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 Sobre a Deficiência Visual


O Milagre

Irving Wallace

excerto

Hope - George Frederic Watts, 1885
Esperança - George Frederic Watts, 1885


Veneza

A última vez em que ela embarcara numa lancha particular, num cais próximo do Aeroporto Marco Polo, seguindo para o Hotel Danieli Royal Excelsior, em Veneza, fora numa deslumbrante manhã de sol, três anos antes.

Natale Rinaldi lembrava-se nitidamente daquela manhã. A viagem maravilhosa na lancha, passando por campos e pântanos, ilhotas incontáveis, a entrada num canal, os prédios húmidos, de um cinza-sujo, nos dois lados, a saída na laguna principal, tremeluzindo, o espetacular Hotel Danieli, com as varandas brancas em miniatura se projetando em cada andar.

Fora um estranho retorno a Veneza naquela manhã, em total escuridão, embora sua Tia Elsa lhe garantisse que a manhã estava tão ensolarada quanto em sua última visita.

A escuridão envolvera permanentemente o mundo de Natale uma semana depois que voltara ao apartamento dos pais em Roma, ao término daquelas férias em Veneza, três anos antes. Ensaiara durante a tarde inteira e pelo início da noite no Teatro Goldini para o seu papel como a Enteada em Seis Personagens à Procura de um Autor, de Pirandello, parte do repertório de Outono e sua primeira oportunidade real. Fora para o apartamento e seu quarto exausta, mas estimulada pelas predições do diretor sobre o que o futuro lhe reservava. Deitando-se, contemplara reconfortada o papel de parede de padrões beges que a cercava — conhecia-o desde a infância — apagara o abajur e fechara os olhos. Quando o despertador tocara, às nove horas da manhã, e abrira os olhos, descobrira-se perdida na escuridão. A princípio, confusa, não fora capaz de compreender, mas depois concluíra que perdera a visão. De alguma forma, em algum momento da noite, ficara totalmente cega. E se pusera a gritar. Seria a primeira e última vez que se entregaria ao pânico.

Os pais frenéticos levaram-na às pressas para um hospital. O melhor oftalmologista de Roma fora chamado. Houvera um exame de fundo de olho. E oftalmoscopia. Muitas semanas de exames, a fim de determinar a causa da cegueira. Houvera a discussão sobre uma obstrução na artéria retiniana central. E, finalmente, o veredicto: atrofia ótica, abrupta, sem qualquer possibilidade de recuperação da visão.

Três anos antes, quando acontecera, Natale ficara assustada e profundamente abalada, mas não destruída. Aos 21 anos, antes da súbita escuridão, era uma moça alegre, jovial, otimista. Como os pais católicos, acreditava inquestionavelmente em Deus, Seu Filho e o Espírito Santo. O Senhor sabia o que era melhor e velaria por ela. Desde o início da cegueira que Natale se recusara a vergar ou mergulhar no desespero e auto-compaixão. Decidira resolutamente ser tão independente e jovial quanto possível. Embora forçada a renunciar à sua promissora carreira no teatro, tentara manter a vida que conhecia. Rejeitando um cã

o de guia, recusando uma bengala branca, estimulara sua Tia Elsa a guiá-la e ensinar como se movimentar por conta própria, no apartamento, na rua, na loja de antiguidades que os pais possuíam na Via Veneto. Tia Elsa, a irmã mais moça de sua mãe, fora uma companheira perfeita, uma solteirona realista e prática, chegando aos 50 anos. Natale amava os pais, mas fora difícil enfrentar as emoções deles. Adorava Tia Elsa, que era sólida e estável.

Ela continuara a visitar os amigos e a ir ao cinema, concentrando-se nos diálogos. Mudanças superficiais incluíram a adoção de óculos escuros em todos os momentos, o, aprendizado de Braille e a assinatura de um serviço de Livros Falados. Quanto à igreja, passara a freqüentar a missa mais assiduamente e a rezar mais vezes quando estava sozinha. O maior sacrifício fora se negar os encontros e passeios com homens a sós. Sempre houvera muitos, provavelmente por causa de sua beleza, mas com a sua desvantagem não quis era se envolver mais a fundo, a fim de não se tornar o fardo de alguém. Naquele verão, pela primeira vez desde a cegueira, sentira vontade de tirar férias, voltar a Veneza por algumas semanas, a última cidade além de Roma que vira e amara antes da perda da visão. Por mais compreensivos e indulgentes que os pais fossem, nenhum dos dois pudera acompanhá-la a Veneza, em plena temporada turística de Roma, o período mais movimentado do ano. Mas concordaram que Tia Elsa, que era a gerente da loja, podia levar Natale.

Agora, no quarto familiar da suite de dois cômodos no terceiro andar do Hotel Danieli, Tia Elsa desfazia as malas, enquanto Natale se postava na frente das duas camas, cantando ao trocar de roupa, em preparativo para a primeira incursão pelas ruas. Natale já pusera jeans e camisa de malha justa (sabendo, por tateara costura interna, que era a atraente amarela, que tão bem contrastava com seus cabelos escuros, lustrosos e lisos). Com dedos firmes, ajeitou os cabelos e prendeu-os na nuca com uma fita. Tateou pela cama em busca dos óculos escuros, ajustou-os sobre o nariz pequeno, mas perfeito. Virou-se na direção das malas e perguntou:

— Estou bem, Tia Elsa? Está tudo direito?

— Está perfeita e linda, como sempre.

— Não está sendo preconceituosa?

— Sempre lhe disse que poderia ganhar qualquer concurso de beleza. Por que não? Saiu a mim.

Natale riu, lembrando que sua atarracada Tia Elsa, com seus cabelos pretos desgrenhados e um princípio de bigode, sempre achara que todos os outros eram bonitos. Natale ouviu a tia se aproximar, gostou do abraço afetuoso da companheira, da testa comprimida contra seu rosto. Tia Elsa tinha l,58m de altura, enquanto Natale possuía, l,68m, esguia e graciosa. Ela pegou o braço de Tia Elsa.

— Vamos sair. Pode terminar de arrumar as coisas depois. Quero ver Veneza outra vez. — Ela sentiu que Tia Elsa estremecia inconscientemente ao uso da palavra "ver" e acrescentou, determinada: — Isso mesmo, tia, verei tudo se me apontar as coisas. Lembrarei com toda a exatidão.

— Está certo — disse Tia Elsa. — Já estou pronta.

— Iremos à Piazza — decidiu Natale, pegando sua bolsa, estendida pela tia. — Quero tomar um suco de fruta no Quadri, dar uma volta pela Mercerie e depois almoçar no Harry's Bar.

Deixando a suíte, Natale não permitiu que a tia a guiasse. Partindo de um ponto fixo familiar, a suíte, sentia-se segura. Estivera em Venezae no Danieli muitas vezes, com os pais, durante a adolescência. A última visita, três anos antes, ainda estava fresca em sua mente. Segurando na grade, ela desceu alguns passos à frente de Tia Elsa, recordando que o lanço seguinte da escada, terminando no saguão, era de mármore. No saguão, ela andou mais devagar, permitindo que Tia Elsa a alcançasse. Sorrindo, acenava com a cabeça em resposta aos cumprimentos de vários dos funcionários mais antigos, que haviam-na conhecido ao longo dos anos e agora estavam informados de seu estado. Lá fora, na Riva degli Schiavoni, Natale perguntou:

— Como é o dia? Sei que está quente e um pouco abafado.— O sol está fora, mas o dia é nebuloso. Fará bastante calor por volta de meio-dia.— Tem muita gente?— Enxames de turistas. Muitos alemães, britânicos, um grupo de japoneses. Saberá de tudo quando chegarmos à ponte. A ponte formava uma arcada sobre um canal, a Ponte delia Paglia, na qual os visitantes sempre se concentravam para fotografar a Ponte dos Suspiros, a passagem alta à direita, que levava do Palácio dos Doges às masmorras ducais, de onde Casanova escapara certa ocasião. Quando adolescente, Natale lera as passagens proibidas das Mémoires de Casanova e se perguntara o que o convertera num amante tão legendário ou se tudo não passava de autopromoção. Fantasiara Casanova a amá-la e concluíra que era a variedade que ele oferecia, assim como a sua resistência, que excitara tantas mulheres, de todas as classes sociais.

As duas andavam em meio a um incessante burburinho de vozes em muitas línguas. Natale sentiu de repente a pressão da mão de Tia Elsa em seu braço.

— Tem ali três rapazes, creio que locais, que pararam e estão olhando para você, estupefatos.— Por que sentem pena de mim?— Eu disse estupefatos, sua estúpida. Eles não sabem que há qualquer motivo para sentir pena. Só podem ver uma moça deslumbrante, com um sutiã inadequado por baixo de uma blusa de malha que parece grudada na pele. Estão impressionados.— Claro, claro... — murmurou Natale, como se não acreditasse, embora se sentisse bastante satisfeita.— Estamos na ponte. Vamos subir. A Ponte della Paglia estava apinhada, como sempre acontecia. Mas desta vez Natale encontrou algum prazer nos esbarrões e cotoveladas, ao chegarem lá em cima. Foi mais fácil descer e atravessar a calçada na direção das duas colunas de granito da Piazzetta. Natale podia imaginar o lado colunado do Palácio dos Doges, à direita, enquanto à esquerda estavam as gôndolas pretas atracadas, balançando suavemente, tendo além o magnífico San Giorgio Maggiore, emergindo da laguna faiscante.

— Há uma porção de stands de livros e vendedores ao longo do palácio ducal — comentou Tia Elsa.— Sempre tem. Natale podia recordar que fora vasculhando aqueles stands que encontrara pela primeira vez Byron, Stendhal e Ruskin em brochuras italianas, devorando-os vorazmente.

— O Caffè Chioggia não está muito cheio neste momento — disse Tia Elsa. Natale imaginou o comprido café com as mesas ao ar livre, estendendo-se ao Palácio dos Doges, onde outrora flertara com um tímido rapaz americano, que tivera receio de abordá-la.

— Já estamos na Piazza San Marco? — perguntou ela.

— Quase lá. Nada mudou. Lá está o Campanile, alto como sempre. Os quatro cavalos de bronze ainda estão por cima da fachada da Basílica. A Piazza está... você sabe... movimentada como sempre, os pombos andando a bambolear à procura de milho, alçando vôo quando as crianças os perseguem. É a mesma coisa, Natale, Veneza nunca muda.

— Graças a Deus.

— Quer sentar um pouco?

— Seria bom. Estou com sede.

— Ainda quer ir ao Quadri? A música acaba de começar ali.

— Isso mesmo, vamos sentar no Quadri.

Inexplicavelmente, o Quadri, com suas pequenas mesas circulares cinzas e cadeiras de vime amarelas, um pequeno coreto nos fundos, sempre fora o seu café predileto. O Caffè Lavena, ao lado, parecia ter menos personalidade, enquanto o Florian, no outro lado, embora o mais antigo dos cafés da Piazza, construído em 1720, freqüentado por Lord Byron, sempre dava a impressão de receber sol demais. Mas o Quadri, em sua última visita, fora o mais repousante. Estavam atravessando a Piazza San Marco e Natale podia ouvir os gritos das crianças e o barulho dos pombos alçando vôo. Torceu para não pisar em nenhum, mesmo sabendo que isso jamais acontecera com pessoa alguma.

Aparentemente, haviam chegado ao Quadri, pois Tia Elsa estava dizendo:

— Há uma mesa vaga ali na sombra. Natale deixou que Tia Elsa lhe pegasse a mão e a conduzisse entre as mesas. Parando, Natale tateou à procura da cadeira, sentou-se e ficou escutando a música, enquanto Tia Elsa pedia um suco de toranja para a sobrinha e uma Coca-Cola com uma fatia de limão para si mesma.

Estavam tomando os refrescos em silêncio, Natale contente por se encontrar em Veneza, não se permitindo um momento sequer de infelicidade por não poder ver a cidade outra vez, pensando que já era maravilhoso estar viva (na verdade, apenas semiviva, mas ela reprimiu tal pensamento), quando o clangor metálico de um sino próximo fê-la se empertigar na cadeira. Só podiam ser os mouros mecânicos por cima de suas cabeças, no alto da Torre do Relógio, batendo no enorme sino.

— Que horas são? — perguntou Natale.

— Exatamente uma hora. Tarde demais para fazer compras na Mercerie. A maioria das lojas estará fechada até as três. Mas algumas podem estar abertas.

— Vamos deixar para depois. Quero ir logo para o Harry's Bar. Estou faminta e lá é sempre mais fresco. Enquanto esperava que a tia pagasse a conta, Natale ouviu passos pesados e sentiu uma presença parar ao seu lado. Instintivamente, levantou os olhos, enquanto ouvia uma sonora voz masculina de barítono dizer:

— Perdoe-me, mas julguei reconhecê-la. Não é a Srta. Rinaldi, de Roma? Aturdida, Natale assentiu.

