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 Sobre a Deficiência Visual


Dois Olhos, Duas Vidas

Jorge de Palma

St.ª Luzia - Convento de S. Francisco, Beja
St.ª Luzia - Convento de S. Francisco, Beja


I - Estes olhos

Ele havia chegado de manhã e durante todo o dia ficou sentado, chorando, à beira de um túmulo. Estava em total desânimo. Não teria mais que quinze anos.

As pessoas que entraram no cemitério naquele dia viram a mis en scène e o fato acabou chegando aos ouvidos do pároco da cidade. Assim, quando ia anoitecer o menino ainda estava lá e o padre resolveu ir conversar com ele. Talvez a sua presença pudesse consolá-lo e resolver seus problemas.

Do portão do cemitério via-se o menino de costas. O padre aproximou-se devagar e perguntou:

- Posso conversar com você? No início o menino pareceu surpreso, mas depois concordou.

- Sim padre, eu quero confessar e comungar, pois nesta noite eu morro.

- Ora, não diga isso - exclamou o padre, admirado - você ainda é jovem e tem muito o que viver. Conte-me os seus problemas.

- Eu vou contar, padre - e o menino pôs-se a falar - o senhor está vendo estes olhos? Estes olhos que me fazem ver toda poesia e beleza e toda a maldade da terra? Estes olhos que me guiaram até esta sepultura, que já fizeram parte de outro ser, estes olhos, eu sinto vontade de arrancá-los. Eu não sei se devo odiá-los, todavia eu tive um grande amor por uma parte destes olhos! O bom padre não entendeu o que o menino queria dizer. Contudo, abraçou-se a ele e ajudou-o a levantar-se. Depois, convidou-o:

- Vamos, vamos para a minha casa e lá você me contará toda essa história.

Um tanto contrariado, o menino que se chamava Ricardo, abençoou-se diante do túmulo, murmurou algumas palavras e seguiu junto ao padre.



II - Quando tudo era belo

Eu adorava a nossa fazenda. De manhã, bem cedo, quando tudo era silêncio lá nas goiabeiras e os pardais ainda estavam dormindo, eu me levantava e, depois de tomar café, ia para o estábulo buscar o Veloz. Era o meu cavalo mais estimado. Era marrom, bem clarinho e todas as manhãs ele percorria a fazenda levando-me em seu dorso. Assim eu passava as primeiras horas. Depois pegava meu estilingue e ia atirar pedras nos pardais.

Gostava das andorinhas. Dos pardais, não.

Papai me dissera que, quando ele era jovem, milhares de andorinhas viviam no velho engenho até que chegaram os pardais. Eles multiplicaram-se rapidamente e acabaram expulsando as andorinhas. Por isso eu não gostava deles e, quando estavam fazendo festa lá nas goiabeiras, eu lhe atirava pedras com o meu estilingue.

Gostoso também era trepar na jabuticabeira, chupar as frutinhas e depois mergulhar nas águas do ribeirão que passava quase embaixo da formosa árvore.

Todavia, não era só de divertimento que eu vivia.

Ajudava a tirar leite das vacas, tratar dos animais e, às vezes até ia cortar cana juntamente com outras pessoas da fazenda.

Quando a tarde caia, aprontava as lições da escola e meu pai me levava para o ginásio da cidade próxima.

Mais tarde, meu pai, ou o Juca, meu irmão, ia me buscar na cidade.

Geralmente, retirava livros da biblioteca e levava para ler sob a sombra de um maravilhoso pé de ipê amarelo.

Tudo era belo e calmo. O vento balançava as florzinhas amarelas e algumas caíam sobre o livro aberto em minhas mãos. Mas então, quando amava toda aquela natureza, que ela ameaçou desaparecer para sempre de minha vida. Foi então que caiu sobre mim a ameaça de ficar cego.



III - E eu conheci Estela

O pátio do hospital também era bonito. Tinha árvores e passarinhos. De certo modo compensava a manhã que tinha perdido de passar na fazenda. O que estava faltando ali era o meu estilingue. Se estivesse com ele, aqueles pardais não estariam fazendo aquela festa e todo aquele barulho. Mas também até que era bom vê-los cantando e voando de um lado para outro, pois o que seria dos doentes que estavam naqueles quartos se não pudessem escutar o gorjear dos pássaros? Foi então que me entristeci. O que poderia fazer se ficasse cego. Como iria atirar pedra nos pardais? Como iria cavalgar o Veloz? Era certo que os livros, o Juca poderia ler para mim, mas de que adiantaria isso se eu não pudesse mais ver e sentir a poesia da própria natureza? Aquele temor me assaltava. Para não ficar em pânico, desviei a atenção para as árvores e os pardais. Mas nem aquilo veria mais se a minha doença não fosse curada.

