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 Sobre a Deficiência Visual


Vozes do Deserto

Nélida Piñon

-excerto-

Cegos em Tânger - Lucien Levy-Dhurmer, 1901
Cegos em Tânger - Lucien Levy-Dhurmer, 1901

 

Sentado no chão, com as pernas cruzadas em posição de lótus, prescrita para a leitura do Corão, o ancião profere palavras aos passantes, atraindo-os para a sua sorte. Quase à beira da morte, ele é rijo, chama a atenção de Jasmine.

Ela não sabe o que dizer para atraí-lo. Teme que sua pele trigueira, os cabelos encaracolados, ofendam o homem com lembranças amargas. Seguindo as pautas do coração, ajoelha-se no chão, ao seu lado. Em rigoroso silêncio, dispõe de tempo para ouvi-lo.

O dervixe finge ignorar sua presença, mas, seguindo seu instinto apurado, demonstra conhecer a razão de sua visita. Não faz falta que o menino a seu serviço advirta-o sobre a jovem, para quem suas palavras iriam salgar e dar sabor à sua comida. O que poderia querer dele uma mulher sem liteira ou escravos, a caminhar sozinha pelo bazar?

Com gesto incisivo, insiste que ela lhe fale. Não lhe inflija um silêncio que é prerrogativa sua. Jasmine reconhece que vale capitular mediante a confissão de estar ali com o intuito de cobrar-lhe uma tarefa. Alterna mentiras e verdades até admitir, ao final, ter vindo à cata de peripécias. Carecia de ouvir aventuras que transportar para casa dentro do alforge, como pão fresco. Viera com a ilusão de escutar o que ele diria ao próprio Harum al-Rachid, caso este abássida ainda vivesse.

Jasmine elegera-o entre tantos pobres pela sua cegueira. Nota, de perto, a expressão de cupidez que invade o rosto do velho frente às suas promessas. Aquele homem ama o ouro que as histórias lhe podem trazer. A perda da inocência acrescentara-lhe certa perversão e realismo aos dotes de contador. Para aliciar-lhe, pois, o desejo, a escrava deixa tombar alguns dinares no vasilhame de latão.

O dervixe sobressalta-se ao ruído das moedas tilintando, ainda que não tivesse apurado os ouvidos a tempo de saber o valor da contribuição, quantos pratos de comida aquelas moedas lhe cobririam. Ele recolhe uma moeda e a acaricia com um gozo talvez devido à sua condição de cego. Uma cegueira que lhe viera como castigo. Há muito anos, no deserto, a caminho de Samarra, apostara que poderia afastar-se da caravana sem perigo de perder-se, retornando a ela graças ao talento de farejar o caminho de volta. Sem medir as consequências do acto imprevidente, afastou-se dando risadas. Em pouco tempo, perambulando pelas areias exposto longamente ao sol, gritava pedindo socorro. Sem rumo, com crescente dificuldade de enxergar em torno, não atinava como regressar à caravana. Ao ser recuperado muito depois por uma tribo nómada, tinha perdido a visão. Os olhos, queimados, pareciam uma cratera vazia. Quando o deixaram em Bagdad, onde nunca estivera antes, imergiu na mais profunda miséria.

Interrompeu a sequência dos factos para confessar a Jasmine que, ao descobrir-se cego, chorara, lamuriando-se. Além de ser um homem afundado na absoluta escuridão, era pobre, inculto, despojado do saber existente nos centros de estudos das urbes islâmicas.

No início, confrontado com aquela situação, pensara em matar-se. Imprecara, furioso, contra os homens, não poupando Maomé. Em total desespero, suplicou que o santo homem o dotasse de algum talento capaz de atá-lo de novo à vida. Pois, abandonado à própria sorte, um mendicante a mais entre tantos em Bagdad, custava-lhe entender o que havia por trás do castigo.

Aguardou a primeira semana para o Profeta responder-lhe. Certa manhã, ao despertar, faminto e sujo, aflorou-lhe um ânimo inusitado. De repente, surgiu de dentro dele um homem a quem Maomé, perdoando-lhe as ofensas, oferecia inesperados recursos. Como a capacidade de recuperar detalhes preciosos da realidade circundante, de traduzir enigmas antes insolúveis, de desvendar a natureza secreta dos homens e dos objectos, mesmo não os podendo enxergar, de contar histórias afastando da boca resumos tristes que, apenas iniciados, prontamente se esgotam. Enquanto uma voz dizia-lhe que escutasse sobretudo os uivos imperativos da imaginação. Daí lhe resultando a faculdade de falar por horas sem dar prova de cansaço.