— Sou o Signore Vianello. Peço outra vez que me perdoe, mas não pude resistir a me certificar e cumprimentá-la.

— Vianello... — repetiu Natale, confusa.

— Sou produtor teatral em Roma. Estou aqui em férias. Eu a vi pela primeira vez... e tinha certeza de que era a mesma atriz... num ensaio de uma peça de Pirandello, no Teatro Goldini, há vários anos. Fui levado por um amigo, não me lembro quem. Mas não pude esquecê-la. — Ele hesitou por um instante e depois acrescentou: — Não quero interrompê-las... Natale apressou-se em apresentar Tia Elsa e depois murmurou:

— Obrigada.— Eu esperava vê-la na noite de estréia, mas não estava mais no elenco — continuou o produtor. — Soube depois que se aposentara. — Ele fez uma pausa, rindo. — Aposentadoria, para alguém tão jovem? Seja como for, eu me lembrei ao vê-la aqui na Piazza. Natale tencionava detê-lo, mas aquele Vianello parecia incontrolável e continuou:

— Tenho uma peça nova que planejo produzir. Escolherei o elenco dentro de um mês. E há um papel perfeito para você, se estiver interessada. Natale não podia permitir que aquela conversa se prolongasse por mais tempo e disse, abruptamente:

— Será que não percebe, Signore Vianello? Estou cega.

— Você está...? Ela ouviu-o respirar fundo bruscamente, compreendeu que ele estava desconcertado, totalmente embaraçado.

— Lamento muito — acrescentou Natale.

— Eu não tinha a menor idéia... — E Vianello balbuciou o resto: — Parece... parece... melhor do que nunca. Mas muitas dessas coisas são temporárias. Tenho certeza de que vai recuperar... a visão completa. Se isso acontecer, quero que me procure. Deixarei meu cartão. Aqui está. Natale estendeu a mão para pegar o cartão, mas aparentemente o produtor o entregara a Tia Elsa.

— Obrigada, Signore Vianello — disse Tia Elsa. — Talvez as coisas mudem. Se isso ocorrer, lembrarei à Srta. Rinaldi.

— Faça isso, faça isso... — murmurou o Signore Vianello. — Espero rever as duas. Divirtam-se nas férias. Seguiu-se o silêncio. Ao que tudo indicava, o Signore Vianello batera em retirada às pressas. Natale sentiu a mão da tia em seu antebraço.

— Vamos para o Harry's Bar. Ainda contrariada, Natale disse:

— Não sei se ainda estou com fome.

— Pois então beberemos alguma coisa lá — disse Tia Elsa, forçando Natale a se levantar. — Vamos embora.

Natale deixou que Tia Elsa a guiasse para a Piazza. Podia ouvir os malditos pombos. Sentiu que Tia Elsa lhe soltava o braço.

— Espere um instante. Lá está um homem com Il Gazzettino. Vou comprar. Quando a tia se encontrava outra vez ao seu lado, com o jornal veneziano, começando a afastá-la, Natale perguntou:

— Onde estamos exatamente?

— Na frente da Basílica, a caminho da Piazzetta. E de lá viraremos à direita para chegar ao Harry's Bar.

— A Basílica... — repetiu Natale, apaticamente. — Está aberta?

— Claro.

— Quero entrar.

— Tem certeza?

— Por um momento... Quero rezar.

Tia Elsa, que não sentia a menor afeição por igrejas, declarou em tom resignado:

— Está certo, se isso ajudá-la a esquecer aquele idiota.

— Ele não fez nada de errado, Tia Elsa. O pobre coitado não sabia. Na verdade, eu deveria estar me sentindo bem por ele ainda se sentir atraído por mim. Apenas senti uma angústia momentânea... pelo que me falta. Podemos entrar na igreja?

Natale seguiu com Tia Elsa pela escuridão, sentindo as tábuas sob seus pés, escutando os passos e as vozes abafadas. Depois de fazer uma genuflexão, foi para um dos bancos e ajoelhou-se. Rezou ao Deus que não podia acreditar que fosse capaz de abandonar alguém. A breve comunicação com seu Criador acalmou-lhe os nervos, deixou-a outra vez serena. Levantou-se, sussurrando:

— Tia Elsa?

— Estou aqui.

— Vamos almoçar.

Ela saiu com Tia Elsa para a escuridão do dia. Segurava a mão de Tia Elsa enquanto atravessavam a Piazzetta. Tentava desesperadamente reconstituir o cenário ao longo do canal. Só falou uma vez, ao passarem pelo Giardinetti, especulando em voz alta.

— A velha com todos os gatos ainda está aqui?

— Está bem ali, alimentando a todos.

— Há gente boa neste mundo.

Enquanto passavam pelo terminal aéreo, contornando-o, atravessando a pequena ponte, esbarrando em pessoas que vinham apressadamente da estação do vaporetto de San Marco, Natale ficou pensando que se Deus podia encontrar alguém para tomar conta de gatos perdidos, por que não podia demonstrar misericórdia com ela, proporcionando a algum médico um meio recentemente descoberto de curá-la? Era um momento raro de autocompaixão e desânimo. Ao chegarem às portas de vaivém do Harry's Bar, ela sentia-se envergonhada e pesarosa por seu lapso, determinada a tirar o máximo proveito do simples fato de estar viva.

Lá dentro, ficou aliviada ao constatar que estava realmente mais fresco, que não havia uma multidão a se acotovelar ou vozes estridentes.

— Tem pouca gente almoçando aqui hoje — sussurrou Tia Elsa. — Temos o lugar quase todo só para nos. Natale ouviu o bartender dizer, do lado esquerdo:

— É um prazer tornar a vê-la, Srta. Rinaldi.

— É muito bom estar aqui de novo, Aldo.

Tia Elsa falava com alguém, provavelmente um garçom, dizendo:

— Ficaremos naquela mesa do canto, contra a parede dos fundos. Segurando a mão da tia, Natale avançou entre as cadeiras e mesas, esbarrando em algumas. Sentiu uma pontada de angústia, recordando as mesinhas redondas laqueadas e as cadeiras pequenas, as pessoas fascinantes que conhecera ali, as refeições que tanto desfrutara. Ao se acomodarem na mesa do canto, o garçom disse.

— Sou Luigi. Lembra de mim? Natale sorriu, recordando o garçom bonito, de covinhas, sempre maravilhosamente divertido e amável.

— Estou contente, Luigi. Já faz muito tempo.— Soubemos de sua doença, Srta. Rinaldi — disse ele, gentilmente.— Tenho certeza de que estará melhor um dia. Todos aqui rezamos por sua recuperação.

— Você é maravilhoso, Luigi, e fico grata por suas orações.

A voz de Tia Elsa interveio, firmemente:

— Creio que podemos começar por dois Bellinis, Luigi.

— Imediatamente — prometeu o garçom, afastando-se.

Natale ficou esperando pelo drinque de suco de pêssego e champanha, algo de que bem precisava. Ouviu a tia riscar um fósforo para acender um cigarro, aspirar a fumaça que flutuou em sua direção, a seguir escutou-a descrever as poucas pessoas que se encontravam no restaurante. Pouco depois, Natale ouviu Luigi voltar a pôr os drinques na mesa, dizendo:

— Dois Bellinis. Espero que estejam ao gosto. Pegando o copo, Natale tomou um gole. O Bellini estava gelado e revigorante. Ouviu a tia abrir o jornal.

— O bom e velho Il Gazzettino — comentou Tia Elsa. — Deixe-me leras últimas notícias. Normalmente, todos os dias, alguém, o pai ou Tia Elsa, lia o jornal para ela, a fim de mantê-la viva, envolvida, parte do mundo em ebulição. Hoje, Natale não estava com ânimo.

— Agora, não. Neste momento, não estou interessada.

— Você precisa se reanimar, Natale — disse Tia Elsa, num tom de suave censura. — Deve... A tia parou de falar, de súbito. Estava obviamente lendo alguma coisa no jornal. E, depois, exclamou.

— Ei, imagine só!

— O que é — murmurou Natale, desinteressada.

— A Virgem Maria. A história de Lourdes na França. A Virgem Maria deve voltar a Lourdes. A princípio, Natale não entendeu.

— Do que está falando?

— Deixe-me ler o que está escrito aqui. — Limpando a garganta, Tia Elsa começou a ler em voz alta a notícia do jornal:

"Segundo um diário secreto mantido por Bernadette Soubirous, agora Santa Bernadette, falecida em 1878, registrando as 18 aparições da Virgem Maria, a quem ela viu e conversou na gruta chamada Massebielle, em Lourdes, na França, a Virgem Maria confidenciou à pequena camponesa que retornaria à gruta nos oito dias subseqüentes a 14 de Agosto deste ano. A Virgem Maria teria prometido a Bernadette que não apenas retornaria para ser vista por alguém na gruta, mas também curaria alguém que estivesse doente. Este relato no diário particular de Bernadette, recentemente descoberto, foi plenamente autenticado por uma nova Comissão de Lourdes. O anúncio, feito numa entrevista coletiva ontem pelo Cardeal Brunet, de Paris, autorizado pelo Papa João Paulo III, emocionou uma grande concentração de representantes da imprensa mundial. Provocou um movimento intenso de peregrinos por toda parte, procurando transporte e acomodações em Lourdes, para o emocionante Momento da Reaparição."

Natale escutara com um excitação crescente, que a princípio quase a sufocara, fazendo o coração palpitar incontrolavelmente, até que pouco a pouco um rubor se espalhara por seu rosto.

— A Santa Mãe de Deus voltando a Lourdes para ser vista, para curar... - sussurrou ela.

— Bom... — Eu acredito — sussurrou Natale, com veemência. — Se a Virgem Maria prometeu a Bernadette, vai acontecer.

— Pode ser um desses exageros sensacionalistas dos jornais — comentou Tia Elsa, tentando acalmar a sobrinha.

— Leia o resto... quero ouvir tudo.

— A matéria é comprida, Natale.

— Leia cada palavra: E volte ao início. Quero ouvir tudo.

— Se você insiste...

— Por favor, Tia Elsa.

— Está bem.

Em voz baixa, sem qualquer inflexão, não desejando incomodar ninguém no Harry's Bar, Tia Elsa leu todo o relato do jornal, do princípio ao fim. Natale ouviu absorta, como se estivesse em transe. Depois que a tia terminou a leitura, Natale declarou, firmemente:

— Vou para Lourdes. Tenho de estar lá.

— Ora, Natale...

— Estou falando sério, Tia Elsa. Quero estar perto da Virgem Maria, rezar para ela na gruta. É a chance de uma vida. Ela pode decidir curar a mim. Acabou de ler a notícia sobre as milhares de curas.

— Seja sensata, Natale. Conheço sua fé e não a contesto. Mas, levando-se em consideração o número de pessoas que têm visitado Lourdes, ano após ano, somente uma percentagem mínima, ü menor possível, fica curada...se é que ocorre realmente uma cura. Conhece a história de meu pai... seu avô. Quando eu era da sua idade, acompanhei-o a Lourdes por alguns dias. O artritismo deixava-o entrevado e ele também esperava uma cura. Lembro dele a rezar e rezar naquela gruta, mas nada aconteceu. E quando voltamos para casa, em Nápoles, ele ficou pior. Você terá de ser paciente e esperar pelos avanços da medicina, que certamente virão e um dia lhe permitirão recuperar a visão.

— Não está entendendo, Tia Elsa. Tenho de ir a Lourdes. Acredito nisso.

— Todo mundo acredita na metade do mundo... mas a maioria dos crentes não se dá ao trabalho de ir.

— Pois eu vou — insistiu Natale. — Passaremos nossas duas semanas aqui em Veneza e depois voaremos para Lourdes, para o início dos oito dias sagrados.

— Não voaremos para Lourdes, Natale. Eu não posso ir. Você deve ser prática. Seus pais me deixaram fazer esta viagem com você, mas tive de jurar que estaria de volta à loja um dia depois das férias terminarem. Seus pais precisam de mim, Natale. Não posso fazer isso.

— Pois então irei para Lourdes sozinha. Você me põe no avião e daremos um jeito para que uma dessas ajudantes voluntárias... as que são mencionadas no jornal...

— Brancardiers — informou Tia Elsa. — Pessoas que vão a Lourdes todos os verões para ajudar os peregrinos. São homens e mulheres, como minha amiga Rosa Zennaro. Você já a encontrou várias vezes. Há meia dúzia de anos que ela sempre vai a Lourdes para ajudar, por bondade de seu coração.

