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 Sobre a Deficiência Visual

Leve o seu Filho Cego para a Cozinha !

Ruth Schroeder
 

 

Preparar cereais e leite para o café da manhã. Preparar um sanduíche de manteiga de amendoim para um lanche depois da escola. Preparar uma xícara de chocolate quente antes de dormir. São estas coisas que crianças com visão normal fazem por si? Claro que são.

Seu filho ou filha cega podem fazer essas coisas por si mesmos?

Se não, é hora de você considerar as consequências de não permitir que eles ajudem na cozinha.
 


 

Acredito sem dúvida que uma pessoa cega deve ter tantas experiências quanto for humanamente possível e que isso é especialmente verdadeiro para crianças cegas. Quer seu filho ou filha esteja em casa, quer frequente um internato, é vital para a sua futura independência que lhe seja dada formação adequada na cozinha. Tais experiências devem começar numa idade muito precoce.

Minha própria experiência me proporcionou uma compreensão clara de como, muitas vezes, pais e professores bem intencionados afastam crianças cegas de participar do dia-a-dia da cozinha. Eu sou cega, e cresci numa escola residencial. Nada era esperado de mim. Ia para a sala de jantar, comia minhas refeições, sacudia as migalhas das minhas saias, e subia as escadas para a prática do piano ou leitura de um livro. Em casa, uma agenda ocupada não me deu a oportunidade de eu aprender a cozinhar mas a minha mãe esperava a minha ajuda noutras tarefas de cozinha. Depois de concluir meus estudos e me tornar uma dona de casa bem sucedida (com muito ensaio e erro), tive a oportunidade de ensinar economia doméstica a alunos cegos no Centro de Ajustamento e Orientação para Adultos, da Comissão de Cegos de Iowa.

Muitos dos jovens com quem trabalhei, ao ensinar na Comissão de Iowa para Cegos, eram graduados do ensino médio. A maioria deles sabia muito pouco sobre a cozinha. Eles tinham tido economia doméstica, mas a maioria nunca havia preparado nada. Especialmente os homens. Eu tinha um jovem que, quando lhe foi solicitado para me trazer a cafeteira de café, trouxe-me, em seu lugar, o liquidificador. Ele realmente não sabia como era uma cafeteira. Ele normalmente ficava satisfeito com o privilégio de abrir a geladeira e encontrar as coisas para o almoço. Fazer um sanduíche era algo que ele nunca tinha sido autorizado a fazer. Descobri que alguns dos meus alunos pensavam que sabiam como fazer rosquinhas, mas quando o projeto real foi realizado, verifiquei que somente tinha sido permitido a eles passarem estas rosquinhas no açúcar. Tinham sido enganados sem uma "experiência real". Isto ilustra apenas um exemplo dos inúmeros equívocos em que caem muitos alunos cegos.

Muitos dos meus alunos tinham vergonha de admitir que eles eram tão empobrecidos em experiências da cozinha, e diria que eles sabiam como fazer algo, quando realmente não tinham ideia de por onde começarem. Uma menina insistiu que sabia como bater natas para uma salada de frutas. No entanto, ela começou a derramar as natas sobre a fruta, ligou a batedeira, e acabou espalhando a cobertura de creme e as frutas por toda a cozinha. Alguns estudantes tinham problemas para se servirem e limparem após as refeições, para não mencionar cozinhar esta refeição.

Tudo isso é para dizer que, no mínimo, lhes têm sido negadas muitas experiências. Quando permitido o privilégio de um treinamento adequado e oportunidade, aprenderam rapidamente estas tarefas comuns do dia-a-dia. Avidamente, tentam superar-se em relação àqueles alunos que receberam esta instrução. Eu sinto que é errado não esperar que todas as crianças de uma família possam contribuir para o funcionamento e manutenção de uma casa. A uma das minhas melhores alunas, filha de uma mãe cega, não somente lhe era permitido estar na cozinha, mas era esperado que contribuísse com a sua participação regular. Estava à vontade na cozinha, tinha experiência de base e possuía confiança de sucesso em qualquer empreendimento culinário.