Justamente quando nada mais conseguia me entreter, surgiu no pátio, como por encanto, aquela maravilhosa menina de cabelos dourados e olhos azuis. Então o milagre aconteceu. Esqueci de minha doença e a imagem dela tomou conta de meus pensamentos.

Ela veio devagarzinho e arriscou com delicadeza:

- Bom dia

- Bom dia! - respondi admirado. Era a primeira vez que ia via Estela e então iniciava a nossa primeira conversa.

- Você mora aqui na Capital?

- Não - respondeu ela - moro no interior, mas como estou doente, meus pais me trouxeram para fazer uma consulta médica e você?

- Meu caso é o mesmo, mas espere aí, eu ainda não seu o seu nome - disse ao mesmo tempo perguntando.

- Estela - respondeu a menina e com um sorriso replicou:

- E o seu nome, eu posso saber? Mas é claro que ela poderia saber e a todas as perguntas que me fez, respondi com satisfação. O mesmo se deu com ela.

Estela falou-me de sua doença, mas eu desviei logo a conversa para um assunto mais alegre. Falei-lhe sobre a minha vida e sobre toda a beleza e poesia de nossa fazenda. Notava nos lidos olhos azuis a satisfação que ela sentia e percebi também que tudo o que eu lhe contava fazia surgir nela o desejo de conhecer a fazenda de meus pais.

Conversávamos animadamente quando meu pai apareceu. Notei que ele estava preocupado, contudo forçou um sorriso quando me viu. Tão logo ele se aproximou, apresentei-lhe Estela.

- Ah então você é a Estela - disse meu pai - eu já conheço seus pais. Eles me falaram de você enquanto estávamos na sala de espera do hospital. É um prazer conhecer a filha de tão distinto casal.

Papai continuou conversando conosco. Falamos de diversas coisas e então ele surpreendeu a mim e a Estela dizendo:

- Estela, você gostaria de passar uns dias em nossa fazenda?

- Oh sim! - respondeu Estela surpresa e feliz - mas não sei se meus pais deixarão.

- Certamente que deixarão - assegurou meu pai.

- Mas eu estou doente - replicou Estela.

Meu pai é determinado. Quando punha alguma coisa na cabeça, insistia e insistia mesmo! -Uns dias na fazenda vão lhe fazer bem. O ar do campo é bom para a saúde. Pode ficar sossegada que eu falarei com seus pais.

E falou mesmo!



IV - Quando tudo era mais belo

Três dias depois eu me encontrava embaixo do ipê amarelo. Agora já não lia mais poesia e sim passava o tempo compondo versos. Para todos a fazenda continuava bela, como sempre. Mas para mim estava meio apagada. Parecia que estava faltando algo...

Faltava alguém cuja beleza excedia a toda a beleza da fazenda.

Durante os três dias que passaram depois que voltei de São Paulo, todas as manhãs eu montava o Veloz e galopava com ele um bom trecho da estrada que conduzia à cidade. Ia sempre com a esperança de encontrar um carro, vindo para a fazenda, porém voltava desanimado.

Esses dias passaram-se tristes para mim. Já não me importava com os pardais. Meu estilingue jazia esquecido em um canto.

É estranho, como uma simples conversa com alguém pode mudar tanto a vida da gente! Assim, quando entrei em casa naquela tarde, estava mais desanimado como nunca.

Encontrei papai sorridente. Uma leve esperança apossou-se de mim. Então eu não sei se ele deu a notícia tão rapidamente ou se eu a ouvi antes dele dizer: -Estela telefonou dizendo que virá amanhã, -Eu, que já esperava alguma coisa assim, quase não acreditei. Aquilo era ótimo, era bom demais. E tudo transformou-se de repente. Eu estava novamente feliz.

No dia seguinte, horas antes dos pardais cantarem nas goiabeiras, eu já estava acordado. Para dizer a verdade, pouco dormira durante a noite e ainda assim sonhara com ela.

Por fim, o sol sorriu para tudo e quando isso se deu eu já estava junto ao Veloz. Pouco depois íamos pela estrada.