Mas com que história agora cativar uma mulher que lhe pagara antes mesmo de estipular o valor do seu trabalho? Embora seu repertório se tivesse ampliado nos últimos anos, conhecia suas limitações. Frequentemente, devido à sua escassa familiaridade com a Medina, evitava situar seus personagens no califado, não se atrevia a descrever a configuração urbana de Bagdad, que só conhecia por meio de descrições. Em suas histórias, os personagens percorriam apenas as quatro vias básicas, que davam acesso à urbe, a parte leste conhecida como Rusafah, navegando, ainda, até o estuário do rio Tigre.

Ao pagar-lhe bom preço, Jasmine aguardava recompensa. Premido, portanto, por uma curiosidade feminina que lhe cobrava, além de uma história, detalhes anteriores à sua cegueira, o ancião declinou-lhe sua outrora condição de oleiro. Um artesão a reclamar das privações e da argila grudada à pele, custando a sair. Desde a adolescência havendo nele uma amargura que se reflectia na qualidade de seu trabalho. O que o fazia produzir potes, pratos, travessas quebrando-se a qualquer toque, a ponto de já nem conseguir vendê-los. A despeito, no entanto, de talento tão escasso, ele tinha a veleidade de riscar na superfície do barro, à guisa de expressão artística, traços da arte caligráfica, sempre com resultados finais nada tendo a ver com a arte islâmica da escritura.

Não lhe mencionara, porém, que, igual ao oleiro, seu ofício actual, de contador de histórias, obrigava-o a combinar palavras, a incrustá-las no barro da fantasia e levá-las ao forno. Em busca de figuras que, variando de peixe, cavalo, pedras preciosas a silhuetas femininas, ensejassem a criação de símbolos que, sem função aparente, representavam metáforas ou o aprimoramento de experiências místicas, como era o caso dos sufis.

A miséria do dervixe leva-o a deplorar em público o seu destino. Como se, esquecido das graças recebidas, houvesse perdido a fé no Profeta que operara em seu favor. Enquanto falava, quase não se mexia. Com movimentos limitados, no afã de explorar a emoção de Jasmine, passa seguidas vezes o dorso da mão nos olhos queimados pelo sol, atraindo atenção ao centro da sua dor. Reminiscências, porém, que pareciam molestá-lo.

Atenta às comiserações do dervixe, Jasmine controla a sede. Acompanha como cria um quotidiano ao qual ela deve associar-se se quer, de verdade, ouvir suas histórias. Aguarda, pois, que comece o relato. Mas logo diz-lhe que tem pressa, o marido a aguarda em casa. Homem desconfiado, que lhe cobra seguidas provas de fidelidade.

O dervixe, em cujos ouvidos ainda ecoa o ruído das peças de ouro caindo no vasilhame de latão, respira fundo, na expectativa de outras moedas lhe fartarem o estômago. Começa a contar, a voz soa-lhe aguda, não é o timbre desejado. Abranda o tom, o momento requer sussurro. Seu escopo é chegar ao fim e corresponder ao pagamento que Jasmine efectuara.

FIM

 

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Sobre a AUTORA:
Nélida Piñon, nascida no Rio de Janeiro em 1937, foi a primeira mulher a presidir à Academia Brasileira de Letras em 1996. A sua extensa produção literária, traduzida em diversas línguas, foi distinguida com numerosos galardões, entre os quais o Prémio Rosalía de Castro, o Prémio Jabuti e o Prémio Literário Casa de las Americas. Em 2005 recebeu o importante Prémio Príncipe de Astúrias das Letras pelo conjunto da sua obra, o primeiro escritor de língua portuguesa a consegui-lo.


