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 Sobre a Deficiência Visual


O Cego Tarvaa

-lenda mongol-

 

Conta-se que, há muitos anos, a peste negra se espalhou entre os mongóis matando centenas, se não milhares de pessoas. Os que ainda conservavam a saúde fugiram para salvar a própria vida deixando para trás os entes queridos doentes, confiando ao destino a decisão sobre o seu futuro.

Entre os que foram deixados para trás havia um rapazinho de quinze anos chamado Tarvaa.



Quando ele desmaiou, a alma deixou o corpo e dirigiu-se ao inferno. O Khan do inferno ficou estupefacto ao ver a alma e perguntou-lhe:

"Por que razão vieste para cá? O teu corpo ainda não morreu."

"Eles abandonaram-me porque pensaram que o meu corpo já estava morto,"  respondeu a alma, "E eu decidi não esperar mais, e vim."

A obediência e a paciência da alma agradaram ao Khan, que disse:

"A tua hora ainda não chegou. Tens de regressar ao teu corpo. Mas antes de ir, podes pedir um desejo."

O Khan conduziu a alma através do inferno e lá estavam todas as coisas que os seres humanos podem encontrar na vida: riqueza, fortuna e alegria, tristeza e dor, felicidade e prazer, canções e música, dança, histórias e lendas. A alma de Tarvaa olhou para tudo aquilo e, por fim, pediu para levar as histórias. O Khan deu-lhas e mandou-a de volta à Terra.

A alma regressou ao corpo, que não mostrava quaisquer sinais de vida. Um corvo tinha-lhe já picado os olhos. A alma ficou muito triste por ver o estado em que se encontrava o corpo em que tinha nascido, mas não se atreveu a desobedecer à ordem do Khan. E assim escorregou de volta ao corpo.
 


O Cego Tarvaa teve uma vida longa em que conheceu toda a magia e histórias do mundo. Apesar de cego era capaz de ver o futuro. Andou por toda a Mongólia, contou as suas histórias e com elas ensinou as pessoas.

Diz-se que é desde essa altura, que os mongóis contam histórias.

FIM

 

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The Legend of Blind Tarvaa
- lenda mongol -
texto original em inglês: Tale Tellerin
tradução: Maria José Alegre, 2014

 


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[11.Out.2014]
Publicado por MJA