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 Sobre a Deficiência Visual

Alfabetizando a Criança Cega

Projecto Nova Visão

Blind kid in Vietnam - foto de Tiet Ho
Vietnam - fotografia de Tiet Ho

 

INTRODUÇÃO

No momento em que nasce uma criança cega ou que uma criança perde a visão, influências psicológicas dela própria e do meio ambiente começam a moldar o seu desenvolvimento. É durante a infância e a adolescência que o indivíduo assenta os padrões de comportamento (atitudes, sentimentos, hábitos) que o acompanharão durante a vida. A sociedade é em grande escala responsável pela integridade desses padrões.

A cegueira não representa mera ausência ou imperfeição de um único sentido; ela muda e reorganiza inteiramente a vida mental do indivíduo, pois ela traz uma série de limitações. O mecanismo sensorial e o processo de observação são organizados de maneira diferente do vidente. Não é possível tratar uma criança cega como se ela possuísse o mesmo potencial perceptivo da criança que vê, pois a organização perceptiva no vidente é obtida através de todos os sentidos, ao passo que no deficiente visual ela é obtida através dos sentidos remanescentes. A forma mais objetiva de experiência humana é a visual; só ela dá detalhes que nenhum outro sentido pode fornecer. Ao mesmo tempo traz objetos em relações simultâneas de posição, tamanho e forma. Isso é facilmente percebido pela criança vidente o que não acontece com a criança cega, à qual falta a objetividade que a visão dá.

A visão é o primeiro sentido, pelo qual, forma, tamanho, altura e largura são distinguidas e, na ausência, a percepção sofre um conseqüente retardamento. Sem a visão, inúmeros detalhes não são percebidos e a percepção da forma, assim, como a extensão, só será obtida pelo desenvolvimento motor. É importante que seja normal este desenvolvimento, pois nenhuma criança é capaz de perceber o tamanho e reconhecer a verdadeira forma de um objeto através do movimento de dedos insuficientemente controlados e sem coordenação. Visto que o objeto tocado é o único que a criança cega conhece, ela deve ser suprida com abundância de material para manusear e explorar.

A falta de estimulação tátil pode ocorrer de duas maneiras:

  • pela apresentação de objetos de padrões táteis demasiadamente complexos;
  • por objetos que oferecem pouca variedade de forma e solicitam manipulação diminuta.

Uma simples bola de borracha, tem muito mais valor educativo para a criança cega do que uma boneca. A forma de bola é cheia de significados para a criança, ela a percebe e a aprecia totalmente ao passo que a boneca nunca poderá, por si mesma, oferecer os significados típicos que tem para criança que enxerga.

Primeiramente a criança cega deverá explorar formas simples e aos poucos, gradativamente, outras mais complexas. O reconhecimento de vozes e a repetição de rimas e melodias indicam que audição é o caminho mais objetivo para a estimulação da criança cega, embora ela, inicialmente, por um tempo relativamente longo, ouve de maneira muito subjetiva, pois é muito demorado o processo pelo qual a criança cega aprende as relações diretas entre o som ouvido e o objeto sonoro. Este processo envolve explorações e identificações táteis de objetos, só conseguidas quando a criança alcança leve locomoção. O som que o adulto normal percebe é tão rico em relações espaciais e tão invariavelmente atribuídos ao objeto sonoro, que é difícil para os pais de crianças cegas compreenderem que a audição como tal, tem muito valor objetivo e de orientação. A fim de possuir esta objetividade, percepção do som deve sugerir seu lugar e sua origem. Portanto, uma bóia sonora ou um chocalho tilintante, quando seguros pelas mãos, criam uma realidade espacial e objetiva. São de imenso valor educativo.
 

PERÍODO PREPARATÓRIO

Para tornar a criança D.V. (cegos e portadores de Visão Sub Normal) pronta para iniciar a alfabetização é necessário que se faça o “período preparatório”. Qualquer aprendizado novo requer um período de preparação. Isto não é diferente para os alunos D.V. quando vão aprender a ler e escrever.