— Muito bem, então será Rosa. Tenho certeza de que ela me ajudará. Arrume tudo para que eu seja inscrita num grupo que tenha acomodações e possa me ajudar no caminho. Assim, não terá qualquer problema. Por favor, Tia Elsa, dê-me essa oportunidade. Natale ficou esperando por uma resposta, ouviu a tia deixar escapar um longo suspiro e finalmente ceder.

— Está certo, menina. Não adianta argumentar com a fé. Você venceu. Vamos almoçar e voltar para o hotel. Telefonarei para a família de Rosa em Roma e descobrirei como podemos entrar em contato com ela em Lourdes. Salvé, Maria, estamos indo ao seu encontro. Agora, vamos ser práticas. O que vai ser? Um sanduíche quente de prosciutto ou tagliatelle verdi. [...]
 

***

Domingo, 14 de Agosto

Lourdes

— Como é? — perguntou Natale Rinaldi, segurando o braço de Tia Elsa. Ela sabia que estavam entrando no hotel, mas era sua primeira visita a Lourdes, um território desconhecido.

— Lá na frente está escrito, em dois lugares, que é o Hotel Gallia & Londres. Parece um hotel muito agradável. — Tia Elsa descreveu a entrada, o saguão e as salas de descanso mais além, perguntando em seguida: — Como se sente, minha querida?

— Estava quente lá fora — respondeu Natale. — Pude sentir o calor por todo o caminho desde o aeroporto.

Elas haviam deixado Veneza de trem para pegarem o avião em Milão, um jato fretado da Aer Lingus por uma peregrinação romana a Lourdes; receberam a permissão de seguir no vôo, embora não integrassem a peregrinação.

— Há pessoas se registrando na recepção — informou Tia Elsa. — E eu acho... isso mesmo, lá está Rosa Zennaro, provavelmente indagando se já chegamos. Espere um pouco aqui, Natale, enquanto vou verificar.

Natale ficou parada na escuridão, tentando recordar Rosa Zennaro, a amiga romana de sua tia, que todos os anos vinha a Lourdes para servir como ajudante de enfermeira e que concordara em prestar-lhe toda a assistência necessária, depois de sua chegada. Natale recordou Rosa vagamente, uma mulher alta e magra, uma viúva com renda suficiente para viver e que não era dada a conversa amena, competente e taciturna, cabelos pretos e lisos, talvez com 50 anos. Natale sentia-se segura sob a sua guarda. Como viera da escuridão para a escuridão, tinha de dizer a si mesma que no início daquela manhã se encontrava em Viena, depois fora para Milão e agora estava em Lourdes, um lugar de salvação sagrada, em que vinha pensando incessantemente há duas semanas. E também sentia-se segura em Lourdes. Era um bom lugar, escolhido pelo Senhor e Sua Mãe a Virgem para operar maravilhas em pessoas que mereciam. Ela esperava ser uma dessas pessoas. Nos últimos três anos de escuridão nunca esperara tanto por uma coisa.

— Natale — disse Tia Elsa — era mesmo Rosa quem estava na recepção e a tenho aqui a meu lado. Encontrou-se com ela algumas vezes antes de seu problema.

— Estou lembrada. — Ela estendeu a mão. — Olá, Rosa. Uma mão forte e macia apertou a sua.

— Seja bem-vinda a Lourdes, Natale. Estou muito feliz que você tenha vindo. Natale sentiu a respiração quente e sentiu os lábios secos de Rosa encostarem em sua face. Tentou retribuir o beijo. E ouviu de novo a voz de Rosa:

— Tornou-se uma moça muito bonita, Natale.

— Obrigada, Rosa…

Tia Elsa interveio, pegando o braço de Natale:

— Não devemos perder mais tempo. Já a registrei e tenho a chave de seu quarto. É o 205. Acho melhor subirmos, verificar se sua bagagem já foi entregue e depois partirmos. Mal terei tempo de pegar o vôo para Milão e depois o último avião para Roma. Prometi a seus pais que estaria no trabalho amanhã de manhã. Mas você estará em boas mãos com Rosa. — Ela puxou Natale ligeiramente, acrescentando: — Estamos seguindo agora para o elevador, Natale. Fica à esquerda de quem entra no saguão. E ao lado tem uma escada que desce para o restaurante. Há uma mesa reservada em seu nome e três refeições por dia já estão pagas. Deixando o elevador, Natale sentiu Rosa pegar sua mão. E ouviu Tia Elsa dizer:

— Lá está o quarto, a quinta porta à esquerda do elevador. Natale avançou confiante pelo corredor, junto com Rosa, deixando-se guiar para o quarto.

— É um quarto agradável? — perguntou ela.

— Bastante agradável e limpo, graças a Deus — respondeu Tia Elsa. — À esquerda da porta há uma escrivaninha e uma cadeira, junto da parede. Pouco antes da mesa, o banheiro. No outro lado, na mesma parede, tem uma cômoda com cinco gavetas, mais do que suficiente. A parede bem em frente tem uma janela de bom tamanho. Na parede do lado direito tem um armário com prateleiras para roupas e cabides. Há duas camas estreitas encostadas na parede da direita. Tirarei a colcha da cama mais próxima da janela, a que você provavelmente usará. Tem uma mesinha-de-cabeceira e ali porei o seu relógio de viagem. Deixarei a sua mala em cima da outra cama, por enquanto. Ainda tenho tempo para guardar suas roupas na cômoda e no armário. Direi onde está cada coisa, enquanto guardo. Mas Rosa estará com você todos os dias, até levá-la de volta a Roma. Ela pode lembrar qualquer coisa, caso você esqueça.

— Não esquecerei — garantiu Natale.

Natale foi informada que haviam transcorrido 20 minutos quando Tia Elsa terminou de arrumar suas coisas.

— Detesto ter que deixá-la, Natale, mas agora preciso correr. Tornaremos a nos encontrar depois de uma semana.

— Talvez dentro de uma semana eu possa ver você.

— Assim espero.

Natale achou que o tom da voz da tia era de dúvida, mas sentiu e gostou do seu abraço e beijo afetuosos. Beijou-a em retribuição.

— Obrigada por tudo, Tia Elsa... pelos dias maravilhosos em Veneza, pelo trabalho de me trazer até aqui, por pedir a Rosa para me ajudar.

— Deus a abençoe, querida — murmurou Tia Elsa, deixando o quarto em seguida. Por um instante, Natale sentiu-se terrivelmente sozinha, até que ouviu a voz de Rosa ao seu lado:

— Muito bem, Natale, aqui estamos. Gostaria de descansar agora ou dar uma volta pela cidade?

— Eu gostaria de ir direto para a gruta. Preferia deixar o passeio pela cidade para outra ocasião. Neste momento, quero passar o máximo de tempo possível na gruta, oferecendo minhas orações à Virgem. Não se importa?

— Irei para onde você quiser, Natale. E acho que a gruta é boa idéia. Vai animá-la de verdade. Fica a poucos minutos do hotel.

— É para lá que eu quero ir.

— Ainda está quente lá fora. Quer tirar essas jeans e vestir uma roupa mais fresca?

— Acho que sim. Tem um vestido estampado de seda no armário.

— Eu o encontrarei. Natale ouviu-a encaminhar-se para o armário e disse:

— Rosa, esta visita pode ser curta. Eu gostaria de fazer outra, mais demorada, depois do jantar...

Pondo o vestido nas mãos de Natale, Rosa explicou:

— Esta noite não poderei ajudá-la, Natale. Sinto muito, mas já me comprometi a comparecer ao Centro de Hospitalidade todas as noites para empurrar uma cadeira de rodas na procissão das velas. Mas estarei disponível para ajudá-la todas as manhãs e tardes. E também deixarei de comer com os outros voluntários para acompanhá-la ao jantar no hotel. Mas logo depois do jantar terei que deixá-la em seu quarto e voltar correndo para o domínio. Não vai se importar, não é mesmo? Terá um dia inteiro na gruta e depois do jantar poderá descansar, escutar o rádio, dormir um pouco.

Natale torceu para que seu desapontamento não transparecesse. Largando o vestido de seda, ela baixou o zíper da jeans e tirou-a.

— Não se preocupe, Rosa. Compreendo perfeitamente. Darei um jeito. Ela daria mesmo um jeito, pensou Natale, enquanto punha o vestido de seda por cima do sutiã e da calcinha. Aprendera a andar sozinha em Roma e descobriria agora o caminho para ir à gruta e voltar, sozinha, todas as noites. Por mais difícil que pudesse ser, não perderia as noites de oração solitária na gruta. Fora para isso que viera até aqui. Para entrar em contato com a Virgem. E aprenderia a fazer isso sozinha. No momento em que saíssem do quarto, contaria os passos até o elevador, encontraria os botões para subir e descer, aprenderia a encontrar a saída do hotel, lembraria que direção virar quando chegasse à rua, não esqueceria as voltas subseqüentes para alcançara gruta. Era eficiente nessas coisas, já o fizera antes, possuía uma boa capacidade de memorização, como atriz.

— Se meu vestido está direito, então já estou pronta — anunciou ela.

Sentiu a mão de Rosa em seu cotovelo e ouviu-a dizer:

— Pois vamos embora.

Deixando o quarto, Natale pôs-se a contar os passos e memorizá-los — tantos passos até o elevador, tantos passos depois de sair do elevador, atravessando o saguão e a arcada para a Avenue Bernadette Soubirous. Virar à direita. Passos pela rua até a esquina. Sinal de trânsito.

— Há geralmente uma caminhonete da polícia, vermelha com uma listra branca ao redor, parada nesta esquina, até 10 horas da noite — Rosa estava explicando. — E se a caminhonete não está, então tem um ou dois guardas a pé.

Guardas, memorizou Natale, para ajudá-la a atravessar a rua até a outra esquina. Passos passando pelo café Le Royale, passando por mais lojas, até uma loja de souvenirs, chamada Sainte-Thérèse/Little Flower.

— Viramos aqui à direita e atravessamos a avenida, até uma rampa comprida que nos deixará no domínio. Natale continuou a contar e memorizar. Passos através da avenida para a rampa. Passos descendo a rampa.

— Estamos agora na base da rampa, Natale. À esquerda, a uma curta distância, fica a Basílica do Rosário. Contornando-a, para a direita, chega-se à gruta. Quer entrar na basílica?

— Não agora, Rosa. Comparecerei à missa e à confissão amanhã. Agora, quero ir à gruta.

— Muito bem, vamos à gruta. Estamos passando pelas basílicas. E agora por uma arcada ao lado, levando para a área da gruta. Natale caminhava em passos firmes ao lado de sua ajudante e amiga, contando silenciosamente os passos para a área da gruta.

— Estamos passando por uma livraria que vende livros e folhetos a respeito de Bernadette. Vamos passar por uma série de torneiras que despejam água da fonte e depois por um stand que vende velas. Ao lado da gruta, mais além, tem outras duas torneiras e depois os banhos com água da fonte.

— Pare-me diante da gruta — pediu Natale, suavemente, recomeçando a contar os passos.

— Aqui, à nossa esquerda... — Natale sentiu as mãos firmes de Rosa virando-a. — ... fica a gruta. Há muitas pessoas na frente, em bancos, cadeiras, ajoelhadas no chão, algumas em fila mais adiante para entrar.

— Quero entrar. Natale contou os passos enquanto Rosa a conduzia para a fila. Com Rosa na frente, segurando sua mão e exortando-a a se adiantar, Natale foi andando, hesitante, contando de novo. Em determinado momento, quando pararam, Rosa sussurrou:

— Você está no lugar em que acredito que Bernadette se ajoelhou. Natale assentiu e ajoelhou-se abruptamente, rezando em silêncio. Ao se levantar, ouviu Rosa dizer:

— Está dentro da gruta. Pode tocar a parede interior com a mão direita. A mão de Natale procurou pela parede; ao constatar que estava tão perto, inclinou-se e beijou a superfície lisa e fria. Sentindo-se melhor pelo ato, Natale continuou atrás de sua ajudante, deixando Rosa guiá-la pelo que parecia um semicírculo através da gruta, até saírem finalmente no outro lado. — Quer que eu lhe mostre mais alguma coisa do domínio? — perguntou Rosa.

— Quero ficar aqui na frente da gruta e rezar.

— Há bancos vagos nos fundos. Com este calor, é melhor se sentar lá atrás quando quiser rezar. Depois de se sentarem, Natale pegou seu rosário e se entregou a uma profunda oração e contemplação. Ela calculou que talvez meia hora passara quando Rosa, que a deixara sozinha, voltou e disse:

— As pessoas já estão saindo para o jantar. Está na hora de irmos. Eu a levarei de volta ao hotel exatamente pelo mesmo caminho por que viemos. Natale levantou-se e, com a mão na de Rosa, seguiu a companheira até a base da rampa que levava à rua por cima, sempre contando os passos. Subindo a rampa, ela continuou a contar. Lá no alto, fazendo uma pausa para recuperar o fôlego, ela pôde comparar os passos da volta com os da vinda, constatando que era quase os mesmos, divergindo apenas por algumas passadas mais curtas. E dali a pouco estavam de volta ao saguão do hotel, esperando pelo elevador.

