Sobre a Deficiência Visual

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ENSINO DA MÚSICA A ALUNOS CEGOS OU DE BAIXA VISÃO


Cristina Cunha
 


 
 Institut des Jeunes Aveugles de Nancy, c. 1905

 

Os benefícios da aprendizagem musical e os seus contributos para a integração social/escolar, são largamente difundidos por vários pedagogos, mundialmente reconhecidos, que defendem que todas as crianças têm o direito de usufruir de uma educação que vise o seu desenvolvimento global num processo em que, apesar das diferenças, todas se possam sentir iguais.

A música, como arte que é, surge como um meio de excelência para ajudar o cego em todas as suas especiais necessidades e a integrá-lo numa sociedade onde se espera que ele vença. Segundo Edgar Willems, um reconhecido pedagogo da educação musical do séc. XX, a música, como arte, ciência ou magia, tem estado ligada ao progresso da Humanidade e serve também como referência fiel da cultura dos povos, sendo um meio de comunicação e expressão que permite o desenvolvimento global do ser humano. Com este artigo pretende-se evidenciar de que forma a aprendizagem musical pode contribuir para o desenvolvimento global da criança cega ou de baixa visão.

Em Portugal, com a queda do fascismo, o Centro de Desenvolvimento e Estudos de Lisboa criou, em 1974, um programa de ação musical desde o ensino infantil à formação musical específica, em que se defendia que, desde a iniciação musical, se deveria fomentar o desenvolvimento da criatividade individual e coletiva da criança. Nesse sentido, a música é, desde os primeiros passos, uma escola de liberdade, de responsabilidade de imaginação e rigor, de camaradagem, associativismo e ação, onde se exercita a inteligência e a sensibilidade.

Este programa de ação musical previa ainda o eventual prosseguimento de uma carreira musical, nunca descurando a formação sociopolítica, científica e técnica.

Todavia, com o decorrer dos anos, foram-se perdendo algumas destas linhas de orientação, estando atualmente a educação musical presente apenas a partir do segundo ciclo e sendo opcional no terceiro ciclo. Com o aparecimento das atividades de enriquecimento curricular, AEC's, em 2006, no primeiro ciclo, abriram-se novamente as portas para que, de forma gratuita, se proporcionasse a todas as crianças dos diferentes concelhos um contato mais próximo com esta e outras formas de arte. Atualmente, e tanto quanto me é dado a conhecer, a Música deixou de ser prioridade no 1.º ciclo, onde passou a ser lecionada facultativamente apenas no primeiro e segundo ano de escolaridade, criando-se entre o 1.º e 2.º ciclo uma barreira de dois anos que leva à desvalorização desta arte e à perda de uma fase ideal para o desenvolvimento desta forma de arte.

Por outro lado, o Ensino Especializado de Música em regime articulado que, há cerca de 20 anos, passou a ser uma realidade em Academias e Conservatórios de Música, trouxe nova oportunidade a todos os alunos que, ao ingressarem no 2.º ciclo, pretendessem aprender música, a tocar um instrumento e a saber ouvir e apreciar a Música com espírito crítico e seletivo. O grande entrave, no entanto, é o facto de essas escolas estarem sujeitas ao número de vagas que o Ministério de Educação financia. Nesta modalidade, o aluno frequenta um plano de estudos especificamente adaptado, em que as disciplinas do ensino vocacional substituem algumas das disciplinas do ensino regular.

De facto, e corroborando as palavras de Willems que afirma que a aprendizagem musical constitui uma contribuição artística, cultural e humana que nenhuma outra disciplina está em condições de fornecer ao ser humano, a aprendizagem musical deveria estar acessível a todas as crianças, pois a música pode ajudar a criança a realizar-se e, ao sentir-se realizada, principalmente a criança com algum tipo de deficiência, mostrar-se-á emocionalmente mais estável e, consequentemente, mais predisposta a aprender e a conviver. A meta educativa atual define uma escola que pretende dar resposta à diversidade.

A criança cega, apesar da sua diferença, necessita ser aceite, ajudada e compreendida como qualquer outra criança, e a música, por si só, favorece não só o seu desenvolvimento intelectual e emocional, mas também social, facilitando a sua integração. Uma vivência de experiências auditivas irá ajudar a combater, ou então suavizar, essas dificuldades.

É comum pensar-se que os cegos têm uma ligação especial com a música. Contudo, e apesar de ser uma arte em que o ouvido intervém mais do que os olhos, nada indica que os cegos tenham mais capacidades para a música do que uma criança normovisual. Todas as crianças, independentemente da capacidade visual, têm aptidões musicais que podem e devem ser desenvolvidas.

As razões pelas quais a aprendizagem musical é considerada importante para a formação do indivíduo são várias e abrangem diversos universos, individuais e sociais, graças às muitas investigações, testes, pensamentos pedagógicos e até mesmo pedagogias que, sendo postas em prática comprovam o seu valor.

