Diálogo entre Mirco, que acaba de chegar à escola especial, e Felice. Mirco tenta explicar como são as cores a Felice, que já nasceu cego:
Mirco: Ouça... O que as crianças fazem por aqui?
Felice: Nada demais. Comemos, estudamos e dormimos... Quase me esqueci! Fazemos uma viagem uma vez por ano para visitar um santuário. Mirco... Você enxerga?
Mirco: Sim. E desde quando você é assim?
Felice: Desde que nasci. Como são as cores?
Mirco: São lindas.
Felice: Qual é a sua predileta?
Mirco: O azul.
Felice: Como é o azul?
Mirco: É como quando se anda de bicicleta e o vento te bate na cara. Ou também é como o mar. O marrom... Sinta isto. É como a casca desta árvore. Sente como é áspera?
Felice: Muito áspera! E o vermelho?
Mirco: O vermelho... É como o fogo. Como o céu no pôr-do-sol.
Emotivo e emocionante, como só o cinema italiano sabe fazer. Assim é
"Vermelho como o Céu", filme que conta a história real de Mirco (Luca Capriotti), um
garoto de dez anos que fica cego num acidente doméstico e é obrigado a
frequentar uma escola especial, longe dos pais e dos antigos colegas.
À primeira
vista – sem trocadilhos –, o tema da cegueira infantil poderia sugerir um filme
melodramático e choroso, mas esse, felizmente, não é o caminho seguido pelo
realizador Cristiano Bortone.
Pelo contrário, Bortone trata o tema com lirismo e extrai de seu jovem elenco
(quase todo formado por crianças realmente cegas) óptimos momentos de bom humor.
Como tudo é ambientado na Itália dos anos 70, o sub-tema que permeia a trama é o
autoritarismo, aqui travestido na figura do director da escola especial, um homem
amargo – ele próprio também cego – que não acredita na capacidade produtiva e
criativa do deficiente visual. Como se percebe, há várias formas de cegueira.
Numa segunda análise, "Vermelho Como o Céu" é um filme sobre transições. O
protagonista é obrigado a adaptar-se ao mundo da escuridão, ao mesmo tempo em
que cresce, em todos os sentidos, como pessoa. Enquanto isso, lá fora, a própria
Itália é compelida a mudar as leis sobre os estudantes deficientes, como o filme
explica no final. Também sem querer desvendar o final da trama, o destino
verídico deste menino, quando adulto, também é dos mais poéticos.
Além de
uma belíssima declaração de amor ao cinema, "Vermelho Como o Céu" resgata a
tradição humanista e passional de um tipo de cinema italiano que não tem medo de
chorar. Não por acaso, ele foi eleito o melhor filme pelo Júri Popular da 30.ª
Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Celso Sabadin
e blog
Homovisualis
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Festivais e Prémios:
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Academia de Cinema Italiana (David Di Donatello) - Vencedor do Prêmio David of
the Youth - Melhor Filme ♦
Ale Kino! - International Young Audience Film Festival - Melhor Filme
♦
Cinekid - Melhor Filme ♦
Durban International Film Festival - Melhor Filme ♦
Flaiano Film Festival - Prêmio do Público de Melhor Filme
♦
Flanders International Film Festival - Prêmio do Público de Melhor Filme
♦
Hamburg Film Festival - Melhor Filme ♦
Montréal International Children´s Film Festival - Melhor Filme
♦
Real to Reel Film and Video Festival - Melhor Filme ♦
Sydney Film Festival - Prêmio do Público de Melhor Filme
♦
Mostra Int´l de Cinema de São Paulo - Prêmio do Público de Melhor Filme
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