Natale sentia-se renovada e enriquecida. Na escuridão de sua mente, tentou divisar o Salvador e Sua Mãe, a Rainha do Céu. Ouviu Rosa falar-lhe mais uma vez:

— Vamos para o seu quarto. Pode descansar um pouco e se lavar. Também farei isso. Depois, desceremos para o restaurante e faremos uma boa refeição. Eu a levarei outra vez para o quarto quando terminarmos e a deixarei. Espero que não se sinta solitária.

— Nunca me sinto solitária — respondeu Natale, com um sorriso. — Terei o suficiente para fazer.

No outro lado do saguão, de frente para o elevador, lá estavam os dois, por trás do balcão de recepção, um deles observando as mulheres prestes a entrarem no elevador.

A mulher gorducha, de meia-idade, por trás do balcão, absorvida no livro-caixa, era Yvonne, a recepcionista regular durante o dia. O outro era um jovem recepcionista recentemente contratado para o turno da noite, chamado Anatole, corpulento, de sobrancelhas espessas, olhos cinzentos, nariz de pugilista, lábios grossos. Natural de Marselha, Anatole viera procurar trabalho em Lourdes e encontrara aquele emprego uma semana antes. E agora Anatole observava atentamente as duas mulheres que entravam no elevador.

— Aquela é a primeira que vejo neste hotel durante toda a semana que me dá vontade de foder — comentou Anatole.

Yvonne, que se acostumara rapidamente à linguagem grosseira do seu assistente, levantou os olhos do livro para acompanhar o olhar dele na direção do elevador.

— Quem, aquela velha?

— Não, sua estúpida, a outra. Está de costas agora, mas observe quando ela se virar para entrar no elevador. A moça deslumbrante. Parece italiana. Já viu peitos iguais? Seus olhos famintos se regalaram quando Natale entrou no elevador. Hipnotizado, contemplou a moça extremamente atraente, os cabelos pretos compridos, os óculos escuros provocantes, nariz empertigado, lábios vermelhos, garganta leitosa envolta pela corrente da cruz de ouro que pendia por cima dos seios pontudos, o vestido leve de verão que parecia ressaltar cada contorno do corpo.

— Ela é para mim — reafirmou Anatole. — A que eu quero comer. Yvonne ficou consternada. — Você está louco, Anatole? Ela é cega.

— E quem disse que se precisa ver quando se está fodendo?

— Anatole, você é grosseiro e incorrigível. E o que está dizendo é absolutamente inadmissível.

— Talvez — comentou Anatole, dando de ombros. — Mas talvez a Virgem esteja do meu lado. [...]


***

Segunda-Feira, 15 de Agosto

Passava um minuto da meia-noite em Lourdes e o segundo dia do Momento da Reaparição começara.

Eram exatamente duas horas da madrugada quando o despertador do relógio de viagem de Natale Rinaldi, na mesinha-de-cabeceira, em seu quarto no Hotel Gallia & Londres, disparou com estridência. Imediatamente desperta, Natale estendeu a mão, tateando à procura, até encontrar o relógio e apertar o botão para acabar com o som persistente. Sentou-se na cama, emergindo de uma escuridão nebulosa, povoada de sonhos, para uma escuridão alerta, a mente focalizando e lembrando que, depois do jantar, armara o relógio Braille para tocar às duas horas da madrugada. Dormira sem tirar o vestido, limitando-se a remover os sapatos, que deviam estar em baixo da cama.

Como sua ajudante, Rosa, não pudera levá-la à gruta pela segunda vez, na noite anterior, Natale resolvera voltar sozinha, quando todos dormiam, a fim de desfrutar o conforto do santuário sem mais ninguém ao redor. Baixando os pés para o chão e calçando os sapatos de saltos baixos, ela experimentou um breve momento de pânico. Especulou se poderia lembrar a direção, a contagem dos passos antes de cada volta, a partir do instante em que deixasse o quarto e se encaminhasse sozinha para a gruta. Mas o vazio momentâneo em sua mente foi logo preenchido pelas fileiras de números em ordem absoluta, os passos que deveria dar a cada volta, saindo do quarto, atravessando o saguão do hotel, percorrendo a Avenue Bernadette Soubirous até à rampa para a Basílica do Rosário, alcançando finalmente a própria gruta. Os números estavam ali, em sua mente, tão certos e nítidos como numa tela de computador.

Aliviada, Natale levantou-se, tateou o caminho até o banheiro, molhou o rosto com água fria, penteou os cabelos. Saiu para o corredor, trancou a porta e pôs a chave num compartimento interno da bolsa, que depois pendurou no ombro. Seguiu para a direita, procurando o elevador, encontrou-o infalivelmente. Tocou no rosário dentro da bolsa, pensando em sua vigília solitária na gruta e as orações que ofereceria à Virgem invisível.

Quando ouviu o elevador chegar, estava pronta para seguir. Nada poderia afastá-la da Virgem que tanto amava e com quem poderia falar a sós.

Arriado numa cadeira, por trás do balcão, o queixo encostado nos cabelos expostos do peito, Anatole cochilava. Um barulho qualquer, familiar mas inesperado, intrometeu-se em seu subconsciente, acordando-o. Abrindo os olhos, ouviu o elevador descendo para o saguão. E escutou o chocalhar quando parou com um solavanco.

Uma rápida olhada no relógio da recepção informou-o de que passavam cinco minutos das duas horas da madrugada.

Era algo incomum alguém usar o elevador àquela hora. Desde que chegara a Lourdes, procedente de Marselha, arrumando aquele emprego tedioso, Anatole nunca ouvira ninguém acordar às duas horas da madrugada naquele hotel de chatos. Durante a semana inteira em que trabalhava ali, o saguão fora como um necrotério entre uma e cinco horas da madrugada. E agora, cinco minutos depois das duas horas da madrugada, alguém estava saindo do elevador. Anatole levantou-se inclinando-se por cima do balcão, enquanto estreitava os olhos para ver melhor. Entre todas as pessoas, era justamente a garota sensacional quem saía do elevador. A garota cega absolutamente deslumbrante. Ele reconheceu-a no mesmo instante. Ali estava ela, em carne e osso. E absolutamente sozinha. Mas que loucura! Que diabo ela estava querendo fazer àquela hora?

A garota parecia saber o que era, pois atravessava o saguão, com alguma segurança, encaminhando-se para a porta e a rua.

Anatole lembrou-se de que trancara a porta do hotel, como fora instruído a fazer, antes de tirar o seu cochilo. A garota, tão sensual, encontraria uma barreira segura, que a impediria de seguir para onde estava indo. Ela merecia a cortesia do hotel, pensou Anatole, e merecia uma olhada mais de perto. E no instante seguinte ele entrou em ação, contornando apressadamente o balcão e seguindo para a porta. A moça já chegara lá quando ele chamou:

— Mademoiselle! Ela parou prontamente, surpresa, depois virou a cabeça. — Sou Anatole, o recepcionista do turno da noite — ele explicou rapidamente. — Sabia que já passa de duas horas da madrugada?

— Sabia, sim — respondeu Natale, sem a menor hesitação.

— E quer sair do hotel a esta hora?

— Tenho um encontro marcado.

— A porta da frente está trancada. Sempre a mantemos trancada depois que todos se recolhem. Mas posso abri-la.

— Pois então abra, por favor.

Anatole já estava puxando a tranca. — Se não vai demorar, posso deixar a porta aberta.

— Eu ficaria agradecida.

— Deixe-me abrir a porta. Anatole passou à frente dela, roçando em seu corpo, sentindo o contato macio daqueles fantásticos seios jovens em seu braço. Puxando a porta, ele observou-a atentamente. Um rosto pálido, deslumbrante, animado apenas pelos óculos escuros. Seios pontudos. O vestido curto, que aderia aos quadris e deixava à mostra as pernas bem torneadas.

— A porta está aberta? — perguntou ela.

— Está, sim. — Anatole mal conseguiu falar. — Posso ajudá-la em alguma coisa?

— Obrigada, mas não há necessidade. Estou bem. Ela passou por ele, saindo para a rua, sem qualquer hesitação. Virou à direita no instante em que seu pé tocou na calçada. Anatole saiu para observá-la. Os passos eram controlados, mas firmes, quase desafiadores. Anatole sorriu. Uma sacana de coragem. Devia ser sensacional na cama. Ele manteve os olhos fixados nela, as pernas maravilhosas, os quadris ondulantes, sentindo-se inflamado pelo desejo.

Tivera muitas mulheres em Marselha, quase sempre prostitutas pagas dos seus escassos ganhos com trabalhos que envolviam atividade manual e algumas mulheres bêbadas e gastas, que faziam qualquer coisa com qualquer um. Mas nunca fora para a cama com uma garota, com uma dama de alta classe, jamais com alguma mulher que parecesse com aquela cega.

Ele continuou a observar o vulto que se afastava pelas poças de luz dos lampiões que desafiavam a escuridão. Ao longe, ela chegou à esquina, desceu da calçada, atravessou a rua, passando pelo café.

Um encontro marcado? Com quem? E logo ele compreendeu. A gruta. Ela ia esperar pela Virgem na gruta. Uma garota estúpida. Como poderia ver a Virgem ou quem quer que fosse? Quando compreendesse que não havia Virgem nenhuma por lá, ela poderia querer alguém mais, alguém que pudesse realmente lhe fazer companhia. Tornando a entrar no hotel, Anatole mal conseguia andar, de tão enorme que era a ereção entre suas pernas. [...]


***

Era bastante difícil à luz bruxuleante das velas lá em baixo, mas Mikel Hurtado continuou a avançar, de quatro, saindo da vegetação mais próxima do nicho que continha a imagem da Virgem Maria e esgueirando-se entre os arbustos e árvores.

Ao despertar do cochilo no hotel, meia hora antes, ele planejara inicialmente levar a dinamite e o detonador para a gruta, escondendo tudo ou armando logo de uma vez. Vestindo-se, mudara de idéia. Ao cair da noite anterior, vira a área da gruta e lhe parecera um local bastante promissor. Agora, ele achou melhor fazer outro reconhecimento, de madrugada quando não havia peregrinos... mas podia haver guardas. Suas experiências em Espanha ensinavam-lhe que era essencial conhecer a situação de segurança de qualquer alvo. Assim, sem o equipamento, ele descera a escada para o saguão, passara pelo sonolento recepcionista da noite, que lhe abrira a porta, saíra para a rua e se encaminhara para o domínio.

Das sombras na base da rampa, Hurtado efetuou um reconhecimento preliminar da área perto do seu destino. Não havia ninguém à vista na Esplanada do Rosário nem nas passarelas que conduziam à Basílica Superior. E parecia também não haver ninguém na entrada da gruta. Quanto à Esplanada das Procissões, como o mapa chamava o local, não havia uma só pessoa em toda a sua extensão. Hurtado já começava a emergir das sombras quando, aparentemente do nada, um vulto surgiu a curta distância... um homem, idoso, um vigia noturno de blusão azul, com um coldre no ombro. Não estava exatamente andando, mais se arrastava, subindo pela Esplanada das Procissões, provavelmente vindo do portão no outro lado, encaminhando-se para a Basílica do Rosário. O vigia parecia andar como um sonâmbulo, bocejando, não olhando para a esquerda nem para a direita, enquanto avançava para as igrejas. Chegando aos degraus diante da Basílica do Rosário, o homem sentou-se para fumar um cigarro. Levou cinco minutos assim. Finalmente, largou a ponta de cigarro, apagando-a com o sapato. Depois se levantou e recomeçou a ronda pelo domínio.

Observando o guarda se afastar, Hurtado consultou o relógio e resolveu marcar o tempo da ronda. Agachando-se e depois sentando, completamente escondido na sombra da rampa, ele esperou pacientemente. E 25 minutos depois o guarda tornou a aparecer, avançando do outro lado do domínio na direção das basílicas. Mais de 30 minutos, quase 35, antes que ele alcançasse a entrada da Basílica do Rosário, mais uma vez descansando e saboreando o cigarro ritual. Outros cinco minutos e o guarda prosseguiu em sua patrulha. Hurtado ficou satisfeito com o tempo. O guarda passava por aquele local a cada 30 minutos, mais ou menos na hora certa e na meia hora. Hurtado esperaria que ele sumisse e depois seguiria para a gruta. Examinaria os arbustos, moitas, as árvores ao lado e por cima da caverna, iria embora quando o guarda se encontrasse no outro lado do domínio. Não haveria problema. Absolutamente nenhum.