Tudo parecia mais belo e os pensamentos me saiam pela boca como se não coubessem dentro de mim: Vai, Veloz, vai galopando Vai, Veloz , cortando os campos Vai no seu dorso levando Uma alma cheia e encantos Vai, Veloz, vai galopando Que tem fim a primavera Mas o ipê ainda espera Conservando as suas flores Para ofertar para Estela Vai, Veloz, vai galopando Que a tristeza já tem fim E os campos estão belos E conservam-se assim Esperando por Estela Esperando por Estela".

Todos nós estávamos esperando. Parecia que até o Veloz estava feliz. Certamente a minha alegria o estava contagiando, ou não sei se era impressão minha, mas tudo era mais belo.

Então, ao longe, divisei uma poeira. Era a poeira levantada pelos pneus de um automóvel.



V - Dias Felizes

Estela chegou! Estela chegou! Eu via tudo gritando estas palavras. O vento, as árvores, as flores, os passarinhos. Tudo para mim gritava: Estela chegou! Como ela estava linda! E como eu estava feliz! Mais ainda fiquei ao saber que ela ia ficar três dias na fazenda. Aqueles foram os dias mais felizes de minha vida. Meu programas diário mudou completamente. Já não tinha hora para fazer nada e sim fazia tudo o que Estela queria. E ela nem era exigente.

Eu lhe mostrei o rio onde eu nadava, os versos que fiz enquanto esperava por sua vinda, o pê de ipê e tudo de belo que havia na fazenda.

- Ricardo - Você gosta mesmo de mim, ou você é poético assim com todo mundo! - Ela me fez esta pergunta depois que lhe entreguei uma rosa vermelha.

Segurei as mãos dela e respondi:

- Estela, você leu os versos que fiz depois de conhecê- la. Você não viu como eles demonstram a tristeza e ansiedade que passei depois que a conheci no hospital?

- Sim, Ricardo, eu também ansiei o momento de conhecer a sua fazenda, eu também estou feliz... eu também gosto de você...

E assim dizendo, ela deu um beijo na rosa e colocou-a sobre o peito, enfiando-a no bolso de sua blusa branca.

Era um contrate maravilhoso. Dai então conversávamos mais frequentemente. Falávamos de tudo e de todos.

No segundo dia em que estava na fazenda, fui esperá- la junto ao rio e fiquei atirando pedras nos pardais. Dali a poucos instantes ela chegou. Usava uma bluza azul e calças compridas. Estava linda, maravilhosa.

Ela aproximou-se de mim e tomou o meu estilingue, dizendo: -Ora, Ricardo, ontem você estava tão poético! Por que hoje você está atirando pedra nos passarinhos? -Não são em todos os passarinhos, que eu atiro pedras.

Eu só não gosto dos pardais.

- Mas porquê? - replicou ela - Eles também não têm uma vida como os outros? Eles também não tem filhotinhos para tratar? Acabei concordando com ela. Como não iria concordar? Está bem, Estela, vou aposentar o meu estilingue.

Mas a alegria durou pouco. Os três dias passaram rápidos demais. Como foi triste aquela partida! Foi então que comecei a pensar: Como os últimos acontecimentos havia modificado a minha vida! Todavia tudo fora tão fácil, tão espontâneo! Bastou uma conversa de meu pais com os pais dela para que eles deixassem ela vir passar uns dias numa fazenda de estranhos. Tudo bem que agora não éramos mais estranhos, mas e antes? Por fim, deixei de pensar nisso.

Contudo não sabia da estranha e triste verdade...



VI - Dias Negros

Nos primeiros dias depois que Estela partiu, caiu sobre a fazenda um vê de tristeza. Não me sentia bem em lugar algum. Nem as poesias me interessavam mais.

Não tinha mais inspiração. Como se não bastasse a tristeza pela ausência de Estela, veio o que eu mais temia! Vieram os dias mais negros de minha vida! Algum tempo depois que Estela foi embora, quando caminhava próximo do rio, tropecei e cai. Quando tentei me levantar, tive a maior surpresa de minha vida. Tudo estava escuro, negro como a mais negra das noites. Sentia dor nos olhos e na cabeça.

- Estou cego! Estou cego! - Eram as únicas palavras que conseguia articular.

Tentei andar, mas para onde?:

- Pai, mãe, me acudam. Estou cego...

Gritava desesperado, porém o tempo passou e, só depois de uma hora é que fui encontrado. Levaram-me imediatamente para São Paulo, no mesmo hospital onde eu havia visto Estela pela primeira vez.

No outro dia, bem cedo, estava ainda mais triste.

Ouvia apenas o cantar dos pássaros lá fora e, de vez ou outras, a conversa de alguém que passava pelo corredor do hospital. Que solidão. Ah se ao menos pudesse ouvir a voz de Estela... Súbito alguém entrou no quarto. Devia ser a enfermeira e ela anunciou:

- Visita para você, Ricardo.