Sobre a OBRA:
UMA FÁBULA SOBRE A FÁBULA por Dudu Oliva
Quando Deus criou a mulher, inventou a Fantasia. Um dia, a verdade visitou um grande palácio, onde morava um sultão. Vestida de um véu transparente bateu à porta do palácio para falar com o sultão. "Sou a Verdade! Quero falar ao vosso amo e senhor". O chefe dos guardas foi ao grão-vizir, disse que uma mulher quase nua queria falar com sultão. O grão-vizir não quis conversar com a Verdade: "A verdade quer penetrar nesse palácio! Não! Nunca! Que seria de mim, que seria de todos nós, se a verdade aqui entrasse? A perdição a desgraça nossa. Dize-lhe que uma mulher nua, despudorada, não entra aqui!...". O chefe do guardas disse para a Verdade que ela não podia entrar no palácio, "a tua nudez iria ofender o califa".
Quando deus criou a mulher, criou também a Obstinação. E a verdade persistiu na visita ao palácio. Cobriu as peregrinais formas de um couro grosseiro como os que usam os pastores, e foi novamente bater à porta do sumptuoso palácio em que vivia o glorioso senhor das terras muçulmanas. Bateu novamente à porta. O chefe dos guardas perguntou quem era. Sou a Acusação. Ele foi ao grão-vizir. "Senhor, uma mulher desconhecida, com corpo envolto em grosseiras peles, deseja falar ao nosso soberano. Chama-se acusação". O grão-vizir: "A Acusação! Que seria de mim, que seria de todos nós, se a Acusação aqui entrasse! A perdição, a desgraça nossa! Dize-lhe que não, não pode entrar! Dize-lhe que uma mulher, sob vestes grosseiras de um zagal, não pode falar ao nosso amo e senhor!". Depois, o chefe dos guardas disse para a Acusação que ela não podia entrar.
Quando deus criou a mulher, criou o Capricho. E a Verdade encheu-se do vivo desejo de visitar o grande palácio do sultão. Vestiu-se de riquíssimos trajes, cobriu-se com jóias e adornos, envolveu o rosto em um manto diáfano de seda e foi bater outra vez à porta do palácio. "Sou a fábula". O chefe dos guardas falou com o grão-vizir. "Uma linda e encantadora mulher, vestida como uma princesa, solicita a audiência de nosso amo e senhor. Chama-se Fábula!". O grão-vizir disse: "A fábula quer entrar neste palácio! Alá seja louvado! Que entre! Bendita seja a encantadora Fábula e que ela tenha, neste palácio, o acolhimento digno de uma verdadeira rainha!". E, abertas de par em par as portas do grande palácio de Bagdad, a formosa peregrina entrou. Foi assim, sob o aspecto de Fábula, que a verdade conseguiu aparecer ao poderoso califa de Bagdad, o sultão.

Nélida Piñon em Vozes do Deserto mostra os bastidores dos contos das Mil e uma noites, que são histórias fantásticas inventadas e preservadas na tradição oral. Revela a mulher que está por trás da visão mítica da famosa contadora de histórias da literatura oriental, Scherezade. Ela se comunica com o Califa com a sua habilidade de contar histórias. Almeja envolvê-lo em uma teia de palavras, para que não mate mais nenhuma esposa.
Scherezade tem como aliadas a irmã Dinazerde e a escrava Jasmine. Elas a ajudam no cotidiano do palácio e na elaboração das histórias. A personagem principal sempre se lembra da Fátima, uma antiga empregada que cuidava dela quando era pequena e que lhe ensinou a arte de fabular. De um lado está a força viril do Califa e o seu ódio por todas as mulheres, devido à esposa Sultana que o traiu com um outro homem, do outro está Scherezade com o dom da palavra. Ela faz o Califa se emocionar e se identificar com os personagens marginais, pobres e com as vozes dos povos nómadas que vivem no deserto. "Scherezade aprende a sobreviver. As regras da vida não estão escritas. Cabe-lhe inventá-las a cada aurora". No decorrer da narrativa, a intimidade e as angústias da contadora de histórias, de sua irmã Dinazerde e da escrava Jasmine são expostas. Amor, respeito e inveja misturam-se nas três personagens.
Sherezade quer ser livre como os personagens que inventa, não quer ser aprisionada. Como a Verdade da fábula possui a fantasia, a obstinação e o capricho. Aliás como o povo de Bagdad e os nómadas do deserto, que apesar das adversidades e capricho dos poderosos, continuam a fabular e a sonhar. Usam A PALAVRA para semear por gerações futuras os seus mitos, lendas e costumes.  in Portal Literal
 


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Vozes do Deserto [excerto]
Nélida Piñon
Editora Record
1.ª Edição, 2004


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[14.Nov.2011]
Publicado por MJA