Quando o guarda tornou a desaparecer, Hurtado desceu a rampa apressadamente, tão silenciosamente quanto possível, contornando a igreja para chegar à gruta. Também não encontrou qualquer pessoa à vista. Os peregrinos dormiam em suas camas durante a noite e pela madrugada, a gruta ficava abandonada.

Passando pelos bancos e as velas ardendo, Hurtado nem olhou para a gruta. Foi para a encosta relvada ao lado, tentando encontrar o melhor caminho para subir. Não queria seguir a trilha regular, que levava ao topo da colina, muito mais distante. Felizmente, havia indícios de uma trilha antiga, já meio coberta pelo mato, que visitantes aventureiros anteriores haviam usado para subir até as basílicas, de onde teriam uma vista ampla do amplo domínio lá em baixo. Chegando ao meio da colina, paralelo à imagem da Virgem no nicho por cima da gruta, Hurtado virou para a esquerda, de quatro, aproximando-se do nicho, a fim de poder examiná-lo de perto e analisar a possibilidade de colocar a dinamite ali e estender o fio para o detonador.

Agora, essa parte realizada, cada aspecto estudado com cuidado, ele tornava a subir, rastejando para a área de vegetação mais densa, procurando por um lugar obscuro mas perfeito, em que pudesse instalar o detonador. Em pouco mais de 10 minutos encontrou o que procurava, uma depressão natural na terra, ao lado da base larga de um frondoso carvalho. Registrou-o cuidadosamente na mente. Estaria pronto para a noite seguinte.

Aproximou do rosto o relógio de pulso, com seu mostrador luminoso. Era o momento de se retirar. O guarda estaria deixando a área imediata e se afastando na ronda pelo domínio. Erguendo-se, um pouco preocupado com a possibilidade de escorregar, Hurtado foi descendo, lentamente, até que a parte superior das velas ardendo surgiu em seu campo de visão. Cautelosamente, antes de continuar a descer pelo resto do caminho, ele se inclinou para a frente, a fim de verificar se a área na frente da gruta ainda se encontrava vazia. Estava. Não, não estava! Seu coração parou por uma fração de segundo. Havia alguém ali.

Agachando-se, segurando o galho de uma árvore raquítica, ele tentou focalizar a pessoa lá em baixo. Constatou que o vulto era de uma moça, cabelos escuros, usando óculos escuros, ajoelhada em posição de oração. As mãos estavam unidas diante dos seios, aparentemente rezava silenciosamente diante da gruta. Havia algo nela, a ausência de movimento, a imobilidade do corpo, indicando que rezava fervorosamente, num estado de transe. E de repente ocorreu-lhe — pelos cabelos e óculos escuros — que era a mesma moça que vira deixando o quarto ao lado do seu no hotel, durante a hora do jantar, na noite anterior. Mas estar ali sozinha, naquela hora ímpia, em comunhão com a Virgem Maria, excedia tudo o que se podia imaginar em matéria de fanatismo religioso.

E sua presença prejudicava o plano de Hurtado de deixar a área. Não podia correr o risco de ser visto por qualquer pessoa. Teria de permanecer escondido até que a moça parasse de rogar à Virgem e fosse embora.

Ele continuou a olhar para a moça imóvel, em transe, quando subitamente ela começou a se mexer... ou melhor, seu corpo involuntariamente se mexeu. Ela parecia estar balançando, pendendo para o lado, até que finalmente tombou, esparramando-se no chão, inconsciente. Obviamente, sucumbindo ao êxtase religioso, ela desmaiara. Agora, estava encolhida no chão, tão inerte como se estivesse morta.

Instintivamente, Hurtado pensou em descer correndo a encosta — ou pelo menos rastejar o mais depressa possível — para ir ajudar. Mas se ela recuperasse os sentidos e o visse, poderia reconhecê-lo e identificá-lo mais tarde, quando se procurasse suspeitos depois da explosão. Dividido entre o desejo de ajudar e o medo do perigo, Hurtado torceu para que o guarda voltasse logo, visse a moça e a ajudasse. Mas o vigia não voltaria por mais 20 minutos e passaria a alguma distância da gruta, talvez não visse o corpo inerte.

Enquanto o debate interior continuava a atormentar a mente de Hurtado, algo inesperado aconteceu lá em baixo. Um segundo vulto apareceu, correndo, um jovem, encaminhando-se diretamente para a mulher que desmaiara diante da gruta e se ajoelhando ao seu lado. Ele se empenhou em ressuscitá-la, massajando os pulsos inertes, as faces, puxando-a para uma posição sentada. Finalmente a moça mexeu a cabeça, sacudindo-a, recuperando os sentidos. O homem continuou a lhe falar, até que ela finalmente assentiu. O homem levantou-se, foi até as torneiras, recolheu um pouco de água na mão em concha, voltou apressadamente. Molhou o rosto da moça com um lenço. Ela logo ficou plenamente consciente e se pôs a falar. O homem ajudou-a a se levantar. Os pés da moça pareciam firmes, mas um pouco confusos. Havia algo estranho na maneira como ela estendeu a mão, como se tentasse tatear o caminho, antes que o rapaz lhe segurasse o braço e a levasse para fora da gruta.

Foi nesse momento que Hurtado compreendeu que a mulher que rezava tão fervorosamente na gruta provavelmente era cega. Tentando reconstituir o momento em que a vira no hotel, Hurtado lembrou que pensara que ela fosse cega. Esquecera por completo.

Hurtado praguejou baixinho. O problema da moça significava que ela não o teria visto, mesmo que tivesse resolvido deixar o lugar 15 minutos antes. Agora, estava desconfortavelmente preso na encosta, esperando que a dupla se afastasse e que o guarda voltasse e fosse embora outra vez.

Hurtado observou a dupla. Tentou definir o relacionamento entre os dois. A moça certamente dissera ao namorado que iria sozinha para a gruta, marcara para ele ir buscá-la numa hora determinada. E o rapaz chegara um instante depois de ela ter desmaiado.

A dupla se fora agora. Mas o guarda podia ser visto a distância, em patrulha. Lentamente, Hurtado foi rastejando pela encosta abaixo, a fim de estar pronto para partir, no instante em que o guarda se afastasse de novo.

Perto da base da colina, Hurtado esperou que o guarda terminasse de fumar seu cigarro e retomasse a ronda. Sete ou oito minutos passaram e Hurtado concluiu que o homem já partira de novo em sua longa ronda pelo domínio. Cuidadosamente, Hurtado desceu o resto da encosta, sentiu-se aliviado ao pisar outra vez em terreno plano. Satisfeito com o reconhecimento, apesar da demora, convencido de que tudo era propício a seu ato final, que levaria os nacionalistas bascos para mais perto do sucesso, ele se afastou rapidamente, passando pela gruta e pela imponente Basílica Superior, encaminhou-se para a rampa e para o Hotel Gallia & Londres. [...]


***

Levando a moça agradecida — ele descobrira que seu nome era Natale, uma italiana (o melhor tipo) — para o saguão do hotel, ignorando a recepção que deixara abandonada, Anatole conduziu-a ao elevador que esperava. Ela agradeceu-lhe pela centésima vez e insistiu que poderia chegar a seu quarto sozinha. Mas Anatole mostrou-se igualmente insistente em querer escoltá-la em segurança até o quarto.

Subindo no elevador com a moça, Anatole sentia-se satisfeito com aquele golpe de sorte. Depois que a garota deixara o hotel, ele tencionara voltar para trás do balcão da recepção e retomar seu cochilo. Mas todo o interesse em dormir se desvanecera. Sua mente estava repleta com imagens da garota, os peitos, a bunda, a despi-la, penetrá-la. A ereção não cessara. Ele decidira finalmente sair para procurá-la na gruta, conversar, tentar seduzi-la. Convencera-se de que ela poderia querer um corpo quente, um amante francês, poderia se impressionar com a insistência dele na madrugada. Sua intenção era estimulá-la a convidá-lo para ir a seu quarto. Ou então poderiam ir para o quarto dele, a alguns quarteirões do Gallia & Londres, a fim de tomarem alguns drinques e depois caírem na cama. Mas encontrá-la desmaiada, ser o grande herói que a salvara, era muito mais do que Anatole poderia esperar. Agora, ela estava agradecida, o que a deixaria vulnerável. Anatole sabia que só precisava pedir para passar a noite no quarto e a garota prontamente concordaria. Sua ereção, que amainara por um instante, voltava a crescer intensamente. O elevador parou no segundo andar.

— Eu a levarei até seu quarto — disse Anatole. — Qual é mesmo o número?

— Não precisa se incomodar. Conheço o caminho.

— Eu a trouxe até aqui, é melhor deixá-la logo no quarto. Qual é o número?

— Quarto 205. Na porta, Natale vasculhou a bolsa, encontrou a chave e meteu-a na fechadura. Consciente de que o rapaz ainda estava parado ali, ela disse:

— Obrigada. Natale destrancou a porta, empurrou-a e entrou.

O homem seguiu-a, fechando a porta.

— É melhor deixá-la sã e salva aqui dentro — disse ele.

— Já o fez. E agradeço profundamente.

— Está bem?

— Estou, sim. E é melhor eu dormir agora. Obrigada mais uma vez.

Ela estendeu a mão. Pegando-a, sentindo a carne quente, Anatole ficou ainda mais excitado. Apertando a mão firmemente, ele murmurou:

— Quando precisar, estou a seu serviço... Ele puxou-a rápido, comprimindo seus lábios rudes contra os de Natale, beijando-a furiosamente. Ela se debateu, conseguindo desenvencilhar-se. Sua respiração era acelerada e balbuciou:

— O que está querendo?

— Ora, Natale, eu queria apenas beijá-la. Eu... eu gostaria de passar o resto da noite aqui.

— Não pode. E não quero isso. E agora saia, por favor.

— Seja mais camarada, Natale. Você me deve isso. Não quer fazer alguma coisa por mim? Claro que quer.

— Não isso — respondeu Natale, alteando a voz. — Não lhe devo isso. Ela fez uma pausa, esforçando-se por manter o controle. — Foi muito simpático e agradeço o que fez. Mas agora não está sendo gentil e isso não me agrada. Sugiro que não cause mais qualquer problema. Seja um cavalheiro e retire-se imediatamente.

— Está bem, você venceu — disse Anatole, com um falso arrependimento. — Mas você é muito especial, não pode me culpar por tentar. Lamento que não tenha dado certo. Boa noite.

Anatole foi até a porta, abriu-a ruidosamente e depois bateu com firmeza, mas permanecendo no interior do quarto. Silenciosamente, ele se encostou na parede, ao lado da porta fechada.

Natale ficou parada por um momento ao pé da cama, deixando escapar um suspiro de alívio. Depois, tateou ao longo da cama até o armário, estendeu a mão para pegar a camisola branca e largou-a em cima da cama.

Anatole prendeu a respiração, perguntando-se se ela sabia ou não que ele continuava no quarto. Depois, teve certeza de que ela não estava consciente de sua presença; convencera-se de que ele deixara o quarto e que se encontrava sozinha. Observou-a através dos olhos semicerrados. Ela desabotoara o vestido e estava tirando-o. Usava por baixo apenas um sutiã meio transparente e um biquíni sumário. Virou-se para pendurar o vestido no armário e depois recuou para a cama, tirando o sutiã. Os seios fantásticos ficaram à mostra, cheios e firmes, os mamilos como enormes botões marrons, virados em sua direção. Ela estava se abaixando para tirar a calcinha. Anatole prendeu a respiração, o coração disparado em excitamento, o órgão prestes a estourar. A calcinha estava agora lá embaixo, ela levantou uma perna, depois a outra, tirando-a por completo. O triângulo de cabelos púbicos estava visível. Anatole perdera o controle inteiramente, não podia se conter por mais um segundo sequer. Baixou o zíper da calça deixando que a enorme ereção irrompesse, atravessou o quarto para cima de Natale.

Mikel Hurtado, saltando do elevador no segundo andar, avançou pelo corredor para o quarto 206. Passava pela porta do 205 quando ouviu um grito abafado, um grito em algum lugar por perto. Surpreso, Hurtado parou, escutando atentamente. Outro grito abafado, estridente, inequivocamente de uma mulher... e do interior do quarto ao lado do seu.

Ao lado do seu quarto. A moça cega, a moça cega da gruta. O começo de outro grito, sufocado bruscamente. Alguma coisa estava acontecendo lá dentro, alguma coisa terrivelmente errada. Hurtado não perdeu tempo em pensar, não hesitou.