O Período preparatório é a fase que antecede a alfabetização. Neste período damos às crianças, um tratamento especial para que adquiram experiências, técnicas e habilidades necessárias e indispensáveis ao aprendizado sistemático da leitura e escrita Braille. Esta é a fase em que o professor tem que trabalhar o autoconceito dos alunos para que cresçam afetivamente. Aprender a ler e a escrever exige preparo e por isso as atividades oferecidas aos alunos D.V. devem atender aos fatores físicos, intelectuais e sócio-econômicos.

A preparação antes da alfabetização é importante, tanto pelas experiências que visam diretamente à correta aprendizagem de ler, escrever e falar, quanto pelas atividades que permitam um conhecimento global da criança. É importante, também, propiciar o desenvolvimento da habilidade de pensar dando à criança condições de enfrentar situações novas e usar experiências que já possui, adquirindo informações que necessita. Ao professor cabe fazer um diagnóstico seguro das dificuldades de seus alunos e prepará-los, planejando e realizando atividades que as predisponham à necessária prontidão.

Para a percepção dos caracteres braille, que consistem em combinações variadas em relevo, existe uma elaboração mental variável de indivíduo para indivíduo. Vimos então, que além da necessidade de coordenação motora, é indispensável às atividades da leitura e escrita Braille, o desenvolvimento da coordenação motora fina e discriminada, que está diretamente relacionada aos pequenos músculos das mãos e dos dedos. Prontidão refere-se essencialmente ao tempo, ao momento, à maneira pela qual certas atividades podem ser ensinadas e não às capacidades inatas da criança.


Objetivos do período preparatório:

  • conhecer a base de experiências que a criança já possui;
  • educar os sentidos;
  • enriquecer suas experiências;
  • desenvolver o pensamento e a linguagem;
  • favorecer a formação de bons hábitos e atitudes.

Duração: alterna de acordo com as necessidades das crianças;

As atividades devem ser planejadas de modo que os objetivos sejam atingidos. Considerando o aspecto mecânico da leitura e da escrita Braille vemos a necessidade de desenvolver essencialmente a coordenação motora fina, estabelecendo liberdade e ritmo destes movimentos. A escrita exige ritmo, precisão de movimentos, firmeza de punhos, destreza na manipulação do material, posição correta para escrever e qualidade. Para isso, três pontos importantes devem ser trabalhados: legibilidade, rapidez e estética.

O material específico reglete e punção, devem ser introduzidos neste período para que o D.V. se familiarize com eles e aprenda a manipula-los com habilidade. Este material deve ser usado como um recurso para treinar a coordenação motora.
 

Habilidades indispensáveis à alfabetização:

A aquisição das habilidades essenciais ao ensino da leitura e da escrita faz-se gradualmente, por ordem crescente de dificuldades.

1) Treinamento da percepção e discriminação visual: Os exercícios relacionados a esses aspectos devem ser elaborados, primeiramente, com objetos, depois com desenhos e figuras e, finalmente, com palavras obedecendo às fases do concreto, semiconcreto e semi-abstrato. Tem como finalidade desenvolver as habilidades de perceber semelhanças e diferenças em tamanho, forma, cor, posição, detalhes e conceitos básicos.

2) Treinamento da percepção e discriminação auditiva visando as três fases:
> Sons não vocais (ruídos, instrumentos musicais, sons graves e agudos produzidos por objetos);
> Sons vocais (de animais e de pessoas);
> Sons em palavras (rimas palavras que começam e terminam com o mesmo som);

3) Percepção e discriminação tátil: O sentido tátil é mencionado como o sentido da pele. As mãos e outras partes do corpo podem pegar, apalpar, sentir, puxar e empurrar para obter informações. Este sentido está muito presente na vivência da criança D.V.. É através dele que ela reconhece, localiza e discrimina seu corpo e os objetos que a cercam, pela forma, tamanho, textura, volume temperatura, etc. Sem o treinamento tátil a criança D.V. terá dificuldade para interpretar os caracteres Braille.

4) Coordenação motora: Desenvolvimento dos grandes e pequenos músculos do corpo através de exercícios livres e sistematizados, procurando incentivar a criança a descobrir as possibilidades do seu corpo (consciência do esquema corporal) Pedir à criança que passe o dedo nos orifícios da reglete da direita para a esquerda. (Observar para que ela perceba todos os orifícios.) Reconhecer formas de letras Braille feitas em tamanho grande, em espuma.