Instantes depois, mais alguém entrou no quarto e, minha mãe, que estava junto de mim, falou:

- Advinha quem é, Ricardo.

- Não sei, não sei não - resmunguei baixo, como se a falta de visão tirasse também a minha voz.

Então ouvi aquela voz maravilhosa:

- Oi Ricardo.

Meu coração saltou no peito e antes de tomar conhecimento já estava sentado na cama. Era Estela! Era Estela! Só podia ser ela. Aquela voz meiga e calma eu a reconheceria no meio de mil.

Ah! Que falta me fazia a visão naquela hora! Eu não podia ver aqueles lindos olhos azuis e o seu sorriso maravilhoso.

- A sua visita me deixa muito feliz. Estou muito agradecido - falei.

Estela conversou comigo mais algum tempo, mas eu notei que a voz dela tinha um tom de fraqueza. Mas mudei logo de pensamento, pois devia ser impressão minha.

- Logo que ficamos sabendo, papai me trouxe para cá, para vê-lo - comentou.

Contudo parecia que estava sendo forçada a dizer aquelas palavras. Será que era porque ela estava triste e surpreendida com aquele acontecimento? Sim, deveria ser isso.

- Você vai ficar bom, Ricardo, vai voltar a ver as maravilhas de sua fazenda, vai voltar a ver...

Aí ela parou. Tive a impressão que desviou a atenção para outra coisa Voltei a ouvir novamente sua voz:

- Bem, Ricardo, eu tenho que ir - segurou minha mão e continuou: Tchau e felicidades...

E saiu, devagarinho do quarto.

- Tchau! - murmurei e minha mão ficou estendida na cama como que querendo alcançá-la.

Ouvi um soluço atrás de mim. Será que minha mãe estava chorando? Eu não compreendia aquilo... O que será que Estela não terminara de falar? Será que ela ia dizer que eu voltaria a vê-la novamente? Que eu voltaria a enxergar parecia ser certo, porque os médicos iriam fazer em mim um transplante de córneas, mas e Estela, será que voltaria a vê-la novamente? Continuei por muito tempo na escuridão. Até que um dia soube que os médicos havia encontrado as córneas que seriam transplantadas em mim e a cirurgia foi marcada imediatamente.



VII - A verdade

Passaram-se dez meses. Já me encontrava novamente na fazenda. Via tudo novamente, mas me faltava algo. Faltava o essencial, faltava Estela.

Os dias transcorriam sem novidade. Quando me atrevia a perguntar sobre Estela, meu pai respondeu:

- Naquele dia em que o visitou, ela ia mudar-se para Minas Gerais.

Criei coragem e insisti:

- Mas por que a família dela ia mudar para tão longe?

- Por que o pai dela é gerente de banco e ele foio transferido para Belo Horizonte.

Aquilo tinha lógica, mas eu não me conformava. Por que é que Estela não havia me falado nada? Como que adivinhando meus pensamentos, meu pai continuou:

- Estela não lhe falou nada porque você deveria passar pela cirurgia ela queria que você estivesse feliz e esperançoso.

Meu pai estava com um tom estranho na voz. Contudo eu concordei com ele. Estela me fizera um favor. Deixara-me preparado para vencer a batalha que eu teria que travar até deixar o mundo das trevas. E tudo teria acabado assim, se ninguém tivesse falado mais nada.

Todavia a verdade era completamente outra. Estela me deixaram muito mais que saudades e lembranças. Passava horas no meu quarto, escrevendo versos, exprimindo a minha dor. Foi quando a verdade veio à tona. Um dia, sai para dar uma volta na fazenda, mas já não sentia o prazer de outrora. Faltando Estela, faltava tudo. Regressei triste para casa, pensando. Quando tiver mais idade, vou procurá-la.

Quando entrei no meu quarto, vi minha mãe chorando com uns papeis nas mãos. Naqueles papéis estavam os meus versos mais tristes. Então, eu não me contive e falei sem parar: -Mãe, porque você está chorando? Por que você chorou também naquele dia em que Estela foi me visitar no hospital? Por que Estela parou de falar e foi embora? Eu preciso saber a verdade. Dei-me conta que estava gritando. Mamãe dava profundos soluços.

- Perdoe-me mãe, perdoe-me, eu não queria gritar com a senhora, mas eu sinto que alguma coisa está errada... Eu preciso saber a verdade.