Virando-se, ele avançou para a porta do 205. Podia ouvir claramente a moça a se debater. Pegou a maçaneta, pretendendo jogar o ombro contra aporta e arrombá-la. Mas a porta estava destrancada e se abriu.

Hurtado estava dentro do quarto. E percebeu no mesmo instante o que acontecia... a moça nua na cama, batendo com os punhos, enquanto algum animal, a palma de uma das mãos comprimindo a sua boca, a calça arriada, tentava se colocar por cima dela, entre suas pernas. Um estupro, uma brutal tentativa de estupro, foi o que Hurtado viu. Nenhum dos dois na cama, em sua luta, percebeu que havia mais alguém no quarto.

Enfurecido pelo que via, dominado pela raiva diante do que aquele monstro tentava fazer com uma moça impotente, Hurtado correu pelo quarto até a cama. Suas mãos agarraram os ombros do estuprador, arrancando-o de cima da moça e jogando-o ao chão. Anatole, atordoado pela surpresa, levantou-se cambaleante, estorvado pela calça nos tornozelos, espantado demais para levantar as mãos. Hurtado atacou num movimento rápido, acertando o punho direito no queixo do estuprador e o punho esquerdo em sua barriga.

Enquanto Anatole gemia, dobrando-se, Hurtado desferiu mais socos, acertando na cabeça e rosto. Anatole começou a desmoronar, enquanto Hurtado continuava a desferir os socos implacáveis. Anatole se esparramou no tapete, meio inconsciente, o sangue escorrendo da boca.

Hurtado inclinou-se, segurou o homem por baixo dos braços, arrastando-o através do quarto e saindo para o corredor. Largou ali o atordoado estuprador. Por um momento, Hurtado considerou se deveria chamar a polícia. Prontamente decidiu que não. Era melhor não ter qualquer contato com a polícia durante sua permanência em Lourdes. Em vez disso, acertou um chuto nas costelas do estuprador e disse, em voz baixa, para não despertar os outros hóspedes:

— Saia daqui, seu filho da puta. E saia depressa, ou vou deixá-lo todo arrebentado. Com algum esforço, o medo transparecendo nos olhos arregalados, Anatole levantou-se, segurando a calça, o sangue pingando, a balançar a cabeça. Virou-se, quase tropeçando, cambaleou para a escada. Segurando o corrimão, desceu apressadamente e sumiu.

Hurtado soltou um grunhido e voltou devagar ao quarto da moça. Ela estava de pé, de roupão, amarrando a faixa. Tateou pela cama à procura dos óculos escuros e ajeitou-os no rosto.

— Não se preocupe, senorita, ele já foi embora — disse Hurtado, em espanhol. Ela perguntou alguma coisa em italiano. Ele acrescentou em inglês:

— Não sei italiano. Você fala inglês?

— Falo, sim... chamou a polícia? — indagou a moça, ainda tremendo.

— Não há necessidade — respondeu Hurtado. — Ele não voltará. Acho que é o homem que trabalha lá em baixo como recepcionista noturno. Mas tenho certeza de que ele não voltará ao emprego, provavelmente deixará até a cidade. Está bem agora?

— Apenas assustada.

— Não se culpe pelo que aconteceu. Foi uma coisa horrível. Como aconteceu?

Natale explicou o que ocorrera, como fora sozinha à gruta para rezar, como a intensidade espiritual a fizera desmaiar, como aquele homem surgira para reanimá-la e levá-la de volta a seu quarto, como a fizera acreditar que saíra do quarto, quando na verdade permanecera lá dentro, determinado a violentá-la.

— Graças a Deus que chegou a tempo — concluiu Natale. — Não sei como conseguiu, mas lhe devo muito.

— Foi pura sorte — disse Hurtado. — Eu tinha saído para dar uma volta, estava retornando ao quarto para dormir... meu quarto fica ao lado... quando ouvi seu grito. Ia arrombar a porta, para descobrir o que estava acontecendo, mas descobri que não se achava trancada. — Ele fez uma pausa e depois perguntou: Sente-se melhor agora?

— Muito melhor — respondeu Natale, com um sorriso maravilhoso. Ela contornou a cama, hesitante, tropeçou uma vez, tornou a se empertigar, pedindo desculpas. — Eu... eu sou cega...

— Sei disso. Ela estendeu a mão. — Sou Natale Rinaldi, de Roma.

Ele pegou a mão, apertou-a, soltou-a.

— Sou Mikel Hurtado, da... da Espanha.

— Prazer em conhecê-lo... para dizer o mínimo. Está aqui à espera da Virgem?

Hurtado hesitou por um instante.

— Em busca de cura de um problema de artritismo.

— Talvez nós dois sejamos afortunados.

— Espero que sim.

— Não sei o que mais dizer, a não ser lhe agradecer de novo. Mil vezes obrigada.

— Se quer mesmo me agradecer — disse Hurtado, firmemente — prometa que nunca mais deixará que estranhos a acompanhem até o quarto... e mantenha a porta trancada por dentro. Ela levantou a mão.

— Prometo.

— E agora trate de dormir, Natale. É o que eu vou fazer.

— Boa noite, Mikel.

— Boa noite. Ele saiu do quarto, fechando a porta. Ficou escutando, até ouvir a chave sendo virada. Encostou a boca na porta e disse:

— Boa menina.

Hurtado ouviu-a dizer: Espero que tornemos a nos encontrar.

— Tenho certeza de que nos veremos de novo. Boa noite.

Em sua porta, abrindo-a, Hurtado compreendeu que queria mesmo ver a moça outra vez. Ela era linda, maravilhosa, terna. Nunca encontrara uma moça assim e queria vê-la novamente. Talvez isso acontecesse. Mas tratou de lembrar a si mesmo que ali estava a negócios, não para se entregar a um romance. Devia cuidar só dos negócios dali por diante. Nada de diversões. Nada de fracasso. A Euskadi era a sua vida. A liberdade da Euskadi estava acima de qualquer outra coisa. Havia um trabalho a realizar. Sinto muito, Natale, pensou ele. Só há um amor, a pátria que eu nunca tive, mas ainda terei. [...]


***

— Fiquei tão entusiasmada com a perspectiva, que o Sr. Hurtado se ofereceu para me trazer até aqui.

Hurtado deu de ombros.

— Além disso, eu estava com fome.

Natale riu e voltou a falar, virada na direção de Edith:

— O que desejo lhe falar é o seguinte, Sra. Moore. Devotei todo o meu tempo aqui a rezar na gruta. Não fui aos banhos, porque achei que seria difícil.

— Há mulheres para ajudá-la — informou Edith, logo acrescentando, com compaixão: — Deve tentar os banhos.

— Vim fazer a seguinte pergunta: os banhos constituem o meio mais importante de se alcançar uma cura?

— Não se pode responder a essa pergunta com exatidão — disse Edith. — Falando apenas do meu caso, fiquei instantaneamente curada depois de me banhar na água da fonte. Mas outras pessoas ficaram milagrosamente curadas depois de rezar na gruta, beber a água ou marchar na procissão. Mas o Dr. Berryer é a grande autoridade nas curas.

O Dr. Berryer inclinou a cabeça na direção de Natale.

— Você pode até ficar curada depois que deixar Lourdes e voltar para casa. Já aconteceu assim. Não há regras, não há fórmulas, nunca se sabe como e quando a cura acontecerá... se é que acontece.

— Então pode acontecer depois de qualquer ato de profissão de fé — comentou Natale.

— Aparentemente — disse o Dr. Berryer. — Quando cheguei a Lourdes, fiz um estudo de todas as 64 curas de 1858 a 1878 reconhecidas como milagrosas pela Igreja. Talvez se interesse em saber, Srta. Rinaldi, que a segunda cura autenticada como milagrosa foi de um homem de 54 anos afligido como você, pelo menos parcialmente. Louis Bouriette, desta cidade, sofrera um ferimento no olho 20 anos antes e há dois anos se achava completamente cego do olho direito. Sua visão foi restaurada na gruta.

— A cura aconteceu mesmo? — indagou Natale, ansiosamente.

— Claro que aconteceu, desafiando todas as explicações médicas — afirmou o Dr. Berryer. — Todas as 64 curas milagrosas que estudei desafiavam a medicina... uma jovem com uma perna ulcerada e gangrena ampla, uma freira sofrendo de tuberculose pulmonar, uma mulher com câncer no colo do útero, um italiano com a doença de Hodgkins, um rapaz italiano com sarcoma na pelve, assim como acontecia com Edith Moore... todos considerados casos perdidos para os médicos, mas curados por causa do santuário e por meios milagrosos. É verdade que a maioria desses milagres ocorreu depois dos banhos. Mas a cura milagrosa autenticada de número 58, a de Alice Couteault, assim como a cura 59, de Marie Bigot, ocorreram durante Procissões do Abençoado Sacramento. Houve também casos, entre as primeiras 64 curas, depois de orações na gruta. Ainda estou estudando diversas curas que ocorreram desde então. Pelo menos uma dessas curas, ao que me recordo, aconteceu no meio de uma oração na gruta. Seria melhor que tentasse tudo o que estiver disponível, Srta. Rinaldi, não apenas rezando na gruta, mas bebendo as águas, visitando os banhos e até participando das procissões, se lhe for possível.

— Mas não pode deixar de tentar os banhos — insistiu Edith.

Do outro lado da mesa, a pálida mãe canadense, Sra. Farrell, falou pela primeira vez:

— Disse que ficou curada depois de um banho.

— Exatamente — confirmou Edith.

— Seria uma profunda revelação para nós, meu filho e eu, se contasse como o milagre aconteceu.

— Vamos, Edith, conte a essa gente como foi — exortou Reggie. — Tenho certeza de que todos estão interessados em saber.

Edith lançou-lhe um olhar furioso, depois virou-se para os outros,~assumindo uma transformação como se fosse uma atriz, presenteando-os com um sorriso cativante e ignorando a comida servida, enquanto se punha pacientemente a fazer o relato tantas vezes repetido. Enquanto os convidados permaneciam mesmerizados, somente o Dr. Berryer balançando constantemente a cabeça em confirmação, Edith falou do ataque gradativo da doença, os exames intermináveis em Londres, o veredicto final de que sofria de um sarcoma. E depois, quando toda a esperança parecia perdida, seu padre paroquial, Padre Woodcourt, sugerira uma visita a Lourdes com seu grupo de peregrinos. Escutando atentamente a história familiar, Reggie tentou avaliar a disposição da esposa pelo tom. Tão consciente ele estava de cada nuance no seu jeito de falar que sabia, embora os outros pudessem se iludir, que Edith se esforçava para manter o controle e aparentar calma. Por baixo, fervilhava uma lava de desprazer com ele que poderia irromper a qualquer momento. Enquanto fingia prestar toda atenção, Reggie deu uma espiada no bar, seus olhos se encontrando com os de Jamet. Reggie acenou com a cabeça, misteriosamente. Jamet, como se compreendendo, acenou com a cabeça em resposta, desaparecendo em seguida.

Reggie parecia absorver cada palavra que a esposa dizia, mas pelo canto dos olhos procurava por outra coisa. E depois Jamet reapareceu, conduzindo um clérigo na direção da mesa, mantendo-se por trás de Edith. O clérigo, alto e imponente, colarinho clerical e terno escuro, sentou-se sem fazer barulho numa cadeira que Jamet ajeitara por trás de Edith. Ele inclinou a cabeça, a fim de ouvir melhor o que Edith contava aos outros.

Os pratos eram servidos e tirados, enquanto a história de Edith progredia para a sua segunda visita a Lourdes, ao último dia dessa visita e ao banho final, quando emergira não mais inválida, totalmente curada e livre da muleta, capaz de andar perfeitamente sem qualquer ajuda.

Reggie observou e ficou satisfeito com a reação da audiência da primeira noite ao desempenho de estréia de Edith. O americano Talley grunhia de prazer, o rosto angelical da moça cega italiana refletia felicidade, a mãe canadense e o casal francês se mostravam deliciados com o milagre. O que se seguia no relato de Edith, Reggie sabia, era a confirmação da cura pelos muitos médicos no Serviço Médico de Lourdes, um anticlímax, mas também um adoçante mais saboroso do que os profiteroles que todos acabavam de comer.

Depois, tudo estava terminado, o jantar e o milagre de Edith. Os adultos se levantavam, agradecendo profusamente, todos inspirados e agradecidos. Ao partirem apressadamente para o domínio e a procissão noturna, todos levavam o otimismo revigorado de que também poderiam ser salvos no importante Momento da Reaparição. [...]


***

Terça-Feira, 16 de Agosto

— Natale, sou eu, Mikel... Mikel Hurtado. Preciso de sua ajuda. Abra a porta.