Para o controle motor da escrita Braille:

  • Os pontos serão dados na ordem de dificuldade.
  • Repetir muitas vezes cada ponto do conjunto, até a automatização.
  • O movimento da escrita é feito da DIREITA para a ESQUERDA (na reglete)


PONTOS: ESCRITA - LEITURA - Depois de um treinamento intensivo poderá ser dado um ditado de pontos. Mais tarde ela associará o conjunto de pontos às letras e algarismos.

5) A orientação temporal-espacial: O movimento é a base para a percepção do espaço e do tempo. Ao lado da percepção é, igualmente importante a percepção do tempo. Estas duas noções estão intimamente ligadas. Para à criança D.V. o tempo é o espaço vivido, cada movimento no espaço tem um ponto de partida e um ponto de chegada, implicando numa duração. As noções de velocidade, de duração e de sucessão (passado, presente e futuro -- antes, agora e depois), em cima, embaixo, à direita, à esquerda.
Formar figuras com palitos de fósforos, observando os exemplos: Reconhecer formas iguais. Mostrar um cartão como modelo e pedir a criança que identifique a forma numa série. Dominó com símbolos em Braille feitos em espuma.

6) Classificação: Operação que consiste agrupar objetos em classes ou categorias (de acordo com a espécie, forma, função, tamanho, cor).

7) Seqüenciação: Solução de problemas que envolvem a identificação do próximo elemento (numa série, identificar o elemento que continua).

8) Ordenação temporal: Operação que serve para organizar as ações que se sucedem no tempo, e estabelecer relações de causa e efeito.
Ex.: Saber o começo, meio e fim de uma história. Ordenação de cenas que se sucedem no tempo utilizando cartões.

9) Análise e síntese: Operação que compõe objetos, figuras e palavras.

10) Memorização: Operação que consiste em treinar a memória.
Exemplo: Decorar poesias, músicas, recados, etc.

11) Concentração, observação e atenção: Os exercícios indicados para o desenvolvimento da percepção, discriminação, memória visual e auditiva servem também para desenvolver a capacidade de observação da criança.
Ex.: Transmitir recados; Executar jogos que tenham regras; Obedecer a ordens e instruções.

12) Capacidade de estabelecer relações (associação das idéias): Essa habilidade é necessária à criança mesmo no início da aprendizagem. Se a criança tiver iniciativa na solução de pequenos problemas, certamente caberá estabelecer relações entre os fatos e isto lhe facilitará a interpretação dos textos de leitura.
Exemplos: concluir histórias inacabadas. Agrupar figuras que relacionem (punção, reglete – sapato, pé – chapéu, cabeça).

13) Linguagem oral: Objetivo: Realizando qualquer atividade, do “período preparatório”, a criança encontra oportunidade para ouvir e se expressar. No entanto, determinadas atividades poderão favorecer particularmente o desenvolvimento da linguagem oral. Proporcionar a socialização da criança e estimulação da linguagem oral:
Atividades sugeridas: Conversa informal, hora da história, dramatização, declamação, relato de ocorrências, recados e avisos, ouvir sons mecânicos (fitas, cd, etc), coro falado, canto, visita às diversas dependências da escola e leitura incidental.

14) Vivências e experiências: Contribui para o desenvolvimento da capacidade intelectual, das possibilidades de expressão e do conhecimento das crianças.
Atividades sugeridas: Excursões, organização de coleções, cuidados com plantas e animais, participação em festas cívicas e sociais, atividades criadoras.

15) Hábitos de classe: Para que a criança D.V. adquira esses hábitos o professor deve incentivá-lo a trabalhar em grupo, a ter senso de responsabilidade e o respeito pelo próximo.
Atividades sugeridas: Cooperar com os colegas, guardar sempre o material, aguardar a vez na fila, usar formas de cortesia: por favor, com licença, obrigado.

16) Desejo de ler: Para desenvolver na criança o desejo de ler, é aconselhável que o professor lhe ofereça oportunidades para que encontre sentido em todo material de leitura.
Exemplo: Colocar etiquetas no material da classe.