As crianças cegas DEVEM compartilhar as tarefas da cozinha. Mostre e ensine-lhes todo o tipo de tarefas, desde as coisas divertidas até às enfadonhas. Ela não deve ser poupada mais do que qualquer criança com visão. Não deixe sua criança crescer pensando que o pão é assado quando toca o teto do forno, não sendo capaz de identificar e utilizar pequenos instrumentos de cozinha, sem saber o que é um litro de leite, ou não saber como espalhar a manteiga em seu pão. O tempo que você despende com o ensino destas competências é um investimento no futuro do seu filho.

Uma atitude positiva é essencial para o sucesso. Se você realmente acredita que o cozinheiro cego necessariamente passa por muitos riscos de segurança, precisa de uma grande quantidade de equipamentos especiais, tem somente um repertório limitado e elabora produtos questionáveis, então você vai fazer um mau trabalho. Se você realmente acredita que o cozinheiro cego pode escolher entre vários métodos para trabalhar com todos os tipos de alimentos e produzir produtos de alta qualidade, então você vai encontrar um caminho de sucesso.

 

Tempo de alimentação. Tempo de aprendizagem

Na época em que o seu filho começa a alimentar-se por si mesmo, mais aprendizagens de experiências tornam-se possíveis. Se você parar e pensar por um minuto será capaz de pensar em muitas oportunidades de aprendizagens na cozinha. Por causa do tempo que muitas famílias despendem na cozinha, ela é uma natural sala de aula para qualquer criança.

Na maioria das famílias, um ou mais membros despendem tempo na cozinha preparando e servindo refeições. Compartilhando este tempo com uma jovem criança com deficiência visual, apresentamos outra aprendizagem para a criança e oferecemos mais oportunidades de amadurecimento.

 

Conceitos de Cozinha

Quente/Frio:
Comece a identificar alimentos quentes e frios para sua criança a fim de ajudá-la a associar a sensação tátil com o rótulo. Contraste o ar frio do refrigerador com a temperatura elevada da porta o forno. Vegetais gelados são frios e crocantes, mas você usualmente os come quente.

Olfato/Paladar:
Introduza a criança na variedade dos diferentes aromas associados com a cozinha - ou odores dos temperos e alimentos crus, em cozimento ou cozidos. Ajude-a a começar a associar um aroma com o nome, sabor ou à sensação tátil. Como uma laranja cheira antes de descascada? Como ela parece? Que tal um ovo? Uma cebola?

Guardando/Empilhando:
Providencie para a criança um local na cozinha no qual ela tenha acesso a um sortimento de vasilhas, panelas, utensílios plásticos de cozinha. Quando o entretenimento acabar, ajude-a a guardar os objetos. Assim que estiver mais velha, ela pode ajudar a empilhar e guardar os pratos limpos.

Aprendendo sobre o espaço:
Um excelente jogo para a cadeira alta é fazer cair objetos no chão. Isto pode ser desolador para os pais - especialmente quando é uma xícara de leite que bate contra o chão. Contudo, a queda de objetos é um modo da criança aprender sobre o espaço ao seu redor (a que distância está o chão? Quais os diferentes sons quando um objeto é atirado ao chão? Para onde eles vão?). A criança precisará aprender que muitas coisas (bolas) podem ser jogadas e que outras (alimentos) ficam na bandeja. Alguns pais amarram um pedaço de elástico comprido ao brinquedo e a outra extremidade na cadeira alta para eliminar as perpétuas recolhas. Se você tentar isto, certifique-se que um adulto está por perto para prevenir acidentes.

Experimentação:
Quando a criança estiver sentada em sua cadeira, entretida com objetos ou pedaços de alimentos perto de suas mãos, a encoraje a buscar do porquê de estarem lá. Por exemplo: um cubo de gelo dentro de uma xícara, pequenos pedaços de alimentos crus, um conjunto de colheres plásticas de medição, utensílios plásticos de formas estranhas, diversas tampas de panelas.
 


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Ruth Schroeder é cega e professora de crianças cegas. É com base na sua vida e na sua experiência profissional que ela salienta a importância do aprendizado na cozinha para crianças com deficiência visual e a autonomia que essa experiência  lhes pode proporcionar.

LET YOUR BLIND CHILD IN THE KITCHEN, MOM!
by Ruth Schroeder  
Tradução livre de Sonia B. Hoffmann.
in Future Reflections - January/February 1983, Vol. 2 No. 1
Fonte: Diversidade em Cena

 

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15.Nov.2010
publicado por MJA