Quase que no mesmo instante, enquanto as vozes francesas à esquerda se projetavam pelo corredor, a porta foi aberta. Sem dizer mais nada, Hurtado entrou no quarto e fechou a porta, trancando-a por dentro. Virou-se e viu-a parada a poucos passos, usando apenas uma diáfana camisola branca, decotada e sem mangas. Não estava agora com os óculos escuros. Apenas os olhos vazios, que nada viam, voltados em sua direção.

— É você, Mikel?

— Sou eu... Ele largou a mala encostada na parede.

— Você parecia tão... como se estivesse metido em alguma encrenca. Está bem?

Ele adiantou-se, segurando-a pelo braço nu.

— Estou mesmo numa encrenca, Natale. A polícia local foi avisada de que há um terrorista à solta em Lourdes. Está revistando os hotéis, quarto por quarto. E se encontra agora aqui. Acaba de chegar a este andar. Se me encontrarem, um basco... podem me tomar como suspeito. Um engano. Mas eu ficaria numa encrenca. Tinha de encontrar algum lugar para me esconder. Há algum lugar em seu quarto no qual eu possa me esconder?

— Mikel — murmurou ela, desamparada — não sei o que realmente tem neste quarto. O que você vê?

Ele esquecera a cegueira da moça e agora usou os seus olhos. O quarto tinha quatro paredes que nada ofereciam. Um armário, como o do seu quarto, também pequeno.

— Talvez o banheiro — murmurou ele. — O chuveiro...

Natale sacudiu a cabeça. — Não. Quando eles chegarem, é o primeiro lugar em que vão olhar. — O rosto de Natale se iluminou de repente. — Já sei como pode se esconder. Faça o que eu mandar e depressa. Tire todas as roupas...

— Como? — Não tem importância, Mikel, pois não posso vê-lo. Dispa-se logo. A cama já está desfeita. Deite-se. Puxe as cobertas e finja que está dormindo. Ponha suas roupas numa cadeira...

— Eu trouxe minha mala.

— Ponha debaixo da cama.

Ele pegou a mala e empurrou-a para baixo da cama.

— As luzes estão acesas, Mikel?

— Estão, sim. O lustre.

— Apague.

Ele apagou a luz do teto.

— Ainda tem um abajur aceso no outro lado da cama.

— Deixe aceso. Está se despindo?

— Estou. Ele tirou o casaco esporte. Desabotoou a camisa, pendurou-a na cadeira mais próxima. Tirou os sapatos e desafivelou o cinto. Constrangido, tirou a calça e largou na cadeira. Só estava agora de cueca e meias. — Já estou despido.

— Pois deite-se agora. E cubra-se. Feche os olhos. Finja estar dormindo.

Ele foi para a cama e estava se acomodando quando a viu tateando pelo pé da cama e contornando-a para o outro lado. Ela sentou-se na cama.

— Vou me deitar com você. Somos casados. Quando a polícia bater na porta, eu levantarei e atenderei. Você continuará dormindo. Deixe o resto comigo.

Ela estava sob as cobertas, estendida a seu lado. Hurtado podia sentir a proximidade, imaginar-lhe o corpo. Teria sido erótico, excitante, se ele não estivesse tão tenso e preocupado para permitir que a mente fosse estimulada.

— Tenho um senso agudo de audição e sei que eles estão bem perto — sussurrou Natale. — Finja estar dormindo e não se mexa quando eles baterem na porta. Deixe tudo com Natale. Lembre-se que eu era atriz.

O suspense comprimia a garganta de Hurtado, quase sufocando-o. Mas ele ficou imóvel, como se estivesse dormindo, aguardando pela batida na porta. Talvez um ou dois minutos transcorreram em silêncio. E depois aconteceu. Três batidas bruscas na porta. E logo mais três batidas. Uma voz de homem, falando em francês:

— Tem alguém no quarto? Se tem, abra a porta. É a polícia.

Natale sentou-se na cama.

— Já vou. Eu estava dormindo...

— Abra logo a porta. É a polícia. Só queremos trocar algumas palavras com os hóspedes. Não precisa se preocupar.

— Já estou indo — disse Natale, saindo da cama. — Só um instante.

Hurtado manteve-se de olhos fechados, puxando as cobertas até o queixo. Ouviu Natale contornando a cama e se encaminhando para a porta. Ouviu a chave girando. Ouviu a porta do quarto se abrir devagar, uma réstia de luz do corredor se estendendo pelo pé da cama. Por um olho semicerrado, Hurtado teve um vislumbre da confrontação. Podia ver Natale, em sua camisola transparente, na porta parcialmente aberta, dois policiais se erguendo à sua frente, no corredor. Um deles, o mais velho, disse a Natale:

— Sou o Inspetor Fontaine, do Comissariat de Police de Lourdes. Lamento incomodá-la, madame, mas é necessário. Recebemos o aviso de que há um terrorista na cidade, provavelmente armado, e devemos tomar as providências cabíveis. Com a ajuda de colegas de Pau e Tarbes, estamos efetuando uma revista geral em Lourdes, em todos os hotéis.

Natale reagiu com pavor.

— Um terrorista?

— Não precisa se preocupar, madame. Temos muitos homens na busca. Não há nada a temer. Está sozinha no quarto? Ou há outras pessoas?

— Somente o meu pobre marido, tão exausto de uma longa viagem de avião para vir se encontrar comigo em Lourdes que já pegou no sono. Mas se é necessário, é claro que podem entrar e acordá-lo. Há muitos para revistar o quarto? Não posso dizer. Não posso... eu sou incapaz de... de... Ela deixou a voz definhar e sumir, desamparada.

Na cama, sob as cobertas, fingindo dormir, Hurtado contraiu os músculos, à espera do que poderia acontecer em seguida. Mas ele calculava, sem poder observar, que Natale conseguira de alguma forma indicar o seu estado. Ele ficou escutando. Aparentemente, Natale conseguira, pois ele ouviu uma segunda voz de homem, estridente, provavelmente do primeiro policial, dizer:

— Inspetor, creio que a moça é cega.

Natale confirmou, tristemente:

— Infelizmente, é verdade. Vim a Lourdes em busca de ajuda da Virgem. Mas isso não impede...

A voz do inspetor interrompeu-a:

— Não se preocupe, madame. Perdoe-nos. — Ele tentou ser jovial. — Tenho certeza de que não é o nosso terrorista.

— Nem meu marido — disse Natale, friamente.

— Nenhum dos dois, estou certo — disse o inspetor. — Lamento tê-la acordado. Mas estávamos apenas cumprindo o nosso dever. Pode voltar para a cama agora. Desculpe o incômodo. Vamos terminar de verificar o resto do andar. Boa noite, madame.

Hurtado ouviu-os se afastarem e abriu os olhos, enquanto Natale fechava e trancava a porta. Na semi-escuridão, observou-a contornar a cama outra vez e se meter por baixo das cobertas.

— O que achou? — perguntou ela, orgulhosa.

Ele se virou.

— Bravo, Natale. Você foi maravilhosa. — Uma pausa e Hurtado acrescentou: — Nunca assisti a um desempenho melhor. Ela estava sorrindo.

— Foi fácil. Nem precisei de muita encenação. Os outros sempre ficam embaraçados e contrafeitos na presença de uma pessoa cega. — Ela fez uma pausa. — Você mesmo?

— Se fico embaraçado e contrafeito? Claro que não.

— Não, não é isso... estava querendo saber se é você mesmo quem eles procuram. É algum terrorista, Mikel?

— Não sou exatamente o que a palavra insinua. Mas a polícia pode pensar que sim. Sou realmente...

— Não precisa me contar.

— ...um combatente pela liberdade da minha terra, a pátria basca, atualmente sob o domínio da Espanha. — Os olhos de Hurtado contemplavam o delicado rosto pálido, emoldurado pelos cabelos pretos lustrosos, sobre o travesseiro. — Tem medo de mim?

— Como posso ter medo de alguém que me salvou de um estuprador?

— Era natural querer protegê-la. Eu nunca permitiria que alguém lhe fizesse mal.

— Da mesma forma, eu nunca deixaria que alguém fizesse mal a você.

— Você é maravilhosa, Natale. — Ele soergueu-se, apoiado num cotovelo. — Quero agradecer mais uma vez.

Hurtado inclinou-se, a fim de dar-lhe um beijo no rosto. Mas, nesse instante, ela virou a cabeça e o beijo encontrou os lábios cheios e macios. Ele recuou bruscamente. Empurrando para o lado a sua parte das cobertas, sentou-se na cama.

— O que está fazendo, Mikel?

— É melhor eu me vestir e deixá-la sozinha. Tenho de partir.

— Mikel... — Ela estendeu a mão, encontrando-lhe o braço, segurando. — Não pode. Ainda é perigoso. Para onde iria?

— Ainda não sei, mas é melhor deixá-la.

— Não — disse ela, segurando seu braço mais firmemente. — Não precisa sair. Pode ser detido no corredor, no saguão, na cidade. Não permitirei que corra esse risco. Pode ficar aqui até de manhã e sair então, se for seguro. Se não for, poderá continuar comigo até que não haja mais qualquer perigo.

Hurtado hesitou.

— Bom...

— Por favor.

A mão dele cobriu a de Natale.

— Bom... talvez eu possa dormir no chão.

— Não diga bobagem. Pode ficar na cama comigo.

Por um instante, Hurtado ficou desconcertado com o convite e a franqueza. Não era o que acontecia com as mulheres que conhecera em sua terra.

— Tem a certeza de que pode confiar em mim?

Natale disse simplesmente:

— Tem a certeza de que quero confiar em você?

Ela retirou a mão de seu braço, pegou o seu lado das cobertas e empurrou-as para o lado. Sentou-se na cama e depois, no que parecia um único movimento, levantou a camisola, puxou-a por cima da cabeça e dos cabelos e deixou-a cair ao lado. Virou-se na direção de Hurtado, inteiramente nua, os seios pequenos mas cheios à mostra, a dobra na barriga lisa, as coxas generosas, apenas a parte superior dos cabelos púbicos visível.

Ele ficou atordoado, incapaz de se mexer.

— O que foi, Mikel? A minha cegueira o inibe?

— Oh, Deus, não...

— Porque não precisa. No amor, não tenho de ver. Sentir é suficiente.

Natale estendeu os braços. Ele tirou a cueca, ficou de joelhos e abraçou-a. Todo o seu corpo tremia quando se comprimiu contra ela. Natale sentiu-o.

— Você está tremendo, Mikel. Por quê? Por causa da polícia?

— Por sua causa — balbuciou Hurtado, apertando-a com força, sentindo os mamilos rígidos, consciente de seu desejo cada vez mais intenso.

A boca de Natale estava em seu ouvido, sussurrando:

— Não se preocupe com a virgindade. Eu... eu não sou exatamente uma virgem... houve episódios juvenis, mas foi tudo coisa de criança. Nunca fiz amor com um homem... um homem tão bonito...

— Eu... eu não sou nada... — ele balbuciou, a voz estrangulada.

As pontas dos dedos de Natale deslizavam por seu rosto.

— Para mim, você é lindo, o que eu quero.

A mão de Hurtado guiou a dela por suas próprias feições, continuou a guiar por seu pescoço e os cabelos do peito. Quando ele a largou, a mão de Natale continuou a descer, por sua própria iniciativa. […]


***

Sábado, 20 de Agosto

Aquela dinamite, os bastões já amarrados juntos, era nova. Com mãos experientes — já preparara pelo menos uma dúzia daqueles artefatos para destruir lugares em anos recentes — Hurtado desenrolou o fio verde, deixando uma extremidade perto do detonador e a bateria, fixados num bloco de madeira. Isso feito, começou a descer pela encosta, na direção da gruta, estendendo o fio. Desligou agora a lanterna, pois a claridade das velas de cera se projetava pela folhagem e delineava o nicho por cima da gruta e a imagem de mármore da Virgem Maria.

Por um instante, entre moitas, ele teve um vislumbre da área da gruta lá em baixo. Toda sua concentração estava no nicho, enquanto rastejava cada vez mais próximo, estendendo o fio verde. Quando o nicho estava a um braço de distância, ele se aproximou ainda mais, puxando o pacote com a dinamite para a frente e colocando-o lá dentro. Ajeitou-o gentilmente, a fim de que ficasse perfeitamente assentado e seguro por trás da estátua de mármore e fora de vista.