17) Esquema corporal

A criança orienta-se em relação a posição que seu corpo toma no espaço. Fazendo-a ter consciência das diferentes posições que seu corpo pode tomar, ela adquire a sensação de estabilidade corporal. Colocando a criança de pé, deitada ou inclinada ela facilmente compreenderá os planos verticais, horizontais e oblíquos. Muito usados, também, deverão ser os exercícios de esquema corporal sem movimentos, afim de que seja despertada na criança a sensibilidade articular, fazendo-a adquirir uma correta imagem do seu próprio corpo. Isto irá facilitar a mobilidade e postura do deficiente visual.

Conhecimento das partes do corpo e localização dessas partes:

  • A criança mostra seus membros, movendo-os ao mesmo tempo em que toca as próprias articulações, assim: “Mexa com o seu ombro... com o seu cotovelo ... com o seu pulso.” A criança coloca a mão na articulação para sentir o movimento.
  • Mandar executar movimentos simples. (Coloque a mão na cabeça)

Os exercícios de Gnosia Digital (Conhecimento dos dedos) devem ser feitos quando se desenvolve o esquema corporal, assim:

  • Opor o polegar a todos os dedos;
  • Pegar objetos pequenos, colocar na mesa, com o polegar e o indicador em movimento, de pinça.
  • Montar as partes do corpo de um boneco feito de papelão ou de madeira.

Durante este período o professor já percebeu as diferenças que os alunos apresentam quanto aos interesses, habilidades, meio social e experiências anteriores, saberá portanto, o momento oportuno de como e quando iniciar o ensino sistemático, da leitura e escrita, seja qual for o método e processo escolhidos. Cabe ao professor especializado adaptar-se ao processo, preparando o aluno e o material a ser utilizado.
 

PREPARAÇÃO PARA LEITURA

Para o aluno cego adquirir bons hábitos de leitura, o professor especializado deve, além dos exercícios para coordenação motora fina, usar material com pontilhos braille.

Podemos dar uma folha de papel com linhas cheias para exercitar a técnica da leitura, linhas constituídas de combinações iguais de pontos, intercalados com outras diferentes para que o aluno as identifique.  Exemplos:  l l l l x l l l l x l l l l x llll

Exercícios com versos, frases ou palavras conhecidas da criança.

Exemplos: -- Parabéns para você escrito várias vezes, uma em cada linha. ou
Dar uma folha de papel com vários nomes escritos, entre os quais o nome da criança para que ele o encontre.
 

OBSERVAÇÃO:

No Jardim da infância ou no Período Preparatório, todos os objetos da criança deverão conter o seu nome em Braille e mesmo em cima de sua carteira. Os brinquedos como boneca, bola, carro deverão ter etiquetas em Braille assim como os diversos objetos da sala de aula: carteira, quadro de giz, mesa, etc.

A sala deverá ser ornamentada com objetos e gravuras em relevo de conhecimento das crianças penduradas à altura delas e com os respectivos nomes colocados em Braille. A criança cega só terá oportunidade de se familiarizar com seu material de leitura se isto for fornecido pelo professor especializado, o que é muito restrito. Por isso faz-se necessário que ela se familiarize com o sistema de pontos logo que tiver condições.
 

TÉCNICA DE LEITURA

Faça com que o aluno use as mãos corretamente, para que não adquira hábitos erróneos que depois de instalados será difícil corrigir.
 

OBSERVE BEM A POSIÇÃO DAS MÃOS.

As duas mãos juntas na linha, com os dedos indicadores deslizando sobre linhas pontilhadas ou sobre as letras das palavras. Seguir até dois terços da linha, Depois a mão esquerda volta pela mesma linha até o início. Passe para a linha seguinte enquanto a mão direita continua lendo até o fim. A mão direita volta ao encontro da esquerda na linha seguinte, repetindo os movimentos. Os exercícios de leitura deverão ter uma duração de 15 a 20 minutos.
 

PREPARAÇÃO DE EXERCÍCIOS

Os exercícios da fase de alfabetização, precisam ser variados e devem obedecer a uma gradação no nível de dificuldades que vão surgindo. Os exercícios devem favorecer a autonomia do alfabetizando. O professor, deve mesclar no decurso do processo da alfabetização, atividades escritas e leituras. No começo da realização das tarefas, o professor deverá deixar uma linha em branco entre os exercícios.
 


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Fonte: Projecto Nova Visão
 

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3.Fev.2013
publicado por MJA