Para Howard Gardner, professor de Cognição e Educação na Universidade de Harvard, o caminho ideal para aprender a disciplinar-se, passa por tocar um instrumento, embora aceite que esta afirmação possa ser falível. O ser humano é capaz de fazer coisas terríveis e dessas, a sociedade procura naturalmente inteirar-se.

Contudo, também é capaz de fazer coisas maravilhosas, como a Música ou outras formas de expressão artística, e o acesso a esse conhecimento deve ser facilitado e nunca dificultado. Outro argumento utilizado por Gardner é o de que, em todo o ser humano, deve ser dada a possibilidade de, utilizando os potenciais tanto de carácter emocional como racional, desenvolver a inteligência artística, permitindo-lhe o seu desenvolvimento integral e melhorando a sua performance noutras áreas.

Para a criança cega, a vertente social da aprendizagem musical é outro aspeto importante, quando resultante de uma atividade musical, individual ou em grupo, não só pelas questões relacionadas com a sociabilidade mas por toda a influência que pode exercer na auto-estima e auto-valorização da criança.

O processo de aprendizagem musical não terá de ser diferente para as crianças cegas, uma vez que possuem as mesmas capacidades, pois tão importante como o processo de aprendizagem para os cegos, é a maneira como a aprendizagem musical pode ser benéfica e contribuir para a formação integral da criança cega.

Parece oportuno salientar que os vários pedagogos da primeira metade do séc. XX, como E. Dalcroze, C. Orff e Z. Kodály, importantes compositores e pedagogos, propuseram um paradigma filosófico completamente oposto de até então, trazendo um conjunto de ideias e de princípios orientadores de uma prática pedagógica centrada na criança.

Partindo dos interesses da criança e do seu nível de desenvolvimento psicológico e através de uma pedagogia ativa, oposta ao ensino meramente teórico, inovaram-se muitos conceitos da aprendizagem. Desta forma a acessibilidade da música a todas as crianças, independentemente das suas capacidades musicais, e a importância atribuída à experiência musical, à interpretação e à criação, que devem sempre preceder a aprendizagem da teoria, são algumas das ideias, que parecendo hoje evidentes, na altura representaram, face ao tipo de ensino que então se praticava, uma enorme evolução na Educação Musical.

Estes pedagogos foram, antes de mais, músicos que se interessaram pela educação e que advogaram a prática musical como objetivo essencial da educação musical.

Esse objetivo, para Willems, situa-se para lá de toda a aplicação instrumental e refere-se aos elementos fundamentais da música, como o sentido rítmico, ouvido musical, sentido melódico, nomes das notas, graus da escala, improvisação e conhecimentos harmónicos.

Há quem defenda que atualmente damos mais importância à visão do que ao ouvido, principalmente no ocidente, no entanto, o ouvido é de extrema importância para a saúde, uma vez que ele é responsável, durante o sono, por recarregar o corpo de energias e que o seu mau funcionamento pode causar uma diminuição da força vital, logo o ouvido parece assim ter uma maior importância que a visão. Contudo, em vez de caminhar de forma inteligente procurando o equilíbrio dos sentidos, aproximamo-nos de uma hegemonia inexorável da linguagem visual.

Pela lei das compensações, a deficiência de um dos sentidos leva a um desenvolvimento adicional dos outros quatro e é, talvez por isso, que um cego se dá conta de muitas coisas que os normovisuais não se chegam a aperceber, simplesmente ouvem e escutam melhor, caraterísticas estas indispensáveis na educação musical. Um bom desenvolvimento da audição desenvolverá também o ouvido atento, sensível, o ouvido da escuta, analítico, concentrado, conectado, relacionando-se com os outros sentidos e o ouvido musical, para que possa usufruir das sensações proporcionadas pela arte dos sons. Nesta perspetiva, Julio Hurtado, maestro do Coral Allegro da ONCE, afirma que, especialmente para a criança cega, o desenvolvimento da capacidade auditiva difere de pessoa para pessoa, pois dependerá do estímulo, vivência e ambiente socio-cultural. Apesar de se referir especificamente à criança cega, poder-se-á constatar que o mesmo se aplica à criança normovisual.

Quando se questiona sobre a melhor idade para iniciar a aprendizagem musical, esta difere de especialista para especialista. Na Teoria de Aprendizagem, E. Gordon, um dos mais destacados investigadores da atualidade no âmbito da Psicologia e Pedagogia da Música, defende que jamais o potencial de aprendizagem de uma criança é tão elevado como no momento em que ela nasce, dado que escutar funciona como preparação para a criança aprender a cantar e a audiar, quanto mais música uma criança ouvir até aos 18 meses, e quanto maior for a variedade e o equilíbrio entre as experiências auditivas da criança, no que diz respeito a tonalidade, métricas e estilos musicais tanto melhor que ela estará preparada para aprender a cantar, a mover-se e audiar. Sobre outras perspetivas, na generalidade dos pedagogos, a aprendizagem musical poderá iniciar-se a partir dos 3 ou 4 anos.

