e ladeiros).
  • Chávenas e pires de plástico.
  • Escovas de todos os tamanhos e feitios.
  • Escovas de esfregar (de madeira e plástico).
  • Limpa-tachos.
  • Escovas de unhas, escovas de fatos, escovas de cabelo, escovas de sapatos.
  • Pirâmides de todos os tamanhos e feitios (modelos com a forma de animais não devem ser chamados pelos nomes dos animais, pois esses nomes não têm qualquer significado para as crianças cegas).
  • Canecas de leite (plástico e aço inoxidável).
  • Copos de dentes (plástico e aço inoxidável).
  • Caixas com tampas de atarraxar (diferentes tamanhos).
  • Caixas com tampas de pressão (diferentes tamanhos).
  • Caixas de metal com baunilha (vazias e cheias).
  • Pequenos pacotes de uvas passas.
  • Molas de roupa (de madeira e de plástico).
  • Copos de encaixar (redondos, rectangulares).
  • Caixa de blocos de construção com tampa de correr.
  • Pentes.
  • Escovas de dentes.
  • Caixa de óculos (óculos de sol de plástico).
  • Caixa de sabão com sabão.
  • Carteiras, porta-moedas com diferentes tipos de fechos.
  • Caixas de plástico e de metal, com um orifício redondo na tampa.
  • Caixas de madeira e de cartão com um orifício redondo na tampa.
  • Tesouras. Íman.
  • Sacos de roupa 20x10 cm, contendo ervilhas secas, arroz, pequenos seixos.
  • Um baralho de cartas (muito usado).
  • 1,5 m de "cabo" (tipo correia de coiro). Para jogos de amarrar e exercitar os movimentos de vestir.
  • Caixa de plástico contendo botões (com ranhura na tampa como um mealheiro).
  • Fechadura com chave.
  • Sacos de tecido, lona forte, couro.
  • Sacos de papel de café.
  • Bolas de todos os tamanhos e materiais.
  • Blocos que possam juntar-se com pauzinhos.
  • Caixas de música.
  • Parafusos grandes com porcas de orelhas.
  • Cortador de salsa.
  • Moinho de pimenta.
  • Laranjas - pequenas, grandes; Cenouras.
  • Caixas de cartão grandes.
  • Mangueira de aspirador.
  • Pente em estojo.
  • Matracas (tipo utilizado pelos apaixonados do futebol).
  • Diversos tipos de papel.
  • Caixas de varinhas redondas.
  • Balões (cheios ou para encher com a boca).
  • Interruptores eléctricos.
  • Sacos de mão com diversos tipos de fechos.
  • Jogo da pulga.
  • Pau redondo com fita branca (para enrolar e desenrolar).
  • Utensílios de escritório (agrafador, furador).
  • Harmónica de boca.
  • Ccolheres, colheres de chá, 3 colheres atadas com elástico.
  • Caixas (todos os tamanhos, com tampas).
  • Caixas de lápis - de couro, madeira (com tampa de correr).
  • Colheres de medir, colheres de cozinha (madeira, plástico).
  • Botões, pequenas peças de mosaico, contas (grandes, pequenas, redondas, oblongas).
  • Molas de aço, parafusos, escápulas.
  • Espuma, plasticina.
  • Elásticos (grandes, pequenos, largos, estreitos).
  • Bolas de vidro, madeira, borracha.
  • Lã de algodão, bolas de ping-pong.
  • Blocos de madeira de todos os tamanhos.
  • Blocos de madeira do tamanho de livros.
  • Bolas de lã.
  • Bocados soltos de couro e peles.
  • Livro para estampas feito de cartão perfurado.
  • Pano com fecho de cremalheira, pano com um botão e uma casa.
  • Cinto com fivela, fio com contas para mover para cima e para baixo.
  • Fio com contas para serem movidas para a frente e para trás.
  • Molas de roupa, elásticos
  • Argolas de cortinas (uma grande e outra pequena), que possam ser agitadas.
  • Seringa para os ouvidos.
  • Castanholas.
  • Caixa de lápis (couro com fecho de correr).
  • Batedor de ovos.
  • Tubo de cartão com cerca de 30 elásticos.
  • Caixa chata (caixa de charutos) com elásticos.
  • Dois triângulos.
  • Blocos de madeira chatos, redondos (tamanhos diversos).
  • Campainha de bicicleta montada num bocado de cabo de vassoura.
  • Pedaços de contraplacado (40x10 cm).
  • Blocos de madeira redondos.
  • Caixa de escova de dentes redonda (contendo um berlinde).
  • Caixas tubulares compridas de cartão, cobertas de pano e contendo arroz, ervilhas, etc.
  • Botões e conchas de ostra em dois pedaços de cordel atados no meio - dando 4 "patas de aranha".
  • Carrinhos de linha enfiados num cordel.
  • Lata de chá com berlinde dentro.
  • Caixa de plástico - fina - com molas de roupa montadas na borda.
  • Bocado de cartão prensado com molas de roupa montadas.
  • Um pedaço de "Belco" - aproximadamente 15 cm.
  • Molas de roupa juntas umas às outras de forma a fazer pequenas "varas".
  • Uma rede contendo bolas.
  • Uma dobradiça de porta.
  • Um fecho de correr de porta.
  • Saco de pano com fecho de cremalheira (contendo papei).
  • Saco de pano com fecho rápido (com papel ou outros materiais dentro).
  • Bomba de bicicleta. Câmara de ar de bicicleta.
  • Eixo de roldana. Despertador de cozinha.
  • Corneta de borracha.
  • Blocos de madeira do tamanho de tijolos.
  • Arcos de hula-hula.
  • Asas de giesta.
  • Relógio despertador.
  • Pulverizador (para uso de lavandaria).
  • Pulverizador de perfume.
  • Batedor de cozinha (mesmo sistema que chave de parafusos de espiral).
  • Pano de pó e escova de mão.
  • Tubo de plástico (para soprar dentro de água).
  • Palhas de beber.
  • Apito.
  • Ervilhas secas, etc., para jogos de "agitar" e de "despejar".
  • Bonés, boinas, chapéus.
  • Luvas.
  • Botas altas, galochas, outros tipos de calçado de tamanhos grandes.
  • As vossas próprias sugestões.

 

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Este artigo de Lilli Nielsen, Consultora do Serviço de Saúde Infantil da Escola Refsnaes - Escola Nacional para Crianças Cegas e parcialmente cegas, foi escrito a pedido do Serviço Nacional de Saúde Pública de Copenhagen e é um dos resultados do intenso trabalho de pesquisa efectuado nestes últimos anos no campo dos problemas que enfrentam as crianças cegas com deficiência mental.
 

TRADUÇÃO: Maria Cabral

EDIÇÃO: D.G.E.B.S.

 

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publicado por MJA