Satisfeito, virou-se, de joelhos, começou a voltar pelo mesmo caminho, tateando o fio enquanto subia. Em poucos minutos estava de volta, por trás da árvore grande, onde deixara o detonador e o relógio. Rapidamente ligou os fios aos terminais, tomando cuidado para evitar que fizessem contato. E depois armou o relógio. Calculara antes o momento para o contato automático. Precisava de tempo suficiente para escapar, mas não podia ser demais, o que aumentaria a possibilidade do artefato ser descoberto acidentalmente por alguém. Quinze minutos parecia o tempo exatamente certo. Cinco minutos para descer da encosta, quatro minutos para se afastar da gruta e subir a rampa, um minuto para alcançar o Ford (guardara a mala antes), cinco minutos para atravessar a cidade deserta e pegar a estrada para Pau.

A essa altura, a gruta estaria destruída e a Euskadi se ergueria das cinzas. E ele teria desaparecido de Lourdes, estaria escondido bem longe, protegido por seus compatriotas franceses. Quinze minutos, a partir daquele segundo. Ele concluíra a ligação. Não havia necessidade de enterrar ou camuflar o artefato. Seria explodido em pedacinhos incontáveis, juntamente com todo o resto.

Hurtado se levantou e iniciou no mesmo instante a descida precária. Apontando o facho da lanterna para o chão à sua frente, segurando-se nos troncos e nos galhos maiores, ele conseguiu manter o equilíbrio, escorregando apenas uma vez, permanecendo de pé e firme por toda a descida. Quando avistou a base da encosta, o terreno plano que levava à gruta e a contornava, ele apagou a lanterna. Podia se deslocar mais depressa agora, à medida que se aproximava o terreno plano. Parou junto da última folhagem protetora e esquadrinhou o que podia ver da área. Ainda não havia nenhum guarda à vista, absolutamente ninguém. Estava seguro.

Ele desceu para o terreno plano e imediatamente levantou o braço direito, consultando o relógio de pulso. A descida levara cinco minutos e dez segundos. Dez segundos perdidos, mas ainda estava dentro do horário previsto. Não havia mais um segundo sequer a desperdiçar.

Apressando-se, ele começou a passar pela gruta, na direção da rampa. Avançando entre os bancos e cadeiras virados para o altar no interior da gruta, Hurtado lançou um último olhar para o nicho e a imagem, a fim de verificar se os explosivos eram visíveis. Nada era visível, exceto a estátua estúpida... Nada. Perfeito. Mas quando seu olhar baixou... alguma coisa.

Sobressaltado, ele parou no meio de um passo, ficou imóvel. Com incredulidade, olhou para a entrada da gruta, por baixo do nicho, constatando que havia algo ali, alguém, um ser humano, um ser humano pequeno, a cabeça coberta por um xale, ajoelhado, de costas para ele, rezando. Ele já vira aquele vulto antes, o xale na cabeça e a postura, a semelhança ocorreu-lhe prontamente. Vira uma fotografia de Bernadette naquele traje e naquela postura rezando diante da gruta.

No primeiro ímpeto de incredulidade, Hurtado se preocupou com a sobrevivência, a autopreservação, o impulso de seguir adiante, afastar-se o mais depressa possível, ignorar aquela pessoa idiota perdida em sua oração. Mas lá em cima, na encosta, um relógio batia, implacavelmente, dentro de nove minutos ocorreria uma explosão gigantesca e uma pobre criatura humana seria morta. Ao mesmo tempo, um instinto mais forte prevaleceu. Hurtado não queria matar ninguém ali, muito menos uma pobre coitada devota. Numa questão de segundos poderia salvá-la... e ainda salvar a si mesmo. Só precisava alertá-la de que corria perigo, avisá-la para fugir, sair dali, depois continuar em seu caminho.

Ele virou-se para a gruta, correndo entre as cadeiras e bancos. Ao se aproximar da mulher ajoelhada, esqueceu inteiramente a cautela e gritou:

— Ei, você! Saia daqui! Tudo isto vai explodir!

Ele esperava que a mulher ajoelhada se virasse, assustada, reagisse ao aviso, se afastasse correndo da área em perigo. Mas ela não se mexeu, não fez qualquer movimento, permaneceu de joelhos, em súplica silenciosa, tão imóvel quanto a estátua de mármore por cima.

A ausência de reação era inacreditável para Hurtado, além de toda a compreensão. Ele correu mais depressa para a mulher. Quando se encontrava quase em cima dela, prestes a gritar de novo, estacou abruptamente. A moça estava agora de perfil e podia divisar seu rosto. Natale. Natale Rinaldi. A sua Natale.

Ele a deixara adormecida, mas ela não continuara a dormir até de manhã, como esperava. Vestira-se no escuro e encontrara o caminho contando os passos no escuro, chegara até ali para realizar a sua última vigília.

— Oh, Deus! — murmurou Hurtado. — Natale!

Não houve reação, não houve resposta, não houve um único movimento. Era como se ela não pudesse ouvi-lo. Hurtado podia vê-la claramente agora, os óculos escuros, o rosto pálido, apenas um movimento mínimo dos lábios. Ela estava em transe, fora deste mundo.

Ele estava em cima da moça, segurando-a pelos ombros, tentando levantá-la, arrancá-la dali. Mas ela não se mexeu. Parecia um peso morto, ancorado ao chão, irremovível.

Hurtado puxou e empurrou, tentando fazê-la levantar, tentando erguê-la. Mas era impossível deslocá-la um centímetro sequer. Com a respiração ofegante, ele parou de tentar. Era um fenômeno além da sua compreensão. Ficou parado por cima de Natale, contemplando-a, sem saber como fazer contato, por que meios removê-la, levá-la para a segurança. E depois, para seu espanto total, observou-a sacudir-se lentamente e se levantar.

— Natale! — gritou ele, segurando-a pelos braços.

Mas ela estava lhe sorrindo, levantando uma das mãos, removendo os óculos escuros. Pela primeira vez, seus olhos estavam largos e claros, luminosos, fixados em Hurtado.

— Mikel... você é Mikel... deve ser — disse ela, suavemente. — Mikel, eu vi a Virgem Maria. Ela veio a mim e falou, permitiu que eu a visse. E pude vê-la, assim como posso ver você agora. — Natale virou a cabeça. — E a gruta... pela primeira vez posso vê-la, posso ver outra vez o mundo inteiro. A Virgem Abençoada me devolveu a visão, Mikel. Posso ver!

Ele estava paralisado, aterrado, mal conseguindo compreender o milagre, sua maravilha. Finalmente, foi capaz de recuperar a voz e balbuciou:

— Você... você pode me ver?

— Posso, sim... você, tudo ao redor. É glorioso.

— Você... você viu a Virgem?

— Quando me ajoelhei para rezar, estava na escuridão, como sempre. Enquanto rezava, pude divisar um cone de claridade, uma luz. E depois pude ver a abertura, a própria gruta. Pude vê-la então, a mulher de branco, não maior do que eu, inclinando a cabeça, os braços estendidos, uma das mãos segurando uma rosa de haste comprida. Peguei o rosário e a Virgem permaneceu parada ali, sorrindo-me graciosamente. Era como Bernadette a vira, exceto pela rosa na mão. Um véu branco lhe cobria a cabeça, o vestido comprido era do branco mais puro, com uma faixa azul, uma rosa amarela em cada pé. E ela disse, suavemente: "Você verá de novo, por toda a duração de sua estada neste mundo, a cada maravilha de Deus." Houve mais, porém... Mikel, Mikel, foi maravilhoso! Eu amo você, o mundo inteiro, a vida, amo a nossa preciosa Massabielle...

Ela se aninhara nos braços abertos de Hurtado, abraçando-o. Mas a menção de Massabielle desencadeou-lhe a lembrança.

— Oh, Deus! — exclamou ele, soltando Natale e olhando para o relógio. Restavam menos de seis minutos. Ele pegou firmemente o braço da aturdida Natale e começou a afastá-la da gruta, bem depressa, puxando-a e arrastando-a.

— Corra! — insistiu ele, puxando-a pela base do morro, forçando-a a acompanhá-lo. Ele parou subitamente, afastando-a.

— O que foi, Mikel?

— Não importa. Explicarei depois. Apenas faça o que eu mandar, exatamente o que eu mandar. — Ele apontou para os banhos.

— Vá para lá, passando pelos banhos, o mais depressa que puder. Vá correndo, fique longe da gruta, o mais possível. Irei ao seu encontro dentro de cinco ou dez minutos. E agora vá!

Sem esperar para vê-la se afastar, ele se pôs a subir pela encosta, entre a folhagem, tão depressa quanto lhe permitia a superfície escorregadia. Cambaleava e caía, tornava a se levantar, tropeçava, sempre subindo, sem qualquer pausa. Estava agora se segurando nos galhos mais fortes, nos troncos das árvores, subindo sem parar. Caiu de novo, estatelou-se de frente, levantou-se, olhou para o relógio em seu pulso. Quatro minutos e meio já haviam transcorrido e ainda não chegara lá.

Num frenesi, Mikel recomeçou a subir. O tempo passava inexoravelmente e ele ainda não chegara. Por um momento sentiu-se perdido, não conseguiu encontrar seu ponto de referência, o carvalho enorme. E depois o viu, cambaleou até lá, caiu de joelhos à sua frente. Mais um olhar ao relógio. Restava menos de um minuto. Menos de meio minuto. E só restavam segundos, 24, 23, 22...

De joelhos, ele engatinhava desesperadamente em torno da árvore, procurando a depressão, o detonador e a bateria, o relógio ligado. Estendeu-se de cabeça para o artefato, segurando o fio, arrancando-o com toda a sua força. Não se desprendeu. Estava como um louco, puxando e puxando, até que o antebraço e o bíceps tremiam de dor, certo de que perdera, aguardando a explosão catastrófica, a erupção que traria a morte para Massabielle e para si mesmo. E subitamente o fio se desprendeu, o artefato estava desligado, não havia qualquer trovoada ressoando em seus ouvidos. No escuro, ele tentou verificar a hora em seu relógio de pulso. Restavam dois segundos.

O ponteiro avançou um segundo, dois segundos, depois um segundo além do que teria sido o momento do inferno. Hurtado ficou sentado com o fio solto nas mãos sujas, escutando o silêncio maravilhoso. Depois de algum tempo, quando recuperou o fôlego, Hurtado levantou-se, com alguma dificuldade. Havia trabalho a fazer e teria de realizá-lo. Ele se adiantou temerariamente, caindo várias vezes, sem se importar, finalmente rastejando até poder ver a estátua de mármore no nicho, por cima da gruta. Quando estava ao seu alcance, estendeu a mão e, por trás da base, encontrou o pacote volumoso com a dinamite. Com paciência e cautela, tirou a dinamite do nicho. Quando o explosivo se encontrava em sua mão, começou a voltar para o carvalho, deslocando-se agora com maior cuidado.

Chegando à árvore, abriu a sacola de compras e pôs o pacote com a dinamite lá dentro. Depois, uma a uma, pegou as diversas peças do equipamento e também guardou-as na sacola. Acabara de pôr o último pedaço de fio solto na sacola quando teve um sobressalto ao ouvir seu nome.

— Mikel.

Ele ouviu novamente e lá estava Natale, parada ao seu lado.

— O que está fazendo aqui, Natale? Eu lhe disse... você poderia ... ora, não importa...

— Eu queria saber para onde você estava indo. E o segui. Tive de engatinhar durante a maior parte do caminho. Pensei que me perdera, mas... aqui estamos.

Ele estava de pé agora, abraçando-a, beijando-a.

— Eu a amo, Natale... para sempre.

— Eu também o amo... para sempre e mais ainda.

Soltando-a, Hurtado passou um braço por sua cintura, a outra mão segurando a sacola. Ao começarem a descer pela encosta, ele sorriu para ela e disse:

— Então agora pode me ver. E como eu lhe pareço?

— Pecaminosamente feio. — Natale soltou uma risada. — Mas adoro os homens pecaminosos e feios. — Ela fez uma pausa, a expressão voltou a ficar séria quando acrescentou: — Mikel, você é lindo, não tão lindo quanto a Virgem Maria... mas é bastante lindo para um mero mortal.

Quando chegaram ao terreno plano, ele não se virou para a gruta e o domínio. Em vez disso, continuou a seguir direto em frente, na direção da ponte que atravessava o Gave de Pau e levava à campina se estendendo à frente, iluminada pelo luar.

Andando ao lado dele, Natale indagou:

— Para onde estamos indo, Mikel?

— Para o rio lá na frente — Ele levantou a sacola de compras. — Para que eu possa me livrar disto, uma parte do meu passado. — Sorriu para Natale enquanto continuavam e murmurou: — Pela primeira vez na vida, querida, eu também posso ver. [...]

FIM
 

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excerto de:
O MILAGRE
Irving Wallace, 1984
Editora Record - Brasil
título do original norte-americano: "The Miracle"

Fonte do texto: http://pt.scribd.com/doc/7075041/Irving-Wallace-1984-O-Milagre

 


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9.Mai.2011
Publicado por MJA