A Rítmica Dalcroze, ensinada por Joan Llongueres, músico e educador musical catalão, na década de 1930 a crianças cegas, traduziu-se em resultados muito interessantes de observar uma vez que, a perceção auditiva, com a coordenação corporal e com exercícios realizados num espaço controlado, ajuda as crianças cegas a ganhar mais segurança e fluidez de movimento, devido ao desenvolvimento de uma maior consciência corporal, assim como da capacidade de expressão. Os exercícios de reconhecimento de diferentes alturas e direções do som e de timbres, intensidades e simultaneidade de planos sonoros, contribuíam para melhorar a orientação e a mobilidade das crianças cegas.

 

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 Escola de Música Joan Llongueres
 

Para Julio Hurtado, a técnica vocal é uma prática importante para o desenvolvimento da audição, em todos os aspetos acima referidos, principalmente se a criança cega estiver num momento de realização pessoal, ajudando-as tanto na sua relação social como na compreensão e análise do seu ambiente sonoro.

A educação musical moderna tem como um dos principais objetivos desenvolver a criatividade espontânea que ocorre das experiências musicais da criança. Essas mesmas experiências irão ajudar a criança a melhor compreender o seu meio, tornando-a sensível e recetiva aos sons, tornando-a emocionalmente mais equilibrada e mais criativa. As canções são, por muitos pedagogos como Willems, Kodály ou Orff, um meio para o desenvolvimento global da criança. A aprendizagem de canções, com e sem texto, em conjunto com o movimento, ajudarão a desenvolver a memória que, para as crianças cegas, corresponde a uma suprema necessidade, visto ser basicamente a fonte de armazenamento de informações. Contudo, de acordo com a psicologia da memória, nem sempre a criança memoriza a totalidade da informação. Quando assim acontece, e se a informação foi passada de forma chamativa e organizada, poderá bastar uma palavra, um ritmo ou um movimento para que a criança se lembre de toda a canção.

Por todo o mundo existem Sociedades, Associações, Institutos e Centros, que promovem a educação e integração das pessoas cegas ou de baixa visão. A informação fornecida pela Internet é um recurso eficaz para se conhecer melhor o que se faz pelos cegos, em cada parte do mundo. Também em Portugal, a criação de instituições/escolas para crianças cegas assomou desde 1887. Também pela Direção Regional de Educação de Lisboa, o Centro de Recursos da Deficiência Visual, chegou a realizar ações de formação em musicografia Braille. Destinadas a professores de apoio educativo e a professores de música, visavam a assimilação da musicografia Braille, assim como defendiam o papel decisivo da formação musical, no desenvolvimento cognitivo, psicomotor e na fluência de leitura do Braille.

Em suma, poder-se-á concluir que a aprendizagem musical e os seus benefícios, contribuem para o desenvolvimento emocional, criativo e social da criança cega, pois a música é uma fonte enriquecedora. O som, o ritmo, a melodia e a harmonia, são elementos que exaltam o que de melhor tem o ser humano, o que faz da música um fator cultural fundamental.

Por tudo isto, o professor de música, muito embora possa sentir maior responsabilidade sobre a sua atuação como educador, deverá sentir-se mais responsabilizado, comprometendo-se, enquanto educador e membro da sociedade, a contribuir para o desenvolvimento saudável e global da criança. Se todos cumprissem com a sua verdadeira função, com certeza que não haveria discriminação.

Seria de esperar que os Conservatórios e Academias de Música pudessem, em conjunto com os centros de recursos, proporcionar aos cegos uma prática mais aprofundada da aprendizagem musical. Com a frequência do ensino especializado de música em regime articulado, os custos seriam bastante reduzidos, assim como a carga horária, e a criança teria a possibilidade de desenvolver o seu potencial artístico. Para tal, será necessário que haja professores que se sintam vocacionados para ensinar crianças que, com um potencial musical igual a outras crianças, apenas aprendem de maneira diferente. Esta realidade já existe em países como Espanha, e até mesmo em Portugal.

Exemplo disso é o trabalho que professores da Academia de Música José Atalaya, em Fafe, têm vindo a desenvolver desde o primeiro ciclo com uma aluna com deficiência visual e que, neste momento, frequenta, em regime articulado, o 11o ano do Curso Secundário de Piano. É uma aluna que tem vindo a obter muito bons resultados, tanto na formação geral, como na formação artística. Apesar das escolas que frequenta não serem da mesma área do centro de recurso, com empenho das escolas e a determinação da aluna e família, essas dificuldades têm vindo a ser ultrapassadas. Exemplos como este deveriam ser replicados em maior número.
 

 

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ENSINO DA MÚSICA A ALUNOS CEGOS OU DE BAIXA VISÃO
por Cristina Cunha - Professora de Formação Musical na Academia de Música José Atalaya em Fafe

fonte: Revista Louis Braille, n.º 18 (2016)

 

 

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Publicado por MJA
[11.Nov.2016]