- Ricardo - era meu pai e ele falou-me brandamente:

- Está bem Ricardo, você já não é mais criança, você já é um moço. Eu vou lhe contar tudo o que aconteceu.

E dos lábios de meu pais, de um rústico fazendeiro, saíram as palavras que jamais poderia imaginar:

- Ricardo, Estela é um anjo, Estela é um símbolo da pureza de coração, é um símbolo da bondade e do amor. Estela é a luz de sua vida. As córneas transplantadas nos seus olhos, são dos olhos de Estela. É triste, mas Estela está morta.

Não era possível! Não era possível que meu pai estivesse falando aquilo. E minhas mãos dirigiram-se para meu olhos. Eu iria arrancá-los se meu pai, adivinhando minhas intenções não me segurasse.

Derramando lágrimas, ele continuou:

- Deixe seus olhos em paz, Estela queria assim. Ela queria assim...

Aos poucos fui me acalmando e em meu cérebro surgiram as perguntas: Por que? Como? Papais olhou para minha mãe e deu-lhe um sinal.

- A carta? - peguntou ela.

- Sim, a carta - afirmou ele. Instantes depois minha mães voltava com um envelope que me entregou.

Angustiado eu o abri e comecei a ler.
 

"Ricardo,
Minha doença é fatal. Era por isso que ultimamente meus pais faziam tudo o que eu pedia. Foi por isso que eles me deixaram ir passear na fazenda. Logo depois que voltei, a doença piorou e fui internada no mesmo hospital em que nos conhecemos. No dia em que você chegou, duas pessoas entraram no meu quarto e, pensando que eu estivesse dormindo, comentaram: pobre menina, tão jovem e condenada a morrer assim.
Foi naquele momento que fiquei sabendo a verdade sobre a minha doença. Desesperada pedi a meus pais para chamá-lo. Assim eles foram obrigados a me contar que você estava no hospital. Disseram-me que você estava cego e esperando para fazer um transplante de córneas, mas estavam faltando o doador.
Insisti e consegui que eles me deixassem ir visitá-lo.
Quando entrei no seu quarto, a fraqueza estava me dominando. Conversei só um pouco com você porque a enfermeira me chamou e tive que ir-me. Ao voltar ao meu quarto, já havia me decidido. Iria me suicidar.
Escrevi esta carta para você e outra aos médicos do hospital para que, quando eu estivesse morta, meus olhos fossem transplantados em você. Compreenda Ricardo, que de todo modo eu iria morrer mesmo. Não queria ver meu corpo se deteriorando. Fazendo isso, eu deixaria mais do que uma lembrança para você. Algo de meu próprio corpo, algo meu, viveria sempre em você.
E continuaria vendo o mundo da forma maravilhosa que você vê.
Seja feliz, Ricardo. Adeus".


Terminei de ler a carta. Papai olhou para mim e concluiu:

- Sim Ricardo, Estela suicidou-se

- Onde ela está enterrada, pai?

- No cemitério de sua cidade.

- O senhor tem razão, pai, Estela é um anjo!



VIII - Vou dormir

Ricardo terminou sua narrativa e acrescentou:

- Então padre, hoje bem cedinho eu fugi e vim para este cemitério, para ficar junto ao túmulo de Estela. Meu desejo é morrer para ficar com ela.

O padre esforçou-se para ficar sereno.

- Ora, Ricardo, você não vai morrer não. O tempo apaga tudo, durma ali naquela cama e amanhã, quando você estiver bem, eu o levarei para a fazenda de seus pais.

Ricardo quase não ouvia a voz do padres. Sua atenção estava voltada para o passado.

- Na sua casa tem telefone? - A pergunta do padre fez com que ele voltasse à realidade.

- Tem sim, padre, porquê?

- Vou ligar para seus pais, para tranquilizá-los.

- Está bem padre, eu vou dormir. E foi dormir o jovem e tristonho poeta, pensando que um dia lá no céu, cantaria seus versos para um anjo.

FIM


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Dois Olhos, Duas Vidas
Jorge de Palma

O autor Jorge de Palma nasceu em Iracemápolis-SP, em 20 de dezembro de 1952. Trabalhou muitos anos como jornalista, atuando nos jornais Diário de Limeira, Diário de Pernambuco, Diário de Americana, O Liberal (Americana) e Tododia (Americana), entre outros. Reside em Americana-SP.

O autor escreveu esta estória quando tinha 17 anos.. A primeira edição foi publicada há mais de 30 anos.

 


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2.Jan.2015
Publicado por MJA